domingo, 15 de abril de 2012

GALERIA: NINA RIZZI (III)

DOIS ORIKIS DE OYÁ / IANSÃ

I

Leopardo no ar alto
fuzilando a treva.
Ira e brisa pelos campos.
Corisco na cara da escuridão.
Senhora que incendeia
a casa da mentira.
Senhora sem medo algum.
Senhora que relampeia
entre os tambores do orum.

(Poema de Antônio Risério, do livro Brasibraseiro)


II

Leopardo que come pimenta crua.
Mulher de vestes vistosas.
Cabaça rara, diante do marido.
Eparrei!
O que Xangô disser
Oiá logo saberá.
Ela entende que Xangô
Nem chegou a falar.
E o que ele quiser dizer
Oiá dirá.
Ê ê ê-par-rei!
Oiá, árvores desarvora.
Adeus, morte.
Minha mãe da roupa de fogo.
Nada de mentiras para ti.
Nada de mentiras para ti.
As marcas da tua pele calam o alabé.
Oiá ô
Mulher neblina no ar.
Oiá, leopardo que come pimenta crua.


(Tradução de Antonio Risério, do livro Oriki-Orixá)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

GALERIA: NINA RIZZI (II)

A PLENOS PULMÕES: LEITURAS DE VLADIMIR MAIAKOVSKI


















A Plenos Pulmões: Leituras de Vladimir Maiakovski. Recital com os poetas Edson Bueno de Camargo, Rubens Jardim, Claudio Daniel, Roberta Ferraz, Isabela Penov, José Geraldo Neres, Célia Musilli, Francesca Cricelli, Paulo Ortiz, Alex Dias, Natalia Barros e Yun Jung Im. Nesta sexta-feira, às 19h30, na Sala de Debates do Centro Cultural São Paulo. Entrada franca - sem necessidade de inscrição, nem retirada de ingressos

quinta-feira, 12 de abril de 2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

GALERIA: NINA RIZZI

COLEÇÃO POESIA VIVA


Caros, saiu o sétimo título publicado da coleção Poesia Viva, publicada pelo Centro Cultural São Paulo: é a plaquete Alta Noite, de Donizete Galvão, com tiragem de mil exemplares e distribuição gratuita na biblioteca e na central de informações do CCSP.

Poesia Viva é uma coleção de plaquetes de poesia brasileira contemporânea organizada pela Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo, com o objetivo de divulgar autores de qualidade e representativos de nossa literatura recente, de diversas gerações, tendências e estilos, novos ou consagrados.

O conselho editorial da coleção é formado por autores respeitados em nossa crítica literária: Heloísa Buarque de Hollanda, Luiz Costa Lima, Leda Tenório da Mota, Maria Esther Maciel e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte.

As plaquetes também podem ser encontradas na biblioteca Alceu Amoroso Lima e estão disponibilizadas no site http://www.centrocultural.sp.gov.br/literatura_colecao_poesia_viva.asp.

Títulos já publicados:

Quatro poemas brasileiros, de Horácio Costa

25 Poemas escolhidos pelo autor, de Armando Freitas Filho

Matinê, de Marcelo Montenegro

Tempo instável na tarde dos anjos desolados, de Ademir Assunção

Quase duelo de quase amor, de Alice Ruiz e Estrela Leminski

O cinephilo ecletico, de Glauco Mattoso

Alta noite, de Donizete Galvão

Próximos títulos:

Poemas escolhidos, de Rodrigo Garcia Lopes

Papel de riscos, de Susanna Busato

Fora da estante, de Rubens Jardim

Temperamentais, de Moacir Amâncio

O inseto me observa, de Micheliny Verunschk

segunda-feira, 9 de abril de 2012

O MASSACRE DE DEIR YASSIN

"No início da manhã de sexta-feira, 9 de abril de 1948, os comandos dos grupos terroristas sionistas Irgun (liderado por Menachem Begin) e Gang Stern atacaram Deir Yassin, uma pacata aldeia palestina , com cerca de 750 moradores, localizada em terreno alto no corredor entre Tel Aviv e Jerusalém.

Ao meio-dia, centenas de pessoas, metade delas mulheres e crianças, foram assassinadas sistematicamente. Moradores do sexo masculino foram colocados em caminhões que desfilaram pelo bairro Yosef Zakhron em Jerusalém numa exibição macabra. Depois foram levados para uma pedreira , de onde foram atirados para a morte.

Haleem Eid, uma jovem de trinta anos, que pertencia a uma das principais famílias de Deir Yassim, viu quando um homem disparou uma bala no pescoço de sua cunhada Salhied, que estava grávida, quase a dar à luz, e abrir-lhe o ventre com uma faca de carniceiro. Aiesh Radwaer, uma outra mulher que assistiu a esta cena, foi morta quando tentava tirar a criança das entranhas da mãe já morta. A jovem Naaneh Kalil, de dezesseis anos, viu numa outra casa um homem agarrar uma espécie de faca e abrir seu vizinho Jamili Hish da cabeça aos pés, e depois fazer a mesma coisa ao seu primo Fathi nos degraus de sua casa. As mesmas cenas repetiram-se casa em casa. Segundo Safieh, uma mulher de quarenta anos, 'eu gritava, mas à minha volta havia outras mulheres sendo também violadas'.

Por todo o país, os palestinos entraram em pânico diante de tamanha selvageria e começaram a fugir para salvar suas vidas. Deir Yassin foi varrida do mapa. O centro da vila foi renomeada Givat Shaul Bet. Próximo deste local, onde judeus sionistas promoveram o holocausto dos palestinos, foi construído o museu do holocausto judeu.

O massacre dos palestinos em Deir Yassin foi um dos eventos mais marcantes da história do século 20, pela dimensão de sua brutalidade e por ter servido de aviso para a limpeza étnica que começaria em seguida, com o despovoamento calculado de mais de 500 cidades e aldeias árabes e a expulsão de 700 mil palestinos para dar lugar aos judeus que chegavam ao país.

Naquela noite de 09/04/1948, judeus dos grupos terroristas Gang Stern e Irgun contavam aos correspondentes estrangeiros, durante um chá com bolinhos, os detalhes do massacre. Essa entrevista foi publicada no The New York Times em 10 de abril de 1948. A contagem definitiva de 254 mortos foi publicada no The New York Times em 13 de abril, um dia depois que as vítimas foram finalmente enterradas."

Fonte: Oh Jerusalém de Dominique Lapierr e Larry Collins.

GALERIA: GUNTER GRASS

domingo, 8 de abril de 2012

UM POEMA DE GUNTER GRASS


O QUE TEM QUE SER DITO


Por que me calo, calo por tempo demais
Sobre o que é clarividente e foi ensaiado
em planos, em cujo final, como sobreviventes
nós somos notas de rodapé em todos os casos.
É o alegado direito do primeiro ataque,
que poderia apagar o povo iraniano
subjugado por um boquirroto
e dirigido ao júbilo coletivo,
porque a construção de uma bomba atômica
em sua esfera de poder é cogitada.
Mas por que me nego,
a tratar pelo nome um outro país
no qual há anos — embora em segredo —
um crescente potencial nuclear está disponível
mas fora de controle, por que nenhuma prova
é acessível?
O silêncio generalizado desse fato,
ao qual se subordina o meu silêncio,
eu considero como uma mentira permanente
e obrigatória, que enfrenta punições
tão logo ele seja quebrado:
o veredicto de "antissemitismo" é imediato.
Agora porém, que meu país,
cujos crimes antigos,
que são inigualáveis,
uma vez e outra são trazidos à tona
de novo e de maneira protocolar, mesmo que
com lábios ágeis declara como reparação,
o envio a Israel
de mais um submarino, cuja especialidade
consiste em levar ogivas devastadoras de tudo
a um lugar, onde a existência
de uma única bomba atômica não foi provada
mas será pelo temor da força das provas,
digo o que deve ser dito.
Por que, porém, calei até agora?
Porque achava que minha origem,
que é manchada por uma mácula que nunca pode ser apagada
proibia atribuir esse fato como verdade anunciada
ao país Israel, ao qual eu sou ligado e
ao qual quero permanecer ligado.
Por que só digo agora,
envelhecido e com tintas finais:
a potência atômica Israel põe em risco
a já frágil paz mundial?
Por que é preciso dizer
aquilo que já pode ser tarde demais amanhã:
também porque nós — como alemães já suficientemente sobrecarregados —
poderíamos nos tornar cúmplices de um crime
que é previsível, causa pela qual nossa cumplicidade
não poderia ser amenizada
por nenhuma das desculpas costumeiras.
E admito: não me calo mais
porque estou cansado da hipocrisia do Ocidente;
além disso, há a esperança
de que vários se libertem do silêncio,
e instem o causador do perigo evidente
a abdicar da violência
e ao mesmo tempo insistam,
para que haja um controle sem restrições e permanente
do potencial atômico israelense
e das instalações nucleares iranianas
por uma instância internacional
com acesso permitido pelos governos de ambos os países.
Só assim se pode ajudar os israelenses e palestinos,
mais ainda, todas as pessoas, que nessa região
ocupada pela loucura
lado a lado vivem em inimizade,
e finalmente nós também.

Tradução: Baby Abrão

quinta-feira, 5 de abril de 2012

POETAS DE CABECEIRA: MAIAKOVSKI


















Caros, no dia 11 de abril (quarta-feira), às 19h30, farei uma palestra sobre o poeta russo Vladimir Maiakovski, dentro da programação do ciclo mensal Poetas de Cabeceira. O evento será na Praça Mário Chamie (Bibliotecas), do Centro Cultural São Paulo, com entrada franca. Não é necessário retirar ingressos.

Um recital em homenagem ao poeta será realizado no dia 13 de abril (sexta-feira), às 19h30, na Sala de Debates do Centro Cultural: A Plenos Pulmões -- Leituras de Vladimir Maiakovski, com a participação de Edson Bueno de Camargo, Rubens Jardim, Claudio Daniel, Roberta Ferraz, Isabela Penov, José Geraldo Neres, Marcelo Tápia, Francesca Cricelli, Alex Dias, Natália Barros e Yun Jung Im. Este evento faz parte da programação do Clube de Leitura de Poesia.

Já no dia 27 (sexta-feira), acontecerá o evento Poesia dos 4 Cantos: Noite Russa, com o poeta Alex Dias, a Companhia Balalayka e o músico Vadim Klokov. O evento será na Praça Mário Chamie (Bibliotecas).

Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1.000, próximo ao metrô.

terça-feira, 3 de abril de 2012















"Vladimir Maiakovski (1893-1930) é o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas em torno da Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam.

Fiel às suas origens experimentalistas e a seu mestre, Velimir Khlébnikov (1885 -1912), o visionário “Colombo de novos continentes poéticos”, como ele o denominou, Maiakovski deixa descortinar em sua poesia um roteiro coerente, dos primeiros poemas, nitidamente de pesquisa, aos últimos, de largo hausto, mas sempre marcados pela invenção. "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária", era o seu lema, e nesse sentido Maiakóvski é um dos raros poetas que conseguiram realizar poesia participante sem abdicar do espírito criativo.

Sua poesia não tem apenas natureza épica, mas apresenta ainda uma apaixonada face lírica, bem como rasgos satíricos e crítico-estéticos (metalingüísticos). Do poema sobre o evento cotidiano e o fato político (do qual nasce, em certo momento, o poema-cartaz de agitação), ao canto amoroso, ao poema sobre a fatura e a crítica ao poema, seu estro domina uma gama variada de acordes.

(...)

Atesta-se, também, a contínua inquietação operacional de seu autor no trabalho com as palavras: 'A poesia é uma forma de produção. Dificílima, complexíssima, porém produção”; “A novidade, novidade do material e do procedimento, é indispensável em qualquer obra poética' (De Como fazer versos?, 1926)."

(...)

(Trechos da apresentação de Haroldo de Campos para o livro MAIAKÓVSKI - POEMAS, de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos - 1967/ 1982)

GALERIA: LISSITZKY (I)

UM NOVO VANGUARDISMO RUSSO

Nina Rizzi

Rebenta a revolta em Moscou entre 1912 e 1913. A vanguarda russa se insurge contra o invasor, quer seja fauvista, cubista, futurista, ista-ista-ista... "É só depois de ter tomado consciência dos seus recursos orientais, depois de se ter reconhecido como asiática, que a arte russa entrará numa fase nova e rejeitará o jugo vergonhoso e absurdo da Europa, a Europa que nós já há muito ultrapassamos", clama Benedikt Livchits no "Arqueiro com Um Olho e Meio". Larionov faz coro: "Somos contra o Ocidente que vulgariza as nossas formas orientais..." Ao fundar o Raionismo, movimento futurizante no qual o seguem Gontcharova, Chetchenko, Ledentu e outros pintores, Larionov pretende se demarcar do movimento futurista italiano.

Malevitch, por seu lado, não tem problemas nacionalistas. Está demasiado consciente da cultura asiática que nele está entranhada para temer a influência da Europa. Pelo contrário, ele entende por bem não se privar dela, quer venha de Paris ou de outro lugar, pois o seu único objetivo é criar uma "arte universal", embora permanecendo enraizado no seu universo russo. Abandona o Neo-Primitivismo, e as suas relações com Larionov se esgotam. O Raionismo não lhe interessa nada, e na exposição "O Alvo", em 1913, com obras marcadas pelo Cubismo, Malevitch destoa no meio dos neoprimitivistas e dos raionistas e ao mesmo tempo se lança para novos horizontes, onde irá fazer de chefe-de-fila de um novo "Vanguardismo" russo.

Não está sozinho e se aproxima dos futuristas que se reúnem em Petersburgo, em casa de Matiuchine e Elena Guro. Os poetas Alexis Krutchenik e Velimir Klebnikov, a pintora Olga Rozanova, fazem parte dos membros mais ativos.

Com Vladimir Maiakovski, os irmãos Burliuk e Vassili Kamenski, que têm por base Moscou, vão formar um movimento futurista, rico e variado. Sob a assinatura de David Burliuk, Krutchenik, Maiakovski e Klebnikov vão publicar um violento manifesto intitulado "Bofetada ao Gosto Público", que fará sensação: "Só nós somos o rosto do nosso tempo... o passado é tacanho. A Academia e Puchkine são mais incompreensíveis do que os hieróglifos!". A força de aplicar à letra o princípio de Cézanne, que pretende que se geometrize tudo, Malevitch percebe que quanto mais desenvolve esta análise geométrica e quanto mais as obras que daí resultam explodem, mais elas se tornam abstratas.

GALERIA: MALIÉVITCH

ESPOSAS DE ÁGUA

Disse-nos a mãe, e os outros disseram: há raparigas que a chuva carrega. E retém-nas na água para onde as carrega. Depois relampeja e morrem. Tornam-se estrelas e a sua aparência muda: tornam-se estrelas. Por isso a mãe nos disse, e os outros disseram: rapariga que é levada pela chuva transforma-se em flor e cresce nas águas. Nós, que nada sabemos, quando as vemos na água, quando as vemos tão lindas, dizemos assim: colherei estas flores que cresceram na água. Não é coisa pouca a sua beleza. Mas a mãe e os outros já nos tinham dito: uma flor assim, se vê que a procuram, mergulha na água. E então nós pensamos: era aqui que estavam, onde estão agora? Não as vemos mais, no sítio em que estavam. Desaparecem, quando as procuramos. Não devemos sequer dar conta delas: esconder-se-ão na água. Por isso a mãe e os outros disseram que não devemos procurar tais flores: são raparigas. Parecem flores por causa da chuva. São as esposas da água. Olhamos para elas mas passamos ao largo. Poderíamos sofrer o que elas sofrem. O cabelo da nossa cabeça será como as nuvens, quando nós morrermos. E quem não souber dirá que são nuvens. Mas nós, que sabemos, ao vê-las diremos: são nuvens de gente, feitas do cabelo das nossas cabeças. Nós quando morremos produzimos nuvens.

(Da tradição oral dos bosquímanos. Tradução do Ruy Duarte de Carvalho.)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ORIKI DE OXUM


















Oxum, mãe da clareza
Graça clara
Mãe da clareza

Enfeita filho com bronze
Fabrica fortuna na água
Cria crianças no rio

Brinca com seus braceletes
Colhe e acolhe segredos
Cava e encova cobres na areia

Fêmea força que não se afronta
Fêmea de quem macho foge
Na água funda se assenta profunda
Na fundura da água que corre

Oxum do seio cheio
Ora Ieiê, me proteja
És o que tenho —
Me receba.

Tradução do iorubá: Antonio Risério

sexta-feira, 30 de março de 2012