quinta-feira, 14 de abril de 2011

IMAGENS DO JAPÃO NA POESIA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA (I)


A poesia clássica japonesa, cujo primeiro registro é a antologia Manyoshu, ou “coletânea de dez mil folhas”, publicada no século VIII, durante o período Heian (794 - 1192), influenciou o processo criativo de autores brasileiros desde o início do século XX, especialmente após a publicação, em 1919, do livro Trovas populares brasileiras, de Afrânio Coutinho, que colocou em circulação entre nós o haicai (ou haiku), poema breve japonês composto de três versos, de cinco, sete e cinco sílabas, sem rimas ou título, geralmente inserido num diário de viagem (haibun) ou numa pintura (zen-ga). Escrito no alfabeto de kanjis, que representam figuras abreviadas de objetos ou conceitos, ao contrário do ocidental, que faz um registro fonético, e desenhado em refinada caligrafia, o haicai não era uma arte exclusivamente verbal, mas uma síntese de texto e visualidade, uma criação intersemiótica orientada por princípios de economia construtiva e alta definição de contornos: uma flor é uma flor, a lua é a lua, um gato é um gato, não há metáforas aqui, mas a representação direta do mundo dos fenômenos, em linguagem substantiva e dicção coloquial, ainda que o inusitado, a ironia, a sutileza e a própria estrutura da língua japonesa criem sensações de estranheza e imprevisto, como no conhecido poema de Bashô: “velha lagoa / salta uma rã / rumor de água”.


Conforme diz Paulo Leminski em sua biografia do poeta japonês, o primeiro verso de um haicai “expressa em geral uma circunstância eterna, absoluta, cósmica, não humana, normalmente uma alusão à estação do ano, presente em todo haicai”. Leminski cita, como exemplos de kigo, o signo da estação ano, versos como “lua de outono”, “vento de primavera” e “tempestade de verão”, que fazem parte de numerosos poemas do cânone japonês. O segundo verso do haicai, ainda segundo Leminski, “exprime a ocorrência do evento, o acaso da acontecência, a mudança, a variante, o acidente casual. Por isso, talvez, tenha duas sílabas a mais que os outros. A terceira linha do haicai representa o resultado da interação entre a ordem imutável do cosmo e o evento. Resultado distinto da conclusão de um silogismo da lógica grega aristotélica. No poema japonês não há ‘logo’, ‘portanto’ nem ‘contudo’. As articulações sintáticas são soltas, ambíguas em suas funções lógicas, abertas, plurais.” Os três versos do haicai, como as três varetas de um arranjo floral, ou ikenana, estabelecem uma relação entre o Céu, o Homem e a Terra, vale dizer, entre o eterno e o efêmero, resumindo a filosofia zen-budista, que enfatiza a mutabilidade e a impermanência de todas as coisas.


O caráter temporário de cenários, personagens e acontecimentos é ressaltado, no haicai e em outras artes tradicionais japonesas, como a caligrafia (shodô) e a pintura (sumi-ê), pela valorização do espaço vazio, do traço imperfeito, inacabado ou borrado, que coloca em primeiro plano o contorno abreviado das figuras, e não os volumes. A tensão entre preciso e impreciso, presença e ausência, concreto e abstrato, real e imaginado é frequente nesse repertório cultural, e deriva das concepções estéticas e filosóficas do taoísmo chinês e do I Ching, o Livro das Mutações, que valorizam a perfeição do imperfeito, do inacabado ou desfeito, índices da fugacidade da matéria e do tempo. A interferência criativa do acaso na elaboração da obra de arte e a ação intuitiva do artista são outros elementos valorizados na arte japonesa, porque remetem à simplicidade, à espontaneidade, ao insight, rompendo com as limitações da lógica rotineira e das convenções formais. Um mestre, no sentido japonês da palavra, não é aquele que maneja com habilidade as técnicas de composição poética, de pintura à nanquim ou de luta com a espada, mas sim aquele que, tendo assimilado essas técnicas, superou o mero domínio formal, atingindo shado, a arte sem arte, ou criação natural e sem artifícios, que corresponde ao ideal zen-budista de desapego e volta à natureza original da mente, que é o estado de vacuidade, ou sunyata, a harmonia que transcende todas as oposições entre sujeito e objeto, o interno e o externo, o efêmero e o eterno.

2 comentários:

  1. Belo ensaio! Parabéns!

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  2. Celso Vegro16.4.11

    Prezado prof. Claudio Daniel
    Sua síntese é para ser impressa e guardada, pois reúne toda a vitamina que pode existir na técnica poética do haikai.

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