domingo, 1 de fevereiro de 2009

LETRA NEGRA (I a IV)

I

escuto escuro — sombras surdas —
no espaço espesso
lodo torvo
de um tempo esquivo
em que começo e recomeço
o pugilato
comigo mesmo
luta ou luto
que me cega e segue
como treva ou trava
ao vento curvo.

II

verde é o segredo
verde é o silêncio

escrito em cicatriz
escrito em anti-flor-de-lis

— para a necessária
abolição de mim —

III

estou morto e não-morto
vértebras ao inverso
letras tontas
de um nome incerto
vocábulo equívoco
desfeito em água
— para a necessária
abolição de mim —
escuto espesso — sombras mudas —
no escuro escuro.

IV

nada me aquieta
entre espectros
de palavras-coisas:

anêmonas trafegam
pensamentos rotos,
roídos até o muco

— eis a era desolada
de cortes e recortes
tempo-cutelo

no espaço lacerado
pele-de-lua violada
por línguas-gárgulas

lua-esfinge-macerada
por caninos cérberos:
tempo nigromante

— corvo corvo corvo
recrocitando escárnios.


(Fragmentos iniciais do poema-livro Letra negra, que comecei a escrever em janeiro de 2009.)

5 comentários:

  1. Claudio,
    A luta é braba.
    Vivo num eterno Sumô com minha cabeça. Como você é magro, escolheu bem o Tai Chi e o Aikidô.
    Se nossas cabeças não se aquietarem, ao menos nossas práticas não nos deformarão as orelhas como o Jiu Jitsu.
    Pela amostra, o Letra Negra será uma viagem interessantíssima.
    Sayonara, 左様なら ,
    Chico

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  2. Impressionante. Um trabalho que demonstra um grande rigor com as palavras.

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  3. Ademir Assunção2.2.09

    Visceralidade e rigor. Isso você tem de sobra. Impressionante, meu caro. E tem mais uma coisa: estamos vivendo uma época triste pra caramba, hein? A ignorância venceu? Grande abraço e siga em frente.

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  4. Anônimo2.2.09

    Caro Ademir, agradeço pela leitura e comentário; elogio vindo de você é algo que levo em alta consideração. De fato, o mar não está para peixe, com bombas de Israel caindo na faixa de Gaza, escassez de alimentos, as empresas demitindo milhares de pessoas no mundo todo... mas seguimos em frente cumprindo o nosso papel de resistência à barbárie: "Eu sou Arnaut, que amasso o ar, caço lebre com boi e nado contra a maré, em luta eterna", como escreveu certo trovador provençal, no século 12... abraço grande do amigo

    Claudio

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