
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
DIÁRIO DE UM ANTICRÍTICO (VII)
IMAGENS DO MUNDO FLUTUANTE
Livro dos ventos, título de estréia da poeta Jacineide Travassos, é um conjunto de narrativas líricas divididas em duas partes: Hálito e Nome e Natureza Móvel, nomes que já indicam, desde o prólogo – intitulado Pequena História do Nascimento do Mundo - alguns dos temas essenciais desta obra: a invocação dos elementos e das estações, as referências míticas, a busca de uma origem simbólica e a fundação de um universo pessoal pela linguagem. A autora não pretende retomar a tradição bucólica, que tem antecedentes ilustres, como Virgílio, mas antes reinventar a natureza como ser semântico, numa particular teodicéia. A forte plasticidade dos poemas, com um meticuloso artesanato metafórico, de viés barroquizante, atinge talvez sua maior expressão nas peças mais condensadas, como Veneris Dies: “os ventos sopram chuva branca / pombas em vôo sólido / navios de pedra / sonorizam o silêncio das horas / ventos sopram a tarde sépia / asas de borboletas quedas da aurora / as folhas rugem eloqüência de mar exilado em Chipre / amor / chuva dos olhos em ilha”, peça que revela a presença fanopaica do haicai de Matsuo Bashô, e ainda a concisão cabralina (aquele Cabral da Pedra de Sono, fiel às conquistas pictóricas de Murilo Mendes).
A natureza, nos poemas de Jacineide Travassos, é uma metonímia do espaço interior, subjetivo, transformado em lírica de imagens (o que fica mais explícito, em especial, na segunda parte do livro, onde ela diz: “o mundo faz-se do olhar / espaços sugeridos pela diagonal / planos sem volume / dissolvem-se na memória / as mãos lentamente / erguem a escritura das ondas”). Ela não faz a descrição convencional do mundo cotidiano, nem cai numa poesia confessional, rotineira, em que as experiências existenciais se sobrepõem aos experimentos lingüísticos; a autora busca antes uma fusão entre o semântico e o subjetivo, obtendo uma voz pessoal que se afirma como fato estético — idéia prenunciada já na epígrafe do livro, de Pietro Wagner: “depois inventa uma pátria para o teu pássaro / e um telhado de açucenas para o vôo metal da tua lágrima”. A poeta desautomatiza a escrita, o olhar sobre si mesma e sobre o mundo em pequenas narrativas nas quais o trânsito acelerado das imagens recorda as técnicas do cinema, como na peça Ulisses e o silêncio das sereias: “nos olhos mulher cindida em azul e carne / carne em mudez de matéria / pedra / Ulisses ferindo os pés em geografia marítima / nos olhos o sangrar da memória / lâmina sulcando os mares / enunciando ilíadas odisséias inventários”. Nada é estático aqui: tudo se move numa dança dos signos no branco da página, indicando talvez o caráter lúdico, mutável e impermanente de todas as coisas, como já sabiam Lao Tzu e Heráclito de Éfeso. Uma dança cósmica, totemizada na poesia, que é a expressão do pensamento pela música.
Livro dos ventos, título de estréia da poeta Jacineide Travassos, é um conjunto de narrativas líricas divididas em duas partes: Hálito e Nome e Natureza Móvel, nomes que já indicam, desde o prólogo – intitulado Pequena História do Nascimento do Mundo - alguns dos temas essenciais desta obra: a invocação dos elementos e das estações, as referências míticas, a busca de uma origem simbólica e a fundação de um universo pessoal pela linguagem. A autora não pretende retomar a tradição bucólica, que tem antecedentes ilustres, como Virgílio, mas antes reinventar a natureza como ser semântico, numa particular teodicéia. A forte plasticidade dos poemas, com um meticuloso artesanato metafórico, de viés barroquizante, atinge talvez sua maior expressão nas peças mais condensadas, como Veneris Dies: “os ventos sopram chuva branca / pombas em vôo sólido / navios de pedra / sonorizam o silêncio das horas / ventos sopram a tarde sépia / asas de borboletas quedas da aurora / as folhas rugem eloqüência de mar exilado em Chipre / amor / chuva dos olhos em ilha”, peça que revela a presença fanopaica do haicai de Matsuo Bashô, e ainda a concisão cabralina (aquele Cabral da Pedra de Sono, fiel às conquistas pictóricas de Murilo Mendes).
A natureza, nos poemas de Jacineide Travassos, é uma metonímia do espaço interior, subjetivo, transformado em lírica de imagens (o que fica mais explícito, em especial, na segunda parte do livro, onde ela diz: “o mundo faz-se do olhar / espaços sugeridos pela diagonal / planos sem volume / dissolvem-se na memória / as mãos lentamente / erguem a escritura das ondas”). Ela não faz a descrição convencional do mundo cotidiano, nem cai numa poesia confessional, rotineira, em que as experiências existenciais se sobrepõem aos experimentos lingüísticos; a autora busca antes uma fusão entre o semântico e o subjetivo, obtendo uma voz pessoal que se afirma como fato estético — idéia prenunciada já na epígrafe do livro, de Pietro Wagner: “depois inventa uma pátria para o teu pássaro / e um telhado de açucenas para o vôo metal da tua lágrima”. A poeta desautomatiza a escrita, o olhar sobre si mesma e sobre o mundo em pequenas narrativas nas quais o trânsito acelerado das imagens recorda as técnicas do cinema, como na peça Ulisses e o silêncio das sereias: “nos olhos mulher cindida em azul e carne / carne em mudez de matéria / pedra / Ulisses ferindo os pés em geografia marítima / nos olhos o sangrar da memória / lâmina sulcando os mares / enunciando ilíadas odisséias inventários”. Nada é estático aqui: tudo se move numa dança dos signos no branco da página, indicando talvez o caráter lúdico, mutável e impermanente de todas as coisas, como já sabiam Lao Tzu e Heráclito de Éfeso. Uma dança cósmica, totemizada na poesia, que é a expressão do pensamento pela música.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
DIÁRIO DE UM ANTICRÍTICO (VI)
UMA TEMPORADA NO INFERNO URBANO
A Musa Chapada é um livro que reúne poemas de Ademir Assunção e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte com ilustrações do artista plástico Carlos Carah, que traduziu a alta temperatura dos textos em imagens brutais, próximas a um figurativismo expressionista. O volume está dividido em quatro seções: Grogues e noturnos, Viagem através da neblina, Clube do Pico e Bagana’s Blues, que abordam o consumo de drogas no cenário de miséria e violência dos centros urbanos. Os poemas fazem referência a lugares conhecidos de São Paulo, como o Largo de São Bento, a Catedral da Sé, o Parque do Carmo, o Bexiga, por onde circulam personagens criados pelos autores, como Igor, Lili Maconha ou Mister Morfina, em cenas que recordam a velocidade narrativa do videoclipe e da história em quadrinhos.
Em Clube do Pico, poema de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte (título que ecoa o lendário Clube do fogo do inferno), o autor imagina um casarão abandonado na Zona Leste, onde jovens se reúnem à noite para beber, fumar baseado ou fazer sexo: “vai chegando gente / só vai menina gostosa / só vai moleque bonito / menina beijando menina / vão lá no Clube do Pico”. Os versos são breves, coloquiais e permitem uma aproximação com o poema Osso & liberdade, de Roberto Piva, outro clube imaginário freqüentado por garotos que dedicavam-se a orgias e à leitura de Mário de Andrade.
Piva, aliás, é a principal referência intertextual da Musa Chapada, e em especial o livro Paranóia, de 1963, onde encontramos uma peça intitulada Visão de São Paulo à noite. Poema antropófago sob narcótico, que se insere numa tradição marginal da literatura que teve início em meados do século XIX. Conforme escreve Virna Teixeira no prefácio à Musa Chapada, o consumo de drogas é “tão antigo quanto a civilização”, mas sua presença na literatura “surgiu após os avanços da Revolução Industrial, sobretudo a partir do uso de ópio na época do Romantismo inglês”. As Confissões de um comedor de ópio, de Thomas De Quincey, publicado em 1821, inaugurou essa linha temática na literatura ocidental, e atingiu um ponto de ebulição na época do Simbolismo, especialmente com o livro Paraísos artificiais, de Baudelaire.
No século XX, as drogas marcaram presença nas obras de autores como Huxley, Artaud, Ginsberg, que consideravam a ingestão de alucinógenos um método para a obtenção de estados alterados de consciência, além de ser uma atitude de ruptura com as normas burguesas. Para Camilo Pessanha e Henri Michaux, a droga foi um estímulo à criação, e ainda hoje se discute a influência dos entorpecentes na escrita desses autores. A visão ingênua em torno das drogas atingirá o seu ápice nas décadas de 1960-70, com a contracultura, que colocou o uso do LSD no mesmo plano que a liberação sexual, a contestação política, o rock e a busca de antigas religiões, como o xamanismo. Nos tempos pós-modernos, a mitologia da droga não exerce o mesmo encanto, pela divulgação de informações médicas sobre os seus efeitos na saúde física e mental e pelo vínculo entre a droga e o crime organizado. O charme de se beber absinto num cabaré parisiense cedeu vez às imagens de crianças cheirando crack debaixo de viadutos.
É neste cenário desolado que se desenrolam as narrativas poéticas da Musa Chapada, que não ignoram a guerra em curso nos centros urbanos, que Ademir Assunção retratou no poema Paisagem crivada de balas: “As rajadas podem ser ouvidas de Pirituba ao Pontal. / Escopetas, uzis israelenses e fuzis russos / sangram as bordas da Noite Drogada”. A violência é sintetizada por Ademir num verso notável: “Deus está solto. E dizem que Ele está armado”. A Musa Chapada, porém, não se resume a um rude naturalismo, por maior que seja a aproximação entre arte e realidade proposta no livro. Os autores dominam a técnica poética, e vamos encontrar recursos como a elipse, a paródia, a citação, a enumeração caótica, a espacialização das linhas, o diálogo com outras artes, e em especial a música, o cinema, o comic book, a pintura. Virna Teixeira aponta a incorporação de gírias do mundo da droga, como talco, granizo, farinha ou nariz nervoso, que trazem a marginalidade da temática ao próprio campo semântico.
Nos poemas de Ademir Assunção a enumeração caótica é um elemento estrutural, como em Noturno com marijuana, que mescla o jazz de Miles Davis a sacos de lixo, filmes de Hollywood ao monte Fuji e deusas do Olimpo a ogivas nucleares. Já nos poemas de Antônio Vicente vamos encontrar sex shops, pôsteres, metralhadoras, calcinhas e outras referências simbólicas que formam um bric a brac da cidade caótica. A paródia é um recurso utilizado com freqüência pelos dois autores, com ênfase na dessacralização religiosa, como na antiprece Santa Maria Joana, de Ademir Assunção (“erva santa dos xamãs / pode ser treva / pode ser canto / pode ser trava / pode ser cura”) ou na Reza n. 2 de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte (“irmão Fogo / brasa do cigarro acesa / asa do carvão / sopro do carvão ao vento / na fumaça preta”).
O diálogo com a tradição literária também aparece em diversos poemas, como A volta do anjo torto, em que Ademir Assunção faz referências a Carlos Drummond de Andrade e Torquato Neto (“mas eis que um anjo torto / aquele mesmo, com asas de avião / entrou pela porta / um baseado na mão”). A presença das histórias em quadrinhos é recorrente em todo o volume, não apenas pelas ações rápidas e fragmentárias, como também pela citação de personagens como o Hulk, o Coringa, o King Kong, entre outros, como no poema O fim da história em Gotham City, de Ademir Assunção (“enquanto Coringa injeta no braço esquálido / a última gota da ampola / e Batman se retorce como uma cobra / picotada pelas garras das Iguanas de Hong Kong”). “O clima de horror e ficção científica” da Musa Chapada, diz Virna Teixeira, “traz as marcas de uma escrita psicodélica”, em que as fronteiras entre os universos real e simbólico são tênues. Porém, lendo com atenção este livro, o que notamos não é a busca de “estados alterados de consciência”, e sim o mergulho lúcido e crítico numa realidade cada vez mais próxima dos pesadelos de uma bad trip.
A Musa Chapada é um livro que reúne poemas de Ademir Assunção e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte com ilustrações do artista plástico Carlos Carah, que traduziu a alta temperatura dos textos em imagens brutais, próximas a um figurativismo expressionista. O volume está dividido em quatro seções: Grogues e noturnos, Viagem através da neblina, Clube do Pico e Bagana’s Blues, que abordam o consumo de drogas no cenário de miséria e violência dos centros urbanos. Os poemas fazem referência a lugares conhecidos de São Paulo, como o Largo de São Bento, a Catedral da Sé, o Parque do Carmo, o Bexiga, por onde circulam personagens criados pelos autores, como Igor, Lili Maconha ou Mister Morfina, em cenas que recordam a velocidade narrativa do videoclipe e da história em quadrinhos.
Em Clube do Pico, poema de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte (título que ecoa o lendário Clube do fogo do inferno), o autor imagina um casarão abandonado na Zona Leste, onde jovens se reúnem à noite para beber, fumar baseado ou fazer sexo: “vai chegando gente / só vai menina gostosa / só vai moleque bonito / menina beijando menina / vão lá no Clube do Pico”. Os versos são breves, coloquiais e permitem uma aproximação com o poema Osso & liberdade, de Roberto Piva, outro clube imaginário freqüentado por garotos que dedicavam-se a orgias e à leitura de Mário de Andrade.
Piva, aliás, é a principal referência intertextual da Musa Chapada, e em especial o livro Paranóia, de 1963, onde encontramos uma peça intitulada Visão de São Paulo à noite. Poema antropófago sob narcótico, que se insere numa tradição marginal da literatura que teve início em meados do século XIX. Conforme escreve Virna Teixeira no prefácio à Musa Chapada, o consumo de drogas é “tão antigo quanto a civilização”, mas sua presença na literatura “surgiu após os avanços da Revolução Industrial, sobretudo a partir do uso de ópio na época do Romantismo inglês”. As Confissões de um comedor de ópio, de Thomas De Quincey, publicado em 1821, inaugurou essa linha temática na literatura ocidental, e atingiu um ponto de ebulição na época do Simbolismo, especialmente com o livro Paraísos artificiais, de Baudelaire.
No século XX, as drogas marcaram presença nas obras de autores como Huxley, Artaud, Ginsberg, que consideravam a ingestão de alucinógenos um método para a obtenção de estados alterados de consciência, além de ser uma atitude de ruptura com as normas burguesas. Para Camilo Pessanha e Henri Michaux, a droga foi um estímulo à criação, e ainda hoje se discute a influência dos entorpecentes na escrita desses autores. A visão ingênua em torno das drogas atingirá o seu ápice nas décadas de 1960-70, com a contracultura, que colocou o uso do LSD no mesmo plano que a liberação sexual, a contestação política, o rock e a busca de antigas religiões, como o xamanismo. Nos tempos pós-modernos, a mitologia da droga não exerce o mesmo encanto, pela divulgação de informações médicas sobre os seus efeitos na saúde física e mental e pelo vínculo entre a droga e o crime organizado. O charme de se beber absinto num cabaré parisiense cedeu vez às imagens de crianças cheirando crack debaixo de viadutos.
É neste cenário desolado que se desenrolam as narrativas poéticas da Musa Chapada, que não ignoram a guerra em curso nos centros urbanos, que Ademir Assunção retratou no poema Paisagem crivada de balas: “As rajadas podem ser ouvidas de Pirituba ao Pontal. / Escopetas, uzis israelenses e fuzis russos / sangram as bordas da Noite Drogada”. A violência é sintetizada por Ademir num verso notável: “Deus está solto. E dizem que Ele está armado”. A Musa Chapada, porém, não se resume a um rude naturalismo, por maior que seja a aproximação entre arte e realidade proposta no livro. Os autores dominam a técnica poética, e vamos encontrar recursos como a elipse, a paródia, a citação, a enumeração caótica, a espacialização das linhas, o diálogo com outras artes, e em especial a música, o cinema, o comic book, a pintura. Virna Teixeira aponta a incorporação de gírias do mundo da droga, como talco, granizo, farinha ou nariz nervoso, que trazem a marginalidade da temática ao próprio campo semântico.
Nos poemas de Ademir Assunção a enumeração caótica é um elemento estrutural, como em Noturno com marijuana, que mescla o jazz de Miles Davis a sacos de lixo, filmes de Hollywood ao monte Fuji e deusas do Olimpo a ogivas nucleares. Já nos poemas de Antônio Vicente vamos encontrar sex shops, pôsteres, metralhadoras, calcinhas e outras referências simbólicas que formam um bric a brac da cidade caótica. A paródia é um recurso utilizado com freqüência pelos dois autores, com ênfase na dessacralização religiosa, como na antiprece Santa Maria Joana, de Ademir Assunção (“erva santa dos xamãs / pode ser treva / pode ser canto / pode ser trava / pode ser cura”) ou na Reza n. 2 de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte (“irmão Fogo / brasa do cigarro acesa / asa do carvão / sopro do carvão ao vento / na fumaça preta”).
O diálogo com a tradição literária também aparece em diversos poemas, como A volta do anjo torto, em que Ademir Assunção faz referências a Carlos Drummond de Andrade e Torquato Neto (“mas eis que um anjo torto / aquele mesmo, com asas de avião / entrou pela porta / um baseado na mão”). A presença das histórias em quadrinhos é recorrente em todo o volume, não apenas pelas ações rápidas e fragmentárias, como também pela citação de personagens como o Hulk, o Coringa, o King Kong, entre outros, como no poema O fim da história em Gotham City, de Ademir Assunção (“enquanto Coringa injeta no braço esquálido / a última gota da ampola / e Batman se retorce como uma cobra / picotada pelas garras das Iguanas de Hong Kong”). “O clima de horror e ficção científica” da Musa Chapada, diz Virna Teixeira, “traz as marcas de uma escrita psicodélica”, em que as fronteiras entre os universos real e simbólico são tênues. Porém, lendo com atenção este livro, o que notamos não é a busca de “estados alterados de consciência”, e sim o mergulho lúcido e crítico numa realidade cada vez mais próxima dos pesadelos de uma bad trip.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
DIÁRIO DE UM ANTICRÍTICO (V)
A PALAVRA EM ESPIRAL DE VIRNA TEIXEIRA
Heráclito apontou a mudança cíclica como a essência da natureza; tudo é um contínuo deslocamento, similar ao fluxo das águas de um rio. As idéias de impermanência e mutação, presentes também no pensamento taoísta, como nas conhecidas anedotas de Chuang-Tzu, questionam a presunção da estabilidade, da fixidez, do eterno; a metáfora da viagem é um bom exemplo dessa concepção, e não por acaso temos relatos como os diários de viagem de Bashô, A Linguagem dos Pássaros de Attar, as aventuras de Simbad e Odisseu, entre tantos outros que representam, de maneira simbólica, a transitoriedade e mutabilidade do homem e do mundo. Tudo é viagem, tudo é miragem, um incessante jogo de metamorfoses. Estes são os pensamentos iniciais que me ocorrem ao ler os poemas de Virna Teixeira, que tematizam o contínuo deslocar-se, em várias acepções: o percurso geográfico, a jornada interior, no âmbito das sensações e imagens mentais, e sobretudo o trânsito da linguagem, os movimentos da palavra poética em diferentes formas de estruturação.
Virna Teixeira estreou em 2000 com o livro de poemas Visita, um conjunto de textos breves que descrevem suas viagens, leituras e experiências pessoais. Com olhar clínico e preciso no recorte das linhas, ela retrata paisagens e situações de modo conciso, fragmentário, quase cubista. Elementos mínimos são suficientes para compor a sua fabulação, cujo centro é uma cena ou gesto de maior intensidade, em torno do qual se articula o poema; o movimento acelerado das palavras, por sua vez, dá maior agilidade e poder de impacto à composição, que recorda uma seqüência de videoclipe. Assim, por exemplo, em Meio-dia: “beira de viaduto, / mendigo / descalço / televisão nos braços / súbito, arremessada / avenida abaixo / cacos / carros — veloz / disputa / dos pedaços, asfalto / enquanto / esfregar de mãos / os passos / sem pressa”. A temática urbana é uma constante na poesia de Virna, onde encontramos táxis, bicicletas, avenidas, placas de trânsito e out doors, mas o seu espaço geográfico é múltiplo: ela pode se referir a um evento ocorrido em São Paulo, Londres, Lisboa ou New York, animada pelo impulso do viajante, aquele cuja casa está em toda parte e em lugar nenhum; sua pátria é a sua fala, suas lembranças, seu universo particular, em constante ebulição. Os diálogos com a fotografia, o cinema e as artes plásticas, já evidentes em sua primeira lírica (recordemos a peça “um travesseiro / bordado, canto / esquerdo: / ninguém”, evocando Leonilson), permanecem e evoluem em seu segundo título publicado, Distância, de 2005. Este livro é um ritual de passagem, em que a autora afirma o pleno domínio de sua linguagem e ao mesmo tempo amplia o repertório temático e estilístico, construindo poemas de forte visualidade e um tom dramático expressivo — não no sentido da retórica, do jorro confessional, mas algo como um teatro poético, em que a ação é composta por um arranjo de cenários, objetos e pequenas falas, como neste poema sem título: “pavilhão 8 / cela 63 / faz quinze dias / que eles prenderam / você /a inscrição nos dedos / fox / nas grades / dos olhos / um cartão de visita / lá fora / espera / a sentença / apuro / no silêncio / da enfermaria / ‘é perigoso, o que / eu poderia / dizer’ / na neve, a raposa / deixa rastros”.
Intensidade é uma palavra essencial quando falamos da poesia de Virna, capaz de conciliar o mais alto lirismo com a forma meditada, construída com rigor de linguagem. Esta leitora de Ana Cristina César e João Cabral de Melo Neto sabe que a poesia move-se em espiral entre a emoção e a inteligência, o real e o imaginário, a sonoridade e o silêncio, numa aventura da linguagem ou irrupção de signos. Ela não necessita de mais do que onze palavras (sendo três artigos) para criar uma seqüência quase cinematográfica: “pequeno, o / frágil / corpo / soluça / vermelha, / a flor / entre os / dedos”, que recorda a objetividade de poetas como William Carlos Williams, a capacidade de síntese do haicai japonês e os recortes fílmicos de Jean Luc Godard. O que chama a atenção em Distância, porém, é a transição do minimalismo para outras formas de dizer, especialmente na última seção do livro, chamada Entre paredes. Encontramos aqui algumas peças que se aproximam da prosa, expandindo a música verbal, agora menos solista do que camerística, como numa peça notável que começa com estas linhas: “Eu estou morrendo, ele disse / O lápis verde escorrendo sob as pálpebras. / O que é ilusão nas horas transitórias. / Neste barco náufrago, atrás desta murada”. Temos aqui quase uma antecipação do livro Trânsitos, seu terceiro título, publicado agora pela Lumme Editor (selo Caixa Preta) que radicaliza as experiências anteriores, mostrando a capacidade de renovação da autora.
Na primeira seção do livro, temos um guia de viagem que nos remete às perambulações de Virna por países como Escócia, México, Índia e África do Sul; nesse breve baedecker, o leitor atento encontrará fotografias semânticas de cenários naturais, monumentos, citações de lendas e descrições do cotidiano, mas também perceberá uma capacidade maior de concentração e densidade poética, numa pluralidade de formas, nuances e tons. Cada poema é uma viagem; seria difícil destacar uma peça do conjunto. Em aguafuerte, porém, Virna alcança um timbre pouco comum em sua lírica, misturando referências de um universo sensorial onde o solene, o místico, o popular e o jocoso fundem-se no mesmo caldeirão, de inevitável kitsch e humor negro: “tequila, cerveza y cigarillos / mescalina, crânios de açúcar / bailavam: uma danza / de serpentes”. Como contraponto a essa luminosidade, a seção seguinte do livro é ambientada na sombra; o mundo objetivo cede lugar ao subjetivo, e a viagem para fora a outra, para dentro. Patinando no gelo fino é um ciclo de peças inspiradas no trabalho fotográfico da artista norte-americana Nan Golding, que retratou a intimidade, a sensualidade e o desespero dos junkies, habitantes do “playground do diabo” (título aliás de um poema publicado em Distância). São poemas que desprezam a distinção entre verso e prosa; apesar da concisão vocabular e do uso preferencial de substantivos, com poucas metáforas, a clareza é turvada pelo uso da elipse, do corte metonímico e da montagem fragmentária dos elementos (novamente, o cinema), como nesta composição (sem título): “Nado em alto-mar, maremoto. Flutuar sobre naufrágios, resíduos. Submersa no que não era – afogamento. Mergulho, viagem marítima. Escapismo, estrelas-do-mar. Sentimentos líquidos. Ebulição. Dissolução de formas. Novas, transitórias, fluidas. Tensão, polaridade. Repetição, aprendizado: trajeto contra a correnteza até a margem. Memória da água. Desenhos na areia, espuma”. O elemento líquido, aliás, percorre outros poemas da série (e convém recordar que a água relaciona-se com o mundo das emoções; com a origem da vida, na substância amniótica; e ainda com o fluir heraclítico do tempo e a mutação dos fenômenos, “tudo riocorrente”). Água, espelho de Narciso, o apaixonado por si mesmo, que não ouve os apelos da ninfa Eco. Água, abismo pessoal onde se acumulam detritos, sofrimentos, memórias: “como a minha sombra, nua atrás do espelho” (para citarmos a epígrafe de Maria-Mercè Marçal que abre esse caderno de poemas).
A jornada pelo imaginário dos alcoólatras, dependentes químicos e outros desajustados sociais, que dá a tônica na segunda seção do livro, é desenvolvida na terceira, Da vida das marionetes, onde encontramos um “coração de couro / com tachas de metal”, “bonecas, penduradas / no céu desta noite” e o junkie de “tatuagens desbotadas”, “desempregado / nas ruas de / Glasgow”. Se a presença do cinema é óbvia desde o poema inicial (Ken Loach), notamos também o registro da violência e do kitsch do submundo, que sugerem paralelos com a pintura de Francis Bacon, a fotografia de Diane Arbus, a linguagem narrativa dos comics e os ritmos ásperos do punk rock: a poesia de Virna não se contenta em ser apenas literária, o trânsito de influências entre artes e meios de expressão é uma necessidade a priori de seu método compositivo, de suas escolhas e estratégias. No campo simbólico, ela tece uma ampla metáfora do inferno (nesta série, há um poema chamado Hades), visto não como entidade teológica, metafísica, mas como experiência sensível, vivida neste mundo: nós escolhemos a nossa própria configuração de lamentos, pedimos ao cenobita que retalhe nossa carne com correntes e ganchos, e não podemos culpar ninguém por nossa sorte: “não há adversários — nem drogados / felizes”. A mitologia diabólica prossegue, junto a outros temas, nas duas seções finais do livro, Instamáticos e Impromptus, que reúnem peças breves, fragmentárias, como um retorno ao quase-silêncio, após a incisão da navalha: “o que se corta, cicatriza / corpo feito em pedaços / deformados em / movimento” (de Estudo para portrait I). Haveria muito mais o que dizer da poesia de Virna, como o uso sutil que ela faz do humor e da ironia, a abordagem plástica da lírica amorosa, a reinvenção do cotidiano pelo imaginário, mas isso exigiria um texto de maior fôlego que o de uma simples apresentação. Podemos concluir este breve texto afirmando que, em Trânsitos, temos uma autora que domina de maneira consciente a arte das palavras, e que sabe unir a intensidade de emoções e pensamentos ao rigoroso engenho formal, sem o que não é possível estabelecer nenhuma aventura intelectual.
Virna Teixeira estreou em 2000 com o livro de poemas Visita, um conjunto de textos breves que descrevem suas viagens, leituras e experiências pessoais. Com olhar clínico e preciso no recorte das linhas, ela retrata paisagens e situações de modo conciso, fragmentário, quase cubista. Elementos mínimos são suficientes para compor a sua fabulação, cujo centro é uma cena ou gesto de maior intensidade, em torno do qual se articula o poema; o movimento acelerado das palavras, por sua vez, dá maior agilidade e poder de impacto à composição, que recorda uma seqüência de videoclipe. Assim, por exemplo, em Meio-dia: “beira de viaduto, / mendigo / descalço / televisão nos braços / súbito, arremessada / avenida abaixo / cacos / carros — veloz / disputa / dos pedaços, asfalto / enquanto / esfregar de mãos / os passos / sem pressa”. A temática urbana é uma constante na poesia de Virna, onde encontramos táxis, bicicletas, avenidas, placas de trânsito e out doors, mas o seu espaço geográfico é múltiplo: ela pode se referir a um evento ocorrido em São Paulo, Londres, Lisboa ou New York, animada pelo impulso do viajante, aquele cuja casa está em toda parte e em lugar nenhum; sua pátria é a sua fala, suas lembranças, seu universo particular, em constante ebulição. Os diálogos com a fotografia, o cinema e as artes plásticas, já evidentes em sua primeira lírica (recordemos a peça “um travesseiro / bordado, canto / esquerdo: / ninguém”, evocando Leonilson), permanecem e evoluem em seu segundo título publicado, Distância, de 2005. Este livro é um ritual de passagem, em que a autora afirma o pleno domínio de sua linguagem e ao mesmo tempo amplia o repertório temático e estilístico, construindo poemas de forte visualidade e um tom dramático expressivo — não no sentido da retórica, do jorro confessional, mas algo como um teatro poético, em que a ação é composta por um arranjo de cenários, objetos e pequenas falas, como neste poema sem título: “pavilhão 8 / cela 63 / faz quinze dias / que eles prenderam / você /a inscrição nos dedos / fox / nas grades / dos olhos / um cartão de visita / lá fora / espera / a sentença / apuro / no silêncio / da enfermaria / ‘é perigoso, o que / eu poderia / dizer’ / na neve, a raposa / deixa rastros”.
Intensidade é uma palavra essencial quando falamos da poesia de Virna, capaz de conciliar o mais alto lirismo com a forma meditada, construída com rigor de linguagem. Esta leitora de Ana Cristina César e João Cabral de Melo Neto sabe que a poesia move-se em espiral entre a emoção e a inteligência, o real e o imaginário, a sonoridade e o silêncio, numa aventura da linguagem ou irrupção de signos. Ela não necessita de mais do que onze palavras (sendo três artigos) para criar uma seqüência quase cinematográfica: “pequeno, o / frágil / corpo / soluça / vermelha, / a flor / entre os / dedos”, que recorda a objetividade de poetas como William Carlos Williams, a capacidade de síntese do haicai japonês e os recortes fílmicos de Jean Luc Godard. O que chama a atenção em Distância, porém, é a transição do minimalismo para outras formas de dizer, especialmente na última seção do livro, chamada Entre paredes. Encontramos aqui algumas peças que se aproximam da prosa, expandindo a música verbal, agora menos solista do que camerística, como numa peça notável que começa com estas linhas: “Eu estou morrendo, ele disse / O lápis verde escorrendo sob as pálpebras. / O que é ilusão nas horas transitórias. / Neste barco náufrago, atrás desta murada”. Temos aqui quase uma antecipação do livro Trânsitos, seu terceiro título, publicado agora pela Lumme Editor (selo Caixa Preta) que radicaliza as experiências anteriores, mostrando a capacidade de renovação da autora.
Na primeira seção do livro, temos um guia de viagem que nos remete às perambulações de Virna por países como Escócia, México, Índia e África do Sul; nesse breve baedecker, o leitor atento encontrará fotografias semânticas de cenários naturais, monumentos, citações de lendas e descrições do cotidiano, mas também perceberá uma capacidade maior de concentração e densidade poética, numa pluralidade de formas, nuances e tons. Cada poema é uma viagem; seria difícil destacar uma peça do conjunto. Em aguafuerte, porém, Virna alcança um timbre pouco comum em sua lírica, misturando referências de um universo sensorial onde o solene, o místico, o popular e o jocoso fundem-se no mesmo caldeirão, de inevitável kitsch e humor negro: “tequila, cerveza y cigarillos / mescalina, crânios de açúcar / bailavam: uma danza / de serpentes”. Como contraponto a essa luminosidade, a seção seguinte do livro é ambientada na sombra; o mundo objetivo cede lugar ao subjetivo, e a viagem para fora a outra, para dentro. Patinando no gelo fino é um ciclo de peças inspiradas no trabalho fotográfico da artista norte-americana Nan Golding, que retratou a intimidade, a sensualidade e o desespero dos junkies, habitantes do “playground do diabo” (título aliás de um poema publicado em Distância). São poemas que desprezam a distinção entre verso e prosa; apesar da concisão vocabular e do uso preferencial de substantivos, com poucas metáforas, a clareza é turvada pelo uso da elipse, do corte metonímico e da montagem fragmentária dos elementos (novamente, o cinema), como nesta composição (sem título): “Nado em alto-mar, maremoto. Flutuar sobre naufrágios, resíduos. Submersa no que não era – afogamento. Mergulho, viagem marítima. Escapismo, estrelas-do-mar. Sentimentos líquidos. Ebulição. Dissolução de formas. Novas, transitórias, fluidas. Tensão, polaridade. Repetição, aprendizado: trajeto contra a correnteza até a margem. Memória da água. Desenhos na areia, espuma”. O elemento líquido, aliás, percorre outros poemas da série (e convém recordar que a água relaciona-se com o mundo das emoções; com a origem da vida, na substância amniótica; e ainda com o fluir heraclítico do tempo e a mutação dos fenômenos, “tudo riocorrente”). Água, espelho de Narciso, o apaixonado por si mesmo, que não ouve os apelos da ninfa Eco. Água, abismo pessoal onde se acumulam detritos, sofrimentos, memórias: “como a minha sombra, nua atrás do espelho” (para citarmos a epígrafe de Maria-Mercè Marçal que abre esse caderno de poemas).
A jornada pelo imaginário dos alcoólatras, dependentes químicos e outros desajustados sociais, que dá a tônica na segunda seção do livro, é desenvolvida na terceira, Da vida das marionetes, onde encontramos um “coração de couro / com tachas de metal”, “bonecas, penduradas / no céu desta noite” e o junkie de “tatuagens desbotadas”, “desempregado / nas ruas de / Glasgow”. Se a presença do cinema é óbvia desde o poema inicial (Ken Loach), notamos também o registro da violência e do kitsch do submundo, que sugerem paralelos com a pintura de Francis Bacon, a fotografia de Diane Arbus, a linguagem narrativa dos comics e os ritmos ásperos do punk rock: a poesia de Virna não se contenta em ser apenas literária, o trânsito de influências entre artes e meios de expressão é uma necessidade a priori de seu método compositivo, de suas escolhas e estratégias. No campo simbólico, ela tece uma ampla metáfora do inferno (nesta série, há um poema chamado Hades), visto não como entidade teológica, metafísica, mas como experiência sensível, vivida neste mundo: nós escolhemos a nossa própria configuração de lamentos, pedimos ao cenobita que retalhe nossa carne com correntes e ganchos, e não podemos culpar ninguém por nossa sorte: “não há adversários — nem drogados / felizes”. A mitologia diabólica prossegue, junto a outros temas, nas duas seções finais do livro, Instamáticos e Impromptus, que reúnem peças breves, fragmentárias, como um retorno ao quase-silêncio, após a incisão da navalha: “o que se corta, cicatriza / corpo feito em pedaços / deformados em / movimento” (de Estudo para portrait I). Haveria muito mais o que dizer da poesia de Virna, como o uso sutil que ela faz do humor e da ironia, a abordagem plástica da lírica amorosa, a reinvenção do cotidiano pelo imaginário, mas isso exigiria um texto de maior fôlego que o de uma simples apresentação. Podemos concluir este breve texto afirmando que, em Trânsitos, temos uma autora que domina de maneira consciente a arte das palavras, e que sabe unir a intensidade de emoções e pensamentos ao rigoroso engenho formal, sem o que não é possível estabelecer nenhuma aventura intelectual.
sábado, 7 de novembro de 2009
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