Querid@s, no mês de agosto, teremos dois novos cursos:
"Só o raro me interessa, na era da banalidade"
Querid@s, no mês de agosto, teremos dois novos cursos:
A
PELE QUE HABITO
Invólucro da matéria
embrulha meus ossos
músculos, nervos
a carne do ser
A pele que me habita
poros do mundo
absorve a matéria
em todos os sentidos
dias cheios de opostos
A pele que me habita
envolve tempos
incertos
VIDA
E MORTE
Exorcizo o medo
voo sobre a cidade
vidas desconfiadas vagam
emudecidas
a fala é ponte ao perigo
Dar as mãos é proibido
o andar é solitário
viver ou morrer, aleatório
mesmo tendo feito opção
Despedidas tristes
humanos vão
sozinhos daqui
do inferno –
para onde?
Recolho as asas
pouso na janela
último olhar
lá fora
Já confundo
o imaginário projetado
na tela cibernética
no livro aberto
as notícias planetárias
com o mundo após a janela
TAÇA INGLÓRIA
A noite entrou
não há lua nem estrelas
os símbolos
as letras
o canto
são meros bibelôs.
Sonhos repousam num barco
no fundo do mar.
águas turvas agitam o mar
há vermelho borbulhando
e não é o néctar vital
nas veias do oceano
é o sangue das artérias
do corpo desfeito
das palavras surdas
é o sangue
da insensatez
da vileza
Casacas brindam
o luto cravado
nos corações de muitos
são loucos
tolos
Nada a celebrar
não há ganho
perdeu-se o elã
do mapa desenhado
Não pode haver brinde
quando a conquista é vil
quando se cravou
um punhal na crença
Lá fora...aqui dentro...
não há regozijo
os que brindam
olham para as masmorras
para as correntes
para o corpo infantil prostituído,
para corpos aviltados
para os que dormem na sarjeta,
para o nosso ouro que se foi
e que ainda irá
Não há ganhos.
Quando se é um
a vitória é de todos...
e a derrota também.
Que será?
EM
CÓDIGOS DESCE O VÉU
contorno a penumbra da noite
véu de chuva esmaece o dia
som de trovões acorda de sonhos
raios lampejam, só tênue chama
sugestão da névoa em riscos molhados
toda vida envolta nas incertezas
unir pontos de chuva em labirinto
a saída, molhar-se, enlamear-se
lavar-se nas mesmas gotas de barro
tornear-se nas mãos umedecidas
pés no pedal, novo em formatação
atenção nas filigranas, detalhes
o diabo mora nos sutilezas
preencher frestas com dedo certeiro
por à unha, inscrição do mais secreto
cravar com sangue o Sol que se avizinha
OPERETA
Maneirismo,
batuque na mesa.
mesóclise à la Jânio,
olha para trás.
Avisa:
é duro,
dedo em riste
vai e vem,
ligeiro,
golpe certeiro.
Aviso aos bandidos:
conheço-os bem,
vadios,
cercam-me,
sirvam–me
fiéis.
Sei o cheiro da traição,
de longe.
Pois eu sou.
Somos.
Pares da mesma dança
Acorrentados.
Peito a peito,
cuspe de um
é o de outro.
lambe o chão
que seu rei pisa.
Deposita no painel
o voto da vergonha.
dias-cutelo
de escuros
dentro
flor de
loucura
ou apenas corrosão
pele-nervos
pele-ossos
aquilo que
canta dentro
na sombra
esterco a
origem do mundo
a grande
cloaca
do mundo
o ganido de
cães
e pedras
podres
outro eu,
esqueleto de mim
escuros
dentro
palavras
ásperas
como lascas
temor
tumulto
asco de
tudo
no lado de
fora
do crânio
escuros,
desencaixe
de tudo,
algaravias
o osso do
agora
teus olhos
em meus
lábios
folhas
trêmulas
ao vento
e um dia,
revolução
Claudio
Daniel, julho / 2021
SEXTO OLHO
olho na pétala da flor
olho na
pluma da arara vermelha
olho na
pétala da flor
olho na
pluma da arara vermelha
o canto do
nambu
e a
nebulosa cabeça de cavalo
o canto do
nambu
e a
nebulosa cabeça de cavalo
o canto do agapanto
e o luzeiro azulino da cauda do pavão
o canto do agapanto
e o luzeiro azulino da cauda do pavão
olho na
pétala da flor
olho na
pluma da arara vermelha
olho na
pétala da flor
olho na
pluma da arara vermelha
o canto do
nambu
e a
nebulosa cabeça de cavalo
o canto do
nambu
porque o teu nome queima em meus olhos
baobás
indenes remanência
porque o teu nome queima em meus olhos
baobás
indenes remanência
olho na
pétala da flor
olho na
pétala da flor
olho na
pétala da flor
Claudio Daniel, julho / 2021
riscante
riscante, faiscante
furiais, furiais
percorre a luz
percorre, repercorre
percorre a luz
por isso dançamos
por isso dançamos
riscante
riscante, faiscante
furiais, furiais
percorre a luz
por isso dançamos
por isso dançamos
olhos sem línguas
línguas sem olhos
eritrinas esfumadas
eritrinas, eritrinas
repercorre a luz
por isso dançamos
por isso dançamos
furentes, furiais
eritrinas esfumadas,
eritrinas, eritrinas
repercorre a luz
farripas, faúlhas
favilas, eritrinas
repercorre a luz
por isso dançamos
Julho / 2021
Para Scheila Sodré
À
beira
do
arco-íris
de
possibilidades,
leão
amarelo
desfolha
lua
nova;
vento
verde
assopra
dentes-de-leão.
A
língua
da
meia-noite
se
enrosca
nos
dedos
do
meio-dia;
teus
olhos-
lakhsmi
encontram
meus
lábios-
yamuna.
Um
sol bruxo
sobre
girassóis;
centopeias
piscam
pálpebras
num
átimo
de
segundo.
Flor-esmeralda
adorna
teu
cabelo.
E
até o fim
do
mundo,
no
asperamente
da
civilização
em
ruínas,
meu
braço
em
tua cintura.
Claudio
Daniel, julho / 2021
Para Henri Michaux
Galho
retorcido
de
árvore
corcunda.
Cabeças
cúbicas
de
formigas.
Paisagem
de
margens mudas
onde
o vento
sopra
ao
contrário.
Onde
as pedras
não
são mais pedras.
Ninguém
vive
aqui.
Aranhas
tecem teias
nos
meus
pesadelos.
Salamandra
procria
no
fundo
de
meu olho direito.
Este
não é o Olho de Buda.
Paisagem
construída
com
dedos
e
unhas
de
mortos;
com
a pele,
cabelos
e
olhos
de
mortos.
Meu
pai,
um
mapa borrado;
minha
mãe,
bússola
sem
ponteiros;
eu
mesmo,
pedra
negra
no
tabuleiro
de
xadrez.
Apenas
sombras
uivam.
Tudo
tão pesado,
tão
pesado,
âncora
de pensamentos.
Tudo
tão
detestável.
Por
que as geleiras,
por
que os abismos?
Faca
desenha círculos
concêntricos
na
água estagnada,
à
esquerda
de
lugar algum.
Este
não é o Olho de Shiva.
Formas
desfiguradas
em
farrapos.
Essa
escada que não leva
a
parte alguma.
Palavras,
palavras, palavras
já
não fazem mais
sentido.
Silêncio.
Depois,
espectros escrotos
em
alto-falantes
anunciam
a morte
de
Deus.
O
terceiro olho
então
se
abre.
Claudio
Daniel, julho / 2021
Minúsculos
cães inauguram o inverno.
A
rosa dos ventos está morta.
Rasgada
entranha.
Ângulos
agudos enlouquecem
e
a noite, como um palhaço de circo,
esfaqueia
as nuvens.
O
reflexo da lua em um prato vazio.
Homens
de barro marcham nas ruas
com
uniformes verde-oliva:
inânimes
ou brutais;
poros
ou pedras,
veias
petrificadas como esqueletos
de
sáurios;
cruéis
como a noite branca;
inúteis
como lesmas brancas;
rutilam,
estridentes,
como
flores artificiais
feitas
de iniquidade.
No
princípio era o estranho
refém
do futuro
um
rio escuro sem nome,
alguém
sem cabeça;
depois,
a serpente devorou
a
si mesma.
Um
sussurro me disse o teu nome,
o
teu lindo nome,
escrito
no livro da terra,
e
nós lutaremos contra o Não.
Claudio
Daniel, julho / 2021