A partir do dia 06 de julho, segunda-feira, às 18h30, o Laboratório de Criação Poética iniciará um novo módulo de introdução à arte poética, aberto à participação de todas as pessoas interessadas. Vamos estudar temas como: o que é poesia, quais são as figuras de linguagem, a métrica, as rimas, os gêneros poéticos, como o soneto, o haicai, o poema em prosa, o poema visual e até como organizar, publicar e divulgar o seu livro de poemas. Todas as aulas serão ministradas por Claudio Daniel e haverá oficinas às terças-feiras, das 17h às 18h30, para a discussão dos poemas dos alunos. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com
terça-feira, 30 de junho de 2020
sexta-feira, 26 de junho de 2020
PENSANDO A POESIA BRASILEIRA
"Pensando a poesia brasileira", reunião de artigos e ensaios de crítica literária que publiquei na revista CULT, no Suplemento Literário de Minas Gerais, no Portal Vermelho e e outros sites, jornais e revistas, em que analiso a poesia brasileira contemporânea.
O livro reúne textos sobre Augusto de Campos, Ferreira Gullar, Armando Freitas Filho, Claudio Willer, Alice Ruiz, Régis Bonvicino, Antônio Risério, Duda Machado, Arnaldo Antunes, Horácio Costa, Rodrigo Garcia Lopes, Josely Vianna Baptista, Ricardo Corona, Frederico Barbosa, Ademir Assunção, Ricardo Aleixo, Micheliny Verunschk, Glauco Mattoso, Antonio Moura, Luiz Augusto Contador Borges, Claudia Roquette Pinto (Cau Pema Konchok), Carlito Azevedo, Adriana Zapparoli, Andréia Carvalho Gavita, Donizete Galvão, Simone Homem de Mello, Marcelo Ariel, Ronald Polito, Jorge Lucio de Campos, Sergio Medeiros, Priscila Merizzio, Elson Fróes, Lígia Dabul, Nelson Ascher, Júlio Castañon Guimarães, Joca Reiners Terron, Fabiano Calixto, André Dick, Virna Teixeira, Joana Corona, Chiu Yi Chih.
O livro foi publicado em 2018 pela Lumme Editor e pode ser encomendado pelo e-mail contato@franciscodossantos.com.br
quarta-feira, 3 de junho de 2020
MARABÔ OBATALÁ, NOVO LIVRO DE CLAUDIO DANIEL
Oriki é o poema ritual da tradição iorubá, cantado até hoje nos terreiros de candomblé, celebrando os orixás. Quem introduziu o oriki no Brasil foram os negros africanos, escravizados no período colonial-monárquico, que conservaram as suas tradições religiosas sob o aparente sincretismo com o culto aos santos da devoção cristã. As primeiras traduções desses textos orais para o idioma português em forma poética elaborada foram realizadas por Antonio Risério em seu belíssimo livro Oriki orixá, publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos (antes do notável trabalho tradutório de Risério, circularam entre nós versões literais desses cantos sagrados, feitas por estudiosos como Pierre Verger). Em seu livro, Risério apresenta aos leitores excelentes ensaios críticos e traduções de alguns desses poemas cantados. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria no livro A roda do mundo. Ricardo Corona, Fabiano Calixto e Frederico Barbosa também escreveram bons orikis. Minha pesquisa nesse campo procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos dos orixás, pequenas narrativas, provérbios e mitos, incorporando referências à situação do país, que desde 2013 vive sob grave crise política e social, que redundou no golpe de estado de 2016 e no atual regime de exceção. Todos os poemas que compõem este livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015, com exceção do oriki de Orunmilá, redigido em 2006, e os de Oxaguiã, Ikú e Otim, elaborados entre 2016 e 2017. As linhas apresentadas em itálico no interior dos poemas são citações de “pontos ” cantados em terreiros de umbanda no Brasil e os textos são apresentados conforme a ordem do xirê cantado no candomblé (adotamos a sequência estabelecida por Pierre Verger no livro Orixás, com poucas variações ). Minha seleção de 21 orixás incorporou divindades cultuadas nas nações ketu e jejê. No final do volume, apresentamos um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas. A primeira edição desta obra, impressa, saiu em 2015, com o título O livro dos orikis; a nova versão, que o leitor tem agora em mãos, apresenta, além dos novos poemas, a revisão dos mais antigos. O título adotado nesta versão, Marabô Obatalá, é composto por nomes de Exu e Oxalá, orixás que abrem e fecham as cerimônias de candomblé (Marabô é um nos nomes ou qualidades de Exu, e Obatalá, de Oxalá).
Agradeço ao Babalorixá Armando de Oxaguiã e a Conceição Silva pela leitura atenta deste livro, ensinamentos e comentários.
Este livro é dedicado à memória de Pierre Fatumbi Verger (1902-1996).
terça-feira, 2 de junho de 2020
80 POETAS CONTRA O FASCISMO
O livro 80 Balas, 80 Poemas, organizado por Claudio Daniel, já está disponível em edição eletrônica, elaborada pela editora de arte da revista Zunái, Andréia Carvalho Gavita, confiram! https://www.revistazunai.org/80-balas-80-poemas?fbclid=IwAR30E3Zx4mGNNDK_bSCihO_F9Rr2dkXzMGLYBcSX4MEYYrV5D1nOtoQ8BzY
sexta-feira, 6 de março de 2020
LANÇAMENTOS DE CLAUDIO DANIEL
Fiore occipitale è il nome della testa, antologia bilíngue, português-italiano, de Claudio Daniel, com traduções de Alessandro Mistrorigo (editora Lumme). O lançamento será no dia 14 de março, sábado, a partir das 18h30, durante o Recital da Caixa Preta que acontecerá no restaurante palestino Al Janiah, localizado na rua Rui Barbosa, 269, no bairro do Bexiga, na cidade de São Paulo. Será uma festa da poesia e de uma excelente comida árabe!.
Caminhos do Rio Vermelho, diário poético de Claudio Daniel com a narrativa de uma viagem a Salvador, entremeada de haicais e ilustrada com sumiês de Suely Shiba. (Galileu Edições) O lançamento será também no dia 14 de março, sábado, a partir das 18h30, durante o Recital da Caixa Preta que acontecerá no restaurante palestino Al Janiah.
Fuyú, livro de tankas -- gênero poêtico japonês formado por um terceto e um dístico -- que lançarei no dia 14 de março, no Recital da Caixa Preta. A publicação sairá pela editora Córrego e o ideograma da capa foi caligrafado pelo sensei Getsusen Kobayashi .
Fuyú, livro de tankas -- gênero poêtico japonês formado por um terceto e um dístico -- que lançarei no dia 14 de março, no Recital da Caixa Preta. A publicação sairá pela editora Córrego e o ideograma da capa foi caligrafado pelo sensei Getsusen Kobayashi .
domingo, 1 de março de 2020
PALESTRA SOBRE O FAUSTO DE GOETHE
Palestra de Claudio Daniel sobre o Fausto de Goethe via Skype no dia 07 de março, sábado, das 15h às 17h. Investimento: R$ 30,00. Número de vagas: 20. Informações pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
NAZISTAS
O filme Mephisto, do diretor húngaro István Szabó, apresenta a história de um ator de teatro alemão que converte-se ao nazismo, abandona a amante negra e os amigos comunistas para alçar cargos importantes no III Reich e usufruir os privilégios de quem estava associado ao novo regime. A triste saga do oportunista que troca princípios por vantagens pessoais é encenada no Brasil por pessoas como ROBERTO ALVIM, diretor de teatro medíocre convertido ao bolsonarismo e que hoje, na posição de diretor da Funarte persegue e ofende artistas do nível de Fernanda Montenegro. No campo literário, temos MARCELO TÁPIA, escrevinhador de talento escasso que, na posição de diretor da Casa das Rosas, impõe uma lista negra de poetas que não podem se apresentar na instituição, por não comungarem com o seu ideário tucano e sionista. Serei sempre grato aos deuses por estar entre os censurados, e não junto aos colaboracionistas do obscurantismo, que serão julgados pela história.
domingo, 1 de dezembro de 2019
A FALA DO OLHO
Não vejo mais
a flor
de pétalas
roxas
no canteiro
do jardim
nem a chuva
luminosa
dos dentes-
de leão.
Não vejo mais
o reflexo
da lua
na minúscula
gota d'água
no caule
da vagem
nem a cereja
vermelha.
Não vejo mais
a sombra
do ninho
de vespas
nem o rosto
do soldado
que me cegou
com balas
de borracha.
Agora
tenho apenas
o escuro fundo
dos céus
de tempestade
e a memória
de um raio
de luz
vermelha
como a vida.
de pétalas
roxas
no canteiro
do jardim
nem a chuva
luminosa
dos dentes-
de leão.
Não vejo mais
o reflexo
da lua
na minúscula
gota d'água
no caule
da vagem
nem a cereja
vermelha.
Não vejo mais
a sombra
do ninho
de vespas
nem o rosto
do soldado
que me cegou
com balas
de borracha.
Agora
tenho apenas
o escuro fundo
dos céus
de tempestade
e a memória
de um raio
de luz
vermelha
como a vida.
(Poema inédito
de Claudio Daniel, escrito após a divulgação da notícia de que a polícia chilena dispara balas de borracha nos olhos dos manifestantes que protestam contra a ditadura neopinochetista de Piñera, repetindo uma prática dos soldados israelenses contra os jovens palestinos.)
terça-feira, 5 de novembro de 2019
DEZ HAIKUS DE CLAUDIO DANIEL
vento de
inverno
folhas caem no chão
após o massacre
folhas caem no chão
após o massacre
***
vozes escuras
vendem doces
no vagão do
metrô
***
velha carroça
cachorro dorme
na caixa de
papelão
***
chuva de
verão:
folhas
amarelas
flutuam nas
poças
***
o azul mais
azul
além do cetim
da safira
e do
lápis-lazúli
***
músico cego
toca violão
no vagão do
metrô
***
manhã de
primavera
mendigo dorme
ao lado do
buda
***
que dia
estranho!
um osso
morde o cão
***
chuva de
inverno
menina traz o arco-íris
com o guarda-sol
menina traz o arco-íris
com o guarda-sol
***
flores
amarelas
caem na calçada:
adeus à menina morta.
caem na calçada:
adeus à menina morta.
(À memória de Agatha Félix, de oito anos de idade, morta pela
polícia fascista. Setembro de 2019)
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
MEPHISTO, DE ISTVÁN SZABÓ, E A TRISTE SAGA DOS OPORTUNISTAS
O filme
Mephisto, do diretor húngaro István Szabó, apresenta a história de um ator de
teatro alemão que converte-se ao nazismo, abandona a amante negra e os amigos
comunistas para alçar cargos importantes no III Reich e usufruir os privilégios
de quem estava associado ao novo regime. A triste saga do oportunista que troca
princípios por vantagens pessoais é encenada no Brasil por pessoas como Roberto
Alvim, diretor de teatro medíocre convertido ao bolsonarismo e que hoje, na posição
de diretor da Funarte persegue e ofende artistas do nível de Fernanda
Montenegro. No campo literário, temos Marcelo Tápia, escrevinhador de talento
escasso que, na posição de diretor da Casa das Rosas, impõe uma lista negra de
poetas que não podem se apresentar na instituição, por não comungarem com o seu
ideário tucano e sionista. Serei sempre grato aos deuses por estar entre os
censurados, e não junto aos colaboracionistas do obscurantismo, que serão
julgados pela história.
quarta-feira, 2 de outubro de 2019
POEMAS DE YVETTE CENTENO
MELANCOLIA
Melancolia:
é a casa dos
mortos?
ouvem-se vozes
e um grito
não é um grito:
é uma explosão de
sussurros.
O ANJO
Uma pedra na mão
uma palavra-pedra
uma palavra fria
aguardavas a chave
não era
o que ele trazia.
ANUNCIAÇÕES
Nem sempre virão
de branco
os mortos que
acompanham.
Por vezes virão de
treva
envoltos nessa
bruma
que primeiro os
esconde
e depois os
revela.
(Do livro Entre silêncios. Lisboa: Pedra Formosa
Edições, 1997)
AS NORNAS
(Ouvindo Wagner)
Cantam as
tecedeiras
enquanto tecem os
fios:
uma dá, a outra
puxa,
a última esconde o
desenho
e com a tesoura de
prara
corta o fio do
destino.
PEDRAS
Não quero a Pedra
quero a flor
dentro dela
PAUL CELAN
I
Cultivemos a
planta
do silêncio
negro-musgo
dizer o nome
é perturbar o somo
deixemo-lo
que se afunde
nas suas águas
paradas
II
O destino:
essa flor que se
abre
raiz plantada
no ar
III
O amor é uma
travessia?
O amor é um
afundamento.
IV
Quantos poemas
para salvar o dia
quantos poemas
para salvar a vida
PAUL CELAN, PARA SEMPRE
Escolheste a água
de cabelos lisos
como os da tua mãe
escolheste a água
de peixes
cintilantes
como as cinzas do
céu
que outrora tinha
visto
escolheste a água
porque abafava os
sustos
e os gritos
MULHERES
(fragmento)
III
Não são casas
são caixas
Não são caixas
são coisas
Não são coisas
são fugas
Voa-se pelas
escadas
voa-se com os
telhados
até às brancas
estrelas
da memória
à dança vermelha
das papoulas
o grito do violino
o negro bater
do sangue
do coração
A HERBERTO HELDER
(ao ler A faca não corta o fogo)
Essa faca
não corta o fogo
mas corta o
coração da pedra
florescendo em
palavras-pétalas
de ouro
(eu disse ouro?
queria dizer
brasa
carvão em brasa
ardendo na
fornalha)
e corta a veia
no fio do
horizonte
deixando ver um
sangue
delicado
voz abafada
grito nascendo
dessa faca
no fogo
desse corpo
(eu disse corpo?
queria dizer treva
Ungrund
buraco negro da
alma
ferida
mortalmente)
SOMBRAS
É a Sombra
das sombras
vagueia
pelo jardim
perde-se
nos labirintos
afoga-se
nos lagos
esconde-se
nos corredores
de bambu
escapa-se
pela ponte
que não une
antes separa
as pedras
do templo
e do palácio
(Do livro Outonais. Lisboa, 2011 )
Yvette Centeno, poeta, ensaísta, dramaturga, romancista e tradutora portuguesa,
nasceu em Lisboa, em 1940, filha de pai português e mãe polonesa. É uma das
principais escritoras e intelectuais de Portugal hoje, especialista na obra de
Fernando Pessoa, e pesquisa temas relacionados com a maçonaria e o hermetismo.
Sua tese de doutorado é sobre A alquimia
no Fausto de Goethe e a autora criou o Gabinete de Estudos de Simbologia da
Universidade Nova de Lisboa, onde leciona. Como tradutora, verteu para o
português obras de Goethe, Stendhal, Shakespeare, Brecht e Celan, entre outros.
A obra publicada de Yvette Centeno inclui romances como No jardim das nogueiras (1982), peças teatrais -- Saudades do paraíso (1980), Será Deus o dr. Freud? (1995), ensaios –
Fernando Pessoa: tempo, solidão,
hermetismo (1978), A utopia: mitos e
Formas (1994), coletâneas de poesia, como A Oriente (1998) e
traduções de autores como Bertolt Brecht e Paul Celan. A autora mantém o blog Simbologia e alquimia (http://simbologiaealquimia.blogspot.com.br/), onde publica
regularmente textos sobre literatura, mística e psicanálise.
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
SENZALA BRASIL
Claudio Daniel
A sociedade
brasileira sempre esteve dividida entre a Casa Grande e a Senzala. Vivemos em
um país que impôs a exclusão social, os preconceitos racial, religioso, de
classe, de orientação sexual e de gênero desde o início da colonização
portuguesa, no século XVI, até os dias atuais. Para compreendermos a tragédia
brasileira, portanto, é necessário estudarmos as nossas raízes coloniais, e em
particular a formação da elite brasileira, que nasceu com as capitanias
hereditárias, os engenhos de cana-de-açúcar, a imposição do cristianismo, o trabalho
escravo, a submissão da mulher e a dependência política, econômica e cultural em
relação à metrópole. Nunca nos emancipamos do colonialismo e do imperialismo –
primeiro o português, depois o inglês e o norte-americano; sempre fomos uma
imensa feitoria, fornecedora de matérias-primas e mão-de-obra barata para as
potências capitalistas hegemônicas, além de oferecermos um mercado de dimensões
continentais para as mercadorias e capitais excedentes das nações ricas, sem desenvolvermos
um projeto autônomo de civilização.
A burguesia brasileira
renunciou ao seu papel histórico de promover uma revolução democrática que
criasse um estado laico com verdadeiras instituições republicanas, promovesse
os direitos básicos de cidadania, eliminasse a fome, a miséria, o
analfabetismo, o atraso cultural e permitisse o desenvolvimento em larga escala
das forças produtivas. A elite industrial da Terra de Santa Cruz abdicou de
qualquer vocação democrática ou progressista e preferiu manter a sua aliança
com o latifúndio – rebatizado de “agronegócio” –, o capital financeiro
internacional e a dominação imperialista para a exploração brutal da classe
trabalhadora, em vez de investir na
construção de um país moderno, democrático e soberano. Podemos comprovar essa
afirmação com facilidade, pelo simples exame dos fatos recentes da política
brasileira após o golpe de estado de 2016, como o apoio do empresariado urbano,
e em particular da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), à flexibilização do conceito de
trabalho escravo no campo, implementada pelo governo ilegítimo de Michel Temer
(PMDB). Outros exemplos poderiam ser apresentados em defesa de nossa tese, como
o apoio empresarial à liquidação dos direitos trabalhistas e previdenciários,
ao congelamento dos investimentos públicos em saúde e educação por vinte anos,
aprovado no Congresso Nacional, à privatização de usinas hidroelétricas,
serviços públicos e empresas estatais rentáveis, em benefício de investidores
internacionais, sem falarmos dos leilões dos campos de pré-sal a preço vil e da
venda de ações dos bancos públicos a grupos privados, numa operação de completa
destruição do país, que supera as desgraças anteriores de nossa história
recente, e em particular a ditadura militar implantada em 1964, que perdurou
até 1985, e o período neoliberal seguinte, que atingiu o seu apogeu nos governos
de Fernando I (Collor de Mello) a Fernando II (Henrique Cardoso). A ausência de
um projeto civilizacional autônomo, soberano e de longo prazo por parte da
elite brasileira, que se contenta com o papel de capitão-do-mato do grande
capital internacional, é a raiz de todo o nosso infortúnio. Para compreendermos
a formação histórica e o caráter predatório dessa elite, um livro é
fundamental: Casa grande & senzala,
do grande sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que comentaremos a seguir neste
artigo.
Publicado pela
primeira vez em 1933, Casa grande &
senzala apresenta um retrato da sociedade aristocrática, patriarcal, branca,
cristã e escravocrata do período colonial brasileiro, entre os séculos XVI e
XIX. Neste
livro notável, Gilberto Freyre faz uma descrição minuciosa da alimentação,
vestuário, higiene, saúde, arquitetura, mobiliário, vida cotidiana,
sexualidade, religiosidade, meio ambiente, comércio e outros aspectos da vida
colonial brasileira, e em especial da miscigenação entre europeus, negros e
índios, um dos temas centrais da obra, em um estilo de grande beleza literária;
o que nos interessa no presente artigo, no entanto, é o estudo realizado pelo
autor sobre a economia colonial e os hábitos e práticas da elite dirigente. Já
no prefácio de sua obra, o autor caracteriza a atividade econômica desenvolvida
no Brasil na época das capitanias hereditárias de “monocultura latifundiária”
que “exigia uma enorme massa de escravos” e que teve como consequências a
concentração da terra “numa grande extensão em volta aos engenhos de cana”,
onde não se praticava a policultura, nem a pecuária. “Na zona agrária
desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semifeudal – uma
minoria de brancos e brancarões dominando patriarcais, polígamos, do alto das
casas grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas
senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de
taipa e de palha, vassalos das casas-grandes em todo o rigor da expressão”.
Freyre critica a monocultura latifundiária,
concentrada nos engenhos de cana-de-açúcar, apontando os seus “males profundos,
que têm comprometido, através de gerações, a robustez e a eficiência da
população brasileira”, comprometendo a sua saúde, além de prejudicarem o solo.
“Entre outros males, o mau suprimento de víveres frescos, obrigando grande
parte da população ao regime de deficiência alimentar caracterizado pelo abuso
do peixe seco e de farinha de mandioca (a que depois se juntou a carne de
charque); ou então ao incompleto perigoso, de gêneros importados em condições
péssimas de transporte, tais como as que precederam a navegação a vapor e o
uso, recentíssimo, de câmaras frigoríficas nos vapores”. Compreenda-se: na
economia de monocultura açucareira voltada para a exportação à metrópole, não
havia espaço para o cultivo de verduras, legumes, árvores frutíferas, nem a
criação de gado doméstico para a alimentação de casa. Frutas e carnes eram
importadas da Europa, em caravelas, e pela ausência de recursos de conservação
artificial e tempo da viagem, os alimentos chegavam aqui muitas vezes
estragados. Do mesmo modo, importava-se quase tudo da metrópole, desde
vestuário, joias, peças de decoração e armas até ferramentas de trabalho. Toda
a atenção de nossos incipientes capitalistas estava concentrada no cultivo e
exportação do açúcar e no lucro imediato oferecido por esse negócio, sem
nenhuma preocupação com a criação de outras atividades econômicas, mesmo para a
sobrevivência imediata. A alimentação inadequada, tanto dos senhores quanto dos
escravos, resultava na “diminuição da estatura, do peso e do perímetro
torácico; deformações esqueléticas; descalcificação dos dentes; insuficiências
tiróidea, hipofisária e gonodial provocadoras de velhice prematura, fertilidade
em geral pobre, apatia, não raro infecundidade”. As empresas coloniais não
estavam preocupadas com a construção de uma nação próspera, de economia
diversificada, mas simplesmente com a exploração intensiva da terra, com o uso
do trabalho escravo, para a obtenção de lucros rápidos nas exportações para a
metrópole – lucros que seriam usados, posteriormente, para a importação de
manufaturas dessa mesma metrópole, num círculo vicioso de dependência.
No centro desse sistema perverso estava a casa grande,
“completada pela senzala”, que representava “todo um sistema econômico, social,
político: de produção (a monocultura latifundiária); de trabalho (a
escravidão); de transporte (o carro de boi, o banguê, a rede, o cavalo); de
religião (o catolicismo de família, com capelão subordinado ao pater famílias,
culto dos mortos etc.); de vida sexual e de família (o patriarcalismo
polígamo); de higiene do corpo e da casa”, escreve Freyre. Senhores absolutos nesse
sistema, os grandes proprietários rurais dispunham a seu bel prazer da vida e
integridade moral e física dos africanos e índios escravizados, de suas
mulheres e filhos, todos tratados como se fossem animais ou coisas, destinados
ao prazer e ao lucro de seus senhores. Dispunham até mesmo dos corpos de
escravos ou familiares mortos, enterrados dentro da casa grande, numa suposta
continuidade das relações de controle e posse, mesmo após a morte física. Conforme
escreve o autor pernambucano: “Conta-se que o Visconde de Suaçuna, na sua casa
grande de Pombal, mandou enterrar no jardim mais de um negro supliciado por
ordem de sua justiça patriarcal. Não é de admirar. Eram senhores, os das casas
grandes, que mandavam matar os próprios filhos. Um desses patriarcas, Pedro
Vieira, já avô, por descobrir que o filho mantinha relações com a mucama de sua
predileção, mandou matá-lo pelo irmão mais velho”. Freyre descreve ainda, em
detalhes, as sevícias sofridas pelos meninos negros, tratados como animais de
estimação, objetos sexuais ou alvos de humilhação e de tortura por parte das
crianças brancas; o estupro das escravas pelos senhores de engenho, e posterior
castigo das negras pelas esposas brancas, que as mandavam torturar das mais
sádicas maneiras, desde a extração de todos os dentes das pobres diabas pelo
capataz até a morte no tronco, sob a tortura ininterrupta do açoite.
O espaço desta coluna, com certeza, é
insuficiente para analisarmos em profundidade todos os temas desenvolvidos por
Freyre em sua obra-prima, mas o que expusemos até aqui acreditamos ser
suficiente para despertamos o interesse do leitor disponível para a leitura
integral desse grande livro. Claro: o autor pernambucano possui limitações: Casa grande & senzala peca pela
ausência de informação sobre o trabalho escravo na lavoura (o autor concentra a
sua atenção nos escravos domésticos que trabalhavam
na Casa Grande), a miscigenação é apresentada de uma forma idealizada, a luta
de classes nunca aparece (a resistência dos quilombos, por exemplo), como se
não existisse, e os conceitos de raça utilizados por Freyre, comuns nas
primeiras décadas do século XX, estão hoje completamente ultrapassados. Apesar
de todas as críticas que podem ser feitas ao livro -- que data de 1933 --, é
impossível resistirmos à sua prosa elegante e saborosa. Casa grande & senzala é um dos livros basilares
para compreendermos a nossa formação nacional, ao lado de outras obras
clássicas, como O povo brasileiro, de
Darcy Ribeiro, Raízes do Brasil, de
Sérgio Buarque de Hollanda, História
econômica do Brasil, de Caio Prado Jr., e Os
sertões, de Euclides da Cunha, que nos ajudam a compreender porque até hoje
fomos incapazes de criarmos uma civilização.
domingo, 7 de julho de 2019
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