
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
ANTICABEÇA (II)
Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.
Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.
Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.
Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).
Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.
Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.
Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.
Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.
(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)
Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.
Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.
2004
(Poema publicado no livro Fera Bifronte)
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
ANTICABEÇA (I)
esse olhar atravessando folhas;
cegasse o vento reptante:
replicantes jias, alinhavando deserções.
entre breus, seara difratada
onde retráteis
garras do ínfero.
ao modo de borrão: ambíguo
desgarre, em acúmulo
áspero de grafias.
escavasse desde o centro
em desmedida,
e anulasse as cores da paisagem.
***
ambivalência do inseto
que se desenha íbis,
amêijoa, escaravelho,
folhas ou fíbulas, fúrias ou órbitas
insustentáveis
de outra orla, outro círculo
plasmático. tudo está
no dorso da pupila.
2005
(Poema do livro Fera Bifronte)
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
A Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, criada em janeiro de 2011, tem como objetivo promover palestras, debates, recitais, exposições, workshops e outras atividades relacionadas à criação literária, apostando na diversidade com qualidade e abrindo espaço para diferentes formas de expressão, desde as mais tradicionais até as mais inovadoras. A estratégia da nova curadoria, que trabalha em conjunto com a Divisão de Bibliotecas do Centro Cultural, parte da percepção do espaço público como um local democrático e plural, como é a própria comunidade. A universalização das relações econômicas e políticas entre as nações, por outro lado, aponta a necessidade de um maior intercâmbio com outras literaturas, desde as mais próximas de nossa herança histórica, como é o caso daquelas da comunidade dos países de língua portuguesa e da América Latina, até as literaturas de países com tradições distantes da nossa, como intercâmbio cultural e democratização do saber. As primeiras ações desenvolvidas pela Curadoria de Literatura e Poesia ocorrerão em março: o Clube de Leitura de Poesia e o ciclo Poetas de Cabeceira.
CLUBE DE LEITURA DE POESIA
A Sala de Debates do Centro Cultural São Paulo receberá, mensalmente, poetas convidados para leitura de poemas e um bate-papo com o público sobre questões como a publicação do primeiro livro, a recepção crítica, a relação entre a poesia e outras artes, o papel da internet na divulgação dos novos autores, entre outros temas. Após a apresentação do poeta convidado, com a duração média de 45 minutos, haverá um sarau livre, em que todos os poetas presentes poderão ler os seus textos. O objetivo da atividade é fazer do Centro Cultural São Paulo um ponto de referência para os poetas, que serão convidados a utilizar as dependências do CCSP para se reunirem, seja para a troca de idéias, a realização de grupos de estudos, ensaios de apresentações ou outras atividades relacionadas à poesia. O primeiro encontro desta série ocorrerá no dia 10 de março, e o poeta convidado será Cláudio Willer.
POETAS DE CABECEIRA
Ciclo mensal de palestras em que um convidado falará sobre o seu poeta favorito, abordando biografia do autor, contexto histórico, análise da obra e leitura comentada de poemas do autor. O objetivo da atividade é levar ao público jovem informações sobre autores importantes da literatura brasileira e internacional. A primeira palestra do ciclo acontecerá no dia 22 de março e o poeta convidado será Ademir Assunção, que dará uma palestra sobre Torquato Neto.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
UM POEMA DE ALEJANDRA PIZARNIK
É apenas um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.
Eu não sei do sol.
Sei é da melodia do anjo
e do quente sermão
do último vento.
Sei gritar até de manhã
quando a morte se deita nua
na minha sombra.
Choro debaixo do meu nome.
Agito lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
bailam comigo.
Escondo cravos
para escarnecer de meus sonhos enfermos.
Fora há sol.
Eu visto-me de cinzas.
Tradução: autor anônimo.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
UM POEMA DE HERBERTO HELDER
IV
Mal se empina a cabra com suas patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os cascos de demónio -
ágeis, frágeis.
E o sonâmbulo desejo do nosso coração
tudo absorve ao alto, como uma tenebrosa
vertigem.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas - patético, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias, suspensas, mudam a conjunção
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela tremenda queima a fronte de apolo.
E a mandíbula, os pés, a invenção, a loucura, e o sono
secreto:
-Terrível, a beleza espalha sobre nós
a branca luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra ao alto, fremente, no flanco
com uma flecha casta.
Lentamente cantamos o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o nosso amor - ardente, infeliz,
misterioso. Porque a cabra
é qualquer coisa de materno e antigo -
e o nosso coração a rodeia,
e bate. Durante a noite irrompe o trigo.
-Subtil, a sombra das flautas subindo pelas mãos.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e quente, Na penumbra das casas, as mulheres
respiram - surdas , cegas e loucas
de beleza. E no sono aberto as palavras são
mortalmente confusas.
- Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma doce e terrível da nossa melancolia.
(Do livro A Colher na Boca, de 1961.)
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
LOJINHA DO TURCO
Caros, quem tiver interesse em adquirir a segunda edição de meu livro Yumê, que saiu em 2008 pela DIX Editorial / Annablume, pode solicitar a obra pelo tel. (11) 3031-1754 ou encomendá-lo na Livraria da Vila, Livraria Cultura e outras boas casas do ramo. O site da editora está na página http://www.annablume.com.br/demonionegro/index.htm
NOITE-FLOR
a lua irrompe
na teia
azul-da-prússia
qual peônia
ouro rútilo
favo de mel
e se vai
(fio d’água-luz
em água-água
desatado)
sem dizer
ah deus
1998
(Do Livro Yumê)
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
NOITE-SEIOS
alvíssima
deslinda-
se no céu
finíssima
auréola:
pó de luz
que cintila
nos róseos
mamilos
desnudados
— lua
em luas
refletida,
prata
em prata
lucilada
1998
(Poema do livro Yumê)
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
MARINHA BARROCA
o azul-espuma-catarata, azul-quase-branco-nébula, de mar branqueado no azul-lótus-krishna; delfim que sulca em saltos as vagas azul-marinho-almíscar como graciosa dançarina cambojana, pés-apsara; e (miríades!) aves aquáticas em mandálicos dervixes rodopios rumo ao meru, imenso portal laqueado, sob o céu-plumas-lakshmi, que se abre como noiva. filetes de azul-violeta nas pupilas do inseto que vê: nos brancos lençóis de areia, a velha senhora obesa, vulva em pêlos esbranquiçados, suas lágrimas fermentando taças licorosas, sob o guarda-sol; o sardônico bioquímico alemão, longas suíças platinadas, que corta o presunto em fatias, entre cusparadas; e a bela ninfeta vietcong, sinuosas pernas mecânicas, cujo olhar incendeia como napalm. por fim, o pinguim ártico banido por excessivo daltonismo. depois, nada se vê, só o mais puro azul.
1993









