quarta-feira, 28 de julho de 2021

LÍNGUA

 


      Para Scheila Di Sodré

água-verde-água-

olho-d’água-

olho-ilha-

leonino-olho-

de-canção

luzeiro-azulino-

em-faúlha-de-

olho-mel-

furnas-de-amor-

violáceo-

cachoeira-d’oxum-

apará-

olho-d’água-

olho-ilha-

d’oxum-

apará-

-campânula-

vermelha-

amor-

vermelho

melusino-

vermelho-

amor-

-s’incendeia-

s’incandesce

nos-interstícios-

símiles-

de-um-sol-

em-outro-sol-

símiles-do-sol

em-língua-do-rio-

miúra-

em-língua-do-rio-

mudra-

em-língua-do-rio-

miçanga-

em-língua-do-rio-

mandril

em-língua-

do-ele-apaixonado-

por-ela-

do ele-cismado-

nas-cismas-dela-

em-águas-

de verde-água-

olho-d’água-

do-rio

olho-ilha-do-leão-

rilhante-

que-esfervilha-

em-amor-de-amor-

desse-átimo-de-

instante-

arroxeada-eritrina

até-o-último-inifinito

depois-

do-infinito

 

Claudio Daniel

Julho de 2021

 

PRIMEIRO OLHO



 









Água escura,

excessiva, cai

sobre cabeças de alfinete;

somos minúsculos pontos

borrados, quase invisíveis.

Ruídos esfiapados de metais

somam–se aos gritos

estilhaçados da noite.

Caminhamos dessa rua

a outra rua, entre dedos

de árvores e mariposas

epidérmicas, mas nada vemos:

nem as flores das ameixeiras,

nem os fios estorricados;

estamos cegos, talvez meio mortos,

como diabos frios no redemoinho.

Quando amanhece, mundo

recém-criado e mudo,

o olho curvo do pesadelo

mira espectros quase nus

roendo restos de ossos

na porta do açougue.

Xangô Oluaxô,

venha com seu machado

de duplo gume.


Claudio Daniel, julho / 2021


quarta-feira, 16 de junho de 2021

A POESIA E OS ORIXÁS

 












A POESIA E OS ORIXÁS é o tema de duas palestras de Claudio Daniel que acontecerão nos dias 25 de junho e 02 de julho (sextas-feiras), das 20h às 21h30, via Google Meet. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com ou pelo Whatsapp (11) 9 4878-2488.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

UIVO, DE ALLEN GINSBERG

 








Para Carl Solomon*

I

Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pela
loucura, famintas histéricas nuas,
a arrastarem‐se na aurora pelas ruas de negros em busca de uma
dose feroz,
gingões de angélicas cabeças ardendo pelo velho contacto celeste
com o dínamo estelar na maquinaria da noite,
que de miséria e andrajos e olhos cavos e alucinados se sentavam
a fumar na penumbra sobrenatural de quartos de águas frias
flutuando pelos cumes das cidades contemplando o jazz,
que esventravam os cérebros aos céus sob a ascensão do metropo‐
litano e viam anjos maometanos ziguezagueando nos telha‐
dos de prédios iluminados,
que passavam pelas universidades com olhos de radiante lonjura
a alucinar o Arkansas e a tragédia à luz de Blake entre os
catedráticos da guerra,
que eram expulsos das academias por demência & publicarem
odes obscenas nas janelas do crânio,
que se agachavam em quartos com a barba por fazer em roupa
interior a queimar dinheiro nos cestos de papéis e a escutar
o Terror através da parede,
que eram filados pelas barbas púbicas quando regressavam via
Laredo com marijuana à cintura para Nova Iorque,
que comiam fogo em pensões esconsas ou bebiam aguarrás no
Beco do Paraíso, a morte, ou batiam com as costas no pur‐
gatório noite após noite,
com sonhos, com drogas, com pesadelos acordados, álcool, pica,
piças, bolas sempre a abrir,
incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvens convulsas e relâm‐
pagos na mente galgando aos polos de Canadá & Paterson,
iluminando o mundo todo imóvel do Tempo entre,
solidezes de átrios sob peiote, madrugadas sepulcrais de árvores
verdes de quintais, bebedeira de vinho nos telhados, mon‐
tras de bairros comerciais a tripar com a moca no semáforo
piscando de néon, vibrações de sol e lua e árvores nos cre‐
púsculos de inverno e vendavais de Brooklyn, vociferações
sobre latas de cinza e lixo e o sopro brando soberano fulgor
da mente,
que se amarravam aos metros para a interminável viagem desde a
Battery ao santo Bronx anfetaminados até o barulho das
rodas e crianças os trazer à terra convulsos de bocas esco‐
riadas e esfolados de cérebro todos escorridos de brilho à
fera luz da estação terminal do Zoo,
que se afundavam a noite toda à luz submarina de um Bickford’s
daí flutuando e ficando pela tarde de cerveja choca no triste
Fugazzi’s, escutando o estrondo do Juízo Final na jukebox
de hidrogénio,
que falavam sem parar setenta horas dos parques aos apartamen‐
tos ao bares ao Hospital Bellevue ao museu à Ponte de
Brooklyn,
um batalhão perdido de conversadores platónicos saltando o gra‐
deado das escadas de incêndio dos parapeitos de janelas do
Empire State além da Lua,
patati‐patateando gritando vomitando sussurrando factos e memó‐
rias e anedotas e tripes oculares e choques elétricos dos
hospitais das cadeias das guerras,
intelectos inteiros regurgitados em recordação total durante sete
dias e noites de olhos brilhantes, carne para a Sinagoga ati‐
rada à calçada,
que desapareciam para a Terra do Nunca da Nova Jérsia Zen dei‐
xando um rasto de ambíguos postais ilustrados da Assem‐
bleia Municipal de Atlantic City,
sujeitando‐se aos suores orientais e aos ossos triturados em Tân‐
ger e às enxaquecas na China sob uma ressaca de droga no
quarto desmobilado de Newark,
que deambulavam em círculos à meia‐noite pelos depósitos das
locomotivas incertos sobre onde ir, e iam, sem corações
despedaçados atrás de si,
que acendiam cigarros em vagões vagões vagões resvalando pela
neve para solitárias fazendas na noite do avô,
que estudavam Plotino Poe São João da Cruz telepatia e cabala‐
‐bop visto que o cosmos vibrava instintivamente aos seus
pés no Kansas,
que vagueavam sozinhos pelas ruas de Idaho buscando anjos ín‐
dios visionários que eram anjos índios visionários,
que se julgavam apenas loucos quando de Baltimore dimanava
um êxtase sobrenatural,
que saltavam para dentro de limusinas com o chinês de Oklahoma
no impulso da chuva invernal dos lampiões na meia‐noite
provinciana,
que se espraiavam famintos e solitários por Houston buscando
jazz ou sexo ou sopas, e iam atrás do deslumbrante latino
para conversar sobre a América e a Eternidade, uma tarefa
inútil, pelo que embarcavam para África,
que desapareciam nos vulcões do México sem deixar nada para
trás senão a sombra de umas jardineiras de ganga e a lava e
a cinza da poesia pelo braseiro de Chicago,
que reapareciam na Costa Oeste a investigar o FBI de barbas e
bermudas com grandes olhos pacifistas tão sensuais na sua
pele morena a estender folhetos incompreensíveis,
que queimavam buracos de cigarros nos braços a protestar contra
a tabágica neblina narcótica do Capitalismo,
que distribuíam panfletos Supercomunistas na praça pública de
Union Square lacrimejando e despindo‐se enquanto as sire‐
nes bombásticas de Los Alamos os desalmavam, reverbe‐
rando nos muros de lamentações de Wall Street, e também
a balsa de Staten Island se lamuriava,
que se debulhavam em lágrimas em ginásios brancos nus e tre‐
mendo diante da maquinaria dos outros esqueletos,
que mordiam o pescoço de agentes da polícia e guinchavam de
prazer nos carros da polícia por não cometerem crime que
não fosse a sua própria pederastia e intoxicação a fervilhar
de loucura,
que uivavam de joelhos no metro e eram arrastados pelo tejadilho
a acenar com genitais e manuscritos,
que deixavam que motociclistas devotos lhes comessem o cu e
urravam de alegria,
que chupavam e eram chupados por esses serafins humanos, os
marinheiros, carícias de amor atlântico e caribenho,
que pinocavam de manhã de tarde nos jardins de rosas e na relva
dos parques públicos e dos cemitérios espalhando livremen‐
te o sémen a quem calhasse vir,
que soluçavam sem parar a tentar rir mas acabavam a ganir por
trás dum biombo num banho turco quando o anjo louro &
nu chegava para os trespassar com uma espada,
que perdiam os namorados para as três velhas megeras do destino,
a megera zarolha do dólar heterossexual a megera zarolha
que pisca o olho do ventre e a megera zarolha que se senta
somente com o cuzinho quente e tece os fios de ouro inte‐
lectuais do tear artífice,
que copulavam em êxtase e insaciáveis com uma garrafa de cerve‐
ja uma miúda amorosa um maço de cigarros uma vela e
caíam da cama, e continuavam pelo soalho até ao corredor e
acabavam a desmaiar na parede com uma visão derradeira de
cona e esperma fintando o último fluido fértil da consciência,
que melavam as pássaras de um milhão de miúdas estremecentes
ao pôr do sol, e de manhã tinham os olhos vermelhos mas a
postos de melar a pássara da aurora, de nádegas ao léu de‐
baixo dos celeiros e nus dentro do lago,
que andavam ao ataque pelo Colorado numa miríade de carros
noturnos roubados, Neal Cassady, herói secreto destes poe‐
mas, garanhão e Adónis de Denver — recordação de prazer
das suas inúmeras trepas de miúdas em baldios vazios &
saguões de cafetarias, filas estreitas das salas de cinema, no
cume dos montes em grutas com empregadas de mesa es‐
canzeladas na vulgar ascensão de roupinhas interiores à
beira da estrada & solipsismos especialmente secretos de
lavabos de bombas de gasolina, & ainda nos becos da cida‐
de natal,
que se esvaíam em imensos filmes sórdidos, se mexiam em so‐
nhos, despertavam numa súbita Manhattan, e agarravam em
si para fora de caves ressacados de impiedosas zurrapas e
horrores de sonhos de ferro da Terceira Avenida & tropeça‐
vam para os guichés do desemprego,
que caminhavam toda a noite com os sapatos cheios de sangue nas
docas cobertas de neve aguardando que se abrisse uma por‐
ta no East River para um quarto cheio de vapor quente e
ópio,
que criavam grandiosos dramas suicidas nas margens de fragas de
apartamentos do Hudson sob o holofote bélico do clarão
azul da Lua & terão um dia as cabeças coroadas de louros
no oblívio,
que comiam o ensopado de borrego da imaginação ou digeriam os
caranguejos do fundo enlameado dos rios da Bowery,
que choravam com as românticas ruas com os seus carrinhos de
mercearia cheios de cebolas e má música,
que se deixavam ficar sentados em caixotes a respirar nas trevas
debaixo da ponte, e acordavam para construírem cravos
temperados nos seus lofts,
que tossiam no sexto andar de Harlem coroados de chamas sob o
tísico céu rodeados de teologia em grades de laranjas,
que rascunhavam pela noite fora embalados de rock and roll com
louvores às alturas que na manhã amarela eram estrofes mal
paridas,
que cozinhavam animais podres pulmão coração patas cauda
borscht & tortillas sonhando com o reino da pureza vegetal,
que mergulhavam sob os camiões do talho à procura de um ovo,
que atiravam os seus relógios do telhado para depositarem votos
para a Eternidade fora do Tempo, & lhes choverem desperta‐
dores em cima das cabeças todos os dias da década seguinte,
que cortavam os pulsos três vezes consecutivas sem sucesso, de‐
sistiam e se viam obrigados a abrir lojas de antiguidades
onde julgavam estar a envelhecer e choravam,
que eram queimados vivos nos seus fatos inocentes de flanela na
Madison Avenue por entre rajadas de versos de chumbo &
a barulheira enlatada dos férreos regimentos da moda & os
guinchos de nitroglicerina das mariquices da publicidade &
o gás de mostarda dos editores sinistros e inteligentes, ou
eram atropelados pelos táxis embriagados da Realidade Ab‐
soluta,
que saltavam da Ponte de Brooklyn coisa que realmente aconte‐
ceu e desandavam de lá desconhecidos e esquecidos na ne‐
blina espectral dos becos de sopas & de carros de bombeiros
da Chinatown, nem sequer uma cerveja de borla,
que se punham em desespero a cantar à janela, caíam da janela do
metropolitano, saltavam para o imundo Passaic, pulavam
sobre os negros, gritavam por toda a rua, dançavam descal‐
ços sobre copos de vinho em cacos rebentavam discos de
grafonola de jazz alemão nostálgico dos anos 30 acabavam
com o whiskey e vomitavam a grunhir na retrete maldita, os
ouvidos cheios de lamentações e de tremendas sirenes de
vapor,
que desciam a toda a brida as estradas largas do passado viajando
para o turno da cela solitária de velocidade e estrondo e Gól‐
gotas uns dos outros ou encarnação de jazz de Birmingham,
que viajavam pelo país fora setenta‐e‐duas horas sem parar para
descobrir se eu tinha uma visão ou se tu tinhas uma visão ou
se ele tinha uma visão para descobrir a Eternidade,
que viajavam para Denver, que morriam em Denver, que volta‐
vam para Denver & aguardavam em vão, que olhavam por
Denver & amuavam & se isolavam em Denver e por fim se
iam embora para descobrir o Tempo, & Denver tem agora
saudades dos seus heróis,
que caíam de joelhos em catedrais sem esperança a rezar pela
salvação e a luz e os peitos uns dos outros, até que a alma
iluminava o cabelo por um segundo,
que torpedeavam por dentro das suas mentes na prisão à espera de
impossíveis criminosos de douradas cabeças e o encanto da
realidade nos seus corações e que cantavam doces blues a
Alcatraz,
que se retiravam para o México para cultivar um hábito, ou para
as Montanhas Rochosas para servir a Buda ou para Tânger
a rapazes ou para a Southern Pacific à negra locomotiva ou
para Harvard a Narciso ou para o cemitério de Woodlawn à
última floração ou morada,
que exigiam exames de sanidade acusando a rádio de hipnotismo
& eram abandonados à sua insanidade & às suas mãos & a
um júri incapaz de consenso,
que atiravam salada de batata aos conferencistas de dadaísmo da
Universidade de Nova Iorque e subsequentemente se apre‐
sentavam nos degraus de granito do manicómio com cabe‐
ças rapadas e um discurso suicida arlequinado, exigindo
uma lobotomia instantânea,
que recebiam ao invés o vazio concreto de Metrazol insulina ele‐
tricidade hidroterapia psicoterapia terapia ocupacional pin‐
guepongue & amnésia,
que protestando com mau humor derrubavam uma só simbólica
mesa de pinguepongue, repousando por instantes catatónicos,
regressando anos mais tarde absolutamente calvos à exceção de uma
peruca de sangue, e lágrimas e dedos, à visível perdição dos
loucos dos quartos hospitalares das loucas cidades do Leste,
os corredores fétidos dos manicómios de Pilgrim State e Rockland
e Greystone, gotejando com os ecos da alma, embalando‐se
de rock and roll nos domínios notívagos de dólmenes e ban‐
cos de solidão do amor, sonho de vida de um pesadelo, cor‐
pos transformados em pedra tão pesados como a Lua,
com a mãe finalmente ******, e o último livro lunático atirado da
janela do pardieiro, e a última porta fechada às quatro da
manhã, e o último telefone lançado à parede em resposta e o
último quarto mobilado despido até ao último pedaço de mo‐
bília mental, uma rosa amarela de papel retorcida num cabide
de arame no armário, e também isso era só imaginário, nada
além de um bocadinho esperançoso de alucinação —
ah, Carl, enquanto não estiveres a salvo eu não estou a salvo, e
agora nadas realmente na canja absoluta do tempo —
e que por conseguinte corriam pelas ruas cobertas de gelo obceca‐
dos com um brusco vislumbre da alquimia do uso das reti‐
cências da enumeração da métrica & do plano vibratório,
que sonhavam e abriam brechas incarnadas no Tempo & Espaço
por meio de imagens justapostas, e encurralavam o arcanjo
da alma entre 2 imagens visuais e juntavam os verbos ele‐
mentares e uniam o substantivo e o travessão da consciência
galgando com a sensação de Pater Omnipotens Aeterne Deus
para recriarem a sintaxe e medida da pobre prosa humana e se
levantarem à vossa frente sem palavras e inteligentes e a
tremer de vergonha, rejeitados e todavia confessando toda a
alma para se conformar ao ritmo do pensamento na sua ca‐
beça nua e interminável,
o louco vagabundo e anjo na batida do Tempo, uma incógnita,
todavia deixando escrito aqui o que talvez fique por dizer no
tempo por vir depois da morte,
e reencarnados se erguiam nas roupas espectrais do jazz na som‐
bra da trombeta dourada da banda e sopravam o sofrimento
da mente nua da América pelo amor até um grito saxofónico
de eli eli lamma lamma sabacthani que arrepiava as cidades
até ao último rádio
com o coração absoluto do poema da vida retalhado da carne dos
seus próprios corpos bom para comer durante mil anos.

Tradução: Margarida Vale de Gato

 

O SUTRA DO GIRASSOL, DE ALLEN GINSBERG



















Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.

 

Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,

 

A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco,[2] nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.

 

Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha–

 

– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake – minhas visões – Harlem

 

e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe,[3] carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –

 

e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas locomotivas em seu olho –

 

corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,

 

folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha,

 

Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!

 

A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,

 

toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira – industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –

 

e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse

 

emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!

 

Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!

 

Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?

 

Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?

 

Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!

 

E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!

 

E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,

 

e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.

 

– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latadas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.

 Berkeley, 1955

 

Tradução: Claudio Willer

Nota: Sutra são textos védicos, de doutrina filosófico-religiosa. O girassol é uma flor-símbolo para Ginsberg, que, na experiência místico-visionária de 1948 em seu apartamento no Harlem, lia o poema Ha! Sun-Flower dos Songs of Experience, quando ouviu a voz do próprio Blake recitando o poema. 

Pode ser uma imagem em preto e branco de 1 pessoa, barba e flor

domingo, 18 de abril de 2021

BRASIL: QUE PAÍS É ESTE?

O curso online BRASIL: QUE PAÍS É ESTE?, ministrado por Claudio Daniel, apresentará um retrato crítico de nossa história, da época colonial até os dias de hoje, a partir de textos de Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Darcy Ribeiro e outros autores. As aulas acontecerão a partir de 10 de maio, sempre às segundas-feiras, das 20h às 21h30, via Google Meet.

Informações e inscrições pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

quinta-feira, 18 de março de 2021

POÉTICAS ORIENTAIS


 









UMA VIAGEM PELA POESIA DA ÍNDIA, CHINA, COREIA E JAPÃO.

Esta é a proposta do curso POÉTICAS ORIENTAIS, ministrado por Claudio Daniel, que acontecerá a partir do dia 13 de abril. Todas as aulas serão online, realizadas via Google Meet, sempre às terças-feiras, no horário das 20h às 21h30, e incluem apostilas e bibliografia.. Durante os encontros, com duração de um semestre, serão discutidos temas como as bases filosóficas da poesia e da arte orientais – hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo, xintoísmo --, temas e formas poéticas praticadas em cada uma dessas literaturas, seus autores e obras principais, com a leitura de traduções poéticas feitas a partir dos textos originais por especialistas renomados e obras teóricas de apoio. Se você quiser fazer a sua inscrição para participar do curso ou obter mais informações, basta escrever para o professor Claudio Daniel pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

REBELDES & MALDITOS

 











Em março, no curso online REBELLDES & MALDITOS, ministrado por Claudio Daniel, estudaremos a poesia de Antonin Artaud e Henri Michaux. Nos meses seguintes, estudaremos poetas como Gregory Corso, Allen Ginsberg, Torquato Neto, Bertolt Brecht, Cruz e Sousa, Yi Sáng e muitos outros. Quem tiver interesse em participar, pode falar comigo, pelo Messenger ou pelo e-mail claudio.dan@gmail.com. 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

PROSA AOS SÁBADOS

 









CURSO DE PROSA NARRATIVA. Querid@s, a partir de 20 de fevereiro, darei aulas on line aos sábados, das 15h às 16h30, sobre textos de Franz Kafka, Machado de Assis, Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector e outros autores. Quem tiver interesse em se inscrever ou obter mais informações, pode me escrever pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

ROMANCEIRO DE DONA VIRGO (FRAGMENTO)

 










(Ária de Wolfram)


     Tudo é um livro de viagens. Com fotografias de meninos e cavalos-marinhos, pássaros e pianos, garrafas de cerveja e pincéis. Sempre é possível, no pequeno barracão de feira, brincar de marinheiro e esgrimista. Tatuar o torso da formiga ou masturbar-se em jornais velhos. Assobiar outro noturno de Chopin. Incendiar uma lágrima. Jardins e camaleões, pérolas e madrepérolas, tudo são palavras secretas. Vivemos na encantação.      Somos todos peles-vermelhas, girafas sonâmbulas, relógios mecânicos, vagões de metrô. Quando eu era adolescente, tracei com o canivete círculos na face. O meu nome então era “Eu Sou o Enforcado”. Usava brincos de ouro nas orelhas e um lenço vermelho sobre a testa. Gostava de calças velhas, blusões de couro e pesados coturnos. Amava fantasiar-me de cigano, bucaneiro ou tuaregue. Papai não gostava. Implicava com os meus disfarces. Com o tempo, cansei de imitar esqueletos e motociclistas. Quis ser paisagens. Fiz-me deserto e iceberg, aurora boreal e piscina selvagem. Certa vez, pintei o rosto de azul e raspei as sobrancelhas. Queria me vestir de “O Mais Profundo Céu”. Papai não gostou nem um pouco.      Ele, que era um diploma afogado em uísque com sorriso de impecável lagartixa e um relógio de pulso derretido dentro do crânio. Gárgula com frio suor de réptil esmeraldino, papai invocou desolados cenários bíblicos, a foto de mamãe amarelada na gaveta fúnebre. Ouvi sua voz de tenor enlouquecido, voz de galo azul e alvorada, e senti o peso de sua pata de urso em minhas costas de galápago. Depois, o telefone trouxe o carro que me levou a um lugar branco com  flores do campo, cheiro de iodo e novelas de Franz Kafka. Fui levado a um quarto escuro onde caras fodidos como lutadores de jiu-jítsu me espetaram com seringas e alfinetes de cenobita. Eles queriam que eu fosse um roteiro previsível de melodrama, com sorriso de plástico e girassol enfiado na lapela do paletó sombrio. Sim, eles eram nigromantes e queriam transmutar-me em orquídea, em peixe ornamental de restaurante japonês com afiladas barbatanas. Eles me trancaram na jaula de um navio holandês no mar imóvel de uma noite africana. Tatuaram meus olhos com escunas e cetáceos e ataram meus punhos com as tripas de um leão. Fumaram havanas e apagaram os tocos em meu tronco, incêndio de pequenos sóis, inscrições nas corcovas do camelo. Unhas manchadas de preto, boca lacerada e tez amarela de defunto, juntei meus ossos e nervos e costurei com a pele da raposa. Dor metalizada em touro, setas cravadas nas costas, escavei o chão com as patas e o focinho, híbrido animal de pequenos olhos vermelhos.     Assim o tempo vertical de um verde escuro, sinistra arquitetura de braços fluidos que cresciam nos lençóis e agarravam os meus pés. Vozes ruivas de esfinges e medusas me curravam com cápsulas e haldol, eu era o zumbi da orquestra noturna de espectros e mongóis. Urrava o azul de minha boca, riscava os pulsos com lascas de vidro e arranhava as paredes do crânio em formol. Então, Ela, a Menina da Fronteira, sorriu para mim com o desenho de figuras espiraladas em seus lábios, e ouvi sua voz de taumaturga. Havia uma porta atrás do espelho, com um corredor de mãos que puxavam meus cabelos. Segurei firme a ventosa e bebi a última gota. Conversei com os mortos, como se fossem vivos, e aceitei sua versão dos fatos. Fiz-me coisa entre coisas, sombra entre muitas sombras. Menti acreditar no que mentiam. Fingi ser um boneco mecânico, até ser declarado são. Agora, eles não podem mais me machucar. Certo dia, acordei na manhã esquálida, escovei os cabelos molhados e vesti a camisa dos humanos. Ela, a Menina da Fronteira, ainda estava sorrindo para mim quando papai assinou a folha do cheque antes de levar-me de volta para casa. Cinco anos se passaram, levei comigo algumas cicatrizes e o Livro de Sonhos com as páginas em espiral borrifadas de estrelas.


      — Estou tentando, estou tentando entender, ela respondeu com a pele e a voz, em timbre vegetal, escuro, quase mudo.


(Fragmento do conto Fantasmas não bebem coca-cola, de Claudio Daniel)

domingo, 24 de janeiro de 2021

CENSURA NO FACEBOOK

 Estou bloqueado por uma semana no Facebook, rede social de propriedade do sionista norte-americano Zuckemberg, por ter publicado uma foto de Francesca Woodman, que supostamente viola os "padrões da comunidade" por causa de seu "conteúdo sexual" (sic). Bela liberdade, essa do capitalismo...  

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

INFERNO BRASIL

 

O resultado do segundo turno das eleições municipais de 2020 nas capitais brasileiras aponta para a crise do bolsonarismo, mas também da esquerda institucional brasileira. Este fato merece reflexão. Bolsonaro já cumpriu a missão histórica oferecida a ele pelas elites brasileiras, em especial aquelas ligadas ao oligopólio da mídia, ao latifúndio, à grande indústria e ao capital financeiro:  destruir direitos trabalhistas e previdenciários, precarizar as relações de trabalho, reduzir os investimentos públicos em educação e saúde, retomar a pauta privatista de Collor e FHC, conduzir uma contrarreforma agrária, ampliando as garras do agronegócio em áreas ambientais, reservas indígenas e quilombolas, sem o menor respeito a políticas ambientais, golpear os sindicatos e estigmatizar a esquerda, que assistiu a toda essa tragédia impotente e perplexa, para não dizer acovardada. 

No plano internacional, Bolsonaro submeteu o Brasil aos interesses políticos e econômicos dos Estados Unidos, reduzindo nosso país à condição de semicolônia, ao mesmo tempo que se aproximou dos governos mais reacionários do mundo, como Hungria, Ucrânia, Arábia Saudita e Israel, com quem compartilha as pautas misóginas, homofóbicas, racistas e o fundamentalismo religioso. Agora, Bolsonaro não é mais útil:  após cumprir o seu papel e destruir o legado de treze anos de governos democrático-populares de Lula e Dilma, sua figura caricata já não é necessária: ele afasta investidores internacionais, cria tensões desnecessárias com o novo governo norte-americano e com a China e faz do Brasil motivo de piada mundial. A burguesia colocou em curso, nessas eleições, fortemente influenciadas pela mídia, a transição de poder da extrema-direita para a direita: Bolsonaro perdeu em quase todas as capitais, ao passo que partidos burgueses como o MDB, PSDB, DEM, PDT e PSB ganharam poder e capital político para as eleições presidenciais de 2022, em que figuras apresentadas como "liberais” ou “moderadas”, como Luciano Huck, poderão conduzir um bolsonarismo econômico sem Bolsonaro. 

A esquerda, por sua vez, sofreu uma derrota histórica, fragmentou-se ainda mais e dificilmente estará unida nas próximas eleições. O PCdoB, que perdeu as eleições em Porto Alegre, aposta todas as suas fichas na aliança com partidos burgueses como o PDT e o PSB, sobretudo nos estados do Nordeste, contentando-se com cargos de segundo e terceiro escalão, em nome de uma suposta “frente popular e democrática”, que provavelmente lançará a candidatura do oportunista Ciro Gomes em 2022; o PSOL, apesar de ter marchado junto com o PT em Belém, deve aumentar o seu antipetismo, motivado pelo bom desempenho de Guilherme Boulos em São Paulo, acreditando que dessa forma poderá substituir o PT como principal partido de esquerda no país – política cega e sectária que apenas levará mais água para o moinho da direita; e o PT, embora continue a ser o maior partido político do país em número de filiados, teve a sua influência política seriamente golpeada e se encontra cada vez mais isolado, sobretudo pela forte campanha midiática dirigida contra esse partido desde as falsas acusações do “mensalão” até o golpe de estado de 2016 e a prisão de Lula. O partido precisa se reinventar, a partir das lutas sociais, para voltar a ocupar o seu papel de protagonista no cenário político. 

A perspectiva de curto e médio prazo parece ser a de fortalecimento das políticas neoliberais e aprofundamento da miséria e da destruição da democracia e dos direitos sociais no Brasil. Neste quadro sombrio em que vivemos, uma tarefa é imprescindível: a reconstrução do Partido Comunista, sob a hegemonia do marxismo-leninismo revolucionário.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

OS TAMBORES POÉTICOS DE JOSÉ COUTO


Claudio Daniel


O poeta gaúcho José Couto, autor de livros como A impermanência da escrita (2010, O soneto de Pandora (2017) e O unicórnio do sul e outras lendas poéticas (2019), desenvolve uma interessante pesquisa intersemiótica, envolvendo os recursos da poesia, pintura, canção popular e da animação computadorizada, para envolver todos os sentidos do leitor. Este trabalho poético, realizado com rigor e sensibilidade, invoca ao mesmo tempo as lendas do folclore brasileiro e da mitologia afrobrasileira, numa valorização de nossaa cultura ancestral, tão ameaçada hoje pelo fundamentalismo político e religioso. Esta recuperação do “arcaico” – que nos faz recordar do conceito de Paul Valéry, que via no poeta alguém muito antigo – não acontece, porém, de maneira ingênua, ao contrário: José Couto incorpora o léxico iorubá aos poemas escritos em português, criando expressivos efeitos sonoros e linguísticos, mantém a sutileza e o tom enigmático dos mitos e nos convida a mergulhar no imaginário coletivo de nossa própria cultura, que tanto tem a dizer à nossa inteligência e sensibilidade. Poeta da melodia e do intelecto, que traz para a poesia a reflexão crítica sobre a realidade brasileira, no momento mais difícil de nossa história, o autor gaúcho recupera o sentido do conceito de logopeia, que segundo Ezra Pound significa a “dança do intelecto entre as palavras”. No caso de José Couto, as palavras-de-axé dançam ao som de batás, os tambores tradicionais da nação iorubá. Vamos ler agora alguns poemas desse autor singular, que se destaca pela originalidade no quadro atual da poesia brasileira:


JAGUNJAGUN DE BALÒGUN


jagunjagun de balògun

dançavam o èrúbo


bájà, edún

ija káwó


guerreiros de ifá

saúdam korin kunle


guerreiros de xangô

exaltam òsè ida-oba


a figa lá de olodê

soprou si ori xirê


a estrela lá de ìgamolè

é nosso ìmalè é nosso ìmalè


BENFAZEJA


reza das ajés

iá mi oxorongá

com folhas

da palmeira do dendê

raminho de alegrim

tira do meu peito enxovalhado

quebranto cobreiro

mau-olhado

espinhela caída

vento virado

choro cifrado


beba da água da cachoeira

antes de entrar na casa de oxalá

plante a espada de ógun

se deseja saudar xangô


colha a folha de iróko

depois da lua prateada

ofereça ainda orvalhada

pra nanã euá orunmilá


reza das ajés

com folhas maceradas

mutamba rama de leite

malmequer bravo

arruda e noz de obi


esfrega nas costas

corta na raíz

os pés descalços

guiné orô orim-rim


BOI BARROSO


meu boi barroso

meu boi araçá

tua carroça de palha

tá cheia dos butiás


adeus arambaré barra do ribeiro

tapes e outras trilhas

vou pelo atalho olhar o mar

se me perder


tava relendo cobra norato

lendas do sul

grande sertão

pé de pilão

batata cozida, mingau de cará


se o minuano não assoviar

se o boi barroso da cara preta

não tropeçar na capivara


pé dentro pé fora

digo adeus e noves fora


O AMOR É AZUL, SEGUNDO A TARDE

para Lázara Papandrea


aqueles seus versos

escritos sobre as águas

pela menina

nas nascentes dos rios

desaguaram

suas imagens

e infinitas transparências

na imprecisa manhã

que se insinuou


com as mãos em concha

bebi de tua paz reverberada

nas entrelinhas dos poemas


lavei o rosto dos excessos

e um silêncio ensurdecedor

e desmesurado

derramou em meu peito

uma vertente fugaz


capaz de recolher do vento

e do amor segundo a tarde


algo assim como pássaros azuis

habitantes desse livro

para presentear desconcertante

leitores desavisados


MÁQUINA DO MUNDO


nada se compara a esse entardecer

a lágrima do sol avermelha o rio

sem culpas esculpe desejos no silêncio


mas quem verdadeiramente se importa?


e no entanto essa beleza impregna de avessos

a delicadeza que finda na luz que se despede


tão pouco ofereceu esse dia que parte

talvez um minúsculo fragmento de folha

sendo levada sem rumo

pousou seu desvelo aos meus pés

e depois partiu em frêmito alucinante


mas quem verdadeiramente se importa?


entretanto agora nesse porto

esvaziado de opacidades

desprende cheiros familiares

algo não tangível

porém me escapa seu sentido

se há algum

transborda preso na garganta

do tamanho de um navio atravessado


mas verdadeiramente

alguém se importa?


a escuridão chega

e nos abraça implacável

vislumbro longe

às fragilidades que o mundo sussurra


despido do tempo que o dia me furtou

reparo nas indeléveis cicatrizes

que os cravos dilaceraram no centro das mãos


e nesse exato instante

revela-se a epifania das infinitudes

perfumes óleos avelãs

a mirra o incenso e o indecifrável


subitamente desaguam

desconcertantes


acendo o último cigarro

caminho sobre às águas turvas

anoitecidas sem compaixão


na margem orixás

babalorixás me saúdam

homens e mulheres registram nos celulares

ambulantes oferecem bugigangas


todos aguardam


antes de tocar as pontas dos dedos

na pele úmida do afluxo


uma esfera esdrúxula

circunspecta drummondiana

de cor incerta

emite permanentemente

um mantra stotram

cruza o céu de ponta a ponta

em porto alegre


mas me diga leitor

quem verdadeiramente se importa?


O CARBONO TRANSLÚCIDO


I


só eu vi

luzes turvas do alumbramento

nas dissonâncias

do desamor-imperfeito


só eu li

o sol dentro do verso

fragmentar cristais límpidos

desejos transformados em náufraga


 só eu revivi

a desolada alma do pássaro

gerar a desordem

o poema decifrar o vórtice

desencadear fragrâncias

amorosidade equilibrista


 só eu concluí

escrita extensíssima de ecos

diamante raro lapidado

essência vaporosa da lágrima

frêmito da navalha no lábio

vertendo luz na palavra indizível

revelações materializadas

nas entrelinhas pontiagudas


II


linguagem: abismos dos avessos

forjando inesperadas trilhas

vestígios de nuvens

sussurrando dentro

caos da paixão

amplidões, ressignificados

lapidados, reinventados

tatuados no que nos tocou

profundamente e permaneceu


 alucinando perplexidades

desconcertando sentidos

dissolvendo epifanias

dissipando sobras

encurralando no canto

do mais intrincado labirinto

o leitor vencido, submerso