
terça-feira, 30 de junho de 2009
DOIS POEMAS DE MARIANNE MOORE
Visible, invisible,
a fluctuating charm
an amber-tinctured amethyst
inhabits it, your arm
approaches and it opens
and it closes; you had meant
to catch it and it quivers;
you abandon your intent.
ÁGUA-VIVA
Visível, invisível,
um encanto flutuante
uma ametista âmbar-viva
a habita, teu braço
se aproxima e ela abre
e fecha; o pensamento
de agarrá-la e ela estremece;
abandonas teu intento.
ARTHUR MITCHELL
Slim dragonfly toorapid for the eye
to cage —
contagious gem of virtuosity —
make visible, mentality.
Your jewels of mobility
reveal
and veil
a peacock-tail.
ARTHUR MITCHELL
Libélula sutil
rápida demais para o olho
enjaular —
gema contagiosa de virtuosidade —
visibiliza a mentalidade.
Tuas mobilidades de esmeralda
revelam
e velam
pavão e cauda.
Traduções: Augusto de Campos.
(Leiam mais na edição de agosto da Zunái.)
domingo, 28 de junho de 2009
DISTO E DAQUILO
Caros, recebi o livro Lar, de Armando Freitas Filho, recém-publicado pela Companhia das Letras, que estou lendo com satisfação. Ele é um dos poetas que me interessam mais, hoje, pelo sentido construtivo e riqueza de imaginário.
Horácio Costa também publicou dois títulos preciosos: as plaquetes Paisagem II (Demônio Negro) e Quando o meu generoso coração falhar (Arqueria), que reúnem poemas bem recentes, escritos neste ano, e enviados aos amigos por e-mail (incluindo um poema escrito na fila de espera de um hospital de São Paulo).
Horácio, Armando e poucos outros poetas que escrevem hoje são verdadeiros samurais da poesia, que mantêm sempre afiado o fio da espada da linguagem.
Outra coisa: saiu há pouco o n. 19 da revista Coyote, editada por Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes, com boas surpresas, incluindo uma entrevista inédita com o xogum João Cabral de Melo Neto. Leiam mais informações a respeito no Blog da Zunái (confiram na lista de links aí ao lado).
Por falar em Zunái, estou fechando a edição de agosto da revista, que terá colaborações de samurais como Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Wilson Bueno, Leda Tenório da Mota, Aurora Bernardini e um elenco de poetas jovens de primeira linha, como as nukenins Adriana Versiani e Camila Vardarac. Além de um caderno especial com textos e imagens do Artimanhas Poéticas.
Nas horas vagas, releio o imperador Guimarães Rosa: Magma (seu único livro de poemas), Primeiras estórias, Sagarana, Grande Sertão: Veredas... há muitos anos, Rosa é o único prosador que eu sempre releio, com o mesmo prazer da primeira descoberta. Poucas experiências estéticas são comparáveis a esta.
Continuo dando aulas de criação poética no Ateliê do Centro, dentro das atividades do Laboratório de Criação Poética. Haverá novas vagas em julho, quem quiser se inscrever, é só mandar um e-mail para claudio.dan@gmail.com.
Ufa! Que mais?
No dia 15 de julho, farei o lançamento da Fera Bifronte na Livraria da Vila do Itaim, entre as 16 e as 19h, após o debate sobre Filosofia Oriental e Poesia, com a participação do ninja Claudio Willer.
E em outubro haverá nova edição do Artimanhas Poéticas, dessa vez em Adamantina, no interior de São Paulo.
Bem, por ora é isso.
Banzai,
CD
sábado, 27 de junho de 2009
DO POSFÁCIO DE E. M. DE MELO E CASTRO
É o que acontece com os pequenos animais que animam muitos dos poemas de Claudio Daniel, principalmente do livro Pequenas aniquilações, tais como: Formiga, Traça, Pulga, Barata, Piolho. Ou ainda em outros livros, outros animais: Caranguejo, o camelo, o cetáceo, o tigre, o leão, os peixes; ou partes de animais: o olho, a cabeça, a anticabeça, o osso, os seios, e Poros, Cabelos, Unhas, Dentes, Sangue, cuja natureza de feras escritas se comunica a pequenos objetos do quotidiano: Chave de Fenda, Secador de cabelos, Guarda-chuva, Garrafas, Botas de Borracha. Mas também No olho da agulha, ou mesmo na Memória, nas Sex shop, Pet shop e até na Coffee shop… Mas também os lugares referidos (ou feridos?) no livro A Sombra do Leopardo comparecem nos textos dos poemas, não como fatos descritivos mas sim como signos ferozes que remetem o leitor para zonas inesperadas da sua imaginação que poderemos constatar estar contaminada pelo estilema do excesso, característico do Barroco.
Por isso nos vêm à memória os poemas das séries das frutas e das flores de Soror Maria do Céu (1658–1753) notabilíssima poeta do Barroco português e contemporânea da pintora Josefa d’Óbidos, famosa pelas pinturas de frutos e flores que esteticamente correspondem às séries dos poemas de Maria do Céu, tal como foi estudado comparativamente por Ana Hatherly no ensaio As misteriosas portas da ilusão, a propósito do imaginário piedoso em Sóror Maria do Céu Josefa d’Obidos, in Josefa d’Óbidos e o Tempo Barroco, Coordenação de Vítor Serrão, Lisboa, 1993.
A organização de séries temáticas, tais como as já citadas da poesia de Claudio Daniel, mas também as obras com semelhante organização temática, como O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luís Borges, ou As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino (para só dar dois exemplos do século XX), constituem referências inequívocas do ressurgimento de certos aspectos do Barroco a que hoje se chama de Neobarroco, estética esta que, tendo-se iniciado por volta de 1960, pode ser considerada hoje como o denominador comum das diversas manifestações artísticas inventivas contemporâneas."
(Trecho do posfácio de Fera Bifronte, escrito pelo poeta português E. M. de Melo e Castro.)
sexta-feira, 26 de junho de 2009
UM POEMA DA FERA BIFRONTE
I
Fósseis argumentos
Esqueléticas grafias
Autofágica página
Inescrita, devoluta.
*
lepra da língua simulando sêmele.
mão-do-caos
olho-de-treva
um corvo azul irrompe
no poema.
*
Extinção de estrela ou
Mudez do mar.
*
falange deslabiada contradição
entre memória e mundo.
*
Fossem falcões de simetria,
Mas apenas figuras
Espiraladas.
*
palavras desventradas
da cadela, sons fecais
em hinos de desmemória.
*
Pois toda história humana
É um volume fechado
De cíclica desleitura.
*
um corvo azul irrompe
no poema.
*
Essa a letra fosca a peripécia
O motejo expandido
Em espelhismo de lacraias.
II
sou espectro de mim.
*
no extravio das hipóteses,
expansão de territórios
fermentando fêmures
(ruínas de um vocabulário;
escura caligrafia
rasurando crânios).
desfoliante na curva do vento,
onde o leão do labirinto
recifra-se em ecos.
(...)
sou alimária de mim.
*
a mente como um focinho
escavando raízes
no aterro da memória
(palavras são despojos,
o sentido fraturado de tudo:
cegueira inventando cores).
precárias percepções
do caos ensimesmado:
nenhuma música aqui.
(...)
sou descosturado de mim.
*
flagelar os chifres do céu,
catarata-capricórnio
esfumada em carbono
(destrinchar o mapa celeste
com cálculos e equações
até o nada absoluto.)
num ponto qualquer
do planeta, órgãos retirados
de corpos sem autópsia.
Para Wilson Bueno, 2006
(Poema do livro Fera Bifronte, de Claudio Daniel, publicado pela Lumme Editor.)
quinta-feira, 25 de junho de 2009
FILOSOFIA ORIENTAL E POESIA
quarta-feira, 24 de junho de 2009
DOIS POEMAS DE LUIZ ARISTON
a Jussara Silveira
1. As gentes têm por invisível
comum, senão seu próprio vício,
haver, suas próprias, as artes
ou ser o próprio malas-artes,
que mesmo o canto, por exemplo,
escultura, vem de entre os dentes,
ao ouvido, é bem mais frágil
que o invisível vidro ao tato.
2. O sem-porquê do compromisso
relativo ao valor do ofício
mostra-se mais, mostra-se noite,
quando um suposto ouvinte afoito,
diante do quebra-cabeça,
elege, feito cabra-cega,
em meio a seus pedaços todos,
o menos importante: o autógrafo.
3. Até se expor (e dar nas vistas?)
autografar-se alienígena,
recanto de um canto em um outro,
transplante de um obscuro órgão
de si para si, mas via alguém,
quesito e réplica através.
Anzol em peixe, aquele canto;
este, uma espinha na garganta.
* * *
se for aquilo que se foi que volta
ao paraíso o pecador que torna
em torno desse próprio posto à prova
sentir o sabor de outra boca à boca
é outro o velho gosto que se arrota
sentir o sabor de outra boca à boca
em torno desse próprio posto à prova
ao paraíso o pecador que torna
se for aquilo que se foi que volta
terça-feira, 23 de junho de 2009
DOIS POEMAS DE FLÁVIO CASTRO
SÍSIFO
Treva aglutina atrofiadas criaturas
Escorço escarradefeca mijadomuro
Sinistra textura nivelada
Concúbinos cubículos
Floralumínia
Ácidas frutopedras
Estrelárvore solitária
Célebres bosques arqueados
Amálgamalma
Câncro verbovícero
Sábiosátiro unicórleão
Oeste galocanta outraurora
Negra palma branca
Vândala nervura autônoma
Sangüíneafumeguenta chamazulada
Euterônimo versificando mesmo verso
CÁRCERES
Plexo fecunda placenta oceânica
Focos feixes fluxos purpúreos
Perpétuas paredes cênicas
Térreo sorvo fúmego
Ferrorretorcidos
Ociosa luz varicosa
Azougue espelho braille
Gráficos becos estrangulados
Películo céu diminuto
Face sôfrega cérebro longe
Cilíndricas siglas labirínticas
Varzeanas nuvens controversas
segunda-feira, 22 de junho de 2009
UM POEMA DE WINNER CHIU
ESTUDO PARA O MAR-HEXAEDRO
QUADRO II
O mar se curva com a crueldade de uma arraia
Cor é quase um feixe de barbatanas sem fios
Cor é uma solidão de arco-de-violino.
Nenhuma escuridão se irriga com as ondas
Nenhuma onda abraça o silêncio.
Os olhos mal distinguem as distâncias.
O triângulo possui lados incalculáveis,
O losango se alonga em frenesi de lontras
O peixe escapa pelos dedos.
Peixe triângulo losango atraem o ímã violeta.
As ilhas em febre.
Os morros são as chamas que cortam a membrana.
Asas e árvores se elevam às alturas do sexo
(Poema de Winner Chiu, do livro inédito Naufrágios)
domingo, 21 de junho de 2009
EQUILÍBRIO E TRANSFORMAÇÃO
Afastar a grama à procura da serpente, Fênix estende as asas, Vento curva as folhas de lótus, Cavalo celeste galopando no céu, Macaco branco oferece frutas, Vento varre a flor de pessegueiro. Estes são os nomes de alguns dos 54 movimentos da Espada de Tai Chi, arte marcial chinesa que remonta à dinastia Sung (960 – 279 d.C.).
Conforme escreveu o mestre Liu Chih Ming, “a simplicidade de seus movimentos contém uma extrema sutileza e magia. A leveza e a agilidade de seus movimentos resultam num bailado gracioso e belo, no entanto, se utilizados como arte marcial, podem se transformar em movimentos poderosos e firmes. Além disso, a prática da Espada de Tai Chi tem grandes efeitos terapêuticos".
"A Espada de Tai Chi tem sua raiz no Tai Chi Chuan, sendo a espada uma extensão do corpo. Na prática da Espada de Tai Chi, o domínio não se consegue só com a mão, mas sim com todo o corpo. A magia do movimento está no fato de que a extensão guia a energia, e esta por sua vez guia o corpo. Nesta prática pode-se chegar a um estágio elevado onde ocorre a união da espada com o ser; a espada adquire vida e passa a fazer parte do corpo e, por fim, não são os movimentos da espada que acompanham os do corpo, e sim o corpo que acompanha a espada”.
Eu pratico o Tai Chi Chuan há oito anos, e há cerca de um ano e meio comecei a praticar espada com a professora Laís Wollner, discípula do mestre Liu Pai Lin, que introduziu muitas artes taoístas no Brasil, na década de 1970. Confesso que hoje essa prática é essencial em minha vida: o treino da suavidade com firmeza, da agilidade com tranquilidade, da técnica com espontaneidade, do equilíbrio com a capacidade de transformação é algo que procuro incorporar a todas as minhas ações, inclusive a criação poética.








