quinta-feira, 14 de março de 2013
A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (III)
Wenceslau de Moraes conhecia bem o repertório filosófico e
religioso do Japão, em especial as práticas e princípios do zen budismo, como
percebemos na leitura de seus inúmeros livros sobre a cultura japonesa, como O culto do chá, Fala a lenda japonesa, Relance
da alma japonesa e nas Cartas do
Extremo Oriente. Essa familiaridade ajudou o escritor português a entender
a filosofia da arte que orienta a criação da poesia clássica, em especial o tanka e o haicai, que ele “reimaginou” – para usarmos um termo caro a Haroldo
de Campos, extraído de suas notas sobre a tradução de poemas chineses e
japoneses – na forma das quadras portuguesas, sem rimas (a poesia clássica
japonesa, assim como a grega, não era rimada, e os ideogramas eram dispostos em
uma, duas ou três colunas verticais). Conhecida desde a Idade Média, a quadra
popular, ou quadrinha, era escrita em várias medidas métricas, especialmente a
redondilha, também usada no haicai, e é uma das formas mais concentradas da
poesia portuguesa. Sua aparente simplicidade, musicalidade e facilidade de
memorização também permitem uma aproximação com o terceto japonês, assim como o
emprego de palavras de uso cotidiano e jogos de palavras. Wenceslau de Moraes
notou o uso recorrente de onomatopeias na poesia japonesa, como “bisho-bisho (ideia de molhar, de
alagar); bura-bura (preguiçosamente);
chobo-chobo (gota a gota); goro-goro (estrondo de trovão)” (MORAES,
1925: 30). O autor percebeu também a ocorrência, no haicai, da “reunião de dois
períodos, independentes um do outro no sentido, também vulgares na quadra”, que
sendo “habilmente manejada, seria suscetível de dar excelentes traduções dos
poemas japoneses” (idem, 197). A partir dessa minuciosa investigação da
estética do haicai, Wenceslau de Moraes realiza a transcrição do poema japonês
para a quadra – e recordemos aqui o emprego da palavra transcrição por Guilherme de Almeida, no artigo Ritmo, elemento de expressão, em que o
poeta e tradutor brasileiro usa o termo tal como é entendido na teoria musical,
ou seja, “escrever para um instrumento música escrita para outro” (ALMEIDA,
1997: 17). A comparação entre a atividade tradutória e a transcrição de
partituras na música erudita, aliás, recorda uma outra comparação feita por
Roman Jakobson em conferência pronunciada em 1967, em Tóquio: “Pode-se mesmo
dizer que uma tradução fiel, cerrada, de poesia seja uma contradição em termos. O que permanece
passível é a transposição congenial – a resposta livre, criativa, de um poeta
de língua inglesa a um autor russo ou japonês e vive-versa”, que o linguista
russo compara a “uma transposição inventiva, engenhosa, de um poema ou de um
romance em pintura, cinema, balé ou numa composição musical” (in CAMPOS,
1993: 7). A recriação dos haicais japoneses para o formato da quadra, portanto,
pode ser considerada uma original releitura de Wenceslau de Moraes, e até uma
antecipação das modernas teorias e práticas da tradução. Apesar de toda a sua
boa vontade, compreensão conceitual, domínio do idioma e da facilidade com que
percorria o território cultural japonês, no entanto, Wenceslau de Moraes não
logrou obter, em português, um resultado poético eficaz, comparável aos textos
originais japoneses. O poema de Bashô sobre o salto da rã – o mais conhecido de
todos os haicais – assumiu a seguinte fisionomia, ao ser transposto para as
redondilhas da quadrinha portuguesa:
Furu-ike
ya
Kawaza
tobi-komu
Mizu
no oto
Versão literal:
Ah, o velho tanque!
e o ruído das rãs,
atirando-se para a água!
Versão
em quadra:
Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada...
A tradução literal da composição de Bashô recorda as
versões que seriam feitas, nas décadas seguintes, por poetas tão distintos
entre si como Paulo Leminski (“velha lagoa / o sapo salta / o som da água”),
Paulo Franchetti (“O velho tanque – Uma rã mergulha / Barulho de água”) e
Casimiro de Brito (“No velho tanque / uma rã salta – mergulha. / Ruído na
água”), mas, na transcrição para a quadrinha, Wenceslau de Moraes afastou-se da
síntese, da concisão e do estilo elíptico, abrupto, do haicai tradicional,
buscando “explicar” o contexto do poema, sua atmosfera física e emocional,
inserindo “palavras ou frases que não aparecem na versão literal”, como diz
Paulo Franchetti. “O resultado, muitas vezes, deixa a desejar, porque o texto
traduzido resulta muito explicativo ou mesmo prolixo.” (FRANCHETTI,
1990: 39) Assim, na versão do haicai para a quadra, Wenceslau de Moraes inclui
um “templo” ausente no texto original, adjetiva o tanque como “musgoso”,
descreve o silêncio que é apenas implícito no poema (“Mudez, apenas cortada...”)
e acrescenta uma desnecessária ênfase no verso final (“mais nada...”)[1].
Podemos recordar, aqui, do julgamento crítico de Haroldo de Campos às primeiras
traduções de poemas chineses e japoneses, realizadas na década de 1920,
consideradas pelo poeta e tradutor brasileiro como presas de um “exotismo
edulcorado e fácil” (CAMPOS, 1993: 17), com uma tendência a “transmitir uma réplica
aproximativa, vagamente simbolista, frequentemente diluída, do texto original.”
(idem, 15). A severidade do parecer, no entanto, pode ser exagerada, se
aplicada a Wenceslau de Moraes, que não era poeta e não teve como objetivo
recuperar a informação estética dos
textos originais, mas a sua informação
semântica (usamos aqui as categorias de Max Bense)[2],
a partir de sua vivência no Império do Sol Nascente. O autor não ambicionou a
“reconstituição da informação estética do original em português”,
contentando-se com “o simples escopo didático de servir de auxiliar à leitura
desse original” (CAMPOS: 1978b, 7). Como bem observou Paulo Franchetti, “não é na
discutível e interessante proposta de verter o haicai em uma forma tradicional
portuguesa que reside o mérito maior de Moraes, e sim em ter enquadrado suas
traduções em uma obra que fornece o que é mais raro em relação ao Extremo Oriente:
uma visão de conjunto, harmônica e acurada”, que só foi possível porque o
escritor possuía “um verdadeiro conhecimento dos aspectos mais importantes da
cultura japonesa” (FRANCHETTI, 1990: 39). Wenceslau de Moraes cumpriu o papel histórico
de retomar o diálogo cultural entre Japão e Portugal, iniciado no século XVII
pelo padre João Rodrigues e interrompido por mais de duzentos anos, durante o
Período Tokugawa. A recepção plena da poesia japonesa em Portugal, no entanto,
teria de esperar ainda mais algumas décadas até ser incorporada nos ensaios
críticos, atividades tradutórias e trabalhos criativos de alguns dos mais
representativos poetas portugueses da segunda metade do século XX.
2.2 Releitura sincrônica
de Alberto Caeiro
Wenceslau de Moraes viveu no Japão de 1898, data de sua
nomeação como cônsul em Kobe, até sua morte, em 1928, em Tokushima, pequena
cidade do sul do Japão, na época com setenta mil habitantes. O escritor
português deixou 14 livros sobre a cultura japonesa, que testemunham o seu amor
pelo país que escolheu como segunda pátria – converteu-se ao zen-budismo,
adotou o modo de vestir dos japoneses e casou-se com Ó-Yoné, cuja morte prematura levou o escritor,
em 1913, a
renunciar à carreira diplomática. O reconhecimento da obra de Wenceslau de
Moraes pelos poetas e estudiosos de literatura em Portugal, porém, não foi
imediato, e o interesse pela poesia japonesa esteve ausente nos círculos
literários portugueses até meados da década de 1950. Os poetas ligados à revista
Orpheu – Fernando Pessoa, Mário de
Sá-Carneiro, Almada Negreiros – dialogaram com a poesia clássica grega e
romana, com a lírica elisabeteana, com a poesia simbolista francesa, Walt
Whitman, o futurismo europeu, mas em nenhum momento com a arte concentrada de
Matsuo Bashô e seus discípulos. No livro Fernando
Pessoa – aquém do eu, além do outro –, Leyla Perrone-Moisés faz um curioso
paralelo entre Alberto Caeiro, o zen-budismo e o haicai, mas essa comparação,
ainda que instigante, esbarra no fato de que Pessoa/Caeiro nunca leu a obra de
Wenceslau de Moraes, e menos ainda a poesia japonesa, que naquele momento
histórico – décadas de 1910 e 1920 – estava apenas começando a chamar a atenção
dos leitores franceses e norte-americanos, após a publicação, em 1905, de uma
antologia de haicais escritos em francês por Julien Vocance. Aproximar o Guardador de rebanhos de Sendas de Oku, portanto, é um
anacronismo – o “zen” de Caeiro pode ser comparado, com base em evidências
textuais, aos autores estóicos e epicuristas, lidos atentamente por Fernando
Pessoa e que inspiraram também outro de seus heterônimos, Ricardo Reis. Apesar
de sabermos que o autor de Mensagem
ignorava a Terra do Sol Nascente – é possível que tenha lido os poemas chineses
traduzidos por Camilo Pessanha, de quem era admirador –, a mirada sincrônica de
Leyla Perrone-Moisés chama a nossa atenção pelo fato de o leitor contemporâneo
projetar, no texto pessoano, reminiscências daquilo que hoje entendemos como
“zen”, numa operação mental que coloca em segundo plano a historicidade:
trata-se, antes, de uma percepção subjetiva, sutilíssima, e não despida de
interesse. Citaremos aqui, como registro dessa singular recepção crítica, a
seguinte passagem da autora:
O que pretendo apontar aqui são as
notáveis coincidências da filosofia de Caeiro com o Zen-budismo, para assinalar
em seguida, na própria poesia desse heterônimo, resultados estéticos
semelhantes aos alcançados pelo Zen na arte verbal. O objetivo destas notas não
é, evidentemente, classificar a filosofia de Caeiro usando, para tanto, sua
poesia. Também não se trata de dizer apenas ‘isto se parece com aquilo’, num
comparativismo ingênuo que não nos levaria a nada, já que os caminhos
analógicos são infinitos e divagantes. Além disso, no caso preciso do paralelo
que ora proponho: 1) a analogia com o Zen só poderia ser tratada
superficialmente, dada a complexidade dessa filosofia e o caráter específico
(não-discursivo) de sua prática; 2) a preciosa, breve e personalíssima poesia
de Caeiro correria o risco de ser esmagada, de passar a segundo plano no
confronto com um saber milenar e coletivo como o do Zen.
O objetivo desta aproximação é, portanto
(...), sugerir mais um ângulo de leitura entre os múltiplos que a poesia
pessoana permite, acordar mais uma de suas virtualidades. Partindo de um
paralelo filosófico, pretendo chegar a uma questão de forma: os efeitos
estéticos de certas posições mentais. Só operacionalmente, diga-se de passagem,
ofereço esse encaminhamento que vai das ideias às formas; é escusado dizer que
na poesia pessoana, como em
toda Poesia , temos ideias-formas absolutamente sincrônicas.
O paralelo com o Zen não será portanto
detido no confronto filosófico, mas deverá levar-nos de volta à poesia de
Caeiro, seus processos, suas articulações, suas dificuldades e soluções.
(MOISÉS, 1982: 117-118)
O escopo do presente capítulo não é o estudo da poesia de
Fernando Pessoa, mas, a partir das afirmações de Leyla Perrone-Moisés, não
podemos nos esquivar de uma brevíssima comparação entre alguns tópicos de
Alberto Caeiro e os da poesia clássica japonesa, uma vez que ambos fazem parte,
hoje, de nosso repertório intelectual, e o entrecruzamento de referências
aconteça, mesmo fora da esfera diacrônica. Conforme diz Leyla Perrone-Moisés,
“o haicai não pode ser composto por uma mente analítica ou conceptual, porque
busca comunicar a primeira sensação provocada pelo objeto, antes que a
consciência dele se apodere e a razão comece a abstratizá-lo” (idem, 135), conceito
que depois seria adotado pela poesia beat norte-americana (“primeira ideia,
melhor ideia”, diz uma sentença zen). Prossegue a autora: “O haicai é sintético
e concreto. Exprime e comunica, de modo inédito, uma sensação de absoluto
frescor” (idem). Três são as características básicas do haicai, segundo Leyla
Perrone-Moisés:
1) o
quê – O haicai é desencadeado por um objeto; é a percepção privilegiada do
real em alguma coisa, que constitui assim o núcleo do poema: uma flor, um
animal, uma árvore, a lua etc. Não é a projeção de um eu no objeto para
conformá-lo a si mesmo, como no “paysage
état d’âme” romântico, mas, ao contrário, a total entrega do eu, que se
funde, transtornado, ao objeto. “Se o haicai não surge naturalmente do objeto,
o objeto e seu observador se tornam dois, e o observador não pode experimentar
o sentimento do objeto, já que sua individualidade intervém. Quando o poeta
escreve sobre a aparência da natureza, o que deve fazer é agarrar uma intuição
básica do objeto”. Atento a esse princípio de realidade do objeto, o haicai
privilegia a nomeação, o substantivo; os adjetivos em que se marca a
subjetividade do observador são naturalmente evitados; permanecem apenas
aqueles, parcos e simples, que definem uma “objetividade”: cor, forma, cheiro etc.
2) onde
– O objeto referido é situado, pelo poeta, no lugar em que foi visto, o que
contribui para dar maior concretude à imagem. Uma parte do haicai é, assim,
destinada a indicar a localização do objeto, cenário sucinto de sua aparição.
3) quando
– Com o mesmo objetivo de concretude (objetivo que decorre da própria natureza
da percepção), o haicai indica a ocasião em que foi visto o objeto. Essa
indicação temporal, indispensável no
haicai clássico, contém uma alusão à estação do ano em que ocorre a percepção.
O traço temporal tornou-se uma convenção rigorosa, criando-se assim um
repertório de saijiki (ou “tema de
estação”) extremamente econômico porque indicial: “neve” para inverno, “flor de
cerejeira” para primavera, “libélula” para verão etc. (idem, 135-136)
Leyla Perrone-Moisés observa ainda que “o lugar é preciso,
mas genérico: jardim, campo, caminho, casa (...); o quando não é a data da
história linear, mas a instância de uma estação, remetendo para um tempo
cíclico e, assim, ‘eterno’ ” (idem, 136). Todos os sentidos humanos são
envolvidos nessa arte poética, mas, como bem ressalta a autora, o haicai
“privilegia a visão: ‘O haicai é
frequentemente um quadro escrito, exatamente como o suibokuga (desenho a nanquim) é um quadro poema[3]’.
(...) O poeta do haicai é antes de tudo um visualizador; para usar a expressão de Caeiro, é alguém que
‘vê como um danado’.” (idem, 138) A partir dessa breve descrição de princípios
da filosofia da arte japonesa, Leyla Perrone-Moisés faz uma curiosa “antologia
de haicais” pinçados da obra de Alberto Caeiro, para justificar a sua analogia
entre a poética e visão de mundo do autor de O guardador de rebanhos e a arte de extrema concisão de Bashô:
1) “... esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.”
(O. P., p. 203)
2) “Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada
Os meus pensamentos vão contentes.”
(O. P., p. 203)
3) “... uma nuvem passa a mão por cima da
luz
E corre um silêncio pela erva fora.”
(O. P., p. 204)
4) “Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme.”
(O. P., p. 205)
5) “... os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz não.”
(O. P., p. 205)
6) “... dia de Verão
(Alguém) abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a
cara toda.”
(O. P., p. 216)
7) “... uma nuvem passa
(...) quando entra a noite
E as flores são cor da sombra”
(O. P., p. 219)
8) “O luar através dos altos ramos
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.”
(O. P., p. 222)
Comentando esses inesperados “haicais” do poeta português,
escreve a autora:
Admiráveis haicais, alguns ready made, outros obtidos pelo simples
corte de algumas palavras ou versos. Falsos haicais com as características dos
verdadeiros: síntese, concretude, sensualidade, impacto visual de ‘pequenos
quadros’; índices sazonais remetendo para um tempo cíclico; efeitos implícitos
por associações surpreendentes (renso);
comunicação de sensações e sentimentos não individualizados, apenas humanos
(...). Ao propor esta leitura “japonesa” de Caeiro não pretendo, evidentemente,
sugerir que, assim recortado, Caeiro fique “melhor”. Efetuo uma operação de
leitura como quem, diante de uma paisagem, isola um pormenor, enquadrando-o
dentro dos polegares e indicadores. (idem, 141-142)
Fernando Pessoa, que desdobrou-se em heterônimos com
diferentes concepções estéticas, morais e filosóficas, inventando para eles
biografias e obras, fez das “ficções do interlúdio” a marca de sua extrema
originalidade. “Com uma tal falta de gente coexistível, como há hoje, que pode
um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou quando
menos, os seus companheiros de
espírito?” (in CAMPOS, 1978a: 7), escreveu o poeta, com finíssima ironia. Criar
um outro “eu” para Fernando Pessoa, um “eu” anacrônico, póstumo e inverossímil,
como fez Leyla Perrone-Moisés, a partir de uma leitura sincrônica dos poemas de
Alberto Caeiro, não deixa de ser uma aventura fascinante, que recorda as
invenções fabulatórias de Jorge Luís Borges, como a conhecida história Pierre Menard, autor do Quixote. Essa
operação de leitura, ainda que insólita, não é totalmente arbitrária, uma vez
que funda-se nos textos do próprio Pessoa/Caeiro, revistos à luz de um
repertório cultural contemporâneo, onde o zen-budismo e o Japão do século XVI
estão no mesmo plano que a Poética de
Aristóteles e a Grécia do século VI a. C.
O modo como o leitor de hoje saboreia e decodifica um texto literário é
diferente daquele de um leitor do início do século XX, cujo lastro de cultura
era branco, ocidental, eurocêntrico. Sob
essa perspectiva, a interpretação de Leyla Perrone-Moisés é original e
pertinente, deslocando o foco de interesse da intenção textual do autor para o
imaginário multicultural do leitor de nossos tempos[4].
[1] Para justificar a sua “reimaginação”, Wenceslau de
Moraes escreve: “O leitor não se encontra prevenido para poder encontrar
belezas, assim de surpresa, n’uma pequenina poesia japonesa. Mas pense um
pouco. Não acha encantador este instantâneo, recordando a paz de um lugar,
provavelmente junto de algum vetusto templo budístico, em cujo terreiro se
encontra um velho tanque, sendo o silêncio apenas cortado pelo som melancólico
que acompanha a queda das rãs sobre a água adormecida?” (MORAES, 1925:
197-198).
[2] “Informação, já o definira antes, é todo processo de
signos que exibe um grau de ordem. A ‘informação documentária’ reproduz algo
observável, é uma sentença empírica, uma sentença-registro. (...) A informação
semântica já transcende a ‘documentária’, por isso vai além do horizonte do
observado, acrescentando algo que em si mesmo não é observável, um elemento novo,
como, por exemplo, o conceito de falso e verdadeiro. (...) A ‘informação
estética’, por sua vez, transcende a semântica, no que concerne à ‘imprevisibilidade, à surpresa, à
improbabilidade da ordenação dos signos’ (CAMPOS, 1993: 32)
[3] Citação de Sanki Ichikawa , Haikai and Haiku, Tóquio, The
Nippon Gakujutsu Shinkokai, 1958, p. IX.
[4]
Stephen Reckert comenta a respeito: “Embora Pessoa não pareça ter se
interessado especialmente pela poesia japonesa, Leyla Perrone-Moisés extraiu da
obra de Alberto caeiro mais de vinte haiku aparentemente fortuitos mas muito
mais consoantes com o espírito do gênero, por acaso, do que qualquer das quase
trezentas quadras ‘ao gosto popular’ do pessoa ortônimo (...). Mais pertinente
do ponto de vista comparativo – tanto pela diferença como pela semelhança – é
‘Ela canta, pobre ceifeira’, cujos vinte e quatro versos estão todos implícitos
nos três de um haiku do terceiro dos quatro mestres reconhecidos, Kobayashi
Issa (1762-1826): À sombra do matagal / o canto da plantadora de arroz /
sozinha” (In BRITO, 1995: 10)
terça-feira, 12 de março de 2013
A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (II)
Conforme
escreve Collcutt, “na história das relações internacionais do Japão,
alternaram-se os períodos de relativa abertura e ativos contatos com o mundo
externo, com outros de relativo isolamento” (COLLCUTT, JANSEN e KUMAKURA,
2008: 110). No Período Tokugawa, que se estendeu por 264 anos, o Japão se
manteve em paz com os vizinhos e sem as disputas de poder entre os clãs que
caracterizou os períodos anteriores. “O xogunato Tokugawa foi um estado feudal
centralizado e autoritário. Somente no final do período se começou a
experimentar uma relativa descentralização como conseqüência da debilitação do
poder central (...) e da maior autonomia de alguns dos daymiôs mais influentes” (idem). Conforme Luiz
Dantas, o xogum Ieyasu Tokugawa “estabeleceu (...) as bases dessa sociedade
através de um certo número de decretos” (in FRANCHETTI,
1990: 212). Em 1615, por exemplo, foram lidas, numa assembléia de daymiôs, as Buke-Shohatto (“regras das casas militares”), que
prescreviam normas de conduta para civis e militares, incluindo normas quanto à
alimentação e vestuário dos camponeses, regras para o casamento, interdição do
consumo de álcool e dos atos licenciosos, entre outros itens. Segundo Luiz
Dantas,
é clara no texto a
valorização das virtudes militares, obediência e sacrifício, bem como gosto
pronunciado pela austeridade. Vida frugal, vestimentas despojadas, moderação
nos prazeres; essas aspirações revelam a vontade de impor um ideal patriarcal
de existência (idem, 214).
As leis decretadas pelo xogum Tokugawa não se
limitavam a “criar os alicerces de um Estado autoritário, mas chegavam até a
codificar o estilo de vida, ao mesmo tempo que impossibilitavam qualquer
mudança, o crime supremo do regime” (idem). A vida intelectual japonesa nesse
período conheceu o estudo intenso da filosofia de Confúcio, que enfatiza o
culto aos antepassados, a piedade filial, a obediência aos superiores e a
lealdade ao imperador, ao mesmo tempo em que valorizava as artes tradicionais
inspiradas pelo zen-budismo, como a caligrafia, os arranjos florais e a
cerimônia do chá. Somente em Edo (Tóquio), a nova capital do império, havia 800
instrutores de caligrafia. Conforme escreve Collcutt, nesse período “foram
publicados inúmeros livros ilustrados mediante a técnica da gravura em madeira
devido à grande demanda gerada por uma população urbana cada vez mais
instruída” (COLLCUTT, JANSEN e KUMAKURA, 2008: 157). No início do
século XIX, o Japão “se converteria pouco a pouco em uma sociedade mais
instruída, móvel, fluida e ávida por diversão e entretenimento” (idem). “Além
das escolas han, onde se
educavam os jovens samurais dos domínios, escolas privadas e escolas de um
único cômodo ofereciam instruções básicas aos filhos de aldeões e camponeses”
(idem). Ronald Dure estima que, no final do Período Tokugawa, “43% dos homens e
10% das mulheres haviam recebido algum tipo de educação escolar. Seja qual for
a porcentagem exata, está claro que (...) já estavam assentadas as bases da
alfabetização, educação e cultura modernas vindouras” (idem). Esta é, em linhas
gerais, a sociedade japonesa que seria redescoberta pelos europeus quando o
intercâmbio artístico, econômico e cultural com o Ocidente foi retomado, a
partir de 1853, após ameaças de bombardeio da costa japonesa pela esquadra
norte-americana do Comodoro Perry, que impôs, a manu militari, o fim do
isolamento nipônico. A abertura ao mundo ocidental atingirá o apogeu na Era
Meiji (1868-1912), quando a gravura, a pintura, a poesia e outras artes
japonesas são divulgadas na Europa. Conforme escreveu Paulo Franchetti,
Ora, o Japão, que
tinha ficado por 200 anos fechado aos olhares estrangeiros, forneceu, desde a
sua abertura ao Ocidente, na segunda metade do século XIX, um generoso campo de
registro de singularidades e construção de idealizações várias.
A ética rigorosa
que sustentava o serviço dos samurais, a etiqueta minuciosa da nobreza feudal,
o refinado senso de decoração e o gosto pela vida em contato com a natureza
fascinaram os viajantes. Bem como os costumes bizarros: o banho coletivo, os
pratos e copos minúsculos, os grilos presos em gaiolas, a maquiagem e o
comportamento das gueixas, os hábitos alimentares. (FRANCHETTI, 2012: 197)
“As primeiras apresentações da literatura
japonesa no Ocidente”, continua Franchetti, “apareceram em livros de viagem”
(idem), como as obras de Basil Chamberlain (1850-1935), Paul-Louis Couchoud
(1879-1959) e Julien Vocance (1878-1954), e, no âmbito da língua portuguesa, os
relatos do diplomata, oficial da marinha e escritor português Wenceslau de
Moraes (1854-1929), que exerceu o cargo de cônsul no Japão, após ter prestado
serviços em Macau, Timor Leste e Moçambique. “Em seus vários livros”, escreve
Paulo Franchetti, “Wenceslau de Moraes (...) relata costumes típicos, traduz
haicai, comenta a literatura, a arte e a história do Japão, tenta incentivar o
comércio e a compreensão entre as suas duas pátrias” (FRANCHETTI, 2012: 38). Ao
contrário de outros viajantes europeus, que descreveram a cultura japonesa sob
um olhar preconceituoso e racista, “Moraes se esforça por mostrar aos
portugueses a grande e sofisticada civilização que se desenvolvia no outro
extremo do mundo” (idem). Não é nosso propósito, aqui, discutir a construção da
narrativa histórica nos textos de Wenceslau de Moraes, porém, vale a pena fazer
uma breve avaliação sobre esse tópico, à luz das teses que Edward Said expôs em
seu livro Orientalismo – O
Oriente como invenção do Ocidente, para assinalarmos a diferença entre a
peculiar percepção de Wenceslau de Moraes e o modo como a maioria dos viajantes
europeus retratou esse outro tão estranho: o outro oriental, seja ele árabe, chinês,
persa ou indiano. Conforme diz Edward Said, que lecionou Literatura Comparada
na Universidade de Columbia, “nem o termo ‘Oriente’ nem o conceito de
‘Ocidente’ têm estabilidade ontológica; ambos são constituídos de esforço
humano – parte afirmação, parte identificação do Outro” (SAID, 2010:13). Quando
o historiador ocidental escreve a palavra Oriente como uma generalização, ele
desconsidera “uma variedade estonteante de povos, línguas, experiências e
culturas”, numa operação em que “tudo isso é desqualificado ou ignorado,
relegado ao monturo” (idem, 15). A atitude do estudioso orientalista europeu, sobretudo
a partir do século XVIII, de acordo com o pensamento de Said, reflete “uma
relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa”
(idem, 32). A invenção do Oriente não seria apenas um equívoco histórico
e sociológico, mas uma elaboração teórica colonialista, que desqualifica o
outro para dominá-lo: “O Orientalismo pode ser discutido e analisado como a
instituição autorizada a lidar com o Oriente – fazendo e corroborando
afirmações a seu respeito, descrevendo-o, ensinando-o, colonizando-o,
governando-o” (idem, 29). O discurso orientalista, hegemônico nos estudos
universitários, livros de viagem, relatos jornalísticos e pronunciamentos
políticos europeus e norte-americanos, seria, na opinião de Edward Said, “um
estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente”
(idem), sendo usado como justificativa ideológica para intervenções militares
em países considerados “primitivos” ou “autoritários”, que necessitariam da
presença ocidental para ingressarem no “mundo civilizado”. Wenceslau de Moraes,
que como oficial da marinha e diplomata visitou e residiu em vários países da
África e da Ásia, não adota em seus livros uma visão generalista sobre o
“Oriente”, preocupando-se, ao contrário, em perceber a especificidade do traço
cultural japonês, respeitando seus usos e costumes, e inclusive adotando suas
vestimentas, idioma e hábitos alimentares. O escritor português converte-se ao
zen-budismo, casa com uma japonesa e passa os seus últimos anos em Tokushima,
mergulhado no estudo de uma cultura que o encanta[1].
Em Relance da alma japonesa, volume
publicado em 1926, Moraes “fez uma apresentação do haicai que fugiu por
completo ao registro do exotismo pitoresco” (FRANCHETTI, 2012: 38), abordando
a estrutura da língua japonesa, normas gramaticais, gêneros poéticos e recursos
estilísticos de uma literatura que, até então, era desconhecida em Portugal. Relance da alma japonesa não é um livro
erudito, nem uma simples narrativa de viagem, mas o documento sincero de um
europeu que desejou sentir a cultura estrangeira que tanto o fascinava. No
primeiro capítulo da obra, o autor procura justificar o título, definindo a
palavra alma como “transcendência,
isto é, a significação do pensamento íntimo do indivíduo, dos indivíduos, na
apreciação das coisas” (MORAES, 1926: 11). Ele se propõe a “relancear em
espírito o modo de ser da família japonesa, no tocante à sua apreciação racial[1]
das coisas, como ela as vê, como ela as sente” (idem). Reconhece a dificuldade
do seu propósito, uma vez que “a alma japonesa é, para nós, europeus, e mais do
que a de qualquer outro povo, um caprichoso e enorme ponto de interrogação,
refratário a quaisquer averiguações” (idem, 15), mas justifica-se dizendo que
“não tomo muito a sério a dificuldade em que me vejo. Palestro apenas com o
leitor. Relanceio o meio em que me
acho; aponto fatos, como eles se dão, ou me parece darem-se; busco tirar
conclusões, porém sem esperança de alcançá-las” (idem). Prossegue o autor: “Em
todo caso, sigo um método de estudo, para não me desorientar por completo; e
chegarei à última página deste livro, sem sombra de remorsos por ter errado mil
vezes o caminho para onde me levou a fantasia” (idem). Nas páginas seguintes,
Wenceslau de Moraes apresentará minuciosas descrições da sociedade japonesa,
comentando aspectos de sua religião, idioma, educação, política, literatura,
arte, conceitos sobre o amor e a morte, sempre no meio fio entre a informação objetiva
e a impressão subjetiva. Sobre a escrita japonesa, escreve o autor:
“Na língua japonesa, quando escrita (ou
pintada, porque o pincel substitui a pena), as palavras escrevem-se de cima
para baixo e da direita para a esquerda, ao contrário do que sucede com as
línguas européias; empregando símbolos gráficos, silábicos, que os japoneses
inventaram, ou então os caracteres ideográficos (...). Desse processo de
escrever, deriva o fato de que a primeira página de um livro japonês
corresponde à última de um livro escrito a nossa moda.” (MORAES, 1925: 30)
O autor
português, atento à relação entre poesia, caligrafia e pintura, destaca os
materiais utilizados na escrita (o pincel, a pena), a diferença entre os sinais
gráficos que representam sons e os caracteres ideográficos, que são figuras
abreviadas, bem como a peculiar forma de leitura da escrita japonesa, tão
diversa da conhecida nas línguas ocidentais. Wenceslau de Moraes observa a
relação íntima entre as regras gramaticais e os conceitos filosóficos que
moldaram a cultura e a sociedade japonesa, com percepção acurada: “Não há
artigos na língua japonesa. O substantivo e o adjetivo são invariáveis quanto
ao número e quanto ao gênero, denominações gramaticais que os japoneses
desconhecem” (idem, 34). A diferença entre a lógica gramatical do idioma de
Bashô e sua equivalente na língua de Camões não é considerada por Moraes como
deficiência ou falha, e sim como reflexo, no mundo das palavras, de conceitos
espirituais: “Começamos a adivinhar aqui
um conceito da mais alta importância psíquica, na mentalidade do nipônico: a impersonalidade
humana, perante os fenômenos da vida” (idem). O agente individual, numa cultura
regida pelos princípios de Confúcio e Hui-neng – sexto patriarca do zen budismo
chinês –, é algo “de somenos importância, em presença do grandioso drama da
natureza criadora” (idem). Prossegue o autor:
Na língua japonesa, se excetuarmos um ou
dois termos raramente empregados, que designam a primeira pessoa, pode dizer-se
que não há pronomes pessoais. A consequência imediata deste curiosíssimo
fenômeno filológico é não haver senão uma palavra para cada modo e tempo de
cada verbo. (...) Na conjugação dos verbos japoneses, não se tem em conta as
pessoas. (...) Estabelecida claramente esta distinção, pode e deve-se dizer que
não existe sujeito gramatical em japonês. Com efeito, ficou notado que a noção de
pessoa, isto é, de um ser subsistente e potencial, não existe nesta língua. A
consequência rigorosa deste fato é a impersonalidade absoluta no verbo, o qual
não exprime mais do que a existência de um acontecimento, de um estado ou de
uma paixão, sem relação com a pessoa. (idem, 38)
A
impessoalidade, ou ausência de um eu separado do campo dos fenômenos é um
conceito caro à doutrina budista. Conforme explica Ricardo M. Gonçalves em seu
livro Textos budistas e zen-budistas,
“neste contínuo vir a ser que é este mundo, nada existe de substancial e
definitivo. Nenhum fenômeno existe independentemente do contexto em que ele se
situa, e seu destino é transformar-se, quando o contexto se modifica” (GONÇALVES,
1999: 15). A ausência de um eu, nesta
filosofia tão diferente do pensamento religioso cristão e mesmo das doutrinas
devocionais do Extremo Oriente, fundadas na dualidade entre o eu e o outro, o
divino e o humano, o sujeito e o objeto, está relacionada a outro princípio da metafísica
budista, o da interdependência. Segundo Ricardo M. Gonçalves, “as coisas não se
definem pelo que elas são em si, mas pela rede de condicionamentos e
relacionamentos que as ligam ao contexto. O homem, ao se analisar, não encontra
em si mesmo e ao seu redor nada a que possa se apegar como sendo seu eu, sua
personalidade substancial” (idem). A consequência deste pensamento é que o
mundo dos fenômenos, sendo vazio de substancialidade e em contínuo processo de
transformação, é impermanente: tudo muda o tempo todo, logo, os seres e as
coisas não têm realidade estável, fora de situações específicas do espaço e do
tempo, daí a analogia com a experiência do sonho. O único Absoluto, conforme a
metafísica budista, é o Vazio, ou Sunyata, que é “inacessível ao pensamento e à
linguagem” e que “está em todas as coisas e também dentro delas” (idem, 13). Este
Vazio “é o Uno, a Totalidade de Existência, o Absoluto, mas pode revelar a si
mesmo através da multiplicidade dos fenômenos relativos, contingentes e
transitórios, assim como a luz só se revela como tal quando incide em corpos
opacos que provoquem o contraste luz-trevas” (idem). A arte tradicional
japonesa, que expressa este pensamento filosófico, oculta o eu desde a
estrutura da língua, ao mesmo tempo que privilegia a representação do vazio, seja
nas pinturas a nanquim, seja na arte da caligrafia, na jardinagem ou na arquitetura.
Quando os jesuítas portugueses e espanhóis iniciaram sua missão evangelizadora na
Terra do Sol Nascente, foi inevitável o confronto entre a concepção dualista da
realidade, que considera Deus, homem e mundo como realidades distintas, eternas
e inconfundíveis, e o pensamento monista do budismo japonês. Paulo Leminski,
comentando o encontro do padre espanhol Francisco Xavier com o bonzo Ninshitsu, escreve:
Xavier fala do amigo: “tenho falado com
diversos bonzos ilustrados, especialmente com um que é tido na mais alta estima
por todos, pelo seu saber, conduta e dignidade, como pela avançada idade de
oitenta anos. Seu nome é Ninshitsu, que em japonês significa ‘Coração da
Verdade’. É uma espécie de bispo entre eles e, se o nome que usa é apropriado,
é realmente um homem abençoado... Esse homem tem sido para mim um amigo
maravilhoso”.
O diálogo entre eles, porém, não deve ter
sido muito fácil.
Xavier ficou confuso, logo de cara, ao
conversar com Nishitsu.
O velho mestre zen parecia não saber se
“possuía” ou não uma alma. Para ele, era inteiramente estranho o conceito de
que “uma alma” era uma espécie de objeto que “alguém” pode estar “possuindo” e
até mesmo “salvando”. (LEMINSKI, 1983: 77)
[1] Wenceslau de Moraes, numa atitude
raríssima em seu tempo, chega inclusive a justificar a expulsão dos
missionários portugueses das ilhas japonesas: “Dá-se, em 1542, o inesperado
incidente da chegada dos primeiros europeus – os portugueses – ao Japão. Foi
grande o alvoroço, principalmente na ilha de Kyushu. No ano de 1638, os
estrangeiros eram expulsos do Japão; o império isolava-se do mundo inteiro. A
história absolve os japoneses dos atos de perseguição que empregaram contra os
padres, contra os frades e contra todos os católicos em geral;
patenteando-se-lhe a evidência da teimosia missionária e dos altos
inconvenientes que resultariam para o Estado, se uma provável cisão do povo
viesse a manifestar-se, devido aos diferentes cultos em rivalidade”. (MORAES,
1925: 65)
[1] Como um intelectual europeu do século XIX, Wenceslau
de Moraes acreditava sinceramente que a identidade e os valores culturais de um
povo ou nação estavam relacionados a características raciais, porém, à
diferença do Conde Gobineau e outros teóricos racistas, ele não faz juízos de
valor, considerando uma raça “inferior” frente a outra “superior”. Sua
preocupação está em tentar entender a cultura do outro, sem hierarquizá-la, ao
modo dos estudos culturais regidos pelo Orientalismo.
[2] O xintoísmo é uma religião baseada no culto aos
antepassados, aos espíritos da natureza e aos deuses da mitologia japonesa, em especial Izanagi
e Izanami, o casal divino que deu origem ao universo, e Amaterasu, a deusa do
Sol. O imperador também era adorado como um deus vivo, prática que subsistiu
até a derrota do Japão na II Guerra Mundial. Ao contrário do budismo e do
confucionismo, trazidos da China, o xintoísmo (xinto significa “Caminho dos deuses”) é uma religião de origem
japonesa, que remonta à pré-história. Também é conhecida como yamato-kotoba e Kami no michi .
segunda-feira, 11 de março de 2013
A RECEPÇÃO DA POESIA CLÁSSICA JAPONESA EM PORTUGAL (I)
Camões, no Canto X de Os Lusíadas, descreve os continentes e
países conhecidos na geografia portuguesa do século XVI, fazendo breve
referencia ao Japão na estrofe que vai do verso 131 a 138: “... Esta, meio
escondida, que responde / De longe à China, donde vem buscar-se, / É Japão,
onde nasce a prata fina, / Que ilustrada será co a Lei divina” (CAMÕES, 2008: 317, versos 135-138). A passagem, embora sucinta, aponta dois
fatos históricos relevantes: o interesse português nas minas de ouro e prata no
Japão e o propósito de evangelização das ilhas japonesas, que acontecerá a
partir do final do século XVI, com a vinda de comerciantes e missionários portugueses.
Em 1543, Francisco Zeimoto,
António Mota e António Peixoto
desembarcam na ilha de Tanegashima, episódio relatado pelo cronista Fernão
Mendes Pinto, e tem início o chamado período Nanban, durante o qual houve
intensa interação comercial e religiosa entre japoneses e europeus. O Japão (em japonês:
日本; transl.: Nihon ou Nippon;
oficialmente 日本国, Nippon-koku ou Nihon koku),
um arquipélago formado por 6.852 ilhas
– entre elas as quatro maiores, Honshu, Hokkaido,
Kyushu
e Shikoku,
que representam 97% do território nipônico – era mais povoado do que qualquer país europeu da época, com uma população de
26 milhões de pessoas. A sociedade japonesa, aristocrática e feudal, tinha uma
rígida divisão entre classes sociais – camponeses, mercadores, sacerdotes,
guerreiros – e uma economia baseada, sobretudo, na agricultura; entre o final
do período Momoyama (1573-1598) e o início do período Tokugawa
(1603-1867), porém, as atividades comerciais conheceram uma fase de rápido
desenvolvimento, e com elas prosperam as cidades. Octavio Paz, em conhecido
ensaio sobre a cultura japonesa, refere-se a esse período com estas palavras: “Vive-se
na rua e multiplicam-se os teatros, os restaurantes, as casas de prazer, os
banhos públicos atendidos por moças, os espetáculos dos lutadores. Uma
burguesia próspera e refinada protege e fomenta os prazeres do corpo e do
espírito” (PAZ, 1996: 156).
As gravuras em madeira, ou ukyio-ê (“imagens do mundo flutuante”) surgem
nesse período, assim como os romances pornográficos, ou “Livros de primavera”,
que Paz compara à literatura libertina francesa do final do século XVIII, e
ainda as peças de teatro de marionetes conhecidas como kabuki. O jesuíta português João Rodrigues, que viveu em Kyoto,
então capital do império, entre os séculos XVI e XVII, chama essa localidade de
“a nobre e populosa cidade de Miyako” (in COLLCUTT, JANSEN e KUMAKURA,
2008: 108). Rodrigo de Vivero y Velasco calcula a população de Kyoto em 800 mil
pessoas, e estima que “cerca de 300 mil ou 400 mil vive nos arredores”
(idem). A expansão comercial, que
sustentou o florescimento cultural e urbano das grandes cidades, estava
relacionada com as necessidades militares dos senhores feudais, ou daymiôs. “Eram necessários comerciantes
que abastecessem os exércitos de armas, cavalos e armaduras; de alimentos,
bebidas e roupas para as tropas; que vendessem materiais de construção para
levantar fortes e castelos e madeira para embarcações e pontes” (idem, 108-109). Graças ao intenso
comércio com Portugal, Espanha, Holanda, Inglaterra e China, os japoneses entraram
em contato com os grandes centros comerciais da Europa e da Ásia. “Navios
japoneses que tinham licença zarparam para Luzon e para o Sul da Ásia, onde se
estabeleceram alguns grupos de comerciantes. O século XVI presenciou também uma
crescente efusão de ouro e de prata procedente das novas minas abertas no país”
(idem, 109). Toyotomi Hideyoshi, o xogum
(“senhor da guerra”) que unificou o Japão nas últimas décadas do século XVI,
“consciente dos benefícios que o comércio podia oferecer, impôs exações aos
comerciantes, exerceu um controle direto das minas e efetuou cunhagens de ouro e
prata” (idem), além de criar “um sistema monetário uniforme” e investir “na
construção em grande escala de castelos e fortificações” (idem). O contato com
o mundo ocidental movimentou a economia japonesa, ao mesmo tempo em que abriu
as portas do país para a atividade missionária, levada a cabo pela Companhia de
Jesus, que logrou converter milhares de japoneses à fé cristã. Conforme William Johnston, professor da Universidade Sophia, de
Tóquio, “o cristianismo foi levado para o Japão pelo basco Francisco Xavier,
que desembarcou em Kagoshima em 1549 na companhia de dois outros jesuítas e um
intérprete japonês” (in ENDO, Shusaku: 2011, 12). Apesar das dificuldades linguísticas,
“Xavier levou algumas centenas de japoneses para a fé cristã, antes de partir
para a China, cuja conversão lhe parecia indispensável prelúdio à do Japão”
(idem). O verdadeiro arquiteto da evangelização nas ilhas japonesas, segundo o
autor, não foi Xavier, mas o italiano Alessandro Valigmano, “que combinava o
entusiasmo de Xavier com uma presciência e tenacidade extraordinárias” (idem).
Quando o missionário italiano realizou a sua primeira visita ao Japão, em 1579,
“já havia uma florescente comunidade de 150 mil cristãos, cujas magníficas
qualidades e profunda fé inspiraram em Valigmano a visão de um arquipélago
inteiramente cristão no norte da Ásia” (idem).
Seminários, colégios, hospitais e uma noviciaria foram construídos
pela missão católica, que em pouco tempo obtém prestígio na própria corte.
Conforme William Johnston, as cartas e registros dos missionários católicos são
a principal fonte de informação que temos hoje sobre a sociedade japonesa no
período de 1570 a
1614, uma vez que há poucos relatos japoneses sobre esse tempo histórico. Entre
os livros escritos pelos jesuítas, destaca-se o Vocabulário da Lingoa de Iapam (1603), chamado de Nippo Jiten entre os japoneses, publicado em Nagasaki pelo
padre João Rodrigues, que foi o primeiro dicionário Japonês-Português, com 32
mil verbetes, elaborado para ajudar os missionários no estudo do idioma. Em
1604, o religioso escreveu um volume intitulado Arte da lingoa de Iapam, que é, possivelmente, a primeira fonte de
informação sobre a poesia japonesa divulgada em Portugal. O jesuíta escreve
que
Ha hua sorte de versos a modo de Renga que
se chama: Faicai, de estillo baixo & o verso he de palavras ordinarias,
& facetas a modo de verso macarronico, & deste modo de Renga, posto que
nam tem tantos preceitos como a verdadeira, o numero de versos pode ser o
mesmo. E pode começar pello segundo verso de sete sete, que se chama Tçuquecu,
& continuar com cinco sete cinco (in FRANCHETTI, 1990: 37).
A referência do religioso português, embora
lacônica, indica o conhecimento dos gêneros poéticos e das medidas métricas
praticadas nas ilhas japonesas, sem isentar-se de juízo de valor (estillo baixo, palavras ordinárias, nam tem
tantos preceitos como a verdadeira). João Rodrigues é autor também da História da Igreja no Japão, em que faz
observações sobre a vida cotidiana japonesa, a cerimônia do chá, o budismo e o
xogunato. O padre seria expulso do Japão em 1610, como consequência de um
incidente em Macau com o navio português Madre de Deus, em que foram mortos
marinheiros japoneses. Este episódio faz parte de uma série de conflitos que
encerrariam o “século cristão” na Terra do Sol Nascente e levariam à expulsão
de todos os missionários cristãos europeus e ao fim das relações comerciais e
culturais com o Ocidente, no Período Tokugawa (1603-1867). Conforme William
Johnston, a ruptura foi antecedida, em 1587, pela decisão do xogum Toyotomi Hideyoshi, sob efeito do álcool, de
ordenar que todos os missionários deixassem o país. “Decidi”, lia-se em sua mensagem, “que
os padres não devem permanecer em solo japonês. Portanto, ordeno que, tendo
eles resolvido seus assuntos aqui num prazo de vinte dias, retornem para sua
terra” (in ENDO, Shusaku. 2011, 14). “A fúria de Hideyoshi”, escreve Johnson, “logo
se abateu; a maioria dos missionários não deixou o país; e o decreto de
expulsão virou letra morta” (idem). A comunidade cristã no arquipélago japonês,
como anotou C. R. Boxer, não parava de crescer, e quatro anos após a mensagem
de Hideyoshi ela já somava 200 mil almas. Em 1597, o xogum tem novo acesso de
fúria, ao ser informado por um piloto de um navio espanhol de que os
missionários “abriam caminho para as forças armadas do rei” (idem, 14-15).
Hideyoshi mandou crucificar, então, 26 missionários, europeus e japoneses, numa
fria manhã de fevereiro, episódio retratado numa pintura exposta no Museu do
Oriente, em Lisboa, e também na decoração de uma igreja barroca franciscana em
Recife. “A obra missionária, porém, continuou de alguma maneira”, escreve
Johnson, no texto de apresentação do romance O silêncio, de Shusaku Endo, que aborda esse período histórico
(idem, 15). “Os jesuítas viviam apreensivos, mas ainda desfrutavam as boas
graças da corte regencial; e foi apenas no governo de Ieyasu – sucessor de
Hideyoshi e primeiro dos xóguns Tokugawa – que a sentença de morte da missão
católica se tornou irrevogável” (idem). O pretexto para a decisão, novamente,
foi o boato – desta vez apresentado pelo piloto inglês Will Adams – de que a
presença de missionários católicos no país estava relacionada a interesses políticos
da União Ibérica.
Em
1614, o xogum Ieyasu Tokugawa promulga um édito de expulsão, declarando que “o
bando dos kirishitan veio para o
Japão (...) ansiando por disseminar uma lei pérfida, destruir a verdadeira
doutrina e apossar-se do país. Esse é o germe de um grande desastre e precisa
ser esmagado” (idem, 16). Segundo William Johnston, este foi “o golpe de morte.
Veio numa época em que havia uns 300 mil cristãos no Japão (cuja população
total era de 20 milhões de pessoas), mais os colégios, seminários e hospitais e
o crescente clero nativo” (idem). Apesar da repressão, a obra missionária
continuou de forma clandestina, “até que, sob os sucessores de Ieyasu, a caça
aos fiéis e sacerdotes cristãos se tornou tão sistematicamente cruel que varreu
todo e qualquer vestígio visível do cristianismo” (idem). Segundo o inglês
Richard Cocks, a forma usual de execução era a fogueira, e ele declara ter
visto “55 pessoas de todas as idades e ambos os sexos serem queimadas vivas no
leito seco do rio Kamo, em Kyoto (outubro de 1619), e entre elas havia
criancinhas de cinco ou seis anos nos braços das mães” (idem). A perseguição
aos japoneses convertidos ao catolicismo ficou conhecida como sakoku e o número de mártires, apenas entre
1614 e 1640, seria de cinco a seis mil mortos, segundo Johnston. O último e
decisivo episódio do combate à cristandade foi o levante dos camponeses de
Shimabara, em 1637, contra o aumento dos impostos para a edificação de um novo
castelo pelo o clã de Matsukura. Conforme
escreve Johnston, “Essa rebelião (...) transformou-se depois em
manifestação da fé cristã, e os insurgentes carregavam estandartes em que se
lia ‘Louvado seja o Santíssimo Sacramento’ e bradavam os nomes de Jesus e Maria”
(idem, 18-19). A tragédia era inevitável: “O levante foi sufocado com
implacável crueldade, e o xogunato Tokugawa, convencido de que tal rebelião só
fora possível com ajuda de fora, resolveu de uma vez por todas cortar os
vínculos com Portugal e cerrar o Japão para o resto do mundo” (idem). A decisão
de fechar as fronteiras e suspender o intercâmbio comercial e cultural com
outros países não era novidade na história japonesa.
sábado, 9 de março de 2013
JÁ ESTÁ NO AR!
Ano IX, edição XXVI, março de 2013
Entrevista: Uma conversa com Contador
Borges
Por mares
pouco navegados (sobre Horácio
Costa), Ronald Polito
Casimiro de Brito: A boca na fonte,
Maria João Cantinho
A lebre e a serpente, Anelito de
Oliveira
A presença-ausência de Miguilim-Miguel,
Brenno Carriço
Poemas de Amosse Mucavele (Moçambique), Zingonia Zingone
(Itália), José Kozer (Cuba / EUA)
Traduções de T. S. Eliot (EUA), Gregory
Corso (EUA), Edmond Jabès (Egito/França), Jean-Paul Michel (França), Bernardo
Ortiz de Montellano (México), Ron Winkler (Alemanha)
Galeria: exposição virtual de Nuno Cais.
Depoimentos e Debates: Casimiro de
Brito (Portugal)
Quedó con su poliédrica visión: narrativas
de Luciana Inhan, Nina Rizzi e Hudson R. Santos
Zunái, Revista de Poesia & Debates:
www.revistazunai.com.
Preço: Inefável; inconcebível.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran
Cualquierparte” (Vallejo).
quarta-feira, 6 de março de 2013
CÂNONE E ANTICÂNONE (IV)
GLAUCO MATTOSO, O ANJO DE BOTAS CARCOMIDAS
Glauco Mattoso iniciou a sua jornada poética na década de 1970, no auge da ditadura militar, editando o Jornal Dobrábil (título que faz referência irônica ao Jornal do Brasil), publicação artesanal de pequena tiragem feita em máquina de datilografia, que era distribuída pelo correio a um grupo seleto de leitores, como Augusto de Campos e Carlos Drummond de Andrade. A publicação apresentava poemas visuais com nítida influência da Poesia Concreta mas de conteúdo satírico, com referências à situação política do país, e uma coloquialidade e irreverência típicas da Poesia Marginal, de Cacaso e Francisco Alvim, da qual foi contemporâneo. Os poemas e breves crônicas que publicou no Jornal Dobrábil, usando diversos pseudônimos, como Garcia Loca, já traziam a temática urbana, homoerótica e fescenina, que acompanhariam toda a obra do autor, bem como o interesse pelas formas fixas, como o soneto e o haicai. Nos livros Línguas na Papa e Memórias de um Pueteiro, publicados em 1982, encontramos alguns dos poemas mais representativos da fase inicial de Glauco Mattoso, como o Manifesto Obsoneto: “Isso não é poesia que se escreva, / é pornografia tipo Adão & Eva: / essa nunca passa, por mais que se atreva, / do que o Adão dá e do que a Eva leva”. Escrito na forma do soneto, com métrica e rimas, a composição destoa, no entanto, de qualquer vocação conservadora, usando a gíria, o palavrão e a pornografia numa época marcada pela forte censura, que levou à interdição de filmes, livros e músicas acusadas de conteúdo “imoral” ou “subversivo”. Em outro poema dessa fase, Spic (sic) Tupnic, o autor, com verve transgressiva, diz: “Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita-maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço - hic - e desligo - clic - a cuca./ Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik”. A palavra neológica tupnik faz referência ao satélite Sputinik, colocado no espaço pela União Soviética dez anos antes e símbolo do progresso, mas também ao tupiniquim, emblema da brasilidade. A mistura de palavras em português e em inglês no poema e as citações de vários ritmos musicais – “o baioque (o forrock, o rockixe), o rockão” – sugerem ainda uma aproximação com a Tropicália de Torquato Neto, Caetano Veloso, Paulo Leminski e Gilberto Gil, que em poemas e letras de música mostravam o caráter mestiço, híbrido e desigual da realidade brasileira. A Tropicália foi também um movimento que dialogou artisticamente com o cinema, a publicidade, as histórias em quadrinhos, e essa mescla de linguagens é algo que sempre fascinou Glauco Mattoso, inspirando Glaucomix, o pedólatra, adaptação de seu livro Manual do Pedólatra Amador, com roteiro do autor e desenhos de Marcatti. A Tropicália é homenageada também no CD Melopéia: Sonetos Musicados, que traz poemas de Glauco Mattoso musicados e interpretados por artistas como Arnaldo Antunes, Edvaldo Santana e Itamar Assumpção (a capa do CD, inclusive, é uma paródia da famosa foto de 1967 que estampa o disco Tropicália, de Caetano, Gil, Capinam e Tom Zé).
Com a cegueira, que o impossibilitou de continuar a criar poemas visuais, o poeta iniciou em 1995 uma nova fase – que ele chama de FASE CEGA --, marcada pelo retorno à versificação tradicional, à métrica, às rimas e ao soneto nos moldes camonianos. Esta mudança, segundo o autor, aconteceu pela facilidade de memorização dos versos, embora ele já tenha escrito alguns sonetos em sua primeira fase criativa, que ele chama de FASE PODORASTA (podolatria + pederastia). Os primeiros livros de sonetos de Glauco Mattoso, publicados entre 1999 e 2000 por pequenas editoras, são Centopéia — Sonetos Nojentos & Quejandos, Paulisséia Ilhada — Sonetos Tópicos, Geléia de Rococó — Sonetos Barrocos e Panacéia — Sonetos Colaterais (Nankin Editorial, 2000), todos eles marcados pela podolatria (adoração fetichista aos pés), sadomasoquismo e humor fescenino (a sátira do erotismo). Bibliotecário de formação, Glauco Mattoso organizou seus sonetos em séries, abordando temas como a culinária, o cinema, a geografia, a política, a religião, entre outros. Seguindo uma sugestão de Augusto de Campos, o poeta inovou também na forma do soneto, especialmente no livro Panaceia, trabalhando com estrofes de dois, três, quatro ou cinco linhas e versos com diferenes números de sílabas. Glauco Mattoso é hoje um dos mais conhecidos poetas brasileiros e já se apresentou no Clube de Leitura de Poesia, do Centro Cultural São Paulo, que também publicou uma plaquete com seus poemas, O cinephilo ecletico, na coleção Poesia Viva, distribuída gratuitamente ao público no CCSP, na Casa das Rosas e na Biblioteca Alceu Amoroso Lima.
Glauco Mattoso iniciou a sua jornada poética na década de 1970, no auge da ditadura militar, editando o Jornal Dobrábil (título que faz referência irônica ao Jornal do Brasil), publicação artesanal de pequena tiragem feita em máquina de datilografia, que era distribuída pelo correio a um grupo seleto de leitores, como Augusto de Campos e Carlos Drummond de Andrade. A publicação apresentava poemas visuais com nítida influência da Poesia Concreta mas de conteúdo satírico, com referências à situação política do país, e uma coloquialidade e irreverência típicas da Poesia Marginal, de Cacaso e Francisco Alvim, da qual foi contemporâneo. Os poemas e breves crônicas que publicou no Jornal Dobrábil, usando diversos pseudônimos, como Garcia Loca, já traziam a temática urbana, homoerótica e fescenina, que acompanhariam toda a obra do autor, bem como o interesse pelas formas fixas, como o soneto e o haicai. Nos livros Línguas na Papa e Memórias de um Pueteiro, publicados em 1982, encontramos alguns dos poemas mais representativos da fase inicial de Glauco Mattoso, como o Manifesto Obsoneto: “Isso não é poesia que se escreva, / é pornografia tipo Adão & Eva: / essa nunca passa, por mais que se atreva, / do que o Adão dá e do que a Eva leva”. Escrito na forma do soneto, com métrica e rimas, a composição destoa, no entanto, de qualquer vocação conservadora, usando a gíria, o palavrão e a pornografia numa época marcada pela forte censura, que levou à interdição de filmes, livros e músicas acusadas de conteúdo “imoral” ou “subversivo”. Em outro poema dessa fase, Spic (sic) Tupnic, o autor, com verve transgressiva, diz: “Tem híbridos morfemas a língua que falo, / meio nega-bacana, chiquita-maluca; / no rolo embananado me embolo, me embalo, / soluço - hic - e desligo - clic - a cuca./ Sou luxo, chulo e chic, caçula e cacique. / I am a tupinik, eu falo em tupinik”. A palavra neológica tupnik faz referência ao satélite Sputinik, colocado no espaço pela União Soviética dez anos antes e símbolo do progresso, mas também ao tupiniquim, emblema da brasilidade. A mistura de palavras em português e em inglês no poema e as citações de vários ritmos musicais – “o baioque (o forrock, o rockixe), o rockão” – sugerem ainda uma aproximação com a Tropicália de Torquato Neto, Caetano Veloso, Paulo Leminski e Gilberto Gil, que em poemas e letras de música mostravam o caráter mestiço, híbrido e desigual da realidade brasileira. A Tropicália foi também um movimento que dialogou artisticamente com o cinema, a publicidade, as histórias em quadrinhos, e essa mescla de linguagens é algo que sempre fascinou Glauco Mattoso, inspirando Glaucomix, o pedólatra, adaptação de seu livro Manual do Pedólatra Amador, com roteiro do autor e desenhos de Marcatti. A Tropicália é homenageada também no CD Melopéia: Sonetos Musicados, que traz poemas de Glauco Mattoso musicados e interpretados por artistas como Arnaldo Antunes, Edvaldo Santana e Itamar Assumpção (a capa do CD, inclusive, é uma paródia da famosa foto de 1967 que estampa o disco Tropicália, de Caetano, Gil, Capinam e Tom Zé).
Com a cegueira, que o impossibilitou de continuar a criar poemas visuais, o poeta iniciou em 1995 uma nova fase – que ele chama de FASE CEGA --, marcada pelo retorno à versificação tradicional, à métrica, às rimas e ao soneto nos moldes camonianos. Esta mudança, segundo o autor, aconteceu pela facilidade de memorização dos versos, embora ele já tenha escrito alguns sonetos em sua primeira fase criativa, que ele chama de FASE PODORASTA (podolatria + pederastia). Os primeiros livros de sonetos de Glauco Mattoso, publicados entre 1999 e 2000 por pequenas editoras, são Centopéia — Sonetos Nojentos & Quejandos, Paulisséia Ilhada — Sonetos Tópicos, Geléia de Rococó — Sonetos Barrocos e Panacéia — Sonetos Colaterais (Nankin Editorial, 2000), todos eles marcados pela podolatria (adoração fetichista aos pés), sadomasoquismo e humor fescenino (a sátira do erotismo). Bibliotecário de formação, Glauco Mattoso organizou seus sonetos em séries, abordando temas como a culinária, o cinema, a geografia, a política, a religião, entre outros. Seguindo uma sugestão de Augusto de Campos, o poeta inovou também na forma do soneto, especialmente no livro Panaceia, trabalhando com estrofes de dois, três, quatro ou cinco linhas e versos com diferenes números de sílabas. Glauco Mattoso é hoje um dos mais conhecidos poetas brasileiros e já se apresentou no Clube de Leitura de Poesia, do Centro Cultural São Paulo, que também publicou uma plaquete com seus poemas, O cinephilo ecletico, na coleção Poesia Viva, distribuída gratuitamente ao público no CCSP, na Casa das Rosas e na Biblioteca Alceu Amoroso Lima.
(Artigo publicado na edição de fevereiro da revista CULT, na coluna Retrato do Artista.)
segunda-feira, 4 de março de 2013
... UMA QUESTÃO DE ORDEM...
Em
tempo: por favor, não
confundam as palavras "livro", "leitura" e "literatura"
em debates sobre políticas públicas de fomento. O lobby das grandes editoras, poderosíssimo, sabe muito bem o que
significa "fomento ao livro" -- compras milionárias de títulos pelo
poder público para equipar bibliotecas, sem que haja ações eficazes de estímulo
à leitura junto aos estudantes.
Infelizmente,
até pessoas bem intencionadas na área pública, quando ouvem falar em
"políticas públicas de fomento para a LITERATURA", logo substituem
essa palavra por "LIVRO", como se fosse a mesma coisa... NÃO É
!!! Literatura não é a mesma coisa que livro, assim como MÚSICA não é a
mesma coisa que CD e CINEMA não é a mesma coisa que FILME. São coisas
interrelacionadas, mas diferentes. Por que a palavra LITERATURA é
substituída pela palavra LIVRO? Porque literatura remete a AUTORES (que não têm
poder de influência nenhum e não lutam por seus direitos) enquanto a palavra
livro remete a EDITORES (que mamam nas tetas do estado).
sexta-feira, 1 de março de 2013
CONSTATAÇÃO
O Brasil tem a burguesia mais burra, preconceituosa e incompetente do hemisfério ocidental. Ela já nasceu submissa ao latifúndio e ao grande capital internacional e nunca teve o projeto de construção de um país soberano. Em dois séculos de hegemonia, foi incapaz de sustentar o estado de direito e a democracia representativa, salvo dois períodos históricos, de 1946 a 1964 e de 1984 até o presente. Soube conviver com o trabalho escravo, com a corrupção de numerosos governos eleitos por ela e nunca se preocupou com a distribuição da riqueza, mesmo para a consolidação do mercado interno. Desprezou a necessidade de investimentos em educação e saúde públicas de qualidade e manteve o país com desníveis sociais gigantescos. Seu ódio doentio a Lula e ao PT é apenas a reação natural de quem observa o seu próprio fracasso histórico como força social relevante.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
POESIA.BR
Poesia br é um dos mais ambiciosos projetos de mapeamento da
poesia brasileira que eu conheço, organizado pelo poeta Sergio Cohn, que também é editor da Azougue. Trata-se de uma
caixa com dez livros, dez pequenas antologias, que retratam 500 anos de poesia, desde os
cantos da tradição oral indígena até a poesia jovem dos autores que publicaram
a partir de 2000. Um trabalho de referência que merece estar em todas as
bibliotecas públicas, nas escolas e universidades.
Claro: como acontece em toda antologia,
sempre há nomes que faltam, por isso mesmo é importante que haja várias
antologias, para que o leitor forme o seu próprio cânone pessoal. Vale a pena
citar também as antologias por década publicadas pela Global. O volume dedicado
aos anos 1990 foi organizado pelo poeta Paulo
Ferraz.
Uma diferença do trabalho de Sergio Cohn em relação às antologias
anteriores é que, pela primeira vez -- até onde sei -- foi incluída a poesia
oral indígena (pena que não foi possível encartar um CD, como fez o Douglas
Diegues em sua coletânea de poesia mkbyá-guarani).
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