quinta-feira, 1 de julho de 2010

UMA CONVERSA COM ARNALDO ANTUNES (I)






CD: Quando a poesia chamou a sua atenção pela primeira vez? Qual foi o autor que despertou o seu desejo de escrever? O que surgiu primeiro: a vocação literária ou a musical?


Arnaldo: Na adolescência, comecei a fazer os primeiros poemas e a ter aulas de violão, já desejando fazer canções. Acho que, fazendo uma retrospectiva, a palavra veio primeiro. Quer dizer, sempre me pareceu que eu dominasse com mais intimidade a palavra do que a música, talvez pela própria natureza do código musical, que é sempre um mistério para mim, e acaba sendo para qualquer pessoa. A música surgiu também como decorrência do trabalho criativo com as palavras, como se eu tivesse a necessidade de entoar. Nessa mesma época, comecei a fazer caligrafias. O meu primeiro livro, Ou e (1983), é todo caligráfico. Também senti anecessidade de entoar graficamente, vamos dizer assim. Quer dizer, essas outras linguagens vieram como decorrência do verbal, para ampliar as possibilidades de significação da palavra através da entonação melódica ou da divisão rítmica das palavras. Você pode acrescentar novas sugestões de sentidos que vão ampliar aquilo que o discurso está dizendo. Essas outras linguagens vieram com muita naturalidade, mas em decorrência da necessidade de ampliar a carga significativa do verbal.

Não saberia apontar um autor que tenha me levado a escrever, porque foram vários, e acaba sendo difícil apontar especificamente um nome ou outro. Quando me perguntam sobre os autores que mais me influenciaram, acabo sempre me sentindo um pouco leviano, porque me lembro de alguns nomes, que digo na hora, e esqueço de outros, que também foram muito importantes. Não tenho um paideuma muito rígido, escolhido, que possa apontar. Claro que algumas coisas me deslumbraram ainda na adolescência, foram impactantes. Lembro quando o meu professor de literatura levou na sala de aula um exemplar da Caixa Preta, do Augusto de Campos e do Júlio Plaza, para os alunos manusearem, eu fiquei maravilhado. Lembro a primeira vez que li Fernando Pessoa, aquilo foi uma descoberta. A primeira vez que li Hoelderlin, que me impressionou muito. Primeiro, li a tradução portuguesa do Paulo Quintela, depois li outras traduções. Evários outros autores, como João Cabral, Cummings, Gregório de Mattos, Rimbaud, Rilke, Guimarães Rosa... Cada autor é um universo, e eu não saberia dizer, nesse repertório de influências, o que foi mais importante. Sempre tive muito gosto pelo aspecto lúdico da linguagem. Lembro que desde cedo já tinha um gosto pela subversão sintática, um desejo de amalgamar palavras, criar novos vocábulos. Num dos primeiros poemas que escrevi, por exemplo, a sílaba final de um verso tinha o mesmo som da sílaba inicial do verso seguinte, num encadeamento ininterrupto. Esse tipo de procedimento sempre me atraiu, e você encontra isso na poesia concreta e em outras produções mais experimentais. Agora, acho que essa questão das influências passa também por outras linguagens. Eu me formei numa época em que havia o contato com várias linguagens diferentes. Muitas vezes, um filme influenciou mais a minha poesia do que um outro poema; ou um poema influenciou mais uma canção que fiz do que outra canção. Não saberia dizer se Godard me influenciou mais ou menos, me alimentou mais ou menos para a criação do que Machado de Assis, por exemplo. Ou se Machado me alimentou mais para a criação do que os Beatles, entendeu? Essas coisas todas acabam tecendo uma rede do período de formação e de informação em que a gente vai buscando as referências. Sem dúvida, entre essas referências têm uma importância grande os poetas concretistas, Augusto, Haroldo, Décio, Edgard Braga, Ronaldo Azeredo, mas também os modernistas, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Drummond, os clássicos, Homero, Camões, entre muitos outros... isso para ficar só na literatura. Ah, e também tiveram uma importância grande para mim as revistas de poesia dos anos 70 e 80, como Navilouca, Artéria, Código, Muda, Pólen, Zero à Esquerda, Através, Qorpo Estranho, Bric a Brac, através das quais tomei contato com o trabalho de vários poetas mais contemporâneos, como Leminski, Antonio Risério, Erthos Albino, Walter Silveira, Omar Khouri, Lenora de Barros, Waly Salomão, Duda Machado, Alice Ruiz. Nessas publicações a poesia se mostrava sempre integrada de maneira relevante à sua materialidade gráfica.


CD: Você é um poeta que trabalha com a linguagem de maneiras diferentes: na forma de música, grafismo, texto em prosa e verso, imagens virtuais, aproximando-se por vezes do ruído, do som autônomo em relação ao significado. A poesia, para você, é uma arte híbrida que transcende os limites de forma, gênero e a própria escritura?


Arnaldo: Nunca me senti especializado numa única linguagem. Creio que, em todas as atividades que exerço, como música popular, poesia, artes gráficas, vídeo, há um território comum, que é o trabalho com a palavra em si, mas amplificada ou contaminada por outros códigos. Uma mistura. Acho que é um dos sintomas da modernidade, que tornou mais fluente esse trânsito. A poesia saiu do livro e passou a se manifestar em diferentes meios — a canção, o vídeo, a instalação, o cartaz, o outdoor, a camiseta. Passamos a conviver com as possibilidades de poesia em vários suportes. Claro que há poetas que trabalham estritamente com a palavra escrita, com o livro, que é insubstituível por outros meios. O barato de você se relacionar com o objeto livro é insubstituível. O livro tem cheiro, ritmo, e a sensação de solidão quando você está ali refletindo numa página, não há nada que substitua isso. Porém, por temperamento, gosto do contrabando de um código para outro, de um repertório para outro. Antigamente, você tinha meios de produção diferenciados para cada linguagem; hoje, num computador, você pode trabalhar com texto, imagem, música, vídeo, animação, produção gráfica. Você acaba tendo, no próprio instrumental técnico, uma possibilidade muito maior de criar essas inter-relações. Sinto que uma tendência da modernidade é a de reatarpontes entre as linguagens. O homem, no decorrer da história da civilização, foi demarcando: música é para ser ouvida, poesia é para ser lida no livro, artes plásticas para serem vistas... Porém, a vida moderna trouxe um arsenal tecnológico, com cinema, telefone, interferências urbanas... Nós somos assaltados todo o tempo por informações fragmentárias, de todos os lados, e isso, de certa forma, propiciou essa 'descompartimentação'. Por outro lado, vejo também o resgate de um espírito primitivo, um resgate da relação entre arte e vida. Na sociedade tribal não havia diferenciação entre música, dança, rito, religião. Na verdade, isto tem a ver com o que o Oswald de Andrade fala em A Crise da Filosofia Messiânica, onde ele esboça uma abordagem filosófica da antropofagia. Oswald sugere uma equação em que a tese seria o homem primitivo, a antítese o homem civilizado e a síntese o que ele chama de "homem natural tecnizado". É mais ou menos o que o McLuhan vislumbrou quando cunhou o termo "aldeia global": o espírito da aldeia propiciado pela tecnologia. Tudo isso cria um território muito propício para a interseção de linguagens.


(Trechos da entrevista que fiz com Arnaldo, publicada em 2003 no primeiro número da revista Et Cetera, editada em Curitiba pela Travessa dos Editores.)

Um comentário:

  1. He, muito bom o Arnaldo! Concordo plenamente com esse final de post. Engraçado que até mesmo nas expressões de cunho negativo, já misturamos as duas coisas: "capitalismo selvagem", por exemplo. O homem, que outrora saiu do mato e fundou cidades, volta à aldeia de I-pods nas mãos, valoriza o verde, o místico, mas não abre mão de 140 caracteres. Parabolicamará!

    ResponderExcluir