sábado, 17 de março de 2012
DONA VIRGO (III)
Bernaldo, Bernaldo de Bonaval, o segrel, já senil, louvara em verso dama de má fama: a dona que eu am’ e tenho por senhor amos-trade-mh-a deus, se vos en prazer for, se non dade-mh-a morte. Quem ama a alma evita a lama, mas, no amor às donas, tudo é cegueira, loucura, pandemônio. Só o coraçon pensa, mal de Provença, e o dom da dor assoma, purga e adensa. Pera que demo queredes puta que non á mester?, cantou em escárnio Pero da Ponte, o infançon, que aprendera a arte de Bernaldo, mestre do bom cantar. Pero da Ponte, êh, ah!, o bardo bastardo, bebum blasfemo, femeeiro, faminto, fementido, Pero pervertido, é dele que fala Afonso X, o sábio, que o expulsou de sua corte por ser (segundo se dizia) mau poeta, ladrão, bêbado e assassino: En mao ponto vós tanto bevestes. Mas, quê! O senhor acredita? Pero, puro, não, mas poeta, sim, e dos bons: abusava do copo? Não sei dizer, mas ele assim trobava, meu amigo: senhor do corpo delgado, en forte pont’ eu fuy nado! que nunca perdi cuydado nen afan, des que vos vi. En forte pont’ eu fuy nado, senhor, por vós e por mi!
Enfim cheguei ao hotel, Chastel D’Avignon, mon chévalier, todo nanquim-espelhado, em modern style, o luminoso alumínio e o opaco acrílico em sua entrada, sauna-piscina-american bar. Fui ao restaurante, La Cuisine de Lacan, e pedi arroz integral, sopa de legumes, torta de queijo e um suco de uva espumoso. No salão, adocicado por Vivaldi, vi turistas suecos, japoneses, brasileiros, eslovacos, poloneses e uma alemã de seios pontudos em saia de couro dark e cabelos cor-de-rosa que lia Schopenhauer. Depois de jantar, sem sono, resolvi dar uma volta pela cidade. Fui à Taberna Montemor, meu senhor, branca casa de pedra erma do tempo de el-rey Dom Afonso, onde se bebe boa cerveja em mesetas toscas circundadas por azulejos azuis, decorados com motivos de marinheiros e monstros do mar. Ali encontrei Carlos Cazali, o fotógrafo, e perguntei a ele se vira a moçela, a meninha de olhos verdes:
— Digas-me mandado de mia senhor, ca se eu seu mandado non vir’, trist’ e coitado serei; e gran pecado fará; se me non val. Ca en tal ora nado foi que mao-pecado! Amo-a endõado, e nunca end’ ouvi al!
Ele me respondeu assim:
— Vera? Oh, sim, Vera Veiga, a irmã siamesa de Veneza, top model da Stylus, ela tirou fotos em Vigo, para uma revista, mas isso foi há dois dias, e já foi embora, meu caro.
— Ah, dame sans merci, magra maga mulata, maja naja noir em boá de marabu, em popeline, cambraia, musselina; dama em adamascado, dalmático, debrum, merino, gonflé, godet, matelassé; seminua em papel couché, formato tablóide, o rosto ovalino na capa, suas pálpebras cetinosas, os olhos manhosos, a tez de anoitecer em Marrakesh.
— Ela ia a Pontevedra, e de lá para Compostela, você sabe, a Via de Santiago. Tome conosco um copo de cerveja, e mais um, e mais outro! E eu disse para mim, ao meu coraçon: vai, esquece essa nega galega, niña nagô, núbia dúbia, boca-de-mandinga, e vamos encher a cara! E depois, ah, depois? Posso sair, dizer alô a um poço, ficar de quatro, roer um osso. É isso, seu moço?
Frei Leonardo, o goliardo, o glutão, o gargalo-de-garrafa, per nostro senhor, falou assim para mim:
— Ora, pois! deixe essa mera megera, o amigo deve é sair com uma boa putana, com uma fulana de olhos sacanas, loura ou preta, de fartas tetas!, e cantou, em bom latim: Veni, domicella, cum gaudio, veni, veni, pulchra, iam pereo! Oh, oh, oh!, e cantou, também: Ave, formosissima, gemma pretiosa, ave, decus virginum, virgo gloriosa, ave, mundi rosa, branziflor et helena, Venus generosa.
E celebrou sua eucaristia, o monachus maroto: do vinho madeira, fez sangue de Cristo, do pão italiano, carne de Madalena, púbicas melenas, madeixas de morena, in nomine pater, filius et espírito de porco, amém.
Nós três comemos, bebemos e cantamos até a madrugada, a nossa mesa sempre cheia de grossas fatias de pão, queijos, carne de carneiro, cerveja e vinho, meu amigo. Éramos a tríade do érebo, da glacial geena. Frei Leonardo, o pândego infançon, contou-nos seus amores por uma nívea-blonde-meninha, moça-flor carismática, fremosinha de sacristia, em seus lácteo-nectáreos quinze anos, que muito ofereceu e pouco cedeu, entre cantos de salmos e contas do rosário. O caso valeu ao réprobo frade censura episcopal e ameaça de expulsão da ordem; o cônico conego blasfemou conosco a genealogia do bispo geriátrico, e, de ofensa em ofensa, cantou: Nunca se Deus mig’averrá, se mi non der mia senhora; mais como mi o corregerá? destroia-m’, ante ca morra. om’é: tod’aqueste mal faz, como fez já, o gran malvaz, en Sodoma e Gomorra. Ei-lo agora ante nós, libertino sem batina, bonachão sem credo. Carlos-Cazzo-Cazali, o viúvo das esposas que não teve, Dom Juan imperito de mucamas de madamas, é o colecionador de nomes para o albergue-de-vênus de suas mimosas moçoilas: paqueta, pagode, pandora, viola, violinha, violeta d’amore. Carlos, mercenário de kodak, longa barba alaranjada, jaqueta de brim, óculos escuros, foi fotógrafo de moda, cobriu a guerra da Bósnia, clicou defuntos em tiroteio e piranhas do meretrício. Eu o achava vulgar, mas ele fez fotos para a Stylus, e o suportei pela dica da sina de mia dona. Saímos da taberna, às cinco horas da manhã, sob chuva finíssima, e fomos à praça Dom Dinis; sentamos num banco de pedra, em frente ao chafariz netúnico-ninfático, e a garrafa passou de mão em mão, entre risadas e piadas obscenas, até que Carlos Cazali fez um desafio, propôs uma tençon, e aceitei a contenda. O vilão começou, cantando:
— Gil Eanes Brás morreu con amor en seus cantares, par Santa Maria, por ua dona que gran ben queria; e, por se meter por mais trobador, por que lh’ ela non quis (o) ben fazer, feze-s’ el en seus cantares morrer; mais resurgiu depois ao tercer dia.
O frei riu, o gajo riu, os dois riram, riram de prazer de pilhéria, mas eu, Gil Eanes, respondo bá com bá, e bi com bi, e respondi:
— Carlos Cazali, parou-se-vos mal: per ante o demo do fogo infernal, por que con Deus, o padre spirital, minguar quisestes, mal per descreestes? E ben vej’ ora que trobar vos fal, pois vós tan louca razon cometestes.
E o tzigano mundano disse-me então:
— Esto fez el por ua sa senhor que quer gran ben; e mais vos en diria: por que cuida que faz i maestria, enos cantares que fez, á sabor de morrer i e des d’ar viver. Esto faz el, que x’o pode fazer, mais outr’ omen per ren nono faria.
Ah, Carlos-sabugo, rebento-refugo, digo-lhe isso:
— E pois razon a tan descomunal fostes filhar, e que tan pouco val, pesar-mi-á en, se vos pois a ben sal ante o diaboo, a que obedeecestes. E ben vej’ ora que trobar vos fal, pois vós tan louca razon cometestes.
O gaiteiro, então, ao final da tençon, sacou navalha escocesa; não sou adamado, meu bom amigo, peguei a garrafa, quebrei-a, encarei o canalha; mas frei Leonardo, acordado do porre, num salto pôs-se entre nós, e tudo ficou acabado. Após o embate, voltei ao Chastel, sem prez nem joy, sem Deus, dom ou dona; e enojei-me de Gil, o porco, traedor, imigo de mim, per mia malaventura.
quinta-feira, 15 de março de 2012
DONA VIRGO (II)
Eno sagrado, en Vigo, bailava corpo velido: amor ei, cantou Martim Codax, o jogral, cortesão de Fernando terceiro, rei de Castela. Sim, ele padeceu de coita por uma dona de corpo delgado, por uma dama fremosa, que bailava junto à fonte dos cervos, com suas amigas. Também ele viu a lua em um poço, e perguntou, na hora da alvorada, onde estava a sua amada. Martim Codax, o trovador? Sim, Dom Pelegrin, apenas sete canções nos deixou, descobertas por Pedro Vindel, livreiro em Madri. Jamais saberemos quantas outras escreveu. Mia irmana fremosa, treides comigo a la igreja de Vigo, u é o mar salido: e miraremos las ondas. Alba, água, areia, onde está a minha sereia? Só vejo o céu alvo, algo de algas, mágoa de mágoas. Vera, Vênus de Vigo, molher marinha, eu a sonhei saindo das águas, nudez até o umbigo, nascendo da espuma-esperma do mar de vidro. E caminhei ao longo da praia, nesta manhã, praia de pedras e areia, de escuro mar piscoso sem gaivotas, e só vi a alta grama, areia, musgo, lama, areia. Sem ela, tudo é treva, pó, tudo triste treva, noite em noite dissolvida. Amigos, non poss’eu negar a gran coita que d’amor hei, ca me vejo sandeu andar, e com sandece o direi: os olhos verdes que eu vi me fazen andar assi. Fui à igreja de São Marcos, meu amigo, no escarpado vicariato, fazer uma oração à Virgem Santa Maria. O sol carmim crestava a pele e a longa ladeira ensejava ladainhas de romeiros de passagem para Compostela. A igreja é velha, grave, austera, lascas e vincos em pedra e madeira; suas lajes e vigas, capitéis e colunas, seus altos arcos alvos, já desgastados, como a fé dos mundanos, digo ao senhor, meu bom amigo. Ao fundo, na nave escura, em delicado nicho, sob o alvadio baldaquim, vi a imagem da Virgem Santa, Dona Mística, em seu manto azul: os olhos tristes de coração trespassado, o rosário que quase escorrega das mãos, a coroa de estrelas. Cantei ora pro nobis, ora pro nobis, e passei o dia todo a rezar em ladainha, a rezar em ladainha, a rezar em ladainha, à Celeste Regina, pela paz de minha alma, pelo sossego de meu coraçon. Com’ ome que ensandeceu, senhor, con gran pesar que viu, e non foi ledo nen dormiu depois, mia senhor, e morreu: ay mia senhor, assi moir’eu! A noite é negra como o ébano, a graúna, é negra como o ônix, a perla escura, é negra como a pele de minha amiga, a malvada mourisca, a ladina saladina, sarracena, mas amo-a endõado. E caminhei de volta para a cidade, Dom Pelegrin. E que farei eu, pois non vir’ o vosso mui bon parecer? Non poderei eu mais viver, se me deus contra vos non val. Mais ar dizede-me vos al: senhor fremosa, que farei?
quarta-feira, 14 de março de 2012
DONA VIRGO (I)
Ondas do mar de Vigo, verde mar, musgo, mofo, muco; verde malva, jaspe, jade ou junco. Vera viçosa, fremosa, velida, tecido sem vinco; negra ninfa, niña de Mama África, de São Salvador, filha de Oxum, en las calles de vieja España, onde os teus olhos, onde os teus peitos, moça de virgo? Vera olhos verdes, vê-la é vício, não vê-la é vírus, seu cheiro: folha de ipê, folha de figo, só folhas; aloés, baobá, broto de bambu, begônia, branco alecrim, visgo. Penso em tua pele, não prata, aljôfar ou espuma, mas seda azeviche, seda escura, de brancaflor noturna , em tua voz, que sussurra ao coraçon, e em teus olhos, que falam para a alma. Praza-vos já que vos veja no an, hua vez d’un dia! Só ela, a moura moçela, faz o meu sangue ferver: a que partiu sem me ver, sem se dar. Eu me lancei à viagem, sem temer a voragem, cruzei terras e mares, atrás dessa dona de mim, que me fez danado, e nulhas guardas migo non trago, ergas meus olhos que choran ambos. Estou aqui, em Vigo, Vicus Sacorum, nas encostas de Cerro Castelo, na Galícia, há três dias já, e esta cidade é todo lugar, é lugar nenhum, sua estranha beleza: escamas argênteas de peixe ao sol. Sigo e persigo essa molher em vilas, vales, vielas, como a seta persegue a caça, mas, esforço inútil, de todo fútil: ela se evola, de viés, desvanece, dissolvida no ar do ar. Jogo de esconde entre o nada, o nenhures e o coisa alguma, que começa em qualquer parte e termina, talvez, além-alhures, dois passos à esquerda de lugar algum. Ela, a moçelinha, dona de mui ben parecer, apartada de mim, por quê, para quê?, pergunto a São Simeão, em sua ermida. Quand’ eu vejo las ondas e las muyt’ altas ribas, logo mi veen ondas al cor pola velyda: maldito sea l’ mare, que mi faz tanto male! Sou Gil Eanes Brás, o gatuno, garanhão, desgrenhado, deserdado, desconjunto, bebum sem ofício, poeta sem arte. Sigo e persigo Brancaflor, a louçana de doces garcetas, e pergunto a São Simeão: por quê, para quê?, em sua ermida. Molher tão sem amor: sem você, já sandeu, não sou homem: sou lagarto, locusta, lagostim, látego, ladrilho, sou menos que tudo, uma coisa, uma cousa.
(Trecho inicial de meu conto Dona Virgo, publicado no livro Romanceiro de Dona Virgo. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004. Esgotado.)
(Trecho inicial de meu conto Dona Virgo, publicado no livro Romanceiro de Dona Virgo. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004. Esgotado.)
segunda-feira, 12 de março de 2012
AVIÕES DE ISRAEL MATAM 18 PALESTINOS EM 48 HORAS

Três palestinos, entre eles um garoto de 12 anos e um homem de 60, foram mortos hoje em ataques da Força Aérea de Israel contra o território palestino ocupado de Gaza. Isso elevou para 18 o número de palestinos mortos em ataques aéreos israelenses contra Gaza em apenas 48 horas. Pelo menos 30 pessoas foram feridas, das quais seis estavam em estado grave.
A nova onda de violência começou na sexta-feira, quando tropas israelenses mataram Zuheir Al-Queisi, secretário-geral dos Comitês Populares de Resistência (CPR), e Mahmoud Hanani, descrito em um comunicado das Forças de Defesa de Israel como um "colaborador" de Al-Queisi.
Israel iniciou uma ofensiva contra os CPR em agosto do ano passado, depois de acusar o grupo de responsabilidade por um ataque terrorista em Eilat. Embora mais tarde tenha sido determinado que os autores do ataque em Eilat se infiltraram em Israel a partir da península do Sinai, no Egito, e não de Gaza, pelo menos seis integrantes do CPR foram mortos nos meses seguintes por tropas israelenses.Desde a sexta-feira, pelo menos 20 ataques aéreos foram lançados contra Gaza. Hoje, um porta-voz do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disse que os aviões israelenses atacaram um local usado pelos radicais palestinos para disparar "mísseis de longo alcance Fajr-5, de fabricação iraniana".
Ontem, o Movimento Islâmico de Resistência (Hamas), que governa Gaza, disse ter pedido a mediação do Egito para negociar o fim dos ataques, mas ressalvou que poucos progressos haviam sido feitos. O ministro israelense da Defesa, Ehud Barak, disse esperar que a violência prosseguisse "por mais um dia ou dois". As informações são da Dow Jones.
Fonte: http://www.dgabc.com.br/News/5946457/avioes-de-israel-matam-18-em-gaza-em-apenas-48-horas.aspx
domingo, 11 de março de 2012
A POESIA DE VANGUARDA NO BRASIL E EM PORTUGAL

Caros, na próxima sexta-feira, 16 de março, a partir das 19h30, acontecerá o evento "A Poesia de Vanguarda no Brasil e em Portugal". Na ocasião, haverá um debate sobre o tema com a participação de Ernesto de Melo e Castro, Luís Serguilha e Claudio Daniel e o lançamento do livro A estética do labirinto: barroco e modernidade em Ana Hatherly (Bauru: Lumme Editor, 2012), com o texto de minha dissertação de mestrado, defendida em 2010 na Universidade de São Paulo.
O evento acontecerá na Casa Guilherme de Almeida, situada na rua Macapá, 187, Pacaembu, tel. 3673-1883, São Paulo (SP). Ficarei feliz com a presença de vocês.
O evento acontecerá na Casa Guilherme de Almeida, situada na rua Macapá, 187, Pacaembu, tel. 3673-1883, São Paulo (SP). Ficarei feliz com a presença de vocês.
quinta-feira, 8 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
POETAS DE CABECEIRA: CHARLES BAUDELAIRE

Caros, no dia 09 de março, sexta-feira, às 19h30, a professora Viviana Bosi fará uma palestra sobre o poeta francês Charles Baudelaire, comentando a biografia do autor, sua época, características estéticas e, sobretudo, sua experiência pessoal como leitora da poesia de Baudelaire, um dos autores mais importantes da literatura francesa do século XIX. O evento faz parte do ciclo mensal Poetas de Cabeceira, do Centro Cultural São Paulo.
Entrada franca - sem necessidade de inscrição, nem retirada de ingressos.
Espaço Mário Chamie (Praça das Bibliotecas)
Rua Vergueiro 1.000, próximo à estação do metrô.
POEMAS DE BAUDELAIRE (III)
REMORSO PÓSTUMO
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
num negro mausoléu de mármore, e não
tiveres por alcova e morada senão
uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
e esses flancos sensuais de morna lassidão,
impedir de querer e arfar teu coração
e teus pés de seguir a trilha aventurosa,
o túmulo que tem um confidente em mim
- porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
na insônia sepulcral dessas noites sem fim,
dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
não ter tido o que em vão choram os mortos sós?"
- E o verme te roerá como um remorso atroz.
Tradução: Guilherme de Almeida
Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
num negro mausoléu de mármore, e não
tiveres por alcova e morada senão
uma fossa profunda e uma tumba chuvosa;
quando a pedra, oprimindo essa carne medrosa
e esses flancos sensuais de morna lassidão,
impedir de querer e arfar teu coração
e teus pés de seguir a trilha aventurosa,
o túmulo que tem um confidente em mim
- porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
na insônia sepulcral dessas noites sem fim,
dir-te-á: "De que serviu, cortesã incompleta,
não ter tido o que em vão choram os mortos sós?"
- E o verme te roerá como um remorso atroz.
Tradução: Guilherme de Almeida
domingo, 4 de março de 2012
POEMAS DE BAUDELAIRE (II)
PERFUME EXÓTICO
De olhos fechados, quando, alta noite, no outono,
Respiro o cheiro bom dos teus seios fogosos,
Vejo entreabrir-se além cenários deleitosos
Cintilando ao ardor de um sol morno de sono:
Uma ilha preguiçosa e molenga e sem dono
Em que há árvores ideais e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, finos e vigorosos,
Mulheres cujo olhar tem franqueza e abandono.
Guiado por teu perfume às paragens mais belas
Vejo um porto a arquejar de mastros e de velas
Ainda tontos talvez da vaga alta que ondula,
Enquanto um verde aroma dos tamarindeiros,
Que passeia pelo ar e que aspiro com gula,
Se mistura em minha alma à voz dos marinheiros.
Tradução: Guilherme de Almeida
POEMAS DE BAUDELAIRE (I)
A VIDA ANTERIOR
Muito tempo habitei sob pórticos altos
Que ardendo aos sóis do mar em fogos caprichosos,
Com seus grandes pilares retos, majestosos,
Tinham, de noite, um ar de grutas de basaltos.
As ondas, refletindo os céus imaginosos,
Iam, solenemente, em místicos assaltos,
Misturando os acordes ricos dos seus saltos
Às tintas do sol-poente em meus olhos ociosos.
Foi aí que vivi nas volúpias mais calmas,
Circundado de azul, de vagas, de esplendores,
De escravos todos nus impregnados de odores,
Refrescando-me a fronte ao embalo das palmas,
E cujo único intento era o de aprofundar
O mal que me fazia aos poucos definhar.
Tradução: Guilherme de Almeida.
Muito tempo habitei sob pórticos altos
Que ardendo aos sóis do mar em fogos caprichosos,
Com seus grandes pilares retos, majestosos,
Tinham, de noite, um ar de grutas de basaltos.
As ondas, refletindo os céus imaginosos,
Iam, solenemente, em místicos assaltos,
Misturando os acordes ricos dos seus saltos
Às tintas do sol-poente em meus olhos ociosos.
Foi aí que vivi nas volúpias mais calmas,
Circundado de azul, de vagas, de esplendores,
De escravos todos nus impregnados de odores,
Refrescando-me a fronte ao embalo das palmas,
E cujo único intento era o de aprofundar
O mal que me fazia aos poucos definhar.
Tradução: Guilherme de Almeida.
sábado, 3 de março de 2012
BOICOTE À REVISTA SIBILA

Caros, a revista Sibila, editada pelo juiz Régis Bonvicino, publicou uma matéria assinada pelo sr. Luís Dolhnikoff, atacando a Casa das Rosas, instituição que há oito anos tem prestado relevantes serviços para a divulgação da poesia e da literatura na cidade de São Paulo. Recentemente, o editor da referida publicação enviou uma carta ao secretário estadual da cultura, pedindo a demissão de Frederico Barbosa da direção da casa, numa atitude policialesca própria da ditadura militar. Em solidariedade a Frederico Barbosa, mais de 200 poetas assinaram uma petição on line (http://www.peticaopublica.com.br/?pi=P2012N21061), inclusive Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Duda Machado, Claudia Roquette-Pinto, Ignácio de Loyola Brandão e outros nomes representativos de nossa literatura. Em resposta à petição, a revista Sibila publicou um forte ataque a Augusto de Campos, e em sua seção de cartas publica uma série de comentários ofensivos a diversas pessoas. Estas ações não surpreendem quem conhece a revista Sibila e seu editor, o juiz Régis Bonvicino, que desde o início vêm se destacando por publicar matérias ofensivas a quase todos os poetas brasileiros de notoriedade, como Ferreira Gullar, Carlito Azevedo, Francisco Alvim, Armando Freitas Filho e até autores jovens, com uma ânsia doentia de difamação e destruição, que presta enorme desserviço à crítica literária, à poesia e aos poetas. Frente a esta situação, proponho a vocês que boicotem Sibila: não acessem a revista, não publiquem nenhum texto nela, não comentem sobre ela nas redes sociais. Vamos deixar essa revista desaparecer sozinha, em sua mediocridade, ausência de ética e de propostas consistentes para a arte e para o mundo.
Há braços,
Claudio Daniel
quinta-feira, 1 de março de 2012
CADERNOS DA PALESTINA

A revista Zunái, em sua edição n. 23, que entrou on line em setembro de 2011, dedicou um caderno especial à Palestina, por ocasião do discurso do presidente Mahmoud Abbas na ONU, solicitando o ingresso da Palestina como estado-membro da organização. Apesar da articulação do governo norte-americano, que impediu a votação da proposta no Conselho de Segurança, a campanha internacional de solidariedade à causa palestina entrou numa nova fase: mais de cem nações reconhecem o direito à autodeterminação palestina, artistas e intelectuais como Jean-Luc Godard e Noam Chomsky se manifestaram publicamente à favor dessa justa reivindicação e a Autoridade Nacional Palestina obteve ingresso na Unesco e realizou acordos comerciais com o Mercosul. Neste ano, será realizado, em novembro, o Fórum Social Palestina Livre, em Porto Alegre, e a revista Zunái novamente se coloca ao lado do povo palestino: em sua próxima edição, que entrará on line em meados de abril, publicaremos um novo caderno dedicado a este tema. Algumas das matérias foram publicadas primeiro aqui, no blog Cantar a Pele de Lontra, mas nós temos muito mais informações para partilharmos com nossos leitores na próxima edição da revista, aguardem!
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