
sábado, 6 de novembro de 2010
POEMAS EM PROSA (V)
MAGIA
I
Antigamente eu era muito nervoso. Agora estou num novo caminho:
I
Antigamente eu era muito nervoso. Agora estou num novo caminho:
Coloco uma maçã em cima da mesa. Depois me coloco dentro da maçã. Que tranquilidade!
Isso parece simples. Entretanto, havia vinte anos que tentava; e não teria conseguido, querendo começar por ali. Por que não? Talvez me sentisse humilhado em virtude de seu tamanho diminuto e de sua vida opaca e lenta. É provável. Os pensamentos da camada inferior raramente são belos.
Então comecei de outra forma e me uni ao Escalda.
Em Anvers, onde eu o encontrava, o Escalda é largo e importante e movimenta um grande fluxo. Ele recebe os navios de alto bordo que se aproximam. É um rio, um verdadeiro rio.
Decidi unir-me a ele. Permanecia no cais o dia inteiro. Mas eu me dispersava em numerosas e inúteis perspectivas.
E depois, à minha revelia, olhava as mulheres de vez em quando, e isso não condiz com um rio, nem com uma maçã, nem com nada na natureza.
Então o Escalda e mil sensações. O que fazer? Subitamente, tendo renunciado a tudo, encontrei-me..., não direi em seu lugar, pois, na verdade, nunca foi exatamente assim. Ele corre incessantemente (eis uma grande dificuldade) e desliza em direção à Holanda onde encontrará o mar e a altitude zero.
Retorno à maçã. Lá, novamente, houve tateios, experiências; é uma longa história. Partir é pouco cômodo, assim como falar sobre isso.
Mas, em uma palavra, posso dizer-lhes. Sofrer é a palavra.
Quando cheguei à maçã, estava congelado.
II
Assim que a vi, desejei-a.
De início, para seduzi-la, disseminei planícies e planícies. Planícies saídas do meu olhar estendiam-se doces, amáveis, reconfortantes.
As idéias de planície foram ao encontro dela e, sem o saber, ela as percorria, sentindo-se satisfeita.
Percebendo-a bem segura, eu a possuí.
Isso feito, depois de um pouco de repouso e quietude, voltando ao meu natural, deixei reaparecerem minhas lanças, meus trapos, meus precipícios.
Ela sentiu um grande frio e que tinha se enganado completamente a meu respeito.
Ela foi embora, a fisionomia desfeita e esvaziada, como se tivesse sido roubada.
III
Acho difícil acreditar que isso seja natural e conhecido por todos. Às vezes eu fico tão profundamente entranhado em mim mesmo numa bolha única e densa que, sentado sobre uma cadeira, a menos de dois metros da lâmpada colocada sobre a mesa de trabalho, é com grande dificuldade e após um longo tempo que, apesar dos olhos bem abertos, consigo lançar um olhar até ela.
Uma emoção estranha toma conta de mim quando dou esse depoimento sobre o círculo que me isola.
Parece-me que um obus ou até mesmo um raio não conseguiriam me atingir de tantas camadas de todas as partes que tenho aplicadas sobre mim.
Simplesmente, seria bom que a raiz da angústia estivesse enterrada por algum tempo.
Nesses momentos eu tenho a imobilidade de uma cova.
IV
Este dente da frente cariado me enfiava as suas agulhas muito acima da raiz, quase sob o nariz. Terrível sensação!
E a magia? Talvez, mas então é preciso alojar-se em bloco quase sob o nariz. Que desequilíbrio! E eu hesitava, ocupado com outras coisas, um estudo sobre a linguagem.
Nesse momento uma velha otite, que dormia há cinco anos, despertou com sua fina perfuração no fundo da orelha.
Portanto, eu precisava me decidir. Molhado, melhor lançar-se à água. Abalado em sua posição de equilíbrio, melhor procurar outra.
Abandono então o estudo e me concentro. Em três ou quatro minutos, elimino a dor da otite (eu conhecia o caminho). Quanto ao dente, precisaria do dobro de tempo. Ela ocupava um lugar tão ridículo, quase sob o nariz. Por fim ela desaparece.
É sempre assim; só a primeira vez é uma surpresa. A dificuldade é encontrar o lugar da dor. Assegurado o lugar, é só dirigir-se naquela direção, às apalpadelas na sua noite, procurando circunscrevê-lo (por não terem concentração, os ansiosos sentem a dor em todos os lugares), depois, à medida que é circundado, deve-se observá-lo mais cuidadosamente, pois ele se torna menor, menor, dez vezes menor que uma ponta de agulha; todavia, você o vigia sem descanso, com atenção crescente, projetando nele sua euforia até que não haja diante de você nenhum núcleo de dor. Você realmente o encontrou.
Agora, é preciso permanecer ali sem esforço. Cinco minutos de concentração devem produzir uma hora e meia ou duas horas de calma e insensibilidade. Falo em relação aos homens que não são especialmente fortes ou dotados; por sinal é o “meu tempo”.
(Por causa da inflamação dos tecidos, subsiste uma sensação de pressão, de pequeno volume isolado, como subsiste após a injeção de um líquido anestésico.)
V
Sou tão fraco (eu o era, sobretudo), que se pudesse coincidir em espírito com o que quer que fosse, eu seria imediatamente subjugado e engolido por ele e estaria inteiramente sob sua dependência; mas eu fico de olho, atento, antes aferrado a ser sempre muito exclusivamente eu. Graças a essa disciplina, agora tenho chances cada vez maiores de nunca coincidir com nenhum espírito e de poder circular livremente nesse mundo.
Melhor assim! Tendo me fortalecido a esse ponto, lançarei um desafio ao mais poderoso dos homens. O que a sua vontade me faria? Eu me tornei tão agudo e circunstanciado que, estando diante dele, ele não conseguiria encontrar-me.
(Poemas de Henri Michaux traduzidos por Izabela Leal. Leia mais no link de Tradução da Zunái.)
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
POEMAS EM PROSA (IV)
FRAGMENTOS DE OS CANTOS DE MALDOROR
Sou filho do homem e da mulher, ao que me dizem. Isso me espanta... acreditava ser mais! De resto, que me importa de onde venho? Se isso dependesse de minha vontade, teria preferido ser o filho da fêmea do tubarão, cuja fome é amiga das tempestades, e do tigre, cuja crueldade é reconhecida: eu não seria tão mau. Vós que me encarais, afastai-vos de mim, pois meu hálito exala um sopro envenenado. Ninguém viu ainda as rugas verdes do meu rosto; nem os ossos salientes de minha fisionomia magra, semelhantes às espinhas de algum peixe gigante, ou aos rochedos que cobrem a beira-mar, ou às abruptas montanhas alpestres, que percorri muitas vezes quando tinha sobre a cabeça cabelos de outra cor. E, quando rondo as habitações dos homens, durante as noites tempestuosas, de olhos ardentes, cabelos flagelados pelo vento da intempérie, isolado como uma pedra no meio do caminho, cubro meu rosto abatido com um pedaço de veludo, negro como a fuligem que enche o interior das chaminés: não é preciso que os olhos sejam testemunhas da feiúra que o Ser supremo, com um sorriso de ódio poderoso, pôs em mim.
(Do Canto I)
Lá, em um bosque rodeado de flores, repousa o hermafrodita, profundamente adormecido na relva, molhado por seu pranto. A lua separou seu disco da massa de nuvens, e acaricia com seus pálidos raios essa doce fisionomia de adolescente. (...) Cansado da vida, envergonhado por caminhar entre seres que não se assemelham a ele, o desespero tomou conta de sua alma, e prossegue sozinho, como o mendigo do vale. Como obtém meios de subsistência? Almas caridosas velam de perto por ele, que não suspeita dessa vigilância, e não o abandonam: ele é tão bom! Ele é tão resignado! (...) Tomam-no geralmente por louco. Um dia, quatro homens mascarados, que cumpriam ordens, atiraram-se sobre ele, e o amarraram solidamente, de tal modo que só pudesse mexer as pernas. O chicote abateu seus rudes látegos sobre suas costas, e lhe disseram que se dirigisse sem demora para a estrada, que leva a Bicêtre. Ele se pôs a sorrir enquanto recebia os açoites, e lhes falou com tamanho sentimento e inteligência sobre as muitas ciências humanas que havia estudado, demonstrando tamanha instrução (...) que seus guardiões, assustados até a medula pelo ato que haviam cometido, desamarraram seus membros quebrados, prosternaram-se de joelhos, pedindo um perdão que lhes foi concedido, e se afastaram, com os sinais de uma veneração que não se concede ordinariamente aos homens.
(Do Canto II)
(Lautréamont, Os Cantos de Maldoror, in Obras Completas. São Paulo: Iluminuras, 1997. Tradução de Claudio Willer.)
Sou filho do homem e da mulher, ao que me dizem. Isso me espanta... acreditava ser mais! De resto, que me importa de onde venho? Se isso dependesse de minha vontade, teria preferido ser o filho da fêmea do tubarão, cuja fome é amiga das tempestades, e do tigre, cuja crueldade é reconhecida: eu não seria tão mau. Vós que me encarais, afastai-vos de mim, pois meu hálito exala um sopro envenenado. Ninguém viu ainda as rugas verdes do meu rosto; nem os ossos salientes de minha fisionomia magra, semelhantes às espinhas de algum peixe gigante, ou aos rochedos que cobrem a beira-mar, ou às abruptas montanhas alpestres, que percorri muitas vezes quando tinha sobre a cabeça cabelos de outra cor. E, quando rondo as habitações dos homens, durante as noites tempestuosas, de olhos ardentes, cabelos flagelados pelo vento da intempérie, isolado como uma pedra no meio do caminho, cubro meu rosto abatido com um pedaço de veludo, negro como a fuligem que enche o interior das chaminés: não é preciso que os olhos sejam testemunhas da feiúra que o Ser supremo, com um sorriso de ódio poderoso, pôs em mim.
(Do Canto I)
Lá, em um bosque rodeado de flores, repousa o hermafrodita, profundamente adormecido na relva, molhado por seu pranto. A lua separou seu disco da massa de nuvens, e acaricia com seus pálidos raios essa doce fisionomia de adolescente. (...) Cansado da vida, envergonhado por caminhar entre seres que não se assemelham a ele, o desespero tomou conta de sua alma, e prossegue sozinho, como o mendigo do vale. Como obtém meios de subsistência? Almas caridosas velam de perto por ele, que não suspeita dessa vigilância, e não o abandonam: ele é tão bom! Ele é tão resignado! (...) Tomam-no geralmente por louco. Um dia, quatro homens mascarados, que cumpriam ordens, atiraram-se sobre ele, e o amarraram solidamente, de tal modo que só pudesse mexer as pernas. O chicote abateu seus rudes látegos sobre suas costas, e lhe disseram que se dirigisse sem demora para a estrada, que leva a Bicêtre. Ele se pôs a sorrir enquanto recebia os açoites, e lhes falou com tamanho sentimento e inteligência sobre as muitas ciências humanas que havia estudado, demonstrando tamanha instrução (...) que seus guardiões, assustados até a medula pelo ato que haviam cometido, desamarraram seus membros quebrados, prosternaram-se de joelhos, pedindo um perdão que lhes foi concedido, e se afastaram, com os sinais de uma veneração que não se concede ordinariamente aos homens.
(Do Canto II)
(Lautréamont, Os Cantos de Maldoror, in Obras Completas. São Paulo: Iluminuras, 1997. Tradução de Claudio Willer.)
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
POEMAS EM PROSA (III)
FRAGMENTOS DE IGITUR
(INTRODUÇÃO)
Antigo Estudo
Quando os sopros de seus ancestrais querem soprar a vela, (graças à qual, talvez, ainda perduram os caracteres do livro de magia) – ele diz “Ainda não!”
Ele mesmo, no fim, quando os ruídos terão sumido, comprovará a evidência de algo grandioso (nenhum astro? o acaso anulado?) do simples fato de poder ocasionar a sombra, soprando sobre a luz.
Depois – como ele terá falado conforme o absoluto – que nega a imortalidade, o absoluto existirá fora – lua, acima do tempo: e ele erguerá as cortinas em frente.
(ARGUMENTO)
4 PARTES:
1 – A Meia-Noite
2 – A Escada
3 – O lance de dados
4 – O descanso sobre as cinzas, após a vela apagada
Mais ou menos o que se segue:
Meia Noite soa — a Meia Noite em que devem ser lançados os dados. Igitur desce as escadas, do espírito humano, vai ao fundo das coisas: “absoluto” como está. Túmulos – cinzas (nenhum sentimento, nem espírito), neutralidade. Ele invoca a predição e consuma o gesto. Indiferença. Silvos na escada. “Estavas enganado”, nenhuma emoção. O infinito provém do acaso, que negastes. Vós, matemáticos, expirastes – eu projetando absoluto. Devia findar em Infinito. Simplesmente palavra e gesto. Quanto ao que vos digo, para explicar minha vida. Nada restará de vós – o Infinito, enfim, escapa à família que o suportou – velho espaço – a ausência do acaso. Ela teve razão em o negar – sua vida – para que ele tenha sido o Absoluto. Isto devia ocorrer nas combinações do Infinito frente ao Absoluto. Necessário – extrai a Ideia. Loucura útil. Um dos atos do universo vem de ser cometido. Mais nada, restava o sopro, fim de palavra e gesto unidos – sopra a vela do ser, pelo que tudo existiu. Prova.
(Investigar tudo isso)
ELE SE DEITA NO TÚMULO
Sobre as cinzas dos astros, as indivisas da família, estava o pobre personagem, após haver bebido a gota de nada que falta ao mar. (O frasco vazio, visão, loucura, tudo o que resta do castelo?) O Nada tenho partido, resta o castelo da pureza.
(Stéphane Mallarmé, Igitur ou A loucura de Elbehnon. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Tradução de José Lino Grunewald.)
(INTRODUÇÃO)
Antigo Estudo
Quando os sopros de seus ancestrais querem soprar a vela, (graças à qual, talvez, ainda perduram os caracteres do livro de magia) – ele diz “Ainda não!”
Ele mesmo, no fim, quando os ruídos terão sumido, comprovará a evidência de algo grandioso (nenhum astro? o acaso anulado?) do simples fato de poder ocasionar a sombra, soprando sobre a luz.
Depois – como ele terá falado conforme o absoluto – que nega a imortalidade, o absoluto existirá fora – lua, acima do tempo: e ele erguerá as cortinas em frente.
(ARGUMENTO)
4 PARTES:
1 – A Meia-Noite
2 – A Escada
3 – O lance de dados
4 – O descanso sobre as cinzas, após a vela apagada
Mais ou menos o que se segue:
Meia Noite soa — a Meia Noite em que devem ser lançados os dados. Igitur desce as escadas, do espírito humano, vai ao fundo das coisas: “absoluto” como está. Túmulos – cinzas (nenhum sentimento, nem espírito), neutralidade. Ele invoca a predição e consuma o gesto. Indiferença. Silvos na escada. “Estavas enganado”, nenhuma emoção. O infinito provém do acaso, que negastes. Vós, matemáticos, expirastes – eu projetando absoluto. Devia findar em Infinito. Simplesmente palavra e gesto. Quanto ao que vos digo, para explicar minha vida. Nada restará de vós – o Infinito, enfim, escapa à família que o suportou – velho espaço – a ausência do acaso. Ela teve razão em o negar – sua vida – para que ele tenha sido o Absoluto. Isto devia ocorrer nas combinações do Infinito frente ao Absoluto. Necessário – extrai a Ideia. Loucura útil. Um dos atos do universo vem de ser cometido. Mais nada, restava o sopro, fim de palavra e gesto unidos – sopra a vela do ser, pelo que tudo existiu. Prova.
(Investigar tudo isso)
ELE SE DEITA NO TÚMULO
Sobre as cinzas dos astros, as indivisas da família, estava o pobre personagem, após haver bebido a gota de nada que falta ao mar. (O frasco vazio, visão, loucura, tudo o que resta do castelo?) O Nada tenho partido, resta o castelo da pureza.
(Stéphane Mallarmé, Igitur ou A loucura de Elbehnon. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Tradução de José Lino Grunewald.)
terça-feira, 2 de novembro de 2010
POEMAS EM PROSA (II)
Fragmentos de Iluminações
III
No bosque há um pássaro, seu canto vos detém e vos faz corar.
Há um relógio que não soa.
Há uma catedral que desce e um lago que sobe.
Há uma pequena carruagem abandonada nas moitas, ou que desce a vereda às carreiras, engalanada.
Há um grupo de pequenos comediantes disfarçados, vistos na estrada pela beira do bosque.
Há, por fim, quando se tem fome e sede, alguém que nos expulse.
IV
Sou o santo, orando no terraço, — como os animais mansos pastam até o mar da Palestina.
Sou o sábio na cátedra sombria. Os ramos e a chuva se arrojam sobre a janela da biblioteca.
Sou o transeunte da grande estrada pelos bosques anões; o rumor das represas abafa meus passos. Vejo, longamente, a melancólica lixívia dourada do poente.
Eu bem seria a criança abandonada no cais que partir para o alto-mar, o pequeno servo que segue a alameda cujo final toca o céu.
As sendas são ásperas. Os montículos se cobrem de giestas. O ar é imóvel. Quão distantes estão os pássaros e as fontes! Isto só pode ser o fim do mundo, avançando.
V
Que me aluguem por fim esta tumba, branca de cal e com as linhas de cimento em relevo — bem fundo na terra.
Apoio meus cotovelos na mesa, a lâmpada ilumina vivamente estes jornais que só releio de idiota, estes livros sem interesse.
Numa distancia enorme acima da minha sala subterrânea, as casas se implantam, as brumas se reúnem. A lama é vermelha ou negra. Cidade monstruosa, noite sem fim!
Menos acima, estão os esgotos. Dos lados, nada senão a espessura do globo. Talvez os abismos de azul, poços de fogo. É nesses planos que talvez se encontrem luas e cometas, mares e fábulas.
Nas horas de amargura, imagino bolas de safira, de metal. Sou senhor do silêncio. Porque uma aparência de clarabóia empalidecerá no canto da abóbada?
Conto
Um Príncipe se envergonhava por jamais haver se dedicado senão à perfeição das generosidades vulgares. Previra espantosas revoluções no amor, e suspeitava que suas mulheres eram capazes de algo melhor que esta tolerância adornada de céu e de luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração da piedade, ele o quis. Possuía ao menos um poderio humano suficientemente vasto.
Todas as mulheres que o haviam conhecido foram assassinadas. Que vandalismo no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele não encomendou outras novas. — As mulheres reapareceram.
Matou todos que o seguiam, após a caça ou libações. — Todos os seguiam.
Divertiu-se estrangulando os animais de luxo. Fez queimar os palácios. Arrojava-se sobre as gentes e as esquartejava. — A multidão, os tetos de ouro, os belos animais existiam ainda.
Pode alguém extasiar-se na destruição rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém ofereceu a ajuda de seus conselhos.
Galopava altaneiro certa noite. Um Gênio surgiu, de uma beleza inefável, inconfessável mesmo.
Mas este Príncipe morreu, em seu palácio, em uma idade comum. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe.
A música erudita faz falta a nosso desejo.
III
No bosque há um pássaro, seu canto vos detém e vos faz corar.
Há um relógio que não soa.
Há uma catedral que desce e um lago que sobe.
Há uma pequena carruagem abandonada nas moitas, ou que desce a vereda às carreiras, engalanada.
Há um grupo de pequenos comediantes disfarçados, vistos na estrada pela beira do bosque.
Há, por fim, quando se tem fome e sede, alguém que nos expulse.
IV
Sou o santo, orando no terraço, — como os animais mansos pastam até o mar da Palestina.
Sou o sábio na cátedra sombria. Os ramos e a chuva se arrojam sobre a janela da biblioteca.
Sou o transeunte da grande estrada pelos bosques anões; o rumor das represas abafa meus passos. Vejo, longamente, a melancólica lixívia dourada do poente.
Eu bem seria a criança abandonada no cais que partir para o alto-mar, o pequeno servo que segue a alameda cujo final toca o céu.
As sendas são ásperas. Os montículos se cobrem de giestas. O ar é imóvel. Quão distantes estão os pássaros e as fontes! Isto só pode ser o fim do mundo, avançando.
V
Que me aluguem por fim esta tumba, branca de cal e com as linhas de cimento em relevo — bem fundo na terra.
Apoio meus cotovelos na mesa, a lâmpada ilumina vivamente estes jornais que só releio de idiota, estes livros sem interesse.
Numa distancia enorme acima da minha sala subterrânea, as casas se implantam, as brumas se reúnem. A lama é vermelha ou negra. Cidade monstruosa, noite sem fim!
Menos acima, estão os esgotos. Dos lados, nada senão a espessura do globo. Talvez os abismos de azul, poços de fogo. É nesses planos que talvez se encontrem luas e cometas, mares e fábulas.
Nas horas de amargura, imagino bolas de safira, de metal. Sou senhor do silêncio. Porque uma aparência de clarabóia empalidecerá no canto da abóbada?
Conto
Um Príncipe se envergonhava por jamais haver se dedicado senão à perfeição das generosidades vulgares. Previra espantosas revoluções no amor, e suspeitava que suas mulheres eram capazes de algo melhor que esta tolerância adornada de céu e de luxo. Queria ver a verdade, a hora do desejo e da satisfação essenciais. Fosse ou não uma aberração da piedade, ele o quis. Possuía ao menos um poderio humano suficientemente vasto.
Todas as mulheres que o haviam conhecido foram assassinadas. Que vandalismo no jardim da beleza! Sob o sabre, elas o abençoaram. Ele não encomendou outras novas. — As mulheres reapareceram.
Matou todos que o seguiam, após a caça ou libações. — Todos os seguiam.
Divertiu-se estrangulando os animais de luxo. Fez queimar os palácios. Arrojava-se sobre as gentes e as esquartejava. — A multidão, os tetos de ouro, os belos animais existiam ainda.
Pode alguém extasiar-se na destruição rejuvenescer na crueldade! O povo não murmurou. Ninguém ofereceu a ajuda de seus conselhos.
Galopava altaneiro certa noite. Um Gênio surgiu, de uma beleza inefável, inconfessável mesmo.
De sua fisionomia e de sua postura emanava a promessa de um amor múltiplo e complexo! de uma felicidade indizível, insuportável mesmo! O Príncipe e o Gênio se aniquilaram provavelmente na saúde essencial. Como não teriam podido dela morrer? Morreram juntos então.
Mas este Príncipe morreu, em seu palácio, em uma idade comum. O Príncipe era o gênio. O Gênio era o Príncipe.
A música erudita faz falta a nosso desejo.
(Arthur Rimbaud, Uma temporada no inferno & Iluminações. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982. Tradução: Ledo Ivo.)
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
POEMAS EM PROSA (I)
O ESTRANGEIRO
— A quem mais amas tu, homem enigmático, dize: teu pai, tua mãe ou teu irmão?
— Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
—Você se serve de uma palavra cujo sentido me é , até hoje, desconhecido.
— Tua pátria?
— Ignoro em qual latitude ela esteja situada.
— A beleza?
— Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
— O ouro?
— Eu o detesto como vocês detestam Deus.
— Quem é você então que tu amas, extraordinário estrangeiro?
— Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!
(Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa. Rio de Janeiro: Record, 2006. Tradução: Gilson Maurity.)
— A quem mais amas tu, homem enigmático, dize: teu pai, tua mãe ou teu irmão?
— Eu não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
— Teus amigos?
—Você se serve de uma palavra cujo sentido me é , até hoje, desconhecido.
— Tua pátria?
— Ignoro em qual latitude ela esteja situada.
— A beleza?
— Eu a amaria de bom grado, deusa e imortal.
— O ouro?
— Eu o detesto como vocês detestam Deus.
— Quem é você então que tu amas, extraordinário estrangeiro?
— Eu amo as nuvens... as nuvens que passam lá longe... as maravilhosas nuvens!
(Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa. Rio de Janeiro: Record, 2006. Tradução: Gilson Maurity.)
sábado, 30 de outubro de 2010
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
AGORA É DILMA!

Quando o Brasil vivia sob a ditadura militar, algumas pessoas fugiram. Outras ficaram e lutaram. Muitos anos depois, algumas pessoas mudaram de lado, e se tornaram aliadas da extrema-direita. Outras, continuaram lutando por mudanças sociais no Brasil. São essas pessoas que fazem toda a diferença. No dia 31, diga NÃO ao retrocesso, vote em Dilma!
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
ARTIMANHAS POÉTICAS 2010

A segunda edição do festival literário Artimanhas Poéticas será realizada nos dias 13 e 14 de novembro (sábado e domingo) no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro (RJ), com curadoria dos poetas Claudio Daniel e Gabriela Marcondes. O evento contará com a participação de críticos literários como Heloísa Buarque de Hollanda, poetas como Claudia Roquette-Pinto, Arnaldo Antunes, Frederico Barbosa, André Vallias, entre outros. O festival incluirá palestras, debates, recitais, apresentação de poesia visual e videopoesia, lançamentos e performances. Confira a programação em http://artimanhaspoticas2010.blogspot.com/
terça-feira, 26 de outubro de 2010
ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES

A escrita plural. Uma conversa com Arnaldo Antunes.
Filosofia e poesia em Roberto Piva, ensaio de Chiu Yi Chih.
“Feliz daquele que ao ver o relâmpago não diz: a vida é breve”. Três contos inéditos de Wilson Bueno.
Galeria: exposição virtual de Leda Catunda e Adriana Peliano.
Debate: A crítica literária sociológica consegue compreender a poesia contemporânea?
Grandes Sermões: Vieira e Haroldo de Campos, ensaio de Tide Carvalho.
Desafios da tradução criativa: invenção, “transfingimento” e cruzamentos culturais, ensaio de Maria Esther Maciel.
O crítico e o poeta: silêncio de Barthes sobre Francis Ponge, ensaio de Leda Tenório da Mota.
O Evangelho segundo Jesus Cristo e O Evangelho segundo Judas, ensaio de Aurora Bernardini.
Poemas de Ana Marques Gastão (Portugal), Fernanda Dias (Macau), Jorge Arrimar (Angola), Alfredo Fressia (Uruguai), Andréa Catrópa (Brasil), Leonardo Gandolfi (Brasil).
Traduções de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, George Trakl, Henri Michaux, Rainer Maria Rilke, John Keats, Philip Larkin.
Matérias especiais: Festival Tordesilhas, Poetas de Língua Portuguesa.
Zunái, Revista de Poesia & Debates: http://www.revistazunai.com/.
Preço: Inefável; inconcebível.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).
Filosofia e poesia em Roberto Piva, ensaio de Chiu Yi Chih.
“Feliz daquele que ao ver o relâmpago não diz: a vida é breve”. Três contos inéditos de Wilson Bueno.
Galeria: exposição virtual de Leda Catunda e Adriana Peliano.
Debate: A crítica literária sociológica consegue compreender a poesia contemporânea?
Grandes Sermões: Vieira e Haroldo de Campos, ensaio de Tide Carvalho.
Desafios da tradução criativa: invenção, “transfingimento” e cruzamentos culturais, ensaio de Maria Esther Maciel.
O crítico e o poeta: silêncio de Barthes sobre Francis Ponge, ensaio de Leda Tenório da Mota.
O Evangelho segundo Jesus Cristo e O Evangelho segundo Judas, ensaio de Aurora Bernardini.
Poemas de Ana Marques Gastão (Portugal), Fernanda Dias (Macau), Jorge Arrimar (Angola), Alfredo Fressia (Uruguai), Andréa Catrópa (Brasil), Leonardo Gandolfi (Brasil).
Traduções de Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, George Trakl, Henri Michaux, Rainer Maria Rilke, John Keats, Philip Larkin.
Matérias especiais: Festival Tordesilhas, Poetas de Língua Portuguesa.
Zunái, Revista de Poesia & Debates: http://www.revistazunai.com/.
Preço: Inefável; inconcebível.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).
MAIS KOZER
A MORTE SE VESTE DE CORAL
Desce dois degraus de cimento.
E logo outros dois degraus de limo.
Refulge em redor seu dente de ouro.
Por um motete antigo, sei que é ruiva.
Senta-se em seu trono de cipó, pousa a planta dos pés em uma esteira de palma-real.
É imutável o trono, indestrutível a palma-real.
Exige as Vésperas marianas de Monteverdi, solícitos executam-nas.
Aplaude, aplaude bêbada, golpeia-se nas coxas, pó de ossos derramam.
Majestosa, ajusta a peruca ruiva em um espelho oval de brilho impenetrável.
Ei-la aí, toda de coral, na verdade do azougue.
A MORTE SE REVOLVE EM SUA POCILGA DE OSTEOPOROSE
Em cada omoplata o ideograma que a prefigura.
No púbis uma rosácea de ouro em fibra de vidro.
No fêmur a rotação (mocho) das duas veletas.
Gema de ovo as falanges, tendões, rótulas.
O úmero puro padecimento do peixe boquiaberto
ao sol: chuva de estrelas meteoritos a coluna
vertebral ao se estrelarem as duas pupilas atônitas
contra a muralha do bastião: o grito cravado
de Ícaro na queda: parietal esfenóides arco
zigomático e vômer de súbito na pá de lixo.
Um escapulário. Um crucifixo. Hissope e cíngulo.
Mitra de cálcio e fósforo; capa fluvial de magnésio.
Útero de alumínio, tabela periódica o coração.
Num piscar de olhos com vaselina nos penetra (com)
seu vocabulário (exíguo) e uma ou outra frase-feita:
utópico, ilusório; esquece o tango e canta bolero.
O quadro, viva efeméride, é completado por um cavalo
matungo: anca que exibe o Santo Graal, anca que
exibe o selo chamejante do Averno: e justo no
meio o Unigênito ginete da foice.
A MORTE RETIRA A MÁSCARA, A CARA,
O CRÂNIO, O NADA, E SURGE O BOM DEUS
Entrego-lhe
a moeda
de cobre
que trago
debaixo da
língua.
O Bom
Deus
põe-se
a rir e
me tira
a folharada
que tenho
na cabeça,
umas lianas
no olhar,
um resto
de barro
na fronte,
o esterno,
e dos
mamilos
aos lábios.
Traduções: Claudio Daniel e Luiz Roberto Guedes
Desce dois degraus de cimento.
E logo outros dois degraus de limo.
Refulge em redor seu dente de ouro.
Por um motete antigo, sei que é ruiva.
Senta-se em seu trono de cipó, pousa a planta dos pés em uma esteira de palma-real.
É imutável o trono, indestrutível a palma-real.
Exige as Vésperas marianas de Monteverdi, solícitos executam-nas.
Aplaude, aplaude bêbada, golpeia-se nas coxas, pó de ossos derramam.
Majestosa, ajusta a peruca ruiva em um espelho oval de brilho impenetrável.
Ei-la aí, toda de coral, na verdade do azougue.
A MORTE SE REVOLVE EM SUA POCILGA DE OSTEOPOROSE
Em cada omoplata o ideograma que a prefigura.
No púbis uma rosácea de ouro em fibra de vidro.
No fêmur a rotação (mocho) das duas veletas.
Gema de ovo as falanges, tendões, rótulas.
O úmero puro padecimento do peixe boquiaberto
ao sol: chuva de estrelas meteoritos a coluna
vertebral ao se estrelarem as duas pupilas atônitas
contra a muralha do bastião: o grito cravado
de Ícaro na queda: parietal esfenóides arco
zigomático e vômer de súbito na pá de lixo.
Um escapulário. Um crucifixo. Hissope e cíngulo.
Mitra de cálcio e fósforo; capa fluvial de magnésio.
Útero de alumínio, tabela periódica o coração.
Num piscar de olhos com vaselina nos penetra (com)
seu vocabulário (exíguo) e uma ou outra frase-feita:
utópico, ilusório; esquece o tango e canta bolero.
O quadro, viva efeméride, é completado por um cavalo
matungo: anca que exibe o Santo Graal, anca que
exibe o selo chamejante do Averno: e justo no
meio o Unigênito ginete da foice.
A MORTE RETIRA A MÁSCARA, A CARA,
O CRÂNIO, O NADA, E SURGE O BOM DEUS
Entrego-lhe
a moeda
de cobre
que trago
debaixo da
língua.
O Bom
Deus
põe-se
a rir e
me tira
a folharada
que tenho
na cabeça,
umas lianas
no olhar,
um resto
de barro
na fronte,
o esterno,
e dos
mamilos
aos lábios.
Traduções: Claudio Daniel e Luiz Roberto Guedes
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
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