segunda-feira, 25 de maio de 2015

POEMAS DE ANTONIN ARTAUD



 













INVOCAÇÃO À MÚMIA

Estas ravinas de osso e de pele
por onde começam as trevas
do absoluto, e a pintura desta boca
que fechas como uma cortina

E o ouro que te desliza em sonho
a vida que te despoja de ossos,
e as flores deste olhar falso
por onde reencontras a luz

Múmia, e estas mãos de fusos
para remexer nas tuas entranhas,
estas mãos onde a sombra espantosa
toma o aspecto de um pássaro

Tudo isso de que a morte se orna
como de um rito aleatório,
esta conversa de sombras, e o ouro
onde bóiam as negras entranhas

Por aí é que eu te alcanço,
ardida senda das veias, e o ouro
é como a minha dor
o testemunho certo e pior

  
A ÁRVORE

Esta árvore e o seu frémito
sombria floresta de apelos,
de gritos,
devora
o obscuro coração da noite.

Vinagre e leite, o céu, o mar,
a massa espessa do firmamento,
tudo conspira no estremecimento
que habita o denso coração da sombra.

Um coração aberto, um astro duro
que em dois se divide e no céu se difunde,
o límpido céu fendido
no instante do sol nascente
- fazem todos o mesmo ruído
que a noite e a árvore no centro do vento.


GRITO

O pequeno poeta celeste
Abre ao peito as gelosias.
Entrechocam-se os céus. O olvido
Desenraíza a sinfonia.

Palafreneiro a casa louca
Que te põe a guardar lobos
Não suspeita das cóleras
Geradas na grande alcova
Da abóbada sobre nós absorta.

Por consequência noite e silêncio
Reprimi qualquer impureza
O céu a grandes passadas
Cruza os ruídos.

A estrela devora. O céu oblíquo
Rompe o voo para o alto
A noite varre os resíduos
Do deleitoso repasto.

Na terra caminha uma lesma
Mil brancas mãos a aplaudem
Uma lesma sobe ao sítio
De onde se evolou a terra.

Anjos, que nenhuma obscenidade
Inspira, em paz regressavam
Quando se ergueu a voz da verdade
Do espírito que os chamava.

O sol mais baixo que o dia
Evaporava o mar todo
Nasceu na terra confusa
Um estranho mas nítido sonho.

O pequeno poeta perdido
Deixa o lugar além-mundo
Com uma ideia celeste
Contra o coração cabeludo.

***

Duas tradições em vigência.
Mas o pensamento fechado
Não dispõe de qualquer espaço.
Recomeçar a experiência.


Tradução: Herberto Helder, In “Doze nós numa corda”. Assírio & Alvim, 1997



POST SCRIPTUM

Quem sou?
De onde venho?
Eu sou o Antonin Artaud
e basta dizê-lo
como sei dizê-lo,
imediatamente
vereis o meu corpo actual
voar em estilhaços
e em dois mil aspectos notórios
refazer
um novo corpo
onde nunca mais
podereis
esquecer-me.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,
meu pai,
minha mãe,
e eu mesmo.
Eu represento Antonin Artaud!
Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,
Um morto vivo.
Sou um morto
Sempre vivo.
A tragédia em cena já não me basta.
Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras
de arte, eu pretendo mostrar o meu
espírito.
Não concebo uma obra de arte
dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,
nascido em Marseille
no dia 4 de setembro de 1896,
eu sou Satã e eu sou Deus,
e pouco me importa a Virgem Maria.


Tradução: Aníbal Fernades, publicada em Eu, Antonin Artaud, Hiena, 1988. 



(NO TOPO DAS ESSÊNCIAS)

No topo das essências fixadas, correspondente às
inumeravéis modalidades da matéria, existe aquilo que, na
subtileza das essências, na violência do fogo ígneo
corresponde aos princípios geradores das coisas, aquilo
que o espírito que pensa pode denominar princípios, os
quais porém correspondem, em relação à totalidade
fervente das coisas, a graus conscientes da Vontade na
Energia.

Não existem princípios da matéria subtil ou do
enxofre ou do sal, mas, para além do sal, do mercúrio ou
do enxofre, matérias ainda mais subtis que, no último
extremo da vibração orgânica, dão conta da diversidade
do espírito através das coisas; e a quem pede lhe sejam
apresentadas as coisas, só os números respondem dando
conta das suas existências separadas.
(...)


Tradução: Mário Cesariny de Vasconcelos, in “Heliogabalo ou o Anarquista Coroado”,

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