domingo, 23 de agosto de 2020

QUANDO A IMAGEM E A MÚSICA SE FAZEM PENSAMENTO: A POESIA DE LOURENÇA LOU

 


Claudio Daniel


Lourença Lou, poeta mineira, nascida em Belo Horizonte, revela em sua escrita poética uma linguagem substantiva, em tom seco e preciso, mas de alta intensidade emocional, em que ela desenvolve temas relacionados às relações interpessoais, à condição feminina, ao estar no mundo, a situações de poder, ao silêncio, à extinção e ao próprio discurso poético. A poeta utiliza elementos da metáfora, da alegoria, da ironia e do humor cáustico para construir partituras-pinturas do pensamento. Confiram abaixo alguns poemas da autora.


ATO FINAL

quando vieres

ó morte

o que levarei comigo?


talvez um obstinado descaso

pelas falsas carícias da vida

certo estilo no uso

dos saltos a comer calçadas


esta ilimitada admiração

pela coragem de Adélia

no inaudito louvor ao cu

confrontar a moral da igreja

 

me dirás com olhos de brasa:

traga os diários noturnos

que guardam com timidez

a versão de seu sexo felino

 

carregue a áspera meiguice

com que feridas amigas

beijaram-lhe os olhos

deram sentido à sua visão


e esta inveja que te grita

do mais profundo da gaveta

pela rosa de Drummond

e seu amor natural

 

enfim me dirás: esqueça

os cadernos de catecismo

você nunca se preocupou

em fazer malas no dia anterior.

 

 EXPLOSÕES

querem-nos

medo

:

alguma chama

cólera

coração

 

querem-nos 

pausas esparsas

entre risos amarelos

 

embora ignorados

por quem paralisa

nossa respiração

 

ainda podemos provocar

a bomba

que os surpreenderá

 

explosões

transitam em metáforas

da necessária resistência.

 

 CARACÓIS

 a exaurir pensamentos

bebo a noite

em lentos goles de realidade

 

na sem-razão da certeza

ardo estilhaços

do amor onde nunca aportei

 

mergulho em vagas do incorpóreo

e resgato guelras

dos caracóis em que me cultivei.


MURO

sob o esmeril do sol

a caricatura de um homem 

escala o muro


da boca escorre uma baba lassa

no corpo o fardo de seus mil anos 

mal distribuídos na carne desvalida

 

silêncios cochilam na tarde de sábado

um tiro fura a pasmaceira

prega o homem de cara no muro

rigor nos braços

pernas a exaustar o ar

 

mulheres dissimulam medo

crianças arregalam-se 

homens louvam na farda e fuzil

o acato da lei


o amor faltou ao chamado do sábado


no muro o corpo em sangria

como um tiradentes enferrujado

finda a intenção de salvar 

o cão preso nos fios

da garantia do patrimônio


com ganidos de vida partida

um urro de boi no matadouro

alheia-se o sábado de cara no muro.


PERIFÉRICOS

fogos atraídos

pelos estalos da pedra

raios a rabiscar

a mendicidade da rua


vidas a vomitar

enxurradas de delírios

na escuridão

dos estômagos vazios


procissão de mortos vivos

carne rasgada

a percorrer noites em círculos.


DESAGUES

não se desbrava esta mulher

com adornos e vigílias

não se descobre esta mulher

pela atração de seus pecados

não se desveste esta mulher

por seus desagues e fertilidades

precisa-se madurar de vermelho

suas anêmonas e águas vivas

espalhar orgias e espantos e enchentes

nas palpitações de seus lábios todos

amar esta mulher na pungência

e na mística do alimentar de seus seios.


sexta-feira, 21 de agosto de 2020

ADEUS, VICTOR SOSA!



Victor Sosa, poeta uruguaio faleceu no dia 06 de agosto, aos 64 anos de idade, na Cidade do México, onde residia desde 1983. A imprensa noticiou que ele foi vítima de infarto, mas pessoas próximas ao poeta afirmam que ele foi preso e faleceu após poucos dias na prisão, em um caso estranho e ainda não esclarecido. Victor Sosa recebeu o Premio Internacional de Poesía Jaime Sabines em 2012 e era considerado um dos melhores poetas contemporâneos de língua espanhola.


Claudio Daniel


Victor Sosa nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1956 e destacou-se como poeta, ensaísta, tradutor e artista plástico. Lecionou na Universidade Ibero-americana (México), realizou mais de quinze exposições individuais de pintura e colaborou em jornais e revistas literárias. Sua obra poética inclui livros como Sunyata (1992), Gerundio (1996), Decir es Abisínia (2001), Mansión Mabuse (2004), Nagasakipanema (2011), La saga del Sordo (2006), entre outros títulos. Já seus ensaios críticos e teóricos incluem La flecha y el bumerang (1997), El Oriente en la poética de Octavio Paz (2000), El impulso, inflexiones sobre la creación (2001) e Derivas del arte contemporáneo en México (2003). No Brasil, foi publicada uma antologia bilíngue com alguns de seus poemas, intitulada Sunyata e outros poemas (2006), com traduções feitas por mim, em parceria com Luís Roberto Guedes.  Victor Sosa participou de antologias de poesia latino-americana, entre elas Jardim de camaleões – A poesia neobarroca na América Latina (2004), publicada pela editora Iluminuras. Participou de eventos internacionais de poesia em São Paulo, como o Festival Tordesilhas, em 2007 e foi bolsista residente do Programa de Incentivo à Pesquisa e Tradução da Obra de Haroldo de Campos. Victor Sosa também traduziu diversos poetas brasileiros para o espanhol, entre eles João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminsky. Transcrevemos abaixo alguns depoimentos de poetas brasileiros e latino-americanos que conviveram e dialogaram com o autor uruguaio.


"A perda de um poeta tão intenso como Victor Sosa é a perda de um mundo particular, em desenvolvimento, único, paralelo, com reverberações no grande mundo da linguagem, tecida e entretecida por muitos, em vários idiomas - mundo, aliás, muito mais interessante do que essa parca, pobre e absurda realidade a que estamos condenados. Se vai o poeta, mas fica a linguagem que ele erigiu, enquanto houve tempo. Que sua poesia densa, caudalosa, visionária, seja mais traduzida e lida entre nós, brasileiros." 

– Ademir Assunção


“Conheci Víctor pessoalmente em Sampa, num encontro de literatura em 2009. Mas já conhecia o seu trabalho desde que o seu poema Los animales furiosos me apareceu, em 2004, em tradução belíssima do Claudio Daniel. Publicamos imediatamente na revista Oroboro 1, que estávamos iniciando e lembro de ficarmos animados com a coincidência de o poema ter nos chegado às mãos. O poema é admirável, pois Víctor lança mão de sinais gráficos de pontuação (dois pontos, vírgula, ponto e vírgula) para intensificar as presas de animais em fúria. Uma vírgula é também a presa de uma víbora. Depois, generosamente, ele aceitou escrever a apresentação do meu livro Amphibia, que saiu em Portugal, pela Cosmorama, em 2009. Ainda nos conhecíamos à distância, ambos acompanhando o trabalho do outro. Foi por causa destas primeiras trocas que, no encontro em Sampa, quis conhecê-lo pessoalmente e fui assistir a sua participação numa mesa para depois sairmos para jantar. Logo fiquei encantado com sua presença, com sua fala serena, concentrada, consistente e toda construída com gentileza e humildade. Posso dizer, Víctor era foda, muito foda. E ontem, infelizmente, aos 64 anos, ele se foi. Quando soube, a sensação de vazio foi imensa. Fiquei horas em uma pausa dolorosa. Estava de máscara e tive que tirá-la rapidamente para respirar, ganhar fôlego. Hoje acordei pensando nele e quero crer que está conversando uma boa conversa em algum lugar. Víctor foi um grande amigo. Guardarei para sempre em meu coração essa amizade tão linda e produtiva. Evoé, Víctor!

-- Ricardo Corona


“Em princípio, a cada vinte anos, temos uma nova geração. A cada geração, numa dada língua, temos cerca de vinte vozes com uma obra poética única e com características únicas e próprias que distinguem o seu autor e marcam a sua presença como patrimônio, o cânone, o seu tempo, a sua linguagem e a sua país de origem. Neste momento em espanhol e para sua geração e países, neste caso Uruguai e México, Víctor Sosa, o poeta e o crítico estão, a meu ver, entre os escritores de sua geração que garantiram um lugar permanente.”

-- José Kozer (Cuba)


“VICTOR SOSA desenhou novos mapas BARROCOS (extraiu do fundo sombrio as dobras hipnagógicas do APEIRON, os relâmpagos da feitiçaria poética, as almas altivas da animalidade, as enciclopédias caológicas): é um SIGNO de ritmicidades expressionistas, é um atravessamento gerador de tempos crónicos. VICTOR é um MACARÉU afectivo: Victor é um MARACATU que perfura as rebentações de uma VISÃO fora das imagens: VICTOR não é um nome, é um acontecimento indiscernível, é um espírito que impulsiona existências góticas-cristalinas, é um espelhamento rítmico, é uma cartografia do instante da eternidade, é o inconsciente do corpo, é uma cor-da-estranheza que despontou desabaladamente do cubo de Husserl: VICTOR é uma língua do VAZIO que nos arremessa para o impensável e para a perplexidade: VICTOR é uma vidência ritornélica!”

-- Luís Serguilha (Portugal)


“O seu trabalho contundente e de qualidade inequívoca inclui as práticas simultâneas ou entrelaçadas do ensaio, da tradução e da pintura, todas as quais terão de ser editadas brevemente, para podermos apreciar, à luz das novas visitas, as múltiplas linhas de força que constituem a alma integral, mas perturbadora de seu encadeamento. Assim como no encerramento da intensa inconclusão de The Angry Animals, a canção da origem materna é oferecida, talvez tenha provocado a reconciliação do bardo consigo mesmo, agora, no nível tibetano do Bardo, em sua jornada pelos estados intermediários, vamos recitar a Victor os seus próprios versos no ouvido:


Vazio de paz

e não do abismo, cheio

vazio de paz.

Você verá que sim, você verá que

o que acontece aí você pode ver: fechar

agora seus olhos, fechem para dentro

os poros dos olhos e aperte suavemente

cada pálpebra e de repente abra-as com firmeza

como um púbis que abre a puberdade. E aberto


-- Reynaldo Jimenez (Argentina)

VICTOR SOSA E AS FRONTEIRAS QUE A POESIA NÃO CULTIVA

 

Abreu Paxe

O poetamigopoeta Victor Sosa atingiu o Zamini para o construir-mos no Sasa. Entrou na ideia do tempo em constelações. Passa a estar nas textualidades, nos signos, nos afectos. Passa a ser ou talvez a não ser ele mesmo que foi o tradutor das diferentes dimensões que se entrelaçam e entrelaçam a sua poesia e outras formas discursivas praticadas por si e em si.

Isso visa destacar a importância desse conjunto como ideia de tempo, de espiritualidade, de tradição e de experimentações, como se atestam em Sunyata, em Decir es Abisinia e em Animales Furiosos, abordamos um exercício de poesia que nos torna estrangeiros, na aceção em que ele tomava esse nome tanto na sua experiência como Homem/Cidadão, tanto quanto como o criador, o inventor. Suas experimentações poéticas, estas «as indicadas aí em cima» são estendidas aqui ao sol como potência das tramas internas de todos os corpos ocultos, de todas as histórias ocultas, ou observadas, contra as macro revoluções aparentes. Anula-se em si e na sua poesia o princípio de espaço nacional e potencia-se a dos espaços culturais subordinados ao poder não substancial, mas relacional, onde destacamos a ideia de tempo como duração conjugadas no Zamini e no Sasa como imagens fractais de tradução metonimica das metáforas de aproximação e de afatamento. As imagens as experiências na sua obra traduzem Zamini e Sasa que sustentam a noção de tempo-poesia-memoria-espaço como filosofia extraterritorial de vida, em tese segundo Mbiti, o tempo como conceito númerico (calendário) não tem uma grande importância para povos como os africanos, talvez isso sirva também para os indios das Américas, ou para os latino americanos de modo mais expandido, o que conta são os acontecimentos que se realizam na vida. Na obra de Victor Sosa embora não se Conte, percebe-se facilmente que a narrativa da poesia como construtu ficcional está noutra parte e essa outra parte é que talvez chamaríamos de linguagens.

Como já escrevi e outro lugar, o tempo tem duas dimensões: o passado (Zamini) e o presente (Sasa) o futuro é praticamente muito curto e próximo do presente. O conceito em alguns lugares de África de tempo vai no sentido reverso mais para o Zamini do que para frente. Aperecebe-se mais do passado em relação ao que poderá ainda acontecer. Sasa e Zamini sobrepoem-se, no sentido em que Sasa contém em si parte do Zamini. Assim um homem que morre entra no Zamini, mas se os seus ente queridos se recordarem dele, ele continua a fazer parte da familia e fica no Sasa, só em caso de ele ser esquecido completamente é que fica todo ele no Zamini, uma vez que o tempo marcha recuando ele não influência o futuro. Para a nossa compreensão a partir desse lugar também barroco, Victor Sosa, como poeta, traduz-se entre Zamini e Sasa, aí se enraíza e aí se radica e passa a ser experiência evocada. Os símbolos passam a não ser só construções intelectuais, em que o corpo, o oral, o tradicional (africano e pré-colombiano), enredando-se de modo relacional em nossa e sua própria espessa textura proliferante que convida o leitor ao extremo multiplicador e ramificante, portanto não morre porque entra num sistema de tessituras, na constelação com os artefactos por si inventados, construídos, criados e que agora o gerem no sistema geral da cultura.  

Essa abordagem faz-nos compreender a grande importância que o Africano e não só  confere ao passado, pois,  o segredo da vida encontra-se na santidade da atitude e do comportamento dos acestrais. E Victor Sosa o poetamigopoeta não deixou de evocar o passado Ocidente-Europeu, do Oriente entrelaçado em menor ou maior grau com a África. É deste modo que se avivam as memórias que nos administram, como também se pode ler em Sunyata que em sânscrito significa (vazio/ plano), como em Decir es Abisinia que é (abissinia), como avança em entrevista à Zunái “é o território onde Rimboud não escreveu. Esse Homem que buscava uma língua, encontrou na abissínia o silêncio, ou talvez não encontrou nada, mas da mesma forma cessou de escrever. Dizer é impossível, é um deserto, é uma enteléquia, é Abissinia. Porém além dessa impossibilidade e contra essa impossibilidade é preciso dizer, é preciso navegar nesse balbucio, é preciso inventar um mundo no qual no qual permaneça a realidade, embora só permaneçam ruinas, embora só permaneçam palavras”, e nós já sem o ser orgânico, o ser natureza, esse que  transmigrou-se no ser cultura; e, por isso, ele não morre, mas renasce em cada frase, em cada gesto afetivo dos quotidianos em que renasce nos dilatados longes das línguagens de cravo perfumadas e de gengibre, cola e lungwila.               

Ou seja, simbolicamente em Animales Furiosos, se dá a tríade (nascer, crescer, morrer), evidenciam-se as duas noites; a que procede seu nascimento e a da morte.  Essa tríade compõem-se em três movimentos; um mistico, um erótico e um ético, os três interconectam-se, e se confundem e se fudem, tornam-se num só, mas variável, divíduo, portanto fractal na diversidade inclassificável, seguindo uma lógica própria da Filosofia africana do movimento, pré-colonial, assemelha-se a uma lógica própria do mundo digital, em que no fundo se trata de pôr em conexão, em rede e não categorizar, de classificar, de hierarquizar ou limitar o movimento.  Victor Sosa nessa nova configuração que tomou, torna-se no seu próprio centro e, para dissolver, as fronteiras internas que interiorizou contra a sua própria cultura que é do movimento, da relação não intelectual como cifra de uma respiração, de uma pulsão, de uma pulsão de escritura que contém em suas linhas o simbólico e o sintoma , o cifrar-se e o decifrar-se nesse misterioso e complexo jogo entre a vida é a morte, onde a poesia é seguramente a sua matéria, trabalhando a dimensão indivisível entre filosofia e estética em que o investimento no acto criativo, inventivo não chega a ser intelectual.        

As Literaturas como fenomeno social surgiram para fundar os espaços nacionais, ao mesmo tempo que promoveram a exclusão. A ideia de literatura nacional, do ponto de vista cultural, ainda pode nos conduzir a da multiplicação de fronteiras a mesma condição de estrangeiro em que nos remete Victor Sosa. Aquilo que chamariamos ou de Literatura Uruguaia, ou de Literatura Mexicana, ou de Literatura Brasileira aporta no seu seio uma trama de imagens, linguagens e afetos que dificilmente cabem na ideia de território, ou na de um espaço nacional no sentido geográfico como lugar que, de tão autêntico não consente contaminações, ou ainda de reconhecermos nela os lugares daquilo que chamaríamos de “Literaturas no Uruguai, no México, no Brasil”, ou também de um lugar com realidade cultural que se afirma na descontinuidade territorial. Ou melhor, se tomarmos os títulos de seus livros ou o conjunta da sua obra, podemos a partir daí perceber como nos relacionamos e somos tecidos por entrelaçamentos de imagens multiplas e transversais quanto os nossos olhos se podem abrir, os nossos gestos se podem expandir, as nossas vozes se podem alongar. As metaforas de aproximação e de afastamento se evidenciam a partir dos diferentes lugares de onde nos fala de forma relacional, de igual modo, há um desenho metonimico fractal que sustenta seu acto criativo de tessitura barroca.

Guardo em boa medida as energia e os afetos que trocamos, nas suas estadas em São Paulo-Brasil da década que terminou.

 

Abre Paxe, poeta angolano, nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe província do Uíge, Angola. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição. É  membro da União dos Escritores Angolanos (UEA) e venceu o concurso Um Poema para África em 2000. Foi animador do Cacimbo do Poeta na sua 3ª. edição, atividade organizada pela Alliance Française, por ocasião da Dia da África. Figura na Revista Internacional de Poesia "Dimensão n. 30 de 2000, na antologia dedicada à poesia contemporânea de Angola, editada em Uberaba, Brasil. Publicou os livros de poesia A chave no repouso da porta e O vento fede de luz.  No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Zunái (SP), Mallarmargens (PR) e Comunità Italiana (RJ), Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão).  

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segunda-feira, 3 de agosto de 2020

REBELDES & MALDITOS















REBELDES & MALDITOS é um novo curso ministrado pelo poeta Claudio Daniel, em que estudaremos poetas como Lord Byron, Charles Baudelaire, Arthur Rimbaud, o Conde de Lautréamont, Roberto Piva, Torquato Neto e outros autores considerados transgressores ou marginais, pelo seu modo de vida e pela novidade radical de seus versos. As aulas acontecerão às quintas-feiras, das 20h às 21h, a partir do dia 13 de agosto, quando acontecerá o nosso primeiro encontro, dedicado ao poeta Arthur Rimbaud. O valor do investimento mensal será de R$ 60,00 e a duração prevista do curso é de um semestre. Mais informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

quinta-feira, 30 de julho de 2020

COMO ORGANIZAR, PUBLICAR E DIVULGAR UM LIVRO DE POEMAS













COMO ORGANIZAR, PUBLICAR E DIVULGAR UM LIVRO DE POEMAS é o tema da palestra que Claudio Daniel, poeta, professor e crítico literário, realizará no dia 10 de agosto, segunda-feira, das 18h30 às 20h. via internet. Serão oferecidas 25 vagas para quem tiver interesse em participar da conversa e o investimento será de R$ 30,00. Alunos regulares do Laboratório de Criação Poética estão isentos do pagamento. Informações e inscrições pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

TRILHA



O amor é um lagarto em fuga:
desponta da testa a crina,
as patas se vestem de fogo.
Em nuvens , novelos devoram avelãs,
nossos pés encontram-se no espaço,
raptam luar  olhares indiscretos

Ele me diz que a morte é uma delícia
(naufrágio ébrio de palavras flutuantes).

O tempo repartido
se retorce em contramão.
Flores brancas em águas profundas,
reflexo de hubris submersos

De súbito, vejo uma pinta em sua pele.
A noite dorme sobre rasgos e dores.
Clima de lua e medo carbonizou nossa memória,
dramas sem começo, meio, fim.
Sofrimento escravizado,estado de cansaço:
Dilaceramento.

Cadáveres enfileirados em correntes,
pixels gotejando de um dispositivo cerebral.
O cadáver delicado beberá o vinho novo:
Se non há senso il sentiero
alla fine del viaggio
dov'è lo splendore?

Criação coletiva  ("Cadáver delicado") de alunos do Laboratório de Criação poética do professor Claudio Daniel)

Poetas:Dirce Carneiro, Ewaldo Schleder,  Marcia Tigani, Bianca Amaro,  Jade Luiza,  Jose Couto, Carvalho Junior Scheila D. Sodré, Lourença Lou , Telma Srour , Flaviano M. Vieira, Maria Jacyra Lopes( não necessariamente nesta ordem)

terça-feira, 30 de junho de 2020

CURSO DE POESIA VIA INTERNET EM JULHO.




















A partir do dia 06 de julho, segunda-feira, às 18h30, o Laboratório de Criação Poética iniciará um novo módulo de introdução à arte poética, aberto à participação de todas as pessoas interessadas. Vamos estudar temas como: o que é poesia, quais são as figuras de linguagem, a métrica, as rimas, os gêneros poéticos, como o soneto, o haicai, o poema em prosa, o poema visual e até como organizar, publicar e divulgar o seu livro de poemas. Todas as aulas serão ministradas por Claudio Daniel e haverá oficinas às terças-feiras, das 17h às 18h30, para a discussão dos poemas dos alunos. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com

sexta-feira, 26 de junho de 2020

PENSANDO A POESIA BRASILEIRA


























"Pensando a poesia brasileira", reunião de artigos e ensaios de crítica literária que publiquei na revista CULT, no Suplemento Literário de Minas Gerais, no Portal Vermelho e e outros sites, jornais e revistas, em que analiso a poesia brasileira contemporânea. 

O livro reúne textos sobre Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Claudio Willer, Alice Ruiz, Régis Bonvicino, Antônio Risério, Duda Machado, Arnaldo Antunes, Horácio Costa, Rodrigo Garcia Lopes, Josely Vianna Baptista, Ricardo Corona, Frederico Barbosa, Ademir Assunção, Ricardo Aleixo, Micheliny Verunschk, Glauco Mattoso, Antonio Moura, Luiz Augusto Contador Borges, Claudia Roquette Pinto (Cau Pema Konchok), Carlito Azevedo, Adriana Zapparoli, Andréia Carvalho Gavita, Donizete Galvão, Simone Homem de Mello, Marcelo Ariel, Ronald Polito, Jorge Lucio de Campos, Sergio Medeiros, Priscila Merizzio, Elson Fróes, Lígia Dabul, Nelson Ascher, Júlio Castañon Guimarães, Joca Reiners Terron, Fabiano Calixto, André Dick, Virna Teixeira, Joana Corona, Chiu Yi Chih.

O livro foi publicado em 2018 pela Lumme Editor e pode ser encomendado pelo e-mail contato@franciscodossantos.com.br

quarta-feira, 3 de junho de 2020

MARABÔ OBATALÁ, NOVO LIVRO DE CLAUDIO DANIEL



















Oriki é o poema ritual da tradição iorubá, cantado até hoje nos terreiros de candomblé, celebrando os orixás. Quem introduziu o oriki no Brasil foram os negros africanos, escravizados no período colonial-monárquico, que conservaram as suas tradições religiosas sob o aparente sincretismo com o culto aos santos da devoção cristã. As primeiras traduções desses textos orais para o idioma português em forma poética elaborada foram realizadas por Antonio Risério em seu belíssimo livro Oriki orixá, publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos (antes do notável trabalho tradutório de Risério, circularam entre nós versões literais desses cantos sagrados, feitas por estudiosos como Pierre Verger). Em seu livro, Risério apresenta aos leitores excelentes ensaios críticos e traduções de alguns desses poemas cantados. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria no livro A roda do mundo. Ricardo Corona, Fabiano Calixto e Frederico Barbosa também escreveram bons orikis. Minha pesquisa nesse campo procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos dos orixás, pequenas narrativas, provérbios e mitos, incorporando referências à situação do país, que desde 2013 vive sob grave crise política e social, que redundou no golpe de estado de 2016 e no atual regime de exceção. Todos os poemas que compõem este livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015, com exceção do oriki de Orunmilá, redigido em 2006, e os de Oxaguiã, Ikú e Otim, elaborados entre 2016 e 2017. As linhas apresentadas em itálico no interior dos poemas são citações de “pontos ” cantados em terreiros de umbanda no Brasil e os textos são apresentados conforme a ordem do xirê cantado no candomblé (adotamos a sequência estabelecida por Pierre Verger no livro Orixás, com poucas variações ). Minha seleção de 21 orixás incorporou divindades cultuadas nas nações ketu e jejê. No final do volume, apresentamos um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas. A primeira edição desta obra, impressa, saiu em 2015, com o título O livro dos orikis; a nova versão, que o leitor tem agora em mãos, apresenta, além dos novos poemas, a revisão dos mais antigos. O título adotado nesta versão, Marabô Obatalá, é composto por nomes de Exu e Oxalá, orixás que abrem e fecham as cerimônias de candomblé (Marabô é um nos nomes ou qualidades de Exu, e Obatalá, de Oxalá).

Agradeço ao Babalorixá Armando de Oxaguiã e a Conceição Silva pela leitura atenta deste livro, ensinamentos e comentários.

Este livro é dedicado à memória de Pierre Fatumbi Verger (1902-1996).

terça-feira, 2 de junho de 2020

80 POETAS CONTRA O FASCISMO




















O livro 80 Balas, 80 Poemas,  organizado por Claudio Daniel, já está disponível em edição eletrônica, elaborada pela editora de arte da revista Zunái, Andréia Carvalho Gavita, confiram! https://www.revistazunai.org/80-balas-80-poemas?fbclid=IwAR30E3Zx4mGNNDK_bSCihO_F9Rr2dkXzMGLYBcSX4MEYYrV5D1nOtoQ8BzY

sexta-feira, 6 de março de 2020

LANÇAMENTOS DE CLAUDIO DANIEL





Fiore occipitale è il nome della testa, antologia bilíngue, português-italiano, de Claudio Daniel, com traduções de Alessandro Mistrorigo (editora Lumme). O lançamento será no dia 14 de março, sábado, a partir das 18h30, durante o Recital da Caixa Preta que acontecerá no restaurante palestino Al Janiah, localizado na rua Rui Barbosa, 269, no bairro do Bexiga, na cidade de São Paulo. Será uma festa da poesia e de uma excelente comida árabe!.







Caminhos do Rio Vermelho, diário poético de Claudio Daniel com a narrativa de uma viagem a Salvador, entremeada de haicais e ilustrada com sumiês de Suely Shiba. (Galileu Edições) O lançamento será também no dia 14 de março, sábado, a partir das 18h30, durante o Recital da Caixa Preta que acontecerá no restaurante palestino Al Janiah.




Fuyú, livro de tankas -- gênero poêtico japonês formado por um terceto e um dístico -- que lançarei no dia 14 de março, no Recital da Caixa Preta. A publicação sairá pela editora Córrego e o ideograma da capa foi caligrafado pelo sensei Getsusen Kobayashi .


domingo, 1 de março de 2020

PALESTRA SOBRE O FAUSTO DE GOETHE





Palestra de Claudio Daniel sobre o Fausto de Goethe via Skype no dia 07 de março, sábado, das 15h às 17h. Investimento: R$ 30,00. Número de vagas: 20. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

NAZISTAS



O filme Mephisto, do diretor húngaro István Szabó, apresenta a história de um ator de teatro alemão que converte-se ao nazismo, abandona a amante negra e os amigos comunistas para alçar cargos importantes no III Reich e usufruir os privilégios de quem estava associado ao novo regime. A triste saga do oportunista que troca princípios por vantagens pessoais é encenada no Brasil por pessoas como ROBERTO ALVIM, diretor de teatro medíocre convertido ao bolsonarismo e que hoje, na posição de diretor da Funarte persegue e ofende artistas do nível de Fernanda Montenegro. No campo literário, temos MARCELO TÁPIA, escrevinhador de talento escasso que, na posição de diretor da Casa das Rosas, impõe uma lista negra de poetas que não podem se apresentar na instituição, por não comungarem com o seu ideário tucano e sionista. Serei sempre grato aos deuses por estar entre os censurados, e não junto aos colaboracionistas do obscurantismo, que serão julgados pela história.

domingo, 1 de dezembro de 2019

A FALA DO OLHO




Não vejo mais
a flor
de pétalas
roxas
no canteiro
do jardim
nem a chuva
luminosa
dos dentes-
de leão.
Não vejo mais
o reflexo
da lua
na minúscula
gota d'água
no caule
da vagem
nem a cereja
vermelha.
Não vejo mais
a sombra
do ninho
de vespas
nem o rosto
do soldado
que me cegou
com balas
de borracha.
Agora
tenho apenas
o escuro fundo
dos céus
de tempestade
e a memória
de um raio
de luz
vermelha
como a vida.
(Poema inédito de Claudio Daniel, escrito após a divulgação da notícia de que a polícia chilena dispara balas de borracha nos olhos dos manifestantes que protestam contra a ditadura neopinochetista de Piñera, repetindo uma prática dos soldados israelenses contra os jovens palestinos.)

terça-feira, 5 de novembro de 2019

DEZ HAIKUS DE CLAUDIO DANIEL






















vento de inverno
folhas caem no chão
após o massacre


***

vozes escuras
vendem doces
no vagão do metrô


***

velha carroça
cachorro dorme
na caixa de papelão

***

chuva de verão:
folhas amarelas
flutuam nas poças


***


o azul mais azul
além do cetim da safira
e do lápis-lazúli


***


músico cego
toca violão
no vagão do metrô


***


manhã de primavera
mendigo dorme
ao lado do buda



***

que dia estranho!
um osso
morde o cão


***

chuva de inverno
menina traz o arco-íris
com o guarda-sol


***

flores amarelas
caem na calçada:
adeus à menina morta.

(À memória de Agatha Félix, de oito anos de idade, morta pela polícia fascista. Setembro de 2019)



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

MEPHISTO, DE ISTVÁN SZABÓ, E A TRISTE SAGA DOS OPORTUNISTAS













O filme Mephisto, do diretor húngaro István Szabó, apresenta a história de um ator de teatro alemão que converte-se ao nazismo, abandona a amante negra e os amigos comunistas para alçar cargos importantes no III Reich e usufruir os privilégios de quem estava associado ao novo regime. A triste saga do oportunista que troca princípios por vantagens pessoais é encenada no Brasil por pessoas como Roberto Alvim, diretor de teatro medíocre convertido ao bolsonarismo e que hoje, na posição de diretor da Funarte persegue e ofende artistas do nível de Fernanda Montenegro. No campo literário, temos Marcelo Tápia, escrevinhador de talento escasso que, na posição de diretor da Casa das Rosas, impõe uma lista negra de poetas que não podem se apresentar na instituição, por não comungarem com o seu ideário tucano e sionista. Serei sempre grato aos deuses por estar entre os censurados, e não junto aos colaboracionistas do obscurantismo, que serão julgados pela história.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

POEMAS DE YVETTE CENTENO




















MELANCOLIA

Melancolia:
é a casa dos mortos?

ouvem-se vozes
e um grito

não é um grito:
é uma explosão de sussurros.


O ANJO

Uma pedra na mão
uma palavra-pedra
uma palavra fria
aguardavas a chave
não era
o que ele trazia.


ANUNCIAÇÕES

Nem sempre virão de branco
os mortos que acompanham.

Por vezes virão de treva
envoltos nessa bruma
que primeiro os esconde
e depois os revela.

(Do livro Entre silêncios. Lisboa: Pedra Formosa Edições, 1997)

AS NORNAS
(Ouvindo Wagner)

Cantam as tecedeiras
enquanto tecem os fios:
uma dá, a outra puxa,
a última esconde o desenho
e com a tesoura de prara
corta o fio do destino.


PEDRAS

Não quero a Pedra
quero a flor dentro dela

PAUL CELAN

I
Cultivemos a planta
do silêncio negro-musgo

dizer o nome
é perturbar o somo

deixemo-lo
que se afunde
nas suas águas paradas

II

O destino:
essa flor que se abre
raiz plantada
no ar

III

O amor é uma travessia?
O amor é um afundamento.

IV

Quantos poemas
para salvar o dia
quantos poemas
para salvar a vida


PAUL CELAN, PARA SEMPRE

Escolheste a água
de cabelos lisos
como os da tua mãe

escolheste a água
de peixes cintilantes
como as cinzas do céu
que outrora tinha visto

escolheste a água
porque abafava os sustos
e os gritos

MULHERES
(fragmento)

III

Não são casas
são caixas

Não são caixas
são coisas

Não são coisas
são fugas

Voa-se pelas escadas
voa-se com os telhados

até às brancas estrelas
da memória

à dança vermelha
das papoulas

o grito do violino
o negro bater
do sangue
do coração

A HERBERTO HELDER
(ao ler A faca não corta o fogo)

Essa faca
não corta o fogo
mas corta o coração da pedra
florescendo em palavras-pétalas
de ouro
(eu disse ouro? queria dizer
brasa
carvão em brasa
ardendo na fornalha)
e corta a veia
no fio do horizonte
deixando ver um sangue
delicado
voz abafada
grito nascendo
dessa faca
no fogo
desse corpo
(eu disse corpo?
queria dizer treva
Ungrund
buraco negro da alma
ferida mortalmente)

SOMBRAS

É a Sombra
das sombras

vagueia
pelo jardim

perde-se
nos labirintos

afoga-se
nos lagos

esconde-se
nos corredores
de bambu

escapa-se
pela ponte
que não une

antes separa

as pedras
do templo
e do palácio

(Do livro Outonais. Lisboa, 2011 )


Yvette Centeno, poeta, ensaísta, dramaturga, romancista e tradutora portuguesa, nasceu em Lisboa, em 1940, filha de pai português e mãe polonesa. É uma das principais escritoras e intelectuais de Portugal hoje, especialista na obra de Fernando Pessoa, e pesquisa temas relacionados com a maçonaria e o hermetismo. Sua tese de doutorado é sobre A alquimia no Fausto de Goethe e a autora criou o Gabinete de Estudos de Simbologia da Universidade Nova de Lisboa, onde leciona. Como tradutora, verteu para o português obras de Goethe, Stendhal, Shakespeare, Brecht e Celan, entre outros. A obra publicada de Yvette Centeno inclui romances como No jardim das nogueiras (1982), peças teatrais -- Saudades do paraíso (1980), Será Deus o dr. Freud? (1995), ensaios – Fernando Pessoa: tempo, solidão, hermetismo (1978), A utopia: mitos e Formas (1994), coletâneas de poesia, como A Oriente (1998) e traduções de autores como Bertolt Brecht e Paul Celan. A autora mantém o blog Simbologia e alquimia (http://simbologiaealquimia.blogspot.com.br/), onde publica regularmente textos sobre literatura, mística e psicanálise.