domingo, 1 de agosto de 2021

NOVOS CURSOS EM AGOSTO

 












Querid@s, no mês de agosto, teremos dois novos cursos:

1) Em Poéticas Orientais, estudaremos poesia japonesa -- o haiku (ou haicai), o tanka e o teatro nô. As aulas online serão às terças-feiras, das 20h às 21h30;
2) A Poesia e os Orixás, curso em que estudaremos os 16 principais orixás, seus mitos e cantigas. As aulas serão às quartas-feiras, das 18h às 19h45.
Caso alguém tenha interesse em participar, por favor, entre em contato comigo.
E-mail: claudio.dan@gmail.com
Whatsapp: (11) 9 4878-2488

PROGRAMAÇÃO DO LABORATÓRIO DE CRIAÇÃO POÉTICA DE 09 A 14 DE AGOSTO

 


















Segunda-feira, 09 de agosto
18h30: Escola de escrita criativa: O neobarroco
20h: Brasil: que país é este?

Terça-feira, 10 de agosto
18h: Oficina (Skype)
20h: Poéticas Orientais: A poesia japonesa

Quarta-feira, 11 de agosto
18h30: A Poesia e os Orixás
20h:Deus e o Diabo na Comédia de Dante

Quinta-feira, 12 de agosto
20h: Rebeldes & Malditos: Ezra Pound

Sexta-feira, 13 de agosto
18h: Oficina (Skype)

Sábado, 14 de agosto
15h: Viagem Fantástica: O retrato de Dorian Grey

TODAS AS AULAS SÃO MINISTRADAS POR CLAUDIO DANIEL

QUATRO POEMAS DE DIRCE CARNEIRO

 












A PELE QUE HABITO

Invólucro da matéria

embrulha meus ossos

músculos, nervos

a carne do ser

 

A pele que me habita

poros do mundo

absorve a matéria

em todos os sentidos

dias cheios de opostos

 

A pele que me habita

envolve tempos

incertos

 

VIDA E MORTE

 

Exorcizo o medo

voo sobre a cidade

vidas desconfiadas vagam

emudecidas

a fala é ponte ao perigo

 

Dar as mãos é proibido

o andar é solitário

viver ou morrer, aleatório

mesmo tendo feito opção

 

Despedidas tristes

humanos vão

sozinhos daqui

do inferno –

para onde?

Recolho as asas

pouso na janela

último olhar

lá fora

 

Já confundo

o imaginário projetado

na tela cibernética

no livro aberto

as notícias planetárias

 

com o mundo após a janela

 

 TAÇA INGLÓRIA

A noite entrou

não há lua nem estrelas

os símbolos

as letras

o canto

são meros bibelôs.

 

Sonhos repousam num barco

no fundo do mar.

águas turvas agitam o mar

há vermelho borbulhando

e não é o néctar vital

nas veias do oceano

é o sangue das artérias

do corpo desfeito

das palavras surdas

é o sangue

da insensatez

da vileza

 

Casacas brindam

o luto cravado

nos corações de muitos

são loucos

tolos

 

Nada a celebrar

não há ganho

perdeu-se o elã

do mapa desenhado

 

Não pode haver brinde

quando a conquista é vil

quando se cravou

um punhal na crença

 

Lá fora...aqui dentro...

não há regozijo

os que brindam

olham para as masmorras

para as correntes

para o corpo infantil prostituído,

para corpos aviltados

para os que dormem na sarjeta,

para o nosso ouro que se foi

e que ainda irá

 

Não há ganhos.

Quando se é um

a vitória é de todos...

e a derrota também.

Que será?

 

EM CÓDIGOS DESCE O VÉU

contorno a penumbra da noite

véu de chuva esmaece o dia

som de trovões acorda de sonhos

raios lampejam, só tênue chama

 

sugestão da névoa em riscos molhados

toda vida envolta nas incertezas

unir pontos de chuva em labirinto

a saída, molhar-se, enlamear-se

 

lavar-se nas mesmas gotas de barro

tornear-se nas mãos umedecidas

pés no pedal, novo em formatação

atenção nas filigranas, detalhes

 

o diabo mora nos sutilezas

preencher frestas com dedo certeiro

por à unha, inscrição do mais secreto

cravar com sangue o Sol que se avizinha

 

OPERETA

 

Maneirismo,

batuque na mesa.

mesóclise à la Jânio,

olha para trás.

Avisa:

é duro,

dedo em riste

vai e vem,

ligeiro,

golpe certeiro.

Aviso aos bandidos:

conheço-os bem,

vadios,

cercam-me,

sirvam–me

fiéis.

Sei o cheiro da traição,

de longe.

Pois eu sou.

Somos.

Pares da mesma dança

Acorrentados.

Peito a peito,

cuspe de um

é o de outro.

lambe o chão

que seu rei pisa.

Deposita no painel

o voto da vergonha.

 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

SÉTIMO OLHO

 


 










dias-cutelo

de escuros dentro

flor de loucura

ou apenas corrosão

pele-nervos

pele-ossos

aquilo que canta dentro

na sombra

esterco a origem do mundo

a grande cloaca

do mundo

o ganido de cães

e pedras podres

outro eu, esqueleto de mim

escuros dentro

palavras ásperas

como lascas

temor tumulto

asco de tudo

no lado de fora

do crânio

escuros, desencaixe

de tudo, algaravias

o osso do agora

teus olhos

em meus lábios

folhas trêmulas

ao vento

e um dia,

revolução

Claudio Daniel, julho / 2021

 

 

 

SEXTO OLHO

 









SEXTO OLHO

olho na pétala da flor

olho na pluma da arara vermelha

olho na pétala da flor

olho na pluma da arara vermelha

o canto do nambu

e a nebulosa cabeça de cavalo

o canto do nambu

e a nebulosa cabeça de cavalo

o canto do agapanto

e o luzeiro azulino da cauda do pavão

o canto do agapanto

e o luzeiro azulino da cauda do pavão

olho na pétala da flor

olho na pluma da arara vermelha

olho na pétala da flor

olho na pluma da arara vermelha

o canto do nambu

e a nebulosa cabeça de cavalo

o canto do nambu

porque o teu nome queima em meus olhos

baobás indenes remanência

porque o teu nome queima em meus olhos

baobás indenes remanência

olho na pétala da flor

olho na pétala da flor

olho na pétala da flor

 

Claudio Daniel, julho / 2021

 

 

QUINTO OLHO

 


riscante

riscante, faiscante

furiais, furiais

percorre a luz

percorre, repercorre

percorre a luz

por isso dançamos

por isso dançamos

riscante

riscante, faiscante

furiais, furiais

percorre a luz

por isso dançamos

por isso dançamos

olhos sem línguas

línguas sem olhos

eritrinas esfumadas

eritrinas, eritrinas

repercorre a luz

por isso dançamos

por isso dançamos

furentes, furiais

eritrinas esfumadas,

eritrinas, eritrinas

repercorre a luz

farripas, faúlhas

favilas, eritrinas

repercorre a luz

por isso dançamos

 

Julho /  2021

 

 

quinta-feira, 29 de julho de 2021

QUARTO OLHO

  


Para Scheila Sodré

À beira

do arco-íris

de possibilidades,

leão amarelo

desfolha

lua nova;

vento verde

assopra

dentes-de-leão.

A língua

da meia-noite

se enrosca

nos dedos  

do meio-dia;

teus olhos-

lakhsmi

encontram

meus lábios-

yamuna.

Um sol bruxo

sobre girassóis;

centopeias

piscam pálpebras

num átimo

de segundo.

Flor-esmeralda

adorna

teu cabelo.

E até o fim

do mundo,

no asperamente

da civilização

em ruínas,

meu braço

em tua cintura.

 

Claudio Daniel, julho / 2021

TERCEIRO OLHO

 

 


Para Henri Michaux

Galho retorcido

de árvore

corcunda.

Cabeças

cúbicas

de formigas.

Paisagem

de margens mudas

onde o vento

sopra

ao contrário.

Onde as pedras

não são mais pedras.

Ninguém vive

aqui.

Aranhas tecem teias

nos meus

pesadelos.

Salamandra procria

no fundo

de meu olho direito.

Este não é o Olho de Buda.

Paisagem construída

com dedos

e unhas

de mortos;

com a pele,

cabelos

e olhos

de mortos.

Meu pai,

um mapa borrado;

minha mãe,

bússola

sem ponteiros;

eu mesmo,

pedra negra

no tabuleiro

de xadrez.

Apenas sombras

uivam.

Tudo tão pesado,

tão pesado,

âncora de pensamentos.

Tudo tão

detestável.

Por que as geleiras,

por que os abismos?

Faca desenha círculos

concêntricos

na água estagnada,

à esquerda

de lugar algum.

Este não é o Olho de Shiva.

Formas desfiguradas

em farrapos.

Essa escada que não leva

a parte alguma.

Palavras, palavras, palavras

já não fazem mais

sentido.

Silêncio.

Depois, espectros escrotos

em alto-falantes

anunciam a morte

de Deus.

O terceiro olho

então

se abre.

 

Claudio Daniel, julho / 2021

SEGUNDO OLHO

 

 SEGUNDO OLHO

Minúsculos cães inauguram o inverno.

A rosa dos ventos está morta.

Rasgada entranha.

Ângulos agudos enlouquecem

e a noite, como um palhaço de circo,

esfaqueia as nuvens.

O reflexo da lua em um prato vazio.

Homens de barro marcham nas ruas

com uniformes verde-oliva:

inânimes ou brutais;

poros ou pedras,

veias petrificadas como esqueletos

de sáurios;

cruéis como a noite branca;

inúteis como lesmas brancas;

rutilam, estridentes,

como flores artificiais

feitas de iniquidade.

No princípio era o estranho

refém do futuro

um rio escuro sem nome,

alguém sem cabeça;

depois, a serpente devorou

a si mesma.

Um sussurro me disse o teu nome,

o teu lindo nome,

escrito no livro da terra,

e nós lutaremos contra o Não.

 

Claudio Daniel, julho / 2021