sexta-feira, 15 de março de 2019

KITSUNE



Para Alexia Bibi

Raposinha pink fox singer —
olhos de girassol
olhos de giralua
a mais incrível
comedora de pizzas
da Vila Mariana.
Kawaii de-mil-e-um-talentos
inventa virtuais
lobos híbridos
com chifres de alce
e asas de falcão
no game do computador.
Bibi Blue Chan,
youtuber, desenhista,
que ama border collies,
raposas e unicórnios.
Só uma coisa incomoda
t-e-r-r-i-v-e-l-m-e-n-t-e
a cantora kitsune
com olhos de mangá:
levantar às seis
para a lição
de matemática:
hora de rebelião,
revolta, revolução.
Após a tempestade
e a volta para casa,
tudo se aquieta
com búrgueres
marshmallow
milkshakes
e corn flakes.

Poema inédito de Claudio Daniel, 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

CAMINHOS DO RIO VERMELHO




Riscos verdes e vermelhos que nos acompanham
-- Raul Bopp

I

Campo branco – catarata – lençol de linho – miolo de pão – ilhas esbranquiçadas num mar azul: alcateia de nuvens – sol de janeiro – pela janela do avião.

II

(Iansã, senhora-dos-raios-e-dos-ventos, agita o eruexin – zona de turbulência.)

III

Do branco ao verde – caminho de bambus – verdes arcos estirados ao céu –  do verde ao branco da praia – o mar misturado ao sol.

IV

Praia de Itapuã (a) – pedras negras, limo verde, areia sem cor – casal passeia de mãos dadas.

V

Praia de Itapuã (b)  – coqueiros, muro branco do farol, menina corre para o mar, versos de uma canção.

VI

Visita à casa de Vinícius: retrato de Iemanjá, máquina de escrever,  violão, telefone, foto de Mãe Menininha, sereia de barro com os seios nus.

VII

Na primeira pousada em que nos hospedamos – eu, Scheila e Bibi –, em Stella Maris, escrevi este haicai:

Árvore de flores vermelhas
faz sombra
para o gato.

VIII

Esta é a terceira vez que visitamos Salvador. Roteiro amoroso, entre praias e igrejas, moquecas, bobós, acarajés. A cidade, suas cores e cheiros: tudo parece mais vivo e sanguíneo, música da pele que ensina o sol a dançar.  

Ao som do berimbau
meninos jogam
capoeira de verão

IX

Caminhos do Rio Vermelho (a): dia de festa da senhora das águas. Atabaques, batuques, flores brancas e azuis, tatuagens decotadas de negras, muvuca sagrada.

X

Caminhos do Rio Vermelho (b): blocos de foliões saúdam Mamãe Janaína, filhos de Gandhi e filhos de Marx trazem espelhos, fumo, perfumes, foice e martelo, Odoyá, Iemanjá!

XI   
                                                                                                                            
Após a festa da dona das águas, seguimos para o Hotel do Convento, no Pelourinho. Meninas tocam tambores no Carmo. Baianas posam para fotos com turistas, entre quiosques de cocada. Malandros oferecem rezas contra o mau-olhado.  

XII

Na Ladeira do Paço, onde Anselmo Duarte filmou o Pagador de promessas, ponto de encontro de skatistas, grafiteiros, acrobatas e tocadores de tambor, escrevi mais um haicai:

Nos degraus
da escada de pedra
acrobacia de verão

XIII

Feira na Rua da Cabeça. Scheila escolhe flores para o buquê, entre cheiros de alecrim, manjericão, alfazema, hortelã, rosas brancas e frutas frescas. Aqui você encontra de tudo, até o que não deseja comprar.

XIV

Convento do Carmo, no centro do Pelourinho. Casamento barroco, após a festa de Iemanjá. Bibi enfeita o portão da capela com fitinhas azuis e espalha pétalas de rosas pelo chão. Pedro Costa toca Led Zeppelin ao violão, na entrada dos noivos. Scheila toda de branco, vestido branco, brincos brancos de pérola, Claudio de branco e azul, os ladrilhos portugueses, também brancos e azuis. Juiz de paz realiza a cerimônia junto a um pequeno móvel japonês do Período Nanbam. Beijos e cliques.

Escrevi um poema para o casamento, chamado Mapa do Céu:

Lua-de-mim
amor-em-pele-de-oxum
moça-de-olhos-quase-céu

acende a palavra vermelha
no mais fundo de mim
sempre comigo sempre contigo

amor-em-pele-de-oxum
lua-olhos-lua-boca-lua-pele-lua-pés
no mais fundo de mim

anoitece-me enlouquece-me
moça-de-olhos-quase-céu
sempre comigo sempre contigo

Lua de mim

XV

Caminhos do Rio Vermelho (c): Scheila atira as pétalas do buquê de casamento no mar, oferenda a Iemanjá.

Fitas azuis
flores brancas
flutuam no mar


XVI

Durante a viagem, soubemos da tragédia em Minas Gerais. Rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, centenas de mortos e desaparecidos. Meus olhos pensam: tanta beleza, tanta tristeza. A Vale é uma das maiores empresas de mineração do mundo, privatizada por FHC nos anos 90 por uma fração mínima de seu valor de mercado, e pouco se importa com medidas de segurança e proteção ambiental. Revoltado, escrevi os últimos haicais dessa jornada, antes de voltarmos ao ponto de partida:

Criança suja de barro
aperta no peito
filhote de cão.

Olhos, pés, mãos
bocas de lama:
vivos ou mortos?

Chuva de lama:
animais atolados
são mortos a tiros

Moça coberta de lama
nem vemos
o seu rosto

Rio sem peixes
fluem escombros
na água escura

CLAUDIO DANIEL, VERÃO DE 2019

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

POÉTICAS ORIENTAIS





Uma viagem pela poesia da Índia, China, Coreia e Japão. Esta é a proposta do curso POÉTICAS ORIENTAIS, ministrado por Claudio Daniel, que acontecerá a partir do dia 07 de março. Todas as aulas serão realizadas à distância, via internet (Skype), sempre às quintas-feiras, no horário das 20h às 21h30, e incluem apostilas e bibliografia.. Durante os encontros, com duração de um semestre, serão discutidos temas como as bases filosóficas da poesia e da arte orientais – hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo, xintoísmo --, os temas e as formas poéticas praticadas em cada uma dessas literaturas, seus autores e obras principais, com a leitura de traduções poéticas feitas a partir dos textos originais por especialistas renomados e obras teóricas de apoio. A inscrição para o curso é gratuita e a mensalidade é de R$ 100,00. Se você quiser fazer a sua inscrição para participar do curso ou obter mais informações, basta escrever para o professor Claudio Daniel neste grupo mesmo ou pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

Claudio Daniel é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), onde defendeu a tese “A recepção da poesia japonesa em Portugal”. Curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Colaborador da revista CULT. Editor da Zunái, Revista de Poesia e Debates. Publicou os livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001), Figuras Metálicas (2005), Fera Bifronte (2009), Letra Negra (2010), Cores para cegos (2012), Cadernos bestiais (2015), Esqueletos do nunca (2015), Livro de orikis (2015) e o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004). Como tradutor, publicou a antologia Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na América Latina (2004), entre outros títulos. Em Portugal, publicou a antologia poética pessoal Escrito em Osso.

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES



FEVEREIRO / 2019


Entrevista com Andreia Carvalho Gavita


Traduções: Wang Wei, Kim Ki Taek, Jonathan Swift, Robert Creeley

Poemas: Fernando Aguiar (Portugal), Jorge Arrimar (Angola), León Félix Batista (República Dominicana), Roberto Echavarren (Uruguai), Armando Roa Vial (Chile), Rodolfo Hasler (Cuba), Charles Perrone (EUA), Antônio Moura, Scheila Sodré, Diana Junkes, Lígia Dabul, Noku Doi


Prosa de Claudio Daniel


Galeria: telas de Francisco dos Santos


Especiais: O genocídio indígena no Brasil


Ensaios:


Opinião:

CADERNOS DA PALESTINA


Zunái, Revista de Poesia & Debates, www. zunai.com.br

Preço: Inconcebível. Inefável.

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte” (Vallejo).

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

UM POEMA INÉDITO DE CLAUDIO DANIEL

















2019
Para Bao Dei

Caminho
de um escuro
a outra treva
no esqueleto da noite.
Palavras são corvos invisíveis.
Tudo é silêncio
num tempo de desaparições.
Apenas no mercado negro
da memória
revisito as cenas
da triste comédia.
O relógio é mudo
as horas abolidas.
Vem, cavalo negro
da insanidade.
Borra o mapa de mim mesmo.
Listas negras
silêncio imposto
execuções nos campos
execuções nas ruas.
Jornais mentem como juízes.
Esta é a rosa dos corvos
companheiro Bao Dei.
Este é o reflexo sujo
da faca nas águas do rio.
Que venham os carrascos.
Que venham os açougueiros.
Nunca deixarei de rebelar-me
nem que seja neste poema
pesado como um navio.
Nunca deixarei de amar o meu amor.
Nesta noite imensa como um sanatório
soldados removem seus rostos
e mostram-se nadas de nada.

2018



sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

RECITAL DA CAIXA PRETA













O RECITAL DA CAIXA PRETA é um evento organizado pelo poeta Claudio Daniel que acontecerá no dia 14 de dezembro, sexta-feira, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, localizado na rua Vergueiro, n. 1.000, próximo à estação de metrô Vergueiro. Na ocasião, haverá leituras poéticas com a participação de Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Luiz Augusto Borgess, Marcelo Ariel, Ruy Proença, Alfredo Fressia, Vanderley Mendonça, Rubens Jardim, Elson Fróes, Scheila D. Sodré, Andréa Catrópa, Assis de Mello, Marcia Tigani, Maria Marta Nardi de Godoy, Andréia Carvalho Gavita, Valério de Oliveira, Sílvia Nogueira, Luiz Ariston Dantas, Paulo de Toledo, Marcia Barbieri IIi, Diana Junkes e Bruno Kaze

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

BRASIL CHOCOU O OVO DA SERPENTE



















Desde o golpe de estado de 2016, que derrubou a presidenta legítima do Brasil, Dilma Rousseff, eleita com 54 milhões de votos, por um movimento de direita liderado pela grande imprensa – sobretudo a Rede Globo de Televisão – e pelo Judiciário, teve início a implantação de um regime autoritário no Brasil, sustentado por grandes empresários, proprietários rurais, banqueiros, militares, pastores neoevangélicos e setores da classe média alta. A prisão sem provas do ex-presidente Lula, do Partido dos Trabalhadores (PT), e a  vitória de Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, defensor da tortura praticada na ditadura militar, nas eleições presidenciais de 2018, deram a esse regime autoritário uma coloração semifascista. 

É possível verificarmos várias afinidades entre os métodos violentos e o discurso de ódio de Jair Bolsonaro com os de Franco, Hitler ou Mussolini, mas há também diferenças importantes. Se a ideologia é similar – negação da diversidade sexual e dos direitos sociais, anticomunismo, antifeminismo, irracionalismo, afirmação da supremacia masculina, branca, cristã e heterossexual, defesa de valores tradicionais em relação à família e à religião, “nacionalismo” (ainda que caricatural) – e também as práticas de intimidação violenta, o projeto econômico do líder autoritário brasileiro é muito diferente. 


Os regimes fascistas clássicos europeus estavam baseados no modelo do estado nacional forte, para fazer frente ao hegemonismo anglo-americano nos campos econômico, político, cultural e militar; havia intervenção estatal direta na economia e algumas concessões foram feitas aos trabalhadores, como a Carta del Lavoro, na Itália, em nome de uma unidade de classes em defesa da “raça” e da “nação” contra a “ameaça comunista”.  


Já o modelo bolsonazista vai em outra direção: defensor do “estado mínimo” neoliberal, pretende extinguir os direitos trabalhistas e previdenciários, permitir que as empresas privadas explorem os trabalhadores sem qualquer tipo de proteção legal aos assalariados, eliminar qualquer barreira protecionista, abrir o mercado brasileiro para o grande capital internacional, privatizar bancos públicos (responsáveis por programas sociais e projetos de desenvolvimento), entregar nossas riquezas naturais – como a Amazônia e as reservas de pré-sal – a investidores estrangeiros, cortar drasticamente os investimentos públicos em educação, saúde, ciência, tecnologia, esportes, além, é claro, de golpear fortemente os sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda, até colocá-los na ilegalidade, utilizando para isso a bizarra lei antiterrorismo e a força policial-militar, incluindo os métodos da tortura e do assassinato de opositores. 


O obscurantismo do novo regime, cujo principal ideoleógo, o radialista e astrólogo Olavo de Carvalho (que se apresenta como “escritor” e “filósofo”), acredita que a terra é plana – inclui ainda a retomada das terras de índios e quilombolas para a atividade econômica, a legalização da posse de armas e da prática da caça, o desrespeito ao meio ambiente, a restrição xenofóbica à entrada de imigrantes no Brasil e a retirada do país de acordos internacionais em relação ao meio ambiente e ao clima (questões consideradas pelos novos detentores do poder como formas de “marxismo cultural”). No campo da educação, o novo regime defende a redução orçamentária, a privatização de universidades públicas, o fim das cotas para afrodescendentes, o ensino à distância desde o fundamental e ainda a extinção de cursos de humanidades, a censura  aos professores, o fim da aplicação do método Paulo Freire, o controle ideológico da bibliografia educacional, a concessão de bolsas de mestrado e doutorado de acordo com o perfil político de cada estudante, entre outras práticas ditadoriais. A implementação desse projeto, evidentemente, só será possível pela destruição do estado democrático de direito e sua substituição por uma ditadura militar-policial. 


Claro, tudo com as bênçãos dos pastores neoevangélicos do chamado “sionismo cristão”, que colaboram com a disseminação de preconceitos contra negros, mulheres, gays, índios e outros setores sociais e fazem o proselitismo político direto pró-Bolsonaro em seus “templos” e emissoras de rádio e televisão. A brutalidade neofascista (ou semifascista) brasileira está a serviço de um neoliberalismo radical, com vestimenta messiânica, que abre mão da soberania do país, inclusive oferendo nosso território para bases militares dos Estados Unidos, para atender aos interesses da grande burguesia imperialista. Neste sentido, o que se passa no Brasil está mais próximo do que ocorre no Leste Europeu, e em particular a Ucrânia, após a queda do bloco socialista e sua substituição por regimes autoritários de direita. Com os Estados Unidos liderados por um gorila como Donald Trump, Israel por Netanyahu, o Brasil por Bolsonaro e a possível vitória da Frente Nacional na França, o mundo viverá um longo período de trevas.  


Claudio Daniel





Links com exemplos da violência praticada no país pelos adeptos de Bolsonaro:

nvio, abaixo, CAPOEIRISTA é morto com 12 facadas por eleitor de bolsonaro: https://bit.ly/2y4nMTm

PROFESSOR é ameaçado de morte por eleitores de bolsonaro: https://glo.bo/2INUOvi

GAY é morto em Curitiba por eleitor de bolsonaro: https://bit.ly/2y2Thxd

JORNALISTA é agredida e ameaçada de estupro, por eleitores de bolsonaro: https://glo.bo/2ykZUu4

ELEITORES de bolsonaro postam fotos com armas nas urnas: https://bit.ly/2yqQBIY

IRMÃ DE MARIELLE É AGREDIDA, COM A FILHA, por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2pGhlkQ

JOVEM É AGREDIDO por estar vestindo vermelho, por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2C1ZEDM

MILITANTE é agredida por eleitor de bolsonaro: https://bit.ly/2IHKViu

FUNCIONÁRIA da campanha de Boulos é amaçada com arma por simpatizantes de bolsonaro: https://glo.bo/2MAXod0

CACHORRO é morto em carretata, por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2QuTxfe

JOVENS SÃO EXPULSOS de condomínio por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2zYEViO


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

DOIS POEMAS INÉDITOS DE CLAUDIO DANIEL
















FATA MORGANA

A estranha irmã viaja em púrpura
pincela céu de sóis tatuados.
Galhos amorfos; rumor de lagartos;
fungos e olhos espectrais.
Com a espátula-tiara de relâmpagos,
remove o rosto pálido das horas.
Desfaz a pedra e o grilo.
Afunda em jade negro pétala e pégaso,
páramo e pássaro, piano e (púbis) pústula.
Até o limoso escárnio do Insaciado,
unívoco, unívoro, uníssono.


ESCARAVELHOS

Escuro é o caminho onde nos encantamos.
Fragmentados em cenários evasivos,
acreditando em impossibilidades,
lapidamos escamas de serpente albina,
seara difratada onde todo amor coagula.
Somos lunares, aquosos, imprecisos;
ocorre que a música da pele incita ao jogo
de escaravelhos, à pureza do ácido
e da cicatriz.


Dois poemas escritos em 2007, que foram excluídos do livro Fera bifronte e permaneceram inéditos até agora, por motivos que desconheço.  





segunda-feira, 17 de setembro de 2018

TEMPOS SOMBRIOS NA CASA DAS ROSAS

















POR CENSURA POLÍTICA IMPOSTA PELA EMPRESA PRIVADA POIÉSIS, que administra a Casa das Rosas e a Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, não poderei mais realizar atividades culturais nesses espaços. por ter uma posição contrária ao desgoverno do fuhrer Geraldo Alckmin, ao P$DB e ao golpe de estado no Brasil. Para mim, é uma honra ser censurado, senhor diretor Marcelo Tápia -- poeta medíocre cuja obra, para ser ruim, ainda precisa melhorar muito. Poderei apresentar em minha biografia o fato de não ter ficado calado durante a nova ditadura que você, como um cãozinho amestrado, servilmente bajula e apoia, em troca de alguns ossos. Estarei em paz com a minha consciência, minha família e minha história de vida,  e você?


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

UM POEMA DE AGOSTINHO NETO















O CAMINHO DAS ESTRELAS 



Seguindo
           o  caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
Indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

Preciso e inevitável
como o inevitável passado escrevo
através das consciências
como o presente

Não abstracto
incolor
    entre ideias sem cor
sem ritmo
    entre as arritmias do irreal
inodoro
     entre as selvas desaromatizadas
     de troncos sem raiz


Mas concreto
vestido do verde
do cheiro novo das florestas depois da chuva

da seiva do raio do trovão
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos
o som nos ouvidos,
     das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais
      violentados
harmonia espiritual de vozes tam-tam
num ritmo claro de África

Assim
       o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.