quarta-feira, 17 de maio de 2017

40 HAIKUS DE CLAUDIO DANIEL




















1

sombra de árvore:
conto apenas a você
o que disse o vento



2

árvore inclinada
diz bom dia ao sol:
ele finge que não vê



3

corre feito rato
a sombra do gato:
cachorro de inverno



4

sabor de melão
ao sol da tarde:
festa de formigas.



5

chuva de maio:
lagarto se oculta
na fenda das rochas



6

louco de outono
chuta as pedras
até virarem estrelas



7

pequenas misérias de maio:
onde eu estou
é qualquer parte



8

primeiro dia do ano:
corpos sem nome
nas águas do rio



9

moça no metrô
borboleta de verão
tatuada nas tetas



10

jovem cega:
batom vermelho
no vagão do metrô



11

morador de rua
usa o sol como abajur
viaduto de verão



12

formiga na grama
passa sem pressa
ou telefone celular


13

monges carecas
aparam os cabelos
dos mendigos



14

lua de inverno
polícia retira
mantas de mendigos



15

meninos morenos
pousam as mãos no muro:
viatura de verão


16


chuva de outono
polícia espanca jovem
até abrir sua carne



17

chuva de vidro:
velho de joelhos,
olhos de vento.


18

sol de verão:
velho amarrado
num poste na rua.


19

velho cego:
lata de esmolas
pendurada no pescoço



20

cachoeira de verão
dois namorados
correm na chuva



21

banco da praça:
moça descalça
lendo poesia



22

pousada da lua:
chapéu e livro sobre
a mesa; e a saudade.



23

sabor de ameixa,
praça, mãos dadas,
há quanto tempo?



24

vestido azul,
mãos que acenam
para nunca mais




25

sol nenhum ilumina
essa lembrança
esse canteiro de flores



26

vida é viagem
uma só folha
é toda a paisagem



27

esse canto
é azul, azul, azul
quase branco



28

envelheço:
folhas amarelas
da poça da rua



29

o tempo? viagem
do pó ao pó — os pés,
os paus e pedras



30

após a chuva de inverno
a menina rega
o ipê amarelo



31

pombos bicam
pedaços de melancia
no banco da praça



32

galho seco; noite
escura; folhas e medos
amarelecendo



33

sombra no muro:
gato faz de conta
que é tigre



34

a lagarta
olha no espelho
a mariposa



35

praias de corais
— mulheres de água,
peixes de luz


36

fêmea tão-somente
negra quanto água
da cascata irreal



37

flor de finados
pétala branca, olho
branco, silêncio branco     


                
38

jogo que me comove
é o que faz barba
cabelo e bigode



39

vencer não é tudo
disse o cego
para o mudo


40

amarela é a cor da camisa
até o sol encheu a cara
de cerveja!


quinta-feira, 27 de abril de 2017

NOVO LIVRO DE CLAUDIO DANIEL

MARABÔ OBATALÁ é o meu novo livro de poesia, publicado no formato e-book, e reúne todos os poemas que escrevi até agora sobre os orixás, incluindo as peças que saíram no Livro de Orikis, mais algumas inéditas, além de notas atualizadas. Publicado pela Leonella Editorial, dirigida pela Adriana Zapparoli, o livro custa R$ 12,00 e pode ser adquirido no site da Amazon, na página https://www.amazon.com.br/dp/B0713P2QNN


A POESIA E OS ORIXÁS




















O curso "A poesia e os orixás" voltará a ser realizado, em maio, dessa vez em novo formato: será um curso ministrado à distância, via internet (Skype), em 16 aulas, sempre às sextas-feiras, no horário das 14h às 15h30, e a mensalidade será de R$ 80,00. Vamos conversar sobre o oriki, poema cantado de origem iorubá de louvor aos orixás, os mitos e as histórias tradicionais, ou itãs, entre outros temas, a partir dos estudos de autores como Pierre Verger, Reginaldo Prandi, Antonio Risério e Lídia Cabrera. Quem quiser participar, pode me escrever pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.


DATA DE INÍCIO DO CURSO: 12 de maio.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

MODOS DE USAR A MÍDIA @ CO.

Antonio Candido, em sua obra clássica Formação da Literatura Brasileira, criou o conceito de SISTEMA LITERÁRIO, formado por três elementos – o autor, o livro e o leitor – sem os quais não haveria literatura. O conceito, válido de acordo com o método adotado pelo autor para o estudo crítico da literatura, é questionável, entre outros motivos, por não ser aplicável às literaturas orais – por exemplo, a poesia cantada e as narrativas mitológicas dos povos indígenas e africanos, transmitidas de geração a geração por meio da fala e do canto, e também às literaturas digitais, que utilizam outros suportes, diferentes do livro, como o CD, o DVD ou as ferramentas oferecidas pela internet. Na era contemporânea, também podemos pensar em outros elementos que participam da difusão de obras literárias, como as editoras (subentendidas por Candido quando se refere ao livro), a imprensa, as redes sociais e os grupos que exercem o poder literário. Um autor será lido não apenas pela qualidade de seu texto, por seu domínio do engenho poético e por sua imaginação fabulatória, mas sobretudo se for publicado por uma editora “importante”, como a Record, a 7 Letras, a ex-Cosac&Naif ou a Companhia das Letras, se obter divulgação eficiente nos jornais e redes sociais e mais ainda se for “apadrinhado” por um lobby poderoso, com eficiente máquina de marketing, que exerça influência em concursos e bolsas literárias, como a da Petrobrás, na crítica literária e na universidade: nesse caso, mesmo um(a) autor(a) medíocre será transformad@ em celebridade da noite para o dia e terá a unanimidade da mídia e das instituições culturais a seu favor, mesmo que suas obras sejam irrelevantes. Já um(a) autor(a) que desenvolva um trabalho sério, mas que não tenha o apoio de todos os elementos do novo sistema literário, circulará apenas no meio underground de seus pares, colegas e amigos. É injusto? Sim, é injusto e quem critica o sistema é colocado automaticamente fora dele, boicotado e excluído, quando não é caluniado e difamado. Porém, não há marketing que dure para sempre: o Tempo é o maior de todos os críticos literários e não pode ser bajulado ou corrompido: cabe a ele separar o joio do trigo, as obras “premiadas” que cairão no esquecimento e as obras rejeitadas que receberão novo olhar crítico.

sábado, 15 de abril de 2017

DOIS POEMAS INÉDITOS DE CLAUDIO DANIEL



















OTIM

Otim-Otim
moça da mata
fugiu, fugiu.

Otim-Otim
moça da mata
que virou rio.

Otim-Otim
filha de Oquê
cadê, cadê?

Otim-Otim
dona de Odé,
aqui-ali-além?

Otim-Otim
moça de ofá,
é água de mar?

Otim-Otim
filha de Otã
tinha segredo.

Otim-Otim
mana-oh-mana
era o segredo.

Otim-Otim
seu pai
é montanha.

Otim-Otim
sua pele
é de água.

Otim-Otim
sei o segredo:

que não direi
que não direi
que não direi.

  
 IKU

Aquele-aquela
que-vem
e-leva-
me-leve-
não-me-leve-
orixá-mais-
leve-
que-a-pluma-
de-pavão-
mais-leve-
que-o-vento-
de-Oiá.
Ikú-meu-avô-,
negro-
negrura-
mais-escuro-
que-a-noite;
mais-branco-
que-o-branco-
do-olho-
mais-branco-
que-o-miolo-
do-pão-
leve-o-Temer-
primeiro;
orixá-que-
tudo-come-
-o-grande-
glutão-
leve-o-Moro-
em-seguida;
leve-o-Gilmar-
depois-.
Senhor-dos-rios-
que-se-encontram,
permita-que-eu-
viva-um-pouco-
mais.

2017 


sábado, 7 de janeiro de 2017

RETRATO X













"E todos os sentidos foram amputados"

 -- Luís Carlos Patraquim

entretanto a aranha entretece sua teia expele os fios de fiandeira gotas de seda convertidas em amarras nos entornos das paredes uma jornada pela noite manuscrita sem temor ao desengano à desmesura uma jornada na curvatura do ambíguo até a lenta corrosão de tudo enquanto buscamos entrestrelas entrevértebras uma saída da insanidade um escape desse alcácer de ínferos onde bolsonazis esfolam fêmeas e hordas urram de ira nas ruas turbas das trevas zumbis das telas de plasma espancam negros espancam travecos espancam putas viaturas expandindo luzes multiplicando mocambos e mortos expostos em vitrines para as festas tanáticas de hitler para as festas tanáticas de obama para as festas tanáticas de israel celebram falos celebram falos com pontas de agulha num desfile carnavalesco da morte caveira neanderthal essa marcha de insanos leitores do globo esses insanos leitores da veja esses insanos leitores da folha esses insanos leitores do völkischer beobachter há um céu de pureza eu sei em alguma dimensão da mente há alguma dimensão de pureza eu sei no sutra no tantra no veda mas aqui legiões de dobermans saúdam o coronel brilhante ustra descerebrados acumulam-se nas igrejas para louvarem o santo dólar o santo dízimo a santa estrela de david caveira neanderthal este espaço tétrico onde queimam gárgulas linhas retorcidas de um metálico esqueleto talvez um anjo extraterrestre chacinado por ter seis dedos em cada pé não há saída na viagem noturna do corcunda não há saída neste circo dark de lesmas liberais lobotomizadas pela mídia então eu caminho entre a alcateia com um maço de cigarros no bolso e dez moedas de cinco centavos e sigo e persigo uma rota que não existe uma rota rota uma trilha para fora dessa cova onde talvez quem sabe seja possível desescrever-me anular-me excluir-me para sempre dessa página.

2017

(Poema inédito de Claudio Daniel)