segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

PRIMEIRA LUA

  


 






Je vous écris du bout du monde.

Michaux

 

Tudo o que existe vibra, canta;

lua, noite-lua,

flores-centelhas

da lua,

os mil dedos da lua;

Tudo o que existe vibra, canta;

sariema, muçum,

flores negras

da lua;

jimbu, urutau,

flores brancas

da lua.

Tudo o que existe vibra, canta;

teus lábios

vermelhos,

tua vulva

vermelha,

flores vermelhas

da lua.

Tudo o que existe vibra, canta;

só não me esqueço

da história-tumba-

pesadelo;

só não me esqueço

do acúmulo branco

de minúsculos ossos

desse horror-humanidade.

Tudo o que tenho

é a lua-lua,

teus lábios-luz-

de-lua;

sonoros mares

vermelhos

anunciam teu nome

que eu amo,

flores brancas

flores negras

da palavra

verdadeira.

Juntos fazemos

um pacto:

o de navegarmos

sempre juntos,

até depois do pesadelo.

 

Claudio Daniel, 2021

 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

UM ORIKI DE JORGE DE LIMA

 


















XANGÔ


Num sujo mocambo dos «Quatro Recantos»,
quimbundos, cafuzos, cabindas, mazombos
mandingam xangô.
Oxum! Oxalá. Ô! Ê!
Dois feios calungas - oxalá e taió rodeados de contas no centro o Oxum!
Oxum! Oxalá! Ô! Ê!
Caboclos, mulatos, negrinhas membrudas
Aos tombos os quadris e as mamas bojudas
Retumbam o tantã...
Oxum! Oxalá! Ô! Ê!
Sinhô e Sinhá num méis ou dois méis se
Há de casa
Mano e mana! Credo manco!
No centro o Oxum!
Dois feios bonecos na rede bem bamba!
Ioiô e Iaiá!
Minhas almas
Santas benditas
Aquelas são
Do mesmo Senhor;
Todas duas
Todas três
odas seis
E todas nove!
Santo Onofre
São Gurdim
São Pagão
Anjo Custódio
Moserrate
Amén
Oxum!
No sujo mocambo a dança batuca.
Recendo o fartum dos sangues cabindas.
Batendo com os pés, tremendo com as ancas,
Volteia sem roupas
Com o santo Oxum-Nila
A preta mais nova.
Oxum! Ô! Ê!
Redobram o tantã, incensam maconha!
Oxalá sorri...
E a preta mais nova com as pernas tremendo,
No crânio um zunzum,
No ventre um chamego
De cabra no cio... Ê! Ê!
Redobram o tantã.
Ogum taiá-iê!
Me pega ioiô!
O santo Ogum-Chila redobra o feitiço.
Oxalá sorri.
Os olhos da preta parecem dois rombos
Na pele retinta.
Mas chega o momento: Xangô sai do nicho
De contas redondas,
Se encarna no corpo dos negros fetiches...
A negra mais nova se esponja no chão.
Acode o mocambo,
Xangô tinha entrado no ventre bojudo,
Subira pro crânio da negra mais nova.
Um canto da sala,
Oxalá sorri.
Meu São Mangangá
Caculo
Pitomba
Gambá-marundu
Gurdim
Santo Onofre
Custódio
Ogum.
Minhas almas
Santas benditas
Aquelas são
Do mesmo Senhor
Todas duas
Todas três
Todas nove
O mal seja nela
São Marcos, São Manços
com o signo de Salomão
com Ogum-Chila na mão
com três cruzes no surrão
São Cosme! São Damião!
Credo
Oxum-Nila
Amém. 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

POEMA PARA CARLOS MARIGHELLA

 












tempo sombrio

de cadáveres

escritos na pele

tempo de olhos

sem línguas

nos mortos em mim

mar de amarume

sem luzeiros

cobra verde

que morde

o próprio rabo

tempo de rasuras

borrões

e acúmulo

de resíduos;

apesar do luto,

Carlos, nós lutamos

não há tempo

para sentir medo;

sob a nebulosa

cabeça de cavalo

fazemos um trato,

camarada

comandante:

até o último

sopro

até a última

farripa de cabelo

colocaremos

o regime

em alerta

de segurança máxima:

estamos cercados

pelo inimigo   

 disse outro Carlos –  

não vamos deixá-lo

escapar!

 

Claudio Daniel,  2021

 

 

 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

CURSO DE POESIA EM OUTUBRO

 












O Laboratório de Criação Poética, curso teórico e prático ministrado por Claudio Daniel, iniciará um novo módulo em outubro.

O curso tem como objetivos apresentar conceitos sobre o fazer poético, propor exercícios de criação, estudar os processos criativos e estimular os alunos a desenvolverem os seus projetos literários pessoais.

As aulas incluem dicas sobre como organizar, publicar e divulgar o primeiro livro e iniciar a carreira poética.

Todas as aulas teóricas são gravadas em vídeo, há apostilas e bibliografia, além de um blog para a publicação dos poemas dos alunos.

Quem estiver interessado no curso poderá enviar mensagem para o professor pelo e-mail claudio.dan@gmail.com ou pelo Whatsapp (11) 9 4878-2488, solicitando ingresso no curso, ou ainda via mensagem in box no Facebook.

 

terça-feira, 21 de setembro de 2021

MAIS HAIKUS

 



















I

 

vento de primavera:

gato se esconde

com medo da chuva

 

 

II

 

noite gelada

gatos dormem

dentro do cesto

 

 

III

 

fogueira de maio

ilumina da praça

até a lua vermelha

 

IV

 

gato cego

dorme na porta

da peixaria

 

 

V

 

gato sem dono

aguarda o peixe

na porta do açougue

 

 

VI

 

vento de inverno
folhas caem no chão
após o massacre

 

 

 

VII

 

vozes escuras

vendem doces

no vagão do metrô

 

 

 

VIII

 

chuva de verão:

folhas amarelas

flutuam nas poças

 

 

IX

 

músico negro

toca violão

no vagão do metrô

 

 

X

 

que dia estranho!

um osso

morde o cão

 

 

XI

 

chuva de inverno
menina traz o arco-íris
com o guarda-sol

 

XII

 

flores amarelas
caem na calçada:
adeus à menina morta.

 

(À memória de Agatha Félix, de oito anos de idade, morta pela Polícia Militar. Setembro de 2019)


Claudio Daniel, 2021

 

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

DOZE HAIKUS DE CLAUDIO DANIEL

 



I

 

mulher de pescador

limpa o peixe

para fazer moqueca

 

 

II

 

caminho de pedras

homens carregam

cestos de lagostas

 

 

III

 

muro de pedras

crianças nadam

nas águas do rio

 

 

IV

 

chapéu de palha

camisa vermelha

remador de outono

 

V

 

sentada nas pedras 

moça lava roupas

na espuma do mar

 

 

VI

 

velha carroça

cachorro dorme

na caixa de papelão

 

 

VII

 

praça de inverno

cães e mendigos

dormem juntos

 

VIII

 

na grama da praça

mendigo divide

comida com o cão

 

IX

 

manhã gelada

esfrego as mãos

perto da fogueira

 

X

 

jardim de outono

mendigos se aquecem

num resto de sol

 

XI

 

barracas na praça

homens sentados

aquecem marmitas

 

XII

 

manhã de primavera

mendigo dorme

ao lado do buda

 












segunda-feira, 13 de setembro de 2021

2022 JÁ COMEÇOU

 Bolsonaro é irrelevante para as eleições de 2022. Incapaz de dar um golpe de estado, será derrubado pelo STF e pelo Centrão ou continuará até o final do mandato, enquanto a burguesia procura a sua "terceira via". Nova etapa da luta política que começou ontem será entre Lula e as forças progressistas de um lado e os fascistas e neoliberais de outro.

domingo, 12 de setembro de 2021

FASCISTAS VOLTAM ÀS RUAS, DESTA VEZ SEM BOLSONARO

BREVE REFLEXÃO MATINAL: crise energética, que pode levar ao racionamento da luz, aumento geral dos preços, PIB baixo, desemprego, dilema dos precatórios, que impede Bolsonaro de aumentar o auxílio emergencial para ganhar apoio entre os mais pobres... o ex-capitão está num mato sem cachorro... Se o STF exigir que Lira avalie os pedidos de impeachment, após a conclusão dos trabalhos da CPI, game over! Agora, dilema da burguesia é escolher quem ela apoiará contra Lula em 2022. Ato de hoje no Masp pode ser o primeiro movimento nessa direção.