quarta-feira, 9 de julho de 2014

O SIONISMO É UMA FORMA DE RACISMO




Claudio Daniel

Sionismo (em hebraico ציונות) é a ideologia desenvolvida na segunda metade do século XIX pelo jornalista e pensador político austríaco Theodor Herzl (1860-1904), que defendia a criação de um estado nacional para os judeus na Palestina, na época administrada pelo Império Otomano. A doutrina de Herzl incorporou conceitos do pensamento político europeu do período, em especial o nacionalismo, o darwinismo social[1] e o colonialismo. Em seu livro Der Judenstaat (O estado judeu), publicado em 1896, o autor afirma: “Não considero a questão judaica nem como uma questão social, nem como uma questão religiosa, qualquer que seja, aliás, o aspecto particular sob o qual ela se apresenta, conforme os tempos e lugares. É uma questão nacional” (HERZL, 1956: 42). A afirmação dos judeus como povo ou nação, porém, é reconhecida pelo autor como problemática, uma vez que há muitos séculos os judeus se espalharam por diferentes países, especialmente no Leste da Europa, onde são conhecidos como ashkenazis (em hebraico אַשְׁכֲּנָזִי ), na Espanha e no norte da África, onde estão os sefaraditas (em hebraico ספרדים), e também nos Estados Unidos, na Ásia Central, África Negra e no Oriente Médio, onde se encontram descendentes de povos convertidos ao judaísmo na antiguidade, como os falashas (em hebraico ביתא ישראל,) da Etiópia, os chiang-min e os yutai da China e os menashe (em hebraico בני מנשה;) da Índia (o caráter proselitista do judaísmo nos primeiros séculos da era cristã é referido pelo historiador israelense Shlomo Sand no livro A invenção do povo judeu, onde afirma que os próprios sefaradins ashkenazis seriam descendentes de povos convertidos à fé judaica. O pensamento judaico tradicional considera que a diversidade étnica dos judeus deriva das treze tribos da Israel bíblica). Herzl estabelece o princípio de que “nossa comunidade étnica é particular, única: a bem dizer, nós não nos reconhecemos como pertencentes à mesma raça senão pela fé dos nossos pais” (idem, 129), e ainda por “certos sinais exteriores relativos aos vestuários, aos hábitos da vida, aos usos e a língua” (idem, 44), sendo esta última não o antigo hebraico, que caíra no esquecimento, mas sobretudo o iídiche, derivado do antigo idioma alemão, falado nas comunidades judaicas espalhadas na Europa Central e do Leste, enquanto na Península Ibérica e no Norte da África surgiu o dialeto judeu-espanhol, ou ladino. A ênfase na herança genética como elemento constitutivo da nacionalidade está ausente no livro de Herzl e seria elaborada por outros autores sionistas, entre eles Max Nordau (1849-1923), Martin Buber (1878-1965) e Vladimir Jabotinsky (1880-1940), expoente do sionismo revisionista, para quem “uma terra natural, uma língua, uma história comuns, tudo isso não constitui a própria essência da nação, mas sua simples descrição (...). A essência da nação (...) reside em seu atributo físico específico, na fórmula de sua composição racial” (in SAND, 2011: 467-468). O acréscimo de um pensamento biológico e de um messianismo religioso no nacionalismo judeu laico seria essencial para a formatação da ideologia sionista e da própria base jurídica do moderno Estado de Israel, como veremos mais adiante.

Recusa da assimilação

A diáspora judaica pelo mundo, conforme o pensamento de Herzl, em vez de levar a uma completa assimilação dos judeus nas sociedades em que viviam, contribuiu para o surgimento do antissemitismo[2]: “Ninguém negará a situação infeliz dos judeus. Em todos os países onde vivem, por menos numerosos que sejam, a perseguição os atinge” (idem, 55). Com efeito, a sucessão de pogroms nos anos 1880, especialmente na Rússia, Romênia e em outros países da Europa Oriental, somada à repressão policial e às restrições legais impostas pelo czarismo, levaram milhões de judeus ao exílio. Conforme escreve Shlomo Sand, historiador israelense da Universidade de Tel Aviv, “entre 1880 e 1914, por volta de 2 milhões e meio de judeus de língua iídiche refluíram para países ocidentais, passando pela Alemanha, e parte deles chegou até as margens da terra prometida do continente americano” (SAND, 2011: 453-454). O fluxo migratório, porém, teve escassa relação com o projeto sionista: “menos de três por cento dos judeus escolheram emigrar para a Palestina otomana, a qual, em sua maioria, abandonaram em seguida” (idem). Por outro lado, a igualdade de direitos entre judeus e gentios, embora fosse garantida na legislação de vários países europeus, não garantia sua segurança ou reconhecimento como cidadãos plenos, sendo que “os postos médios no exército, na administração, e os empregos particulares lhes são inacessíveis” (HERZL, 1956: 55). Os judeus, prossegue Herzl, seriam atacados “no seio dos parlamentos, das assembléias, na imprensa, do alto do púlpito sagrado, na rua, em viagem”, concluindo o autor que “os povos entre os quais habitam judeus são, sem exceção, aberta ou disimuladamente, antissemitas” (idem, 57). A partir do sombrio diagnóstico da situação dos judeus na Europa, Herzl afirma a inutilidade de qualquer tentativa de adaptação das comunidades judaicas aos estados nacionais em que viviam há incontáveis gerações — motivo pelo qual se opõe aos casamentos mistos[3]entre judeus e não-judeus, como no caso da Hungria, onde, segundo ele, “a forma atual da instituição do casamento aumentou ainda por diferentes modos as dissidências que existem na Hungria entre os cristãos e os judeus e, por esse processo, tem prejudicado mais do que servido à fusão das duas raças” (idem, 44). Recusando a assimilação, que considera empresa fadada ao fracasso, Herzl propõe como alternativa a criação de um estado nacional para os judeus, que seria vantajosa, conforme o seu pensamento, para os próprios países europeus, que assim ficariam “livres” dos judeus[4]. Além disso, o estabelecimento de um estado nacional judeu na Palestina representaria “um pedaço de fortaleza contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie” (idem, 73). “Ficaríamos como estado neutro, em relações constantes com toda a Europa, que deveria garantir a nossa existência” (idem), conclui, antecipando a relação privilegiada que o futuro Estado de Israel teria com os Estados Unidos, França e Inglaterra, exercendo um papel estratégico no controle do Oriente Médio conforme os interesses dos países imperialistas (e recordemos aqui o conflito de 1956, em que as Forças Armadas israelenses tiveram um papel destacado na ocupação do Canal de Suez). A guarda dos lugares sagrados da tradição judaico-cristã é também pensada por ele como atribuição do estado judeu: “Formaríamos a guarda de honra em volta dos lugares santos e garantiríamos com a nossa existência o cumprimento deste dever. Essa guarda de honra seria para nós o grande símbolo da solução da questão judaica, depois de dezoito séculos de cruéis sofrimentos” (idem). A guarda dos lugares santos de Jerusalém, efetivamente, passou para o controle de Israel, a partir da Guerra dos Seis Dias, em 1967, com a anexação ilegal de Jerusalém Oriental, contrariando decisão da ONU. Nesta cidade reverenciada pelas três religiões do deserto – judaísmo, cristianismo, islamismo – encontram-se o Muro das Lamentações, que a tradição judaica considera como um vestígio do Segundo Templo de Salomão, destruído pelos romanos em 70 d.C., e também a mesquita de Al-Aqsa (المسجد الاقصى) e o Domo da Rocha, os lugares mais sagrados na religião islâmica ao lado das cidades de Meca e Medina. O controle da Esplanada das Mesquitas pelas forças de segurança israelenses tem provocado constantes conflitos com os fieis muçulmanos, como ocorreu em setembro de 2000, quando a visita de Ariel Sharon ao Monte do Templo, protegido por um grande aparato policial, foi o estopim da Segunda Intifada.

Palestina ou Argentina?

Para a realização de seu projeto de fundação de um estado nacional judaico, Herzl propõe a criação de duas entidades: a Sociedade dos Judeus, responsável pela escolha do país onde seria estabelecida a entidade sionista – o autor sugere a Palestina ou a Argentina – e a Companhia dos Judeus, que iria se ocupar “da liquidação dos interesses materiais dos judeus que se retiram” (idem, 64) para a nova pátria, bem como pela organização das relações econômicas no estado judeu. Comparando os benefícios oferecidos pela instalação da comunidade judaica na região do rio da Prata ou nas margens do Jordão, Herzl escreve em seu opúsculo: “Devemos preferir a Palestina ou a Argentina? A Sociedade aceitará o que lhe derem, tendo em consideração as manifestações da opinião pública judia a esse respeito” (idem, 73), frase em que está implícito o desejado apoio da comunidade europeia ao seu propósito territorial. “A Argentina é um dos países naturalmente mais ricos da Terra”, prossegue, “de uma superfície colossal, com uma fraca população e um clima temperado” (idem), juízo que recorda o parecer do movimento sionista em relação à Palestina, que seria uma “terra sem povo”. “A Argentina teria interesse em ceder-nos um pedaço de território”, continua. “A atual infiltração judaica produziu aí, é certo, mau humor. Seria preciso explicar à República Argentina a diferença essencial de nova migração judia”, conclui, insinuando, novamente, a suposta missão civilizacional do estado judeu. Em relação à Palestina, Herzl é mais enfático: “A Palestina é a nossa inolvidável pátria histórica. Esse nome por si só seria um toque de reunir poderosamente empolgante para o nosso povo. Se S.M. o Sultão nos desse a Palestina, poderíamos tornar-nos capazes de regular completamente as finanças da Turquia” (idem). Argentina e Palestina, no entanto, não seriam as únicas opções discutidas no interior do movimento sionista. Conforme escreve André Gattaz no livro A guerra da Palestina, “outros locais foram considerados, como Chipre, Quênia, Congo e Península do Sinai – alguns dos primeiros sionistas chegaram mesmo a propor que banqueiros judeus comprassem parte do território do oeste dos Estados Unidos para destinar à nação judaica” (GATTAZ, 2002: 22). A escolha final, porém, recaiu sobre a Palestina, “devido a suas implicações religiosas, pois se caracterizava, no discurso judaico, como a ‘Terra Prometida’” (idem). Convém recordar que até o início do século XX havia cerca de 60 mil judeus na região, sendo que muitos resolveram imigrar para a Terra Santa por sentimentos religiosos, enquanto a população palestina árabe nativa era calculada em torno de 500 mil pessoas.


Herzl traça as linhas gerais da criação do lar nacional judaico prevendo “um plano previamente organizado”, que incluía a compra de “grandes extensões de terra” (HERZL, 1956: 73), a construção de “caminhos, pontes, estradas” (idem, 65), além do estabelecimento de telégrafos, retificação de rios e edificação de moradias. Herzl recusa a adoção do hebraico como língua nacional, posto que poucas pessoas compreendiam esse idioma: “Cada um guarda a sua língua, que é a cara pátria do seu pensamento. No que concerne à possibilidade do federalismo de línguas, a Suíça nos oferece exemplo decisivo” (idem, 129), previsão que não se tornou realidade no estado israelense, que reabilitou o hebraico como idioma nacional e jurídico, embora outras línguas sejam faladas no trato cotidiano na multinacional sociedade israelense. A jornada de trabalho seria de sete horas diárias, com um regime hierárquico militarizado nas empresas, e as mulheres estariam isentas da execução de trabalhos pesados. O novo estado, embora étnico, não seria teocrático: conforme escreve Herzl: “O exército e o clero devem ser tão altamente honrados quanto as suas belas funções o exigem e merecem. No estado que os distingue, eles nada têm a dizer, porque de outra forma provocariam dificuldades exteriores e interiores” (idem, 129), passagem que hoje soa irônica, face ao caráter cada vez mais militarizado e teocrático do Estado de Israel, onde a cidadania plena é concedida apenas a indivíduos que tenham mãe judia, conforme critério biológico de raça e nacionalidade. O serviço militar é obrigatório para homens e mulheres e o orçamento militar israelense é um dos mais elevados do Oriente Médio. A ironia é ainda maior nesta passagem: “Cada um é completamente livre na sua fé ou na sua incredulidade como na sua nacionalidade. E se acontece que fieis de outra confissão, membros de outra nacionalidade habitam também conosco, conceder-lhes-emos proteção honrosa e a igualdade de direitos” (idem), o que nunca foi realizado nos territórios tomados dos palestinos, onde se encontram comunidades árabes religiosas cristãs e muçulmanas que em nenhum momento tiveram igualdade de direitos em relação aos judeus. Em outra discrepância entre profecia e realidade, Herzl afirma que “os judeus, sem dúvida, não terão mais inimigos no seu próprio estado” (idem, 137), tese desmentida pelo constante conflito não apenas na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, mas também nas cidades israelenses, onde vivem mais de um milhão de árabes, vítimas frequentes de ataques racistas por parte de grupos sionistas radicais. Como exemplo recente, podemos citar a punição coletiva ao povo palestino exercida por militares e colonos sionistas armados em julho de 2014, em represália a um caso não-esclarecido de sequestro e assassinato de três jovens israelenses. A verdadeira operação de guerra levada a cabo por Israel vitimou um total de 47 civis palestinos, incluindo crianças e adolescentes, nas duas primeiras semanas, além de um número desconhecido de feridos pelos bombardeios da Força Aérea israelense na Faixa de Gaza. Cerca de 700 civis palestinos foram detidos para investigação no mesmo período, 800 casas foram revistadas por soldados e várias em seguida demolidas, a partir da suspeita de vínculo de seus proprietários com acusados de terrorismo, e pelo menos mil estabelecimentos comerciais foram fechados na Cisjordânia sob a mesma alegação e com o propósito não-declarado de prejudicar a economia palestina e o abastecimento da população civil. Um caso especialmente chocante registrado nessa guerra não-declarada é o do jovem palestino Mohammed Abu Judair, de 16 anos, sequestrado, torturado e queimado vivo por colonos sionistas, sem que houvesse apuração policial e punição dos assassinos.

O sionismo é uma forma de racismo


O meticuloso projeto de ocupação da Palestina para a criação do lar nacional judaico seguiu desde o início uma lógica de tipo colonialista, que imagina o imigrante europeu como o artífice da civilização e da cultura em terras onde reina o “primitivismo” e a “barbárie” (a deformação deliberada da imagem do mundo árabe e muçulmano para justificar sua exploração pelas potências ocidentais é o tema do livro clássico de Edward Said, Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente). Em nenhum momento, Herzl se refere à população nativa da Palestina, como se ela não existisse (um dos futuros slogans do movimento sionista seria justamente esse: “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Na década de 1970, a primeira-ministra israelense Golda Meir atualizaria o axioma, declarando que “os palestinos não existiam” e que eram um “povo inventado ”). A ocultação de que a Palestina já existia como país e tinha uma população estabelecida na região há milhares de anos nada teve involuntária ou ingênua: conforme escreve Norman Finklestein, autor do polêmico livro A indústria do Holocausto, “a liderança sionista não tinha nenhuma ilusão de que seu projeto não teria que ser imposto sobre a extensa maioria árabe ou que sua implementação poderia ser cumprida sem a violação egrégia das normas democráticas” (in GATTAZ, 2002: 27). 


O componente racista do sionismo, apenas implícito no opúsculo de Herzl, seria desenvolvido por outros pensadores judeus na segunda metade do século XIX, entre eles Heinrich Graetz (1817-1891), autor de Roma e Jerusalém (1862), e Max Nordau (1849-1923), autor de Entartung (Degeneração). A ideia de uma nação judaica como “entidade étnica”, segundo Shlomo Sand, “era comum, em vários graus, a todas as ramificações do pensamento sionista, e a nova “ciência” biológica conheceu então um grande sucesso” (SAND, 2011: 460-461). Um dos mais destacados autores sionistas, Nathan Birnbaum (1864-1937), considerava a biologia, e não a língua ou a cultura, como a base para a formação das nações. Sem a herança genética, acreditava Birnbaum, não seria possível compreender a existência de uma nação judaica, cujos integrantes provêm de diferentes países, falam numerosas línguas e possuem pouca coisa em comum além da fé religiosa. Aplicando sua interpretação peculiar da biologia à história das mentalidades, Birnbaum escreve: “É por conta da oposição entre as raças que o alemão e o eslavo pensam e sentem de forma diferente que o judeu. Assim se explica igualmente o fato de o alemão ter criado a Canção dos niebelungos, enquanto o judeu deu origem à Bíblia” (idem). Max Nordau, por sua vez, “introduziu na concepção nacional judaica uma dimensão ideológica mais significativa”, escreve Shlomo Sand. Conforme o teórico húngaro, autor de Degeneração, “os judeus constituíam claramente um povo de origem biológica homogênea” (idem, 464), que deveria educar-se no trabalho com a terra, a ginástica e a educação física ao ar livre para o “progresso da raça” (idem). O pensamento de Nordau, que mesclava conhecimentos superficiais de biologia e história com toda sorte de preconceitos do conservadorismo europeu da época, faria inveja a Himmler e Julius Streicher: o irrequieto sionista procurou prevenir o mundo contra os supostos perigos da arte moderna, da homossexualidade e das doenças mentais, todas elas, segundo o seu parecer, fatores de “deterioração física da raça” (idem, 463). Martin Buber (1878-1965), por sua vez, considerava que “o sangue é uma força que constitui nossas raízes e nos vivifica (...). As camadas mais profundas de nosso ser são determinadas por ele, (...) nosso pensamento e nossa vontade lhe devem seu mais íntimo colorido. (...) O sangue, o mais profundo e o mais poderoso substrato da alma” (idem, 465-466). O ponto máximo discurso racista desenvolvido pelo sionismo, no entanto, foi sem dúvida atingido pelo ucraniano Vladimir (Ze’ev) Jabotinsky (1880-1940), para quem, segundo Shlomo Sand, “a formação das nações tem como base grupos raciais (que hoje chamaríamos ‘etnias’), e a origem biológica constitui o psiquismo (a ‘mentalidade’ na linguagem atual) dos povos” (idem, 467). Como os judeus não possuem história ou língua comuns, “nem território onde teriam vivido juntos durante séculos e sobre os quais uma cultura etnográfica unificada poderia ter se cristalizado”, Jabotinsky conclui que “o sentimento da identidade reside no ‘sangue’ do homem, em seu tipo físico e racial” (idem, 467). O “tipo físico do povo”, escreve Jabotinsky, “reflete sua estrutura mental de maneira ainda mais total e perfeita que o estado de espírito individual” (idem). A partir dessas premissas, o autor ucraniano conclui: “É fisicamente impossível que um judeu, nascido há várias gerações de pais de sangue judeu livre de qualquer miscigenação, se adapte ao estado de espírito de um alemão ou de um francês, assim como é impossível para um negro deixar de ser negro” (idem). Jabotinsky, além do trabalho realizado como escritor, tradutor, jornalista e militante do movimento sionista, foi o criador da Irgun (em hebraico ארגון‎, "organização"), milícia paramilitar dissidente da Haganá (em hebraico ההגנה, "defesa") que operou na Palestina na época do Mandato Britânico, entre as décadas de 1930 e 1940, realizando diversas atividades terroristas contra alvos britânicos e palestinos, sendo a mais célebre o atentado ao King David Hotel, em 1946, que matou 91 pessoas, de diversas nacionalidades. A ação terrorista foi coordenada por um jovem militante sionista que se tornaria conhecido internacionalmente: Menachen Begin (1913-1992), o futuro primeiro-ministro israelense que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1978, pela assinatura dos acordos de Camp David com Egito. Quatro anos depois, Begin foi responsável pela invasão do Sul do Líbano, que resultou na morte de milhares de civis em Beirute e imediações, destacando-se o tristemente célebre massacre dos campos de refugiados de Sabra e Chatila (em árabe (em árabe مذبحة صبرا وشاتيلا‎,).


A invenção do Estado de Israel

O sionismo, tal como apresentado por Theodor Herzl no livro O estado judeu, é uma doutrina política similar a outras tendências de pensamento nacionalista em vigor na Europa na segunda metade do século XIX. A partir do Congresso Sionista realizado em 29 de agosto de 1897 na cidade de Basiléia, Suíça, o sionismo revelou-se como um movimento político internacional, responsável por atividades de organização, negociação e colonização , tendo como objetivo final o estabelecimento do estado nacional judeu. Nos anos seguintes ao congresso, Herzl realiza inúmeras viagens, buscando o apoio diplomático da Alemanha, Rússia, Inglaterra e do Império Otomano ao seu projeto. Conforme escreve André Gattaz, no livro A guerra da Palestina, Herzl encontrou-se na Rússia com dirigentes antissemitas, como os ministros czaristas Plehve e Witte, que “o informaram da disposição do czar de apoiar moral e materialmente o movimento sionista nas medidas que provocassem a diminuição da população judaica na Rússia” (GATTAZ, 2002: 24). Embora tais conversações “não tenham levado a acordos concretos”, prossegue o autor, “Herzl estabeleceu um precedente que foi seguido por diversos líderes sionistas das futuras gerações, que não hesitaram em ter relações com defensores do antissemitismo” (idem, 26). O pacto paradoxal entre sionistas e antisssemitas foi apontado por intelectuais judeus como o professor norte-americano Norman Finkelstein, para quem “o sionismo político não desejou combater o antissemitismo, mas encontrar um modus vivendi com este” (idem, 28), fenômeno que adquiriu feições mais sombrias na II Guerra Mundial, quando as organizações sionistas colaboraram em diversas situações com os nazistas, o que foi amplamente documentado e revelado por Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém . Ao movimento sionista, era mais conveniente a segregação do que a assimilação dos judeus nos países onde viviam, porque a privação de direitos e ausência de cidadania plena poderiam ser elementos motivadores para a imigração, ao passo que a assimilação configurava um empecilho a esse projeto. 

André Gattaz ressalta que o sionismo, ideologia nacionalista laica, encontrou resistência na maior parte dos rabinos europeus, para quem essa doutrina “contrariava a idéia de uma nação judaica baseada nos laços espirituais, independente do local de residência, e trazia o judaísmo para o nível de uma ideologia secular, afastando-o dos verdadeiros princípios religiosos” (GATTAZ, 2002: 28-29). Além disso, muitos consideravam o sionismo político como herético e defendiam um “sionismo espiritual, que via a Palestina como o centro cultural do judaísmo” (idem). Apesar das resistências dos rabinos tradicionalistas e dos judeus assimilados, o movimento sionista obtém a simpatia dos governos europeus, a partir do final da I Guerra Mundial, conflito no qual o Império Otomano foi derrotado pelas forças aliadas – Inglaterra, França e Estados Unidos. Chaim Weissmann, que sucede Theodor Herzl na liderança do movimento sionista internacional, estabelece relações com líderes políticos ingleses, como Lloyd George, Herbert Samuel, Mark Sykes e Arthur Balfour, obtendo o seu apoio para a causa sionista, após “mostrar as vantagens estratégicas para a Inglaterra de um Estado judeu na Palestina” (idem, 41). Em carta endereçada a um de seus simpatizantes políticos, datada de 1914, Weissmann já afirmava que “se a Palestina ficar sob a esfera de influência britânica, e se a Inglaterra encorajar um assentamento judaico ali, como uma dependência britânica, nós poderíamos ter em 20 ou 30 anos mais de um milhão de judeus (...), que formariam uma guarda bem efetiva para o Canal de Suez” (idem). Com efeito, como resultado do Acordo Sykes-Picot , firmado em 1916 entre Inglaterra, França, Rússia e Itália, que dividiu o Império Otomano entre as forças aliadas, coube aos ingleses o domínio sobre a Jordânia e Iraque, enquanto a França recebeu o controle administrativo do sudoeste da Turquia, Síria, Líbano e norte do Iraque. A Palestina, a princípio, ficaria sob jurisdição internacional, mas na prática foi incorporada pelo Mandato Britânico. No início de 1917, Weissmann realizou esforços junto ao governo inglês para conseguir um compromisso formal do Império Britânico em favor da criação de um estado nacional judeu na Palestina, e o resultado foi a conhecida Declaração de Balfour, um bilhete escrito pelo secretário do exterior britânico, Lord Arthur James Balfour, ao banqueiro sionista Lord Rotschild, no qual afirmava: “O governo de Sua Majestade vê com aprovação o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e fará todos os esforços para facilitar a obtenção de tal objetivo, ficando claramente expresso que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas na Palestina ou os direitos e status político dos judeus em qualquer pais” (idem, 43). A declaração, sem valor legal – na época em que foi redigido, a Palestina encontrava-se sob administração do Império Otomano – contrariava as garantias que o governo inglês apresentou anteriormente ao emir de Meca, em 1915, relativas à independência da região, e recebeu críticas de diversas personalidades judaicas, inclusive de Sehundo Edwin Montagu, secretário de estado para a Índia e único membro judeu do gabinete britânico. Montagu questionou a autoridade da Organização Mundial Sionista para falar em nome de todos os judeus e profetizou, em 1917: “A Palestina irá se tornar o maior gueto do mundo” (idem, 45).

Com o final da I Guerra Mundial e o estabelecimento do Mandato Britânico na Palestina, os ingleses favoreceram uma grande imigração judaica para a região entre as décadas de 1920 e 1930, alterando o balanço demográfico da Palestina e criando condições para a formação da entidade sionista, contrariando os interesses da comunidade árabe-palestina autóctone. Conforme escreve André Gattaz: “O Mandato sancionou, entre as potências aliadas vitoriosas, a Declaração de Balfour, e transformou o sionismo em política de Estado britânica, determinando o destino da Palestina” (idem, 54). Nos anos seguintes, o Iraque declarou a sua indcependência em 1932; o Líbano, em 1943; a Síria, em 1944, e a Jordânia, em 1946. “Apenas no caso da Palestina o Mandato, com suas contradições inerentes, não levou à independência reconhecida provisoriamente na Carta das Nações, porém aos conflitos que permanecem até os dias de hoje” (idem, 57).

A administração britânica favoreceu não apenas a imigração massiva de judeus, mas também a criação de um verdadeiro estado dentro do estado: os sionistas criaram os seus próprios bancos, escolas, empresas agrícolas, industriais, comerciais e universidade, tornando cada vez mais frequente a presença da bandeira com a estrela de David nos estabelecimentos judaicos . O primeiro assentamento sionista surgiu em 1909; cinco anos depois, já eram catorze, e os camponeses palestinos eram sumariamente expulsos, porque nas empresas agrícolas formadas pelos sionistas apenas trabalhadores judeus eram aceitos. Em 1914 é fundada a cidade judaica de Tel Aviv, que três décadas mais tarde seria a capital da entidade sionista. Nesse mesmo ano, conforme cita André Gattaz, 85 mil judeus viviam na Palestina, ao lado de 580 mil árabes (85% muçulmanos, 15% cristãos). “Após os anos da Primeira Guerra Mundial, a imigração retomou volumes expressivos, e só nos cinco primeiros anos da década de 1920 chegaram à Palestina mais de 89.000 judeus, que criaram as condições para os futuros conflitos ao transformar a sociedade local em detrimento de seus antigos habitantes” (idem, 60-61).

A comunidade árabe-palestina, frustrada pelo não-cumprimento das promessas feitas pelos ingleses de autogoverno e soberania nacional, reagiu realizando greves, manifestações políticas e ataques a instalações da administração britânica, violentamente reprimidas pelas forças de ocupação e também pelas milícias paramilitares criadas pelos sionistas, a Irgun e a Haganá, que dispunham de armas modernas e eram toleradas pelo governo britânico. “Os conflitos tornaram-se mais intensos a partir de1933”, escreve André Gattaz, “quando grandes quantidades de judeus refugiados da Alemanha e Polônia chegaram à Palestina” (idem, 59). Apenas em 1935, vieram imigrantes 60.000 judeus, e ao final da década de 1930 a comunidade judaica somava 445.000 pessoas, numa população total de 1.500.000 indivíduos. Os conflitos entre árabes e judeus tornaram-se mais intensos entre 1935 e 1939, destacando-se o movimento liderado em 1935 pelo mufti Haj Amin, que conclamou os palestinos a não pagarem taxas às autoridades britânicas e a boicotar as lojas dos imigrantes sionistas. No ano seguinte, os palestinos realizaram uma greve geral que durou sete meses, com violentos confrontos entre trabalhadores e a polícia britânica. O movimento grevista evolui e assumiu um caráter insurrecional que durou até meados de 1939. O episódio é assim relatado por André Gattaz:

Durante os primeiros meses da rebelião, enquanto ainda durava a greve geral, os árabes atacaram tropas e postos policiais britânicos e assentamentos judeus, sabotando rodovias, ferrovias e oleodutos construídos pelos sionistas e ingleses. A administração britânica trouxe reforços da Inglaterra, Egito e Malta para controlar a situação, impondo toques de recolher, prisões em massa, multas coletivas, e destruição de casas, além de apelar aos demais líderes árabes para que interviessem em favor do final da greve. Ao mesmo tempo, anunciava-se a criação de uma comissão real para investigar a causa dos distúrbios – a Peel Comission (idem, 67).

A comissão real nomeada pelo governo britânico avaliou a situação e sugeriu a partilha da Palestina entre árabes e judeus, proposta que desagradou tanto aos nacionalistas palestinos quanto aos colonos sionistas, mas que seria retomada em 1947, quando a Organização das Nações Unidas aprovou a criação de dois estados na Palestina, um árabe, outro judeu. Conforme demonstra Edward Said no livro A questão da Palestina, o Estado de Israel, desde o seu surgimento, entrou em contradição com a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), com o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966) e as declarações da Comissão de Direitos Humanos da ONU, que estabelecem direitos básicos e universais do ser humano, tais como: 

a. Todos têm o direito, sem distinção de qualquer espécie, tais como raça, cor, sexo, língua, religião, convicção política ou outra, origem nacional ou social, propriedade, nascimento, casamento, ou outro estado civil, de retornar a seu país.
b. Ninguém deve ser arbitrariamente privado da sua nacionalidade ou forçado a renunciar a ela como meio de privá-lo do direito de retornar a seu país.
c. Ninguém deve ser arbitrariamente privado do direito de entrar em seu próprio país.
d. Ninguém pode ter negado o direito de retornar a seu próprio país sob pretexto de não ter passaporte ou qualquer outro documento de viagem.

(in SAID, 2011: 55)

O que o Estado de Israel realizou, entre 1948 e 1949, durante o primeiro conflito armado entre árabes e israelenses, foi exatamente o contrário do estipulado pela ONU: privou os palestinos de seu país, tomando a parte que caberia a um futuro estado árabe, tal como proposto inicialmente na partilha da Palestina, destruiu mais de 400 aldeias palestinas, entre elas a de Deir Yassim, em que 250 homens, mulheres e crianças palestinas foram massacrados (num gesto de macabra ironia, os sionistas criaram no local um museu dedicado às vítimas do Holocausto), e levou cerca de 750 mil palestinos a um êxodo forçado, que se tornou conhecido internacionalmente como Nakba (em árabe النكبة ,“catástrofe”). Os refugiados palestinos foram proibidos pelas autoridades israelenses de retornarem a suas terras e casas, confiscadas pelo estado sionista – proibição estendida a seus filhos e netos, que hoje somam mais de cinco milhões de palestinos, distribuídos em comunidades que residem no Líbano, na Síria, na Jordânia, no Iraque e em outros países do Oriente Médio. Milhares de palestinos buscaram refúgio na Faixa de Gaza, que pertenceu ao Egito até 1967, quando foi tomada por Israel, na Guerra dos Seis Dias, outros permaneceram na Cisjordânia, em Jerusalém Oriental e outras cidades que passaram à administração sionista. Como o novo Estado de Israel afirmou-se, desde o início, como um estado judaico, aplicando critério étnico e religioso para a definição da nacionalidade, os chamados árabes israelenses (cristãos e muçulmanos) converteram-se em cidadãos de segunda classe, sem o benefício de direitos plenos de cidadania, reservados apenas aos cidadãos judeus. O hebraico foi adotado como língua oficial do país, que adotou uma legislação que garante amplos benefícios aos judeus estrangeiros que imigrem para a região, ao mesmo tempo que limita o máximo possível os direitos da comunidade árabe. A segregação racial aplicada pelos sionistas na Palestina só encontra paralelo nas famigeradas Leis de Nuremberg, aprovadas na década de 1930 na Alemanha, e no sistema do apartheid imposto pela minoria branca na África do Sul sobre a maioria negra, que subsistiu até meados da década de 1990 (não por acaso, Israel foi um dos maiores aliados do regime sul-africano, colaborando inclusive em seu programa de desenvolvimento de armas nucleares). Israel tem um vasto currículo de desrespeito aos direitos humanos, que inclui a demolição de casas de palestinos suspeitos de terem relações com membros do Hamas (forma de punição coletiva implementada desde os anos 1920 pelas autoridades britânicas), destruição de oliveiras e abate de rebanhos pertencentes a palestinos, prisão e tortura de mulheres e crianças, sem mandado judicial, acusação prévia ou direito de defesa, para citarmos poucos exemplos. Segundo relatório divulgado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cerca de 700 crianças palestinas são detidas todos os anos para interrogatórios ou confinamentos. As prisões em geral são feitas de noite ou de madrugada, num clima de terrorismo que inclui quebrar portas ou disparar balas para o alto, aterrorizando as crianças e suas famílias. Há registros de ocorrências de tais atos de violência em Al-aroub Camp, Bit-rima, aldeia perto de Ramallah City, Bit Ummar aldeia, Nabi Saleh, e em outras comunidades palestinas. Cerca de 35% das crianças palestinas detidas são submetidas a assédio sexual de vários tipos. A associação Alsajeen gravou depoimentos de crianças vítimas de assédio sexual, inclusive ameaças de estupro. Os maus-tratos incluem ainda espancamentos, humilhação verbal e várias formas de violência que atingiram 80% das crianças detidas, segundo o B'Tselem, Centro de Informação Israelense para os Direitos Humanos. Esta entidade aponta ainda a prática de tortura física e psicológica nos menores, como a privação do sono, golpes nas mãos, obrigar as crianças a ouvirem música em volume altíssimo, mantê-las por várias horas sentadas em pequenas cadeiras, confinamento em celas escuras, ameaça de demolição de suas casas e até o aprisionamento de seus familiares. Israel utilizou diversas vezes armas proibidas por leis internacionais, como bombas de fósforo branco (artefatos incendiários que podem causar ferimentos terríveis ou morte por queimadura, inalação ou ingestão), bombas de fragmentação (artefato explosivo que libera projéteis ou fragmentos menores em alta velocidade e em todas as direções, com o objetivo de causar um grande número de vítimas, sobretudo crianças) e bombas de urânio empobrecido (consideradas pelos especialistas como um tipo de armamento nuclear), que provocam horríveis deformações nas vítimas, além de afetar outras gerações, por herança genética.) em seus repetidos ataques à Faixa de Gaza. Israel, única potência nuclear do Oriente Médio, com um arsenal declarado de cerca de 200 ogivas, é talvez o único país do mundo que não possui uma Constituição, assim como não tem fronteiras delimitadas: após a anexação das terras palestinas, entre 1947 e 1949, Israel ocupou territórios da Síria (colinas de Golã), do Líbano (fazendas Cheeba), do Egito (deserto do Sinai, restituído após os acordos de Camp David) e da Jordânia (Cisjordânia, hoje território administrado pela Autoridade Nacional Palestina, com soberania limitada pela ocupação sionista), nas guerras realizadas entre 1948 e 1982. O povo palestino vive hoje em regime de segregação racial, privado de direitos elementares e sofrendo constantes abusos e violências por parte do estado e dos colonos sionistas, sem contar com o apoio de leis ou instituições internacionais. Confinados em menos de 23% do território original da Palestina, sofrem o severo bloqueio econômico imposto à Faixa de Gaza, onde o partido político Hamas venceu eleições democráticas, com a participação de observadores internacionais, e um regime de “liberdade vigiada” (cada vez menos livre, cada vez mais vigiada) na Cisjordânia, administrada pela Autoridade Nacional Palestina, onde cresce o número de assentamentos judaicos, com o objetivo de inviabilizar a possibilidade geográfica, econômica e social de estruturação de um estado palestino autônomo. O sonho colonialista de Theodor Herzl, tornado realidade meio século após o Congresso Sionista da Basileia, converteu-se, para os palestinos, no mais cruel de todos os pesadelos. 


1 O título deste artigo faz referência à Resolução 3379 da Assembléia Geral das Nações Unidas, aprovada em 10 de novembro de 1975, que considerou o sionismo uma forma de racismo.

2 O darwinismo social é um pensamento derivado teoria da seleção natural de Charles Darwin, que explica a evolução das espécies pela capacidade de sobrevivência dos mais aptos. De acordo com o darwinismo social, existiriam características biológicas e sociais que determinariam a “superioridade” ou “inferioridade” de determinados grupos sociais, compreendidos como raças. O darwinismo social influenciou o pensamento político, a historiografia e a prática colonialista de diversos países europeus entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX e um de seus autores mais conhecidos é o teórico racista inglês Houston Stewart Chamberlain (1855-1927), autor do livro Os fundamentos do século XX (1899). 


3 A esse respeito, Herzl escreve: “O antissemitismo de hoje não deve ser confundido com o ódio religioso que votavam aos judeus outrora, se bem que, em certos países, tenham ainda atualmente uma cor confessional. O caráter do grande movimento antijudaico da hora presente é outro. Nos principais países do antissemitismo, este é a conseqüência da emancipação dos judeus”. (...) “A causa remota” (do antissemitismo) “é a perda da nossa assimilabilidade, sobrevinda na Idade Média; a causa próxima, a nossa superprodução de inteligências médias”, responsável, nas camadas proletárias, pelo surgimento de lideranças nos “partidos subversivos”, e nas altas esferas, por sua “temida potência financeira.” (...) “Depois de curtos períodos de tolerância, a hostilidade contra nós se desperta sempre e sem cessar. A nossa prosperidade parece conter em si qualquer coisa de irritante, porque o mundo estava habituado de há muitos séculos a ver em nós os mais desprezíveis dos pobres. (...) A opressão só fez reviver em nós a consciência da nossa origem. E o ódio dos que nos cercam novamente faz de nós estrangeiros.” (HERZL, 1956: 60-63)


4 O casamento civil misto entre judeus e gentios é hoje interditado em Israel. A esse respeito, escreve o historiador israelense Shlomo Sand em seu livro A invenção do povo judeu: “Desde 1947, foi decidido na prática que os judeus não poderiam ali desposar não-judeus: o pretexto cívico dessa segregação, em uma comunidade na qual a maioria era então perfeitamente laica, era aparentemente o desejo de não criar um fosso entre laico e religioso. (...) Em 1953, a promessa política de não instituir o casamento civil em Israel foi posta em bases legais. A lei que definiu o estatuto legal dos tribunais rabínicos determinou que estes teriam jurisdição exclusiva sobre casamentos e divórcios em Israel.” (SAND, 2011: 504-505)


5 “Imagino que os governos, voluntariamente ou sob a pressão dos antissemitas, prestarão alguma atenção a este escrito, e talvez mesmo, num ou noutro lugar, acolherão, desde o começo, o projeto com simpatia e darão provas disso á Society of jews. Porque, pela imigração dos judeus, que tenho em vista, não há a temer nenhuma coisa econômica. Semelhantes crises que deveriam fatalmente produzir-se em seguida às perseguições contra os judeus seriam, ao contrário, impedidas pela realização deste projeto. Um grande período de prosperidade começaria nos países atualmente antissemitas. Assim como já o disse muitas vezes, a imigração interior dos cidadãos cristãos dar-se-á para as posições dos judeus, lentamente e metodicamente abandonadas. Se não somente nos deixarem fazer, mas se ainda nos ajudarem, o movimento será por toda parte fecundo em bons resultados.” (idem, 133)


6 Edward Said, no livro A questão da Palestina, responde a essa falsificação da história com as seguintes palavras: “A Palestina tornou-se um país predominantemente árabe e islâmico no fim do século VII. Pouco depois, suas fronteiras e suas características – inclusive seu nome em árabe, Filastin (Filisteia) – ficaram conhecidas em todo o mundo islâmico tanto por sua fertilidade e beleza quanto por sua importância religiosa. No fim do século X, por exemplo, encontramos este trecho em árabe: ‘A Filisteia é a província mais à oeste da Síria. Em seu maior comprimento, de Rafh à fronteira de Al Lajjun (Legio), um viajante levaria dois dias de jornada , e o mesmo tempo para cruzar a província em sua largura, de Yaha (Jafa) a Riha (Jericó). (...) A Filisteia recebe água das chuvas e do orvalho. Suas árvores e sua terras aradas aradas não necessitam de irrigação artificial; e é somente em Nablus que se encontram águas correntes para esse propósito. A Filisteia é a mais fértil das províncias sírias. Sua capital é maior cidade é Ar Ramlah, mas a Cidade Santa (Jerusalém) aproxima-se dela em tamanho. Na província da Filisteia, apesar de sua pequena extensão, existem cerca de vinte mesquitas, com púlpitos para da orações de sexta-feira’” (SAID, 2011: 12-13).


7 A Irgun e a Haganá foram formalmente dissolvidas e incorporadas às Forças Armadas de Israel a partir de 1947.

8 Begin também foi o responsável pelo massacre de 250 homens, mulheres e crianças palestinas na aldeia de Deir Yassin, em abril de 1948, como relata Edward Said no livro A questão da Palestina.


9 O massacre nos campos de refugiados de Sabra e Chatila aconteceu entre 16 e 18 de setembro de 1982, perpetrado por forças direitistas libanesas, com a cumplicidade e apoio logístico das forças militares israelenses, lideradas pelo general Ariel Sharon (1928-2014), futuro primeiro-ministro de Israel. Cerca de três mil homens, mulheres e crianças palestinas morreram no massacre. 


10 “Durante o Congresso da Basiléia, a liderança sionista definiu um programa prático baseado em três pontos: organização, negociação e colonização. Sob o primeiro aspecto, deveria dar-se prioridade suprema aos esforços de organização, com a implantação de um aparato quase-Estado para a função organizativa – a Organização Sionista Mundial. Quanto ao aspecto da negociação, iniciaram-se esforços diplomáticos junto à Inglaterra, Alemanha, Rússia e Império Otomano para produzir as condições políticas que permitiriam, facilitariam e protegeriam a colonização sionista em larga escala. Sob o aspecto da colonização, definiram-se os instrumentos de colonização imediata (as sociedades, agências e comissões), responsáveis pelo planejamento, financiamento e supervisão do processo de colonização – a colonização judaica já existente para a Terra Santa, de caráter incidental e desorganizada, seria suplantada por um programa nacionalista, com claros objetivos políticos.” (GATTAZ, 2002: 23)


11 “Durante seus primeiros anos, a ascensão de Hitler ao poder pareceu aos sionistas uma ‘decisiva derrota do assimilacionismo’. Por isso os sionistas puderam, ao menos durante algum tempo, se permitir certa medida de cooperação não criminosa com as autoridades nazistas; os sionistas também acreditavam que a ‘desassimilação’, combinada à emigração de jovens judeus e, esperavam eles, de capitalistas judeus para a Palestina, poderia ser uma ‘solução mutuamente justa’; na época, muitos funcionários alemães tinham essa opinião, e esse tipo de conversa parece ter sido bastante comum até o fim. Um judeu alemão sobrevivente de Theresienstadt relata em uma carta que todas as principais posições do Reichsvereinigung (Conselho de Anciãos Judeus) apontadas pelos nazistas eram ocupadas por sionistas (enquanto o Reichsvereinigung autenticamente judeu era composto tanto de sionistas como de não-sionistas), porque os sionistas, segundo os nazistas, ‘eram os judeus decentes’, porque eles também pensavam em termos ‘nacionais’. (...) Nesses primeiros anos, havia um acordo mútuo altamente satisfatório entre as autoridades nazistas e a Agência Judaica para a Palestina – um Ha’avarah, ou Acordo de Transferência, que permitia que um emigrante para a Palestina pudesse transferir seu dinheiro para lá em bens alemães e trocá-lo por libras ao chegar. Isso se tornou a única forma legal de um judeu levar consigo seu dinheiro (a única alternativa era a abertura de uma conta bloqueada, que só podia ser liquidada no exterior com uma perda de 50% a 95%). O resultado foi que nos anos 30, enquanto o judaísmo norte-americano fazia um grande esforço para boicotar mercadorias alemãs, a Palestina vivia inundada de todo tipo de bens made in Germany.” (ARENDT, 2013: 73-74) A cooperação inicial entre nazistas e sionistas, que Hannah Arendt chama de “não-criminosa”, estava relacionada ao projeto do estabelecimento de um Estado Judeu na Palestina, “mutuamente benéfico” às partes envolvidas (nessa época, não havia ainda o projeto da Solução Final e os nazistas discutiam diferentes saídas para a “Questão Judaica”, como a emigração forçada, a deportação de milhões de judeus europeus para o Leste ou a criação de um estado judeu na Palestina, Uganda ou em Madagascar, esta última uma ilha de possessão francesa com 4.370.000 habitantes e uma área de 365 mil quilômetros quadrados. “O ‘Estado Judeu’ deveria ter um governador policial sob a jurisdição de Himmler”, escreve Arendt. (O plano não deu certo pela dificuldade óbvia de se transportar 11 milhões de judeus pela via marítima durante a guerra.) Em 21 de setembro de 1939, o chefe do serviço de inteligência (SD) da SS, Heydrich, convocou uma reunião de “chefes de departamento” do RSHA (2) e dos Einsatzgruppen (grupos de extermínio que já operavam na Polônia) na qual anuncia que todos os judeus nos territórios ocupados seriam concentrados em guetos, administrados por Conselhos de Anciãos Judeus escolhidos pelos nazistas. Começa uma nova etapa na solução da “Questão Judaica” e na colaboração entre sionistas e nazistas para a Solução Final. Conforme escreve Hannah Arendt, “Eichmann e seus homens informavam aos Conselhos de Anciãos Judeus quantos judeus eram necessários para encher cada trem, e eles elaboravam a lista de deportados. Os judeus se registravam, preenchiam inúmeros formulários, respondiam páginas e páginas de questionários referentes a suas propriedades, de forma que pudessem ser tomadas mais facilmente; depois se reuniam nos pontos de coleta e embarcavam nos trens. Os poucos que tentavam se esconder ou escapar eram recapturados por uma força policial judaica especial. No entender de Eichmann, ninguém protestou, ninguém se recusou a cooperar” (Idem, 131). Mais adiante, a autora diz: “Em Amsterdam, assim como em Varsóvia, em Berlim como em Budapeste, os funcionários judeus mereciam toda confiança ao compilar as listas de pessoas e de suas propriedades, ao reter o dinheiro dos deportados, para abater as despesas de sua deportação e extermínio, ao controlar os apartamentos vazios, ao suprir forças policiais para ajudar a prender os judeus e conduzi-los aos trens, e até, num último gesto, ao entregar os bens da comunidade judaica em ordem para o confisco final. Eles distribuíam os emblemas da Estrela Amarela e, às vezes, como em Varsóvia, “a venda de braçadeiras tornou-se um negócio normal; havia as faixas comuns de pano e as faixas especiais de plástico que eram laváveis”. Nos manifestos que publicavam, inspirados pelos nazistas, mas não ditados pelos nazistas, ainda se pode perceber o quanto gostavam de seus novos poderes – “O Conselho Judeu Central foi brindado com o direito de dispor absolutamente de toda riqueza espiritual e material dos judeus e de toda força de trabalho judaica”, como dizia o primeiro anúncio do Conselho de Budapeste. Sabemos o que sentiam os funcionários judeus quando se transformaram em instrumentos de assassinatos: como capitães “cujos navios estavam a ponto de afundar e que conseguiam levá-lo em segurança até o porto atirando ao mar parte de sua preciosa carga” (...) A verdade era ainda mais terrível. O dr. Kastner, da Hungria, por exemplo, salvou exatamente 1684 pessoas entre cerca de 476 mil vítimas. A fim de não deixar a seleção a cargo do “destino cego”, eram necessários “princípios realmente sagrados como força guia para a fraca mão humana que registra no papel o nome de uma pessoa desconhecida e com isso decide sua vida ou sua morte”. E quem esses “princípios sagrados” selecionavam para a salvação? Aqueles “que haviam trabalhado toda a vida pela zibur (comunidade) – isto é, os funcionários – e os ‘judeus mais importantes’”, como diz Kastner em seu relato (ARENDT, 2013: 73-74).


12 O Acordo Sykes-Picot recebeu esse nome porque foi assinado pelos secretários de estado Mark Sykes (Inglaterra) e Georges-Picot (França), que conduziram negociações entre o final de 1915 e o início de 1916.


13 Diz o historiador Muhammed Muslih: “Estes novos imigrantes, que se estabeleceram em assentamentos no campo, eram europeus ignorantes e insensíveis aos costumes árabes na Palestina. Por exemplo, após estabelecer suas colônias, bloqueavam os direitos costumeiros de pastagem às vilas adjacentes, tomavam os carneiros que ultrapassavam as fronteiras e multavam os árabes que eram seus donos. Tais condutas levaram a violentos conflitos entre árabes e judeus. Os árabes sentiram-se alienados das terras que cultivaram por séculos.” (in GATTAZ, 2002: 61)


14 Edward Said escreve a esse respeito: “Israel tem negado a possibilidade de retorno dos palestinos, em primeiro lugar, por uma série de leis que declaram as terras de árabes na Palestina propriedade abandonada e, portanto, passíveis de desapropriação pelo Fundo Nacional Judeu (que é o proprietário legal da terra em Israel ‘para todo o povo judeu’, uma fórmula sem analogia em qualquer outro estado ou pseudo-estado); e, em segundo lugar, pela Lei do Retorno, segundo a qual qualquer judeu nascido em qualquer lugar do mundo tem o direito de reclamar cidadania e residência israelense imediatas (mas não um árabe, mesmo que possa comprovar sua residência e a de sua família por várias gerações na Palestina)” (SAID, 2011: 56).

Referências bibliográficas

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

FINKELSTEIN, Norman. A indústria do Holocausto. Rio de Janeiro: Record, 2001. Na internet (em PDF): http://resistir.info/livros/filkenstein_pt.pdf

GATTAZ, André. A guerra da Palestina. São Paulo: usina do livro, 2002.

HERZL, Theodor. O estado judeu. Ensaio de uma solução da questão judia. São Paulo: Tipografia-editora Monte Scopus, 1956.

LANGE, Nicholas. Povo judeu. São Paulo: Edições Folio, 2008.

SAID, Edward. Orientalismo. O Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

____ . A questão da Palestina. São Paulo: Editora da UNESP, 2011.

SAND, Shlomo. A invenção do povo judeu. São Paulo: Benvirá, 2011.

____ . A invenção da terra de Israel. São Paulo: Benvirá, 2014.


Reportagens na forma de histórias em quadrinhos:


SACCO, Joe. Notas sobre Gaza. São Paulo: Schwarcz Editora, 2010.

_____. Palestina. São Paulo: Conrad, 2011.


Documentários disponíveis em vídeo na internet:

The zionist story (legendas em português), https://www.youtube.com/watch?v=3jNYlUj2gMU

Ocupation 101 – A voz da maioria silenciada (legendas em português), https://www.youtube.com/watch?v=H8CUdOZayu4

Al-Nakba (legendas em português), https://www.youtube.com/watch?v=-M9Hm49sS7Y
Depoimento de Norman Finkelsten, https://www.youtube.com/watch?


sábado, 21 de junho de 2014

CLAUDIO WILLER: A JORNADA EM BUSCA DO ENCANTATÓRIO


Poesia como vertigem, experiência visionária no limite entre vida e linguagem. A escritura não como reflexo do cotidiano imediato, mas como construção de uma realidade com sua própria morfologia do desejo. A poesia surrealista é um território onde a lógica habitual, no campo do discurso e da ação, cede lugar à multiplicidade de outras formas possíveis de composição de cor, som, idéia, forma e movimento, símiles ao sonho, aos estados alterados da consciência ou às práticas ancestrais de busca do êxtase. A jornada criativa de Claudio Willer, iniciada há 50 anos, com a publicação de Anotações para um apocalipse (1964), é embebida pela tradição dos “poetas malditos” – Blake, Rimbaud, Artaud, Lautréamont –, dos autores beats norte-americanos – especialmente Allan Ginsberg e Jack Kerouac –, mas não se resume à mera intertextualidade. Já em seu livro de estreia, publicado quando tinha apenas 24 anos de idade, o autor revela originalidade simbólica e semântica, apresentando um conjunto de poemas em prosa que mesclam referências a viagens, encontros com amigos e vivências a um imaginário pessoal que recombina e transforma cenários e situações em imagens como estas: “O rio e seus afluentes de tóxicos, seus igarapés de cocaína, sua tumultuosa visão de serpentes. (...) Assim foi que se dissociaram as partes do meu corpo: as vísceras emaranhadas na copa de um coqueiro, as mãos despenhadas em crateras, os pés calcados em um formigueiro em planície árida, a cabeça congelada e fixa em uma encosta, os olhos vidrados para sempre fitando o poente, os genitais perdidos na correnteza de algum rio que nunca chegará ao oceano”. Podemos recordar, aqui, o conceito de Paul Reverdy a respeito da imagem poética“não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais as relações das duas realidades forem distantes e justas, tanto mais a imagem será forte, mais força emotiva e realidade poética ela terá”. Este princípio, um dos mantras do surrealismo (antecipado por Lautréamont na conhecida sentença: “o encontro fortuito de uma máquina de costura com um guarda-chuva sobre uma mesa cirúrgica”), é aplicado por Claudio Willer a uma paisagem tropical, brasileira, em que o movimento das águas é associado a entorpecentes e animais míticos, como a serpente (em outros poemas do livro, todos eles compostos via escrita automática, o autor menciona pântanos, gaviões, mangues, musgo, lagos, folhagens e outros flashes de uma floresta imaginária).

A mitologia, aliás, é uma das obsessões do poeta, que no fragmentado citado faz alusão ao desmembramento de Osíris (episódio que pode ser comparado ao assassinato de Orfeu pelas Mênades, que fragmentaram seu corpo, entre outros paralelos mitológicos, incluindo o curioso episódio chinês de Pan Ku). O interesse por xamanismo, ecologia, tradições iniciáticas, gnosticismo e religiões comparadas é algo que distingue a poesia de Claudio Willer e de seus companheiros de geração, como Dora Ferreira da Silva, Roberto Piva e Rodrigo de Haro, dos poetas da geração anterior, mais atentos à tradição formalista e construtivista das vanguardas históricas. É conhecida a frase de Roberto Piva: “não acredito em poeta experimental que não leve uma vida experimental”. A visão utópica dessa geração, porosa a outras formas de conhecimento e de sensibilidade, contrasta com o momento histórico da década de 1960, marcado pelo regime militar, repressão e censura. É possível fazermos outro paralelo aqui, desta vez com a geração beat, contemporânea da primeira Guerra Fria, do racismo e do macarthismo (não por acaso, Claudio Willer e Roberto Piva serão os divulgadores da poesia beat no Brasil, via tradução, artigos e diálogo intertextual).

Dias circulares, publicado em 1976 pela editora de Massao Ohno (que também editou Anotações para um apocalipse) é um livro que reúne poemas em prosa e outros de forma variada, com as linhas dispostas de maneira geométrica na página, numa representação visual do ritmo das palavras e linhas, com o espaço em branco indicando as pausas. O título do volume remete, possivelmente, à ideia de tempo circular, cíclico, dos povos pré-colombianos (ideia compartilhada pelos gregos, chineses e hindus, em contraposição ao conceito retilíneo da história formulado pelo cristianismo e mantido na cultura ocidental); as imagens da natureza permanecem, associadas a conceitos alquímicos ou cabalísticos (“Chesed / geburah / Binah / A Grande Obra”), mas há um elemento novo aqui: a cidade. 

A cidade transfigurada

O modo como Claudio Willer observa (e transforma) a paisagem urbana, porém, nada tem a ver com o realismo de um Cesário Verde: remete, antes, ao olhar alucinado de um Lautréamont, como na peça intitulada Cenas da vida urbana: “A mulher das tatuagens balinesas estende a mão negra na minha direção (...). A mulher das mãos verdes mastigando pedaços de vidro, a mulher dona das harpas, a mulher das antenas de radar, dispõe-se em círculos. Uma aurora boreal afugenta os pigmeus”.  Em outras passagens da composição, o poeta irá misturar estalactites com helicópteros, “rodovias fálicas” com secreções, bicicletas com “palavras côncavas” e “pára-quedas sonolentos”. Tudo é linguagem, parece nos dizer Claudio Willer, ao dissolver o sentido rotineiro das palavras em bizarras composições plásticas. Tudo é encantamento: pois é disso que se trata, nesta poesia – o reencantamento da palavra, da vida e do mundo. Jardins da provocação (1981) é um divisor de águas na obra poética de Claudio Willer, que apresenta poemas de sintaxe mais discursiva, com o ritmo prosódico da linguagem falada. É o livro com mais referências autobiográficas (“Casa de Heloísa”, por exemplo) e traz um manifesto em que o poeta invoca o poder mágico da palavra, com o enfoque da semiologia e da teoria literária. Dos poemas elencados no volume, um dos mais impactantes é a Homenagem a Dashiell Hammett: “uma geração pulou no abismo / mas você foi adiante / ou saltou mais fundo / levantou a tampa da vida / para ver o que havia por baixo / para ver que não havia nada embaixo”.

Estranhas experiências e outros poemas, publicado em 2004, reúne os títulos anteriores, acrescidos de textos inéditos – poemas em prosa, composições com linhas espacejadas, peças híbridas – que têm como leitmotiv o tema da viagem (“a Terra respira / formigas transitam por suas nervuras / arabescos de pássaros / pontuam o pausado discurso das nuvens”). Há diálogos com a tradição literária (“Ruínas romanas”), com o hermetismo, poemas sobre o amor (“É PRECISO QUE SEJAMOS MODERNOS COMO O AMOR”), a cidade, a memória, a loucura (“sua loucura galáxia de disponibilidade / sua loucura cuja história é o avesso da história que estou contando”), todos eles concebidos de acordo com uma peculiar poética em que “TUDO ESTÁ GRAVADO NO AR / e não o fazemos por vontade própria / mas por atavismo”.


 (Artigo publicado na edição de junho da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA)

domingo, 25 de maio de 2014

DIÁRIO DE BORDO (XII)


Um projeto para o futuro: fazer um CD de poesia e intervenções sonoras. Não um CD de poemas cantados ou musicados, nem de recitação acompanhada de música instrumental, mas outra coisa: um trabalho focado nas possibilidades interpretativas da voz, com ênfase na distorção semântica, próxima a um certo abstracionismo, com intervenções de ruídos ou instrumentos musicais que não dialoguem com os textos, mas se oponham a eles, num deliberado atrito.

DIÁRIO DE BORDO (XI)


O que eu sempre busquei na poesia? Criar a sombra do sentido, um emaranhado de sons que seja estranho ao próprio idioma.

DIÁRIO DE BORDO (X)


A leitura do poema pressupõe o timbre (voz), a duração, a altura, os intervalos, as ênfases e o ritmo das frases. O ritmo é a interpretação do sentido do poema e pode enfatizar o pensamento, o conteúdo emocional ou a música das palavras. O que me interessa na leitura do poema é a porcentagem de distorção e ruído, que criam uma outra camada de texto, que se movimenta por uma lógica que não é gramatical, referencial ou emotiva: é a própria materialidade do som que se impõe, como borrões de tinta espalhadas na tela.

DIÁRIO DE BORDO (IX)


Eisenstein dizia que a montagem cinematográfica é conflito. Assim como no princípio do ideograma, a justaposição de imagens não é uma síntese de diferentes elementos, mas uma relação entre signos. "Não existe imagem, existe relação entre imagens", escreveu Godard. Busco a mesma coisa na leitura poética: criar o ruído e a distorção pela justaposição conflituosa de ideias e sons.

DIÁRIO DE BORDO (VIII)


Ezra Pound acreditava no "ritmo absoluto" que daria uma entonação emocional precisa, conforme o sentido do poema. Em minhas experiências com a entonação, busco exatamente o contrário -- criar uma sonorização em que o trabalho rítmico, a altura e o timbre criem situações de atrito com o sentido e com o próprio idioma -- algo como os borrões no expressionismo abstrato de Pollock.

DIÁRIO DE BORDO (VII)



Dziga Vertov criou o Laboratório do Ouvido. Com o auxílio de um fonógrafo, registrava sons de diversos lugares, da fala humana aos ruídos das ruas e fábricas. Depois, manipulava os sons, criando ambientações sonoras para os seus poemas.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

GALERIA: MARCELO ARIEL


TERRITÓRIOS MUTANTES: A POESIA DE MARCELO ARIEL


Marcelo Ariel é um estudioso de tradições filosóficas do Oriente, como o sufismo, o budismo, o taoísmo, e um leitor atento de autores considerados herméticos, como o romeno Paul Celan, o inglês William Blake e o português Herberto Helder, com quem compartilha o intenso lirismo amoroso e uma visão herética da espiritualidade, que celebra o corpo, a vida e o estar no mundo, com toda a sua beleza e crueldade. O autor, que vive em Cubatão, cidade industrial da Baixada Santista, pertence, cronologicamente, à chamada Geração 90, mas só começou a publicar os seus poemas em livro na década seguinte, sempre por pequenas editoras: Me enterrem com a minha AR15 saiu em 2007 pela Dulcineia Catadora, numa bem cuidada edição artesanal, e o Tratado dos anjos afogados saiu em 2008, pela Letra selvagem. Nessas obras, o poeta retrata um duro cotidiano de chacinas, favelas incendiadas e desastres como o conhecido episódio de Vila Socó, em 1984, provocado pelo vazamento numa das tubulações da Refinaria Artur Bernardes, que destruiu 500 moradias populares e causou centenas de mortes (o número permanece desconhecido até hoje). No poema Vila Socó libertada, por exemplo, o autor escreve: “(depois do fogo) / no outro dia / (sem poesia) / as crianças (sub-hordas) / procuram no meio do desterror / botijões de gás / para vender”. Em outra composição, intitulada O soco na névoa, Marcelo Ariel, utilizando técnicas de closes, cortes e montagens da linguagem narrativa do cinema, escreve: “No jardim esquizocênico, / Nas balas perdidas, / No perfume / das granadas / explodindo no bar / das Parcas: / Num Eclipse-invertido / seguido de uma chuva fina por dentro / do olhar / da criança recém-esquecida / nesse bar-iceberg para o ‘Bateau Ivre’ no sangue / dos amantes-kamikazes” (versos publicados no livro Tratado dos anjos afogados).

Insólitas sensações e paisagens

O desenho ácido da violência urbana, porém, é apenas uma das facetas da obra de Marcelo Ariel. O livro Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (São Paulo: Patuá, 2014), cujo lançamento aconteceu em maio no espaço cultural Hussardos, reúne boa parte da produção do poeta e é uma excelente oportunidade mergulharmos nesse universo de insólitas sensações e paisagens, construídas por um hábil artesão que sabe explorar a dimensão sonora, visual, quase tátil, das palavras, em composições como esta: “só o silêncio / intocado o enobrece, / mas não / queda-silêncio-esquecimento / do lugar-esquife, / ou queda-silêncio-equívoco / apenas / queda-símbolo / para o alto-fundo-horizonte-escuro / de seu Letes” (Sobre a morte de Paul Celan). O uso dos travessões e dos cortes sintáticos, além da estranheza com que revestem o discurso, confere agilidade ao ritmo prosódico das linhas e cria ideias pela inusitada associação de termos (lugar-esquife, queda-silêncio-equívoco). O poeta não deseja apenas despertar uma planejada reação emocional ou sensorial no leitor, à maneira de Álvaro de Campos, mas também convidá-lo à reflexão, à cumplicidade intelectual capaz de reconstruir o poema, descortinando outras possibilidades de leitura e interpretação.

As imagens poéticas de Marcelo Ariel são altamente sugestivas, aproximando-se tanto da tradição barroca quanto do simbolismo e do surrealismo – relidos pelo poeta de maneira livre, pessoal e instigante. Na composição intitulada No ultrassonho, por exemplo, o autor diz: “Estamos dentro de um açougue chamado corpo / de um aquário chamado mesa ou cérebro tocando o ar nas árvores / através de um copo até tocar esse osso do oceano em nosso olhar”. Fazendo um paralelo entre a linguagem poética de Marcelo Ariel e a de Herberto Helder, Claudio Willer observa: “Em comum com o extraordinário poeta português, a fusão ou hibridação de objetos e seres vivos, a ruptura de limites das coisas e dos corpos, as imagens luminosas como ‘osso do oceano’”. A experimentação de Marcelo Ariel, porém, não se limita a um único campo de pesquisa: sempre em busca de outras possibilidades para a comunicação poética, o autor investe em peças de alta concentração semântica (“Mãos de ninguém / Professam uma delicadeza / Suprema, / não existir / é para / o intocado / como lágrimas / que jorram em sonhos / sem existir / podem sorrir”), em longos poemas narrativos (Cosmogramas – Autobiografia impessoal) e inventos de prosa poética que dissolvem as fronteiras entre os gêneros (“, agora sou tudo, tudo o que explode, tudo o que racha, tudo o que fende e sinto um tipo novo de sede, sim, existe toda uma constelação de diferentes sedes dentro do corpo”, lemos na composição Salve infinito ou A morte de Clarice Lispector).

O misticismo profano de Marcelo Ariel não reconhece fronteiras entre homem e mundo, natureza e artifício, vida e linguagem: a síntese das dicotomias está presente em diversas composições do livro, entre elas um curiosíssimo poema em prosa intitulado No ex-Brasil (Xingu interior destroçado):

Sim, até as próprias fontes e o arvoredo te chamavam através da ‘Voz de Ninguém’ em Rútilo Perigeu vagavam Mônadas em pó que escapavam dos ossos do evento invisível Brazyl flutuando em volta como um Ex-Algo em Tempos filtrados jamais reencontrados, espaços fantasmas onde outrora um fio ecoava sua aura se expandindo no olhar sem limite, no Sol aberto como um zero infinito como o da Mesopotâmia, gravada pelo fio-Hubble lendo a árvore.

O engenho inventivo do poeta alia-se a uma ética de solidariedade que desconsidera dimensões temporais, geográficas ou culturais, aproximando-se de uma erótica miscigenada, proclive às fantasias neobarrosas de Nestor Perlongher. O parque do Xingu torna-se ao mesmo tempo metáfora e metonímia, índice de uma comunidade massacrada e de um território subjetivo, não menos doloroso; o próprio Brazyl, deformado pela grafia, sinaliza uma ideia deformada de nação, responsável por tantas tragédias, iniciadas com o genocídio indígena e que permanece, nos dias de hoje, nas matanças que acontecem nas periferias dos grandes centros urbanos, atingindo especialmente os afrodescendentes. Pouquíssimos poetas são capazes de construir um discurso crítico da realidade com tamanha expressividade e terrível beleza.

Claudio Daniel é poeta, professor de Literatura Portuguesa na UNIP, colunista da CULT e editor da revista Zunái.