sexta-feira, 22 de julho de 2016

POEMAS DE OLIVÉRIO GIRONDO



REBELIÃO DE VOCÁBULOS

De repente, sem motivo:
grasnido, palaciano,
carrancudo, micróbio,
padre-nosso, vitupério,
seguidos de: incolor,
bissexto, tegumento,
eqüestre, Marco Polo,
zambro, complexo;
depois de: somormujo,
garanhão, reincidente,
herbívoro, profuso,
ambidestro, relevo;
rodeados de: Afrodite,
núbil, ovo, ocarina,
incruento, escambal,
diametral, pêlo fonte;
em meio de: fraldas,
Flávio Lácio, penates,
laranjal, nigromante,
semibreve, sevícia;
entre: corvo, cornija,
imberbe, garatuja,
parasito, ameado,
tresloucado, equilátero;
em torno de: nefando,
hierofante, goiabeira,
espantalho, confrade,
espiral, mendicante;
enquanto chegam: incólume,
falaz, ritmo, emplasto,
cliptodonte, ressaibo,
fogo-fátuo, arquivado;
e se aproximam: macabra,
cornamusa, heresiarca,
malandro, chamariz,
artimanha, epiceno;
no mesmo instante que
castálico, invólucro,
chama sexo, estertóreo,
zodiacal, disparate;
junto à serpente... não quero!
Eu resisto. Eu recuso.
Os que seguem vindo
hão de achar-se adentro.


GRISTENIA

NOCTIVOZMUSGO insone
de mim a mim refluido para o gris já deserto tão duna
    evidência
gorgogotejando nãos que preulceram o pensar
contra as sempre contras da pós-náusea obesa
tão plurinterroído por noctívagos eus em rompante ante
    a garganta angústia
com seu sonhar rodado de oco sino dado de dado já tão dado
e seu eu só escuro de poço lodo adentro e microcosmo tinto
    para a total gristenia


AS PORTAS

ABSORTO tédio aberto

ante a fossanoite inululada
que em seca greta aberta subsorri seu mais acre recato
aberto insisto insone a tantas mortenazes de incensosom
revôo
até um destempo imóvel de tão já amargas mãos
aberto ao eco cruento por costume de pulso não digo mal
por mero nímio  glóbulo aberto ante o estranho
que em voraz queda enferruja circunrrói as costas parietais
abertas ao murmúrio da má sombra
enquanto se abrem as portas


BAÍA ANÍMICA

ABRA casa
de gris lava cefálica
e confluências de cúmulos memórias e luzpulsar cósmico
casa de asas de noite de rompante de enluarados espasmos
e hipertensos tantãs de impresença
casa cabala
cala
abracadabra
médium lívida em transe sob o gesso de seus quartos de
    hóspedes defuntos travestidos de sopro
metapsíquica casa multigrávida de neovozes e ubíquos ecossecos
    de afogados circuitos
clave demodivina que conhece a morte e seus compassos
seus tambores afásicos de gaze
suas comportas finais
e seu asfalto


TRANSUMOS

AS VERTENTES as órbitas tem perdido a terra os espelhos
os braços os mortos as amarras
o olvido sua máscara de tapir não vidente
o gosto o gosto o leito seus engendros o fumo cada dedo
as flutuantes paredes donde amanhece o vinho as raízes a
frente todo canto rodado
sua corola seus músculos os tecidos os vasos o desejo os sumos que
fermenta a espera
as campinas as encostas os transonhos os hóspedes
seus favos o núbil os prados as crinas a chuva as pupilas
seu fanal o destino
mas a lua intacta é um lago de seios que se banham tomados
pela mão


NOITE TÓTEM

São os transfundos outros da in extremis médium
que é a noite ao entreabrir os ossos
as mitoformas outras
aliardidas presenças semimorfas
sotopausas, sossopros
da enchagada libido possessa
que é a noite sem vendas
são os grislumbres outros atrás esmeris pálpebras videntes
os atônitos gessos do imóvel ante o refluído
ferido interogante
que é a noite já lívida
são as crivadas vozes
as suburbanas veias de ausência de remansas omoplatas
as acrinsones dragas famintas do agora com seu limo de nada
os idos passos outros da incorpórea ubíqua também outra
escavando o incerto
que pode ser a morte com sua demente muleta solitária
e é a noite
e deserta

DESTINO

E PARA CÁ OU ALÉM
e desde aqui outra vez
e volta a  ir de volta e sem alento
e do princípio ou término do precipício íntimo
até o extremo ou meio ou ressurrecto resto de este ou aquele
ou do oposto
e roda que te rói até o encontro
e aqui tampouco está
e desde acima abaixo e desde abaixo acima ávido asqueado
por viver entre ossos
ou do perpétuo estéril desencontro
ao demais
de mais
ou ao recomeço espesso de cerdos contratempos e destempos
quando não a bordo senão de algum complexo herniado em pleno
vôo
cálido ou gelado
e volta e volta
a tanta terça turca
para entregar-se inteiro ou de três quartos
farto já de metades
e de quartos
ao entrevero exausto dos leitos desfeitos
ou dar-se noite e dia sem descanso contra todos os nervos do
mistério
do além
daqui
enquanto se resta quieto ante o fugaz aspecto sempiterno do
aparente ou do suposto
e volta e volta fundido até o pescoço
com todos os sentidos sem sentido
no sufocotédio
com unhas e com idéias e poros
e porque sim não mais


Traduções: Claudio Daniel 

domingo, 17 de julho de 2016

POEMAS DE PAULA TAVARES


















RAPARIGA

Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...

Sou do clã do boi –

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.

A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.

(Do livro Ritos de passagem, 1985)



O LAGO DA LUA

No lago branco da lua 
lavei meu primeiro sangue 
Ao lago branco da lua 
voltaria cada  mês 
para lavar 
meu sangue eterno 
a cada lua
 No lago branco da lua 
misturei meu sangue 
e barro branco 
e fiz a caneca 
onde bebo 
a água amarga da minha sede sem fim 
o mel dos  dias claros 
Neste lago deposito 
minha reserva de sonhos para tomar


* * *

Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta


* * *

Atravesso o espelho
circuncido-me por dentro
e deixo que este caco
me sangre docemente

entre dias e espera
a história deste tempo
em carne viva.


* * *

chegou a noite
onde habito devagar
sou a máscara
Mwana Pwo em traje de festa

dança comigo
de noite todos temos asas
vem, eu sou a máscara
para lá da vida
à beira da noite

bebe comigo
a distância
em vaso de vidro

vem atravessar o espelho em dois sentidos
depois, podemos, rumo ao sul
navegar
as horas
desembrulhar a espuma desta
lentíssima noite
e ficar por dentro
dançarino e máscara
no meio da noite.

(Do livro O lago da lua, 1999)


O LAGO

Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga.


E AS MARGENS

Respira mansa a superfície do lago
silêncio e lágrimas pesam-lhe as margens.

Uma mulher quieta
enche as mãos de sangue
cortando o azul
da superfície de vidro.


A CURVA DO RIO

Desces a curva do meu corpo, amado
com o sabor da curva de outros rios
contas as veias e deixas as mãos pousarem
como asas
como vento
sobre o sopro cansado
sobre o seio desperto
Parte a canoa e rasga a rede
tens sede de outros rios
olhos de peixe que não conheço
e dedos que sentem em mim a pele arrepiada
d’outro tempo
Sou a esperança cansada da vida
que bebes devagar
no corpo que era meu
e já perdeste
andas em círculos de fogo
à volta do meu cercado
Não entres, por favor não entres
sem os óleos puros do começo
e as laranjas.

(Do livro Dize-me coisas amargas como os frutos, 2001)


* * *

As flores com que me vestiram
Eram só
Para arder melhor.


* * *

A terra despiu os mantos
de sombra
para curvar ao dia
seus cabelos

Uma mancha clara
tapou os olhos da lua.


* * *

IDENTIDADE

Quem for enterrado
Vestindo só a sua própria pele
Não descansa
Vagueia pelos caminhos.

(Do livro Ex-votos, 2003)

POEMAS DE MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS

 


1º. POEMA

Nasceu em  mim uma fonte

nada sabia dessa água

até encontrar as margens

desta escrita

que quis fosse lisa

como pedra mármore


2º. POEMA

Amendoeiras selvagens

em flor

a rasgar o verde

da mata de inverno.


Plenitude de maturidade

como relógio de areia

a marcar os quarenta anos.

  
3º. POEMA

Um homem ao crepúsculo

sabe que os poetas e as mulheres

percorrem as ruas da cidade

na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas

ungüentos e odores tropicais

então, um homem tranqüilo torna fácil a nudez.

  
4º. POEMA

As velhas tias organizam velórios

e com o pêndulo do ocaso

invertem as rotas dos barcos

saídos do cais ao fim da tarde.


Ecos que já não lutam com ventos perigosos

de aromas marinhos 

anseiam chegar à ilha para ver os pássaros

e

preguiçar na promessa de uma ilusão cumprida

Ao fim da tarde...


E AGORA SÓ ME RESTAM
E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz — esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.
 
Os deuses não assistiram a isto.


* * *


talvez o nosso corpo
seja pequeno
para ser a casa
do amor

que não guarde só indícios
e
não troque só sinais e entregas
que não seja tranquilo
nem fiel à rosa
e ao fio da lâmina


* * *

cheguei às portas secretas
atravessei as passagens interditas
e
no labirinto que negou os meus passos
vi tesouros que não eram meus


* * *

Ali estão elas de cabelos brancos
lisos ou em tranças apertados.
Ali estão elas suspensas sem um suspiro,
sem uma lágrima.

Os cabelos brancos gritam
gritos alucinados.


* * *

Poeta, somos filhos da diáspora
olhamos para trás e desfilam
os que amamos.
Os deuses abandonaram-nos –
–  é  conhecer o desespero
e saber
que uma mulher ajoelhada
não os faz regressar.


* * *

O rio corre manso
fumos sobem até ao azul-cinza.
A memória dos nossos corpos
perde-se nas águas.
E as nossas palavras
desfazem-se em círculos.
Perdemo-nos quando olhamos o rio.
Saudade de chegar ao mar.


* * *

A noiva costurava com pontos de alquimia
o seu vestido branco.
Chegou a guerra e jaz morto
o noivo.
Ela não pode lavar
com o seu vestido feito de fumos e água.

Vieram os soldados e levaram-na.
Para lá, onde cada palavra
é um silêncio
e cada silêncio
um túnel
como um olho cego.


* * *

O relâmpago desfez o sonho
como a raiz ficou nua na terra seca.
Uma palavra matou a onça e a zebra.

O porto é um abismo
e
das chaminés dos barcos naufragados
saem fumos listrados.


Maria Alexandre Dáskalos nasceu no Huambo (antiga Nova Lisboa), em Angola, em 1957. Depois de ter frequentado o Colégio Ateniense e o de São José de Cluny, licenciou-se na área de Letras.  Devido aos graves problemas decorrentes da guerra civil, em 1992 vem para Portugal com a mãe e o filho, reiniciando, em Lisboa, os seus estudos em História. Filha do poeta Alexandre Dáskalos e casada com Arlindo Barbeitos, outro grande nome da poesia angolana, Maria Alexandre é hoje uma das principais vozes femininas da poesia angolana. Publicou, entre outros livros, os seguintes:  O jardim das delícias (1991), Do tempo suspenso (1998), Lágrimas e laranjas (2001).


segunda-feira, 20 de junho de 2016

LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO POÉTICA REALIZA CURSO DE POESIA VIA INTERNET


















O Laboratório de Criação Poética é um curso teórico e prático de criação poética realizado à distância, via Skype, ministrado por Claudio Daniel, que tem como objetivo apresentar aos alunos conceitos sobre o fazer poético, formulados por autores como Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Paul Valéry, Vladimir Maiakovski, Haroldo de Campos, entre outros, propor exercícios de criação poética, estimular os alunos a desenvolverem os seus projetos literários pessoais, além de oferecer dicas sobre como publicar o primeiro livro e iniciar a carreira poética. O curso é realizado nos seguintes horários: SEGUNDAS-FEIRAS, das 14h às 15h30, TERÇAS-FEIRAS, das 11h às 12h30,  QUARTAS-FEIRAS, das 14h às 15h30, QUINTAS-FEIRAS, das 20h às 21h30, SEXTAS, das 14h às 15h30, se SÁBADOS, das 15h às 16h30. Cada aluno poderá fazer quantas aulas desejar nestes horários e a mensalidade é de R$ 100,00. A página do Laboratório está no link https://www.facebook.com/groups/1259591840737449/?fref=ts. Quem estiver interessado no curso poderá enviar e-mail para o professor, claudio.dan@gmail.com.

Claudio Daniel é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Colaborador da revista CULT. Editor da Zunái, Revista de Poesia e Debates. Publicou os livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001), Figuras Metálicas (2005), Fera Bifronte (2009), Letra Negra (2010), Cores para cegos (2012), Cadernos bestiais (2015), Esqueletos do nunca (2015), Livro de orikis (2015) e o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004). Como tradutor, publicou a antologia Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na América Latina (2004), entre outros títulos. Em Portugal, publicou a antologia poética pessoal Escrito em Osso.


terça-feira, 14 de junho de 2016

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES



JUNHO / 2016

Entrevista com E. M. de Melo e Castro

Poemas: Luiza Neto Jorge (Portugal), Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal), Alfredo Fressia Uruguai), Marcelo Ariel, Mônica Marques, Lucas Zapparoli de Agustini, Guilherme Leite, Bruno Bossolan, Lucas Grosso, Matheus Bensabat, Lubi Prates.
  
Traduções: James Joyce, Buson, Lord Byron, Gabriel Ferrater
  
Prosa de Sarah Valle e Daniel Lopes
  
Galeria: Ana Hatherly (Portugal), Krefer

 Especiais homenagem a Boris Schnaiderman. III Festival Artimanhas Poéticas. “Homenagem” ao jornal golpista FALHA de S. Paulo.

Ensaios:

Vanguarda poética em Portugal, de Claudio Daniel

Dois ou três possíveis para a poesia brasileira, de Luís Maffei

O desvelar do amor e da morte em Max Martins, de N. L. Ribeiro

Nosso corpo de festim, de Jorge Elias

Os não-valores e valores do homem contemporâneo, de Leonardo Castro da Silva, Márcia Denise Assunção da Rocha e Rui Lobato Bahia Júnior
  
Opinião / Cadernos da Palestina:

Pela libertação dos prisioneiros políticos palestinos e o fim da ocupação sionista

O portal do inferno: Israel está contaminando os palestinos com lixo nuclear a céu aberto

E as bombas atômicas de Israel?

Poemas para a Palestina


Zunái, Revista de Poesia & Debates, www. zunai.com.br

Preço: Inconcebível. Inefável.


Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte” (Vallejo).

quarta-feira, 11 de maio de 2016

HOJE ACONTECEU UM GOLPE DE ESTADO NO BRASIL


Hoje aconteceu um golpe de estado no Brasil.

Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), reeleita para a presidência do país em 2014 com 54 milhões de votos, foi afastada do cargo por um Congresso Nacional formado por uma maioria conservadora – proprietários rurais, banqueiros, especuladores financeiros, empresários, pastores evangélicos, fascistas, muitos deles envolvidos em processos de corrupção – sem ter cometido nenhum crime, num processo ilegal e ilegítimo que na prática revoga a Constituição, a democracia e o estado de direito no Brasil.

O “argumento” utilizado pelos partidos de direita – PMDB, PSDB e seus aliados, com apoio de juízes fascistas e de uma imprensa controlada por apenas seis famílias – para o afastamento de Dilma Rousseff  foram as alegadas “pedaladas fiscais” – a utilização de recursos dos bancos e empresas públicas para o financiamento de programas sociais que, nos últimos treze anos de governos democrático-populares de Lula e Dilma, foram responsáveis por tirar 30 milhões de brasileiros da situação de miséria absoluta, fato reconhecido pela ONU e muito incômodo para as elites brasileiras, que preferem manter a maioria da população brasileira na pobreza. As supostas “pedaladas” não caracterizam corrupção ou desvio de recursos públicos e foram praticadas também por governos anteriores, e inclusive por estados governados pelo PSDB, como é o caso de São Paulo, com Geraldo Alckmin.

Por que as elites odeiam Lula e Dilma?

Porque em treze anos eles construíram 18 universidades federais (o governo anterior, do neoliberal Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, não construiu NENHUMA), 400 escolas técnicas do Pronatec, aplicaram 10% do PIB e 75% dos royalties do pré-sal na educação e 25% na saúde, criaram programas como o Prouni, FIES e Ciência sem Fronteiras, que beneficiaram o acesso de estudantes pobres e negros aos cursos universitários. O programa Bolsa-Família garante hoje a segurança alimentar de 40 milhões de brasileiros. O Mais Médicos contratou 18 mil médicos brasileiros e estrangeiros para atenderem a população nas regiões mais carentes do país, beneficiando cerca de 50 milhões de pessoas.  O programa Minha Casa Minha Vida, por sua vez, entregou cerca de 1,5 milhão de unidades habitacionais a trabalhadores de baixa renda.  O Farmácia Popular, por sua vez, garante a distribuição gratuita de medicamentos à população. O governo golpista de Michel Temer anunciou a redução ou cancelamento desses programas sociais, com a provável privatização dos bancos públicos.

Lula pagou nossa dívida junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) já em seu primeiro mandato, e desde então essa instituição não monitora mais a nossa economia, impondo medidas recessivas e privatistas. As empresas estatais como a Petrobrás foram mantidas sob controle do estado brasileiro e o salário mínimo, que era de US$ 50,00 na época de FHC, hoje é de US$ 200,00.  Lula e Dilma mantiveram as leis trabalhistas e investiram em programas de reforma agrária. O governo golpista de Michel Temer deve submeter novamente o Brasil ao controle do FMI, arrochar os salários, privatizar a Petrobrás, entregar nosso petróleo e pré-sal para as companhias norte-americanas, e “flexibilizar” a legislação trabalhista, impondo a terceirização, o que na prática significa o fim da legislação trabalhista e o crescimento do desemprego.  

Lula recusou o ingresso do Brasil na ALCA proposta por George Bush. Michel Temer deve fazer o Brasil ingressar na “Aliança do Pacífico”, área de “livre comércio” com a participação dos Estados Unidos, Colômbia, Chile e Peru, o que na prática significará o sucateamento da indústria nacional, que não terá condições de competir com a indústria norte-americana. Lula e Dilma promoveram a integração e cooperação com os países latino-americanos, por meio de instituições como o Mercosul, a Unasul e a Celac, e aproximaram o Brasil da Rússia, China, Índia e África do Sul – os BRICs --, pensando em uma nova ordem política internacional, multipolar. Michel Temer deve recolocar o Brasil na área de influência norte-americana, o que fica explícito com a indicação de José Serra, do PSDB, para o Ministério das Relações Exteriores. Nos governos Lula e Dilma, o Brasil apoiou a luta do povo palestino por sua autodeterminação e condenou as agressões norte-americanas no Oriente Médio. Michel Temer deve apoiar a política sionista do Estado criminoso de Israel e apoiar as ações assassinas da OTAN.

Após destruir o Oriente Médio, os EUA voltam as suas garras agora para a América Latina, com o objetivo de destruir os governos progressistas da Venezuela, Bolívia, Equador. Uruguai, Cuba e Nicarágua, para a recolonização do continente, com apoio das elites locais, que nunca tiveram o projeto de construção da democracia ou mesmo de um desenvolvimento capitalista soberano. Elas se contentam com os lucros fáceis do mercado financeiro, pouco se importando com soberania, direitos humanos e distribuição de renda.

O Brasil tem hoje um governo ilegal e ilegítimo, de forte viés autoritário, e os movimentos sociais e partidos de esquerda colocarão na ordem do dia a desobediência civil.

Neste momento, é muito importante a solidariedade internacional ao povo brasileiro. Que o Mercosul, a Unasul, a Celac e outras instituições internacionais aprovem sanções diplomáticas e econômicas ao governo golpista! Que os países latino-americanos retirem os seus embaixadores do Brasil! Que a Rússia e a China se pronunciem, condenado o golpe de estado!

#ForaTemer


#JáTemLuta

domingo, 10 de abril de 2016

RETRATO V












Entranhados no terror.
Estirados na terra.
Suas mãos terrosas.
Suas bocas aterradas.
Seus olhos, fundas covas.
Seus olhos, gritos óticos. 
Abatidos como feras
pelos furiosos.
Abatidos como párias
pelos paranoicos.
Porque nascem da terra.
Porque vivem da terra.
Porque se multiplicam,
tumultuários, e sua voz
é a voz vermelha da terra.

Claudio Daniel, 2016


Poema escrito em homenagem aos trabalhadores rurais sem terra assassinados em abril de 2016 no Acampamento Dom Tomás Balduíno, no Paraná.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

POEMAS DE LAÍS CORRÊA DE ARAÚJO

















OFERTA

Toma minha boca,
toma minhas mãos que voam carinhos
inexistentes e dançam nos ombros
de nossos filhos impossíveis;
toma meu corpo, meu corpo que
se entrega nas noites sem rumo,
meu corpo de chuva e tarde,
meu corpo de passarinho caído
no fundo da gaiola.

Toma-me, esmaga-me e despedaça-me,
como um deus pisando estrelas.
Que fique nos teus dedos apenas
um gosto solitário de poesia e o
perfume da juventude realizada.



LUZ

Só há mistério quando se deseja dissecar,
as coisas devem ser absorvidas,
estar em cada profundidade,
nada mais que debruçar-se,
basta debruçar-se como pálpebras.

assim, seus olhos não encontraram escuro.
Onde o mistério,
no vibrante da carne,
na alma oferecida como mãos?

Ah, não há peso nem convite nos rios,
passam como céus;
você sabe, em cada misteriosa árvore,
há apenas ninhos se agasalhando.



ATO DE CONTRIÇÃO

Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.


ERA UMA VEZ

Não posso beijá-lo pelo telefone,
seu quarto é um laboratório
de exames transcendentais.
Fumo apenas.

Poderia dizer coisas grandes
que você fez em mim.
Era uma vez uma menininha.
Mas chove hoje.


ADEUS

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.



(Poemas extraídos de INVENTÁRIO 1951 / 2002. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004.)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

BOLERO

     

















yo
no soy
un hombre
sin sombra
ni árbol, piedra
molusco
soy dios
niña y perro, ángel malo
jardín de trolls
playa desierta
soy palabra
y niervos y sangre y rostro
y manos
y una outra soledad
y mi lengua
negro cacto, sabre persa
dulce rosa
quelque voix
in long gones blues
quiere buscarte
diosa de nieve
tu blanco soplo de mármol
en ojos sin ojos
tu piel de cristal
paloma estrella y nardo
tu miedo del mar
noche serpientes invierno
tu silencio
tu reflejo
tu dolor
tu saliva
tu sexo
tu paso
sólo tu paso
de inmóvil
sombra
herida


Ciudad de La Habana, 1989


Poema de Claudio Daniel, publicado no livro Sutra (1992) 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

PALO DE LA LUNA














existes tão fundo em mim
— Lobo Antunes

Ojos de mi mujer:
ojos que se multiplican
como olas y pájaros.

Manos de mi mujer:
manos interminables
en mis cabellos.

Senos de mi mujer:
senos incomprensibles
hacia el más allá de mí.

Bailaora de la luna,
danza en mi cuerpo
con su collar de peces.

Bailaora de la luna,
danza en mi cuerpo
con su cinturón de luces.

Mujer de la noche marina,
cuya boca es mi laberinto.

Mujer de la noche marina,
cuya piel es mi único jardín.

Sólo existe el palo
que nace de tus pies.

Sólo existe el blanco
de tus pies en mi boca.

Sólo existe la noche
de tu lengua en la mía.

Ojos de mi mujer:
ojos que se multiplican
en las manos, pies y senos.

Manos de mi mujer:
manos interminables
como la danza de la luna.

Senos de mi mujer:
senos incomprensibles
de mí sed infinita.

Poema de Claudio Daniel, 01 de abril de 2016.


quinta-feira, 3 de março de 2016

POUSADA DA LUA


Águas leoninas espalhadas no azul.
Ela desnuda os seus mamilos:
percorre luas
vermelho-flamboyant
vermelho-tiês
vermelho-eritrino
vermelho-flamingo.
Ela é Toda-Lua:
luas-olhos, luas-seios
luas-pés.
Ela é Toda-Lua:
Enluaresce-me em lua leonina.
Filha de Oxum,
senhora do mel,
desliza nas águas,
filha das águas,
entre casuarinas
até o reluzir das alamandas.
Filha de Oxum,
teus rios leoninos
espalhados
em minhas mãos.
Quando ela dança,
seus braços voam
como pássaros.
Quando ela dança,
flores brancas nos cabelos,
desenha no espaço
o meu labirinto.
O mundo não faz sentido
sem os teus pequenos pés.
Miniaturais opalas se expandem
na beira do rio,
para dizerem teu nome.
Raio de sol rebrilha
na beira do rio,
em tua pele-de-lua,
falanges de leoa.
Eu me faço andarilho
para percorrer
teus arroxeados lábios,
cada cavidade, fenda,
fresta, frincha de deusa lunar
até me tornar o reflexo de teus passos.

Claudio Daniel, 2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

FRENTE BRASIL POPULAR DEFENDE A DEMOCRACIA E O DESENVOLVIMENTO COM JUSTIÇA SOCIAL

Nesta segunda-feira, dia 22 de fevereiro, foi realizada em São Paulo uma reunião da Frente Brasil Popular, que tem o objetivo de defender a democracia no Brasil e o mandato legítimo da presidenta Dilma Rousseff e ao mesmo tempo propor mudanças na política econômica do governo federal, lutar pela ampliação dos direitos e conquistas de trabalhadores e organizar um calendário de lutas e mobilizações populares como a que acontecerá no dia 31 de março, em Brasília.  No período da manhã, foram discutidas análises da conjuntura nacional, que contaram com a participação da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), do senador Lindebergh Farias (PT), do ex-governador Tarso Genro (PT), do membro do Diretório Nacional do PT Valter Pomar, da presidenta da UNE, Carina Vitral, e da presidenta do Cebrapaz, Socorro Gomes, entre outros representantes de centrais sindicais, entidades estudantis, de mulheres, negros, LGTBs, trabalhadores rurais sem terras e partidos de esquerda.

Em seu discurso na abertura da reunião, Jandira Feghali lembrou as importantes conquistas obtidas em 2015: derrota da tentativa de impeachment de Dilma proposta por Eduardo Cunha no Congresso Nacional, afastamento de Levy do Ministério da Fazenda, arquivamento dos projetos de redução da maioridade penal e da terceirização das relações de trabalho, aprovação das leis orçamentárias, fim do financiamento empresarial das campanhas políticas, formação do Conselho de Ética para a cassação do mandato de Cunha, entre outras. Em 2016, continuou a deputada, líder do PCdoB na Câmara Federal, a tese do impeachment tem menos força, mas a mídia e o judiciário jogam todas as suas cartas na tentativa de destruir a imagem de Lula, que representa o projeto democrático-popular iniciado no Brasil em 2002, sendo necessária uma resposta clara da sociedade em defesa do ex-presidente, responsável pela maior transformação social ocorrida em nosso país em toda a sua história.

Outro desafio político, conforme a deputada, é a necessidade de derrotarmos a “Agenda Brasil” proposta por Renan Calheiros, líder do Senado, que inclui propostas como a autonomia do Banco Central, a abertura de nossas reservas de petróleo e pré-sal para o grande capital internacional, as privatizações e um projeto de lei antiterrorismo que criminaliza os movimentos sociais. Jandira também fez críticas pontuais a algumas ações do governo federal, como a reforma da Previdência, e alertou que seria um grave erro estratégico de Dilma aceitar medidas impopulares em troca da estabilidade política.   

Jandira destacou ainda a necessidade de se apresentar à sociedade uma plataforma não apenas econômica, mas sobretudo política e de defesa dos direitos humanos e fazermos a disputa de narrativas com a direita: não basta denunciarmos os escândalos de corrupção de FHC e do P$DB, mas divulgarmos as conquistas alcançadas nos últimos treze anos de governos democrático-populares, implementarmos uma estratégia criativa e inteligente de comunicação, de acordo com diferentes veículos e públicos, definirmos o projeto de país que defendermos e resgatarmos a dimensão da utopia e do sonho. A deputada destacou também a importância de os movimentos sociais defenderem pontos como a reforma tributária, a taxação das grandes fortunas, a criminalização da sonegação e a redução da jornada de trabalho, dentro de uma perspectiva de retomada do crescimento econômico e do desenvolvimento nacional com justiça social.

Valter Pomar, em seu discurso, afirmou que a ofensiva conservadora que se desenvolve no Brasil é um reflexo da crise dos governos de esquerda na América Latina, que atingiu a Argentina, a Venezuela e agora a Bolívia. O cenário político de 2016, segundo o petista, será ainda pior que o de 2015 porque o alvo principal é o ex-presidente Lula e a própria existência legal do Partido dos Trabalhadores, tendo em vista a eleição de 2018 e a destruição do conjunto da esquerda brasileira. Pomar criticou duramente a reforma da previdência proposta pelo governo federal e o ajuste fiscal, que compromete os programas sociais, defendendo ampliar a mobilização popular e fortalecer a unidade da esquerda de torno de um programa, que inclua o combate ao oligopólio financeiro e a defesa firme da Petrobrás.

Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul pelo Partido dos Trabalhadores, destacou que todos os governos progressistas da América Latina fizeram concessões ao grande capital financeiro, o que resultou na paralisação desses governos. No caso brasileiro, segundo o líder petista, isto não ficou visível antes porque a situação de miséria do país era tão grande que os programas sociais implementados por Lula e Dilma, como o Bolsa-Família, o ProUni e o Minha Casa Minha Vida tiveram um alto impacto no quadro social. Apesar de todas as transformações ocorridas no país, de acordo com o ex-governador, é tarefa urgente a luta pela hegemonia na sociedade, num contexto em que a classe média se desloca para a direita, seduzida pelo discurso conservador. Na atual conjuntura política, desfavorável às forças populares e de esquerda, os riscos são enormes: a coligação entre o capital financeiro, a mídia e o Judiciário ameaça destruir os pilares da atual Constituição e impor grave retrocesso na legislação, com a ameaça de um golpe de estado jurídico pelo STF, que entre outras arbitrariedades permitiria a prisão de Lula. Neste quadro, cabe aos movimentos sociais a tarefa de defesa da ordem democrática e dos direitos constitucionais contra medidas de exceção. O desafio de construir uma candidatura que dê continuidade ao projeto democrático-popular em 2018, segundo o petista, será imenso, pelo esgotamento do atual modelo implementado no Brasil e na América Latina e pela necessidade de uma ampla base social e parlamentar para que seja possível a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte que garanta a democratização do estado brasileiro. Na opinião do ex-governador, vivemos o fim de um ciclo político e a esquerda precisará criar uma nova frente e um novo projeto político em 2018, sem a participação do PMDB, que resgate os valores e tradições da esquerda brasileira e latino-americana.

Socorro Gomes, presidenta Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) recordou que a atual ofensiva conservadora é uma reação às sucessivas vitórias que a esquerda obteve na América Latina desde a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, que abriu caminho para as vitórias eleitorais de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Pepe Mujica, no Uruguai, de Evo Morales, na Bolívia, de Rafael Corrêa, no Equador, e de Daniel Ortega, na Nicarágua. No caso brasileiro, as conquistas sociais foram limitadas pela correlação de forças no Congresso Nacional e na sociedade mas, ainda assim, é imprescindível a defesa do mandato legítimo de Dilma, acompanhada de uma agenda enxuta, apresentada pelos movimentos sociais ao governo federal, com propostas políticas e econômicas que garantam a continuidade das mudanças sociais em curso no país.

Carina Vitral, presidenta da União Nacional dos Estudantes, saudou a criação de um fórum unificado dos movimentos sociais brasileiros, representado pela Frente Brasil Popular, e defendeu a ampliação da frente e a realização de novos atos massivos em defesa da democracia e das pautas apresentadas pelos movimentos sociais, com destaque para o ato que acontecerá em Brasília, no dia 31 de março.

No período da tarde, a reunião discutiu propostas e calendário de lutas, que serão divulgados em seguida.

Fazem parte da Frente Brasil Popular as principais centrais sindicais brasileiras, como a CUT e a CTB, entidades estudantis, como a UNE, UBES, UJS, Levante Popular da Juventude, de mulheres como a UBM e a Marcha Mundial das Mulheres, de negros (Unegro), LGTBs, trabalhadores rurais sem terras (MST) e partidos de esquerda (PT, PCO, PCdoB), entre outros movimentos sociais.


Claudio Daniel