terça-feira, 24 de abril de 2012

DOIS POEMAS DE KHLÉBNIKOV


Herdades noturnas, gengiscantem!
Crepitai, bétulas azuis!
Albas da noite, zaraturvem
Ao céu cerúleo mozarteante!
Goyam trevas como nuvens!
Roops é um cirro soturno!
Voa uma tromba de risos,
Enfrento firme o verdugo,
Gargalham garras de gritos,
E em torno o silêncio escuro.
A mim convoco os valentes,
Saem dos rios os afogados,
O miosótis, estridente,
Declama a velames pardos.
Gira o eixo cotidiano,
Move-se a massa verpertina,
Nas águas da noite vogando
(Sonho) uma carpa-menina.
Mamáj - pinhos ao vento!
Nuvens nômades de Báti!
Como cains do silêncio
Palavras santas se abatem.
Passo tardo, cercado de tropas,
Asdrúbal azul vai ao baile das rochas.


Tradução: Haroldo de Campos. 

* * *
 
Neste dia de ursos cerúleos
a correr sobre cílios tranqüilos
transvejo para além da água azul
o acordar na taça das pupilas.

Na colher de prata de olhos latos
vejo a procelária em mar sonoro
e ao largo vai a Rússia dos pássaros
transvoando entrecílios ignotos.

Marventoso em celamor soçobra
a vela de alguém na azul esfera,
e eis que o desepero tudo engolfa
trovão e porvir de primavera.



Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
 
 

GALERIA: KHLÉBNIKOV (I)


domingo, 22 de abril de 2012

A POESIA EM REVISTA


Debate com Edson Cruz, Victor Del Franco e Ademir Demarchi sobre a edição de revistas literárias no Brasil. Lançamento das revistas Babel, Celuzlose e Musa Rara e dos livros de poesia Tambores pra N'zinga, de Nina Rizzi, EsfingE, de Victor Del Franco, Pele & Osso, de Neuzza Pinheiro, e Pirão de sereia, de Ademir Demarchi 

Dia 25 de abril, quarta-feira, às 19h30. 

Entrada franca - sem necessidade de inscrição, nem retirada de ingressos 

Praça Mário Chamie (Bibliotecas) do Centro Cultural São Paulo.

Rua Vergueiro, 1.000, próximo à estação do metrô.

sábado, 21 de abril de 2012

GALERIA: SANTIAGO CARUSO (III)


UM POEMA DE NINA RIZZI


 CANÇÃO ÀS PROLETÁRIAS DE GUERRA

caem línguas e ouvidos mortos
sob o céu vazio e cinzento

devia dizer uma velha cantiga
judaico-germânica

marina c., aqui vai tudo na mesma
nas esquinas, porões, grades

dentro da concha, o mar
na semente, uma floresta

as asas dos insetos se debatem
em palmas ao sem-fim

nós, em meio aos escombros e afetos
pegamos vassouras, vasilhas, tetos

nos habitam lídices, drésdens
do caos, imensas catedrais.

GALERIA: SANTIAGO CARUSO (II)


UM POEMA DE JONATAS ONOFRE


TUMBEIROS

I
As horas se dissolverão
depois da linha do equador.
Num desvão soturno
olhos velam a espera.

II
A carne cala o corte.
Tantas mãos afagando
navalhas, no porão,
antes da âncora e do archote.

III
Indiferente ao traçado
de paralelos e meridianos
sobre a carta. O corpo singra
e sonha o dia da cova exata.

IV

Acender-se dói.
E eles com a treva costurada
ao corpo tendo que descoser-se
ao sol cru do porto.

(Leia mais poemas de Jonatas Onofre na Zunái, http://www.revistazunai.com/poemas/jonatas_onofre.htm)

GALERIA: SANTIAGO CARUSO (I)



sexta-feira, 20 de abril de 2012

UM POEMA DE ROBERTA TOSTES DANIEL

AINDA

No silêncio: compasso de solidão.

Depois que a música (me) acaba,

Fazer o sem-lugar onde desvio

Linguagem e desejo.

Fremir de ondas

Entre mim e canção,

Escrever as pausas de outra:

Mais sutil, de sombra.

O que eu não toco: pertença minha

(toda escuta, posse).

Onde não sou e não tenho;

Até que ouço, simplesmente.

Presa por vontade

De escutar o que é livre:

O inalcançável movimento

Do mar -

O chamado:

Palavras instigando ondas.

Ouvir o tempo insondável

No mesmo silêncio de corredores e sótãos.

Menina, lia. Escutava Quintana

Onde todas as canções comandam a nau

Apinhada de meninos mortos.

Terrível-suave.

E virgem. O silêncio virgem.

Ocupá-lo com desejo e memória,

Violentá-lo. Se tento calar,

Bebo o tempo: nau frágil.

Um ponto afogado e luminoso da escada,

Perto do peito: o porão do prédio.

Sou eu, um barco ainda ouvindo em segredo.

Degredada em sombra.

Um buraco de luz; deixada pela canção

E pelas brechas nos tijolos.

Abri a porta para o vazio.

Veio a rebentação. Nem perto o mar.

Os vizinhos não sabem; suas casas quando acendem;

Luzes me arrebentam faróis no peito.

As cortinas me abrem. Não saí do quarto.

Tudo veio à voz, depois da voz, minha voz sibilante.

O corredor ainda grande.

Meu sem-lugar: linha do tempo.

Tento uma ausência. Tudo lembrando.

Imagens correm, três delas, ardendo.

O novo. Arrebenta o novo. Oscilações de novo.

Até mesmo no fogo. Tudo são águas.

É um estar-se preso, realmente

(como no amor).

Quem ouve o silêncio, sem fim,

Devorando quem canta,

Move o sagrado, morre em mim.

Não só leveza. Todo instante é um corte,

Toda delicadeza funda o sal na voz

E um corte sempre fala ao dentro.

Arde o vigoroso.

A carne não é rente;

Requentada no sangue, vem antes

(na alma do que não fomos).

Nos afogamos.

A palavra, aprende:

Vai fracassar.

Como a música, seu fim.

Um tempo de mortes, no sempre.

Mas não enquanto:

O canto.

(Leiam mais poemas da autora na Zunái, em http://www.revistazunai.com/poemas/roberta_tostes_daniel.htm)

UM POEMA DE DIOGO CARDOSO


SETE MICROCANTOS OU BILHETES PARA AUTO-EXÍLIO


I

marechal – centro. vias de pelica

onde nossos pés acreditavam o poema.

nos mentia o lugar

que se falsava acontecimento

II

(era placenta seca o que pisávamos)

III

ruas fendidas, sondadas no enigma

que se nos desfaziam

– habitávamos em silêncio

no que hoje nos tecemos juntos

IV

renda expurgada de seu líquido,

sêmen oco que nos desalojava

gota-a-gota

V

(em você foi primeira a coragem de existir

para fora desse centro estéril, onde

– EM VERDADE –

o poema era acontecimento em nós)

VI

somos abortos, bia, desse ventre árido:

praças de areia, luzes diáfanas,

escombros de casa – que desabitamos. existimos

VII

num lugar espaço

aberto entre

o abraço e o infinito

(Leiam mais poemas do autor na Zunái, na página http://www.revistazunai.com/poemas/diogo_cardoso.htm)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

UM POEMA DE DANIEL FARIA

NADA DEMAIS
(poema em 3 fases)

Primeira fase


As pessoas não
Estão dormindo.
A praça, simplesmente,
Está vazia.

O eco da música
Perdida
Não se esconde no inconsciente
Das pedras – o silêncio
É,

Só isso.

Segunda fase


É do espelho retrovisor
Que entrevejo a praça,

No vazio
Um girassol (anjo)
Perdido
No meio do concreto, ali
Não está, na superfície
Mineral do espelho, aqui
Onde espelho está –
Na alma da praça.

Terceira fase


Inverificável:

A matéria-prima do girassol
É o espelho, mas o girassol
Não está no espelho – o girassol
É,

No espelho. Só isso.

(Leiam mais poemas do autor na Zunái, na página http://www.revistazunai.com/poemas/daniel_faria.htm)

UM POEMA DE MARCELI ANDRESA BECKER

morrer é o mais pornográfico.

rolos e rolos de


papel-filme,


(sob a tela o pontilhado cru

das sobrecoxas).


o sexo, a pele,

porque


perfurá-la.


filmar entranhas que se

consomem.


zoom, zoom,

"mais perto!",


cantam as putas,

obsessiva,


desesperadamente,

por dentro


do motor das suas barrigas.


noite, o sobe e desce prodigioso

dos pistões.


noite, a graxa menstrual.


cruzamo-nos: tantos viadutos,

uma esteira de


aviário


ao estilo niemeyer.

o sonho


de levantar voo, mas o peso,

mas a crista,


mas o tempo guilhotínico.

setor de cortes.


porque a morte é a pornografia

irreversível.


o sexo, a sexautópsia

appeal.


porque os pés-

(um fetiche)


de-galinha do rosto dos mortos,

os boeings


noturnos, aerocloacais,

uma esteira


cujas malas são os ovos zi-

góticos


das putas.


(seus mil e um abortos):

setor de frios.

(Leiam mais poemas da autora na Zunái, em http://www.revistazunai.com/poemas/marceli_andresa_becker1.htm)

terça-feira, 17 de abril de 2012

DANIELA MERCURY: POR FAVOR, NÃO CANTE EM ISRAEL!














A cantora Daniela Mercury tem um show agendado para o dia 15 de maio no White City Music Festival de Telavive, em Israel.

A campanha para o boicote acadêmico e cultural contra o regime sionista (PACBI) apela à artista para que ela não cante em Israel, juntando-se assim a muitos artistas internacionais que não querem ser cúmplices da política de ocupação da Palestina.

Nós também podemos contribuir para mais uma vitória da campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) pelo isolamento de Israel e o fim do regime segregacionista.

Ela funcionou na África do Sul e pode funcionar em Israel.

Escrevam para Daniela Mercury, solicitando a ela que cancele o show em protesto contra as atrocidades sionistas. Enviem junto algum link sobre as violações de direitos humanos em Israel.

Contatos da Daniela Mercury: Rua São Paulo, 325 / Bairro: Pituba, Salvador - Bahia
Tel: (71) 2109-5555

Assessoria:
fabiana@cantodacidade.com.
br / wendy@cantodacidade.com.br

A POESIA EM REVISTA

Debate com Edson Cruz, Victor Del Franco e Ademir Demarchi sobre a edição de revistas literárias no Brasil. Lançamento das revistas Babel, Celuzlose e Musa Rara e dos livros de poesia Tambores pra N'zinga, de Nina Rizzi, EsfingE, de Victor Del Franco, Pele & Osso, de Neuzza Pinheiro, e Pirão de sereia, de Ademir Demarchi Entrada franca - sem necessidade de inscrição, nem retirada de ingressos.

Praça Mário Chamie (Bibliotecas) do Centro Cultural São Paulo.

Rua Vergueiro, n.1.000, próximo à estação de metrô.

Dia 25/04/2012, quarta-feira, das 19h30 às 22h

domingo, 15 de abril de 2012

ZUNÁI DE ABRIL ESTÁ ON LINE!


















ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES


Ano VII, edição XXIV, abril de 2012


El mar, las nubes, los enigmas y los prodigios: Paulo Leminski em espanhol

O poeta e duas facas: uma entrevista com Armando Freitas Filho

Uma poética de distinta liga de aço – ensaio sobre Augusto de Campos

Roça Barroca: poemas de Josely Vianna Baptista

A luz nadadora: 9 poetas catalães contemporâneos

Catecismo da beleza, Augusto Roa Bastos

Prosa: três contos de Luiz Braz

Galeria: exposição de Raquel Santana

Opinião: Cadernos da Palestina

Novos poetas brasileiros: Diogo Costa, Daniel Faria, Maiara Gouveia, Roberta Tostes Daniel, Jonatas Onofre, Andréia Carvalho, Samantha Abreu, Alexandre Guarnieri, Bianca Lafroy, Leonardo Chioda, Roberta Ferraz, Érica Zíngano, Renata Huber


Zunái, Revista de Poesia & Debates: www.revistazunai.com.

Preço: Inefável; inconcebível.

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).