segunda-feira, 20 de junho de 2016

LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO POÉTICA REALIZA CURSO DE POESIA VIA INTERNET


















O Laboratório de Criação Poética é um curso teórico e prático de criação poética realizado à distância, via Skype, ministrado por Claudio Daniel, que tem como objetivo apresentar aos alunos conceitos sobre o fazer poético, formulados por autores como Edgar Allan Poe, Ezra Pound, Paul Valéry, Vladimir Maiakovski, Haroldo de Campos, entre outros, propor exercícios de criação poética, estimular os alunos a desenvolverem os seus projetos literários pessoais, além de oferecer dicas sobre como publicar o primeiro livro e iniciar a carreira poética. O curso é realizado nos seguintes horários: SEGUNDAS-FEIRAS, das 14h às 15h30, TERÇAS-FEIRAS, das 11h às 12h30,  QUARTAS-FEIRAS, das 14h às 15h30, QUINTAS-FEIRAS, das 20h às 21h30, SEXTAS, das 14h às 15h30, se SÁBADOS, das 15h às 16h30. Cada aluno poderá fazer quantas aulas desejar nestes horários e a mensalidade é de R$ 100,00. A página do Laboratório está no link https://www.facebook.com/groups/1259591840737449/?fref=ts. Quem estiver interessado no curso poderá enviar e-mail para o professor, claudio.dan@gmail.com.

Claudio Daniel é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Colaborador da revista CULT. Editor da Zunái, Revista de Poesia e Debates. Publicou os livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001), Figuras Metálicas (2005), Fera Bifronte (2009), Letra Negra (2010), Cores para cegos (2012), Cadernos bestiais (2015), Esqueletos do nunca (2015), Livro de orikis (2015) e o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004). Como tradutor, publicou a antologia Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na América Latina (2004), entre outros títulos. Em Portugal, publicou a antologia poética pessoal Escrito em Osso.


terça-feira, 14 de junho de 2016

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES



JUNHO / 2016

Entrevista com E. M. de Melo e Castro

Poemas: Luiza Neto Jorge (Portugal), Fiama Hasse Pais Brandão (Portugal), Alfredo Fressia Uruguai), Marcelo Ariel, Mônica Marques, Lucas Zapparoli de Agustini, Guilherme Leite, Bruno Bossolan, Lucas Grosso, Matheus Bensabat, Lubi Prates.
  
Traduções: James Joyce, Buson, Lord Byron, Gabriel Ferrater
  
Prosa de Sarah Valle e Daniel Lopes
  
Galeria: Ana Hatherly (Portugal), Krefer

 Especiais homenagem a Boris Schnaiderman. III Festival Artimanhas Poéticas. “Homenagem” ao jornal golpista FALHA de S. Paulo.

Ensaios:

Vanguarda poética em Portugal, de Claudio Daniel

Dois ou três possíveis para a poesia brasileira, de Luís Maffei

O desvelar do amor e da morte em Max Martins, de N. L. Ribeiro

Nosso corpo de festim, de Jorge Elias

Os não-valores e valores do homem contemporâneo, de Leonardo Castro da Silva, Márcia Denise Assunção da Rocha e Rui Lobato Bahia Júnior
  
Opinião / Cadernos da Palestina:

Pela libertação dos prisioneiros políticos palestinos e o fim da ocupação sionista

O portal do inferno: Israel está contaminando os palestinos com lixo nuclear a céu aberto

E as bombas atômicas de Israel?

Poemas para a Palestina


Zunái, Revista de Poesia & Debates, www. zunai.com.br

Preço: Inconcebível. Inefável.


Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte” (Vallejo).

quarta-feira, 11 de maio de 2016

HOJE ACONTECEU UM GOLPE DE ESTADO NO BRASIL


Hoje aconteceu um golpe de estado no Brasil.

Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), reeleita para a presidência do país em 2014 com 54 milhões de votos, foi afastada do cargo por um Congresso Nacional formado por uma maioria conservadora – proprietários rurais, banqueiros, especuladores financeiros, empresários, pastores evangélicos, fascistas, muitos deles envolvidos em processos de corrupção – sem ter cometido nenhum crime, num processo ilegal e ilegítimo que na prática revoga a Constituição, a democracia e o estado de direito no Brasil.

O “argumento” utilizado pelos partidos de direita – PMDB, PSDB e seus aliados, com apoio de juízes fascistas e de uma imprensa controlada por apenas seis famílias – para o afastamento de Dilma Rousseff  foram as alegadas “pedaladas fiscais” – a utilização de recursos dos bancos e empresas públicas para o financiamento de programas sociais que, nos últimos treze anos de governos democrático-populares de Lula e Dilma, foram responsáveis por tirar 30 milhões de brasileiros da situação de miséria absoluta, fato reconhecido pela ONU e muito incômodo para as elites brasileiras, que preferem manter a maioria da população brasileira na pobreza. As supostas “pedaladas” não caracterizam corrupção ou desvio de recursos públicos e foram praticadas também por governos anteriores, e inclusive por estados governados pelo PSDB, como é o caso de São Paulo, com Geraldo Alckmin.

Por que as elites odeiam Lula e Dilma?

Porque em treze anos eles construíram 18 universidades federais (o governo anterior, do neoliberal Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, não construiu NENHUMA), 400 escolas técnicas do Pronatec, aplicaram 10% do PIB e 75% dos royalties do pré-sal na educação e 25% na saúde, criaram programas como o Prouni, FIES e Ciência sem Fronteiras, que beneficiaram o acesso de estudantes pobres e negros aos cursos universitários. O programa Bolsa-Família garante hoje a segurança alimentar de 40 milhões de brasileiros. O Mais Médicos contratou 18 mil médicos brasileiros e estrangeiros para atenderem a população nas regiões mais carentes do país, beneficiando cerca de 50 milhões de pessoas.  O programa Minha Casa Minha Vida, por sua vez, entregou cerca de 1,5 milhão de unidades habitacionais a trabalhadores de baixa renda.  O Farmácia Popular, por sua vez, garante a distribuição gratuita de medicamentos à população. O governo golpista de Michel Temer anunciou a redução ou cancelamento desses programas sociais, com a provável privatização dos bancos públicos.

Lula pagou nossa dívida junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) já em seu primeiro mandato, e desde então essa instituição não monitora mais a nossa economia, impondo medidas recessivas e privatistas. As empresas estatais como a Petrobrás foram mantidas sob controle do estado brasileiro e o salário mínimo, que era de US$ 50,00 na época de FHC, hoje é de US$ 200,00.  Lula e Dilma mantiveram as leis trabalhistas e investiram em programas de reforma agrária. O governo golpista de Michel Temer deve submeter novamente o Brasil ao controle do FMI, arrochar os salários, privatizar a Petrobrás, entregar nosso petróleo e pré-sal para as companhias norte-americanas, e “flexibilizar” a legislação trabalhista, impondo a terceirização, o que na prática significa o fim da legislação trabalhista e o crescimento do desemprego.  

Lula recusou o ingresso do Brasil na ALCA proposta por George Bush. Michel Temer deve fazer o Brasil ingressar na “Aliança do Pacífico”, área de “livre comércio” com a participação dos Estados Unidos, Colômbia, Chile e Peru, o que na prática significará o sucateamento da indústria nacional, que não terá condições de competir com a indústria norte-americana. Lula e Dilma promoveram a integração e cooperação com os países latino-americanos, por meio de instituições como o Mercosul, a Unasul e a Celac, e aproximaram o Brasil da Rússia, China, Índia e África do Sul – os BRICs --, pensando em uma nova ordem política internacional, multipolar. Michel Temer deve recolocar o Brasil na área de influência norte-americana, o que fica explícito com a indicação de José Serra, do PSDB, para o Ministério das Relações Exteriores. Nos governos Lula e Dilma, o Brasil apoiou a luta do povo palestino por sua autodeterminação e condenou as agressões norte-americanas no Oriente Médio. Michel Temer deve apoiar a política sionista do Estado criminoso de Israel e apoiar as ações assassinas da OTAN.

Após destruir o Oriente Médio, os EUA voltam as suas garras agora para a América Latina, com o objetivo de destruir os governos progressistas da Venezuela, Bolívia, Equador. Uruguai, Cuba e Nicarágua, para a recolonização do continente, com apoio das elites locais, que nunca tiveram o projeto de construção da democracia ou mesmo de um desenvolvimento capitalista soberano. Elas se contentam com os lucros fáceis do mercado financeiro, pouco se importando com soberania, direitos humanos e distribuição de renda.

O Brasil tem hoje um governo ilegal e ilegítimo, de forte viés autoritário, e os movimentos sociais e partidos de esquerda colocarão na ordem do dia a desobediência civil.

Neste momento, é muito importante a solidariedade internacional ao povo brasileiro. Que o Mercosul, a Unasul, a Celac e outras instituições internacionais aprovem sanções diplomáticas e econômicas ao governo golpista! Que os países latino-americanos retirem os seus embaixadores do Brasil! Que a Rússia e a China se pronunciem, condenado o golpe de estado!

#ForaTemer


#JáTemLuta

domingo, 10 de abril de 2016

RETRATO V












Entranhados no terror.
Estirados na terra.
Suas mãos terrosas.
Suas bocas aterradas.
Seus olhos, fundas covas.
Seus olhos, gritos óticos. 
Abatidos como feras
pelos furiosos.
Abatidos como párias
pelos paranoicos.
Porque nascem da terra.
Porque vivem da terra.
Porque se multiplicam,
tumultuários, e sua voz
é a voz vermelha da terra.

Claudio Daniel, 2016


Poema escrito em homenagem aos trabalhadores rurais sem terra assassinados em abril de 2016 no Acampamento Dom Tomás Balduíno, no Paraná.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

POEMAS DE LAÍS CORRÊA DE ARAÚJO

















OFERTA

Toma minha boca,
toma minhas mãos que voam carinhos
inexistentes e dançam nos ombros
de nossos filhos impossíveis;
toma meu corpo, meu corpo que
se entrega nas noites sem rumo,
meu corpo de chuva e tarde,
meu corpo de passarinho caído
no fundo da gaiola.

Toma-me, esmaga-me e despedaça-me,
como um deus pisando estrelas.
Que fique nos teus dedos apenas
um gosto solitário de poesia e o
perfume da juventude realizada.



LUZ

Só há mistério quando se deseja dissecar,
as coisas devem ser absorvidas,
estar em cada profundidade,
nada mais que debruçar-se,
basta debruçar-se como pálpebras.

assim, seus olhos não encontraram escuro.
Onde o mistério,
no vibrante da carne,
na alma oferecida como mãos?

Ah, não há peso nem convite nos rios,
passam como céus;
você sabe, em cada misteriosa árvore,
há apenas ninhos se agasalhando.



ATO DE CONTRIÇÃO

Não me arrependo de meus erros:
nada mais que sofrimento e vida.
Não me arrependo de meus beijos:
deixaram um pouco de mim
em muitas bocas.
Não me arrependo de meus pensamentos:
eram belos como mulheres nuas.
Perdoai, Senhor, se alguma vez
não fui eu mesma.


ERA UMA VEZ

Não posso beijá-lo pelo telefone,
seu quarto é um laboratório
de exames transcendentais.
Fumo apenas.

Poderia dizer coisas grandes
que você fez em mim.
Era uma vez uma menininha.
Mas chove hoje.


ADEUS

É assim que eu te digo adeus:
como uma menina que mora na beira
da estrada e abana a mão para o trem.

Apenas te vi.
E te digo adeus porque não
apanho rosas.



(Poemas extraídos de INVENTÁRIO 1951 / 2002. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004.)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

BOLERO

     

















yo
no soy
un hombre
sin sombra
ni árbol, piedra
molusco
soy dios
niña y perro, ángel malo
jardín de trolls
playa desierta
soy palabra
y niervos y sangre y rostro
y manos
y una outra soledad
y mi lengua
negro cacto, sabre persa
dulce rosa
quelque voix
in long gones blues
quiere buscarte
diosa de nieve
tu blanco soplo de mármol
en ojos sin ojos
tu piel de cristal
paloma estrella y nardo
tu miedo del mar
noche serpientes invierno
tu silencio
tu reflejo
tu dolor
tu saliva
tu sexo
tu paso
sólo tu paso
de inmóvil
sombra
herida


Ciudad de La Habana, 1989


Poema de Claudio Daniel, publicado no livro Sutra (1992) 

sexta-feira, 1 de abril de 2016

PALO DE LA LUNA














existes tão fundo em mim
— Lobo Antunes

Ojos de mi mujer:
ojos que se multiplican
como olas y pájaros.

Manos de mi mujer:
manos interminables
en mis cabellos.

Senos de mi mujer:
senos incomprensibles
hacia el más allá de mí.

Bailaora de la luna,
danza en mi cuerpo
con su collar de peces.

Bailaora de la luna,
danza en mi cuerpo
con su cinturón de luces.

Mujer de la noche marina,
cuya boca es mi laberinto.

Mujer de la noche marina,
cuya piel es mi único jardín.

Sólo existe el palo
que nace de tus pies.

Sólo existe el blanco
de tus pies en mi boca.

Sólo existe la noche
de tu lengua en la mía.

Ojos de mi mujer:
ojos que se multiplican
en las manos, pies y senos.

Manos de mi mujer:
manos interminables
como la danza de la luna.

Senos de mi mujer:
senos incomprensibles
de mí sed infinita.

Poema de Claudio Daniel, 01 de abril de 2016.


quinta-feira, 3 de março de 2016

POUSADA DA LUA


Águas leoninas espalhadas no azul.
Ela desnuda os seus mamilos:
percorre luas
vermelho-flamboyant
vermelho-tiês
vermelho-eritrino
vermelho-flamingo.
Ela é Toda-Lua:
luas-olhos, luas-seios
luas-pés.
Ela é Toda-Lua:
Enluaresce-me em lua leonina.
Filha de Oxum,
senhora do mel,
desliza nas águas,
filha das águas,
entre casuarinas
até o reluzir das alamandas.
Filha de Oxum,
teus rios leoninos
espalhados
em minhas mãos.
Quando ela dança,
seus braços voam
como pássaros.
Quando ela dança,
flores brancas nos cabelos,
desenha no espaço
o meu labirinto.
O mundo não faz sentido
sem os teus pequenos pés.
Miniaturais opalas se expandem
na beira do rio,
para dizerem teu nome.
Raio de sol rebrilha
na beira do rio,
em tua pele-de-lua,
falanges de leoa.
Eu me faço andarilho
para percorrer
teus arroxeados lábios,
cada cavidade, fenda,
fresta, frincha de deusa lunar
até me tornar o reflexo de teus passos.

Claudio Daniel, 2016

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

FRENTE BRASIL POPULAR DEFENDE A DEMOCRACIA E O DESENVOLVIMENTO COM JUSTIÇA SOCIAL

Nesta segunda-feira, dia 22 de fevereiro, foi realizada em São Paulo uma reunião da Frente Brasil Popular, que tem o objetivo de defender a democracia no Brasil e o mandato legítimo da presidenta Dilma Rousseff e ao mesmo tempo propor mudanças na política econômica do governo federal, lutar pela ampliação dos direitos e conquistas de trabalhadores e organizar um calendário de lutas e mobilizações populares como a que acontecerá no dia 31 de março, em Brasília.  No período da manhã, foram discutidas análises da conjuntura nacional, que contaram com a participação da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB), do senador Lindebergh Farias (PT), do ex-governador Tarso Genro (PT), do membro do Diretório Nacional do PT Valter Pomar, da presidenta da UNE, Carina Vitral, e da presidenta do Cebrapaz, Socorro Gomes, entre outros representantes de centrais sindicais, entidades estudantis, de mulheres, negros, LGTBs, trabalhadores rurais sem terras e partidos de esquerda.

Em seu discurso na abertura da reunião, Jandira Feghali lembrou as importantes conquistas obtidas em 2015: derrota da tentativa de impeachment de Dilma proposta por Eduardo Cunha no Congresso Nacional, afastamento de Levy do Ministério da Fazenda, arquivamento dos projetos de redução da maioridade penal e da terceirização das relações de trabalho, aprovação das leis orçamentárias, fim do financiamento empresarial das campanhas políticas, formação do Conselho de Ética para a cassação do mandato de Cunha, entre outras. Em 2016, continuou a deputada, líder do PCdoB na Câmara Federal, a tese do impeachment tem menos força, mas a mídia e o judiciário jogam todas as suas cartas na tentativa de destruir a imagem de Lula, que representa o projeto democrático-popular iniciado no Brasil em 2002, sendo necessária uma resposta clara da sociedade em defesa do ex-presidente, responsável pela maior transformação social ocorrida em nosso país em toda a sua história.

Outro desafio político, conforme a deputada, é a necessidade de derrotarmos a “Agenda Brasil” proposta por Renan Calheiros, líder do Senado, que inclui propostas como a autonomia do Banco Central, a abertura de nossas reservas de petróleo e pré-sal para o grande capital internacional, as privatizações e um projeto de lei antiterrorismo que criminaliza os movimentos sociais. Jandira também fez críticas pontuais a algumas ações do governo federal, como a reforma da Previdência, e alertou que seria um grave erro estratégico de Dilma aceitar medidas impopulares em troca da estabilidade política.   

Jandira destacou ainda a necessidade de se apresentar à sociedade uma plataforma não apenas econômica, mas sobretudo política e de defesa dos direitos humanos e fazermos a disputa de narrativas com a direita: não basta denunciarmos os escândalos de corrupção de FHC e do P$DB, mas divulgarmos as conquistas alcançadas nos últimos treze anos de governos democrático-populares, implementarmos uma estratégia criativa e inteligente de comunicação, de acordo com diferentes veículos e públicos, definirmos o projeto de país que defendermos e resgatarmos a dimensão da utopia e do sonho. A deputada destacou também a importância de os movimentos sociais defenderem pontos como a reforma tributária, a taxação das grandes fortunas, a criminalização da sonegação e a redução da jornada de trabalho, dentro de uma perspectiva de retomada do crescimento econômico e do desenvolvimento nacional com justiça social.

Valter Pomar, em seu discurso, afirmou que a ofensiva conservadora que se desenvolve no Brasil é um reflexo da crise dos governos de esquerda na América Latina, que atingiu a Argentina, a Venezuela e agora a Bolívia. O cenário político de 2016, segundo o petista, será ainda pior que o de 2015 porque o alvo principal é o ex-presidente Lula e a própria existência legal do Partido dos Trabalhadores, tendo em vista a eleição de 2018 e a destruição do conjunto da esquerda brasileira. Pomar criticou duramente a reforma da previdência proposta pelo governo federal e o ajuste fiscal, que compromete os programas sociais, defendendo ampliar a mobilização popular e fortalecer a unidade da esquerda de torno de um programa, que inclua o combate ao oligopólio financeiro e a defesa firme da Petrobrás.

Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul pelo Partido dos Trabalhadores, destacou que todos os governos progressistas da América Latina fizeram concessões ao grande capital financeiro, o que resultou na paralisação desses governos. No caso brasileiro, segundo o líder petista, isto não ficou visível antes porque a situação de miséria do país era tão grande que os programas sociais implementados por Lula e Dilma, como o Bolsa-Família, o ProUni e o Minha Casa Minha Vida tiveram um alto impacto no quadro social. Apesar de todas as transformações ocorridas no país, de acordo com o ex-governador, é tarefa urgente a luta pela hegemonia na sociedade, num contexto em que a classe média se desloca para a direita, seduzida pelo discurso conservador. Na atual conjuntura política, desfavorável às forças populares e de esquerda, os riscos são enormes: a coligação entre o capital financeiro, a mídia e o Judiciário ameaça destruir os pilares da atual Constituição e impor grave retrocesso na legislação, com a ameaça de um golpe de estado jurídico pelo STF, que entre outras arbitrariedades permitiria a prisão de Lula. Neste quadro, cabe aos movimentos sociais a tarefa de defesa da ordem democrática e dos direitos constitucionais contra medidas de exceção. O desafio de construir uma candidatura que dê continuidade ao projeto democrático-popular em 2018, segundo o petista, será imenso, pelo esgotamento do atual modelo implementado no Brasil e na América Latina e pela necessidade de uma ampla base social e parlamentar para que seja possível a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte que garanta a democratização do estado brasileiro. Na opinião do ex-governador, vivemos o fim de um ciclo político e a esquerda precisará criar uma nova frente e um novo projeto político em 2018, sem a participação do PMDB, que resgate os valores e tradições da esquerda brasileira e latino-americana.

Socorro Gomes, presidenta Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) recordou que a atual ofensiva conservadora é uma reação às sucessivas vitórias que a esquerda obteve na América Latina desde a eleição de Hugo Chávez na Venezuela, em 1998, que abriu caminho para as vitórias eleitorais de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Pepe Mujica, no Uruguai, de Evo Morales, na Bolívia, de Rafael Corrêa, no Equador, e de Daniel Ortega, na Nicarágua. No caso brasileiro, as conquistas sociais foram limitadas pela correlação de forças no Congresso Nacional e na sociedade mas, ainda assim, é imprescindível a defesa do mandato legítimo de Dilma, acompanhada de uma agenda enxuta, apresentada pelos movimentos sociais ao governo federal, com propostas políticas e econômicas que garantam a continuidade das mudanças sociais em curso no país.

Carina Vitral, presidenta da União Nacional dos Estudantes, saudou a criação de um fórum unificado dos movimentos sociais brasileiros, representado pela Frente Brasil Popular, e defendeu a ampliação da frente e a realização de novos atos massivos em defesa da democracia e das pautas apresentadas pelos movimentos sociais, com destaque para o ato que acontecerá em Brasília, no dia 31 de março.

No período da tarde, a reunião discutiu propostas e calendário de lutas, que serão divulgados em seguida.

Fazem parte da Frente Brasil Popular as principais centrais sindicais brasileiras, como a CUT e a CTB, entidades estudantis, como a UNE, UBES, UJS, Levante Popular da Juventude, de mulheres como a UBM e a Marcha Mundial das Mulheres, de negros (Unegro), LGTBs, trabalhadores rurais sem terras (MST) e partidos de esquerda (PT, PCO, PCdoB), entre outros movimentos sociais.


Claudio Daniel

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

RETRATO IV (Francisca das Chagas Silva )

Pedras queimadas
na crueza 
do abandono
tuas disformes formas
marcadas 
a cutelo.
Pele dispersa 
arroxeada 
de corpo inânime
esfiapada
entremostrada
em febras 
de açougue.
Despejada 
na lama, 
como detrito: 
um aviso 
do quebra-ossos
para que ninguém 
reclame.
Mundo 
desmundo
de mortes 
emudecidas
onde olhos
se fecham
para o flagelo
mais cegos 
que a noite
mais cegos 
que a morte
de indistintas 
estrelas —
apenas os corvos 
crocitam, 
apenas os corvos
— cachorros do céu —
desenham, 
com suas vozes
desconexas
a cena do mais 
absoluto
horror.
Claudio Daniel, 2016

(Francisca das Chagas Silva, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miranda do Norte, no Maranhão, foi assassinada a mando de fazendeiros da região, com requintes de crueldade: seu corpo foi encontrado nu, com sinais de estupro, estrangulamento e perfurações. “O simbolismo desta imagem, é do escárnio de como são tratadas as reivindicações e a luta das mulheres para serem vistas, tratadas e respeitadas na lei e na vida como seres humanos”, comentou Isis Tavares Neves, presidenta da CTB-MA.)


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

BRASIL: PAÍS SOBERANO OU COLÔNIA?

Em 1994, o presidente norte-americano George W. Bush propôs a criação de uma Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), que se efetivada levaria ao fechamento de indústrias nacionais, que não poderiam concorrer com os preços dos produtos norte-americanos, e ao desemprego de milhões de trabalhadores em todo o continente latino-americano. A ALCA era uma estratégia para a recolonização das Américas, que voltariam a ocupar seu papel tradicional na divisão de trabalho internacional, exportando matérias-primas e importando mercadorias. O presidente Lula, já em seu primeiro mandato, recusou o ingresso na ALCA, respondendo ao emissário norte-americano que pretendia discutir com ele a proposta: "não vou conversar com o sub do sub do sub". Apenas os países mais próximos dos EUA no continente -- México, Chile, Peru, Colômbia -- aderiram à proposta, que hoje atende pelo nome de "Aliança para o Pacífico", defendida em 2014 pelo então candidato presidencial Aécio Neves, do P$DB. Entenderam o que está em jogo na atual situação política do país? Não se trata "apenas" de privatizar a Petrobrás, substituir o contrato de partilha pelo de concessão e entregar o nosso petróleo e pré-sal às grandes companhias internacionais, mas de entregar TODA A NOSSA ECONOMIA ao imperialismo, com o monitoramento do Fundo Monetário Internacional (FMI). Um eventual retorno do P$DB ao governo federal representaria converter o Brasil, novamente, ao triste papel de um estado colonial, como o foi durante quase toda a sua história. Por isso mesmo, defender Lula, Dilma e o PT é defender a nossa soberania e independência nacional. IMPERIALISTAS, FORA DO BRASIL!!!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

FHC, QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ...



 









Em 1979, Fernando Henrique Cardoso era considerado um sociólogo "marxista" (nunca caí nessa conversa) e Lula era um jovem líder operário que comandou as grandes greves metalúrgicas no ABC paulista. Candidato ao Senado pelo antigo MDB, único partido de oposição permitido pela ditadura militar, FHC buscou o apoio de Lula, que o levou às portas de fábricas para conversar com os trabalhadores. Quase 40 anos depois, o "sociólogo marxista", responsável pela privatização criminosa de nossas empresas estatais de mineração, siderurgia, telecomunicações, pesquisa nuclear, aeronáutica e outros setores estratégicos do país, defende o golpe de estado fascista, o monitoramento de nossa economia pelo FMI e a entrega da Petrobrás para o grande capital internacional. Lula, que na presidência da república disse NÃO à Alca de George Bush, construiu a CELAC, a UNASUL, fortaleceu o Mercosul, condenou as guerras imperialistas e fez a maior transformação social de nossa história, que retirou mais de 30 milhões de pessoas da miséria extrema e levou 40 milhões à classe média, continua ao lado dos trabalhadores. Defender Lula não é apenas um compromisso político e ideológico dos militantes petistas e comunistas, é uma obrigação moral do povo brasileiro em defesa de nossas conquistas e do principal arquiteto de um Brasil mais justo, igualitário e soberano.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

RETRATO DO ARTISTA DE JANEIRO NA MUSA RARA



 





Estimad@s amig@s, a coluna RETRATO DO ARTISTA, dedicada à poesia brasileira contemporânea comprometida com a qualidade e a inovação, a partir de agora não será mais publicada na revista CULT, mas terá continuidade, com a mesma periodicidade mensal, na revista eletrônica MUSA RARA, editada pelo Edson Cruz. Vocês podem acessar a matéria de janeiro, dedicada à poesia de Nelson Ascher, na página http://www.musarara.com.br/o-sonho-do-arquiteto
Há braços,
Claudio Daniel

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

POEMAS DE RUY PROENÇA

 












TERATOLOGIA

um rato
entrou
em mim

por isso
me digo
monstro

como imaginavam
os seiscentistas
(Ambroise Pare
sobretudo)
foi pela porta
de entrada
ou saída
de uma mulher
que me tornei
um

vão

por onde
pudesse
entrar o rato



INCENDIÁRIO I

a inconseqüência
mata
o medo

ateei o fogo
onde ele
não poderia estar

depois
o lancei
por cima do muro
do que sou

lancei o fogo
para além
do meu nome

a vizinhança
o mundo
incendiei

fogos de artifício
bombas
varreram o céu

e eu
de tão tolo
extasisado
esqueci de sair
do meu quintal



HOSPITAL

deitado na cama
na penumbra
de um quarto tranqüilo

ao pé da janela
persianas fechadas
faço ultrassom

do lado de lá
da parede

quem o coitado
na sala de cirurgia?

um ruído estridente
quase insuportável
de serra elétrica

e o baque seco
repetido
de uma marreta



RISCO

palavras
são lagostas entocadas
perigosas

cortou-me uma
ontem

não rogo praga
não desisto

ao contrário –
insisto

tento agarrá-las
pela parte de trás



PASSAPORTE

amor é menos
ou mais
que esse inesperado
presente passagem
em forma de orquídea
para outro mundo
além da matéria viva
intertravada?


(Poemas do livro Caçambas. São Paulo: ed. 34, 2015)

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS



 
















Quando eu iniciei a carreira literária, no início da década de 1980, costumava visitar alguns poetas, críticos literários, artistas e intelectuais que eu respeitava, para conversar. Queria apresentar o meu trabalho, trocar experiências, saber mais sobre as pesquisas que eles realizavam na poesia e em outras artes e ramos do conhecimento. Eu era jovem e ainda imaturo. Fui bem recebido por Mário Schenberg, José Celso Martinez Corrêa, Jorge Schwartz, para citar poucos nomes, e troquei cartas (na época não havia e-mail) com Augusto de Campos e José Paulo Paes. Com alguma frequência, ouvi a pergunta: "Você é filho de quem?". Confesso que na época fiquei surpreso com a questão, não entendi a sua relevância, mas respondia: "Meu pai se chama Orlando, e minha mãe, Lázara". Eles ouviam a resposta com curiosíssimas expressões faciais. Muitos anos depois, ao folhear uma revista literária -- cujos editores eram, todos eles, filhos de ministros da área econômica e grandes empresários -- entendi, finalmente, a pergunta. Poetas iniciantes "deveriam" ser filhos de importantes artistas plásticos, homens de negócios, atores renomados, professores da USP, críticos importantes, enfim, "gente de bem". Eu era a ovelha negra -- aliás, vermelha -- no rebanho. Hoje, sempre que posso, digo com orgulho: sou filho de Orlando, um técnico eletrônico com segundo grau incompleto, que trabalhou a vida toda em fábricas de caldeiras e de equipamentos eletrônicos, e de Lázara, uma secretária das Indústrias Reunidas F. Matarazzo. Foi com eles que adquiri o gosto pela leitura. Tudo o que consegui na vida literária, em mais de 30 anos de carreira, conquistei por mim mesmo.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

MAIS PATRAQUIM




















MATERIAIS

está na oficina e burila o sangue
-- que flores se desenham no ar?
Porém os lógicos dirão o impossível 


A VOZ E O VENTO

com palavras faço a voz
e o vento
de que viajam e são

insistente desejo a lucilar
sobre a pele morna
de girassóis filtrando
teu rosto
seios
paisagem nua de ventre
com palavras a voz do que faço

estes dias infensos
a pendor de gume


* * *

afasto as cortinas da tarde
porque te desejo inteira
no poema

e passas de capulana
teu corpo como as dunas
plantadas de casuarinas
rumorejando perto

a fúria das ondas
caindo brandas
no meu gesto


* * *

ó minha palavra nua
idioma do teu corpo

aqui fundo a raiz
e o espaço
neste ciciado cio
teu monte azeviche
aberto às manhãs
cacimbadas a nervo!


(Do livro Monção, 1980)


ACONTECIMENTO

sobre as espigas trémulas
os pássaros migram
para os meridianos virgens
do teu rosto no vento
a densidade da boca

(Do livro A inadiável viagem, 1985)


* * *

Quero a táctil nervura do teu corpo
e o ritmo das vozes penetrando-se
a galope sobre o verde.

Trago a pacaça nos dentes e soletro
a montanha agachada no asfalto.

As casas verdes são húmidas e verdes.
Verdes os remos com livros no mar.

Verde uivo corre Junho e exaustas
tropeçam as patas do poema
A menina é dos olhos o baço espelho.

Close-up a golfadas de mênstruo
ainda com putas e açaimos,
quero o verde, os cavalos e os sapos,
verdes as vogais salgadas e verdes.

Verde tu, cósmica explosão aberta
no meu peito fulgurando as coisas.
Verdes.


* * *


Sentam-se sob as acácias no asfalto roto
os mutilados com cigarros de embalar.
Nenhum som os recorta
e todos os sentidos foram amputados.
Nem para a tarde crescem frustrados.
Esperam. Que inconclusa forma
os limita em fórmula de serração?
Que ameaça os delira? Nenhuma flor
explode, poeta, no coração?
Os mutilados sonharão? Suas pernas?
O desejo, fruto pobre adubando. Outra mão?
Que triste palavra os baba
no cigarro morto! Vendem.
Nenhum incesto os estanca.
À revelia do sol, os mutilados
montam banca.


MUHÍPITI

É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.


* * *

lha, corpo, mulher. Ilha, encantamento. Primeiro tema para cantar. Primeira aproximação para ver-te, na carne cansada da fortaleza ida, na rugosidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias, escravos, coral e açafrão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no Índico esquecida. Circum-navego-te, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo a oriente, para sempre de ti exilada.



Foste uma vez a sumptuosidade mercantil, cortesão impossível roçagando-se nas paredes altas dos palácios. Sobre a flor árabe a excisão esboçada com nomes de longe. São Paulo. Fadário quinhentista de «armas e varões assinalados». São Paulo e o rastilho do envangelho nas bombardas dos galeões. São Paulo rosa, ébano, sangue, tinir de cristais, gibões e espadas, arfar de vozes nas alcovas efémeras. Nas ranhuras deste empedrado com torre a escandir lamentos dormirão os fantasmas?Almas minhas de panos e missangas gentis,quem vos partiu o parto em tijolo ficado e envelhecido? Ilha, capulana estampada de soldados e morte. Ilha elegíaca nos monumentos. Porta-aviões de agoirentos corvos na encruzilhada das monções. De oriente a oriente flagelaste o interior da terra. De Calicut e Lisboa a lança que o vento lascivo trilou em nocturnos, espasmódicos duelos e a dúvida retraduzindo-se agora entre campanário e minarete. Muezzin alcandorado, inconquistável. Porque ao princípio era o mar e a Ilha. Sindbad e Ulisses. Xerazzade e Penélope. Nomes sobre nomes. Língua de línguas em Macua matriciadas.


INDICA MISSANGA SOBRE O TEU CORPO


Agora percorro-te pelas artérias de poeira e branco encardido. Pedra obsessiva, vazia, petrificando o tempo. Pedra de mulher mítica, olhando-me. Mulher onde eram as ondas e os pássaros e os barcos
elementares.

E agora fotografo-te em ritmo de coda, em variações batidas pelas veias abertas do teu segredo violado. Usurpado. Acrescentado. Agora, sobre os dias de tédio martelados a luz, de partos povoando-se, da epiderme em grito contra a pedra. Naufrágio de colmo guerrilhando-te os afectos, os amantes em
rotação de geografias, o íman das coifas e das desembainhadas, tesas baionetas.

Agora possuo-te. Perco-te. A minha boca em Macua perguntando-te como se diz «bom dia», neste articulado silêncio de arquitecturas
que em quotidiano caminhar cruzo, tu cruzas, entre levas de intestino e fome. Como um distúrbio da grandeza maior que te cobre.

Agora eu, moçambicana concha, madeirame de açoitada nau escorando-me os músculos, indica missanga perdida, sobre o teu corpo, minha mulher, minha irmã, minha mãe, percorro-te. Sou.


(Do livro Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora, 1991)


CHAGALL

a Lagosta alando-se
ao flanco mais lúcido das estrelas,
mestre, esta é a casa
ou só silêncio em percussão de formas,

Rumor de virgens
sagrando de mênstruo as raízes


(Do livro Mariscando luas, 1992)


ELEGIA DO NILO

Azul e branco e o deus crocodilo na margem
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença;Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-se junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que subia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.

(Do livro O osso côncavo e outros poemas, 2004)


Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques (atual Maputo), em 1953. Refugiou-se na Suécia, em 1973, por motivos políticos. Regressou ao país em 1975, ingressando no jornal A Tribuna. Membro do núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto Nacional de Cinema (INC), atuou, de 1977 a 1986, como roteirista / argumentista e redator do jornal cinematográfico Kuxa Kanema. Foi o criador e coordenador da Gazeta de Artes e Letras (1984/86) da revista Tempo. Desde 1986 reside em Portugal. Publicou, entre outros títulos, Monção (1980), A Inadiável Viagem (1985), Vinte e tal novas formulações e uma elegia carnívora (1992),  Lidemburgo Blues (1997) e O Osso Côncavo (2005). Recebeu o Prêmio Nacional de Poesia de Moçambique, em 1995.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

UM POEMA DE LUÍS CARLOS PATRAQUIM



 












 O OSSO CÔNCAVO

sábado, 2 de janeiro de 2016

FÓSFORO BRANCO













Para Emir Mourad

Fósforo branco ácido ilumina escombro escárnio nos céus do Líbano.
Talhos retalhos de torsos retorcidos
ossos negrume carcaças.
Corpos enfileirados peles requeimadas
de carne sucata
nos campos de refugiados
em Sabra e Chatila.
Esta é a hora do morticínio.
Farpas fiapos nacos de membros desmembrados
e o aroma escuro escuro da hora lenta lenta de um dia que nunca termina.
Nenhum Kaddish para os filhos da escrava Agar
nenhuma lágrima para Ismael.
Apenas o silêncio de talhos retalhos peles farpas fiapos
e o escuro escuro.
Esta é uma história
exilada da história,
que eu e você não devemos saber:
por isso cala o escombro cala o negrume cala a sucata do morticínio.
É preciso calar
a matraca dos jornais;
sim, é preciso fechar os livros, fechar para sempre os livros
e condenar os mortos à perene desmemória
(em algum sítio
mefistofáustico
de Tel Aviv,
que moveu a macabra máquina da morte,
a estrela de David
se converte
em nova suástica).
Porém, eu e você não nos calamos,
eu e você não iremos esquecer,
eu e você somos o cedro do Líbano, a oliveira da Palestina,
o pão fresco nas mesas da Síria.
Houve aqui uma página infame da história,
mas eu e você recusamos o silêncio,
recusamos o esquecimento,
recusamos o perdão.

2013

(Poema que será publicado no terceiro volume de meu livro Cadernos bestiais)