domingo, 13 de fevereiro de 2022

APOIE A LUTA DO MST!

 










Os trabalhadores rurais do assentamento Ondina Dias, situado no município de Nova Venécia, na região norte do Espírito Santo, reúne 56 famílias e foi afetado de maneira severa pelas chuvas, que causaram a destruição de moradias, camas, lençóis, travesseiros e outras posses dos acampados. Para a aquisição de novas barracas, dar apoio material e prestar solidariedade a esses trabalhadores que lutam pela reforma agrária, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e as companheiras Elaine Dias Cruz e Luciana Bernardes, que iniciaram a campanha, solicitam que sejam feitas doações, conforme os dados bancários abaixo. Grato pelo apoio de todos e todas!

PIX do Hudson

hudison.vialetto@gmail.com

Conta da Elaine Dias Cruz

Agência 0556

Operação  013

Conta 00015673-1 

CPF 132.304.367-50

O comprovante de depósito pode ser enviado para o e-mail elainemorena50@gmail.com.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

UM POEMA DE LAURA RIDING


 









ELEGIA NUMA TEIA DE ARANHA

O que dizer enquanto a aranha 

Dizer enquanto a aranha o que 

Enquanto a aranha a aranha o que 

A aranha faz que o que 

Faz que faz que morre não faz 

Não vive e então não 

Pernas pernas e então nenhuma 

Enquanto a aranha faz morre 

Morte aranha morte 

Ou não a aranha ou 

O que dizer enquanto 

Dizer sempre 

Morte sempre 

O morrer de sempre 

Ou viva ou morta 

O que dizer enquanto eu 

Enquanto eu ou a aranha 

Não eu e eu o que 

Faz o que faz morre 

Não enquanto a aranha morre 

Morte aranha morte 

Morte sempre eu 

Morte antes do sempre 

Morte depois do sempre 

Morta ou viva 

Agora e sempre 

O que dizer agora 

Agora e sempre 

O que dizer agora 

Agora enquanto a aranha 

O que faz a aranha 

A aranha o que morre 

Morre enquanto então enquanto 

Então sempre morte sempre 

O morrer de sempre 

Sempre agora eu 

O que dizer enquanto eu

Enquanto eu o que 

Enquanto eu digo 

Enquanto a aranha 

Enquanto eu sempre 

Morte sempre 

Enquanto morte o que 

Morte eu digo diga 

Morta aranha não importa 

Que meticulosa morte 

Viva ou morta 

Morta não importa 

Que meticulosa eu 

O que dizer enquanto 

Enquanto quem enquanto a aranha 

Enquanto a vida enquanto o espaço 

O morrer de oh que pena 

Pobre quão meticulosa morre 

Realidade não importa 

Morte sempre 

O que dizer 

Enquanto quem 

Morte sempre 

Enquanto a morte enquanto a aranha 

Enquanto eu quem eu 

O que dizer enquanto 

Agora antes depois sempre 

Quando então a aranha o que 

Dizer o que enquanto agora 

Pernas pernas então nenhuma 

Enquanto a aranha 

Morte aranha morte 

A gênia que não consegue parar de saber 

O que dizer enquanto a aranha 

Enquanto eu disser 

Enquanto eu ou a aranha 

Viva ou morta o morrer de 

Quem não consegue parar de saber 

Quem morte quem eu 

A aranha quem enquanto 

O que dizer enquanto 

Quem não consegue parar 

Quem não pode 

Não pode parar 

Parar 

Não pode 

A aranha 

Morte 

Eu 

Nós 

Os gênios 

Saber 

O que dizer enquanto a 

Quem não pode 

Enquanto a aranha o que 

O que faz morre 

Morte aranha morte 

Quem não pode 

Morte parar morte 

Para saber dizer o que 

Ou não a aranha 

Ou se eu disser 

Ou se eu não disser

Quem não pode parar de saber 

Quem conhecem os gênios.

Quem diz o eu

Quem ele nós não podemos

Morte parar morte

Para saber dizer eu

Oh pena pobre belezinha

Que meticulosos vida amor

Não importa espaço aranha

Que hórrida realidade

O que dizer enquanto

O que enquanto

Quem não pode

Como parar

O saber do sempre

Quem estes este espaço

Antes depois aqui

Vida agora minha cara

A cara amor a

As pernas reais enquanto

Que hora morte sempre

O que dizer então

Que hora a aranha

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sábado, 1 de janeiro de 2022

PRIMEIRO POEMA DE 2022

 








OSVALDÃO

 

Ele é vento;

pedra e vento

cobra e vento;

rio de tigres

ocelos de tigres

garras de tigres

invisíveis.

Ele é pássaro

canto de pássaro

tigre-pássaro

mais veloz

do que o vento

tigre-que-voa-

no vento.

Ele é preto,

assum-preto,

pássaro-tigre

mais preto

do que o vento.

Ele é chispa-

faísca que voa

no meio do mato;

voa-revoa no mato

no fundo do mato

pra longe dos longes

dos fundos do mato

como porco do mato.

Quem poderia

segurá-lo?

Quem poderia

prendê-lo?

Ninguém podia.

Ele é água

do rio;

ele é nuvem,

arco-íris,

dizem os ribeirinhos

em Xambioá.

Ele é santo?

Ele é demônio?

O negro forte

que dava conta

de vinte soldados

em cada mão;

ele é mágico?

Ele é Oxóssi,

atirador cuja flecha

sempre acerta

o alvo? Não.

Ele morreu, morreu?

Ele se encantou?

Ele esteve, está?

Ele foi um negro

pobre, como tantos

negros, tantos pobres;

ele foi um brasileiro, 

um comunista;

seu nome,

era o terror

de seus inimigos:

ele se chamava

Osvaldo, Osvaldão

do Araguaia.

 

2022

 

sábado, 25 de dezembro de 2021

RITUAIS

 




 





RITUAIS

 

Para Edir Pina de Barros

 

I

 

mutum-do-bico-vermelho

cavamos

cavamos

terra

e os braços

doem os braços

sob o sol

cavamos

terra

socamos

milho

no pilão

rio está longe

daqui

rio está longe

daqui

mutum-do-bico-vermelho

marinauá

marinauá

os braços

doem os braços

sob o sol

cavamos

terra

cavamos

cavamos

e então inhame

batata

milho

feijão

curió curió

marinauá

marinauá

mutum-do-bico-vermelho

depois

nós dançamos

dançamos

dançamos

até as estrelas até as estrelas até as estrelas.

 

 

II

 

o espírito do rio dorme na rede com as mulheres

a lua negra

e seu chifres

cada mulher

sonha

encantada

com a lua

e o espírito-rio

mandacaru

está vendo,

mandacaru

está vendo

os cabelos

soltos delas

que dormem

nos braços

do espírito-rio

que dormem

nos braços

da lua negra

elas dormem,

gozam

e sonham

quando

nascem

meninos

são filhos

da lua

quando

nascem

meninas

são filhas

do rio.

 

 

III

 

a onça a onça suas patas-faíscas

a onça a onça

seus dentes

dentes dentes

a onça a onça seu rugido

faz tremer a terra

faz tremer cotia

faz tremer a nuvem

arara de pluma vermelha avôa

arara de pluma

vermelha avôa

arara

de pluma

vermelha

avôa

e nós cantamos

nós cantamos

rostos pintados

de urucum

porque somos lagarto

porque somos cotia

porque somos formiga

porque somos lua-estrelas

porque somos onça

somos onça

somos

onça

 

 

 

IV

 

estamos aqui para luar estrelar

arvorar

onçar

passarar

estamos aqui para aguar peixar 

sementar

invernar

mandiocar

estamos aqui para florar frutar

areiar

azular

amarelar

estamos aqui para cantar brilhar

borboletar

formigar

luzeirar

porque somos luz riscando céu

porque somos

luz raiando rio

porque somos

luz-estrelas

girando luz-estrelas girando

luz-estrelas

girando luz-

estrelas

 

 

 

V

 

penas negras de japu olhos azulinos

de japu bico branco de japu

de cauda amarela fura-banana

xexéu-mufumbo

japuguaçu

japu-preto rei-congo

vem avisar

que nosso pai cruzou para outra margem

atravessou a lagoa

atravessou

a lagoa do céu

ariranha confirmou

ariranha confirmou

o que disse o japu

de olhos azulinos

ele foi no ir-se embora

da canoa

de madeira

que não há na canoa

atravessou a lagoa do céu

atravessou a lagoa do céu

e virou raio de luz

para nos alumiar.

 

 

VI

 

mulheres banham-se nas águas do rio

elas lavam os cabelos

e cantam

elas lavam os cabelos

e cantam

mulheres banham-se nas águas do rio

depois voltam para casa

e saúdam o espírito

do gavião

depois voltam para casa

e saúdam o espírito

do gavião

mulheres sovam mandioca

no pilão

dizem bom dia

aos lagartos

dizem boa noite

às formigas

mulheres dormem com seus maridos

nas redes

feitas de palhas, cordas e tucum

e fazem amor com eles

sob a luz de Jaci

mulheres dormem com seus maridos

nas redes

feitas de palhas, cordas e tucum

e fazem amor com eles

sob a luz de Jaci

cada dia, a cigarra vermelha

canta o canto do deslumbre

e tudo é deslumbre

cada dia, a cigarra vermelha

canta o canto do deslumbre

e tudo é deslumbre

até o dia

em que vieram os bárbaros

 

2021

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

QUARTA LUA

 









Une fleur est écrite au bout de chaque doigt.

Tristan Tzara

 

um corpo sonha com outro corpo

uma flor escrita

em cada dedo

da mulher amada

e desenhos espiralados

em sua boca

ela disse:

“borboletas são

flores com asas”

na ilha do leão

– lua crescente

sobre algum mar

luzeiro branco

nas águas

de esmeralda

corpos quase nus

“com o que sonham as flores?”

tudo tão pele

tão areia

tudo tão seios

tão cabelos

tudo tão olhar

em meu olhar

miúra ou escaravelho

tudo tão longe

e tão perto,

vento no vento

pai sol

mãe lua

este mundo

é um lugar insensato

onde os pés

famintos

a boca

faminta

as coxas

famintas

este mundo

é um lugar insensato

vejo a lua

em teus pés

e nos devoramos

cães correm

na areia da praia

balseiros, ao longe

rêmoras

tentilhões

èéru ìyá!

auá aabô aiô iemanjá

auá abô aiô

 

Claudio Daniel, 2021

 

 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

TERCEIRA LUA

 









Corvos nutridos da poeira do mundo

Cecília Meireles

 

Este caminho seria uma possibilidade se

fosse algo simples

como um canto

corvo branco

corvo branco

corvo branco

sim, você diz:

Este caminho seria uma possibilidade ou

talvez nem tanto

você quer dizer vida ou quer dizer morte

enquanto a aranha tece a sua teia

enquanto a aranha

enquanto a aranha

enquanto a aranha

mudez ou nudez e ainda assim

perna esquerda perna direita

torsos distorcidos

na deformação geral

de tudo

cetáceo vermelho cetáceo

polvo de luz ao contrário

lua cheia desestrelas

rutilando rutilando rutilando

tua língua bifurcada sussurra em aramaico

e talvez o caminho seja para outro lado

cômoro daquilo que não morre

par de seios

da mulher estranha que sorri

para você

par de seios

da mulher conhecida que olha

para você

em algum lugar em algum lugar

não importa

realidade é tudo aquilo que escrevo

e num abrir-

fechar de olhos

se transforma

então o caminho a aranha o corvo

então a lua polvo cetáceo cetáceo

pernas direita esquerda par de seios

e tudo morre um pouco

e tudo nasce um pouco 

nas palavras palavras palavras que escrevo

 

Claudio Daniel, 2021

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

SEGUNDA LUA

 








It was the begginning of time

Laura Riding

 

O que dizer sobre o esqueleto da noite?

Dizer o enquanto

da tíbia, fíbula,

fêmur, no quase

sempre da

escápula

a sombra do crânio te assombra

te esmurra com o cutelo

das mãos

esmigalha teu sexo morto como zumbi

por isso o úmero

o esterno o frontal

de tua mente perturbada

úmida iriando occipitais

na última luz de pedrarias persas

mas você tem medo

do canto, enquanto,

entretanto

da palavra óssea que te soca

no final turvo

de uma rua

escura

você morre de medo

de um homem-réptil

que é você

sua face escamosa

seu peito escamoso

suas mãos seus pés

escamosos

você monstro escamoso

tem medo da gigante

iguana verde

do pesadelo

você tem medo de sua cabeça

nervurada

de seus pés ao contrário

você sonha e tem medo

da sanha

da criança medonha

que te assopra

no ouvido

palavras sujas

teu medo de hoje

de ontem

dura-máter de anteontem

no entressonho

dos entornos

pode ser a mão morta

de tua mãe atrás da porta

pode ser a lua nova

que zomba de ti

em tua cova

talvez o medo seja

uma mulher louca e preta

com pentelhos pretos

na buceta

mas você não sabe

o que dizer sobre o esqueleto da noite

rótula, sacro, clavícula

em lugarejos

de quando

se você estiver indo

eu estarei voltando

se você estiver sorrindo

eu estarei morrendo

e a lua nova flor de tântalo

apenas te cospe

após a longa noite estrelada

na dura e solene

madrugada

em que você se levanta

da cama

para viver mais um dia

do mais profundo horror.

 

Claudio Daniel, 2021