sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (VOLUME II)


HINO AO HOMEM DE BEM
O Homem de Bem coleciona esculturas
em dentes de leão-
marinho :
formas de antílopes
flamingos
lêmures intermitentes //
plantas 
que não se parecem 
com nada 
onde pedras lapidam
a paródia 
de um rosto. //
Caligrafias pintadas 
em minúsculas 
folhas
por uma tribo imaginária //
fósseis esqueletos 
de caranguejos 
— óssea escritura — //
entre patuás, açafates 
uma onça empalhada
da Costa do Marfim //
para olhos que não vêem para olhos
que não ouvem para olhos
como estrelas 
decrépitas
sem matizes inertes inanes. //
O Homem de Bem 
escuta música húngara
tcheca macedônica 
ucraniana // 
distribui sopas de beterraba
na Ordem Terceira de São Francisco //
visita os presos 
para ler histórias 
de Agatha Christie 
Paulo Coelho
Harold Robbins //
O Homem de Bem
participa de marchas fascistas
pela volta da ditadura 
militar. // 
O Homem de Bem 
esconde seu ódio
em espátulas de marfim.

2014













HINO AO PREDICANTE

Putinhas-de-cristo vestem roupas de couro dark
e argolas de prata
nos mamilos.
Fachos de luz
banham a nave
do templo.
Flores brancas,
vitrais arqueados.
Massa sonora
de fêmures
cantantes.
Piolho metafísico
esbraveja
palavras-morteiros:
colérico, invoca
sua hórrida deidade:
— El Shaddai flagelador de sodomitas;
— El Elyon violador de feministas;
— Mikadiskim degolador de macumbeiros.
Trompetes-clavículas
acompanham
sua voz-de-candelabro:
imagens de um tríptico
de Hyeronimus Bosch.
Após o teatro teratológico
(transmitido via satélite
em 24 canais, para 69 nações)
o dízimo é recolhido
em metal sonante – para a glória
do Inefável Tetragrama
(YHWH Tzevaot).
Compras na lojinha
do sacro tabernáculo:
Bolsinhas Bereshit.
Sapatos Menorá.
Perfume Havdalá.
Gargantilhas Shemá Israel Eloheinu.


2014

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

DEZ LIVROS QUE GOSTEI DE LER EM 2014



 

 1) A Segunda Guerra Fria, de Moniz Bandeira

2) A Invenção do Povo Judeu, de Shlomo Sand

3) O País dos Cegos e Outras Histórias, de H. G. Wells

4) O Clube do Suicídio e Outras Histórias, de R. L. Stevenson

5) Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos, de Evandro Affonso Ferreira
 
6) Liberdade ou amor!, de Robert Desnos

7) Retornaremos das Cinzas para Sonhar com o Silencio, de Marcelo Ariel

8) Pagu: Vida-Obra, de Augusto de Campos

9) Onze Duodécimes, de Horácio Costa

10) Grimório de Gavita, de Andréia Carvalho


(Publicados em 2014 no Brasil)

FALHA DE S. PAULO CENSURA CARTA DE AUGUSTO DE CAMPOS




CARTA DE AUGUSTO DE CAMPOS NÃO PUBLICADA PELA FOLHA DE SÃO PAULO (13-12-2014)

AO PAINEL DO LEITOR

MICRÓBIOS NA MINHA CRUZ

(a propósito da resenha publicada na Folha de São Paulo (Ilustrada) sobre PAGU: VIDA-OBRA, em 13/12/2014)

Queria agradecer a crônica sobre o meu livro PAGU: VIDA-OBRA que o Otavinho Frias, Diretor da Folha de São Paulo, estomagado com os meus reclamos pelo fato de a Folha ter publcado um poema meu sem minha autorizacão e sem me pagar direitos autorais, e por eu ter denunciado a parcialidade política do jornal contra a presidente Dilma nas últimas eleições, encomendou a Marcia Camargos, beletrista, autora do romance “Micróbios na Cruz” e co-autora, entre outros, dos livros “Yes, nós temos bananas: histórias e receitas com biomassa de banana verde” e “Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia”, além de receptora de prêmios da Câmara Municipal de São Paulo e da Academia Paulista de Letras.

Os títulos falam por si mesmos. Vai direto para engordar o tolicionário do meu THE GENTLE ART OF MAKING ENEMIES. Piada pronta, apud Josephus Simmanus. Meu livro é tão ininteligível que serviu de roteiro ao longa de Norma Bengell e a várias outras pagusetes. Como a obtusa professora fala em Patrícia Galvão, sabotada durante 50 anos pela candidíase das cadeiras de letras da USP, a cujo corpo docente pertence, e sobre a qual ninguém sabia ou falava nada antes do meu livro, que é de 1982 (!!!), sinto-me no direito de incluí-la também na classe dos que Décio Pignatari chamava de “chupins desmemoriados“.

Aproveito para denunciar a perseguição que a Folha de São Paulo move contra mim, chegando a solicitar vários dos meus últimos livros às editoras e omitindo qualquer notícia sobre eles.

Augusto de Campos

P.S. – O título do livro, adulterado e banalizado pela resenhista, com a cumplicidade da Ilustrada, não é PAGU, VIDA E OBRA, mas PAGU: VIDA-OBRA.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

RETRATO DO ARTISTA



 
 
AS MITOLOGIAS INACABADAS DE SÉRGIO MEDEIROS

 Sérgio Medeiros constroi discursos poéticos híbridos, que incorporam elementos da prosa narrativa, da notação musical, do aforismo, da peça teatral, dos jogos infantis, do roteiro de cinema e da música ouvida em concerto, especialmente as composições experimentais de Pierre Boulez e John Cage, que incorporam a variação, o improviso e o acaso em suas obras. A escrita que resulta dessa miscelânea de referências – às quais é preciso acrescentar o imaginário de diferentes tradições ameríndias – é deliberadamente “impura”, assimétrica, descontínua, permitindo múltiplas leituras. Em cada um de seus livros, Sérgio Medeiros propõe um pacto lúdico ao leitor, que é desafiado a interagir com os textos – mitologias inacabadas –, decifrando-os e recompondo-os, mentalmente, fazendo a sua própria narrativa (o que nos faz recordar o teatro mental criado por Mallarmé em Igitur, destinado à imaginação do leitor, “que monta ele mesmo as coisas”, e também o conceito de “obra aberta” de Umberto Eco). O título de estréia do poeta, Mais ou menos do que dois (2001), realiza, na própria distribuição dos textos no volume, um espaço de jogo: o livro é estruturado a partir de índices paródicos incluídos ao longo da obra que desorientam em vez de sinalizar um percurso linear de leitura, sugerindo a hipótese de que o livro, como o tempo, não tem começo ou fim. A própria identidade ou “pureza” do livro é abalada pelas várias versões reunidas fora de ordem cronológica (a esse respeito, o próprio autor declara: “O mito indígena não tem uma versão definitiva, ele dá origem a uma série de versões – ou seja, se desloca, muda, acidenta-se, desarticula-se...”). A sátira da organização e das listas remissivas permeia todo o volume, em um ambiente de non sense similar ao das peças curtas de Gertrude Stein e do teatro do absurdo de Beckett e Ionesco, com os quais compartilha o tema da incomunicabilidade. Sérgio Medeiros renuncia ao lirismo e eleva o ruído à dimensão de mensagem, buscando intencionalmente o fragmentário, o inacabado, o desfeito: o texto-ruína, que se corporifica, nas páginas finais do livro, na desarticulação léxica. O livro é pensado como performance, ou ainda como ritual, que presentifica um mito (no caso, o episódio de Cástor e Pollux, metamorfoseados na constelação de Gêmeos. O tema do duplo reaparece em diversos momentos da obra do autor, com todas as implicações simbólicas, psicanalíticas e míticas). Em Alongamento (2004), seu segundo livro publicado, Sérgio Medeiros dialoga com as técnicas de combinação e permutação da música erudita de vanguarda, apresentando uma série de poemas curtos, escritos à maneira futurista, elaborados a partir de apenas nove palavras. Os recursos da linguagem cinematográfica – closes, planos, sequências  – estão presentes aqui,  como nestas passagens, de evidente teratologia: “uma piscina / esvaziada / à noite; / as cadeiras brancas / crescem / nas bordas / como aranhas” e “a nuvem caminha com patas de inseto e barriga negra de paquiderme”. No caderno intitulado Paisagens imaginárias dum jardineiro doudo, o autor apresenta aforismos, numerados por asteriscos, compostos de apenas três linhas, como se fossem haicais em prosa; já em O passo do macaco, ele constroi o poema como se fosse obra musical, em que as letras, números e sinais gráficos são utilizados na composição de textos visuais abstratos. É enorme a riqueza inventiva da poesia de Sérgio Medeiros, que não pode ser resumida no curto espaço desta coluna. Convidamos o leitor disponível a conhecer sua obra poética, que inclui também, O sexo vegetal (2009), Totens (2012) e O choro da aranha etc. (2013). 

(Artigo publicado na edição de dezembro/2014 da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (IX)

 

DEIR YASSIM

Nenhuma lápide
para os mortos
em Deir Yassim

episódio rasurado da história

suas casas demolidas
suas ruas desfiguradas
renomeadas em hebraico

120 homens e mulheres
executados

pela garra curva de Moloch
o que tudo devora

na esquina dos ventos
formigas míopes avançam
em sentido anti-horário.


2014 (ano 66 da Nakba)


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (VIII)



  









FÓSFORO BRANCO

Para Emir Mourad

Fósforo branco ácido ilumina escombro escárnio nos céus do Líbano.
Talhos retalhos de torsos retorcidos
ossos negrume carcaças.
Corpos enfileirados peles requeimadas
de carne sucata
nos campos de refugiados
em Sabra e Chatila.
Esta é a hora do morticínio.
Farpas fiapos nacos de membros desmembrados
e o aroma escuro escuro da hora lenta lenta de um dia que nunca termina.
Nenhum Kaddish para os filhos da escrava Agar
nenhuma lágrima para Ismael.
Apenas o silêncio de talhos retalhos peles farpas fiapos
e o escuro escuro.
Esta é uma história
exilada da história,
que eu e você não devemos saber:
por isso cala o escombro cala o negrume cala a sucata do morticínio.
É preciso calar
a matraca dos jornais;
sim, é preciso fechar os livros, fechar para sempre os livros
e condenar os mortos à perene desmemória
(em algum sítio
mefistofáustico
de Tel Aviv,
que moveu a macabra máquina da morte,
a estrela de David
se converte
em nova suástica).
Porém, eu e você não nos calamos,
eu e você não iremos esquecer,
eu e você somos o cedro do Líbano, a oliveira da Palestina,
o pão fresco nas mesas da Síria.
Houve aqui uma página infame da história,
mas eu e você recusamos o silêncio,
recusamos o esquecimento,
recusamos o perdão.
2013

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

SIONISMO É UMA FORMA DE RACISMO













"Israel" não é um país -- nunca foi, nem nos tempos bíblicos -- mas uma rede de grandes empresas capitalistas, incluindo os maiores bancos, indústrias armamentistas e companhias de petróleo do mundo, que para a defesa de seus interesses mantém uma base estratégica no Oriente Médio, no território que historicamente é habitado pelo povo palestino. "Israel" mantém a sua hegemonia pelo poder financeiro, militar, pela chantagem imposta à comunidade internacional e pela segregação racial e genocídio do povo palestino. Por todos esses motivos, como diz a minha camarada Bernadette Siqueira Abrao, a causa palestina é uma causa de toda a humanidade.

(Foto: colonos sionistas -- aqueles que vieram de países europeus e hoje moram em propriedades roubadas dos palestinos -- saem às ruas com fuzis e metralhadoras. Que tipo de "país" é esse?)

CADERNOS BESTIAIS (VII)



BREVE HISTÓRIA DO FABRICANTE DE CERVEJA

Cabeça com tentáculos de harpia,
obeso como grávido
escaravelho,
despreza (deliberadamente)
as leis
que o desagradam.
Contrata paraguaios, chilenos, bolivianos,
hondurenhos, guatemaltecos,
haitianos
para trabalharem
em sua fábrica,
sem identidade 
ou carteira de trabalho.
Tudo é número
no anguloso inferno fabril.
Multiplica as horas
para a moagem do malte,
a maceração,
a fervura do mosto,
a adição dos lúpulos de aroma,
a decantação.
Com olhar imóvel de um porco morto,
contabiliza os ganhos
de sua rapinagem
clandestina,
como quem conta cordeiros
ou estrelas.
Um dia, cinco musculosos haitianos
pegaram o pilantra
pelas orelhas,
surraram-no
e jogaram-no
no meio da fervura.
Após o expediente,
reuniram todo o pessoal
no quintal da fábrica
e beberam muita, muita, muita cerveja.

2014

CADERNOS BESTIAIS (VI)















JAMAIS

Para Fabrício Slaviero

bichos de verde-muco proliferam
nos entalhes do tapume;
antiaranhas deslizam
nas ramagens,
tramam teias e resíduos
de uma dor vermelha,
recíproca.
há um plasma em cada fenda,
em cada vão
de madeira apodrecida.
há um acre açafrão
em cada veio
do reboco, com seu ácido.
tateiam algo, quem, aqui –
ou apenas arrulhos, crostas, escaras,
ninguém com óculos de aro fino,
breve gravata lilás e uma refinadíssima
sensibilidade no olfato; não, ninguém,
nunca houve, jamais.

2014


ARAMES, RETALHOS

esqueletos do nunca
onde o áspero da palavra,
brutais de dezembro.
porque esta não é a minha língua:
retorcidos de mistério,
caranguejo onagro.
onde se desdobra a pedra, onde se
desdobra o nojo desse nunca,
que se anuncia indesejoso:
são palavras em seu verde, em seu asco;
são vértebras de escárnio,
entulhos-de-orelhas à procura da mulher-dos-gatos.
porque nada faz sentido, eu sei,
neste reverso em que me falas,
primitiva, reverberante,
com a nudez que me calam os arames, os retalhos;
com a nudez de um estuque de plantas,
ruidosa, em expansão — e só me resta confessar
os fumos de aranha, inconcluso,
quando indagas sobre o meu labirinto.

2011 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (V)











 ANÔNIMOS
Há um louco solto na rua.

(Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos.) 

Um policial pede os seus documentos.

(Há três ou quatro especialistas em língua suméria.) 

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres-anãs.)

O policial fica furioso porque queria um sapato.

(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão.)

Eles começam a discutir e logo aparece uma mulher gorda que entra na confusão.

(Sobre o que conversam as abelhas?)

O louco declara o seu amor pelos incêndios.

(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístico?)

O policial é apaixonado por boxeadores e telepatas.

 (Os melhores poemas ainda não foram escritos, disse para mim um asceta tuaregue.)

A mulher gorda ataca o louco com a sola de um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituânia?)

O Cinegrafista do Grande Telejornal filma todo o episódio para exibir no horário nobre.

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

 Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem início uma pancadaria.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)

s/d

CADERNOS BESTIAIS (IV)











FIM DO MUNDO
À memória de Jakob van Hoddis

Loba ensandecida rumina vermes de escuro escárnio.
Alguém-ninguém atravessa a rua
e em todos os cantos 
ouvem-se gritos 
feito guinchos
de um porco amarelo.
Cai um aguaceiro
na cidade esquálida
e os bairros alagados atingem as estrelas. 
Banqueiros obesos caem do telhado 
e se despedaçam.
Numa placa de rua, 
lemos: cuidado.
Quase todos têm secreções nasais;
os ônibus correm nas avenidas 
a toda velocidade,
entram nos viadutos
e se chocam contra as paredes.
Todas as palavras não são mais que uma superfície de cacos de vidro à entrada de uma cidade maldita.

2014


PAISAGEM
Árvores saqueiam o arco-íris.
Três banqueiros atiram-se
ao rio e morrem afogados.
Nuvens piscam o olho para o sol,
que enfurece os dentes-de-leão.
Ninguém me oferece uma estrela.
Quando eu morrer, me enterrem
na tua voz.

2014


CADERNOS BESTIAIS (III)



















CANTIGA

Je n’était que son ombre

Tristan Tzara

Penso em você eroticamente.
Até a fabulação
de outra margem,
na estranha habitação onde os números,
pares e ímpares, enlouquecem.

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Um minúsculo leão branco habita a sua fenda.


***

a ferocidade
no limiar da noite,
quando a pele —
desmedida, irremissível,
se projeta em outra pele:
nenhum destino além do nervo tumultuário.


* * *

todas as mulheres
são tigres desenhados
em teus olhos, que se desdobram
na noite estrelada: olhos pés, olhos-mãos,
olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada


***
cada letra
de teu nome
tem sua própria cabeleira,
denso alfabeto que incita à iniciação
no segredo de teu Segredo.
tua sombra segue minha sombra
em cada passo mínimo.


* * *

há uma letra
em cada pétala,
mas nenhuma
para traduzir estrela.
há uma pétala em cada seio,
e um seio em cada lábio
que morde cicatrizes.


* * *

há uma cicatriz
em cada imagem que
não cala, em cada memória
que recusa o esquecimento.


* * *

porém,a delícia
de caminharmos lado a lado,
sem destino, nessa terra ignorada,
quando lagartos devoram cicatrizes.
e então, mais uma vez,
você é para mim um anjo, e eu a sua sombra.


Poema dedicado a Juliana Brittes 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS (II)




















SERPENTINATA

I

Já que não desprezo nenhuma palavra,
encanta-me pergaminho
onde estranhos cães
da fala.


Nuvens de parietais
dizem a lavoura
obsessiva dos cutelos:


excessiva porque necessária,
investe mamífero mamífero
ante o lacerado pelo púbico


— molusco esse desprezo
que se faz habitação.


A mobilidade das estruturas aquáticas
desorienta solidez de partículas,
(numeração da língua)
desentranhadas até o

ignorado.


Cresce nas axilas,
nos limbos, cremalherias,
nos estudos para voz:
é o seu inexorável destino.


Antiesquelética nebulosa
redefine o tempo e suas cavilações
no jogo permutatório
dos contrários.


(Estes são os meus instrumentos,
minhas paisagens estratégicas
para violar tuas orelhas,
tuas cavidades,


que se recusam à minuciosa
cabala de meu olhar.)


(Encanta-me tua letra, esqueleto de meu canto,
voz que acende estranhos cães.)


A revelação está na língua
que incita ao asbesto da orgia,
à mais temporária das peles,


quando vemos pégasos de outro sonho
e nossa incapacidade de laçá-los.
  

II
estranha mulher intercambiáveis
folhas de outono
ou lâminas de aço

sem corrosão

relaminadas fina a frio,
ou apenas murmúrio
sem jardins nem quintais

só o alinhamento do corte:

o pensar do coração – alto carbono
em conformidade
com a memória – 

(nua entre fósforos acesos)

um adeus e o carboneto de vanádio
em oposição ao cromo –
decapadas, expandidas, minimizadas

palavras entre tuas perplexas peles:

a resistência mecânica do substrato aço
– retalhos, chapas, tubos, barras
e sucatas de ferrosos, para fundição

2012


sábado, 15 de novembro de 2014

CADERNOS BESTIAIS














ANTIMÍDIA X

Quelle est ma langue?

Ionesco

GRUNHE repetindo-se repetindo-se rasura ou réplica de réptil fardos que são palavras farpas de um animal samsárico (repetindo-se repetindo-se) fanhos replicantes repousada em úmeros: caveira neanderthal cor de prata sobre fundo negro (ganchos guinchos repetindo-se) horror social belphagor iniquidade: todo um catálogo de demônios repetindo-se balam belial asmodeus astaroth bicos-de-papagaio encurvados lascas de madeira na boca repicadas repicantes sobre fundo negro letras rúnicas inscritas no crânio antiesfíngicas ruminando cólera astarté ruminando Deutschland über alles, / Über alles in der Welt barão neoliberal bebe urina com os ratos na hora da gárgula na hora vermelha da gárgula na hora do maçarico quando garotos racistas de São Paulo ateiam fogo na mendiga refugos de rastilhos de rebotalhos neste açougue onde repartem carne humana Tíbias são dejetos olhos são dejetos orelhas são dejetos nesta terra de ninguém que a terra há de comer Caso esfiapasse essa pele caso esfiapasse se não fosse hidra se não fosse ira se não fosse asco se não fossem imponderáveis urros no arame da pobre diaba arpejo de pupila em seu desnudamento de planta em seu desnudamento de carne estirada em ganchos balam belial asmodeus astaroth todo um catálogo de demônios repetindo-se em guaches em guantes Tudo queima ela disse Lucidez nenhuma que os dissuadisse nesta terra de ninguém que a terra há de comer

2014














ANTIMÍDIA IX


O Diretor da Grande Revista Semanal
coleciona armas de caça austríacas,
máscaras rituais balinesas,
tapeçarias do Azerbaidjão.
Em sua casa de praia em Búzios,
preserva manuscritos (autênticos)
do Mar Morto, tânagras sumérias,
miniaturas chinesas em terracota,
uma espineta húngara.
Sua verdadeira obsessão:
cachimbos italianos do século XVIII,
pela delicadeza dos entalhes,
composição cromática e a fálica ironia
dos formatos. É incontestável (diz ele,
entre colheres de sopa de ervilha,
aromatizada pelo funcho dos Açores):
— Há corrupção nos governos do PT,
o que não houve nunca, nunca, jamais
na história deste país. Tudo isso
é obra dos Vermelhos, para solapar
as instituições. Veja o Lesbianismo
(por exemplo), o consumo de canabis,
os casamentos interraciais. A estranha
proliferação de corvos na Croácia
é resultado dos governos petistas;
a escassez do lúpulo nas Ilhas Seychelles;
as decapitações de infiéis na Síria
pelos mercenários islâmicos – tudo é culpa
do PT.  Faltou azeitona na minha empada;
as rosas crescem no canteiro dos lírios;
o monte Fuji se declarou em estado de greve
— tudo isso acontece por orientação
da Senhora Presidenta Búlgara,
do Peão Nove Dedos e do Foro de São Paulo.
O que fazer — regurgita o ignívomo —
para deter a sanha insana dos bolivarianos?
(Haveria aqui lugar para a irremissível
conjuração conspiratória, não fosse a hora
ruminante dos aspargos, o precioso instante
para um cálice de Artemisia absinthium,
esses pequenos prazeres singelos
ainda não abolidos pelo petismo-bolchevismo).

2014

















ANTIMÍDIA VIII

A Colunista do Grande Jornal Diário
equilibra-se
nos indispensáveis
saltos Christian Louboutin
para analisar os fatos políticos
com distanciamento crítico
e objetividade jornalística.
Ela é jovem, moderna, sofisticada,
usa vestidos Patrícia Bonaldi
e bolsa cor de prata Hermès
(Mercúrio é a divindade que rege
as comunicações). Em seu twitter,
dispara o último grito
dos bastidores do Congresso,
com senso de humor peculiaríssimo
e a mais apurada reflexão.
Entre um e outro gole de cherry brandy,
folheia, na revista novaiorquina,
as últimas criações de Domenico Dolce
e Stefano Gabbana, inimagináveis
nessa selva selvagem de mortos de fome.
Vivemos no pior dos mundos possíveis,
diz ao seu personal trainer,
o último círculo do ínfero Hades,
onde desfilam hordas de africanos,
índios, pederastas, crianças ramelentas,
estudantes bolcheviques. Massa mal-cheirosa,
escura, ignara, que nunca leu Paulo Coelho,
Afonso Arinos, Fernando Henrique Cardoso.
É impossível viver com essa gente,
pondera com a sua manicure ucraniana,
é preciso dividir o Brasil em bantustões,
para que a raça branca tenha um futuro possível.
Ela acredita na Divina Providência,
no Destino, nas Forças Vivas da Nação.
E aplica suavemente gotas aromáticas
(Ralph Lauren) em sua nuca,
enquanto espera pela Vinda do seu Fuhrer.

2014
   

















ANTIMÍDIA VII


O Apresentador do Grande Telejornal
sofre de terríveis
dores estomacais.
Tosse.
É impotente.
E peida muito.
O Apresentador do Grande Telejornal
tem dispnéia paroxística noturna.
É cardíaco.
Asmático.
Psicótico.
O Apresentador do Grande Telejornal
foi acometido
de taquicardia supraventricular
ou taquicardia patológica
(há divergência
entre os especialistas).
É obeso.
Diabético.
Tem tremores nas mãos.
O Apresentador do Grande Telejornal
sofre de erisipela,
eritema ab igne,
pênfigo
e dermatite herpetiforme.
O Apresentador do Grande Telejornal
tem câncer no reto.

2014

ANTIMÍDIA VI

JORNAIS APOIARAM A DITADURA MILITAR.



















ANTIMÍDIA V

Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;

unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.

Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;

mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.

Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.

Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.

2014

















ANTIMÍDIA IV

desentranha.
voz que vem da carne;
adensamento da voz
que recusa ser centaura.
desmultiplicada,
limítrofe da afasia.
no antilabirinto:
fugitiva do Limbo.
que ninguém escuta:
hermafrodita, hermafrodita.
onde queimam fetais:
é absurda, quimérica.
fala para si, solipsista,
como jargão 
de ofícios militares; 
soa tantálica, prometeica, 
como se saísse
de uma boca costurada;
como ressurgido mugido 
de um mamute siberiano.
como se não fosse nenhum
som humano.

2014












ANTIMÍDIA III

Voici le temps des assassins
Rimbaud

Qual é a palavra mais terrível
para definir
essa fragilidade,
essa corrosão?
Em qual aterro
acumulam-se,
entre estrumes,
as multifaces de Rávana?
Ferros oxidados,
oleosidade, madeiras,
feldspato;
arame retorcido,
betume,
secas cabeças
de cogumelos.
Nenhuma hipótese
de lucidez
nessa máquina
para a produção do medo;
nenhuma hipótese
além do imponderável
e sua rude sequência
de mutilações.
Jogos obscenos
como incendiar abrigos
— esta é a estranha
anatomia do precário,
cor difusa que atravessa
todas as letras da epiderme.
Pensamento-ciclope
no comando da sanha
assassina: é assim
que a sociedade de classes
decuplica o abismo em abismos,
com sua raiva infecta,
raiva refugo, raiva corroída,
que mata às cegas.

2014
















ANTIMÍDIA II

Fundo escuro
esta rua de infernais
fungos-de-papiro
onde se espraiam
corpos deformados
— Anúbis enfurecido
ante o massacre.
Tempo caveira
desenterra
escaravelhos ao contrário
onde abismais
esqueletos do nunca
fornicam trevas.
Esta é a cidade esfíngica
onde passos trilhados
ao avesso da membrana.
Esta é a cidade esfíngica
onde a desrazão
navega a insanidade.
Porco burguês.
Porca burguesa.
Chafurdam na mídia pré-histórica,
colecionando cifras.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
(Tudo é número
nessa configuração
de lamentos:
até os fios de teu cabelo
estão contados,
e assim os anos de tua
breve trajetória.)
Mumifica a pele retesada,
em sarcófagos de cólera:
recolhidas em vasos
(canopos), tuas vísceras,
sob um céu ferruginoso
e o estrondo mudo
de uma pistola de 9mm.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
Tua face, deserto em miniatura.
Tua voz, imagem-terracota.
Tuas mãos, alfabeto do escarro.

2014














 ANTIMÍDIA I

Tunisiano de cabeça nervurada assenhora-se
da unha mínima
da história
enfurece letras que são bichos
de um minucioso horror
quando a morte engole manápulas
e adensa paisagens-vértebras
daqueles que não têm nome daqueles que
não têm nome nenhum nada além
de ninguém
tudo é um jogo desjogado de lacraus
letras que são bichos no escuro letras que
são lepras de lorpas no escuro
tateando entre os tufos da fome tateando
entre os húmus da usura tateando entre
assemelhar-se anfíbio
assemelhar-se reptante no asco
da rachadura no asco do desvão
em que se obliteram as anfetaminas
da desmemória
linhas incisivas num crescendo menos o focinho
menos a mandíbula menos as
tíbias esmagadas no
fosso monocromático do não –
há uma caixa torácica que canta
sozinha no deserto de Mojave
onde marines enrabam desvestidas traqueias
antes de matarem qualquer coisa viva – 
dentes-de-leão ressonam numa tarde esfumada de setembro
em que um poeta (tunisiano?) soletra a sub-reptícia
sombra da vivissecção.

2014