terça-feira, 31 de agosto de 2010

RELENDO AL BERTO (V)

CROMO

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

(Do livro Salsugem, 1984)

3 comentários:

  1. Celso Vegro31.8.10

    Prezado Prof. Claudio Daniel
    Apetece mesmo degustar o sabor das palavras do poeta português. Formidável.

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  2. São justamente suas palavras as que nos "atravessam". Seus poemas nos fazem olhar os olhos da morte e de tudo que desafia a vida.
    "Experimentar" um poema do Al Berto é se perder num imaginário que nos espanta, de tão real.

    Cláudio, suas escolhas são sempre de um timbre maiúsculo.

    Um abraço.

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  3. Katyuscia, grato pelo comentário!

    Beso,

    CD

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