A POESIA E OS ORIXÁS é o tema de duas palestras de Claudio Daniel que acontecerão nos dias 25 de junho e 02 de julho (sextas-feiras), das 20h às 21h30, via Google Meet. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com ou pelo Whatsapp (11) 9 4878-2488.
"Só o raro me interessa, na era da banalidade"
A POESIA E OS ORIXÁS é o tema de duas palestras de Claudio Daniel que acontecerão nos dias 25 de junho e 02 de julho (sextas-feiras), das 20h às 21h30, via Google Meet. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com ou pelo Whatsapp (11) 9 4878-2488.
Para Carl Solomon*
I
Eu vi as mentes mais brilhantes
da minha geração destruídas pela
loucura, famintas histéricas nuas,
a arrastarem‐se na aurora pelas ruas de negros em busca de uma
dose feroz,
gingões de angélicas cabeças ardendo pelo velho contacto celeste
com o dínamo estelar na maquinaria da noite,
que de miséria e andrajos e olhos cavos e alucinados se sentavam
a fumar na penumbra sobrenatural de quartos de águas frias
flutuando pelos cumes das cidades contemplando o jazz,
que esventravam os cérebros aos céus sob a ascensão do metropo‐
litano e viam anjos maometanos ziguezagueando nos telha‐
dos de prédios iluminados,
que passavam pelas universidades com olhos de radiante lonjura
a alucinar o Arkansas e a tragédia à luz de Blake entre os
catedráticos da guerra,
que eram expulsos das academias por demência & publicarem
odes obscenas nas janelas do crânio,
que se agachavam em quartos com a barba por fazer em roupa
interior a queimar dinheiro nos cestos de papéis e a escutar
o Terror através da parede,
que eram filados pelas barbas púbicas quando regressavam via
Laredo com marijuana à cintura para Nova Iorque,
que comiam fogo em pensões esconsas ou bebiam aguarrás no
Beco do Paraíso, a morte, ou batiam com as costas no pur‐
gatório noite após noite,
com sonhos, com drogas, com pesadelos acordados, álcool, pica,
piças, bolas sempre a abrir,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvens convulsas e relâm‐
pagos na mente galgando aos polos de Canadá & Paterson,
iluminando o mundo todo imóvel do Tempo entre,
solidezes de átrios sob peiote, madrugadas sepulcrais de árvores
verdes de quintais, bebedeira de vinho nos telhados, mon‐
tras de bairros comerciais a tripar com a moca no semáforo
piscando de néon, vibrações de sol e lua e árvores nos cre‐
púsculos de inverno e vendavais de Brooklyn, vociferações
sobre latas de cinza e lixo e o sopro brando soberano fulgor
da mente,
que se amarravam aos metros para a interminável viagem desde a
Battery ao santo Bronx anfetaminados até o barulho das
rodas e crianças os trazer à terra convulsos de bocas esco‐
riadas e esfolados de cérebro todos escorridos de brilho à
fera luz da estação terminal do Zoo,
que se afundavam a noite toda à luz submarina de um Bickford’s
daí flutuando e ficando pela tarde de cerveja choca no triste
Fugazzi’s, escutando o estrondo do Juízo Final na jukebox
de hidrogénio,
que falavam sem parar setenta horas dos parques aos apartamen‐
tos ao bares ao Hospital Bellevue ao museu à Ponte de
Brooklyn,
um batalhão perdido de conversadores platónicos saltando o gra‐
deado das escadas de incêndio dos parapeitos de janelas do
Empire State além da Lua,
patati‐patateando gritando vomitando sussurrando factos e memó‐
rias e anedotas e tripes oculares e choques elétricos dos
hospitais das cadeias das guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total durante sete
dias e noites de olhos brilhantes, carne para a Sinagoga ati‐
rada à calçada,
que desapareciam para a Terra do Nunca da Nova Jérsia Zen dei‐
xando um rasto de ambíguos postais ilustrados da Assem‐
bleia Municipal de Atlantic City,
sujeitando‐se aos suores orientais e aos ossos triturados em Tân‐
ger e às enxaquecas na China sob uma ressaca de droga no
quarto desmobilado de Newark,
que deambulavam em círculos à meia‐noite pelos depósitos das
locomotivas incertos sobre onde ir, e iam, sem corações
despedaçados atrás de si,
que acendiam cigarros em vagões vagões vagões resvalando pela
neve para solitárias fazendas na noite do avô,
que estudavam Plotino Poe São João da Cruz telepatia e cabala‐
‐bop visto que o cosmos vibrava instintivamente aos seus
pés no Kansas,
que vagueavam sozinhos pelas ruas de Idaho buscando anjos ín‐
dios visionários que eram anjos índios visionários,
que se julgavam apenas loucos quando de Baltimore dimanava
um êxtase sobrenatural,
que saltavam para dentro de limusinas com o chinês de Oklahoma
no impulso da chuva invernal dos lampiões na meia‐noite
provinciana,
que se espraiavam famintos e solitários por Houston buscando
jazz ou sexo ou sopas, e iam atrás do deslumbrante latino
para conversar sobre a América e a Eternidade, uma tarefa
inútil, pelo que embarcavam para África,
que desapareciam nos vulcões do México sem deixar nada para
trás senão a sombra de umas jardineiras de ganga e a lava e
a cinza da poesia pelo braseiro de Chicago,
que reapareciam na Costa Oeste a investigar o FBI de barbas e
bermudas com grandes olhos pacifistas tão sensuais na sua
pele morena a estender folhetos incompreensíveis,
que queimavam buracos de cigarros nos braços a protestar contra
a tabágica neblina narcótica do Capitalismo,
que distribuíam panfletos Supercomunistas na praça pública de
Union Square lacrimejando e despindo‐se enquanto as sire‐
nes bombásticas de Los Alamos os desalmavam, reverbe‐
rando nos muros de lamentações de Wall Street, e também
a balsa de Staten Island se lamuriava,
que se debulhavam em lágrimas em ginásios brancos nus e tre‐
mendo diante da maquinaria dos outros esqueletos,
que mordiam o pescoço de agentes da polícia e guinchavam de
prazer nos carros da polícia por não cometerem crime que
não fosse a sua própria pederastia e intoxicação a fervilhar
de loucura,
que uivavam de joelhos no metro e eram arrastados pelo tejadilho
a acenar com genitais e manuscritos,
que deixavam que motociclistas devotos lhes comessem o cu e
urravam de alegria,
que chupavam e eram chupados por esses serafins humanos, os
marinheiros, carícias de amor atlântico e caribenho,
que pinocavam de manhã de tarde nos jardins de rosas e na relva
dos parques públicos e dos cemitérios espalhando livremen‐
te o sémen a quem calhasse vir,
que soluçavam sem parar a tentar rir mas acabavam a ganir por
trás dum biombo num banho turco quando o anjo louro &
nu chegava para os trespassar com uma espada,
que perdiam os namorados para as três velhas megeras do destino,
a megera zarolha do dólar heterossexual a megera zarolha
que pisca o olho do ventre e a megera zarolha que se senta
somente com o cuzinho quente e tece os fios de ouro inte‐
lectuais do tear artífice,
que copulavam em êxtase e insaciáveis com uma garrafa de cerve‐
ja uma miúda amorosa um maço de cigarros uma vela e
caíam da cama, e continuavam pelo soalho até ao corredor e
acabavam a desmaiar na parede com uma visão derradeira de
cona e esperma fintando o último fluido fértil da consciência,
que melavam as pássaras de um milhão de miúdas estremecentes
ao pôr do sol, e de manhã tinham os olhos vermelhos mas a
postos de melar a pássara da aurora, de nádegas ao léu de‐
baixo dos celeiros e nus dentro do lago,
que andavam ao ataque pelo Colorado numa miríade de carros
noturnos roubados, Neal Cassady, herói secreto destes poe‐
mas, garanhão e Adónis de Denver — recordação de prazer
das suas inúmeras trepas de miúdas em baldios vazios &
saguões de cafetarias, filas estreitas das salas de cinema, no
cume dos montes em grutas com empregadas de mesa es‐
canzeladas na vulgar ascensão de roupinhas interiores à
beira da estrada & solipsismos especialmente secretos de
lavabos de bombas de gasolina, & ainda nos becos da cida‐
de natal,
que se esvaíam em imensos filmes sórdidos, se mexiam em so‐
nhos, despertavam numa súbita Manhattan, e agarravam em
si para fora de caves ressacados de impiedosas zurrapas e
horrores de sonhos de ferro da Terceira Avenida & tropeça‐
vam para os guichés do desemprego,
que caminhavam toda a noite com os sapatos cheios de sangue nas
docas cobertas de neve aguardando que se abrisse uma por‐
ta no East River para um quarto cheio de vapor quente e
ópio,
que criavam grandiosos dramas suicidas nas margens de fragas de
apartamentos do Hudson sob o holofote bélico do clarão
azul da Lua & terão um dia as cabeças coroadas de louros
no oblívio,
que comiam o ensopado de borrego da imaginação ou digeriam os
caranguejos do fundo enlameado dos rios da Bowery,
que choravam com as românticas ruas com os seus carrinhos de
mercearia cheios de cebolas e má música,
que se deixavam ficar sentados em caixotes a respirar nas trevas
debaixo da ponte, e acordavam para construírem cravos
temperados nos seus lofts,
que tossiam no sexto andar de Harlem coroados de chamas sob o
tísico céu rodeados de teologia em grades de laranjas,
que rascunhavam pela noite fora embalados de rock and roll com
louvores às alturas que na manhã amarela eram estrofes mal
paridas,
que cozinhavam animais podres pulmão coração patas cauda
borscht & tortillas sonhando com o reino da pureza vegetal,
que mergulhavam sob os camiões do talho à procura de um ovo,
que atiravam os seus relógios do telhado para depositarem votos
para a Eternidade fora do Tempo, & lhes choverem desperta‐
dores em cima das cabeças todos os dias da década seguinte,
que cortavam os pulsos três vezes consecutivas sem sucesso, de‐
sistiam e se viam obrigados a abrir lojas de antiguidades
onde julgavam estar a envelhecer e choravam,
que eram queimados vivos nos seus fatos inocentes de flanela na
Madison Avenue por entre rajadas de versos de chumbo &
a barulheira enlatada dos férreos regimentos da moda & os
guinchos de nitroglicerina das mariquices da publicidade &
o gás de mostarda dos editores sinistros e inteligentes, ou
eram atropelados pelos táxis embriagados da Realidade Ab‐
soluta,
que saltavam da Ponte de Brooklyn coisa que realmente aconte‐
ceu e desandavam de lá desconhecidos e esquecidos na ne‐
blina espectral dos becos de sopas & de carros de bombeiros
da Chinatown, nem sequer uma cerveja de borla,
que se punham em desespero a cantar à janela, caíam da janela do
metropolitano, saltavam para o imundo Passaic, pulavam
sobre os negros, gritavam por toda a rua, dançavam descal‐
ços sobre copos de vinho em cacos rebentavam discos de
grafonola de jazz alemão nostálgico dos anos 30 acabavam
com o whiskey e vomitavam a grunhir na retrete maldita, os
ouvidos cheios de lamentações e de tremendas sirenes de
vapor,
que desciam a toda a brida as estradas largas do passado viajando
para o turno da cela solitária de velocidade e estrondo e Gól‐
gotas uns dos outros ou encarnação de jazz de Birmingham,
que viajavam pelo país fora setenta‐e‐duas horas sem parar para
descobrir se eu tinha uma visão ou se tu tinhas uma visão ou
se ele tinha uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajavam para Denver, que morriam em Denver, que volta‐
vam para Denver & aguardavam em vão, que olhavam por
Denver & amuavam & se isolavam em Denver e por fim se
iam embora para descobrir o Tempo, & Denver tem agora
saudades dos seus heróis,
que caíam de joelhos em catedrais sem esperança a rezar pela
salvação e a luz e os peitos uns dos outros, até que a alma
iluminava o cabelo por um segundo,
que torpedeavam por dentro das suas mentes na prisão à espera de
impossíveis criminosos de douradas cabeças e o encanto da
realidade nos seus corações e que cantavam doces blues a
Alcatraz,
que se retiravam para o México para cultivar um hábito, ou para
as Montanhas Rochosas para servir a Buda ou para Tânger
a rapazes ou para a Southern Pacific à negra locomotiva ou
para Harvard a Narciso ou para o cemitério de Woodlawn à
última floração ou morada,
que exigiam exames de sanidade acusando a rádio de hipnotismo
& eram abandonados à sua insanidade & às suas mãos & a
um júri incapaz de consenso,
que atiravam salada de batata aos conferencistas de dadaísmo da
Universidade de Nova Iorque e subsequentemente se apre‐
sentavam nos degraus de granito do manicómio com cabe‐
ças rapadas e um discurso suicida arlequinado, exigindo
uma lobotomia instantânea,
que recebiam ao invés o vazio concreto de Metrazol insulina ele‐
tricidade hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pin‐
guepongue & amnésia,
que protestando com mau humor derrubavam uma só simbólica
mesa de pinguepongue, repousando por instantes catatónicos,
regressando anos mais tarde absolutamente calvos à exceção de uma
peruca de sangue, e lágrimas e dedos, à visível perdição dos
loucos dos quartos hospitalares das loucas cidades do Leste,
os corredores fétidos dos manicómios de Pilgrim State e Rockland
e Greystone, gotejando com os ecos da alma, embalando‐se
de rock and roll nos domínios notívagos de dólmenes e ban‐
cos de solidão do amor, sonho de vida de um pesadelo, cor‐
pos transformados em pedra tão pesados como a Lua,
com a mãe finalmente ******, e o último livro lunático atirado da
janela do pardieiro, e a última porta fechada às quatro da
manhã, e o último telefone lançado à parede em resposta e o
último quarto mobilado despido até ao último pedaço de mo‐
bília mental, uma rosa amarela de papel retorcida num cabide
de arame no armário, e também isso era só imaginário, nada
além de um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto não estiveres a salvo eu não estou a salvo, e
agora nadas realmente na canja absoluta do tempo —
e que por conseguinte corriam pelas ruas cobertas de gelo obceca‐
dos com um brusco vislumbre da alquimia do uso das reti‐
cências da enumeração da métrica & do plano vibratório,
que sonhavam e abriam brechas incarnadas no Tempo & Espaço
por meio de imagens justapostas, e encurralavam o arcanjo
da alma entre 2 imagens visuais e juntavam os verbos ele‐
mentares e uniam o substantivo e o travessão da consciência
galgando com a sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus
para recriarem a sintaxe e medida da pobre prosa humana e se
levantarem à vossa frente sem palavras e inteligentes e a
tremer de vergonha, rejeitados e todavia confessando toda a
alma para se conformar ao ritmo do pensamento na sua ca‐
beça nua e interminável,
o louco vagabundo e anjo na batida do Tempo, uma incógnita,
todavia deixando escrito aqui o que talvez fique por dizer no
tempo por vir depois da morte,
e reencarnados se erguiam nas roupas espectrais do jazz na som‐
bra da trombeta dourada da banda e sopravam o sofrimento
da mente nua da América pelo amor até um grito saxofónico
de eli eli lamma lamma sabacthani que arrepiava as cidades
até ao último rádio
com o coração absoluto do poema da vida retalhado da carne dos
seus próprios corpos bom para comer durante mil anos.
Tradução: Margarida Vale de Gato
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e
me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o
sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de
ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da
alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das
árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol
naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco,[2] nenhum peixe nessas
águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados
e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra
cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no
topo do montão de serragem velha–
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol,
recordações de Blake – minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor
dos Sanduíches Gordurosos de Joe,[3] carrinhos de bebês mortos, negros pneus
carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos,
facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes
passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo,
desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas
locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como
uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada
ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de
fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto
enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta
na orelha,
Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó
minha alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e
locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele
escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria,
essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a
própria sujeira – industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca
coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos
empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu
montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de
maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias
e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu
nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e
os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos
dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí
postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência
perfeita de um adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova
“hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol
poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua
fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que
era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma
suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto
de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um
girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se
esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o
finquei a meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a
alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos
nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro
somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio
sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos
loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à
sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latadas e colinas de
Frisco sentados ao anoitecer.
Berkeley, 1955
Tradução:
Claudio Willer
Nota: Sutra são textos védicos, de doutrina filosófico-religiosa. O girassol é uma flor-símbolo para Ginsberg, que, na experiência místico-visionária de 1948 em seu apartamento no Harlem, lia o poema Ha! Sun-Flower dos Songs of Experience, quando ouviu a voz do próprio Blake recitando o poema.
O curso online BRASIL: QUE PAÍS É ESTE?, ministrado por Claudio Daniel, apresentará um retrato crítico de nossa história, da época colonial até os dias de hoje, a partir de textos de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e outros autores. As aulas acontecerão a partir de 10 de maio, sempre às segundas-feiras, das 20h às 21h30, via Google Meet.
Informações e inscrições pelo e-mail claudio.dan@gmail.com
UMA VIAGEM PELA POESIA DA ÍNDIA, CHINA, COREIA E JAPÃO.
Esta é a proposta do curso POÉTICAS ORIENTAIS,
ministrado por Claudio Daniel, que acontecerá a partir do dia 13 de abril.
Todas as aulas serão online, realizadas via Google Meet, sempre às terças-feiras,
no horário das 20h às 21h30, e incluem apostilas e bibliografia.. Durante os
encontros, com duração de um semestre, serão discutidos temas como as bases
filosóficas da poesia e da arte orientais – hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo,
xintoísmo --, temas e formas poéticas praticadas em cada uma dessas
literaturas, seus autores e obras principais, com a leitura de traduções
poéticas feitas a partir dos textos originais por especialistas renomados e
obras teóricas de apoio. Se você quiser fazer a sua inscrição para participar do curso ou
obter mais informações, basta escrever para o professor Claudio Daniel pelo
e-mail claudio.dan@gmail.com
Em março, no curso online REBELLDES &
MALDITOS, ministrado por Claudio Daniel, estudaremos a poesia de Antonin Artaud
e Henri Michaux. Nos meses seguintes, estudaremos poetas como Gregory Corso,
Allen Ginsberg, Torquato Neto, Bertolt Brecht, Cruz e Sousa, Yi Sáng e muitos
outros. Quem tiver interesse em participar, pode falar comigo, pelo
Messenger ou pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
CURSO DE PROSA NARRATIVA. Querid@s, a partir de 20 de fevereiro, darei
aulas on line aos sábados, das 15h às 16h30, sobre textos de Franz Kafka,
Machado de Assis, Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice
Lispector e outros autores. Quem tiver interesse em se inscrever ou obter mais
informações, pode me escrever pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
(Ária de Wolfram)
Tudo é um livro de viagens. Com fotografias de meninos e cavalos-marinhos, pássaros e pianos, garrafas de cerveja e pincéis. Sempre é possível, no pequeno barracão de feira, brincar de marinheiro e esgrimista. Tatuar o torso da formiga ou masturbar-se em jornais velhos. Assobiar outro noturno de Chopin. Incendiar uma lágrima. Jardins e camaleões, pérolas e madrepérolas, tudo são palavras secretas. Vivemos na encantação. Somos todos peles-vermelhas, girafas sonâmbulas, relógios mecânicos, vagões de metrô. Quando eu era adolescente, tracei com o canivete círculos na face. O meu nome então era “Eu Sou o Enforcado”. Usava brincos de ouro nas orelhas e um lenço vermelho sobre a testa. Gostava de calças velhas, blusões de couro e pesados coturnos. Amava fantasiar-me de cigano, bucaneiro ou tuaregue. Papai não gostava. Implicava com os meus disfarces. Com o tempo, cansei de imitar esqueletos e motociclistas. Quis ser paisagens. Fiz-me deserto e iceberg, aurora boreal e piscina selvagem. Certa vez, pintei o rosto de azul e raspei as sobrancelhas. Queria me vestir de “O Mais Profundo Céu”. Papai não gostou nem um pouco. Ele, que era um diploma afogado em uísque com sorriso de impecável lagartixa e um relógio de pulso derretido dentro do crânio. Gárgula com frio suor de réptil esmeraldino, papai invocou desolados cenários bíblicos, a foto de mamãe amarelada na gaveta fúnebre. Ouvi sua voz de tenor enlouquecido, voz de galo azul e alvorada, e senti o peso de sua pata de urso em minhas costas de galápago. Depois, o telefone trouxe o carro que me levou a um lugar branco com flores do campo, cheiro de iodo e novelas de Franz Kafka. Fui levado a um quarto escuro onde caras fodidos como lutadores de jiu-jítsu me espetaram com seringas e alfinetes de cenobita. Eles queriam que eu fosse um roteiro previsível de melodrama, com sorriso de plástico e girassol enfiado na lapela do paletó sombrio. Sim, eles eram nigromantes e queriam transmutar-me em orquídea, em peixe ornamental de restaurante japonês com afiladas barbatanas. Eles me trancaram na jaula de um navio holandês no mar imóvel de uma noite africana. Tatuaram meus olhos com escunas e cetáceos e ataram meus punhos com as tripas de um leão. Fumaram havanas e apagaram os tocos em meu tronco, incêndio de pequenos sóis, inscrições nas corcovas do camelo. Unhas manchadas de preto, boca lacerada e tez amarela de defunto, juntei meus ossos e nervos e costurei com a pele da raposa. Dor metalizada em touro, setas cravadas nas costas, escavei o chão com as patas e o focinho, híbrido animal de pequenos olhos vermelhos. Assim o tempo vertical de um verde escuro, sinistra arquitetura de braços fluidos que cresciam nos lençóis e agarravam os meus pés. Vozes ruivas de esfinges e medusas me curravam com cápsulas e haldol, eu era o zumbi da orquestra noturna de espectros e mongóis. Urrava o azul de minha boca, riscava os pulsos com lascas de vidro e arranhava as paredes do crânio em formol. Então, Ela, a Menina da Fronteira, sorriu para mim com o desenho de figuras espiraladas em seus lábios, e ouvi sua voz de taumaturga. Havia uma porta atrás do espelho, com um corredor de mãos que puxavam meus cabelos. Segurei firme a ventosa e bebi a última gota. Conversei com os mortos, como se fossem vivos, e aceitei sua versão dos fatos. Fiz-me coisa entre coisas, sombra entre muitas sombras. Menti acreditar no que mentiam. Fingi ser um boneco mecânico, até ser declarado são. Agora, eles não podem mais me machucar. Certo dia, acordei na manhã esquálida, escovei os cabelos molhados e vesti a camisa dos humanos. Ela, a Menina da Fronteira, ainda estava sorrindo para mim quando papai assinou a folha do cheque antes de levar-me de volta para casa. Cinco anos se passaram, levei comigo algumas cicatrizes e o Livro de Sonhos com as páginas em espiral borrifadas de estrelas.
— Estou tentando, estou tentando entender, ela respondeu com a pele e a voz, em timbre vegetal, escuro, quase mudo.
(Fragmento do conto Fantasmas não bebem coca-cola, de Claudio Daniel)
Estou bloqueado por uma semana no Facebook, rede social de propriedade do sionista norte-americano Zuckemberg, por ter publicado uma foto de Francesca Woodman, que supostamente viola os "padrões da comunidade" por causa de seu "conteúdo sexual" (sic). Bela liberdade, essa do capitalismo...
O resultado do segundo turno das eleições municipais de 2020 nas capitais brasileiras aponta para a crise do bolsonarismo, mas também da esquerda institucional brasileira. Este fato merece reflexão. Bolsonaro já cumpriu a missão histórica oferecida a ele pelas elites brasileiras, em especial aquelas ligadas ao oligopólio da mídia, ao latifúndio, à grande indústria e ao capital financeiro: destruir direitos trabalhistas e previdenciários, precarizar as relações de trabalho, reduzir os investimentos públicos em educação e saúde, retomar a pauta privatista de Collor e FHC, conduzir uma contrarreforma agrária, ampliando as garras do agronegócio em áreas ambientais, reservas indígenas e quilombolas, sem o menor respeito a políticas ambientais, golpear os sindicatos e estigmatizar a esquerda, que assistiu a toda essa tragédia impotente e perplexa, para não dizer acovardada.
No plano internacional, Bolsonaro submeteu o Brasil aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, reduzindo nosso país à condição de semicolônia, ao mesmo tempo que se aproximou dos governos mais reacionários do mundo, como Hungria, Ucrânia, Arábia Saudita e Israel, com quem compartilha as pautas misóginas, homofóbicas, racistas e o fundamentalismo religioso. Agora, Bolsonaro não é mais útil: após cumprir o seu papel e destruir o legado de treze anos de governos democrático-populares de Lula e Dilma, sua figura caricata já não é necessária: ele afasta investidores internacionais, cria tensões desnecessárias com o novo governo norte-americano e com a China e faz do Brasil motivo de piada mundial. A burguesia colocou em curso, nessas eleições, fortemente influenciadas pela mídia, a transição de poder da extrema-direita para a direita: Bolsonaro perdeu em quase todas as capitais, ao passo que partidos burgueses como o MDB, PSDB, DEM, PDT e PSB ganharam poder e capital político para as eleições presidenciais de 2022, em que figuras apresentadas como "liberais” ou “moderadas”, como Luciano Huck, poderão conduzir um bolsonarismo econômico sem Bolsonaro.
A esquerda, por sua vez, sofreu uma derrota histórica, fragmentou-se ainda mais e dificilmente estará unida nas próximas eleições. O PCdoB, que perdeu as eleições em Porto Alegre, aposta todas as suas fichas na aliança com partidos burgueses como o PDT e o PSB, sobretudo nos estados do Nordeste, contentando-se com cargos de segundo e terceiro escalão, em nome de uma suposta “frente popular e democrática”, que provavelmente lançará a candidatura do oportunista Ciro Gomes em 2022; o PSOL, apesar de ter marchado junto com o PT em Belém, deve aumentar o seu antipetismo, motivado pelo bom desempenho de Guilherme Boulos em São Paulo, acreditando que dessa forma poderá substituir o PT como principal partido de esquerda no país – política cega e sectária que apenas levará mais água para o moinho da direita; e o PT, embora continue a ser o maior partido político do país em número de filiados, teve a sua influência política seriamente golpeada e se encontra cada vez mais isolado, sobretudo pela forte campanha midiática dirigida contra esse partido desde as falsas acusações do “mensalão” até o golpe de estado de 2016 e a prisão de Lula. O partido precisa se reinventar, a partir das lutas sociais, para voltar a ocupar o seu papel de protagonista no cenário político.
A perspectiva de curto e médio prazo parece ser a de
fortalecimento das políticas neoliberais e aprofundamento da miséria e da
destruição da democracia e dos direitos sociais no Brasil. Neste quadro sombrio
em que vivemos, uma tarefa é imprescindível: a reconstrução do Partido
Comunista, sob a hegemonia do marxismo-leninismo revolucionário.
O poeta gaúcho José Couto, autor de livros como A impermanência da escrita (2010, O soneto de Pandora (2017) e O unicórnio do sul e outras lendas poéticas (2019), desenvolve uma interessante pesquisa intersemiótica, envolvendo os recursos da poesia, pintura, canção popular e da animação computadorizada, para envolver todos os sentidos do leitor. Este trabalho poético, realizado com rigor e sensibilidade, invoca ao mesmo tempo as lendas do folclore brasileiro e da mitologia afrobrasileira, numa valorização de nossaa cultura ancestral, tão ameaçada hoje pelo fundamentalismo político e religioso. Esta recuperação do “arcaico” – que nos faz recordar do conceito de Paul Valéry, que via no poeta alguém muito antigo – não acontece, porém, de maneira ingênua, ao contrário: José Couto incorpora o léxico iorubá aos poemas escritos em português, criando expressivos efeitos sonoros e linguísticos, mantém a sutileza e o tom enigmático dos mitos e nos convida a mergulhar no imaginário coletivo de nossa própria cultura, que tanto tem a dizer à nossa inteligência e sensibilidade. Poeta da melodia e do intelecto, que traz para a poesia a reflexão crítica sobre a realidade brasileira, no momento mais difícil de nossa história, o autor gaúcho recupera o sentido do conceito de logopeia, que segundo Ezra Pound significa a “dança do intelecto entre as palavras”. No caso de José Couto, as palavras-de-axé dançam ao som de batás, os tambores tradicionais da nação iorubá. Vamos ler agora alguns poemas desse autor singular, que se destaca pela originalidade no quadro atual da poesia brasileira:
JAGUNJAGUN DE BALÒGUN
jagunjagun de balògun
dançavam o èrúbo
bájà, edún
ija káwó
guerreiros de ifá
saúdam korin kunle
guerreiros de xangô
exaltam òsè ida-oba
a figa lá de olodê
soprou si ori xirê
a estrela lá de ìgamolè
é nosso ìmalè é nosso ìmalè
BENFAZEJA
reza das ajés
iá mi oxorongá
com folhas
da palmeira do dendê
raminho de alegrim
tira do meu peito enxovalhado
quebranto cobreiro
mau-olhado
espinhela caída
vento virado
choro cifrado
beba da água da cachoeira
antes de entrar na casa de oxalá
plante a espada de ógun
se deseja saudar xangô
colha a folha de iróko
depois da lua prateada
ofereça ainda orvalhada
pra nanã euá orunmilá
reza das ajés
com folhas maceradas
mutamba rama de leite
malmequer bravo
arruda e noz de obi
esfrega nas costas
corta na raíz
os pés descalços
guiné orô orim-rim
BOI BARROSO
meu boi barroso
meu boi araçá
tua carroça de palha
tá cheia dos butiás
adeus arambaré barra do ribeiro
tapes e outras trilhas
vou pelo atalho olhar o mar
se me perder
tava relendo cobra norato
lendas do sul
grande sertão
pé de pilão
batata cozida, mingau de cará
se o minuano não assoviar
se o boi barroso da cara preta
não tropeçar na capivara
pé dentro pé fora
digo adeus e noves fora
O AMOR É AZUL, SEGUNDO A TARDE
para Lázara Papandrea
aqueles seus versos
escritos sobre as águas
pela menina
nas nascentes dos rios
desaguaram
suas imagens
e infinitas transparências
na imprecisa manhã
que se insinuou
com as mãos em concha
bebi de tua paz reverberada
nas entrelinhas dos poemas
lavei o rosto dos excessos
e um silêncio ensurdecedor
e desmesurado
derramou em meu peito
uma vertente fugaz
capaz de recolher do vento
e do amor segundo a tarde
algo assim como pássaros azuis
habitantes desse livro
para presentear desconcertante
leitores desavisados
MÁQUINA DO MUNDO
nada se compara a esse entardecer
a lágrima do sol avermelha o rio
sem culpas esculpe desejos no silêncio
mas quem verdadeiramente se importa?
e no entanto essa beleza impregna de avessos
a delicadeza que finda na luz que se despede
tão pouco ofereceu esse dia que parte
talvez um minúsculo fragmento de folha
sendo levada sem rumo
pousou seu desvelo aos meus pés
e depois partiu em frêmito alucinante
mas quem verdadeiramente se importa?
entretanto agora nesse porto
esvaziado de opacidades
desprende cheiros familiares
algo não tangível
porém me escapa seu sentido
se há algum
transborda preso na garganta
do tamanho de um navio atravessado
mas verdadeiramente
alguém se importa?
a escuridão chega
e nos abraça implacável
vislumbro longe
às fragilidades que o mundo sussurra
despido do tempo que o dia me furtou
reparo nas indeléveis cicatrizes
que os cravos dilaceraram no centro das mãos
e nesse exato instante
revela-se a epifania das infinitudes
perfumes óleos avelãs
a mirra o incenso e o indecifrável
subitamente desaguam
desconcertantes
acendo o último cigarro
caminho sobre às águas turvas
anoitecidas sem compaixão
na margem orixás
babalorixás me saúdam
homens e mulheres registram nos celulares
ambulantes oferecem bugigangas
todos aguardam
antes de tocar as pontas dos dedos
na pele úmida do afluxo
uma esfera esdrúxula
circunspecta drummondiana
de cor incerta
emite permanentemente
um mantra stotram
cruza o céu de ponta a ponta
em porto alegre
mas me diga leitor
quem verdadeiramente se importa?
O CARBONO TRANSLÚCIDO
I
só eu vi
luzes turvas do alumbramento
nas dissonâncias
do desamor-imperfeito
só eu li
o sol dentro do verso
fragmentar cristais límpidos
desejos transformados em náufraga
só eu revivi
a desolada alma do pássaro
gerar a desordem
o poema decifrar o vórtice
desencadear fragrâncias
amorosidade equilibrista
só eu concluí
escrita extensíssima de ecos
diamante raro lapidado
essência vaporosa da lágrima
frêmito da navalha no lábio
vertendo luz na palavra indizível
revelações materializadas
nas entrelinhas pontiagudas
II
linguagem: abismos dos avessos
forjando inesperadas trilhas
vestígios de nuvens
sussurrando dentro
caos da paixão
amplidões, ressignificados
lapidados, reinventados
tatuados no que nos tocou
profundamente e permaneceu
alucinando perplexidades
desconcertando sentidos
dissolvendo epifanias
dissipando sobras
encurralando no canto
do mais intrincado labirinto
o leitor vencido, submerso
EM NOVEMBRO, A ESCOLA DE ESCRITA CRIATIVA iniciará um novo curso on line aos sábados, das 15h às 16h, ministrado por Claudio Daniel, sobre a prosa de ficção. Serão apresentados conceitos e processos criativos relacionados com o conto, a novela e o romance, além da leitura e discussão de textos de autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Kafka, Júlio Cortázar, entre outros. O curso, que incluirá ainda a análise de textos produzidos pelos alunos e sugestões de como publicar e divulgar um livro de ficção, terá a duração de dois meses e a mensalidade será de R$ 60,00. Interessados podem se inscrever ou solicitar mais informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
Claudio Daniel
Daniela Pace Devisate desenvolve uma poética da brevidade, com delicada imagética, fluência melódica e sabor oriental, que revela suas leituras de poetas como o japonês Matsuo Bashô e do persa Omar Kahayyam, que cantaram a beleza e a fugacidade do amor e dos fenômenos da natureza. Assim, lemos na quadra Voa, garça vermelha, quase um flash fotográfico ou plano-detalhe de um filme de Akira Kurosawa: “ops, erro / voa uma garça / no quimono vermelho / da deusa do Sol”, em que o uso da interjeição no verso inicial adiciona à imagem um sentido de percepção de falha, engano ou indiscrição involuntária, ao mesmo tempo que permite um leve toque de humor. Em outra peça, intitulada Orquestra, ela escreve: “Astuta, a lua / tramava a móvel partitura / ela / maestrina de sapos / convidava os músicos cegos / e crianças / para o seu coral”. Neste minipoema, de sete linhas curtas, Daniela cria imagens inusitadas, como a da “maestrina de sapos”, epíteto para a sua lua de prosopopeia, e imagina um onírico coro de vozes da natureza, acompanhado por uma orquestra de câmara formada por crianças e músicos cegos. Em Faana, composição de sabor persa, em que a autora cria uma deliberada ambiguidade entre o amor erótico e o amor espiritual – tema recorrente entre os autores sufis, como Rumi e Attar – conforme leremos a seguir:
FANAA
Mais além dos rostos
na meia noite transcendente
onde os nomes flutuam
como lótus num lago
após serem unificados
no fogo de dor e amor:
um fogo alvo
fogueira de lírios que se dissolvem
no Oceano de Perfumes
composição que recorda outra gravura poética de Daniela, que utiliza símbolos e imagens próprios do imaginário dervixe, apresentado em livros como A linguagem dos pássaros e o Masnavi:
GAZAL DO VINHO RUBI
Há uma gazela ferida
no Bosque do Amor.
Dentro da longa noite,
sob uma lua em foice,
o caçador arrependido
bebe do seu sangue precioso
e embriaga-se.
Então, as portas do céu
se abrem de par em par,
e em seus olhos,
como em dois lagos,
se espelha o Paraíso.
O sufismo, corrente místico-devocional do Islã, assim como o Bakhti-Yoga dos vaishnavas hindus, representa o amor espiritual utilizando-se de referências humanas, como os jogos de sedução, a embriaguez com o vinho, o sofrimento causado pela separação do amado e outros tópicos presentes na poesia, na pintura e em canções tradicionais. Na poesia de Daniela, temos uma inversão da equação metafísica, em que os elementos pictóricos da arte sagrada são trazidos para representar o amor humano, demasiado humano. Assim, por exemplo, nestes dois poemas, em que encontramos ainda a amarga ironia de “nosso encontro eterno / adiado por engano”:
* * *
Somos
estrelas errantes
emaranhadas
de carne perecível
com flores no peito
que desabrocham
dolorosamente
gloriosamente
enquanto
a ária dos pássaros
distrai a aridez
da fome
e aguardamos a noite
essa espécie
de abrigo provisório
porque a vida
é uma coisa muito precária
* * *
Oh amado
como anseio
teu rosto reluzente
camuflado
nas coisas do mundo
nuvens irisadas
se precipitarão
em chuva
que se mistura à saliva
no céu da minha boca
enquanto você acende estrelas
nas palmas
das minhas mãos noturnas
vê esses sinais?
aqui está marcado
nosso encontro eterno
adiado por engano
Claudio Daniel
Após
o golpe de estado de 2016, que derrubou a presidenta legítima do Brasil, Dilma
Rousseff, eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foram aprovadas uma série
de medidas no Congresso Nacional que retiram direitos do povo brasileiro, como
a reforma trabalhista, que permite aos empresários contratar trabalhadores sem pagar
o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), férias, licença-maternidade e
outros benefícios garantidos na Constituição, e a reforma previdenciária, que
aumenta o tempo de contribuição de homens e mulheres para a aposentadoria,
desprezando o fato de que, sobretudo no campo, muitos trabalhadores morrem
antes de completarem 60 anos de idade. Os governos reacionários de Michel Temer
e Jair Bolsonaro (este último, de extrema-direita, eleito a partir de fake news divulgadas nas redes sociais, financiadas
por grandes empresários brasileiros) aprovaram diversos outros projetos contra
os interesses dos trabalhadores, como o fim do imposto sindical, para
enfraquecer as centrais sindicais, a redução das investigações da Polícia
Federal sobre casos de trabalho escravo no campo, a redução do valor do salário
mínimo, o incentivo à terceirização e precarização dos postos de trabalho, diminuindo
o número de empregados registrados com carteira assinada, as ações violentas da
Polícia Militar contra assentamentos de trabalhadores rurais sem terras, o
congelamento dos investimentos públicos em saúde e educação por 25 anos, o fim
de programas como o Ciência sem Fronteiras, que permitia a jovens brasileiros cursarem
o mestrado e doutorado no exterior custeados pelo estado, entre muitas outras
ações. Todo esse programa antioperário e antipopular é coerente com um modelo
econômico neoliberal e entreguista, que alia o fim dos direitos trabalhistas e
sociais às privatizações de bancos públicos e outras empresas estatais e à
entrega de nossas riquezas naturais, como os campos de pré-sal, minas de
nióbio e áreas da Amazônia ao grande capital internacional, sobretudo o
norte-americano. Todos esses interesses – dos grandes empresários urbanos, latifundiários,
banqueiros e investidores internacionais – estavam por trás do golpe de estado
contra a presidenta Dilma Rousseff, o maior ataque contra os direitos dos
trabalhadores e o regime democrático em toda a história do Brasil e atualizam o
conceito de luta de classes,
introduzido na ciência política por Marx e Engels.
No
Manifesto Comunista, os fundadores do
socialismo científico escrevem:.
“A
história de toda sociedade até nossos dias é a história da luta de classes. Homem
livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre e oficial, em suma, opressores
e oprimidos sempre estiveram em constante oposição; empenhados numa luta sem
trégua, ora velada, ora aberta, luta que a cada etapa conduziu a uma transformação
revolucionária de toda a sociedade ou ao aniquilamento das duas classes em
conflito. (...) A sociedade burguesa moderna, oriunda do esfacelamento da
sociedade feudal, não suprimiu a oposição de classes. Limitou-se a substituir
as antigas classes por novas classes, por novas condições de opressão, por
novas formas de luta. O que distingue nossa época – a época da burguesia – é ter
simplificado a oposição de classes. Cada vez mais, a sociedade inteira
divide-se em dois grandes blocos inimigos, em duas grandes classes que se
enfrentam diretamente, a burguesia e o proletariado. (...) O desenvolvimento da
burguesia, isto é, do capital, corresponde, na mesma proporção, ao
desenvolvimento do proletariado, da classe dos operários modernos que só
sobrevivem à medida que encontram trabalho, e só encontram trabalho à medida que
seu trabalho aumenta o capital. Esses operários, compelidos a venderem-se a
retalho, são uma mercadoria como qualquer outro artigo do comércio e, portanto,
são igualmente sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as
flutuações do mercado. (...) Ora, o preço de uma mercadoria – e, portanto,
também do trabalho – é igual a seus custos de produção. Por conseguinte, à medida
que o trabalho se torna mais repugnante, o salário decresce. (...) O trabalho
industrial moderno, a submissão moderna ao capital, que é a mesma na Inglaterra
e na França, na América e na Alemanha – despojaram-no de todo caráter nacional.
As leis, a moral, a religião, são, para ele, meros preconceitos burgueses por
intermédio dos quais camuflam tantos outros interesses burgueses. (...) O
proletariado, a camada mais baixa da sociedade atual, não pode erguer-se,
recuperar-se, sem estilhaçar toda a superestrutura de estratos que constituem a
sociedade oficial. (...) A burguesia produz, acima de tudo, seus próprios
coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inelutáveis.”
A
luta de classes não deixou de existir na era da “pós-modernidade”, da
globalização e da Indústria 4.0.
Pelo
contrário, nunca foi tão intensa como hoje, embora as formas de exploração da
classe trabalhadora sejam mais diversificadas do que na época de Marx, não
acontecendo apenas pela obtenção da mais-valia nos parques industriais, mas
também pela exploração do trabalho de “empreendedores”, “terceirizados” e
outros setores informais ligados à prestação de serviços que não trabalham em
fábricas, não produzem mercadorias, não integram a classe operária tal como
Marx compreendia esse conceito, muitos deles realizam o seu trabalho
isoladamente e não em grupo, como os motoboys
que entregam pizzas para a classe média, mas ainda assim estão sujeitos a
jornadas de trabalho extenuantes, em situação de insegurança e precariedade,
recebem baixas remunerações e contribuem para o enriquecimento de nossas elites,
cada vez mais desumanas.
Por
outro lado, os trabalhadores não deixaram de lutar contra as injustiças e em
defesa de uma nova ordem social, inclusive pela via da luta armada, como
acontece ainda agora nas guerras populares em curso na Colômbia, Índia,
Filipinas e, em menor grau, no Peru, Turquia e outros países, bem como nos movimentos
sociais que se desenvolvem na Venezuela, Bolívia, Argentina, Brasil e outras
nações latino-americanas, que defendem pautas como a luta contra o latifúndio e
pela reforma agrária, a nacionalização do petróleo e outras riquezas naturais,
a unidade latino-americana contra o imperialismo norte-americano, entre outros pontos
avançados.
A
luta de classes apenas atualizou-se, se vocês preferirem, podem chamá-la agora de
klassenkampf 4.0.