quarta-feira, 23 de setembro de 2009

DO LIVRO POETA EM NOVA YORK (XIII)


O REI DO HARLEM

Com uma colher
arrancava os olhos dos crocodilos
e golpeava o traseiro dos macacos.
Com uma colher

Fogo de sempre dormia nas rochas,
e os escaravelhos bêbados de anis
esqueciam o musgo das aldeias.

Aquele velho coberto de flechas
ia ao lugar onde choravam os negros
enquanto rangia a colher do rei
e chegavam os tanques de água apodrecida.

As rosas fugiam pelos fios
das últimas curvas do ar,
e nos montões de açafrão
os meninos machucavam pequenos esquilos
com um rubor de frenesi manchado.

É preciso cruzar as pontes
e chegar ao rubor negro
para que o perfume do pulmão
golpeie-nos a fronte com seu vestido
de cálida pinha.

É preciso matar o louro vendedor de aguardente,
todos os amigos da maçã e da areia,
e é necessário bater com os punhos fechados
nas pequenas judias que tremem cheias de borbulhas,
para que o rei do Harlem cante com sua multidão,
para que os crocodilos durmam em longas filas
sob o amianto da lua,
e para que ninguém duvide da infinita beleza
dos espanadores, raladores, cobres e caçarolas das cozinhas.

Ah, Harlem! Ah, Harlem! Ah, Harlem!
Não há angústia comparável a teus olhos oprimidos,
a teu sangue estremecido dentro do eclipse obscuro,
a tua violência vermelha surda-muda na penumbra,
a teu grande rei prisioneiro, com uniforme de porteiro.

*

A noite tinha uma rachadura e quietas salamandras de marfim.
As garotas americanas
levavam meninos e moedas no ventre,
e os rapazes desmaiavam na cruz da espreguiçadeira.

Eles são.
Eles são os que bebem o whisky de prata junto aos vulcões
e tragam pedacinhos de coração pelas geladas montanhas do osso.

Aquela noite o rei do Harlem, com uma duríssima colher
arrancava os olhos dos crocodilos
e golpeava o traseiro dos macacos.
Com uma colher.

Os negros choravam confundidos
entre guarda-chuvas e sóis de ouro,
os mulatos mascavam gomas, ansiosos por chegar ao torso branco,
e o vento empanava espelhos
e quebrava as veias dos dançarinos.

Negros, Negros, Negros, Negros.
O sangue não tem portas em vossa noite boca acima.
Não há rubor. Sangue furioso por baixo das peles,
viva na espinha do punhal e no peito das paisagens,
sob as pinças e retamas da celeste lua de Câncer.

Sangue que busca por mil caminhos mortes esfarinhadas e cinza de nardos,
céus hirtos, em declive, onde as colônias de planetas
rodam pelas praias com os objetos abandonados.

Sangue que olha devagar com o rabo do olho,
feito de espartos esprimidos, néctares de subterrâneos.
Sangue que oxida o alísio descuidado em um rastro
e dissolve as borboletas nos cristais da janela.

É o sangue que vem, que virá
pelos telhados e terraços, por toda parte,
para queimar a clorofila das mulheres louras,
para gemer ao pé das camas ante a insônia dos lavabos
e estrelar-se em uma aurora de tabaco e sob amarelo.

É preciso fugir,
fugir pelas esquinas e encerrar-se nos últimos pisos,
porque a medula do bosque penetrará pelas frinchas
para deixar em vossa carne um leve rastro de eclipse
e uma falsa tristeza de guante desbotado e rosa química.

*

É pelo silêncio sapientíssimo
quando os camareiros e cozinheiros e os que limpam com a língua
as feridas dos milionários
buscam o rei pelas ruas ou nos ângulos do salitre.

Um vento sul de madeira, oblíquo no lodo escuro,
escarra nas barcas partidas e crava pontilhas nos ombros;
um vento sul que leva
colmilhos, girassóis, alfabetos
e uma pilha de Volta com vespas afogadas.

O esquecimento era expresso por três gotas de tinta sobre o monóculo,
o amor por um só rosto invisível à flor de pedra.
Medulas e corolas compunham sobre as nuvens
um deserto de talos sem uma só rosa.

À esquerda, à direita, pelo Sul e pelo Norte,
se levanta o muro impassível
para o topo, a agulha da água.
Não busqueis, negros, sua greta
para achar a máscara infinita.
Buscai o grande sol do centro
como se fosse uma pinha zumbidora.
O sol que desliza pelos bosques
convicto de não encontrar uma ninfa,
o sol que destrói números e não cruzou nunca um sonho,
o tatuado sol que desce pelo rio
e muge seguido de caimães.

Negros, Negros, Negros, Negros.
Jamais serpente, nem zebra, nem mula
empalideceram ao morrer.
O lenhador não sabe quando expiram
as clamorosas árvores que corta.

Aguardai sob a sombra vegetal de vosso rei
que cicutas e cardos e urtigas turvem últimos terraços.

Então, negros, então, então,
podereis beijar com frenesi as rodas das bicicletas,
colocar pares de microscópios nas tocas dos esquilos
e dançar por fim, sem dúvida, enquanto as flores eriçadas
assassinam nosso Moisés quase nos juncos do céu.

Ah, Harlem, disfarçado!
Ah, Harlem, ameaçado por gente de trajes sem cabeça!
Chega-me teu rumor,
chega-me teu rumor atravessando troncos e elevadores,
através de lâminas cinzentas,
onde flutuam seus automóveis cobertos de dentes,
através dos cavalos mortos e dos crimes diminutos,
através de teu grande rei desesperado
cujas barbas chegam ao mar.

Tradução: Claudio Daniel

3 comentários:

  1. Fantástico, sabes trabajo en mi libro de poesía sobre Nueva York, su título PICNIC EN EL CENTRAL PARK, este libro es clave en ese proyecto.

    Leo Lobos Lagos

    abrazo desde Chile

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  2. "he dicho POETA EN NUEVA YORK y he debido decir NUEVA YORK EN UN POETA"
    Federico Garcia Lorca

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  3. Caro Leo, gracias, estou gostando muito de traduzir o Poeta em Nova York, de todos os livros de Lorca, o que eu mais amo. Quando for publicado o teu Picnic en el Central Park, por favor, envie-me um exemplar, sim?

    O abraço do

    Claudio

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