quarta-feira, 1 de junho de 2022

CURSO ONLINE DE POESIA VISUAL

 












A partir do dia 09 de junho, iniciarei o curso online Poesia Visual e Sonora, que acontecerá sempre às quintas-feiras, das 18h30 às 19h30, via Zoom.

A duração do curso é de três meses e a mensalidade, de R$ 80,00.

Vamos estudar a Poesia Experimental Portuguesa, a Poesia-Processo, a Poesia Semiótica, a Poesia Eletrônica, entre outras tendências de vanguarda da segunda metade do século XIX e início do século XX.

 

Informações pelo Whatsapp (11) 9 4878-2488 ou pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

terça-feira, 17 de maio de 2022

TRÊS POEMAS DE JULES LAFORGUE

 












LITANIES DES PREMIERS

 QUARTIERS DE LA LUNE

 

Lune bénie

Des insomnies,

 

Blanc médaillon

Des Endymions,

 

Astre fossile

Que tout exile,

 

Jaloux tombeau

De Salammbô,

 

Embarcadère

Des grands Mystères,

 

Madone et miss,

Diane-Artémis

 

Sainte vigie

De nos orgies,

 

Jettatura

Des baccarats,

 

Dame très-lasse

De nos terrasses,

 

Philtre attisant

Les vers luisants,

 

Rosace et dôme

Des derniers psaumes,

 

Bel oeil-de-chat

Que nos rachats,

 

Sois l'Ambulance

De nos croyances!

 

Sois l' edredon

Du Grand-Pardon!

  

Jules Laforgue

 

LITANIAS DOS QUARTOS

CRESCENTES DA LUA

  

Lua sublime,

Nos ilumine!

 

É o medalhão

De Endimião,

 

Astro de argila

Que tudo exila,

 

Tumba milenar

De Salambô lunar,

 

Cais etéreo

Do alto mistério,

 

Madona e miss,

Diana-Artemis,

 

Santa vigia

De nossas orgias,

 

Jetaturá

Dos bacarás,

 

Dama tão pálida

De nossas praças,

 

Vago perfume

De vagalumes,

 

Rosácea calma

Dos últimos salmos,

 

Olho-de-gata

Que nos resgata,

 

Seja o auxílio

A nossos delírios!

 

Seja o edredão

Do Grande Perdão!


Tradução Claudio Daniel_ 

 

 LITANIES DES DERNIERES

QUARTIERS DE LA LUNE

 

Eucharistie

De l' Arcadie,

 

Qui fais de l' oeil

Aux coeurs en deuil,

 

Ciel des idylles

Qu' on veut stériles,

 

Fonts baptismaux

Des blancs Pierrots,

 

Dernier ciboire

De notre Histoire,

 

Vortex-nombril

Du Tout-Nihil,

 

Miroir et Bible

Des Impassibles,

 

Hôtel garni

De l' infini,

 

Sphinx et Joconde

Des défunts mondes,

 

O Chanaan

Du bon Néant,

 

Néant, la Mecque

Des bibliothèques,

 

Léthés, Lotos

Exaudi nos!

  

Jules Laforgue

 

LITANIAS DOS QUARTOS

MINGUANTES DA LUA

 

Eucaristia

Da Arcadia,

 

Olho que seduz

Corpos sem luz,

 

Céu dos idílios

E dos martírios,

 

Pia batismal

Do Pierrot mortal,

 

Última hóstia

De nossa história,

 

 Vortex-orifício

Do Final-Início,

 

 Espelho do sóbrio,

Bíblia in folio,

 

 Hotel aflito

Do infinito,

 

 Sphinx-Gioconda

Das hecatombes,

 

 Ó Canaã

Do estéril afã,

 

 Do Nada _ Meca

Das bibliotecas,

  

Letes, Lótus

Exaudi nos!

 

 Tradução Claudio Daniel_ 

 

 PETITES MISERES DE MAI

 

On dit: l' Express
Pour Benarès!

La Basilique
Des gens cosmiques!...

Allons, chantons
Le Grand Pardon!

Allons, Tityres
Des blancs martyres!

Chantons: Nenii!
À l' infini,

Hors des clôtures
De la Nature!

(Nous louerons Dieu,
En temps et lieu.)

Oh! les beaux arbres
En candélabres!...

Oh! les réfrains
Des Pèlerins!...

Oh! ces toquads
De Croisades!...

- Et puis, fourbu
Dès le début.

Et retour, louche
- Ah, tu découches!

Jules Laforgue

 

 PEQUENAS MISERIAS DE MAIO

 

-- A Benares
Pelos mares!

A Basílica
Alquímica.

Eis a canção
Do Perdão.

O delírio
No martírio.

Não!, grito
Ao infinito,

Sem censura
Da vã Natura!

(Louvem a Deus
Até os ateus.)

Oh! castiçais
florestais!

Oh! os hinos
Dos peregrinos!

Oh! a ressaca
Das Cruzadas!

- É o início
Do comício.

Tiveste azia
Depois da orgia!

Tradução/paródia: Claudio Daniel

domingo, 13 de fevereiro de 2022

APOIE A LUTA DO MST!

 










Os trabalhadores rurais do assentamento Ondina Dias, situado no município de Nova Venécia, na região norte do Espírito Santo, reúne 56 famílias e foi afetado de maneira severa pelas chuvas, que causaram a destruição de moradias, camas, lençóis, travesseiros e outras posses dos acampados. Para a aquisição de novas barracas, dar apoio material e prestar solidariedade a esses trabalhadores que lutam pela reforma agrária, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e as companheiras Elaine Dias Cruz e Luciana Bernardes, que iniciaram a campanha, solicitam que sejam feitas doações, conforme os dados bancários abaixo. Grato pelo apoio de todos e todas!

PIX do Hudson

hudison.vialetto@gmail.com

Conta da Elaine Dias Cruz

Agência 0556

Operação  013

Conta 00015673-1 

CPF 132.304.367-50

O comprovante de depósito pode ser enviado para o e-mail elainemorena50@gmail.com.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

UM POEMA DE LAURA RIDING


 









ELEGIA NUMA TEIA DE ARANHA

O que dizer enquanto a aranha 

Dizer enquanto a aranha o que 

Enquanto a aranha a aranha o que 

A aranha faz que o que 

Faz que faz que morre não faz 

Não vive e então não 

Pernas pernas e então nenhuma 

Enquanto a aranha faz morre 

Morte aranha morte 

Ou não a aranha ou 

O que dizer enquanto 

Dizer sempre 

Morte sempre 

O morrer de sempre 

Ou viva ou morta 

O que dizer enquanto eu 

Enquanto eu ou a aranha 

Não eu e eu o que 

Faz o que faz morre 

Não enquanto a aranha morre 

Morte aranha morte 

Morte sempre eu 

Morte antes do sempre 

Morte depois do sempre 

Morta ou viva 

Agora e sempre 

O que dizer agora 

Agora e sempre 

O que dizer agora 

Agora enquanto a aranha 

O que faz a aranha 

A aranha o que morre 

Morre enquanto então enquanto 

Então sempre morte sempre 

O morrer de sempre 

Sempre agora eu 

O que dizer enquanto eu

Enquanto eu o que 

Enquanto eu digo 

Enquanto a aranha 

Enquanto eu sempre 

Morte sempre 

Enquanto morte o que 

Morte eu digo diga 

Morta aranha não importa 

Que meticulosa morte 

Viva ou morta 

Morta não importa 

Que meticulosa eu 

O que dizer enquanto 

Enquanto quem enquanto a aranha 

Enquanto a vida enquanto o espaço 

O morrer de oh que pena 

Pobre quão meticulosa morre 

Realidade não importa 

Morte sempre 

O que dizer 

Enquanto quem 

Morte sempre 

Enquanto a morte enquanto a aranha 

Enquanto eu quem eu 

O que dizer enquanto 

Agora antes depois sempre 

Quando então a aranha o que 

Dizer o que enquanto agora 

Pernas pernas então nenhuma 

Enquanto a aranha 

Morte aranha morte 

A gênia que não consegue parar de saber 

O que dizer enquanto a aranha 

Enquanto eu disser 

Enquanto eu ou a aranha 

Viva ou morta o morrer de 

Quem não consegue parar de saber 

Quem morte quem eu 

A aranha quem enquanto 

O que dizer enquanto 

Quem não consegue parar 

Quem não pode 

Não pode parar 

Parar 

Não pode 

A aranha 

Morte 

Eu 

Nós 

Os gênios 

Saber 

O que dizer enquanto a 

Quem não pode 

Enquanto a aranha o que 

O que faz morre 

Morte aranha morte 

Quem não pode 

Morte parar morte 

Para saber dizer o que 

Ou não a aranha 

Ou se eu disser 

Ou se eu não disser

Quem não pode parar de saber 

Quem conhecem os gênios.

Quem diz o eu

Quem ele nós não podemos

Morte parar morte

Para saber dizer eu

Oh pena pobre belezinha

Que meticulosos vida amor

Não importa espaço aranha

Que hórrida realidade

O que dizer enquanto

O que enquanto

Quem não pode

Como parar

O saber do sempre

Quem estes este espaço

Antes depois aqui

Vida agora minha cara

A cara amor a

As pernas reais enquanto

Que hora morte sempre

O que dizer então

Que hora a aranha

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sábado, 1 de janeiro de 2022

PRIMEIRO POEMA DE 2022

 








OSVALDÃO

 

Ele é vento;

pedra e vento

cobra e vento;

rio de tigres

ocelos de tigres

garras de tigres

invisíveis.

Ele é pássaro

canto de pássaro

tigre-pássaro

mais veloz

do que o vento

tigre-que-voa-

no vento.

Ele é preto,

assum-preto,

pássaro-tigre

mais preto

do que o vento.

Ele é chispa-

faísca que voa

no meio do mato;

voa-revoa no mato

no fundo do mato

pra longe dos longes

dos fundos do mato

como porco do mato.

Quem poderia

segurá-lo?

Quem poderia

prendê-lo?

Ninguém podia.

Ele é água

do rio;

ele é nuvem,

arco-íris,

dizem os ribeirinhos

em Xambioá.

Ele é santo?

Ele é demônio?

O negro forte

que dava conta

de vinte soldados

em cada mão;

ele é mágico?

Ele é Oxóssi,

atirador cuja flecha

sempre acerta

o alvo? Não.

Ele morreu, morreu?

Ele se encantou?

Ele esteve, está?

Ele foi um negro

pobre, como tantos

negros, tantos pobres;

ele foi um brasileiro, 

um comunista;

seu nome,

era o terror

de seus inimigos:

ele se chamava

Osvaldo, Osvaldão

do Araguaia.

 

2022

 

sábado, 25 de dezembro de 2021

RITUAIS

 




 





RITUAIS

 

Para Edir Pina de Barros

 

I

 

mutum-do-bico-vermelho

cavamos

cavamos

terra

e os braços

doem os braços

sob o sol

cavamos

terra

socamos

milho

no pilão

rio está longe

daqui

rio está longe

daqui

mutum-do-bico-vermelho

marinauá

marinauá

os braços

doem os braços

sob o sol

cavamos

terra

cavamos

cavamos

e então inhame

batata

milho

feijão

curió curió

marinauá

marinauá

mutum-do-bico-vermelho

depois

nós dançamos

dançamos

dançamos

até as estrelas até as estrelas até as estrelas.

 

 

II

 

o espírito do rio dorme na rede com as mulheres

a lua negra

e seu chifres

cada mulher

sonha

encantada

com a lua

e o espírito-rio

mandacaru

está vendo,

mandacaru

está vendo

os cabelos

soltos delas

que dormem

nos braços

do espírito-rio

que dormem

nos braços

da lua negra

elas dormem,

gozam

e sonham

quando

nascem

meninos

são filhos

da lua

quando

nascem

meninas

são filhas

do rio.

 

 

III

 

a onça a onça suas patas-faíscas

a onça a onça

seus dentes

dentes dentes

a onça a onça seu rugido

faz tremer a terra

faz tremer cotia

faz tremer a nuvem

arara de pluma vermelha avôa

arara de pluma

vermelha avôa

arara

de pluma

vermelha

avôa

e nós cantamos

nós cantamos

rostos pintados

de urucum

porque somos lagarto

porque somos cotia

porque somos formiga

porque somos lua-estrelas

porque somos onça

somos onça

somos

onça

 

 

 

IV

 

estamos aqui para luar estrelar

arvorar

onçar

passarar

estamos aqui para aguar peixar 

sementar

invernar

mandiocar

estamos aqui para florar frutar

areiar

azular

amarelar

estamos aqui para cantar brilhar

borboletar

formigar

luzeirar

porque somos luz riscando céu

porque somos

luz raiando rio

porque somos

luz-estrelas

girando luz-estrelas girando

luz-estrelas

girando luz-

estrelas

 

 

 

V

 

penas negras de japu olhos azulinos

de japu bico branco de japu

de cauda amarela fura-banana

xexéu-mufumbo

japuguaçu

japu-preto rei-congo

vem avisar

que nosso pai cruzou para outra margem

atravessou a lagoa

atravessou

a lagoa do céu

ariranha confirmou

ariranha confirmou

o que disse o japu

de olhos azulinos

ele foi no ir-se embora

da canoa

de madeira

que não há na canoa

atravessou a lagoa do céu

atravessou a lagoa do céu

e virou raio de luz

para nos alumiar.

 

 

VI

 

mulheres banham-se nas águas do rio

elas lavam os cabelos

e cantam

elas lavam os cabelos

e cantam

mulheres banham-se nas águas do rio

depois voltam para casa

e saúdam o espírito

do gavião

depois voltam para casa

e saúdam o espírito

do gavião

mulheres sovam mandioca

no pilão

dizem bom dia

aos lagartos

dizem boa noite

às formigas

mulheres dormem com seus maridos

nas redes

feitas de palhas, cordas e tucum

e fazem amor com eles

sob a luz de Jaci

mulheres dormem com seus maridos

nas redes

feitas de palhas, cordas e tucum

e fazem amor com eles

sob a luz de Jaci

cada dia, a cigarra vermelha

canta o canto do deslumbre

e tudo é deslumbre

cada dia, a cigarra vermelha

canta o canto do deslumbre

e tudo é deslumbre

até o dia

em que vieram os bárbaros

 

2021