EM NOVEMBRO, A ESCOLA DE ESCRITA CRIATIVA iniciará um novo curso on line aos sábados, das 15h às 16h, ministrado por Claudio Daniel, sobre a prosa de ficção. Serão apresentados conceitos e processos criativos relacionados com o conto, a novela e o romance, além da leitura e discussão de textos de autores como Machado de Assis, Guimarães Rosa, Kafka, Júlio Cortázar, entre outros. O curso, que incluirá ainda a análise de textos produzidos pelos alunos e sugestões de como publicar e divulgar um livro de ficção, terá a duração de dois meses e a mensalidade será de R$ 60,00. Interessados podem se inscrever ou solicitar mais informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
sábado, 10 de outubro de 2020
domingo, 20 de setembro de 2020
O VOO DA GARÇA VERMELHA
Claudio Daniel
Daniela Pace Devisate desenvolve uma poética da brevidade, com delicada imagética, fluência melódica e sabor oriental, que revela suas leituras de poetas como o japonês Matsuo Bashô e do persa Omar Kahayyam, que cantaram a beleza e a fugacidade do amor e dos fenômenos da natureza. Assim, lemos na quadra Voa, garça vermelha, quase um flash fotográfico ou plano-detalhe de um filme de Akira Kurosawa: “ops, erro / voa uma garça / no quimono vermelho / da deusa do Sol”, em que o uso da interjeição no verso inicial adiciona à imagem um sentido de percepção de falha, engano ou indiscrição involuntária, ao mesmo tempo que permite um leve toque de humor. Em outra peça, intitulada Orquestra, ela escreve: “Astuta, a lua / tramava a móvel partitura / ela / maestrina de sapos / convidava os músicos cegos / e crianças / para o seu coral”. Neste minipoema, de sete linhas curtas, Daniela cria imagens inusitadas, como a da “maestrina de sapos”, epíteto para a sua lua de prosopopeia, e imagina um onírico coro de vozes da natureza, acompanhado por uma orquestra de câmara formada por crianças e músicos cegos. Em Faana, composição de sabor persa, em que a autora cria uma deliberada ambiguidade entre o amor erótico e o amor espiritual – tema recorrente entre os autores sufis, como Rumi e Attar – conforme leremos a seguir:
FANAA
Mais além dos rostos
na meia noite transcendente
onde os nomes flutuam
como lótus num lago
após serem unificados
no fogo de dor e amor:
um fogo alvo
fogueira de lírios que se dissolvem
no Oceano de Perfumes
composição que recorda outra gravura poética de Daniela, que utiliza símbolos e imagens próprios do imaginário dervixe, apresentado em livros como A linguagem dos pássaros e o Masnavi:
GAZAL DO VINHO RUBI
Há uma gazela ferida
no Bosque do Amor.
Dentro da longa noite,
sob uma lua em foice,
o caçador arrependido
bebe do seu sangue precioso
e embriaga-se.
Então, as portas do céu
se abrem de par em par,
e em seus olhos,
como em dois lagos,
se espelha o Paraíso.
O sufismo, corrente místico-devocional do Islã, assim como o Bakhti-Yoga dos vaishnavas hindus, representa o amor espiritual utilizando-se de referências humanas, como os jogos de sedução, a embriaguez com o vinho, o sofrimento causado pela separação do amado e outros tópicos presentes na poesia, na pintura e em canções tradicionais. Na poesia de Daniela, temos uma inversão da equação metafísica, em que os elementos pictóricos da arte sagrada são trazidos para representar o amor humano, demasiado humano. Assim, por exemplo, nestes dois poemas, em que encontramos ainda a amarga ironia de “nosso encontro eterno / adiado por engano”:
* * *
Somos
estrelas errantes
emaranhadas
de carne perecível
com flores no peito
que desabrocham
dolorosamente
gloriosamente
enquanto
a ária dos pássaros
distrai a aridez
da fome
e aguardamos a noite
essa espécie
de abrigo provisório
porque a vida
é uma coisa muito precária
* * *
Oh amado
como anseio
teu rosto reluzente
camuflado
nas coisas do mundo
nuvens irisadas
se precipitarão
em chuva
que se mistura à saliva
no céu da minha boca
enquanto você acende estrelas
nas palmas
das minhas mãos noturnas
vê esses sinais?
aqui está marcado
nosso encontro eterno
adiado por engano
sexta-feira, 18 de setembro de 2020
BREVES APONTAMENTOS SOBRE O MARXISMO NO SÉCULO 21, PARTE 2
Claudio Daniel
Após
o golpe de estado de 2016, que derrubou a presidenta legítima do Brasil, Dilma
Rousseff, eleita pelo Partido dos Trabalhadores (PT), foram aprovadas uma série
de medidas no Congresso Nacional que retiram direitos do povo brasileiro, como
a reforma trabalhista, que permite aos empresários contratar trabalhadores sem pagar
o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), férias, licença-maternidade e
outros benefícios garantidos na Constituição, e a reforma previdenciária, que
aumenta o tempo de contribuição de homens e mulheres para a aposentadoria,
desprezando o fato de que, sobretudo no campo, muitos trabalhadores morrem
antes de completarem 60 anos de idade. Os governos reacionários de Michel Temer
e Jair Bolsonaro (este último, de extrema-direita, eleito a partir de fake news divulgadas nas redes sociais, financiadas
por grandes empresários brasileiros) aprovaram diversos outros projetos contra
os interesses dos trabalhadores, como o fim do imposto sindical, para
enfraquecer as centrais sindicais, a redução das investigações da Polícia
Federal sobre casos de trabalho escravo no campo, a redução do valor do salário
mínimo, o incentivo à terceirização e precarização dos postos de trabalho, diminuindo
o número de empregados registrados com carteira assinada, as ações violentas da
Polícia Militar contra assentamentos de trabalhadores rurais sem terras, o
congelamento dos investimentos públicos em saúde e educação por 25 anos, o fim
de programas como o Ciência sem Fronteiras, que permitia a jovens brasileiros cursarem
o mestrado e doutorado no exterior custeados pelo estado, entre muitas outras
ações. Todo esse programa antioperário e antipopular é coerente com um modelo
econômico neoliberal e entreguista, que alia o fim dos direitos trabalhistas e
sociais às privatizações de bancos públicos e outras empresas estatais e à
entrega de nossas riquezas naturais, como os campos de pré-sal, minas de
nióbio e áreas da Amazônia ao grande capital internacional, sobretudo o
norte-americano. Todos esses interesses – dos grandes empresários urbanos, latifundiários,
banqueiros e investidores internacionais – estavam por trás do golpe de estado
contra a presidenta Dilma Rousseff, o maior ataque contra os direitos dos
trabalhadores e o regime democrático em toda a história do Brasil e atualizam o
conceito de luta de classes,
introduzido na ciência política por Marx e Engels.
No
Manifesto Comunista, os fundadores do
socialismo científico escrevem:.
“A
história de toda sociedade até nossos dias é a história da luta de classes. Homem
livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre e oficial, em suma, opressores
e oprimidos sempre estiveram em constante oposição; empenhados numa luta sem
trégua, ora velada, ora aberta, luta que a cada etapa conduziu a uma transformação
revolucionária de toda a sociedade ou ao aniquilamento das duas classes em
conflito. (...) A sociedade burguesa moderna, oriunda do esfacelamento da
sociedade feudal, não suprimiu a oposição de classes. Limitou-se a substituir
as antigas classes por novas classes, por novas condições de opressão, por
novas formas de luta. O que distingue nossa época – a época da burguesia – é ter
simplificado a oposição de classes. Cada vez mais, a sociedade inteira
divide-se em dois grandes blocos inimigos, em duas grandes classes que se
enfrentam diretamente, a burguesia e o proletariado. (...) O desenvolvimento da
burguesia, isto é, do capital, corresponde, na mesma proporção, ao
desenvolvimento do proletariado, da classe dos operários modernos que só
sobrevivem à medida que encontram trabalho, e só encontram trabalho à medida que
seu trabalho aumenta o capital. Esses operários, compelidos a venderem-se a
retalho, são uma mercadoria como qualquer outro artigo do comércio e, portanto,
são igualmente sujeitos a todas as vicissitudes da concorrência, a todas as
flutuações do mercado. (...) Ora, o preço de uma mercadoria – e, portanto,
também do trabalho – é igual a seus custos de produção. Por conseguinte, à medida
que o trabalho se torna mais repugnante, o salário decresce. (...) O trabalho
industrial moderno, a submissão moderna ao capital, que é a mesma na Inglaterra
e na França, na América e na Alemanha – despojaram-no de todo caráter nacional.
As leis, a moral, a religião, são, para ele, meros preconceitos burgueses por
intermédio dos quais camuflam tantos outros interesses burgueses. (...) O
proletariado, a camada mais baixa da sociedade atual, não pode erguer-se,
recuperar-se, sem estilhaçar toda a superestrutura de estratos que constituem a
sociedade oficial. (...) A burguesia produz, acima de tudo, seus próprios
coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inelutáveis.”
A
luta de classes não deixou de existir na era da “pós-modernidade”, da
globalização e da Indústria 4.0.
Pelo
contrário, nunca foi tão intensa como hoje, embora as formas de exploração da
classe trabalhadora sejam mais diversificadas do que na época de Marx, não
acontecendo apenas pela obtenção da mais-valia nos parques industriais, mas
também pela exploração do trabalho de “empreendedores”, “terceirizados” e
outros setores informais ligados à prestação de serviços que não trabalham em
fábricas, não produzem mercadorias, não integram a classe operária tal como
Marx compreendia esse conceito, muitos deles realizam o seu trabalho
isoladamente e não em grupo, como os motoboys
que entregam pizzas para a classe média, mas ainda assim estão sujeitos a
jornadas de trabalho extenuantes, em situação de insegurança e precariedade,
recebem baixas remunerações e contribuem para o enriquecimento de nossas elites,
cada vez mais desumanas.
Por
outro lado, os trabalhadores não deixaram de lutar contra as injustiças e em
defesa de uma nova ordem social, inclusive pela via da luta armada, como
acontece ainda agora nas guerras populares em curso na Colômbia, Índia,
Filipinas e, em menor grau, no Peru, Turquia e outros países, bem como nos movimentos
sociais que se desenvolvem na Venezuela, Bolívia, Argentina, Brasil e outras
nações latino-americanas, que defendem pautas como a luta contra o latifúndio e
pela reforma agrária, a nacionalização do petróleo e outras riquezas naturais,
a unidade latino-americana contra o imperialismo norte-americano, entre outros pontos
avançados.
A
luta de classes apenas atualizou-se, se vocês preferirem, podem chamá-la agora de
klassenkampf 4.0.
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
BREVES APONTAMENTOS SOBRE O MARXISMO NO SÉCULO 21 (Parte 1)
Claudio
Daniel
Um fantasma
ronda o mundo: o espectro da morte do comunismo, anunciada quase todos os dias pelos
meios de comunicação social, personalidades do meio acadêmico, artístico e
intelectual, políticos conservadores, celebridades do cinema, da moda, do
esporte e outros formadores de opinião. Esta nota fúnebre é anunciada com insistência,
sobretudo após a dissolução da União Soviética e do campo socialista na Europa
Oriental, há mais de três décadas. A insistência na veiculação do necrológio
nos faz pensar: por que é necessário repetir, sempre, sempre e sempre, a
suposta morte do comunismo? Haverá, talvez, dúvidas a esse respeito entre os
que repetem o eterno mantra? Ou eles temem que Marx ressuscite de seu túmulo em
Londres e volte a conclamar, agora nas redes sociais: “Trabalhadores de todos
os países, uni-vos!”?
O fato
é que o discurso conservador ganhou um forte aliado na chamada Quarta Revolução
Industrial, ou Indústria 4.0, que criou novos processos de produção em suas “fábricas
inteligentes”, que unem a automação e a robótica, que substituem o trabalho
humano por dispositivos mecânicos ou eletrônicos,
e a internet, que possibilita a comunicação e a cooperação entre diversos
setores produtivos em tempo real. Nesta nova etapa do capitalismo, fábricas
inteiras trabalham sem a presença de operários, o que eleva o número de
desempregados, ou “exército industrial de reserva”, nas palavras de Marx, os
custos para a produção de mercadorias são reduzidos e os lucros obtidos pelos
capitalistas são muito maiores. A economia globalizada substitui as economias
nacionais isoladas e o próprio capital acionário das grandes empresas é cada
vez mais transnacional, com a participação ostensiva do capital financeiro
internacional. Ou, como diriam Marx e Engels Manifesto Comunista,
publicado em 1848: “Pela exploração do mercado mundial, a burguesia tornou
cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. (...) A autossuficiência
e o isolamento regional e nacional de outrora deram lugar a um intercâmbio
generalizado, a uma interdependência geral entre as nações”, conceito que é
mais conhecido nos dias atuais como globalização.
Ao mesmo tempo, o neoliberalismo contemporâneo vem
realizando, tanto nos países capitalistas desenvolvidos, ou imperialistas,
quanto nas semicolônias que fornecem commodities
– fontes de energia, como o carvão, o gás e o petróleo, matérias-primas,
produtos agrícolas ou pecuários – uma “reengenharia” nas relações de trabalho,
revogando conquistas históricas dos trabalhadores, como os direitos
trabalhistas e previdenciários, além da privatização ou precarização dos serviços de educação e saúde e dos cortes orçamentários nos programas sociais. No cenário de uma grande cidade como Nova York,
Londres ou São Paulo, nos deparamos com uma multidão de trabalhadores terceirizados ou informais, como entregadores de pizza ou motoristas de Uber (chamados,
acintosamente, de “empreendedores”), que nada recebem além de parca remuneração, sempre defasada pelo ciclo inflacionário. Sem dúvida, esta é uma
transformação profunda no capitalismo, porém, de modo algum está em contradição
com a teoria marxista.
Conforme escrevem Marx e Engels no Manifesto Comunista: “A
burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de
produção; portanto, as relações de produção; e assim o conjunto das relações
sociais. Ao contrário, a manutenção inalterada do antigo modo de produção foi a
condição precípua de existência de todas as classes industriais do passado. O revolucionamento
permanente da produção, o abalo contínuo de todas as categorias sociais, a
insegurança e a agitação sempiternas distinguem a era burguesa de todas as
precedentes. (...) Tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Basta recordarmos,
brevemente, as três revoluções industriais anteriores: a primeira, realizada no
século XVIII, com a introdução de máquinas a vapor como fonte de energia, o que
beneficiou sobretudo a indústria têxtil; a segunda, realizada entre 1870 e
1914, com o uso da energia elétrica, a produção
em massa nas grandes unidades fabris, como na indústria automobilística, popularizada
por Henry Ford, e a introdução do telégrafo e das ferrovias; e a terceira, chamada
de “revolução digital”, realizada entre 1950 e 1970, quando aconteceu a mudança
de sistemas analógicos e mecânicos para os sistemas digitais. O desenvolvimento
da automação, dos computadores e a criação da internet abriram o caminho da
terceira para a quarta revolução industrial, na qual os sistemas ciberfísicos
combinam o trabalho humano remoto com as tarefas executadas por robôs, sendo a
comunicação realizada em tempo real entre todos os agentes participantes da
produção. Todo esse desenvolvimento, que nos parece notável, porém, já estava
previsto por Marx e Engels, no Manifesto
de 1848: “A grande indústria criou o mercado mundial, preparado pela descoberta
da América. O mercado mundial expandiu prodigiosamente o comércio, a navegação
e as comunicações. (...) Portanto, vemos que a burguesia moderna é produto de
um longo processo de desenvolvimento, de uma série de profundas transformações
no modo de produção e nos meios de comunicação”.
O que vemos hoje no mundo, portanto, não é a negação do
marxismo, mas a comprovação de suas leis gerais, como expomos brevemente aqui e
seguiremos analisando, nos próximos artigos,.
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
O UNIVERSO DE SENSAÇÕES DA PALAVRA POÉTICA
A leitura dos poemas de Jade Luísa oferece ao leitor todo um universo de sensações plásticas e musicais, de finíssima sensibilidade. Ela investe na alquimia do verbo, à maneira de Rimbaud, descobrindo as analogias possíveis entre as imagens do mundo objetivo e as de seu mundo pessoal, habitado por uma singular mitologia. É evidente a proximidade de sua poesia com a estética simbolista de autores como Gilka Machado e Ernâni Rosas, e ainda com a de poetas portugueses contemporâneos, como Herberto Helder e Luiza Neto Jorge, mas a poeta e atriz potiguar revela em sua escrita todo um álbum particular de obsessões, em que encontramos imagens poéticas delirantes como “unhas terrosas”, “coxas falantes”, “sibilo verde-âmbar” e “língua do céu”. A intensa sinestesia poética de Jade Luísa convoca os nossos sentidos para uma experiência quase corporal com a palavra, que transpira como a pele ao sol. No poema Broto, dedicado a Jeannette Priolli, por exemplo, ela escreve: “Gritos férteis coagulam / úvula fêmea se rompe / engole pó e antipalavra // O fogo desponta do seio / chifres na boca do sol / cúrcuma tece a espinha / estiagem da língua // No canteiro do estômago / cultiva crisálidas / com a luz de quando abre a boca. // Em tempo de sangrar, vocifera / O que nasce não é palavra / Não é néctar / É lava”. Jade Luísa domina o instrumento poético e sabe urdir estranhas partituras que nos seduzem, aterrorizam e maravilham. Leiam abaixo três poemas da autora:
ECO
DE LUSCO-FUSCO
Escuto a água arranhando o vidro
Suas unhas rascunham calmaria e flores
Esqueço como a água sente a pele
Esqueço como a água rasga a pele
Os dias arranham o vidro
Esfolam as flores que a água rascunhou
Dissipam a face que a noite tingiu
O fogo a guerra os mortos, já não os sinto
Eles ainda vivem sob os sulcos do asfalto
Mas eu, tingida de noite, esqueço.
CONFESSO DEVANEAR-ME NOS SEUS DENTES
Então você olha pras minhas maçãs
e sorri quando percebe que elas ardem
até o pé da orelha,
bem no lugar que você beijou antes de
me dizer
mariposas e besouros.
Não sinto dor agora, apenas
quando eu me deitar sob as coxias do
inverno.
Elas protegem minhas orelhas da sua
saliva
mesmo quando eu não peço, mesmo
quando meu anseio maior é me
embaraçar no vazio entre a sua
gengiva e a sua
orelha.
SOBRE MULHER
GIGANTE AO DESCOBRIR AS GUELRAS
Eu navego mas não como marinheiro
sim como sereia
possuo a força das ondas
me arrebatam as ondas
me carregam as marés e navego
em lonjuras leves de espuma
de crista de onda
Possuo males e enganos
nunca como homens ou náufragos
eles que têm medo – e organizam
simpósios
e enciclopédias de medo
metrificam o medo
ceiam brindam gozam
e celebram o medo
em folhetins em manifestos
em congressos do medo
Eu não naufrago – tenho guelras e
seios
minha ciência minha arte
meu alimento meu sexo
são ancestrais:
aprendi com a minha mãe
que aprendeu com a mãe dela
que aprendeu com a mãe dela
os segredos da vida e da morte
E como sereia ainda me faço feia
bela apenas pra quem me toca
lhes nego então a dor feia dos olhos
a dor das orelhas
a dor dos dentes
e chupo seus dentes, os faço azul
Pois como boa sereia, azul e feia
ser meio peixe meio guelras
meio mulher mãe irmã
meio morte meio sexo
inteiro seio, inteiro astro,
inteira cais, farol e seio
para todas as que se tocam nas redes
afogadas de cabelos limpos, pretos e
limpos
Rede runa redário vivo
Toda vida rebenta [e morre]
no seio das sereias.
Agora eu falo pelas coxas.
Sigo contando histórias sobre como
estou
cega pela luz da sua garganta
surda pelo som do seu tórax
muda pelo eco das suas pupilas
inerte pela lava que escorre das
minhas coxas falantes
entoando elegias por detrás do seu
pescoço,
como quem enrola a língua ao
sussurrar seu nome.
Baixinho, para que só o desejo possa
ouvir.
domingo, 23 de agosto de 2020
QUANDO A IMAGEM E A MÚSICA SE FAZEM PENSAMENTO: A POESIA DE LOURENÇA LOU
Claudio Daniel
Lourença Lou, poeta mineira, nascida em Belo Horizonte, revela em sua escrita poética uma linguagem substantiva, em tom seco e preciso, mas de alta intensidade emocional, em que ela desenvolve temas relacionados às relações interpessoais, à condição feminina, ao estar no mundo, a situações de poder, ao silêncio, à extinção e ao próprio discurso poético. A poeta utiliza elementos da metáfora, da alegoria, da ironia e do humor cáustico para construir partituras-pinturas do pensamento. Confiram abaixo alguns poemas da autora.
ATO FINAL
quando vieres
ó morte
o que levarei comigo?
talvez um obstinado descaso
pelas falsas carícias da vida
certo estilo no uso
dos saltos a comer calçadas
esta ilimitada admiração
pela coragem de Adélia
no inaudito louvor ao cu
confrontar a moral da igreja
me dirás com olhos de brasa:
traga os diários noturnos
que guardam com timidez
a versão de seu sexo felino
carregue a áspera meiguice
com que feridas amigas
beijaram-lhe os olhos
deram sentido à sua visão
e esta inveja que te grita
do mais profundo da gaveta
pela rosa de Drummond
e seu amor natural
enfim me dirás: esqueça
os cadernos de catecismo
você nunca se preocupou
em fazer malas no dia anterior.
EXPLOSÕES
querem-nos
medo
:
alguma chama
cólera
coração
querem-nos
pausas esparsas
entre risos amarelos
embora ignorados
por quem paralisa
nossa respiração
ainda podemos provocar
a bomba
que os surpreenderá
explosões
transitam em metáforas
da necessária resistência.
CARACÓIS
a exaurir pensamentos
bebo a noite
em lentos goles de realidade
na sem-razão da certeza
ardo estilhaços
do amor onde nunca aportei
mergulho em vagas do incorpóreo
e resgato guelras
dos caracóis em que me cultivei.
MURO
sob o esmeril do sol
a caricatura de um homem
escala o muro
da boca escorre uma baba lassa
no corpo o fardo de seus mil anos
mal distribuídos na carne desvalida
silêncios cochilam na tarde de sábado
um tiro fura a pasmaceira
prega o homem de cara no muro
rigor nos braços
pernas a exaustar o ar
mulheres dissimulam medo
crianças arregalam-se
homens louvam na farda e fuzil
o acato da lei
o amor faltou ao chamado do sábado
no muro o corpo em sangria
como um tiradentes enferrujado
finda a intenção de salvar
o cão preso nos fios
da garantia do patrimônio
com ganidos de vida partida
um urro de boi no matadouro
alheia-se o sábado de cara no muro.
PERIFÉRICOS
fogos atraídos
pelos estalos da pedra
raios a rabiscar
a mendicidade da rua
vidas a vomitar
enxurradas de delírios
na escuridão
dos estômagos vazios
procissão de mortos vivos
carne rasgada
a percorrer noites em círculos.
DESAGUES
não se desbrava esta mulher
com adornos e vigílias
não se descobre esta mulher
pela atração de seus pecados
não se desveste esta mulher
por seus desagues e fertilidades
precisa-se madurar de vermelho
suas anêmonas e águas vivas
espalhar orgias e espantos e enchentes
nas palpitações de seus lábios todos
amar esta mulher na pungência
e na mística do alimentar de seus seios.
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
ADEUS, VICTOR SOSA!
Victor Sosa, poeta uruguaio faleceu no dia 06 de agosto, aos 64 anos de idade, na Cidade do México, onde residia desde 1983. A imprensa noticiou que ele foi vítima de infarto, mas pessoas próximas ao poeta afirmam que ele foi preso e faleceu após poucos dias na prisão, em um caso estranho e ainda não esclarecido. Victor Sosa recebeu o Premio Internacional de Poesía Jaime Sabines em 2012 e era considerado um dos melhores poetas contemporâneos de língua espanhola.
Claudio Daniel
Victor Sosa nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1956 e destacou-se como poeta, ensaísta, tradutor e artista plástico. Lecionou na Universidade Ibero-americana (México), realizou mais de quinze exposições individuais de pintura e colaborou em jornais e revistas literárias. Sua obra poética inclui livros como Sunyata (1992), Gerundio (1996), Decir es Abisínia (2001), Mansión Mabuse (2004), Nagasakipanema (2011), La saga del Sordo (2006), entre outros títulos. Já seus ensaios críticos e teóricos incluem La flecha y el bumerang (1997), El Oriente en la poética de Octavio Paz (2000), El impulso, inflexiones sobre la creación (2001) e Derivas del arte contemporáneo en México (2003). No Brasil, foi publicada uma antologia bilíngue com alguns de seus poemas, intitulada Sunyata e outros poemas (2006), com traduções feitas por mim, em parceria com Luís Roberto Guedes. Victor Sosa participou de antologias de poesia latino-americana, entre elas Jardim de camaleões – A poesia neobarroca na América Latina (2004), publicada pela editora Iluminuras. Participou de eventos internacionais de poesia em São Paulo, como o Festival Tordesilhas, em 2007 e foi bolsista residente do Programa de Incentivo à Pesquisa e Tradução da Obra de Haroldo de Campos. Victor Sosa também traduziu diversos poetas brasileiros para o espanhol, entre eles João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminsky. Transcrevemos abaixo alguns depoimentos de poetas brasileiros e latino-americanos que conviveram e dialogaram com o autor uruguaio.
"A perda de um poeta tão intenso como Victor Sosa é a perda de um mundo particular, em desenvolvimento, único, paralelo, com reverberações no grande mundo da linguagem, tecida e entretecida por muitos, em vários idiomas - mundo, aliás, muito mais interessante do que essa parca, pobre e absurda realidade a que estamos condenados. Se vai o poeta, mas fica a linguagem que ele erigiu, enquanto houve tempo. Que sua poesia densa, caudalosa, visionária, seja mais traduzida e lida entre nós, brasileiros."
– Ademir Assunção
“Conheci Víctor pessoalmente em Sampa, num encontro de literatura em 2009. Mas já conhecia o seu trabalho desde que o seu poema Los animales furiosos me apareceu, em 2004, em tradução belíssima do Claudio Daniel. Publicamos imediatamente na revista Oroboro 1, que estávamos iniciando e lembro de ficarmos animados com a coincidência de o poema ter nos chegado às mãos. O poema é admirável, pois Víctor lança mão de sinais gráficos de pontuação (dois pontos, vírgula, ponto e vírgula) para intensificar as presas de animais em fúria. Uma vírgula é também a presa de uma víbora. Depois, generosamente, ele aceitou escrever a apresentação do meu livro Amphibia, que saiu em Portugal, pela Cosmorama, em 2009. Ainda nos conhecíamos à distância, ambos acompanhando o trabalho do outro. Foi por causa destas primeiras trocas que, no encontro em Sampa, quis conhecê-lo pessoalmente e fui assistir a sua participação numa mesa para depois sairmos para jantar. Logo fiquei encantado com sua presença, com sua fala serena, concentrada, consistente e toda construída com gentileza e humildade. Posso dizer, Víctor era foda, muito foda. E ontem, infelizmente, aos 64 anos, ele se foi. Quando soube, a sensação de vazio foi imensa. Fiquei horas em uma pausa dolorosa. Estava de máscara e tive que tirá-la rapidamente para respirar, ganhar fôlego. Hoje acordei pensando nele e quero crer que está conversando uma boa conversa em algum lugar. Víctor foi um grande amigo. Guardarei para sempre em meu coração essa amizade tão linda e produtiva. Evoé, Víctor!
-- Ricardo Corona
“Em princípio, a cada vinte anos, temos uma nova geração. A cada geração, numa dada língua, temos cerca de vinte vozes com uma obra poética única e com características únicas e próprias que distinguem o seu autor e marcam a sua presença como patrimônio, o cânone, o seu tempo, a sua linguagem e a sua país de origem. Neste momento em espanhol e para sua geração e países, neste caso Uruguai e México, Víctor Sosa, o poeta e o crítico estão, a meu ver, entre os escritores de sua geração que garantiram um lugar permanente.”
-- José Kozer (Cuba)
“VICTOR SOSA desenhou novos mapas BARROCOS (extraiu do fundo sombrio as dobras hipnagógicas do APEIRON, os relâmpagos da feitiçaria poética, as almas altivas da animalidade, as enciclopédias caológicas): é um SIGNO de ritmicidades expressionistas, é um atravessamento gerador de tempos crónicos. VICTOR é um MACARÉU afectivo: Victor é um MARACATU que perfura as rebentações de uma VISÃO fora das imagens: VICTOR não é um nome, é um acontecimento indiscernível, é um espírito que impulsiona existências góticas-cristalinas, é um espelhamento rítmico, é uma cartografia do instante da eternidade, é o inconsciente do corpo, é uma cor-da-estranheza que despontou desabaladamente do cubo de Husserl: VICTOR é uma língua do VAZIO que nos arremessa para o impensável e para a perplexidade: VICTOR é uma vidência ritornélica!”
-- Luís Serguilha (Portugal)
“O seu trabalho contundente e de qualidade inequívoca inclui as práticas simultâneas ou entrelaçadas do ensaio, da tradução e da pintura, todas as quais terão de ser editadas brevemente, para podermos apreciar, à luz das novas visitas, as múltiplas linhas de força que constituem a alma integral, mas perturbadora de seu encadeamento. Assim como no encerramento da intensa inconclusão de The Angry Animals, a canção da origem materna é oferecida, talvez tenha provocado a reconciliação do bardo consigo mesmo, agora, no nível tibetano do Bardo, em sua jornada pelos estados intermediários, vamos recitar a Victor os seus próprios versos no ouvido:
Vazio de paz
e não do abismo, cheio
vazio de paz.
Você verá que sim, você verá que
o que acontece aí você pode ver: fechar
agora seus olhos, fechem para dentro
os poros dos olhos e aperte suavemente
cada pálpebra e de repente abra-as com firmeza
como um púbis que abre a puberdade. E aberto
-- Reynaldo Jimenez (Argentina)
VICTOR SOSA E AS FRONTEIRAS QUE A POESIA NÃO CULTIVA
Abreu
Paxe
O poetamigopoeta Victor Sosa atingiu o Zamini para o
construir-mos no Sasa. Entrou na ideia do tempo em constelações. Passa a estar
nas textualidades, nos signos, nos afectos. Passa a ser ou talvez a não ser ele
mesmo que foi o tradutor das diferentes dimensões que se entrelaçam e
entrelaçam a sua poesia e outras formas discursivas praticadas por si e em si.
Isso visa destacar a importância desse conjunto como ideia de
tempo, de espiritualidade,
de tradição e de experimentações, como se
atestam em Sunyata,
em Decir es Abisinia e em Animales Furiosos, abordamos um exercício de poesia
que nos torna estrangeiros, na aceção em que ele tomava esse nome tanto na sua
experiência como Homem/Cidadão, tanto quanto como o criador, o inventor. Suas
experimentações poéticas, estas «as indicadas aí em cima» são estendidas aqui ao sol como potência das tramas internas de todos os corpos ocultos, de todas as histórias ocultas, ou observadas, contra as macro
revoluções aparentes. Anula-se em si e na sua poesia o princípio de espaço
nacional e potencia-se a dos espaços culturais subordinados ao poder não
substancial, mas relacional, onde destacamos a ideia de tempo como duração
conjugadas no Zamini e no Sasa como imagens fractais de tradução metonimica das
metáforas de aproximação e de afatamento. As imagens as experiências na sua obra traduzem Zamini e Sasa que sustentam a noção de tempo-poesia-memoria-espaço como filosofia extraterritorial de vida, em tese segundo
Mbiti, o tempo como conceito númerico (calendário) não tem uma grande
importância para povos como os africanos, talvez isso sirva também para os
indios das Américas, ou
para os latino americanos de modo mais expandido, o que conta são os acontecimentos que se realizam na vida. Na obra de Victor Sosa embora não se Conte,
percebe-se facilmente que a narrativa da poesia como construtu ficcional está
noutra parte e essa outra parte é que talvez chamaríamos de linguagens.
Como já escrevi e outro lugar, o tempo tem duas dimensões: o passado (Zamini) e o presente
(Sasa) o futuro é praticamente muito curto e próximo do presente. O conceito em alguns lugares de África de tempo vai no sentido reverso mais para o Zamini do
que para frente. Aperecebe-se mais do passado em relação ao que poderá ainda
acontecer. Sasa e Zamini sobrepoem-se, no sentido em que Sasa contém em si
parte do Zamini. Assim um homem que morre entra no Zamini, mas se os seus ente
queridos se recordarem dele, ele continua a fazer parte da familia e fica no
Sasa, só em caso de ele ser esquecido completamente é que fica todo ele no
Zamini, uma vez que o tempo marcha recuando ele não influência
o futuro. Para a
nossa compreensão a partir desse lugar também barroco, Victor Sosa, como poeta,
traduz-se entre Zamini e Sasa, aí se enraíza e aí se radica e passa a ser
experiência evocada. Os símbolos passam a não ser só construções intelectuais,
em que o corpo, o oral, o tradicional (africano e pré-colombiano), enredando-se
de modo relacional em nossa e sua própria espessa textura proliferante que convida
o leitor ao extremo multiplicador e ramificante, portanto não morre porque
entra num sistema de tessituras, na constelação com os artefactos por si
inventados, construídos, criados e que agora o gerem no sistema geral da
cultura.
Essa
abordagem faz-nos compreender a grande importância que o Africano e não só confere ao passado,
pois, o segredo da vida encontra-se na santidade da atitude e do
comportamento dos acestrais. E Victor Sosa o poetamigopoeta não deixou de evocar o passado
Ocidente-Europeu, do Oriente entrelaçado em menor ou maior grau com a África. É deste modo que se avivam as
memórias que nos administram, como também se pode ler em Sunyata que em sânscrito significa (vazio/
plano), como em Decir es Abisinia que é (abissinia), como avança em entrevista
à Zunái “é o território onde Rimboud não escreveu. Esse Homem que buscava uma
língua, encontrou na abissínia o silêncio, ou talvez não encontrou nada, mas da
mesma forma cessou de escrever. Dizer é impossível, é um deserto, é uma
enteléquia, é Abissinia. Porém além dessa impossibilidade e contra essa
impossibilidade é preciso dizer, é preciso navegar nesse balbucio, é preciso
inventar um mundo no qual no qual permaneça a realidade, embora só permaneçam
ruinas, embora só permaneçam palavras”, e nós já sem o ser orgânico, o ser
natureza, esse que transmigrou-se no ser
cultura; e, por isso, ele não morre, mas renasce em cada frase, em cada gesto afetivo dos
quotidianos em que renasce nos dilatados
longes das línguagens de cravo perfumadas e de gengibre, cola e lungwila.
Ou
seja, simbolicamente
em Animales Furiosos, se dá a tríade (nascer, crescer, morrer), evidenciam-se
as duas noites; a que procede seu nascimento e a da morte. Essa tríade compõem-se em três movimentos; um
mistico, um erótico e um ético, os três interconectam-se, e se confundem e se
fudem, tornam-se num só, mas variável, divíduo, portanto fractal na diversidade
inclassificável, seguindo uma lógica própria da Filosofia africana do
movimento, pré-colonial, assemelha-se a uma lógica própria do mundo digital, em
que no fundo se trata de pôr em conexão, em rede e não categorizar, de
classificar, de hierarquizar ou limitar o movimento. Victor Sosa nessa nova configuração que
tomou, torna-se no seu próprio centro e, para dissolver, as fronteiras internas
que interiorizou contra a sua própria cultura que é do movimento, da relação
não intelectual como cifra de uma respiração, de uma pulsão, de uma pulsão de
escritura que contém em suas linhas o simbólico e o sintoma , o cifrar-se e o
decifrar-se nesse misterioso e complexo jogo entre a vida é a morte, onde a
poesia é seguramente a sua matéria, trabalhando a dimensão indivisível entre
filosofia e estética em que o investimento no acto criativo, inventivo não
chega a ser intelectual.
As Literaturas como
fenomeno social surgiram para fundar os espaços nacionais, ao mesmo tempo que
promoveram a exclusão. A ideia de literatura nacional, do ponto de vista
cultural, ainda pode nos conduzir a da multiplicação de fronteiras a mesma condição de
estrangeiro em que nos remete Victor Sosa.
Aquilo que chamariamos ou de Literatura Uruguaia, ou de Literatura Mexicana,
ou de Literatura Brasileira aporta no seu seio
uma trama de imagens, linguagens e afetos que dificilmente cabem na ideia de território, ou na de um
espaço nacional no sentido geográfico como lugar que, de tão autêntico não
consente contaminações, ou ainda de reconhecermos nela os lugares daquilo que
chamaríamos de “Literaturas no Uruguai, no México, no Brasil”, ou também de um lugar com
realidade cultural que se afirma na descontinuidade territorial. Ou melhor, se
tomarmos os títulos
de seus livros ou o conjunta da sua obra,
podemos a partir daí perceber como nos relacionamos e somos tecidos por
entrelaçamentos de imagens multiplas e transversais quanto os nossos olhos se
podem abrir, os
nossos gestos se podem expandir, as nossas vozes se podem alongar. As metaforas de aproximação e de afastamento se
evidenciam a partir dos diferentes lugares de onde nos fala de forma
relacional, de igual modo, há um desenho metonimico fractal que sustenta seu acto criativo de tessitura
barroca.
Guardo em boa medida as energia e os afetos que trocamos,
nas suas estadas em São Paulo-Brasil da década que terminou.
Abre Paxe, poeta angolano, nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe província do Uíge,
Angola. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED),
em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura
Angolana nesta mesma instituição. É membro da União dos Escritores
Angolanos (UEA) e venceu o concurso Um Poema para África em 2000. Foi
animador do Cacimbo do Poeta na sua 3ª. edição, atividade organizada pela
Alliance Française, por ocasião da Dia da África. Figura na Revista
Internacional de Poesia "Dimensão n. 30 de 2000, na antologia dedicada à
poesia contemporânea de Angola, editada em Uberaba, Brasil. Publicou os livros de poesia A chave no repouso da porta e O vento fede
de luz. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR),
Zunái (SP), Mallarmargens (PR) e Comunità Italiana (RJ), Portugal, na
antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão).
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segunda-feira, 3 de agosto de 2020
REBELDES & MALDITOS
quinta-feira, 30 de julho de 2020
COMO ORGANIZAR, PUBLICAR E DIVULGAR UM LIVRO DE POEMAS
COMO ORGANIZAR, PUBLICAR E DIVULGAR UM LIVRO DE POEMAS é o tema da palestra que Claudio Daniel, poeta, professor e crítico literário, realizará no dia 10 de agosto, segunda-feira, das 18h30 às 20h. via internet. Serão oferecidas 25 vagas para quem tiver interesse em participar da conversa e o investimento será de R$ 30,00. Alunos regulares do Laboratório de Criação Poética estão isentos do pagamento. Informações e inscrições pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
segunda-feira, 20 de julho de 2020
TRILHA

O amor é um lagarto em fuga:
desponta da testa a crina,
as patas se vestem de fogo.
Em nuvens , novelos devoram avelãs,
nossos pés encontram-se no espaço,
raptam luar olhares indiscretos
Ele me diz que a morte é uma delícia
(naufrágio ébrio de palavras flutuantes).
O tempo repartido
se retorce em contramão.
Flores brancas em águas profundas,
reflexo de hubris submersos
De súbito, vejo uma pinta em sua pele.
A noite dorme sobre rasgos e dores.
Clima de lua e medo carbonizou nossa memória,
dramas sem começo, meio, fim.
Sofrimento escravizado,estado de cansaço:
Dilaceramento.
Cadáveres enfileirados em correntes,
pixels gotejando de um dispositivo cerebral.
O cadáver delicado beberá o vinho novo:
Se non há senso il sentiero
alla fine del viaggio
dov'è lo splendore?
Criação coletiva ("Cadáver delicado") de alunos do Laboratório de Criação poética do professor Claudio Daniel)
Poetas:Dirce Carneiro, Ewaldo Schleder, Marcia Tigani, Bianca Amaro, Jade Luiza, Jose Couto, Carvalho Junior Scheila D. Sodré, Lourença Lou , Telma Srour , Flaviano M. Vieira, Maria Jacyra Lopes( não necessariamente nesta ordem)
terça-feira, 30 de junho de 2020
CURSO DE POESIA VIA INTERNET EM JULHO.
sexta-feira, 26 de junho de 2020
PENSANDO A POESIA BRASILEIRA
"Pensando a poesia brasileira", reunião de artigos e ensaios de crítica literária que publiquei na revista CULT, no Suplemento Literário de Minas Gerais, no Portal Vermelho e e outros sites, jornais e revistas, em que analiso a poesia brasileira contemporânea.
O livro reúne textos sobre Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Claudio Willer, Alice Ruiz, Régis Bonvicino, Antônio Risério, Duda Machado, Arnaldo Antunes, Horácio Costa, Rodrigo Garcia Lopes, Josely Vianna Baptista, Ricardo Corona, Frederico Barbosa, Ademir Assunção, Ricardo Aleixo, Micheliny Verunschk, Glauco Mattoso, Antonio Moura, Luiz Augusto Contador Borges, Claudia Roquette Pinto (Cau Pema Konchok), Carlito Azevedo, Adriana Zapparoli, Andréia Carvalho Gavita, Donizete Galvão, Simone Homem de Mello, Marcelo Ariel, Ronald Polito, Jorge Lucio de Campos, Sergio Medeiros, Priscila Merizzio, Elson Fróes, Lígia Dabul, Nelson Ascher, Júlio Castañon Guimarães, Joca Reiners Terron, Fabiano Calixto, André Dick, Virna Teixeira, Joana Corona, Chiu Yi Chih.
O livro foi publicado em 2018 pela Lumme Editor e pode ser encomendado pelo e-mail contato@franciscodossantos.com.br












