segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

UM TEXTO DE RODRIGO GARCIA LOPES


DE 26 AFORISMAS SOBRE POESIA

1.

Permanece um mistério o fato de que vivemos em estado permanente de linguagem. A poesia é o instrumento ideal para captar este mistério.


2.

Mu Ga não é parar o pensamento: é perceber o pensamento.


3.

Cada vez mais a persistência da idéia de poesia radical entendida em seu sentido etimológico, do latim radix, raiz, base, fundamento. Uma poesia que investiga sua própria ocorrência, ramificações, vis-à-vis seu encontro com o mundo, indo na raiz do problema: para o poema, esta raiz é a palavra.


4.

A abstração é a natureza da mente, não a mente um reflexo da consciência.


5.

O desafio está em não cair numa metalinguagem barata. Ou solipsismo ("não há nada fora de minha mente"). Ao contrário, o poema é um encontro em nosso território comum, nosso habitat.

6.

Poeta é quem que provoca música com os vocábulos. E afasta a afasia. Certa aversão pela idéia difundida pelo senso-comum da vida (e da poesia) como algo continuo. Poemas são seres vacilantes, como animais, ORGANISMOS, e parecem estar o tempo todo querendo incorporar o caráter fragmentário e material da experiência. Por isso, parecem muitas vezes "incompletos".


7.

Se "poesia é a promessa de uma linguagem" (Hölderlin), então o poema é um não-lugar, uma utopia. Seu sentido é seu movimento.


8.

O poema é um ultraje (outrage), um contra-texto.


9.

De olhos fechados: o universo é vermelho.


10.

Você diz
que não há nada de novo
sob o sol.
Isso pode valer para o sol,
mas não para nós.

(apud Apollinaire)

(...)


15.

Todas as abordagens poéticas (seja através de iluminuras, personas, objetivos correlativos, colagem, simultaneismo, pastiche, ostranenie, ideograma, non-sequitur) desembocam, por operações distintas, na grande questão: o espaço habitado pela poesia enquanto matéria mental, entre palavra e mundo. Entre estar mudo e ser mundo.


16.

O nome do ventríloco era Eulírico. ("Já meu nome é eutro: o intervalo entre palavra e mundo").

17.

O poema nasce enquanto o procuramos.


18.

Como numa história de detetive, o poema, hoje, é um enigma. Seu crime começa já nas primeiras palavras. O poema nada mais é que uma seção de correlatos do sentido suspensos entre pistas falsas, fragmentos de perfis, frustrações de expectativas, que apontam inequivocamente para sua própria aparição & desaparição. O nome dessa luta invisível é o sentido.


(...)


21.

Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências.


(Leia o texto integral na edição de fevereiro da Zunái)

Um comentário:

  1. "O poema é um encontro em nosso território comum, nosso habitat".
    Perfeito.
    Que beleza de texto.

    ResponderExcluir