quinta-feira, 18 de março de 2021

POÉTICAS ORIENTAIS


 









UMA VIAGEM PELA POESIA DA ÍNDIA, CHINA, COREIA E JAPÃO.

Esta é a proposta do curso POÉTICAS ORIENTAIS, ministrado por Claudio Daniel, que acontecerá a partir do dia 13 de abril. Todas as aulas serão online, realizadas via Google Meet, sempre às terças-feiras, no horário das 20h às 21h30, e incluem apostilas e bibliografia.. Durante os encontros, com duração de um semestre, serão discutidos temas como as bases filosóficas da poesia e da arte orientais – hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo, xintoísmo --, temas e formas poéticas praticadas em cada uma dessas literaturas, seus autores e obras principais, com a leitura de traduções poéticas feitas a partir dos textos originais por especialistas renomados e obras teóricas de apoio. Se você quiser fazer a sua inscrição para participar do curso ou obter mais informações, basta escrever para o professor Claudio Daniel pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

REBELDES & MALDITOS

 











Em março, no curso online REBELLDES & MALDITOS, ministrado por Claudio Daniel, estudaremos a poesia de Antonin Artaud e Henri Michaux. Nos meses seguintes, estudaremos poetas como Gregory Corso, Allen Ginsberg, Torquato Neto, Bertolt Brecht, Cruz e Sousa, Yi Sáng e muitos outros. Quem tiver interesse em participar, pode falar comigo, pelo Messenger ou pelo e-mail claudio.dan@gmail.com. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

PROSA AOS SÁBADOS

 









CURSO DE PROSA NARRATIVA. Querid@s, a partir de 20 de fevereiro, darei aulas on line aos sábados, das 15h às 16h30, sobre textos de Franz Kafka, Machado de Assis, Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros autores. Quem tiver interesse em se inscrever ou obter mais informações, pode me escrever pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

ROMANCEIRO DE DONA VIRGO (FRAGMENTO)

 










(Ária de Wolfram)


     Tudo é um livro de viagens. Com fotografias de meninos e cavalos-marinhos, pássaros e pianos, garrafas de cerveja e pincéis. Sempre é possível, no pequeno barracão de feira, brincar de marinheiro e esgrimista. Tatuar o torso da formiga ou masturbar-se em jornais velhos. Assobiar outro noturno de Chopin. Incendiar uma lágrima. Jardins e camaleões, pérolas e madrepérolas, tudo são palavras secretas. Vivemos na encantação.      Somos todos peles-vermelhas, girafas sonâmbulas, relógios mecânicos, vagões de metrô. Quando eu era adolescente, tracei com o canivete círculos na face. O meu nome então era “Eu Sou o Enforcado”. Usava brincos de ouro nas orelhas e um lenço vermelho sobre a testa. Gostava de calças velhas, blusões de couro e pesados coturnos. Amava fantasiar-me de cigano, bucaneiro ou tuaregue. Papai não gostava. Implicava com os meus disfarces. Com o tempo, cansei de imitar esqueletos e motociclistas. Quis ser paisagens. Fiz-me deserto e iceberg, aurora boreal e piscina selvagem. Certa vez, pintei o rosto de azul e raspei as sobrancelhas. Queria me vestir de “O Mais Profundo Céu”. Papai não gostou nem um pouco.      Ele, que era um diploma afogado em uísque com sorriso de impecável lagartixa e um relógio de pulso derretido dentro do crânio. Gárgula com frio suor de réptil esmeraldino, papai invocou desolados cenários bíblicos, a foto de mamãe amarelada na gaveta fúnebre. Ouvi sua voz de tenor enlouquecido, voz de galo azul e alvorada, e senti o peso de sua pata de urso em minhas costas de galápago. Depois, o telefone trouxe o carro que me levou a um lugar branco com  flores do campo, cheiro de iodo e novelas de Franz Kafka. Fui levado a um quarto escuro onde caras fodidos como lutadores de jiu-jítsu me espetaram com seringas e alfinetes de cenobita. Eles queriam que eu fosse um roteiro previsível de melodrama, com sorriso de plástico e girassol enfiado na lapela do paletó sombrio. Sim, eles eram nigromantes e queriam transmutar-me em orquídea, em peixe ornamental de restaurante japonês com afiladas barbatanas. Eles me trancaram na jaula de um navio holandês no mar imóvel de uma noite africana. Tatuaram meus olhos com escunas e cetáceos e ataram meus punhos com as tripas de um leão. Fumaram havanas e apagaram os tocos em meu tronco, incêndio de pequenos sóis, inscrições nas corcovas do camelo. Unhas manchadas de preto, boca lacerada e tez amarela de defunto, juntei meus ossos e nervos e costurei com a pele da raposa. Dor metalizada em touro, setas cravadas nas costas, escavei o chão com as patas e o focinho, híbrido animal de pequenos olhos vermelhos.     Assim o tempo vertical de um verde escuro, sinistra arquitetura de braços fluidos que cresciam nos lençóis e agarravam os meus pés. Vozes ruivas de esfinges e medusas me curravam com cápsulas e haldol, eu era o zumbi da orquestra noturna de espectros e mongóis. Urrava o azul de minha boca, riscava os pulsos com lascas de vidro e arranhava as paredes do crânio em formol. Então, Ela, a Menina da Fronteira, sorriu para mim com o desenho de figuras espiraladas em seus lábios, e ouvi sua voz de taumaturga. Havia uma porta atrás do espelho, com um corredor de mãos que puxavam meus cabelos. Segurei firme a ventosa e bebi a última gota. Conversei com os mortos, como se fossem vivos, e aceitei sua versão dos fatos. Fiz-me coisa entre coisas, sombra entre muitas sombras. Menti acreditar no que mentiam. Fingi ser um boneco mecânico, até ser declarado são. Agora, eles não podem mais me machucar. Certo dia, acordei na manhã esquálida, escovei os cabelos molhados e vesti a camisa dos humanos. Ela, a Menina da Fronteira, ainda estava sorrindo para mim quando papai assinou a folha do cheque antes de levar-me de volta para casa. Cinco anos se passaram, levei comigo algumas cicatrizes e o Livro de Sonhos com as páginas em espiral borrifadas de estrelas.


      — Estou tentando, estou tentando entender, ela respondeu com a pele e a voz, em timbre vegetal, escuro, quase mudo.


(Fragmento do conto Fantasmas não bebem coca-cola, de Claudio Daniel)

domingo, 24 de janeiro de 2021

CENSURA NO FACEBOOK

 Estou bloqueado por uma semana no Facebook, rede social de propriedade do sionista norte-americano Zuckemberg, por ter publicado uma foto de Francesca Woodman, que supostamente viola os "padrões da comunidade" por causa de seu "conteúdo sexual" (sic). Bela liberdade, essa do capitalismo...  

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

INFERNO BRASIL

 

O resultado do segundo turno das eleições municipais de 2020 nas capitais brasileiras aponta para a crise do bolsonarismo, mas também da esquerda institucional brasileira. Este fato merece reflexão. Bolsonaro já cumpriu a missão histórica oferecida a ele pelas elites brasileiras, em especial aquelas ligadas ao oligopólio da mídia, ao latifúndio, à grande indústria e ao capital financeiro:  destruir direitos trabalhistas e previdenciários, precarizar as relações de trabalho, reduzir os investimentos públicos em educação e saúde, retomar a pauta privatista de Collor e FHC, conduzir uma contrarreforma agrária, ampliando as garras do agronegócio em áreas ambientais, reservas indígenas e quilombolas, sem o menor respeito a políticas ambientais, golpear os sindicatos e estigmatizar a esquerda, que assistiu a toda essa tragédia impotente e perplexa, para não dizer acovardada. 

No plano internacional, Bolsonaro submeteu o Brasil aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, reduzindo nosso país à condição de semicolônia, ao mesmo tempo que se aproximou dos governos mais reacionários do mundo, como Hungria, Ucrânia, Arábia Saudita e Israel, com quem compartilha as pautas misóginas, homofóbicas, racistas e o fundamentalismo religioso. Agora, Bolsonaro não é mais útil:  após cumprir o seu papel e destruir o legado de treze anos de governos democrático-populares de Lula e Dilma, sua figura caricata já não é necessária: ele afasta investidores internacionais, cria tensões desnecessárias com o novo governo norte-americano e com a China e faz do Brasil motivo de piada mundial. A burguesia colocou em curso, nessas eleições, fortemente influenciadas pela mídia, a transição de poder da extrema-direita para a direita: Bolsonaro perdeu em quase todas as capitais, ao passo que partidos burgueses como o MDB, PSDB, DEM, PDT e PSB ganharam poder e capital político para as eleições presidenciais de 2022, em que figuras apresentadas como "liberais” ou “moderadas”, como Luciano Huck, poderão conduzir um bolsonarismo econômico sem Bolsonaro. 

A esquerda, por sua vez, sofreu uma derrota histórica, fragmentou-se ainda mais e dificilmente estará unida nas próximas eleições. O PCdoB, que perdeu as eleições em Porto Alegre, aposta todas as suas fichas na aliança com partidos burgueses como o PDT e o PSB, sobretudo nos estados do Nordeste, contentando-se com cargos de segundo e terceiro escalão, em nome de uma suposta “frente popular e democrática”, que provavelmente lançará a candidatura do oportunista Ciro Gomes em 2022; o PSOL, apesar de ter marchado junto com o PT em Belém, deve aumentar o seu antipetismo, motivado pelo bom desempenho de Guilherme Boulos em São Paulo, acreditando que dessa forma poderá substituir o PT como principal partido de esquerda no país – política cega e sectária que apenas levará mais água para o moinho da direita; e o PT, embora continue a ser o maior partido político do país em número de filiados, teve a sua influência política seriamente golpeada e se encontra cada vez mais isolado, sobretudo pela forte campanha midiática dirigida contra esse partido desde as falsas acusações do “mensalão” até o golpe de estado de 2016 e a prisão de Lula. O partido precisa se reinventar, a partir das lutas sociais, para voltar a ocupar o seu papel de protagonista no cenário político. 

A perspectiva de curto e médio prazo parece ser a de fortalecimento das políticas neoliberais e aprofundamento da miséria e da destruição da democracia e dos direitos sociais no Brasil. Neste quadro sombrio em que vivemos, uma tarefa é imprescindível: a reconstrução do Partido Comunista, sob a hegemonia do marxismo-leninismo revolucionário.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

OS TAMBORES POÉTICOS DE JOSÉ COUTO


Claudio Daniel


O poeta gaúcho José Couto, autor de livros como A impermanência da escrita (2010, O soneto de Pandora (2017) e O unicórnio do sul e outras lendas poéticas (2019), desenvolve uma interessante pesquisa intersemiótica, envolvendo os recursos da poesia, pintura, canção popular e da animação computadorizada, para envolver todos os sentidos do leitor. Este trabalho poético, realizado com rigor e sensibilidade, invoca ao mesmo tempo as lendas do folclore brasileiro e da mitologia afrobrasileira, numa valorização de nossaa cultura ancestral, tão ameaçada hoje pelo fundamentalismo político e religioso. Esta recuperação do “arcaico” – que nos faz recordar do conceito de Paul Valéry, que via no poeta alguém muito antigo – não acontece, porém, de maneira ingênua, ao contrário: José Couto incorpora o léxico iorubá aos poemas escritos em português, criando expressivos efeitos sonoros e linguísticos, mantém a sutileza e o tom enigmático dos mitos e nos convida a mergulhar no imaginário coletivo de nossa própria cultura, que tanto tem a dizer à nossa inteligência e sensibilidade. Poeta da melodia e do intelecto, que traz para a poesia a reflexão crítica sobre a realidade brasileira, no momento mais difícil de nossa história, o autor gaúcho recupera o sentido do conceito de logopeia, que segundo Ezra Pound significa a “dança do intelecto entre as palavras”. No caso de José Couto, as palavras-de-axé dançam ao som de batás, os tambores tradicionais da nação iorubá. Vamos ler agora alguns poemas desse autor singular, que se destaca pela originalidade no quadro atual da poesia brasileira:


JAGUNJAGUN DE BALÒGUN


jagunjagun de balògun

dançavam o èrúbo


bájà, edún

ija káwó


guerreiros de ifá

saúdam korin kunle


guerreiros de xangô

exaltam òsè ida-oba


a figa lá de olodê

soprou si ori xirê


a estrela lá de ìgamolè

é nosso ìmalè é nosso ìmalè


BENFAZEJA


reza das ajés

iá mi oxorongá

com folhas

da palmeira do dendê

raminho de alegrim

tira do meu peito enxovalhado

quebranto cobreiro

mau-olhado

espinhela caída

vento virado

choro cifrado


beba da água da cachoeira

antes de entrar na casa de oxalá

plante a espada de ógun

se deseja saudar xangô


colha a folha de iróko

depois da lua prateada

ofereça ainda orvalhada

pra nanã euá orunmilá


reza das ajés

com folhas maceradas

mutamba rama de leite

malmequer bravo

arruda e noz de obi


esfrega nas costas

corta na raíz

os pés descalços

guiné orô orim-rim


BOI BARROSO


meu boi barroso

meu boi araçá

tua carroça de palha

tá cheia dos butiás


adeus arambaré barra do ribeiro

tapes e outras trilhas

vou pelo atalho olhar o mar

se me perder


tava relendo cobra norato

lendas do sul

grande sertão

pé de pilão

batata cozida, mingau de cará


se o minuano não assoviar

se o boi barroso da cara preta

não tropeçar na capivara


pé dentro pé fora

digo adeus e noves fora


O AMOR É AZUL, SEGUNDO A TARDE

para Lázara Papandrea


aqueles seus versos

escritos sobre as águas

pela menina

nas nascentes dos rios

desaguaram

suas imagens

e infinitas transparências

na imprecisa manhã

que se insinuou


com as mãos em concha

bebi de tua paz reverberada

nas entrelinhas dos poemas


lavei o rosto dos excessos

e um silêncio ensurdecedor

e desmesurado

derramou em meu peito

uma vertente fugaz


capaz de recolher do vento

e do amor segundo a tarde


algo assim como pássaros azuis

habitantes desse livro

para presentear desconcertante

leitores desavisados


MÁQUINA DO MUNDO


nada se compara a esse entardecer

a lágrima do sol avermelha o rio

sem culpas esculpe desejos no silêncio


mas quem verdadeiramente se importa?


e no entanto essa beleza impregna de avessos

a delicadeza que finda na luz que se despede


tão pouco ofereceu esse dia que parte

talvez um minúsculo fragmento de folha

sendo levada sem rumo

pousou seu desvelo aos meus pés

e depois partiu em frêmito alucinante


mas quem verdadeiramente se importa?


entretanto agora nesse porto

esvaziado de opacidades

desprende cheiros familiares

algo não tangível

porém me escapa seu sentido

se há algum

transborda preso na garganta

do tamanho de um navio atravessado


mas verdadeiramente

alguém se importa?


a escuridão chega

e nos abraça implacável

vislumbro longe

às fragilidades que o mundo sussurra


despido do tempo que o dia me furtou

reparo nas indeléveis cicatrizes

que os cravos dilaceraram no centro das mãos


e nesse exato instante

revela-se a epifania das infinitudes

perfumes óleos avelãs

a mirra o incenso e o indecifrável


subitamente desaguam

desconcertantes


acendo o último cigarro

caminho sobre às águas turvas

anoitecidas sem compaixão


na margem orixás

babalorixás me saúdam

homens e mulheres registram nos celulares

ambulantes oferecem bugigangas


todos aguardam


antes de tocar as pontas dos dedos

na pele úmida do afluxo


uma esfera esdrúxula

circunspecta drummondiana

de cor incerta

emite permanentemente

um mantra stotram

cruza o céu de ponta a ponta

em porto alegre


mas me diga leitor

quem verdadeiramente se importa?


O CARBONO TRANSLÚCIDO


I


só eu vi

luzes turvas do alumbramento

nas dissonâncias

do desamor-imperfeito


só eu li

o sol dentro do verso

fragmentar cristais límpidos

desejos transformados em náufraga


 só eu revivi

a desolada alma do pássaro

gerar a desordem

o poema decifrar o vórtice

desencadear fragrâncias

amorosidade equilibrista


 só eu concluí

escrita extensíssima de ecos

diamante raro lapidado

essência vaporosa da lágrima

frêmito da navalha no lábio

vertendo luz na palavra indizível

revelações materializadas

nas entrelinhas pontiagudas


II


linguagem: abismos dos avessos

forjando inesperadas trilhas

vestígios de nuvens

sussurrando dentro

caos da paixão

amplidões, ressignificados

lapidados, reinventados

tatuados no que nos tocou

profundamente e permaneceu


 alucinando perplexidades

desconcertando sentidos

dissolvendo epifanias

dissipando sobras

encurralando no canto

do mais intrincado labirinto

o leitor vencido, submerso 


sábado, 10 de outubro de 2020

ESCOLA DE ESCRITA CRIATIVA

EM NOVEMBRO, A ESCOLA DE ESCRITA CRIATIVA iniciará um novo curso on line aos sábados, das 15h às 16h, ministrado por Claudio Daniel, sobre a prosa de ficção. Serão apresentados conceitos e processos criativos relacionados com o conto, a novela e o romance, além da leitura e discussão de textos de autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Kafka, Júlio Cortázar, entre outros. O curso, que incluirá ainda a análise de textos produzidos pelos alunos e sugestões de como publicar e divulgar um livro de ficção, terá a duração de dois meses e a mensalidade será de R$ 60,00. Interessados podem se inscrever ou solicitar mais informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.

domingo, 20 de setembro de 2020

O VOO DA GARÇA VERMELHA












Claudio Daniel

Daniela Pace Devisate desenvolve uma poética da brevidade, com delicada imagética, fluência melódica e sabor oriental, que revela suas leituras de poetas como o japonês Matsuo Bashô e do persa Omar Kahayyam, que cantaram a beleza e a fugacidade do amor e dos fenômenos da natureza. Assim, lemos na quadra Voa, garça vermelha, quase um flash fotográfico ou plano-detalhe de um filme de Akira Kurosawa: “ops, erro / voa uma garça / no quimono vermelho / da deusa do Sol”, em que o uso da interjeição no verso inicial adiciona à imagem um sentido de percepção de falha, engano ou indiscrição involuntária, ao mesmo tempo que permite um leve toque de humor. Em outra peça, intitulada Orquestra, ela escreve: “Astuta, a lua / tramava a móvel partitura / ela / maestrina de sapos / convidava os músicos cegos / e crianças / para o seu coral”. Neste minipoema, de sete linhas curtas, Daniela cria imagens inusitadas, como a da “maestrina de sapos”, epíteto para a sua lua de prosopopeia, e imagina um onírico coro de vozes da natureza, acompanhado por uma orquestra de câmara formada por crianças e músicos cegos.  Em Faana, composição de sabor persa, em que a autora cria uma deliberada ambiguidade entre o amor erótico e o amor espiritual – tema recorrente entre os autores sufis, como Rumi e Attar – conforme leremos a seguir:


FANAA

Mais além dos rostos

na meia noite transcendente

onde os nomes flutuam

como lótus num lago

após serem unificados

no fogo de dor e amor:

um fogo alvo

fogueira de lírios que se dissolvem

no Oceano de Perfumes


composição que recorda outra gravura poética de Daniela, que utiliza símbolos e imagens próprios do imaginário dervixe, apresentado em livros como A linguagem dos pássaros e o Masnavi:


GAZAL DO VINHO RUBI


Há uma gazela ferida

no Bosque do Amor.

Dentro da longa noite,

sob uma lua em foice,

o caçador arrependido

bebe do seu sangue precioso

e embriaga-se.

Então, as portas do céu

se abrem de par em par,

e em seus olhos,

como em dois lagos,

se espelha o Paraíso.


O sufismo, corrente místico-devocional do Islã, assim como o Bakhti-Yoga dos vaishnavas hindus, representa o amor espiritual utilizando-se de referências humanas, como os jogos de sedução, a embriaguez com o vinho, o sofrimento causado pela separação do amado e outros tópicos presentes na poesia, na pintura e em canções tradicionais. Na poesia de Daniela, temos uma inversão da equação metafísica, em que os elementos pictóricos da arte sagrada são trazidos para representar o amor humano, demasiado humano. Assim, por exemplo, nestes dois poemas, em que encontramos ainda a amarga ironia de “nosso encontro eterno / adiado por engano”:


* * *

Somos

estrelas errantes

emaranhadas

de carne perecível

com flores no peito

que desabrocham

dolorosamente

gloriosamente

enquanto

a ária dos pássaros

distrai a aridez

da fome

e aguardamos a noite

essa espécie

de abrigo provisório

porque a vida

é uma coisa muito precária


* * *


Oh amado

como anseio

teu rosto reluzente

camuflado

nas coisas do mundo

nuvens irisadas

se precipitarão

em chuva

que se mistura à saliva

no céu da minha boca

enquanto você acende estrelas

nas palmas

das minhas mãos noturnas

vê esses sinais?

aqui está marcado

nosso encontro eterno

adiado por engano

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

BREVES APONTAMENTOS SOBRE O MARXISMO NO SÉCULO 21, PARTE 2

 

Claudio Daniel

Após o golpe de estado de 2016, que derrubou a presidenta legítima do Brasil, Dilma Rousseff, eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foram aprovadas uma série de medidas no Congresso Nacional que retiram direitos do povo brasileiro, como a reforma trabalhista, que permite aos empresários contratar trabalhadores sem pagar o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), férias, licença-maternidade e outros benefícios garantidos na Constituição, e a reforma previdenciária, que aumenta o tempo de contribuição de homens e mulheres para a aposentadoria, desprezando o fato de que, sobretudo no campo, muitos trabalhadores morrem antes de completarem 60 anos de idade. Os governos reacionários de Michel Temer e Jair Bolsonaro (este último, de extrema-direita, eleito a partir de fake news divulgadas nas redes sociais, financiadas por grandes empresários brasileiros) aprovaram diversos outros projetos contra os interesses dos trabalhadores, como o fim do imposto sindical, para enfraquecer as centrais sindicais, a redução das investigações da Polícia Federal sobre casos de trabalho escravo no campo, a redução do valor do salário mínimo, o incentivo à terceirização e precarização dos postos de trabalho, diminuindo o número de empregados registrados com carteira assinada, as ações violentas da Polícia Militar contra assentamentos de trabalhadores rurais sem terras, o congelamento dos investimentos públicos em saúde e educação por 25 anos, o fim de programas como o Ciência sem Fronteiras, que permitia a jovens brasileiros cursarem o mestrado e doutorado no exterior custeados pelo estado, entre muitas outras ações. Todo esse programa antioperário e antipopular é coerente com um modelo econômico neoliberal e entreguista, que alia o fim dos direitos trabalhistas e sociais às privatizações de bancos públicos e outras empresas estatais e à entrega de nossas riquezas naturais, como os campos de pré-sal, minas de nióbio e áreas da Amazônia ao grande capital internacional, sobretudo o norte-americano. Todos esses interesses – dos grandes empresários urbanos, latifundiários, banqueiros e investidores internacionais – estavam por trás do golpe de estado contra a presidenta Dilma Rousseff, o maior ataque contra os direitos dos trabalhadores e o regime democrático em toda a história do Brasil e atualizam o conceito de luta de classes, introduzido na ciência política por Marx e Engels.

No Manifesto Comunista, os fundadores do socialismo científico escrevem:.   

“A história de toda sociedade até nossos dias é a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre e oficial, em suma, opressores e oprimidos sempre estiveram em constante oposição; empenhados numa luta sem trégua, ora velada, ora aberta, luta que a cada etapa conduziu a uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou ao aniquilamento das duas classes em conflito. (...) A sociedade burguesa moderna, oriunda do esfacelamento da sociedade feudal, não suprimiu a oposição de classes. Limitou-se a substituir as antigas classes por novas classes, por novas condições de opressão, por novas formas de luta. O que distingue nossa época – a época da burguesia – é ter simplificado a oposição de classes. Cada vez mais, a sociedade inteira divide-se em dois grandes blocos inimigos, em duas grandes classes que se enfrentam diretamente, a burguesia e o proletariado. (...) O desenvolvimento da burguesia, isto é, do capital, corresponde, na mesma proporção, ao desenvolvimento do proletariado, da classe dos operários modernos que só sobrevivem à medida que encontram trabalho, e só encontram trabalho à medida que seu trabalho aumenta o capital. Esses operários, compelidos a venderem-se a retalho, são uma mercadoria como qualquer outro artigo do comércio e, portanto, são igualmente sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as flutuações do mercado. (...) Ora, o preço de uma mercadoria – e, portanto, também do trabalho – é igual a seus custos de produção. Por conseguinte, à medida que o trabalho se torna mais repugnante, o salário decresce. (...) O trabalho industrial moderno, a submissão moderna ao capital, que é a mesma na Inglaterra e na França, na América e na Alemanha – despojaram-no de todo caráter nacional. As leis, a moral, a religião, são, para ele, meros preconceitos burgueses por intermédio dos quais camuflam tantos outros interesses burgueses. (...) O proletariado, a camada mais baixa da sociedade atual, não pode erguer-se, recuperar-se, sem estilhaçar toda a superestrutura de estratos que constituem a sociedade oficial. (...) A burguesia produz, acima de tudo, seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inelutáveis.”

A luta de classes não deixou de existir na era da “pós-modernidade”, da globalização e da Indústria 4.0.

Pelo contrário, nunca foi tão intensa como hoje, embora as formas de exploração da classe trabalhadora sejam mais diversificadas do que na época de Marx, não acontecendo apenas pela obtenção da mais-valia nos parques industriais, mas também pela exploração do trabalho de “empreendedores”, “terceirizados” e outros setores informais ligados à prestação de serviços que não trabalham em fábricas, não produzem mercadorias, não integram a classe operária tal como Marx compreendia esse conceito, muitos deles realizam o seu trabalho isoladamente e não em grupo, como os motoboys que entregam pizzas para a classe média, mas ainda assim estão sujeitos a jornadas de trabalho extenuantes, em situação de insegurança e precariedade, recebem baixas remunerações e contribuem para o enriquecimento de nossas elites, cada vez mais desumanas.

Por outro lado, os trabalhadores não deixaram de lutar contra as injustiças e em defesa de uma nova ordem social, inclusive pela via da luta armada, como acontece ainda agora nas guerras populares em curso na Colômbia, Índia, Filipinas e, em menor grau, no Peru, Turquia e outros países, bem como nos movimentos sociais que se desenvolvem na Venezuela, Bolívia, Argentina, Brasil e outras nações latino-americanas, que defendem pautas como a luta contra o latifúndio e pela reforma agrária, a nacionalização do petróleo e outras riquezas naturais, a unidade latino-americana contra o imperialismo norte-americano, entre outros pontos avançados.

A luta de classes apenas atualizou-se, se vocês preferirem, podem chamá-la agora de klassenkampf 4.0.    

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

BREVES APONTAMENTOS SOBRE O MARXISMO NO SÉCULO 21 (Parte 1)

 











Claudio Daniel

 

Um fantasma ronda o mundo: o espectro da morte do comunismo, anunciada quase todos os dias pelos meios de comunicação social, personalidades do meio acadêmico, artístico e intelectual, políticos conservadores, celebridades do cinema, da moda, do esporte e outros formadores de opinião. Esta nota fúnebre é anunciada com insistência, sobretudo após a dissolução da União Soviética e do campo socialista na Europa Oriental, há mais de três décadas. A insistência na veiculação do necrológio nos faz pensar: por que é necessário repetir, sempre, sempre e sempre, a suposta morte do comunismo? Haverá, talvez, dúvidas a esse respeito entre os que repetem o eterno mantra? Ou eles temem que Marx ressuscite de seu túmulo em Londres e volte a conclamar, agora nas redes sociais: “Trabalhadores de todos os países, uni-vos!”?

O fato é que o discurso conservador ganhou um forte aliado na chamada Quarta Revolução Industrial, ou Indústria 4.0, que criou novos processos de produção em suas “fábricas inteligentes”, que unem a automação e a robótica, que substituem o trabalho humano por dispositivos mecânicos ou eletrônicos, e a internet, que possibilita a comunicação e a cooperação entre diversos setores produtivos em tempo real. Nesta nova etapa do capitalismo, fábricas inteiras trabalham sem a presença de operários, o que eleva o número de desempregados, ou “exército industrial de reserva”, nas palavras de Marx, os custos para a produção de mercadorias são reduzidos e os lucros obtidos pelos capitalistas são muito maiores. A economia globalizada substitui as economias nacionais isoladas e o próprio capital acionário das grandes empresas é cada vez mais transnacional, com a participação ostensiva do capital financeiro internacional. Ou, como diriam Marx e Engels Manifesto Comunista, publicado em 1848: “Pela exploração do mercado mundial, a burguesia tornou cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. (...) A autossuficiência e o isolamento regional e nacional de outrora deram lugar a um intercâmbio generalizado, a uma interdependência geral entre as nações”, conceito que é mais conhecido nos dias atuais como globalização.

Ao mesmo tempo, o neoliberalismo contemporâneo vem realizando, tanto nos países capitalistas desenvolvidos, ou imperialistas, quanto nas semicolônias que fornecem commodities – fontes de energia, como o carvão, o gás e o petróleo, matérias-primas, produtos agrícolas ou pecuários – uma “reengenharia” nas relações de trabalho, revogando conquistas históricas dos trabalhadores, como os direitos trabalhistas e previdenciários, além da privatização ou precarização dos serviços de educação e saúde e dos cortes orçamentários nos programas sociais. No cenário de uma grande cidade como Nova York, Londres ou São Paulo, nos deparamos com uma multidão de trabalhadores terceirizados ou informais, como entregadores de pizza ou motoristas de Uber (chamados, acintosamente, de “empreendedores”), que nada recebem além de  parca remuneração, sempre defasada pelo ciclo inflacionário. Sem dúvida, esta é uma transformação profunda no capitalismo, porém, de modo algum está em contradição com a teoria marxista.

Conforme escrevem Marx e Engels no Manifesto Comunista: “A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção; portanto, as relações de produção; e assim o conjunto das relações sociais. Ao contrário, a manutenção inalterada do antigo modo de produção foi a condição precípua de existência de todas as classes industriais do passado. O revolucionamento permanente da produção, o abalo contínuo de todas as categorias sociais, a insegurança e a agitação sempiternas distinguem a era burguesa de todas as precedentes. (...) Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Basta recordarmos, brevemente, as três revoluções industriais anteriores: a primeira, realizada no século XVIII, com a introdução de máquinas a vapor como fonte de energia, o que beneficiou sobretudo a indústria têxtil; a segunda, realizada entre 1870 e 1914,  com o uso da energia elétrica, a produção em massa nas grandes unidades fabris, como na indústria automobilística, popularizada por Henry Ford, e a introdução do telégrafo e das ferrovias; e a terceira, chamada de “revolução digital”, realizada entre 1950 e 1970, quando aconteceu a mudança de sistemas analógicos e mecânicos para os sistemas digitais. O desenvolvimento da automação, dos computadores e a criação da internet abriram o caminho da terceira para a quarta revolução industrial, na qual os sistemas ciberfísicos combinam o trabalho humano remoto com as tarefas executadas por robôs, sendo a comunicação realizada em tempo real entre todos os agentes participantes da produção. Todo esse desenvolvimento, que nos parece notável, porém, já estava previsto por Marx e Engels, no Manifesto de 1848: “A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta da América. O mercado mundial expandiu prodigiosamente o comércio, a navegação e as comunicações. (...) Portanto, vemos que a burguesia moderna é produto de um longo processo de desenvolvimento, de uma série de profundas transformações no modo de produção e nos meios de comunicação”.

O que vemos hoje no mundo, portanto, não é a negação do marxismo, mas a comprovação de suas leis gerais, como expomos brevemente aqui e seguiremos analisando, nos próximos artigos,.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

O UNIVERSO DE SENSAÇÕES DA PALAVRA POÉTICA

 










A leitura dos poemas de Jade Luísa oferece ao leitor todo um universo de sensações plásticas e musicais, de finíssima sensibilidade. Ela investe na alquimia do verbo, à maneira de Rimbaud, descobrindo as analogias possíveis entre as imagens do mundo objetivo e as de seu mundo pessoal, habitado por uma singular mitologia. É evidente a proximidade de sua poesia com a estética simbolista de autores como Gilka Machado e Ernâni Rosas, e ainda com a de poetas portugueses contemporâneos, como Herberto Helder e Luiza Neto Jorge, mas a poeta e atriz potiguar revela em sua escrita todo um álbum particular de obsessões, em que encontramos imagens poéticas delirantes como “unhas terrosas”, “coxas falantes”, “sibilo verde-âmbar” e “língua do céu”. A intensa sinestesia poética de Jade Luísa convoca os nossos sentidos para uma experiência quase corporal com a palavra, que transpira como a pele ao sol. No poema Broto, dedicado a Jeannette Priolli, por exemplo, ela escreve: “Gritos férteis coagulam / úvula fêmea se rompe / engole pó e antipalavra // O fogo desponta do seio / chifres na boca do sol / cúrcuma tece a espinha / estiagem da língua // No canteiro do estômago / cultiva crisálidas / com a luz de quando abre a boca. // Em tempo de sangrar, vocifera / O que nasce não é palavra / Não é néctar / É lava”. Jade Luísa domina o instrumento poético e sabe urdir estranhas partituras que nos seduzem, aterrorizam e maravilham. Leiam abaixo três poemas da autora:

 

ECO DE LUSCO-FUSCO

 

Escuto a água arranhando o vidro

Suas unhas rascunham calmaria e flores

Esqueço como a água sente a pele

Esqueço como a água rasga a pele

 

Os dias arranham o vidro

Esfolam as flores que a água rascunhou

Dissipam a face que a noite tingiu

 

O fogo a guerra os mortos, já não os sinto

Eles ainda vivem sob os sulcos do asfalto

Mas eu, tingida de noite, esqueço.

 

CONFESSO DEVANEAR-ME NOS SEUS DENTES

 

Então você olha pras minhas maçãs

e sorri quando percebe que elas ardem

até o pé da orelha,

bem no lugar que você beijou antes de me dizer

mariposas e besouros.

 

Não sinto dor agora, apenas

quando eu me deitar sob as coxias do inverno.

Elas protegem minhas orelhas da sua saliva

mesmo quando eu não peço, mesmo

quando meu anseio maior é me

embaraçar no vazio entre a sua gengiva e a sua

orelha.

 

 

SOBRE MULHER GIGANTE AO DESCOBRIR AS GUELRAS

 

Eu navego mas não como marinheiro

sim como sereia

possuo a força das ondas

me arrebatam as ondas

me carregam as marés e navego

em lonjuras leves de espuma

de crista de onda

 

Possuo males e enganos

nunca como homens ou náufragos

eles que têm medo – e organizam simpósios

e enciclopédias de medo

metrificam o medo

ceiam brindam gozam

e celebram o medo

em folhetins em manifestos

em congressos do medo

 

Eu não naufrago – tenho guelras e seios

minha ciência minha arte

meu alimento meu sexo

são ancestrais:

aprendi com a minha mãe

que aprendeu com a mãe dela

que aprendeu com a mãe dela

os segredos da vida e da morte

 

E como sereia ainda me faço feia

bela apenas pra quem me toca

lhes nego então a dor feia dos olhos

a dor das orelhas

a dor dos dentes

e chupo seus dentes, os faço azul

 

Pois como boa sereia, azul e feia

ser meio peixe meio guelras

meio mulher mãe irmã

meio morte meio sexo

inteiro seio, inteiro astro,

inteira cais, farol e seio

para todas as que se tocam nas redes

afogadas de cabelos limpos, pretos e limpos

Rede runa redário vivo

Toda vida rebenta [e morre]

no seio das sereias.

 

 

 

Agora eu falo pelas coxas.

Sigo contando histórias sobre como estou

cega pela luz da sua garganta

surda pelo som do seu tórax

muda pelo eco das suas pupilas

inerte pela lava que escorre das minhas coxas falantes

entoando elegias por detrás do seu pescoço,

como quem enrola a língua ao sussurrar seu nome.

Baixinho, para que só o desejo possa ouvir.

domingo, 23 de agosto de 2020

QUANDO A IMAGEM E A MÚSICA SE FAZEM PENSAMENTO: A POESIA DE LOURENÇA LOU

 


Claudio Daniel


Lourença Lou, poeta mineira, nascida em Belo Horizonte, revela em sua escrita poética uma linguagem substantiva, em tom seco e preciso, mas de alta intensidade emocional, em que ela desenvolve temas relacionados às relações interpessoais, à condição feminina, ao estar no mundo, a situações de poder, ao silêncio, à extinção e ao próprio discurso poético. A poeta utiliza elementos da metáfora, da alegoria, da ironia e do humor cáustico para construir partituras-pinturas do pensamento. Confiram abaixo alguns poemas da autora.


ATO FINAL

quando vieres

ó morte

o que levarei comigo?


talvez um obstinado descaso

pelas falsas carícias da vida

certo estilo no uso

dos saltos a comer calçadas


esta ilimitada admiração

pela coragem de Adélia

no inaudito louvor ao cu

confrontar a moral da igreja

 

me dirás com olhos de brasa:

traga os diários noturnos

que guardam com timidez

a versão de seu sexo felino

 

carregue a áspera meiguice

com que feridas amigas

beijaram-lhe os olhos

deram sentido à sua visão


e esta inveja que te grita

do mais profundo da gaveta

pela rosa de Drummond

e seu amor natural

 

enfim me dirás: esqueça

os cadernos de catecismo

você nunca se preocupou

em fazer malas no dia anterior.

 

 EXPLOSÕES

querem-nos

medo

:

alguma chama

cólera

coração

 

querem-nos 

pausas esparsas

entre risos amarelos

 

embora ignorados

por quem paralisa

nossa respiração

 

ainda podemos provocar

a bomba

que os surpreenderá

 

explosões

transitam em metáforas

da necessária resistência.

 

 CARACÓIS

 a exaurir pensamentos

bebo a noite

em lentos goles de realidade

 

na sem-razão da certeza

ardo estilhaços

do amor onde nunca aportei

 

mergulho em vagas do incorpóreo

e resgato guelras

dos caracóis em que me cultivei.


MURO

sob o esmeril do sol

a caricatura de um homem 

escala o muro


da boca escorre uma baba lassa

no corpo o fardo de seus mil anos 

mal distribuídos na carne desvalida

 

silêncios cochilam na tarde de sábado

um tiro fura a pasmaceira

prega o homem de cara no muro

rigor nos braços

pernas a exaustar o ar

 

mulheres dissimulam medo

crianças arregalam-se 

homens louvam na farda e fuzil

o acato da lei


o amor faltou ao chamado do sábado


no muro o corpo em sangria

como um tiradentes enferrujado

finda a intenção de salvar 

o cão preso nos fios

da garantia do patrimônio


com ganidos de vida partida

um urro de boi no matadouro

alheia-se o sábado de cara no muro.


PERIFÉRICOS

fogos atraídos

pelos estalos da pedra

raios a rabiscar

a mendicidade da rua


vidas a vomitar

enxurradas de delírios

na escuridão

dos estômagos vazios


procissão de mortos vivos

carne rasgada

a percorrer noites em círculos.


DESAGUES

não se desbrava esta mulher

com adornos e vigílias

não se descobre esta mulher

pela atração de seus pecados

não se desveste esta mulher

por seus desagues e fertilidades

precisa-se madurar de vermelho

suas anêmonas e águas vivas

espalhar orgias e espantos e enchentes

nas palpitações de seus lábios todos

amar esta mulher na pungência

e na mística do alimentar de seus seios.


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ADEUS, VICTOR SOSA!



Victor Sosa, poeta uruguaio faleceu no dia 06 de agosto, aos 64 anos de idade, na Cidade do México, onde residia desde 1983. A imprensa noticiou que ele foi vítima de infarto, mas pessoas próximas ao poeta afirmam que ele foi preso e faleceu após poucos dias na prisão, em um caso estranho e ainda não esclarecido. Victor Sosa recebeu o Premio Internacional de Poesía Jaime Sabines em 2012 e era considerado um dos melhores poetas contemporâneos de língua espanhola.


Claudio Daniel


Victor Sosa nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1956 e destacou-se como poeta, ensaísta, tradutor e artista plástico. Lecionou na Universidade Ibero-americana (México), realizou mais de quinze exposições individuais de pintura e colaborou em jornais e revistas literárias. Sua obra poética inclui livros como Sunyata (1992), Gerundio (1996), Decir es Abisínia (2001), Mansión Mabuse (2004), Nagasakipanema (2011), La saga del Sordo (2006), entre outros títulos. Já seus ensaios críticos e teóricos incluem La flecha y el bumerang (1997), El Oriente en la poética de Octavio Paz (2000), El impulso, inflexiones sobre la creación (2001) e Derivas del arte contemporáneo en México (2003). No Brasil, foi publicada uma antologia bilíngue com alguns de seus poemas, intitulada Sunyata e outros poemas (2006), com traduções feitas por mim, em parceria com Luís Roberto Guedes.  Victor Sosa participou de antologias de poesia latino-americana, entre elas Jardim de camaleões – A poesia neobarroca na América Latina (2004), publicada pela editora Iluminuras. Participou de eventos internacionais de poesia em São Paulo, como o Festival Tordesilhas, em 2007 e foi bolsista residente do Programa de Incentivo à Pesquisa e Tradução da Obra de Haroldo de Campos. Victor Sosa também traduziu diversos poetas brasileiros para o espanhol, entre eles João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminsky. Transcrevemos abaixo alguns depoimentos de poetas brasileiros e latino-americanos que conviveram e dialogaram com o autor uruguaio.


"A perda de um poeta tão intenso como Victor Sosa é a perda de um mundo particular, em desenvolvimento, único, paralelo, com reverberações no grande mundo da linguagem, tecida e entretecida por muitos, em vários idiomas - mundo, aliás, muito mais interessante do que essa parca, pobre e absurda realidade a que estamos condenados. Se vai o poeta, mas fica a linguagem que ele erigiu, enquanto houve tempo. Que sua poesia densa, caudalosa, visionária, seja mais traduzida e lida entre nós, brasileiros." 

– Ademir Assunção


“Conheci Víctor pessoalmente em Sampa, num encontro de literatura em 2009. Mas já conhecia o seu trabalho desde que o seu poema Los animales furiosos me apareceu, em 2004, em tradução belíssima do Claudio Daniel. Publicamos imediatamente na revista Oroboro 1, que estávamos iniciando e lembro de ficarmos animados com a coincidência de o poema ter nos chegado às mãos. O poema é admirável, pois Víctor lança mão de sinais gráficos de pontuação (dois pontos, vírgula, ponto e vírgula) para intensificar as presas de animais em fúria. Uma vírgula é também a presa de uma víbora. Depois, generosamente, ele aceitou escrever a apresentação do meu livro Amphibia, que saiu em Portugal, pela Cosmorama, em 2009. Ainda nos conhecíamos à distância, ambos acompanhando o trabalho do outro. Foi por causa destas primeiras trocas que, no encontro em Sampa, quis conhecê-lo pessoalmente e fui assistir a sua participação numa mesa para depois sairmos para jantar. Logo fiquei encantado com sua presença, com sua fala serena, concentrada, consistente e toda construída com gentileza e humildade. Posso dizer, Víctor era foda, muito foda. E ontem, infelizmente, aos 64 anos, ele se foi. Quando soube, a sensação de vazio foi imensa. Fiquei horas em uma pausa dolorosa. Estava de máscara e tive que tirá-la rapidamente para respirar, ganhar fôlego. Hoje acordei pensando nele e quero crer que está conversando uma boa conversa em algum lugar. Víctor foi um grande amigo. Guardarei para sempre em meu coração essa amizade tão linda e produtiva. Evoé, Víctor!

-- Ricardo Corona


“Em princípio, a cada vinte anos, temos uma nova geração. A cada geração, numa dada língua, temos cerca de vinte vozes com uma obra poética única e com características únicas e próprias que distinguem o seu autor e marcam a sua presença como patrimônio, o cânone, o seu tempo, a sua linguagem e a sua país de origem. Neste momento em espanhol e para sua geração e países, neste caso Uruguai e México, Víctor Sosa, o poeta e o crítico estão, a meu ver, entre os escritores de sua geração que garantiram um lugar permanente.”

-- José Kozer (Cuba)


“VICTOR SOSA desenhou novos mapas BARROCOS (extraiu do fundo sombrio as dobras hipnagógicas do APEIRON, os relâmpagos da feitiçaria poética, as almas altivas da animalidade, as enciclopédias caológicas): é um SIGNO de ritmicidades expressionistas, é um atravessamento gerador de tempos crónicos. VICTOR é um MACARÉU afectivo: Victor é um MARACATU que perfura as rebentações de uma VISÃO fora das imagens: VICTOR não é um nome, é um acontecimento indiscernível, é um espírito que impulsiona existências góticas-cristalinas, é um espelhamento rítmico, é uma cartografia do instante da eternidade, é o inconsciente do corpo, é uma cor-da-estranheza que despontou desabaladamente do cubo de Husserl: VICTOR é uma língua do VAZIO que nos arremessa para o impensável e para a perplexidade: VICTOR é uma vidência ritornélica!”

-- Luís Serguilha (Portugal)


“O seu trabalho contundente e de qualidade inequívoca inclui as práticas simultâneas ou entrelaçadas do ensaio, da tradução e da pintura, todas as quais terão de ser editadas brevemente, para podermos apreciar, à luz das novas visitas, as múltiplas linhas de força que constituem a alma integral, mas perturbadora de seu encadeamento. Assim como no encerramento da intensa inconclusão de The Angry Animals, a canção da origem materna é oferecida, talvez tenha provocado a reconciliação do bardo consigo mesmo, agora, no nível tibetano do Bardo, em sua jornada pelos estados intermediários, vamos recitar a Victor os seus próprios versos no ouvido:


Vazio de paz

e não do abismo, cheio

vazio de paz.

Você verá que sim, você verá que

o que acontece aí você pode ver: fechar

agora seus olhos, fechem para dentro

os poros dos olhos e aperte suavemente

cada pálpebra e de repente abra-as com firmeza

como um púbis que abre a puberdade. E aberto


-- Reynaldo Jimenez (Argentina)

VICTOR SOSA E AS FRONTEIRAS QUE A POESIA NÃO CULTIVA

 

Abreu Paxe

O poetamigopoeta Victor Sosa atingiu o Zamini para o construir-mos no Sasa. Entrou na ideia do tempo em constelações. Passa a estar nas textualidades, nos signos, nos afectos. Passa a ser ou talvez a não ser ele mesmo que foi o tradutor das diferentes dimensões que se entrelaçam e entrelaçam a sua poesia e outras formas discursivas praticadas por si e em si.

Isso visa destacar a importância desse conjunto como ideia de tempo, de espiritualidade, de tradição e de experimentações, como se atestam em Sunyata, em Decir es Abisinia e em Animales Furiosos, abordamos um exercício de poesia que nos torna estrangeiros, na aceção em que ele tomava esse nome tanto na sua experiência como Homem/Cidadão, tanto quanto como o criador, o inventor. Suas experimentações poéticas, estas «as indicadas aí em cima» são estendidas aqui ao sol como potência das tramas internas de todos os corpos ocultos, de todas as histórias ocultas, ou observadas, contra as macro revoluções aparentes. Anula-se em si e na sua poesia o princípio de espaço nacional e potencia-se a dos espaços culturais subordinados ao poder não substancial, mas relacional, onde destacamos a ideia de tempo como duração conjugadas no Zamini e no Sasa como imagens fractais de tradução metonimica das metáforas de aproximação e de afatamento. As imagens as experiências na sua obra traduzem Zamini e Sasa que sustentam a noção de tempo-poesia-memoria-espaço como filosofia extraterritorial de vida, em tese segundo Mbiti, o tempo como conceito númerico (calendário) não tem uma grande importância para povos como os africanos, talvez isso sirva também para os indios das Américas, ou para os latino americanos de modo mais expandido, o que conta são os acontecimentos que se realizam na vida. Na obra de Victor Sosa embora não se Conte, percebe-se facilmente que a narrativa da poesia como construtu ficcional está noutra parte e essa outra parte é que talvez chamaríamos de linguagens.

Como já escrevi e outro lugar, o tempo tem duas dimensões: o passado (Zamini) e o presente (Sasa) o futuro é praticamente muito curto e próximo do presente. O conceito em alguns lugares de África de tempo vai no sentido reverso mais para o Zamini do que para frente. Aperecebe-se mais do passado em relação ao que poderá ainda acontecer. Sasa e Zamini sobrepoem-se, no sentido em que Sasa contém em si parte do Zamini. Assim um homem que morre entra no Zamini, mas se os seus ente queridos se recordarem dele, ele continua a fazer parte da familia e fica no Sasa, só em caso de ele ser esquecido completamente é que fica todo ele no Zamini, uma vez que o tempo marcha recuando ele não influência o futuro. Para a nossa compreensão a partir desse lugar também barroco, Victor Sosa, como poeta, traduz-se entre Zamini e Sasa, aí se enraíza e aí se radica e passa a ser experiência evocada. Os símbolos passam a não ser só construções intelectuais, em que o corpo, o oral, o tradicional (africano e pré-colombiano), enredando-se de modo relacional em nossa e sua própria espessa textura proliferante que convida o leitor ao extremo multiplicador e ramificante, portanto não morre porque entra num sistema de tessituras, na constelação com os artefactos por si inventados, construídos, criados e que agora o gerem no sistema geral da cultura.  

Essa abordagem faz-nos compreender a grande importância que o Africano e não só  confere ao passado, pois,  o segredo da vida encontra-se na santidade da atitude e do comportamento dos acestrais. E Victor Sosa o poetamigopoeta não deixou de evocar o passado Ocidente-Europeu, do Oriente entrelaçado em menor ou maior grau com a África. É deste modo que se avivam as memórias que nos administram, como também se pode ler em Sunyata que em sânscrito significa (vazio/ plano), como em Decir es Abisinia que é (abissinia), como avança em entrevista à Zunái “é o território onde Rimboud não escreveu. Esse Homem que buscava uma língua, encontrou na abissínia o silêncio, ou talvez não encontrou nada, mas da mesma forma cessou de escrever. Dizer é impossível, é um deserto, é uma enteléquia, é Abissinia. Porém além dessa impossibilidade e contra essa impossibilidade é preciso dizer, é preciso navegar nesse balbucio, é preciso inventar um mundo no qual no qual permaneça a realidade, embora só permaneçam ruinas, embora só permaneçam palavras”, e nós já sem o ser orgânico, o ser natureza, esse que  transmigrou-se no ser cultura; e, por isso, ele não morre, mas renasce em cada frase, em cada gesto afetivo dos quotidianos em que renasce nos dilatados longes das línguagens de cravo perfumadas e de gengibre, cola e lungwila.               

Ou seja, simbolicamente em Animales Furiosos, se dá a tríade (nascer, crescer, morrer), evidenciam-se as duas noites; a que procede seu nascimento e a da morte.  Essa tríade compõem-se em três movimentos; um mistico, um erótico e um ético, os três interconectam-se, e se confundem e se fudem, tornam-se num só, mas variável, divíduo, portanto fractal na diversidade inclassificável, seguindo uma lógica própria da Filosofia africana do movimento, pré-colonial, assemelha-se a uma lógica própria do mundo digital, em que no fundo se trata de pôr em conexão, em rede e não categorizar, de classificar, de hierarquizar ou limitar o movimento.  Victor Sosa nessa nova configuração que tomou, torna-se no seu próprio centro e, para dissolver, as fronteiras internas que interiorizou contra a sua própria cultura que é do movimento, da relação não intelectual como cifra de uma respiração, de uma pulsão, de uma pulsão de escritura que contém em suas linhas o simbólico e o sintoma , o cifrar-se e o decifrar-se nesse misterioso e complexo jogo entre a vida é a morte, onde a poesia é seguramente a sua matéria, trabalhando a dimensão indivisível entre filosofia e estética em que o investimento no acto criativo, inventivo não chega a ser intelectual.        

As Literaturas como fenomeno social surgiram para fundar os espaços nacionais, ao mesmo tempo que promoveram a exclusão. A ideia de literatura nacional, do ponto de vista cultural, ainda pode nos conduzir a da multiplicação de fronteiras a mesma condição de estrangeiro em que nos remete Victor Sosa. Aquilo que chamariamos ou de Literatura Uruguaia, ou de Literatura Mexicana, ou de Literatura Brasileira aporta no seu seio uma trama de imagens, linguagens e afetos que dificilmente cabem na ideia de território, ou na de um espaço nacional no sentido geográfico como lugar que, de tão autêntico não consente contaminações, ou ainda de reconhecermos nela os lugares daquilo que chamaríamos de “Literaturas no Uruguai, no México, no Brasil”, ou também de um lugar com realidade cultural que se afirma na descontinuidade territorial. Ou melhor, se tomarmos os títulos de seus livros ou o conjunta da sua obra, podemos a partir daí perceber como nos relacionamos e somos tecidos por entrelaçamentos de imagens multiplas e transversais quanto os nossos olhos se podem abrir, os nossos gestos se podem expandir, as nossas vozes se podem alongar. As metaforas de aproximação e de afastamento se evidenciam a partir dos diferentes lugares de onde nos fala de forma relacional, de igual modo, há um desenho metonimico fractal que sustenta seu acto criativo de tessitura barroca.

Guardo em boa medida as energia e os afetos que trocamos, nas suas estadas em São Paulo-Brasil da década que terminou.

 

Abre Paxe, poeta angolano, nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe província do Uíge, Angola. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição. É  membro da União dos Escritores Angolanos (UEA) e venceu o concurso Um Poema para África em 2000. Foi animador do Cacimbo do Poeta na sua 3ª. edição, atividade organizada pela Alliance Française, por ocasião da Dia da África. Figura na Revista Internacional de Poesia "Dimensão n. 30 de 2000, na antologia dedicada à poesia contemporânea de Angola, editada em Uberaba, Brasil. Publicou os livros de poesia A chave no repouso da porta e O vento fede de luz.  No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Zunái (SP), Mallarmargens (PR) e Comunità Italiana (RJ), Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão).  

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