domingo, 7 de novembro de 2010

POEMAS EM PROSA (VI)

O FOGO

O fogo faz uma classificação: primeiro, as chamas todas vão num sentido qualquer...

(Só pode comparar o andar do fogo ao dos animais: é preciso que deixe um lugar para ocupar um outro; anda ao mesmo tempo como uma ameba e como uma girafa: arriba o pescoço, salta – as patas de rojo)...

Depois, enquanto as massas contaminadas com método se desmoronam, os gases que escapam vão sendo transformados pouco a pouco numa só ribalta de borboletas.


A VELA

A noite reaviva, às vezes, uma planta singular cujo clarão decompõe os cômodos em maciços de sombra.

Seu fogo impassível se esfolha em ouro no côncavo de uma coluneta de alabastro, preso a um pedúnculo muito negro.

As mariposas maltrapilhas assaltam-na de preferência quando vai alta a lua que vaporiza os bosques. Mas, queimadas no mesmo instante ou peneiradas na refrega, fremem todas à beira de um frenesi vizinho do estupor.

Entretanto, a vela, com as vacilações da claridade, na súbita liberação das fumaças originais, encoraja o leitor – depois, se inclina sobre o seu sustento e se afoga no prato.


A BORBOLETA

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.

Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,

Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.

Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.

Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, vagabundeia pelo jardim


(Poemas de Francis Ponge, do livro Le parti pris des choses, traduzidos por Adalberto Muller e Carlos Loria)

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