quarta-feira, 25 de novembro de 2009

TRÊS POEMAS DE ROBERT DESNOS

NO DISFARCE DA NOITE

Deslizar em tua sombra no disfarce da noite.
Seguir teus passos, tua sombra na janela.
A sombra na janela é a tua, não outra, a tua.
Não abre essa janela atrás da qual te movimentas.
Fecha os olhos.
Queria poder fechá-los com meus lábios.
Mas a janela se abre e o vento, o vento
que, estranhamente, agita chama
e bandeira, encobre com seu manto minha fuga.
A janela se abre: não és tu.

Eu bem sabia.


AU MOCASSIM O VERBO

Me suicidas, tão docilmente.
Te morrerei, contudo, um dia.
Eu conheceremos a mulher ideal
e, lentamente, nevarei em sua boca.
E choverei, sem dúvida, mesmo que tarde,
mesmo que eu faça bom tempo.
Nós ameis tão pouco os olhos
e verterei uma lágrima sem
razão, é claro, e sem tristeza.
Sem.


O QUADRADO PONTUDO

O quadrado tem quatro lados
Mas é quatro vezes pontudo
Como o Mundo.
Diz-se, contudo, que a terra é redonda
Como a minha cabeça
Redonda e mundo e mapa-múndi:
Um anticiclone indo ao noroeste...
O mundo é redondo, a terra é redonda
Mas ela é, mas ele é
Quatro vezes pontudo
Leste Norte Sul Oeste
O mundo é pontudo
A terra é pontuda
O espaço é quadrado.
et monde et mappem

Tradução: Jorge Lúcio de Campos

Um comentário:

  1. Robert Desnos (1900-1945), poeta francês. Após concluir os estudos básicos, ingressou numa escola comercial, que abandonou aos 16 anos de idade. Trabalhou numa farmácia parisiense, na juventude, escrevendo poemas nas horas livres, que passou a publicar a partir de 1918 no jornal
    Tribune des Jeunes. No ano seguinte, trabalha como gerente de uma editora. Conhece André Breton e o movimento dadaísta. Em 1920, é chamado para cumprir o serviço militar, servindo no Marrocos. Em 1922, publica seu livro de estréia, Rrose Selavy, e adere ao surrealismo. Nos anos seguintes, publica Language Cuit (1923) e Deuil par Deuil (1924) e assume o cargo de redator da revista La Révolution Surréaliste. Por se recusar a aderir ao Partido Comunista Francês, é criticado por seus colegas no movimento surrealista, com o qual rompe pouco depois. Desnos atuou em diferentes ocupações profissionais na área imobiliária, como locutor de folhetins radiofônicos, redator publicitário e cançonetista. Com o início da II Guerra Mundial, alista-se novamente no exército francês para combater os nazistas. Após a derrota francesa, ingressa na Resistência. Aprisionado em 1944, é enviado para o campo de concentração de Auschwitz, e depois para o de Terezin. Contraindo febre tifóide, morre em 1945, pouco antes da libertação do campo pelas tropas aliadas. Em 1953, foi publicado o livro Domaine public, que reúne o essencial da sua obra poética.

    Leiam mais poemas de Robert Desnos na edição de dezembro da Zunái...

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