quarta-feira, 1 de julho de 2015

CAETANO & GIL: GRANDES ARTISTAS, PÉSSIMOS SERES HUMANOS











SOBRE A QUESTÃO DO SHOW DE CAETANO E GIL EM ISRAEL: algumas pessoas acreditam que eles têm o direito de se apresentar lá, e que qualquer crítica a essa apresentação seria "patrulha ideológica". O que estas pessoas pensariam se Caetano e Gil se apresentassem na Africa do Sul, na época do apartheid, ou na Alemanha Nazista, na década de 1930? "São situações diferentes", dirão alguns. Será mesmo? Na Alemanha Nazista, o critério de cidadania era racial: apenas "arianos puros" eram cidadãos plenos. Em Israel, é exatamente assim: apenas judeus étnicos, filhos de mãe judia, têm direito à cidadania plena. Os chamados "árabes israelenses", que descendem dos habitantes originários da região, não têm os mesmos direitos sociais, políticos e trabalhistas que os judeus -- aliás, imigrantes EUROPEUS, caucasianos, que nada têm com a região além de remoto vínculo religioso (em 1920, apenas 5% dos habitantes da Palestina eram judeus, contra 95% de palestinos cristãos e muçulmanos). Israel é um "estado étnico", assim como foi a Alemanha Nazista. Assim como Hitler buscava o "espaço vital" (lebensraum), ocupando territórios na Europa para colonização, Israel, após tomar as terras dos palestinos, ocupou vastas regiões da Síria, Líbano, Egito, Jordânia. Israel é o único país do mundo que não tem fronteiras definidas, para garantir o sonho (pesadelo?) da "Grande Israel" (Eretz Israel), que ocuparia extensões do Nilo ao Eufrates. Hitler confinou os judeus em guetos; Israel confinou os palestinos em bantustões em Gaza e Cisjordânia, que são imensas prisões a céu aberto, cercados por muros e forte presença militar. Para criar o estado artificial de Israel, 750 mil palestinos foram expulsos de suas terras e impedidos de voltarem a suas casas e terras (hoje, são cinco milhões de palestinos vivendo no exílio). Hitler matou milhões de judeus nas câmaras de gás. Israel mata palestinos e libaneses com armas proibidas pela legislação internacional, como bombas de fragmentação e de fósforo branco, além de apoiar, com armas e dinheiro, o Estado Islâmico, que promove a destruição do Iraque e da Síria, onde mais de cem mil pessoas morreram nessa guerra sionista. Qualquer palestino pode ser preso sem acusação prévia nem direito a advogado de defesa por tempo indeterminado, inclusive mulheres e crianças menores de dez anos de idade, submetidas a torturas físicas e psicológicas. Famílias acusadas de cumplicidade com a resistência -- com ou sem provas -- têm as suas casas demolidas e suas propriedades roubadas. Israel é um estado fora-da-lei e fazer vistas grossas a isso não é ignorância, nem ingenuidade de Caetano e Gil: é indiferença ao sofrimento do povo palestino e eles merecem, sim, ser condenados moralmente por seus atos.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

RETRATO
















Mulher branca beija mulher negra,
desnuda seus mamilos;
percorre luas
vermelho-flamboyant
vermelho-tiês
vermelho-eritrino
vermelho-flamingo.
Mínimas mãos
acariciam intermitentes
centaura cabeleira
espraiada nas espáduas.
Arroxeados lábios
palmilham cada cavidade,
fenda, fresta, frincha
indistintas estrelas
ferruginosas, deusa
mergulhada em deusa,
ambas melusinas, duplicidade
de pequenas, delicadas luas
até o reluzir das alamandas.

Claudio Daniel, 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

SETE HAICAIS DE “EROS MÍNIMO”, DE CASIMIRO DE BRITO
















12

Deito-me a teu lado:
somos um só animal
nu, enamorado.


20

A concha obscura
não é um lugar vazio –
tantas estrelas!


24

Deixa que te beije
o umbigo – e assim começar
a volta ao mundo.


27

Beber uma só gota.
Dar-te a beber uma só.
O mundo na boca.


30

Nesse momento
já não sou homem, apenas
águas vivas, subindo.


37

Sei tanto dela
como ela de mim. Entramos,
cegos, um no outro.


53

Eis que regresso
ao lírio roxo, ao túmulo
do meu nascimento.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

SETE POEMAS DE FEDERICO GARCIA LORCA





  










VOLTA DE PASSEIO

Assassinado pelo céu,
entre as formas que vão até a serpente
e as formas que buscam o cristal,
deixarei crescer meus cabelos.

Com a árvore de cotos que não canta
e o menino com o branco rosto de ovo.

Com os animaizinhos de cabeça rota
e a água esfarrapada dos pés secos.

Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e borboleta afogada no tinteiro.

Tropeçando com meu rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu!


1910

Intermédio

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos
nem a feira de cinza de quem chora pela madrugada
nem o coração que treme encurralado como um cavalo-marinho.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a parede branca onde mijavam as meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço da égua,
no seio trespassado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados do amor com gemidos e frescas mãos,
em um jardim onde os gatos comiam as rãs.

Desvão onde a velha poeira congrega estátuas e musgos.
Caixas que guardam silêncios de caranguejos devorados.
No lugar onde o sonho tropeçava com sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Eu vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo ar sem ninguém
e nos meus olhos criaturas vestidas. Sem nudez!

FÁBULA E RODA DOS TRÊS AMIGOS

Henrique,
Emílio,
Lorenzo.
Estavam os três gelados:
Henrique pelo mundo das camas;
Emilio pelo mundo dos olhos e das feridas das mãos,
Lorenzo pelo mundo das universidades sem telhados.

Lorenzo,
Emilio,
Henrique.
Estavam os três queimados:
Lorenzo pelo mundo das folhas e das bolas de bilhar;
Emílio pelo mundo do sangue e dos alfinetes brancos;
Henrique pelo mundo dos mortos e dos jornais abandonados.

Lorenzo,
Emílio,
Henrique.
Estavam os três enterrados:
Lorenzo em um seio de Flora;
Emílio na hirta genebra que se esquece no copo;
Henrique na formiga, no mar e nos olhos vazios dos pássaros.

Lorenzo,
Emílio,
Henrique,
foram os três em minhas mãos
três montanhas chinesas,
três sombras de cavalo,
três paisagens de neve e uma cabana de açucenas
pelos pombais onde a lua pousa plana sob o galo.

Um
e um
e um.
Estavam os três mumificados,
com as moscas do inverno,
com os tinteiros que o cão urina e o vilão despreza,
com a brisa que gela o coração de todas as mães,
pelas brancas quedas de Júpiter onde os bêbados merendam a morte.

Três
e dois
e um.
Eu os vi perdidos chorando e cantando
por um ovo de galinha,
pela noite que mostrava seu esqueleto de tabaco,
por minha dor cheia de rostos e pungentes lascas da lua,
por minha alegria de rodas dentadas e látegos,
por meu peito turvado pelas pombas,
por minha morte deserta com um só passeador equivocado.

Eu havia matado a quinta lua
e bebiam água pelas fontes os leques e os aplausos,
Leite morno encerrado das recém-paridas
agitava as rosas com uma larga dor branca.

Henrique,
Emílio,
Lorenzo.
Diana é dura
mas às vezes tem as tetas nubladas.
Pode a pedra branca pulsar com o sangue do cervo
e o cervo pode sonhar pelos olhos de um cavalo.

Quando se fundiram as formas puras
sob o cri-cri das margaridas,
compreendi que haviam me assassinado.
Percorreram os cafés e os cemitérios e as igrejas,
abriram os tonéis e os armários,
destroçaram três esqueletos para arrancar seus dentes de ouro.
Já não me encontraram.
Não me encontraram?
Não. Não me encontraram.
Porém se soube que a sexta lua fugiu torrente acima,
e que o mar recordou de imediato
os nomes de todos os seus afogados.
  
POEMA DUPLO DO LAGO EDEN

Nuestro ganado pace, el viento espira

Garcilaso

Era minha voz antiga
ignorante dos densos sumos amargos.
Eu a adivinho lambendo meus pés
sob as frágeis folhas molhadas.
Ai, voz antiga de meu amor,
ai, voz de minha verdade,
ai, voz de meu flanco aberto,
quando todas as rosas manavam de minha língua
e a céspede não conhecia a impassível dentadura do cavalo!
Está aqui bebendo meu sangue,
bebendo meu humor de menino pesado,
enquanto meus olhos se quebram no vento
com o alumínio e as vozes dos bêbados.
Deixai-me passar pela porta
onde Eva come formigas
e Adão fecunda peixes deslumbrados.
Deixai-me passar, homenzinhos de cornos,
ao bosque do espreguiçar
e dos alegríssimos saltos.
Eu sei o uso mais secreto
que tem um velho alfinete oxidado
e sei do horror de uns olhos despertos
sobre a superfície concreta do prato.
Porém não quero mundo nem sonho, voz divina,
quero minha liberdade, meu amor humano
no canto mais escuro da brisa que ninguém deseje.
Meu amor humano!
Esses cães marinhos se perseguem
e o vento espreita troncos descuidados.
Oh, voz antiga, queima com tua língua
esta voz de folha de Flandres e de talco!
Quero chorar porque tenho vontade
como choram os meninos do último banco,
porque eu não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha,
mas um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado.
Quero chorar dizendo meu nome,
rosa, menino e abeto à margem deste lago,
para dizer minha verdade de homem de sangue
matando em mim a burla e a sugestão do vocábulo.
Não, não, eu não pergunto, eu desejo,
minha voz libertada que me lambe as mãos.
No labirinto de biombos é minha nudez quem recebe
a lua de castigo e o relógio coberto de cinzas.
Assim eu dizia.
Assim eu dizia quando Saturno deteve os trens
e a bruma e o Sonho e a Morte estavam me buscando.
Estavam me buscando
ali onde mugem as vacas que têm patinhas de pajem
e ali onde flutua meu corpo entre os equilíbrios contrários.


CÉU VIVO

Eu não poderei queixar-me
se não encontrei o que buscava.
Próximo das pedras sem sumo e dos insetos vazios
não verei o duelo do sol com as criaturas em carne viva.

Porém eu irei à primeira paisagem
de choques, líquidos e rumores
que tresanda a menino recém-nascido
e onde toda superfície é evitada,
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar mesclado com o amor e as areias.

Ali não chega a geada dos olhos apagados
nem o mugido da árvore assasinada pela lagarta.
Ali todas as formas guardam entrelaçadas
uma só expressão frenética de avanço.

Não podes avançar pelos enxames de corolas
porque o ar dissolve teus dentes de açúcar,
nem podes acariciar a fugaz folha do feto
sem sentir o assombro definitivo do marfim.

Ali sob as raízes e na medula do ar,
comprende-se a verdade das coisas equivocadas.
O nadador de níquel que espreita a onda mais fina
e o rebanho de vacas noturnas com patinhas vermelhas de mulher.

Eu não poderes queixar-me
se não encontrei o que buscava;
porém irei à primeira paisagem de umidades e pulsações
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar mesclado com o amor e as areias.

Vôo fresco de sempre sobre leitos vazios,
sobre grupos de brisas e barcos encalhados.
Tropeço vacilante pela dura eternidade fixa
e amor ao fim sim alvorecer. Amor, Amor visível!

Eden Mills, Vermont. 24 de agosto de 1929.

PAISAGEM COM DUAS TUMBAS E UM CÃO ASSÍRIO

Amigo,
levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio
As três ninfas do câncer estiveram dançando,
meu filho.
Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
e uns lençóis duros onde o câncer estava dormindo.
O cavalo tinha um olho no pescoço
e a lua estava num céu tão frio
que teve de rasgar seu monte de Vênus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.

Amigo,
desperta, que os montes ainda não respiram
e as ervas de meu coração encontram-se em outro lugar.
Não importa que estejas cheio de água do mar.
Eu amei por muito tempo um garoto
que tinha uma plúmula na língua
e vivemos cem anos dentro de uma navalha.
Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua roxa que deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vêm até a rocha. Não alargues tuas raízes!
Aproxima-se. Geme. Não soluces em sonho, amigo.

Amigo!
Levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio.


VALSA NOS RAMOS

Homenagem a Vicente Aleixandre por seu poema
O vale

Caiu uma folha
e duas
e três.
Um peixe nadava pela lua.
A água dorme uma hora
e o mar branco dorme cem.
A dama
estava morta no ramo.
A monja
cantava dentro da toronja.
A menina
ia do pinho à pinha.
E o pinho
buscava a pequena pluma do trinado.
Porém, o rouxinol
chorava suas feridas ao redor.
E eu também
porque caiu uma folha
e duas
e três.
E uma cabeça de cristal
e um violino de papel
e a neve apodrecia com o mundo
se a neve dormisse um mês,
e os ramos lutavam com o mundo
um a um
dos a dois
e três a três.
Oh duro marfim de carnes invisíveis!
Oh golfo sem formigas do amanhecer!
Com o muuu dos ramos,
com o ai das damas,
com o croo das rãs,
e o gloo amarelo do mel.
Chegará um torso de sombra
coroado de laurel.
Será o céu para o vento
duro como uma parede
e os ramos desgalhados
irão dançando com ele.
Um a um
ao redor da lua,
dois a dois
ao redor do sol,
e três a três
para que os marfins durmam bem.

Traduções: Claudio Daniel

(Poemas do livro Poeta en Nueva York)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

ALGUNS HAIKUS

















sombra de árvore:
conto apenas a você
o que disse o vento


* * *

primeiro dia do ano:
corpos sem nome
nas águas do rio


* * *

pequenas misérias de maio:
onde eu estou
é qualquer parte


* * *

moça no metrô
borboleta de verão
tatuada nas tetas


* * *

jovem cega:
batom vermelho
no vagão do metrô


* * *

após a chuva de inverno
a menina rega
o ipê amarelo


* * *

morador de rua
usa o sol como abajur
viaduto de verão


* * *

árvore inclinada
diz bom dia ao sol,
ele finge que não vê


* * *

o tempo? viagem
do pó ao pó — os pés,
os paus e pedras

Claudio Daniel

terça-feira, 9 de junho de 2015

RETRATO DO ARTISTA



















UMA POÉTICA ENTRE O SILÊNCIO E O RUÍDO

Duda Machado realiza uma arquitetura poética concentrada, com economia sintática, densidade semântica, discurso fraturado, elíptico, espacialização de palavras e linhas. Sua pesquisa formal deriva da leitura intensa de João Cabral de Melo Neto e da Poesia Concreta, mas também da ressonância do Tropicalismo e da contracultura, elementos presentes em outros poetas de sua geração, como Antonio Risério e Waly Salomão. Como letrista de música popular, Duda Machado assina canções como Hotel das estrelas, musicada por Jards Macalé e gravada por Gal Costa no disco A todo vapor. Seu livro de estreia, Zil, publicado em 1977, reúne poemas visuais brutalistas, com clara influência do grafitti, como Paint back, composições breves, irônicas e bem-humoradas (“Inferno: os anjos ouvem / a décima sinfonia de Beethoven”), peças permutatórias, construídas pela repetição das mesmas palavras, em ordem e combinação diferentes (“habitar os abismos / manter a face / voltada para o sol // habitar / manter os abismos / voltados para o sol // os abismos / a face / o sol: / gozo louco”) e inventivos poemas em prosa, como Ária (“lambança, aboio, maracatu, papoamarelo, caroá, xerém, gado preto sobre o campo branco, esplendor de estandartes”).

O desenho minimalista terá continuidade em seu  segundo livro de poemas, Um outro, reunido, juntamente com Zil, no volume Crescente, publicado em 1990. A nova coletânea radicaliza o esforço de concisão, só comparável ao desenvolvido por Carlos Ávila, Ronald Polito e Júlio Castañon Guimarães, e o leque temático se amplia, dialogando de modo mais enfático com a vida e o mundo, como nestas linhas de Visão do avesso: “neon insone / esquinas frigorífico // na madrugada / drogada / céu e asfalto / se ombreiam / exaustos // a um canto / travesti e pivete / apressam um trato // : déja vu / restos / pano rápido”. Em Hora do rush, peça composta de apenas oito palavras, encontramos este pequeno retrato urbano, de um expressionismo ácido: “moinhos / de braços / inimigos / ao vento / s’entre / ferindo”. Em outra peça, Sortilégio, Duda Machado faz um delicado retrato do cotidiano, dialogando com a passante de Baudelaire: “moça / sob a chuva / anda / olha / como quem / abre cortinas // a chuva lhe cai em cima / ou se limita / a segui-la?”. O lirismo não está ausente, mas é redimensionado em estruturas poéticas calculadas que valorizam o som e o silêncio, a figura e o vazio: pensamento, sonoridade e visualidade formam uma unidade estética, na qual a voz lírica e o referente externo são elementos da ficção encenada que é o próprio poema.


Margem de uma onda, publicado em 1997, inaugura nova fase na escrita de Duda Machado: o poeta reconstrói a sintaxe, em versos mais longos, sem cair na mera discursividade. As figuras metonímicas, cortes bruscos, variações de ritmo e palavras inesperadas vivificam a fala, compondo quadros expressivos da cena urbana, como na peça Urubu-abaixo: “overdose de dezenas / de dúzias / desovam / desossam / desencarnam / subterrâneos jardins de infância / de quem mais carniça que criança / abocabraba / saliva rala / tudo que os exprime / reinventa o crime / etês / erês / num bafo de forra / vão mamando cola”. O realismo crítico, em outras peças, aproxima-se, pela paródia, da linguagem jornalística, como acontece em Fim de semana: “Já entraram no barraco fuzilando. / No balão de oito metros de largura / o nome dele estava escrito / com lanternas na rabeira. / Deixaram um corpo amarrado no poste / pra todo mundo ver. / A maior parte / é no fim de semana”. Adivinhação da leveza, livro mais recente do autor, publicado em 2014, mantém a discursividade linear, com temas reflexivos, intimistas e a reinvenção do cotidiano, como no minipoema Jornada: “Sarcasmos do sol, / a pausa e, depois, / o céu inflige / o seu recorde / de cicatrizes”. 

(Artigo publicado na edição de junho da revista CULT)

quinta-feira, 4 de junho de 2015

RETRATO DO ARTISTA




UM LANCE DE BÚZIOS: A POESIA DE ANTONIO RISÉRIO

Antonio Risério pertence a uma geração de poetas brasileiros que, na década de 1970, assimilou o rigor formal da Poesia Concreta, a releitura crítica da realidade brasileira pelo Tropicalismo, as linguagens da publicidade, das histórias em quadrinhos, da música popular, a inquietação da contracultura. Poetas como Risério, Duda Machado, Waly Salomão, Paulo Leminski, Alice Ruiz e Régis Bonvicino publicaram poemas em revistas de vanguarda editadas nesse período, como Código, Raposa, Muda, Qorpo Estranho, e editaram seus primeiros livros por conta própria, com pequenas tiragens. Ao contrário de seus companheiros de geração, Risério reuniu sua poesia em livro vinte anos depois, com Fetiche, publicado em 1996 pela Fundação Casa de Jorge Amado. Nesse volume, o poeta baiano incluiu poemas visuais elaborados com recursos do computador, como “o peixe é sempre o último a saber da água”, e outras composições visuais, mais antigas, criadas a partir da colagem e montagem de fotos, desenhos e textos em várias tipologias de letraset, como é o caso do poema “risos estalam sisos / rios mudam a plumagem / quando renasce das cinzas / o kamikaze da linguagem”. A influência da Poesia Concreta é evidente, mas não exclusiva: podemos reconhecer, no humor, ironia, escatologia e em certo brutalismo desses poemas visuais um parentesco com o dadaísmo, assim como acontece na poesia visual de Glauco Mattoso e Sebastião Nunes.

O ready made, técnica recorrente na poesia e nas artes visuais dadaístas, comparece em várias peças de Risério, como no poema que reproduz um retrato de Fernando Pessoa, recortado e ampliado numa sequência de páginas em que o rosto do poeta português desaparece progressivamente até permanecer apenas um detalhe do bigode, invertido, sugerindo o formato da vagina. Em Guerra nas estrelas, o poeta baiano cria outro ready made, estampando na página um desenho de Flash Gordon, trocando o texto original dos “balões” de diálogo dos personagens da história em quadrinhos por frases de sentido metalinguístico (“se tenho uma estrela para trocar por um estilo novo / tenho um estilo para queimar por um sentido novo”).  Os textos poéticos de Festim exploram com felicidade a musicalidade das palavras, mesclando aliterações, assonâncias, neologismos e termos de origem indígena, iorubá e japonesa, como na série de poemas breves Abayté ya (“alokorô alakorô / oh oxotokanxoxô”) e na Arte poética: “na serra da desordem / no piracambu tapiri / em cada igarapé do pindaré / em cada igarapé do gurupi / existe uma palavra / uma palavra nova para mim”. Em Brasibraseiro, livro escrito a quatro mãos com Frederico Barbosa e publicado em 2004, há uma estratégia de revisitação da cultura brasileira em sua multiplicidade étnica, linguística, religiosa, estética, tendo como perspectiva utópica um novo projeto civilizacional (“para que seja / exterminado / o jugo / para não haver ignorância / tendo porto aberto / a liberdade popular”).

O livro recupera episódios da história brasileira, como a escravidão e a catequese, inclusive parodiando o discurso quinhentista, e chega até a época contemporânea, como no belíssimo poema Strassenkinder, que retrata o cenário de exclusão dos meninos de rua (“crianças de poucos pentelhos / de rubras roupas rasgadas”). É preciso destacar também os pioneiros estudos de etnopoesia realizados por Risério em livros como Textos e tribos e Oriki orixá, este último acompanhado por criativas traduções de poemas rituais da tradição oral nagô-iorubá que celebram os orixás do candomblé, como este belo oriki, pleno de sutilezas sonoras: “Xangô oluaxô fera faiscante olho de orobô / Bochecha de obi. / Fogo pela boca, dono de Kossô”.

(Artigo publicado na edição de maio da revista CULT)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

OUTRO POEMA DA PASTA DE ESBOÇOS













DO LIVRO DOS MORTOS

Pensava em certa configuração de azuis
na tez jadeamarela
da lua
em escamas
de formiga-dragão.
Suspeitasse ao menos que o tempo
é matéria volátil
— cenários
de um ritual cíclico.
(A pastora jogava críquete com o unicórnio
água vertendo
nos ramos desalinhados
dos verdes
sob a laje.)
Com a mente confusa
fervendo
em espumas de negrume
em círculos
de obsessões
esquálidas.
Pássaros; relógios; números; cheiro de iodo;
mãos imóveis
e a face rígida
faraônica.
Ela
a Rainha do Vegetal
apartada de todo íntimo contato.
Fumo espesso
do lado de fora
de sua tímida
catacumba etrusca.
Dentro
flores cafonas, místicos mantras
a lembrança de avencas
e do veneno
para ratos.
Agora, imóvel
captava os sinais
da Gran Cualquierparte
— voz escura ou
olho de flamingo
para repovoar
o silêncio,
pele de chamalote — .

E o silêncio (ela sabe) é vermelho.


s/d

POEMA ENCONTRADO NA PASTA DE ESBOÇOS














NO CU DO MUNDO

Com
a boca
e olhos;
com
medo
e asco.
Quem
ousa
dizer?
Você
pode
escavar
camada
e camada
dessa
pobre
superfície:
barro
pedra
ódio
estrume.
Quem
partirá?
Para
encontrar
cinzas.
Lua —
eis a chama.
Prata —
eis a jovem
morte.
A cega
come
os seus
próprios
olhos.

1999

quarta-feira, 27 de maio de 2015

TEXTOS DE ANTONIN ARTAUD















O PESA-NERVOS

O difícil é encontrar de fato o seu lugar e restabelecer a comunicação consigo mesmo. O todo está em certa floculação das coisas, no agrupamento de toda essa pedraria mental em torno de um ponto que falta justamente encontrar.
E eu, eis o que penso do pensamento: A INSPIRAÇÃO CERTAMENTE EXISTE. E há um ponto fosforescente onde toda a realidade se reencontra, porém mudada, metamorfoseada - e pelo quê? - um ponto de mágica utilização das coisas. E eu creio nos aerólitos mentais, em cosmogonias individuais.
Toda a escritura é uma porcaria. As pessoas que saem do vago para tentar precisar seja o que for do que se passa em seu pensamento são porcos.
Todo o mundo literário é porco, e especialmente o desse tempo. Todos aqueles que têm pontos de referência no espírito, quero dizer, de um certo lado da cabeça, em bem localizados embasamentos de seus cérebros, todos aqueles que são mestres em sua língua, todos aqueles para quem as palavras tem um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma, e correntes de pensamento, aqueles que são o espírito da época, e que nomearam essas correntes de pensamento, eu penso em suas tarefas precisas, e nesse rangido de autómato que espalha aos quatro ventos seu espírito, - são porcos.
Aqueles para quem certas palavras têm sentido, e certas maneiras de ser, aqueles que mantêm tão bem os modos afectados, aqueles para quem os sentimentos têm classes e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que crêem ainda em "termos", aqueles que remoem ideologias que ganham espaço na época, aqueles cujas mulheres falam tão bem e também e que falam das correntes da época, aqueles que crêem ainda numa orientação do espírito, aqueles que seguem caminhos, que agitam nomes, que fazem bradar as páginas dos livros - são os piores porcos.
Você é bem gratuito, moço! Não, eu penso em críticos barbudos.
Eu já lhes disse: nada de obras, nada de língua, nada de palavra, nada de espírito, nada. Nada, excepto um belo Pesa-nervos.
Uma espécie de estação incompreensível e bem no meio de tudo no espírito. E não esperem que eu lhes nomeie esse tudo, que eu lhes diga em quantas partes ele se divide, que eu lhes diga seu peso, que eu ande, que eu me ponha a discutir sobre esse tudo, e que, discutindo, eu me perca e me ponha assim, sem perceber, a PENSAR - e que ele se ilumine, que ele viva, que ele se enfeite de uma multidão de palavras, todas bem cobertas de sentido, todas diversas, e capazes de expor muito bem todas as atitudes, todas as nuanças de um pensamento muito sensível e penetrante.
Ah, esses estados que nunca são nomeados, essas situações eminentes da alma, ah, esses intervalos de espírito, ah, esses minúsculos malogros que são o pão de cada dia de minhas horas, ah, esse povo formigante de dados - são sempre as mesmas palavras que me servem e na verdade eu não pareço mexer muito em meu pensamento, mas eu mexo nele muito mais do que vocês na realidade, barbas de asnos, porcos pertinentes, mestres do falso verbo, arranjadores de retratos, folhetinistas, rasteiros, ervateiros, entomologistas, praga de minha língua.
Eu lhes disse que não tenho mais minha língua, mas isto não é razão para que vocês persistam, para que vocês se obstinem na língua.
Vamos, eu serei compreendido dentro de dez anos pelas pessoas que farão o que vocês fazem hoje. Então meus géiseres serão conhecidos, meus gelos serão vistos, o modo de desnaturar meus venenos estará aprendido, meus jogos d'alma estarão descobertos. Então meus cabelos estarão sepultos na cal, todas minhas veias mentais, então se perceberá meu bestiário e minha mística terá se tornado um chapéu. Então ver-se-á fumegar as junturas das pedras, e arborescentes buquês de olhos mentais se cristalizarão em glossários, então verse-ão cair aerólitos de pedra, então ver-se-ão cordas, então se compreenderá a geometria sem espaços, e se aprenderá o que é a configuração do espírito, e se compreenderá como eu perdi o espírito.
Então se compreenderá por que meu espírito não está aí, então ver-se-ão todas as línguas estancar, todos os espíritos secar, todas as línguas encorrear, as figuras humanas se achatarão, se desinflarão, como que aspiradas por ventosas secantes, e essa lubrificante membrana continuará a flutuar no ar, esta membrana lubrificante e cáustica, esta membrana
de duas espessuras, de múltiplos graus, de um infinito de lagartos, esta melancólica e vítrea membrana, mas tão sensível, tão pertinente também, tão capaz de se multiplicar, de se desdobrar, de se voltar com seu espelhamento de lagartos, de sentidos, de estupefacientes, de irrigações penetrantes e virosas, então tudo isto será considerado certo, eu não terei mais necessidade de falar.

(Sem referência do tradutor)

O SUICÍDIO É UMA SOLUÇÃO?

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos actos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em acção. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurasténico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.

(Sem referência do tradutor)



TUTUGURI- O RITO DO SOL NEGRO

E lá embaixo, no pé da encosta amarga
cruelmente desesperada do coração,
abre-se o círculo das seis cruzes
              bem lá embaixo
como se incrustada na terra amarga
desincrustada do imundo abraço da mãe
              que baba.

A terra do carvão negro
é o único lugar úmido
dessa fenda de rocha.

O Rito é o novo sol passar através de sete pontos antes de explodir
              no orifício da terra.

Há seis homens,
um para cada sol
e um sétimo homem
que é o sol
              cru
vestido de negro e carne viva.

Mas este sétimo homem
é um cavalo,
um cavalo com um homem conduzindo-o.

Mas é o cavalo 

que é o sol 
e não o homem.

No dilaceramento de um tambor e de uma trombeta longa
estranha,
os seis homens
que estavam deitados
tombados no rés do chão,
brotaram um a um como girassóis,
não sóis
porém solos que giram,
lótus d'água,
e a cada um que brota
corresponde, cada vez mais sombria
                         e refreada
                         a batida do tambor

até que de repente chega a galope, a toda velocidade
o último sol
o primeiro homem,
o cavalo negro com um
                         homem nu,
                         
absolutamente nu
                         e virgem
                         em cima.

Depois de saltar, eles avançam em círculos crescentes
e o cavalo em carne viva empina-se
e corcoveia sem parar
na crista da rocha
até os seis homens
terem cercado
completamente
as seis cruzes.

Ora, o tom maior do Rito é precisamente
A ABOLIÇÃO
DA CRUZ
 
Quando terminam de girar
arrancam
as cruzes do chão
e o homem nu
a cavalo
ergue
uma enorme ferradura
banhada no sangue de uma punhalada.
 
Tradução: Claudio Willer
 
 
POEMAS EM GLOSSOLALIA
 
ratara ratara ratara
atara tatara rana
otara otara katara
otara retara kana
ortura ortura konara
kokona kokona koma
kurbura kurbura kurbura
kurbata kurbata keyna
pesti anti pestantum putara
pest anti pestantum putra
* * *
potam am cram
katanam anankreta
karaban kreta
tanamam anangteta
konaman kreta
e pustulam orentam
taumer dauldi faldisti
taumer oumer
tena tana di li
kunchta dzeris
dzama dzena di li
* * *
 
Talachtis talachtis tsapoula
koiman koima Nara
ara trafund arakulda
     


POEMA INACABADO SOBRE RODEZ

Passei 9 anos num asilo de alienados.
Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.
Essa medicina chama-se electrochoque, consiste em meter
o paciente num banho de electricidade, fulminá-lo
e pô-lo bem esfolado a nu
e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem
de uma corrente
que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá
estar.
O electrochoque é uma corrente que eles arranjam sei lá
como,
que deixa o corpo,
o corpo sonâmbulo interno,
estacionário
para ficar sob a alçada da lei
arbitrária do ser,
em estado de morte
por paragem do coração.

(Sem referência do tradutor)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

POEMAS DE ANTONIN ARTAUD



 













INVOCAÇÃO À MÚMIA

Estas ravinas de osso e de pele
por onde começam as trevas
do absoluto, e a pintura desta boca
que fechas como uma cortina

E o ouro que te desliza em sonho
a vida que te despoja de ossos,
e as flores deste olhar falso
por onde reencontras a luz

Múmia, e estas mãos de fusos
para remexer nas tuas entranhas,
estas mãos onde a sombra espantosa
toma o aspecto de um pássaro

Tudo isso de que a morte se orna
como de um rito aleatório,
esta conversa de sombras, e o ouro
onde bóiam as negras entranhas

Por aí é que eu te alcanço,
ardida senda das veias, e o ouro
é como a minha dor
o testemunho certo e pior

  
A ÁRVORE

Esta árvore e o seu frémito
sombria floresta de apelos,
de gritos,
devora
o obscuro coração da noite.

Vinagre e leite, o céu, o mar,
a massa espessa do firmamento,
tudo conspira no estremecimento
que habita o denso coração da sombra.

Um coração aberto, um astro duro
que em dois se divide e no céu se difunde,
o límpido céu fendido
no instante do sol nascente
- fazem todos o mesmo ruído
que a noite e a árvore no centro do vento.


GRITO

O pequeno poeta celeste
Abre ao peito as gelosias.
Entrechocam-se os céus. O olvido
Desenraíza a sinfonia.

Palafreneiro a casa louca
Que te põe a guardar lobos
Não suspeita das cóleras
Geradas na grande alcova
Da abóbada sobre nós absorta.

Por consequência noite e silêncio
Reprimi qualquer impureza
O céu a grandes passadas
Cruza os ruídos.

A estrela devora. O céu oblíquo
Rompe o voo para o alto
A noite varre os resíduos
Do deleitoso repasto.

Na terra caminha uma lesma
Mil brancas mãos a aplaudem
Uma lesma sobe ao sítio
De onde se evolou a terra.

Anjos, que nenhuma obscenidade
Inspira, em paz regressavam
Quando se ergueu a voz da verdade
Do espírito que os chamava.

O sol mais baixo que o dia
Evaporava o mar todo
Nasceu na terra confusa
Um estranho mas nítido sonho.

O pequeno poeta perdido
Deixa o lugar além-mundo
Com uma ideia celeste
Contra o coração cabeludo.

***

Duas tradições em vigência.
Mas o pensamento fechado
Não dispõe de qualquer espaço.
Recomeçar a experiência.


Tradução: Herberto Helder, In “Doze nós numa corda”. Assírio & Alvim, 1997



POST SCRIPTUM

Quem sou?
De onde venho?
Eu sou o Antonin Artaud
e basta dizê-lo
como sei dizê-lo,
imediatamente
vereis o meu corpo actual
voar em estilhaços
e em dois mil aspectos notórios
refazer
um novo corpo
onde nunca mais
podereis
esquecer-me.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.


Tradução: Aníbal Fernades, publicada em Eu, Antonin Artaud, Hiena, 1988. 



(NO TOPO DAS ESSÊNCIAS)

No topo das essências fixadas, correspondente às
inumeravéis modalidades da matéria, existe aquilo que, na
subtileza das essências, na violência do fogo ígneo
corresponde aos princípios geradores das coisas, aquilo
que o espírito que pensa pode denominar princípios, os
quais porém correspondem, em relação à totalidade
fervente das coisas, a graus conscientes da Vontade na
Energia.

Não existem princípios da matéria subtil ou do
enxofre ou do sal, mas, para além do sal, do mercúrio ou
do enxofre, matérias ainda mais subtis que, no último
extremo da vibração orgânica, dão conta da diversidade
do espírito através das coisas; e a quem pede lhe sejam
apresentadas as coisas, só os números respondem dando
conta das suas existências separadas.
(...)


Tradução: Mário Cesariny de Vasconcelos, in “Heliogabalo ou o Anarquista Coroado”,

sexta-feira, 22 de maio de 2015

DRUMMUNDANOS



 











A poesia do cotidiano desenvolvida por Carlos Drummond de Andrade estava relacionada com a filosofia existencialista, o desencanto religioso, o marxismo, a ambivalência de desespero e vontade utópica que animou o cenário intelectual na época da II Guerra Mundial. Na década de 1970, Drummond foi relido -- ou "reimaginado" -- por jovens que se encantaram com a sua liberdade formal, especialmente o poema-crônica e o poema-piada. As obras publicadas por tais autores, como Cacaso e Francisco Alvim, acrescentaram algumas referências temáticas -- a ditadura militar, a contracultura -- mas não avançaram um milímetro na linguagem poética: praticaram a paródia (ou pastiche) das formas inauguradas pelos modernistas, especialmente Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Drummond. A partir da década de 1990, novos poetas retomaram a dicção coloquial-cotidiana, mais afastados ainda das preocupações filosóficas e políticas de CDA: seus poemas resumem-se a descrições banais de um padaria, uma loja de sucos, um partida de futebol, sem nenhum trabalho estético inovador, nenhuma tensão existencial mais profunda, nenhum retrato crítico da sociedade comparável ao radicalismo de Cesário Verde. É uma poesia paupérrima na forma e no conteúdo, que só se sustenta por suas relações de poder com a mídia, o mercado editorial e a universidade. O que é uma lástima, pois uma poesia realista séria, trabalhada, com forma e conteúdo relevantes, faz falta em nosso cenário poético.