quarta-feira, 27 de maio de 2015

TEXTOS DE ANTONIN ARTAUD















O PESA-NERVOS

O difícil é encontrar de fato o seu lugar e restabelecer a comunicação consigo mesmo. O todo está em certa floculação das coisas, no agrupamento de toda essa pedraria mental em torno de um ponto que falta justamente encontrar.
E eu, eis o que penso do pensamento: A INSPIRAÇÃO CERTAMENTE EXISTE. E há um ponto fosforescente onde toda a realidade se reencontra, porém mudada, metamorfoseada - e pelo quê? - um ponto de mágica utilização das coisas. E eu creio nos aerólitos mentais, em cosmogonias individuais.
Toda a escritura é uma porcaria. As pessoas que saem do vago para tentar precisar seja o que for do que se passa em seu pensamento são porcos.
Todo o mundo literário é porco, e especialmente o desse tempo. Todos aqueles que têm pontos de referência no espírito, quero dizer, de um certo lado da cabeça, em bem localizados embasamentos de seus cérebros, todos aqueles que são mestres em sua língua, todos aqueles para quem as palavras tem um sentido, todos aqueles para quem existem altitudes na alma, e correntes de pensamento, aqueles que são o espírito da época, e que nomearam essas correntes de pensamento, eu penso em suas tarefas precisas, e nesse rangido de autómato que espalha aos quatro ventos seu espírito, - são porcos.
Aqueles para quem certas palavras têm sentido, e certas maneiras de ser, aqueles que mantêm tão bem os modos afectados, aqueles para quem os sentimentos têm classes e que discutem sobre um grau qualquer de suas hilariantes classificações, aqueles que crêem ainda em "termos", aqueles que remoem ideologias que ganham espaço na época, aqueles cujas mulheres falam tão bem e também e que falam das correntes da época, aqueles que crêem ainda numa orientação do espírito, aqueles que seguem caminhos, que agitam nomes, que fazem bradar as páginas dos livros - são os piores porcos.
Você é bem gratuito, moço! Não, eu penso em críticos barbudos.
Eu já lhes disse: nada de obras, nada de língua, nada de palavra, nada de espírito, nada. Nada, excepto um belo Pesa-nervos.
Uma espécie de estação incompreensível e bem no meio de tudo no espírito. E não esperem que eu lhes nomeie esse tudo, que eu lhes diga em quantas partes ele se divide, que eu lhes diga seu peso, que eu ande, que eu me ponha a discutir sobre esse tudo, e que, discutindo, eu me perca e me ponha assim, sem perceber, a PENSAR - e que ele se ilumine, que ele viva, que ele se enfeite de uma multidão de palavras, todas bem cobertas de sentido, todas diversas, e capazes de expor muito bem todas as atitudes, todas as nuanças de um pensamento muito sensível e penetrante.
Ah, esses estados que nunca são nomeados, essas situações eminentes da alma, ah, esses intervalos de espírito, ah, esses minúsculos malogros que são o pão de cada dia de minhas horas, ah, esse povo formigante de dados - são sempre as mesmas palavras que me servem e na verdade eu não pareço mexer muito em meu pensamento, mas eu mexo nele muito mais do que vocês na realidade, barbas de asnos, porcos pertinentes, mestres do falso verbo, arranjadores de retratos, folhetinistas, rasteiros, ervateiros, entomologistas, praga de minha língua.
Eu lhes disse que não tenho mais minha língua, mas isto não é razão para que vocês persistam, para que vocês se obstinem na língua.
Vamos, eu serei compreendido dentro de dez anos pelas pessoas que farão o que vocês fazem hoje. Então meus géiseres serão conhecidos, meus gelos serão vistos, o modo de desnaturar meus venenos estará aprendido, meus jogos d'alma estarão descobertos. Então meus cabelos estarão sepultos na cal, todas minhas veias mentais, então se perceberá meu bestiário e minha mística terá se tornado um chapéu. Então ver-se-á fumegar as junturas das pedras, e arborescentes buquês de olhos mentais se cristalizarão em glossários, então verse-ão cair aerólitos de pedra, então ver-se-ão cordas, então se compreenderá a geometria sem espaços, e se aprenderá o que é a configuração do espírito, e se compreenderá como eu perdi o espírito.
Então se compreenderá por que meu espírito não está aí, então ver-se-ão todas as línguas estancar, todos os espíritos secar, todas as línguas encorrear, as figuras humanas se achatarão, se desinflarão, como que aspiradas por ventosas secantes, e essa lubrificante membrana continuará a flutuar no ar, esta membrana lubrificante e cáustica, esta membrana
de duas espessuras, de múltiplos graus, de um infinito de lagartos, esta melancólica e vítrea membrana, mas tão sensível, tão pertinente também, tão capaz de se multiplicar, de se desdobrar, de se voltar com seu espelhamento de lagartos, de sentidos, de estupefacientes, de irrigações penetrantes e virosas, então tudo isto será considerado certo, eu não terei mais necessidade de falar.

(Sem referência do tradutor)

O SUICÍDIO É UMA SOLUÇÃO?

Não, o suicídio ainda é uma hipótese. Quero ter o direito de duvidar do suicídio assim como de todo o restante da realidade. É preciso, por enquanto e até segunda ordem, duvidar atrozmente, não propriamente da existência, que está ao alcance de qualquer um, mas da agitação interior e da profunda sensibilidade das coisas, dos actos, da realidade. Não acredito em coisa alguma à qual eu não esteja ligado pela sensibilidade de um cordão pensante, como que meteórico e ainda assim sinto falta de mais meteoros em acção. A existência construída e sensível de qualquer homem me aflige e decididamente abomino toda realidade. O suicídio nada mais é que a conquista fabulosa e remota dos homens bem-pensantes, mas o estado propriamente dito do suicídio me é incompreensível. O suicídio de um neurasténico não tem qualquer valor de representação, mas sim o estado de espírito de um homem que tiver determinado seu suicídio, suas circunstâncias materiais e o momento do seu desfecho maravilhoso. Desconheço o que sejam as coisas, ignoro todo o estado humano, nada no mundo se volta para mim, dá voltas em mim. Tolero terrivelmente mal a vida. Não existe estado que eu possa atingir. E certamente já morri faz tempo, já me suicidei. Me suicidaram, quero dizer. Mas que achariam de um suicídio anterior, de um suicídio que nos fizesse dar a volta, porém para o outro lado da existência, não para o lado da morte? Só este teria valor para mim. Não sinto apetite da morte, sinto apetite de não ser, de jamais ter caído neste torvelinho de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos que é o eu de Antonin Artaud, bem mais frágil que ele. O eu deste enfermo errante que de vez em quando vem oferecer sua sombra sobre a qual ele já cuspiu faz muito tempo, este eu capenga, apoiado em muletas, que se arrasta; este eu virtual, impossível e que todavia se encontra na realidade. Ninguém como ele sentiu a fraqueza que é a fraqueza principal, essencial da humanidade. A de ser destruída, de não existir.

(Sem referência do tradutor)



TUTUGURI- O RITO DO SOL NEGRO

E lá embaixo, no pé da encosta amarga
cruelmente desesperada do coração,
abre-se o círculo das seis cruzes
              bem lá embaixo
como se incrustada na terra amarga
desincrustada do imundo abraço da mãe
              que baba.

A terra do carvão negro
é o único lugar úmido
dessa fenda de rocha.

O Rito é o novo sol passar através de sete pontos antes de explodir
              no orifício da terra.

Há seis homens,
um para cada sol
e um sétimo homem
que é o sol
              cru
vestido de negro e carne viva.

Mas este sétimo homem
é um cavalo,
um cavalo com um homem conduzindo-o.

Mas é o cavalo 

que é o sol 
e não o homem.

No dilaceramento de um tambor e de uma trombeta longa
estranha,
os seis homens
que estavam deitados
tombados no rés do chão,
brotaram um a um como girassóis,
não sóis
porém solos que giram,
lótus d'água,
e a cada um que brota
corresponde, cada vez mais sombria
                         e refreada
                         a batida do tambor

até que de repente chega a galope, a toda velocidade
o último sol
o primeiro homem,
o cavalo negro com um
                         homem nu,
                         
absolutamente nu
                         e virgem
                         em cima.

Depois de saltar, eles avançam em círculos crescentes
e o cavalo em carne viva empina-se
e corcoveia sem parar
na crista da rocha
até os seis homens
terem cercado
completamente
as seis cruzes.
Ora, o tom maior do Rito é precisamente
A ABOLIÇÃO
DA CRUZ
 
Quando terminam de girar
arrancam
as cruzes do chão
e o homem nu
a cavalo
ergue
uma enorme ferradura
banhada no sangue de uma punhalada.
 
Tradução: Claudio Willer
 
 
POEMAS EM GLOSSOLALIA
 
ratara ratara ratara
atara tatara rana
otara otara katara
otara retara kana
ortura ortura konara
kokona kokona koma
kurbura kurbura kurbura
kurbata kurbata keyna
pesti anti pestantum putara
pest anti pestantum putra
* * *
potam am cram
katanam anankreta
karaban kreta
tanamam anangteta
konaman kreta
e pustulam orentam
taumer dauldi faldisti
taumer oumer
tena tana di li
kunchta dzeris
dzama dzena di li
* * *
 
Talachtis talachtis tsapoula
koiman koima Nara
ara trafund arakulda
     


POEMA INACABADO SOBRE RODEZ

Passei 9 anos num asilo de alienados.
Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.
Essa medicina chama-se electrochoque, consiste em meter
o paciente num banho de electricidade, fulminá-lo
e pô-lo bem esfolado a nu
e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem
de uma corrente
que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá
estar.
O electrochoque é uma corrente que eles arranjam sei lá
como,
que deixa o corpo,
o corpo sonâmbulo interno,
estacionário
para ficar sob a alçada da lei
arbitrária do ser,
em estado de morte
por paragem do coração.

(Sem referência do tradutor)


QUEM SOU EU?

De onde venho?
Sou Antonin Artaud
e basta que eu o diga
Como só eu o sei dizer
e imediatamente
hão de ver meu corpo
actual,
voar em pedaços
e se juntar
sob dez mil aspectos
diversos.
Um novo corpo
no qual nunca mais
poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto

Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.

(Sem referência do tradutor)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

POEMAS DE ANTONIN ARTAUD



 













INVOCAÇÃO À MÚMIA

Estas ravinas de osso e de pele
por onde começam as trevas
do absoluto, e a pintura desta boca
que fechas como uma cortina

E o ouro que te desliza em sonho
a vida que te despoja de ossos,
e as flores deste olhar falso
por onde reencontras a luz

Múmia, e estas mãos de fusos
para remexer nas tuas entranhas,
estas mãos onde a sombra espantosa
toma o aspecto de um pássaro

Tudo isso de que a morte se orna
como de um rito aleatório,
esta conversa de sombras, e o ouro
onde bóiam as negras entranhas

Por aí é que eu te alcanço,
ardida senda das veias, e o ouro
é como a minha dor
o testemunho certo e pior

  
A ÁRVORE

Esta árvore e o seu frémito
sombria floresta de apelos,
de gritos,
devora
o obscuro coração da noite.

Vinagre e leite, o céu, o mar,
a massa espessa do firmamento,
tudo conspira no estremecimento
que habita o denso coração da sombra.

Um coração aberto, um astro duro
que em dois se divide e no céu se difunde,
o límpido céu fendido
no instante do sol nascente
- fazem todos o mesmo ruído
que a noite e a árvore no centro do vento.


GRITO

O pequeno poeta celeste
Abre ao peito as gelosias.
Entrechocam-se os céus. O olvido
Desenraíza a sinfonia.

Palafreneiro a casa louca
Que te põe a guardar lobos
Não suspeita das cóleras
Geradas na grande alcova
Da abóbada sobre nós absorta.

Por consequência noite e silêncio
Reprimi qualquer impureza
O céu a grandes passadas
Cruza os ruídos.

A estrela devora. O céu oblíquo
Rompe o voo para o alto
A noite varre os resíduos
Do deleitoso repasto.

Na terra caminha uma lesma
Mil brancas mãos a aplaudem
Uma lesma sobe ao sítio
De onde se evolou a terra.

Anjos, que nenhuma obscenidade
Inspira, em paz regressavam
Quando se ergueu a voz da verdade
Do espírito que os chamava.

O sol mais baixo que o dia
Evaporava o mar todo
Nasceu na terra confusa
Um estranho mas nítido sonho.

O pequeno poeta perdido
Deixa o lugar além-mundo
Com uma ideia celeste
Contra o coração cabeludo.

***

Duas tradições em vigência.
Mas o pensamento fechado
Não dispõe de qualquer espaço.
Recomeçar a experiência.


Tradução: Herberto Helder, In “Doze nós numa corda”. Assírio & Alvim, 1997



POST SCRIPTUM

Quem sou?
De onde venho?
Eu sou o Antonin Artaud
e basta dizê-lo
como sei dizê-lo,
imediatamente
vereis o meu corpo actual
voar em estilhaços
e em dois mil aspectos notórios
refazer
um novo corpo
onde nunca mais
podereis
esquecer-me.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.


Tradução: Aníbal Fernades, publicada em Eu, Antonin Artaud, Hiena, 1988. 



(NO TOPO DAS ESSÊNCIAS)

No topo das essências fixadas, correspondente às
inumeravéis modalidades da matéria, existe aquilo que, na
subtileza das essências, na violência do fogo ígneo
corresponde aos princípios geradores das coisas, aquilo
que o espírito que pensa pode denominar princípios, os
quais porém correspondem, em relação à totalidade
fervente das coisas, a graus conscientes da Vontade na
Energia.

Não existem princípios da matéria subtil ou do
enxofre ou do sal, mas, para além do sal, do mercúrio ou
do enxofre, matérias ainda mais subtis que, no último
extremo da vibração orgânica, dão conta da diversidade
do espírito através das coisas; e a quem pede lhe sejam
apresentadas as coisas, só os números respondem dando
conta das suas existências separadas.
(...)


Tradução: Mário Cesariny de Vasconcelos, in “Heliogabalo ou o Anarquista Coroado”,

sexta-feira, 22 de maio de 2015

DRUMMUNDANOS



 











A poesia do cotidiano desenvolvida por Carlos Drummond de Andrade estava relacionada com a filosofia existencialista, o desencanto religioso, o marxismo, a ambivalência de desespero e vontade utópica que animou o cenário intelectual na época da II Guerra Mundial. Na década de 1970, Drummond foi relido -- ou "reimaginado" -- por jovens que se encantaram com a sua liberdade formal, especialmente o poema-crônica e o poema-piada. As obras publicadas por tais autores, como Cacaso e Francisco Alvim, acrescentaram algumas referências temáticas -- a ditadura militar, a contracultura -- mas não avançaram um milímetro na linguagem poética: praticaram a paródia (ou pastiche) das formas inauguradas pelos modernistas, especialmente Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e Drummond. A partir da década de 1990, novos poetas retomaram a dicção coloquial-cotidiana, mais afastados ainda das preocupações filosóficas e políticas de CDA: seus poemas resumem-se a descrições banais de um padaria, uma loja de sucos, um partida de futebol, sem nenhum trabalho estético inovador, nenhuma tensão existencial mais profunda, nenhum retrato crítico da sociedade comparável ao radicalismo de Cesário Verde. É uma poesia paupérrima na forma e no conteúdo, que só se sustenta por suas relações de poder com a mídia, o mercado editorial e a universidade. O que é uma lástima, pois uma poesia realista séria, trabalhada, com forma e conteúdo relevantes, faz falta em nosso cenário poético.

DIBUJO (Abu Ghraib)



 














Uma figura
de enguia --
palavras
de carbono,
forma esquálida
de garra,
à maneira
simples
de tubérculo.
Dizer
o diamante?
Não, a demência
papilar
traçada
em rocha:
pintura
de mortos,
caligrafia 
de grunhidos.
Assim
porque
ferrugem
ou azul-ferrete,
despetalar
os corvos
brancos
— tudo
é tumulto,
gritos
fanhos
na pupila.

2001/02

quinta-feira, 21 de maio de 2015

OS BUDAS DE BAMIYAN















Lua-cimitarra sobre os budas de pedra em Bamiyan (asa 
sanguínea de grou)
(mandala
com olhos
de tigre)
demolidos
(o deserto,
espelho
de fúrias)
e agora
núpcias
ritmadas
em rasantes
de F-16
(lágrimas
veladas
sob o linho)
(Om vajra
sattva samaya
manu palaya):
diálogo surdo
(línguas-harpias)
entre a loucura
e leviatã
(Vajra bawa
maha samaya
sattva ah
hum phe).
Vestida de ruínas,
a velha cega
ora ao nicho
vazio dos budas.
  
2001

(Poema do livro Figuras metálicas. São Paulo: Perspectiva, 2004)

UM POEMA DO LIVRO FIGURAS METÁLICAS



 









PORQUE A HORA É VIOLENTA

Porque a hora é violenta e tudo esmaga, abrir cabeças
de serpente.
Há o verde sonoro
de metais;
há o roxo
da flor
cujo nome
ignoramos.
Dedos rugem
escura perplexidade;
arcos rebentam
bicos
de pássaro.
Sou anfíbio,
e calo
o que me apavora.
Onde viajar outros dias possíveis?
Como
extirpar
essa desolação?
Eis o inevitável
campo
de batalha;
eis a letra inverossímil, vermelho
decapita
amarelo.
Sinceramente,
confesso
meu pesar:
quando ponteiros corroem pulsos, 
povoar
mandíbulas
para corvos.
A hora é violenta e o medo em escamas
arranha
a pele
da voz.
Explodir palavras-de-argila;
degolar
leões
de pedra
(ignotos);
mutilar
a escura epiderme,
em chuva
azul-
de-agonia.
Tudo
por um
nada
soando crânios e trompetes,
cortando (súbito)
o branco-
cinza
da manhã.
— Sri Baghavan uvaca:
Yam hi na
vyathayanty ete
purusam
purusarsabha
sama-duhkha-sukham dhiram
so ‘mrtavaya
kalpate.

2002

terça-feira, 19 de maio de 2015

UM POEMA DO LIVRO A SOMBRA DO LEOPARDO (2001)




POROS

Um silêncio verde 
— Paul Celan

O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.

1999



quinta-feira, 14 de maio de 2015

POEMAS DO TAO TE KING, DE LAO ZI


















I

O Tao que pode ser pronunciado 
não é o Tao eterno.
O nome que pode ser proferido 
não é o Nome eterno.
Ao princípio do Céu e da Terra chamo “Não ser”.
À mãe dos seres individuais chamo “Ser”.
Dirigir-se para o “Não ser” leva 
à contemplação da maravilhosa Essência; 
dirigir-se para o Ser leva
à contemplação das limitações espaciais.
Pela origem, ambos são uma coisa só, 
diferindo apenas no nome.
Em sua Unidade, esse Um é mistério.
O mistério dos mistérios 
é o portal por onde entram as maravilhas.


VI

O espírito do vale não morre nunca;
ele é a mulher misteriosa.
A porta da mulher misteriosa 
é a raiz do Céu e da Terra.
Ininterrupta, assim como perpétua, 
ela age sem esforço.


XII

Trinta raios cercam o eixo:
a utilidade do carro consiste no seu nada.
Escava-se a argila para modelar vasos:
a utilidade dos vasos está no seu nada.
Abrem-se portas e janelas para que haja um quarto:
a utilidade do quarto está no seu nada.

Por isso o que existe serve para ser possuído
e o que não existe, para ser útil.


XVIII

Quando se perde o grande Tao,
aparecem a moralidade e o dever.
Quando a inteligência e o saber prosperam,
aparecem as grandes mentiras.
Quando os parentes próximos discordam,
aparecem o dever filial e o amor.
Quando os Estados estão em desordem,
aparecem os funcionários leais.


XLIII

A coisa mais macia da terra
vence a mais dura.
O que não existe penetra até mesmo
no que não tem frestas.
Nisso se reconhece o valor da não-ação.
O ensino sem palavras, o valor da não-ação
são raros os que o conseguem na terra.


Tradução: Margit Martincic

quarta-feira, 13 de maio de 2015

UM POEMA DOS CADERNOS BESTIAIS (terceiro volume, inédito)















RETRATO DE MULHER
(serpentinata)

estranha mulher intercambiáveis
folhas de outono
ou lâminas de aço
sem corrosão
relaminadas fina a frio,
ou apenas murmúrio
sem jardins nem quintais
só alinhamento do corte:
o pensar do coração – alto carbono
em conformidade
com a memória –
(nua entre fósforos acesos)
um adeus e o carboneto de vanádio
em oposição ao cromo –
decapadas, expandidas, minimizadas
palavras entre tuas perplexas peles:
a resistência mecânica do substrato aço
– retalhos, chapas, tubos, barras
e sucatas de ferrosos, para fundição

2012

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (V)


Um autor é sempre o pior crítico literário de sua obra. Sua opinião, contaminada pela subjetividade, pode conduzir a dois grandes equívocos: o da excessiva indulgência, motivada pelo narcisismo, ou o da autodepreciação, ditada por têmpera masoquista ou simulada modéstia. Em ambos os casos, será difícil separar o seu parecer de uma intenção de propaganda, não sendo raros os casos em que o autor faz a exposição pública de seus ressentimentos: não ter merecido o elogio de seus pares, nem ao menos uma única resenha de seu livro (obviamente) genial. Alguns bradarão a injustiça dos prêmios e concursos, outros acusarão o colega mais conhecido de ter se apropriado de sua ideia (obviamente) genial para um grande romance ou peça de teatro. Poucos se atreverão a analisar a própria escrita como um pintor descreve o seu método de pintar, ou como um compositor expõe o seu processo criativo: a escrita tem (ainda) uma “aura” romantizada, apesar da conhecida anedota de Baudelaire, retomada por Walter Benjamin. Correndo todos os riscos expostos acima, atrevo-me a fazer um breve comentário sobre as fases de minha atividade poética, por um único motivo: é um balanço crítico que faço para mim mesmo, e para aqueles interessados em minha escrita. Em meus três primeiros livros – Sutra (1992), Yumê (1999) e A sombra do leopardo (2001), é visível a influência da Poesia Concreta – especialmente de Haroldo de Campos –, do Neobarroco, da poesia e filosofia chinesa e japonesa e (no caso do último título) de alguns poetas expressionistas de língua alemã, especialmente Georg Trakl e Gottfried Benn. Acredito que este repertório me acompanha até hoje, apesar das mudanças temáticas que aconteceram no livro seguinte, Figuras metálicas (2004), que inicia uma segunda fase de minha escrita, à qual pertencem ainda Fera bifronte (2008), Cores para cegos (2012) e Esqueletos do nunca (2015, este último uma série de aforismos e pequenos poemas em prosa de caráter autobiográfico). Nestas quatro obras, a presença barroca é mais explícita, pelo emprego de recursos e formas poéticas como o anagrama, o enigma, a alegoria, o labirinto de versos e o labirinto de palavras, mas há um elemento novo aqui: o afastamento da ilusão de uma “poesia pura”, abstratizante, e a tentativa de representação do mundo, por exemplo no bestiário incluído em Figuras metálicas, em que baratas, piolhos, pulgas e formigas representam personagens contemporâneos como a atriz de novela, o executivo, o gerente de markerting e o operário fabril. Nos primeiros poemas do volume, também está presente o tema da guerra, e em especial as intervenções imperialistas no Iraque e no Afeganistão (por exemplo, no poema Os budas de Bamyan). Esta mudança temática, embrionária, irá amadurecer na terceira fase de meu trabalho, que inclui, até agora, os Cadernos bestiais, organizados em três volumes, sendo que o primeiro foi publicado em 2015, e o Livro dos orikis, inédito. No primeiro volume dos Cadernos, reuni os dez poemas Antimídia; no segundo, que sairá em 2016, estão os Hinos -- ao Homem de Bem, ao Juiz, ao Médico, ao Fabricante de Cerveja, à Polícia, ao Predicante, ao Humorista, ao Congresso Nacional etc. -- e no terceiro haverá uma série de Retratos -- do Banqueiro, do Filósofo, do Sonegador, do Endividado, do Famoso Romancista, do Poeta Burguês etc. Retrato é um gênero da poesia barroca em que as qualidades (ou defeitos) do retratado são simbolizadas por animais, pedras, flores, frutos, minérios. Posteriormente, reunirei os três cadernos em um único volume, que terá como fio condutor a representação crítica, alegórica, do tempo presente, com o emprego da ironia e da sátira (elementos ausentes, até então, em minha poesia, embora visíveis na prosa do Romanceiro de Dona Virgo). A influência de Brecht e de Maiakovski, nesta terceira fase, é evidente. O livro dos orikis será uma reunião de 18 poemas dedicados aos principais orixás do candomblé, das tradições ketu, jejê e bantu, com uma visada contemporânea. A espiritualidade, aqui, não se divorcia do enfoque crítico das injustiças sociais, ao contrário: as entidades são evocadas – ou invocadas – dentro de uma voluntária parcialidade e posicionamento político. Este é, talvez – e aqui é impossível evitar a subjetividade – o meu livro melhor realizado, em termos poéticos, pela fusão de fundo e forma e por uma espontaneidade musical que surpreendeu o autor. Acrescentar qualquer outra declaração seria condenável prolixidade; creio ter dito o suficiente para delimitar o terreno e expor-me à crítica roedora do tempo e das traças.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

sábado, 9 de maio de 2015

UM POEMA DE JONATAS ONOFRE


O vento só aparece no escuro, uma voz disse.
Deves esconder teus dentes
naquilo que ainda
não perdeste
antes que o medo
o faça
deves morder sem pressa,
sem presságios,
e esquecer a língua no
improvável céu de outras
bocas,
deves abrir todas essas bocas
com alguma faca,
ou hinários, ou manuais
obscenos,
mas nunca se dar ao trabalho
de limpar o sangue
deves esperar que coagule,
procurar respingos nas pedras
e nos abrigos
onde os cães e as mães
ressonam,
por toda a eternidade
das calçadas
procurar os respingos,
e deves achar, se tiveres sorte,
um principio de fome,
que nem perceberás como fome,
e que não será só
fome,
mas uma vontade que ainda
não se nomeou,
desconhecendo-se por completo
o lado em que dorme numa
possível vastidão de
dicionários
e deves acreditar em mim,
deves seguir mordendo, e procurando,
e andando em círculos,
uma, duas, sete vidas
de vitrine em vitrine,
sem perguntas, preocupando-se
apenas em fabricar os círculos
cada vez mais
abertos,
entre os dedos dos pés
deves ser ínfimo antes de
cínico ,
e não deves andar tão abraçado
com pequenos fracassos,
mas nunca será
demais
tropeçar a cada esquina
e sorrir
ao partir a primeira perna,
ao perder uma mísera
clavícula,
pois bem-
aventurado
és, como uma libélula
no nariz de uma rã,
e tolo como um profeta
degolando leões cegos,
há uma morte súbita
e um doce esquecimento
ao lado do único
poema
que te permitirão
escrever,
então sufoque o desejo
de ver o vento,
quando fizer escuro
suficiente,
não haverá olho,
os poucos dentes estarão
perdidos
onde os escondeste,
terás
apenas a sombra de uma
boca,
latejando num quarto,
e ventiladores
no teto
para te atormentar,
sempre
que lembrares o que
uma voz disse.