segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

GALERIA: MALIÉVITCH (I)



NOVOS POETAS BRASILEIROS (XXXIII)


Os olhos de mim
janelas de um mundo outro
vejo o dentro
espaço fecundo
pertencente ao interno
céu profundo

Lá fora dizem as luzes
de tudo o que não me importa
o sem-sentido
em que não me confundo
Falam os olhos de mim
de uma esfera de segundos

tornados milênios
perdidos num tempo
secreto, íntimo, profuso

Melhor assim
os olhos de mim
cegos ao escuro

* * *

DANÇA-pulso
fulgor
busca evanescente
em ritmo e cor

nos traz de longe
do deserto da fome
da morte ensinada
das portas da culpa
da ausência autoproclamada

dança
poema do corpo para a alma

Poemas de Rosane Carneiro, do livro Corpoestranho (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2009.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

CASA DAS ROSAS: UM PATRIMÔNIO CULTURAL DA COMUNIDADE






A Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura – instalada em 2004, no casarão da Avenida Paulista projetado na década de 1920 pelo arquiteto Ramos de Azevedo, é um centro de difusão da poesia brasileira e internacional, que realiza periodicamente cursos, palestras, oficinas de criação literária, festivais de poesia e outras atividades, com espírito democrático, aberto a todas as tendências de criação estética. Poetas e artistas de renome já se apresentaram em eventos na Casa das Rosas, como Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Tom Zé, Francisco Alvim, Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Claudio Willer, assim como poetas jovens, que têm a oportunidade de lerem os seus poemas ao público, nos saraus livres. A Casa das Rosas já promoveu ou participou em parceria de eventos internacionais, que trouxeram ao Brasil poetas expressivos da América Latina, Portugal, Espanha e África, como os festivais Tordesilhas, Simpoesia, Mar Aberto, Kantoluanda, que contaram com a presença de poetas reconhecidos no campo internacional, como Roberto Echavarren, Joan Navarro, Victor Sosa e muitos outros.

A Casa das Rosas abriga a biblioteca de Haroldo de Campos, com cerca de 30 mil títulos, para consulta no local, e uma biblioteca circulante, dedicada à poesia, cujos títulos podem ser retirados, mediante inscrição. A instituição tem promovido eventos regulares dedicados à obra de Haroldo de Campos, como o ciclo Hora H, que traz poetas, músicos, artistas visuais, tradutores, professores, para debates e performances artísticas, contribuindo para a reflexão e difusão da obra do poeta paulista, um dos criadores do movimento da Poesia Concreta. Todas estas iniciativas fazem da Casa das Rosas um importante marco da difusão da poesia de qualidade, de várias tendências e estilos, junto à comunidade, trabalho este que já é reconhecido, inclusive, por poetas e estudiosos de literatura dos Estados Unidos, Europa e América Latina, que citam a Casa em artigos publicados em diversas revistas.

Desde o início, a Casa das Rosas está sob a direção do poeta, professor e crítico literário Frederico Barbosa, que integra as principais antologias de poesia brasileira contemporânea e teve o seu trabalho reconhecido por críticos como Antonio Candido, Luiz Costa Lima, Sebastião Uchoa Leite, entre outros. Frederico Barbosa integra a coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos até o seu falecimento, que é a mais importante coleção de poesia editada no Brasil. O trabalho de Frederico Barbosa como diretor da Casa das Rosas é sério, responsável, consistente, inovador e conta com o respaldo de todos aqueles que estão seriamente comprometidos com a poesia e a literatura neste país.

Claudio Daniel

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

GALERIA: KANDINSKI (III)

NOVOS POETAS BRASILEIROS (XXXII)


portal


Entre dentro
e fora

a dobradiça
do sonho

rústica
e quebrada

aguarda.


Liso

Deslizam
fugidios
córregos de desejo
entre os poros.

O beijo jorra
em cachoeira
contra o muro
no escuro.

O amor ansiado
é negro
branco
e amarelo.

Escorre,
na sombra
do dia.


Da Natureza II

Então eu,
e o ar

o compacto
pequeno e insignificante,
no incerto
espaço

o corpo começa nas fácias do crânio,
termina na planta dos pés
e ondula o infinito

ser é assim?


contorno

Tocar a coisa dói.
Toda vez que conto um segredo perco a pele.
É terrível.
As veias ficam expostas
a qualquer contato mais bruto
vazam,
transbordam.

Nessa hora é urgente um abraço.
O corpo do outro recolhe o derramamento
coloca tudo no lugar e
milagre,
faz a pele regenerar.

Mas tem que ser em silêncio.

Poemas de Lucila de Jesus.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

GALERIA: KANDINSKI (II)

NOVOS POETAS BRASILEIROS (XXXI)


LUZ EXTINTA


Primeiro, eu digo: fio de fumo.
E descemos.
À luz interrompida, o coro.
Divino enfurnado entre as coxas – extensões do escuro.
(Ou fagulha alojada no magma oculto).
Sorteio. O pano dos seios. E a pele-lençol.
Libações aos balidos. Pés e torsos.
Murmúrios noutras línguas. Lanhos.
Nome interrompido. Saliva de Brômio.
E manhãs que assustam.


O IMPERADOR


Substância

Ele não transcende
Esta forma provisória

Mas leva as maçãs de ouro
Ao jardim − herói solar

E ensina que a beleza
Não é um golpe de sorte

Moeda

Reina sobre o concreto
O visgo de ouro da pedra

O que emana do petróleo
Poder que fascina tanto

E mesmo com mãos atadas
Metralha e metralha
Com efeito vibratório

Ou o peso da Palavra
Quebrada no meio de um crânio

Não é um golpe de sorte
Mas leva maçãs de ouro


AUSÊNCIA

1.

Antes mesmo de ser, ele fere – íntimo desejo.
Morde por dentro a finitude
& chuta
(pés de bode, cabeça de carneiro)

Aqui, o corte, uma fenda:
eu te procuro nesta fresta.

2.

Não escorre entre as coxas, no abandono,

o filho do espanto, desfeito, viscoso:


ausência,
antes mesmo de ser.


3.

Clareira do sangue mais sujo.
Costura ESTE gesto ao grito.

E a seta que se lança à máxima estrela
(uma estrela do barro)
entorna só
memória de um querer
encolhido
latente.


4.

Não dedilho o abandono.
Não reflito.
não mergulho
na atmosfera da fuga.


Sobrevoo a pauta.

Pura matéria, sem alma,

inteiramente escura:

musical.


5

Eu te pertenço mais quando se apaga
a chama de uma vela.
Eu te perco no eterno,
e te procuro aqui, nesta fresta.

Respiro baixinho,
morro devagar.

6.

AGORA, minha lua de fogo incendeia os corpos petrificados
avança pelas trilhas de Saturno
resgata palavras no ventre da baleia
gargalha e fecunda a fossa
onde Nanã apanha o medo.


7.

Eu virei com as mãos a caixa de dádivas:
eram males também.

Tive a pressa de um herói, entornei manhãs, entornei
a Constelação de Órion
no centro do mapa.

Entornei o Arqueiro.
E ele feriu o calcanhar
do meu bicho do espanto.

Fincou na massa espessa do Acaso
a seta que se lança
à máxima estrela.

Poemas de Maiara Gouveia.