sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEPHISTO, DE ISTVÁN SZABÓ


A TRISTE SAGA DOS OPORTUNISTAS


O filme Mephisto, do diretor húngaro István Szabó, apresenta a história de um ator de teatro alemão que converte-se ao nazismo, abandona a amante negra e os amigos comunistas para alçar cargos importantes no III Reich e usufruir os privilégios de quem estava associado ao novo regime. A triste saga do oportunista que troca princípios por vantagens pessoais é encenada no Brasil por pessoas como Roberto Alvim, diretor de teatro medíocre convertido ao bolsonarismo e que hoje, na posição de diretor da Funarte persegue e ofende artistas do nível de Fernanda Montenegro. No campo literário, temos Marcelo Tápia, escrevinhador de talento escasso que, na posição de diretor da Casa das Rosas, impõe uma lista negra de poetas que não podem se apresentar na instituição, por não comungarem com o seu ideário tucano e sionista. Serei sempre grato aos deuses por estar entre os censurados, e não junto aos colaboracionistas do obscurantismo, que serão julgados pela história.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

POEMAS DE YVETTE CENTENO




















MELANCOLIA

Melancolia:
é a casa dos mortos?

ouvem-se vozes
e um grito

não é um grito:
é uma explosão de sussurros.


O ANJO

Uma pedra na mão
uma palavra-pedra
uma palavra fria
aguardavas a chave
não era
o que ele trazia.


ANUNCIAÇÕES

Nem sempre virão de branco
os mortos que acompanham.

Por vezes virão de treva
envoltos nessa bruma
que primeiro os esconde
e depois os revela.

(Do livro Entre silêncios. Lisboa: Pedra Formosa Edições, 1997)

AS NORNAS
(Ouvindo Wagner)

Cantam as tecedeiras
enquanto tecem os fios:
uma dá, a outra puxa,
a última esconde o desenho
e com a tesoura de prara
corta o fio do destino.


PEDRAS

Não quero a Pedra
quero a flor dentro dela

PAUL CELAN

I
Cultivemos a planta
do silêncio negro-musgo

dizer o nome
é perturbar o somo

deixemo-lo
que se afunde
nas suas águas paradas

II

O destino:
essa flor que se abre
raiz plantada
no ar

III

O amor é uma travessia?
O amor é um afundamento.

IV

Quantos poemas
para salvar o dia
quantos poemas
para salvar a vida


PAUL CELAN, PARA SEMPRE

Escolheste a água
de cabelos lisos
como os da tua mãe

escolheste a água
de peixes cintilantes
como as cinzas do céu
que outrora tinha visto

escolheste a água
porque abafava os sustos
e os gritos

MULHERES
(fragmento)

III

Não são casas
são caixas

Não são caixas
são coisas

Não são coisas
são fugas

Voa-se pelas escadas
voa-se com os telhados

até às brancas estrelas
da memória

à dança vermelha
das papoulas

o grito do violino
o negro bater
do sangue
do coração

A HERBERTO HELDER
(ao ler A faca não corta o fogo)

Essa faca
não corta o fogo
mas corta o coração da pedra
florescendo em palavras-pétalas
de ouro
(eu disse ouro? queria dizer
brasa
carvão em brasa
ardendo na fornalha)
e corta a veia
no fio do horizonte
deixando ver um sangue
delicado
voz abafada
grito nascendo
dessa faca
no fogo
desse corpo
(eu disse corpo?
queria dizer treva
Ungrund
buraco negro da alma
ferida mortalmente)

SOMBRAS

É a Sombra
das sombras

vagueia
pelo jardim

perde-se
nos labirintos

afoga-se
nos lagos

esconde-se
nos corredores
de bambu

escapa-se
pela ponte
que não une

antes separa

as pedras
do templo
e do palácio

(Do livro Outonais. Lisboa, 2011 )


Yvette Centeno, poeta, ensaísta, dramaturga, romancista e tradutora portuguesa, nasceu em Lisboa, em 1940, filha de pai português e mãe polonesa. É uma das principais escritoras e intelectuais de Portugal hoje, especialista na obra de Fernando Pessoa, e pesquisa temas relacionados com a maçonaria e o hermetismo. Sua tese de doutorado é sobre A alquimia no Fausto de Goethe e a autora criou o Gabinete de Estudos de Simbologia da Universidade Nova de Lisboa, onde leciona. Como tradutora, verteu para o português obras de Goethe, Stendhal, Shakespeare, Brecht e Celan, entre outros. A obra publicada de Yvette Centeno inclui romances como No jardim das nogueiras (1982), peças teatrais -- Saudades do paraíso (1980), Será Deus o dr. Freud? (1995), ensaios – Fernando Pessoa: tempo, solidão, hermetismo (1978), A utopia: mitos e Formas (1994), coletâneas de poesia, como A Oriente (1998) e traduções de autores como Bertolt Brecht e Paul Celan. A autora mantém o blog Simbologia e alquimia (http://simbologiaealquimia.blogspot.com.br/), onde publica regularmente textos sobre literatura, mística e psicanálise.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019


SENZALA BRASIL



Claudio Daniel



A sociedade brasileira sempre esteve dividida entre a Casa Grande e a Senzala. Vivemos em um país que impôs a exclusão social, os preconceitos racial, religioso, de classe, de orientação sexual e de gênero desde o início da colonização portuguesa, no século XVI, até os dias atuais. Para compreendermos a tragédia brasileira, portanto, é necessário estudarmos as nossas raízes coloniais, e em particular a formação da elite brasileira, que nasceu com as capitanias hereditárias, os engenhos de cana-de-açúcar, a imposição do cristianismo, o trabalho escravo, a submissão da mulher e a dependência política, econômica e cultural em relação à metrópole. Nunca nos emancipamos do colonialismo e do imperialismo – primeiro o português, depois o inglês e o norte-americano; sempre fomos uma imensa feitoria, fornecedora de matérias-primas e mão-de-obra barata para as potências capitalistas hegemônicas, além de oferecermos um mercado de dimensões continentais para as mercadorias e capitais excedentes das nações ricas, sem desenvolvermos um projeto autônomo de civilização.

A burguesia brasileira renunciou ao seu papel histórico de promover uma revolução democrática que criasse um estado laico com verdadeiras instituições republicanas, promovesse os direitos básicos de cidadania, eliminasse a fome, a miséria, o analfabetismo, o atraso cultural e permitisse o desenvolvimento em larga escala das forças produtivas. A elite industrial da Terra de Santa Cruz abdicou de qualquer vocação democrática ou progressista e preferiu manter a sua aliança com o latifúndio – rebatizado de “agronegócio” –, o capital financeiro internacional e a dominação imperialista para a exploração brutal da classe trabalhadora, em  vez de investir na construção de um país moderno, democrático e soberano. Podemos comprovar essa afirmação com facilidade, pelo simples exame dos fatos recentes da política brasileira após o golpe de estado de 2016, como o apoio do empresariado urbano, e em particular da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), à flexibilização do conceito de trabalho escravo no campo, implementada pelo governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB). Outros exemplos poderiam ser apresentados em defesa de nossa tese, como o apoio empresarial à liquidação dos direitos trabalhistas e previdenciários, ao congelamento dos investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos, aprovado no Congresso Nacional, à privatização de usinas hidroelétricas, serviços públicos e empresas estatais rentáveis, em benefício de investidores internacionais, sem falarmos dos leilões dos campos de pré-sal a preço vil e da venda de ações dos bancos públicos a grupos privados, numa operação de completa destruição do país, que supera as desgraças anteriores de nossa história recente, e em particular a ditadura militar implantada em 1964, que perdurou até 1985, e o período neoliberal seguinte, que atingiu o seu apogeu nos governos de Fernando I (Collor de Mello) a Fernando II (Henrique Cardoso). A ausência de um projeto civilizacional autônomo, soberano e de longo prazo por parte da elite brasileira, que se contenta com o papel de capitão-do-mato do grande capital internacional, é a raiz de todo o nosso infortúnio. Para compreendermos a formação histórica e o caráter predatório dessa elite, um livro é fundamental: Casa grande & senzala, do grande sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que comentaremos a seguir neste artigo.

Publicado pela primeira vez em 1933, Casa grande & senzala apresenta um retrato da sociedade aristocrática, patriarcal, branca, cristã e escravocrata do período colonial brasileiro, entre os séculos XVI e XIX.  Neste livro notável, Gilberto Freyre faz uma descrição minuciosa da alimentação, vestuário, higiene, saúde, arquitetura, mobiliário, vida cotidiana, sexualidade, religiosidade, meio ambiente, comércio e outros aspectos da vida colonial brasileira, e em especial da miscigenação entre europeus, negros e índios, um dos temas centrais da obra, em um estilo de grande beleza literária; o que nos interessa no presente artigo, no entanto, é o estudo realizado pelo autor sobre a economia colonial e os hábitos e práticas da elite dirigente. Já no prefácio de sua obra, o autor caracteriza a atividade econômica desenvolvida no Brasil na época das capitanias hereditárias de “monocultura latifundiária” que “exigia uma enorme massa de escravos” e que teve como consequências a concentração da terra “numa grande extensão em volta aos engenhos de cana”, onde não se praticava a policultura, nem a pecuária. “Na zona agrária desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semifeudal – uma minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão”.  

Freyre critica a monocultura latifundiária, concentrada nos engenhos de cana-de-açúcar, apontando os seus “males profundos, que têm comprometido, através de gerações, a robustez e a eficiência da população brasileira”, comprometendo a sua saúde, além de prejudicarem o solo. “Entre outros males, o mau suprimento de víveres frescos, obrigando grande parte da população ao regime de deficiência alimentar caracterizado pelo abuso do peixe seco e de farinha de mandioca (a que depois se juntou a carne de charque); ou então ao incompleto perigoso, de gêneros importados em condições péssimas de transporte, tais como as que precederam a navegação a vapor e o uso, recentíssimo, de câmaras frigoríficas nos vapores”. Compreenda-se: na economia de monocultura açucareira voltada para a exportação à metrópole, não havia espaço para o cultivo de verduras, legumes, árvores frutíferas, nem a criação de gado doméstico para a alimentação de casa. Frutas e carnes eram importadas da Europa, em caravelas, e pela ausência de recursos de conservação artificial e tempo da viagem, os alimentos chegavam aqui muitas vezes estragados. Do mesmo modo, importava-se quase tudo da metrópole, desde vestuário, joias, peças de decoração e armas até ferramentas de trabalho. Toda a atenção de nossos incipientes capitalistas estava concentrada no cultivo e exportação do açúcar e no lucro imediato oferecido por esse negócio, sem nenhuma preocupação com a criação de outras atividades econômicas, mesmo para a sobrevivência imediata. A alimentação inadequada, tanto dos senhores quanto dos escravos, resultava na “diminuição da estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes; insuficiências tiróidea, hipofisária e gonodial provocadoras de velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia, não raro infecundidade”. As empresas coloniais não estavam preocupadas com a construção de uma nação próspera, de economia diversificada, mas simplesmente com a exploração intensiva da terra, com o uso do trabalho escravo, para a obtenção de lucros rápidos nas exportações para a metrópole – lucros que seriam usados, posteriormente, para a importação de manufaturas dessa mesma metrópole, num círculo vicioso de dependência.

No centro desse sistema perverso estava a casa grande, “completada pela senzala”, que representava “todo um sistema econômico, social, político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a escravidão); de transporte (o carro de boi, o banguê, a rede, o cavalo); de religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater famílias, culto dos mortos etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo); de higiene do corpo e da casa”, escreve Freyre. Senhores absolutos nesse sistema, os grandes proprietários rurais dispunham a seu bel prazer da vida e integridade moral e física dos africanos e índios escravizados, de suas mulheres e filhos, todos tratados como se fossem animais ou coisas, destinados ao prazer e ao lucro de seus senhores. Dispunham até mesmo dos corpos de escravos ou familiares mortos, enterrados dentro da casa grande, numa suposta continuidade das relações de controle e posse, mesmo após a morte física. Conforme escreve o autor pernambucano: “Conta-se que o Visconde de Suaçuna, na sua casa grande de Pombal, mandou enterrar no jardim mais de um negro supliciado por ordem de sua justiça patriarcal. Não é de admirar. Eram senhores, os das casas grandes, que mandavam matar os próprios filhos. Um desses patriarcas, Pedro Vieira, já avô, por descobrir que o filho mantinha relações com a mucama de sua predileção, mandou matá-lo pelo irmão mais velho”. Freyre descreve ainda, em detalhes, as sevícias sofridas pelos meninos negros, tratados como animais de estimação, objetos sexuais ou alvos de humilhação e de tortura por parte das crianças brancas; o estupro das escravas pelos senhores de engenho, e posterior castigo das negras pelas esposas brancas, que as mandavam torturar das mais sádicas maneiras, desde a extração de todos os dentes das pobres diabas pelo capataz até a morte no tronco, sob a tortura ininterrupta do açoite.

O  espaço desta coluna, com certeza, é insuficiente para analisarmos em profundidade todos os temas desenvolvidos por Freyre em sua obra-prima, mas o que expusemos até aqui acreditamos ser suficiente para despertamos o interesse do leitor disponível para a leitura integral desse grande livro. Claro: o autor pernambucano possui limitações: Casa grande & senzala peca pela ausência de informação sobre o trabalho escravo na lavoura (o autor concentra a sua atenção nos escravos domésticos que trabalhavam na Casa Grande), a miscigenação é apresentada de uma forma idealizada, a luta de classes nunca aparece (a resistência dos quilombos, por exemplo), como se não existisse, e os conceitos de raça utilizados por Freyre, comuns nas primeiras décadas do século XX, estão hoje completamente ultrapassados. Apesar de todas as críticas que podem ser feitas ao livro -- que data de 1933 --, é impossível resistirmos à sua prosa elegante e saborosa. Casa grande & senzala é um dos livros basilares para compreendermos a nossa formação nacional, ao lado de outras obras clássicas, como O povo brasileiro, de Darcy Ribeiro, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, História econômica do Brasil, de Caio Prado Jr., e  Os sertões, de Euclides da Cunha, que nos ajudam a compreender porque até hoje fomos incapazes de criarmos uma civilização.      


domingo, 7 de julho de 2019


CONVERSA SOBRE O BRASIL COM UM POETA CHINÊS


País tão sombrio –
como um arco-íris
negro;
como um cão
negro
e outros cães,
todos negros;
luz negra,
jade negro, pele negra,
sangue negro,
soldados
brancos e negros
que matam
negros,
uma, duas, três,
até oitenta vezes;
palavras escuras
secam na boca,
costurada;
nenhum pensamento
é possível
aqui,
só o telejornal
zumbi;
Em qual língua
é possível
expressar
este açougue
de carne humana?
Este é o relógio
do medo,
estes são os dez dedos
do medo
Há sobreviventes?
Uma palavra cai, duas,
três palavras, numa tigela
vazia.
Um rato é o nosso rei.
Relâmpago ilumina
flor mínima, no caminho
das antiflores.

2019 

terça-feira, 28 de maio de 2019


CONFISSÕES DO CATADOR DE PAPEL



Para Luciano Macedo

Folhas amarelas
caem na calçada:
brisa de outono.
Farol vermelho pisca
para carros cegos.
Revistas velhas,
folhas de jornal,
caixas de papelão:
recolho os resíduos
dos brancos e ricos
que desprezam
minha classe,
minha pele.
Numa tarde de sol,
assisti à incompreensível
cena de fuzilamento:
corri para socorrer
o ocupante do veículo
e também fui alvejado.
Agora, os brancos e ricos
podem dormir tranquilos:
há dois pobres a menos
no Rio de Janeiro.

Poema inédito de Claudio Daniel, 2019

sexta-feira, 15 de março de 2019

KITSUNE



Para Alexia Bibi

Raposinha pink fox singer —
olhos de girassol
olhos de giralua
a mais incrível
comedora de pizzas
da Vila Mariana.
Kawaii de-mil-e-um-talentos
inventa virtuais
lobos híbridos
com chifres de alce
e asas de falcão
no game do computador.
Bibi Blue Chan,
youtuber, desenhista,
que ama border collies,
raposas e unicórnios.
Só uma coisa incomoda
t-e-r-r-i-v-e-l-m-e-n-t-e
a cantora kitsune
com olhos de mangá:
levantar às seis
para a lição
de matemática:
hora de rebelião,
revolta, revolução.
Após a tempestade
e a volta para casa,
tudo se aquieta
com búrgueres
marshmallow
milkshakes
e corn flakes.

Poema inédito de Claudio Daniel, 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

CAMINHOS DO RIO VERMELHO




Riscos verdes e vermelhos que nos acompanham
-- Raul Bopp

I

Campo branco – catarata – lençol de linho – miolo de pão – ilhas esbranquiçadas num mar azul: alcateia de nuvens – sol de janeiro – pela janela do avião.

II

(Iansã, senhora-dos-raios-e-dos-ventos, agita o eruexin – zona de turbulência.)

III

Do branco ao verde – caminho de bambus – verdes arcos estirados ao céu –  do verde ao branco da praia – o mar misturado ao sol.

IV

Praia de Itapuã (a) – pedras negras, limo verde, areia sem cor – casal passeia de mãos dadas.

V

Praia de Itapuã (b)  – coqueiros, muro branco do farol, menina corre para o mar, versos de uma canção.

VI

Visita à casa de Vinícius: retrato de Iemanjá, máquina de escrever,  violão, telefone, foto de Mãe Menininha, sereia de barro com os seios nus.

VII

Na primeira pousada em que nos hospedamos – eu, Scheila e Bibi –, em Stella Maris, escrevi este haicai:

Árvore de flores vermelhas
faz sombra
para o gato.

VIII

Esta é a terceira vez que visitamos Salvador. Roteiro amoroso, entre praias e igrejas, moquecas, bobós, acarajés. A cidade, suas cores e cheiros: tudo parece mais vivo e sanguíneo, música da pele que ensina o sol a dançar.  

Ao som do berimbau
meninos jogam
capoeira de verão

IX

Caminhos do Rio Vermelho (a): dia de festa da senhora das águas. Atabaques, batuques, flores brancas e azuis, tatuagens decotadas de negras, muvuca sagrada.

X

Caminhos do Rio Vermelho (b): blocos de foliões saúdam Mamãe Janaína, filhos de Gandhi e filhos de Marx trazem espelhos, fumo, perfumes, foice e martelo, Odoyá, Iemanjá!

XI   
                                                                                                                            
Após a festa da dona das águas, seguimos para o Hotel do Convento, no Pelourinho. Meninas tocam tambores no Carmo. Baianas posam para fotos com turistas, entre quiosques de cocada. Malandros oferecem rezas contra o mau-olhado.  

XII

Na Ladeira do Paço, onde Anselmo Duarte filmou o Pagador de promessas, ponto de encontro de skatistas, grafiteiros, acrobatas e tocadores de tambor, escrevi mais um haicai:

Nos degraus
da escada de pedra
acrobacia de verão

XIII

Feira na Rua da Cabeça. Scheila escolhe flores para o buquê, entre cheiros de alecrim, manjericão, alfazema, hortelã, rosas brancas e frutas frescas. Aqui você encontra de tudo, até o que não deseja comprar.

XIV

Convento do Carmo, no centro do Pelourinho. Casamento barroco, após a festa de Iemanjá. Bibi enfeita o portão da capela com fitinhas azuis e espalha pétalas de rosas pelo chão. Pedro Costa toca Led Zeppelin ao violão, na entrada dos noivos. Scheila toda de branco, vestido branco, brincos brancos de pérola, Claudio de branco e azul, os ladrilhos portugueses, também brancos e azuis. Juiz de paz realiza a cerimônia junto a um pequeno móvel japonês do Período Nanbam. Beijos e cliques.

Escrevi um poema para o casamento, chamado Mapa do Céu:

Lua-de-mim
amor-em-pele-de-oxum
moça-de-olhos-quase-céu

acende a palavra vermelha
no mais fundo de mim
sempre comigo sempre contigo

amor-em-pele-de-oxum
lua-olhos-lua-boca-lua-pele-lua-pés
no mais fundo de mim

anoitece-me enlouquece-me
moça-de-olhos-quase-céu
sempre comigo sempre contigo

Lua de mim

XV

Caminhos do Rio Vermelho (c): Scheila atira as pétalas do buquê de casamento no mar, oferenda a Iemanjá.

Fitas azuis
flores brancas
flutuam no mar


XVI

Durante a viagem, soubemos da tragédia em Minas Gerais. Rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, centenas de mortos e desaparecidos. Meus olhos pensam: tanta beleza, tanta tristeza. A Vale é uma das maiores empresas de mineração do mundo, privatizada por FHC nos anos 90 por uma fração mínima de seu valor de mercado, e pouco se importa com medidas de segurança e proteção ambiental. Revoltado, escrevi os últimos haicais dessa jornada, antes de voltarmos ao ponto de partida:

Criança suja de barro
aperta no peito
filhote de cão.

Olhos, pés, mãos
bocas de lama:
vivos ou mortos?

Chuva de lama:
animais atolados
são mortos a tiros

Moça coberta de lama
nem vemos
o seu rosto

Rio sem peixes
fluem escombros
na água escura

CLAUDIO DANIEL, VERÃO DE 2019