quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

NOVOS POETAS BRASILEIROS (XVII)

sylvia vedou mal as palavras.

quatro ou cinco toalhas,


foi pouco.

foi pouco.


como se tivessem escapado

as válvulas


de um exército inteiro de

panelas de pressão.


ouvia-se de longe o assovio —

a estranha


mediunidade dos lobos,

uivante.


hoje o gás se alastra no poema:

um continente inteiro


varrido pela sombra cogumélica

da nuvem.


oh, little boy, fat man,


ele viria faminto para casa.

mesa posta,


garfos, facas, guardanapos

que parecem gaze.


fedem a doenças extraconjugais.


o que nunca lhe disseram:

há um ideograma


para a tortura.


há uma oração bélica nas

vísceras


das máquinas de escrever.


(os órgãos de metal a se atirarem

como mísseis sobre


a folha.)


quantas beatas ainda rezam

novenas


dentro do forno?


quantas, será, ainda sussurram

pai-nosso,


"papai, papai, seu puto,"


com terços em torno da sua

cabeça?


cada palavra.


era só abrir a boca, todas as bocas.

deitar-se, no piso,


em meio a granadas, minas,

farelo de pão.


a vida, sylvia, foi pouco.

Marceli Andresa Becker é estudante de filosofia e professora. Publicou poemas nas revistas Zunái, Germina, Eutomia e Pausa e no portal Cronópios.

Um comentário:

  1. metralhadora, essa dona. puta poema bem construído.

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