quinta-feira, 3 de maio de 2012
EM BUSCA DAS CIDADES IMAGINÁRIAS
O escritor argentino Jorge Luiz Borges imaginou uma cidade labiríntica construída
no deserto africano, habitada por imortais reduzidos à condição de trogloditas que
se alimentavam de carne de serpente. Marco Flamínio Rufo, tribuno romano e
narrador da história, conta a sua convivência com essa estranha tribo e a
amizade que travou com um de seus integrantes, o poeta grego Homero, condenado à
imortalidade e a uma existência quase animalesca após beber das águas de um
misterioso rio guardado pelas muralhas da cidade sem nome. Borges descreve a
arquitetura do lugar de modo sucinto, mencionando pirâmides, praças, templos e
torres, detendo-se mais na descrição do labirinto: “Havia nove portas naquele
porão e oito davam para um labirinto que falazmente desembocava na mesma
câmara; a nona (através de outro labirinto) dava para uma segunda câmara
circular igual à primeira. Ignoro o número total de câmaras; minha desventura e
minha ansiedade as multiplicaram”. Nessa cidade de pedra, que parecia “anterior
aos homens, anterior à terra” e construída por deuses “que estavam loucos” não
havia qualquer atividade econômica ou política e os homens, convertidos em
feras, desprovidos de linguagem e da noção de tempo, dedicavam-se à mera
sobrevivência. Este conto, O Imortal,
foi incluído no livro O Aleph,
publicado em 1949, e pode ser lido como uma fábula moral e metafísica que
mistura erudição e ironia para abordar a solidão humana, a necessidade da morte
e do esquecimento.
A ficção de Borges (que inclui outros relatos de cidades e mundos
inventados, como Tlon, Uqbar, Urbius
Tertius) é um dos marcos dessa tradição da literatura moderna
latino-americana: a criação de cidades imaginárias, que são alegorias da
angústia e do absurdo da condição humana. Cem
Anos de Solidão (1967), romance do colombiano Gabriel Garcia Marquez que
narra a saga do coronel Aureliano Buendía na mítica cidade de Macondo, é com
certeza a obra mais conhecida desse gênero, que teve como remotos precursores a
Odisseia de Homero e As viagens de Gulliver, de Jonathan
Swift.
Uma obra notável é Pedro Páramo
(1955), do mexicano Juan Rulfo, cuja ação se passa na cidade abandonada de
Comala, um povoado rural situado próximo às montanhas; lendo esse romance
inusitado, ficamos sabendo que possui um rio, uma igreja, uma área urbananizada
em que ficam as casas e nada mais. O autor faz pouquíssimas alusões a cenários
e ambientes neste romance que é uma sucessão de monólogos e diálogos em que personagens
mortos narram, sem uma ordem cronológica linear, diferentes episódios da vida
de Pedro Páramo, cujo falecimento antecipa a extinção da própria cidade. O uruguaio Juan Carlos Onetti, por sua vez, é
mais generoso na descrição de Santa Maria, cidade portuária que aparece em vários
de seus contos e romances, como A Vida Breve (1950). Lendo este livro fascinante, encontramos referências ao
estaleiro, ao mercado, ao cemitério, a um hotel, bares, restaurantes, praças e
prostíbulos por onde circula Juan María Brausen, personagem atormentado pela
monotonia, angústia e degradação da vida cotidiana. A cidade mitológica criada
por Onetti, não menos terrível e perturbadora que a Comala de Rulfo, desperta a
curiosidade de seus leitores, que podem
se perguntar: como o escritor concebeu essa cidade? Ele desenvolveu um plano
prévio, antes de começar a escrever? Respondendo a uma entrevista para a
Revista Bula, pouco antes de seu falecimento, em 1994, o escritor uruguaio declarou:
“Uma vez fiz um plano de Santa Maria com um amigo, mas era só para movimentar
melhor os personagens. Eu o perdi quando me mudei de Buenos Aires. A mim, se me
ocorre escrever um livro, já tem seu lugar em Santa Maria. Porém,
nunca me propus desenvolver um plano. Ou seja: nunca quis escrever uma saga.
Esse é já um propósito, e eu não poderia escrever com propósitos”.
O escritor mexicano David Toscana, que publicou em 1998 o romance Santa Maria do Circo (cujo título é uma
referência paródica à cidade mítica de Onetti), adotou uma outra estratégia
criativa: “Imaginei o mínimo que uma cidade possa ter no México: praça, igreja e
algumas poucas casas. A imaginação me sugeriu depois que na praça devia existir
a estátua de um herói desconhecido. Perguntei a mim mesmo se queria algum outro
edifício como escola, hospital, algum comércio ou fábrica, e disse que não.
Preferi manter tudo o mais simples possível. No primeiro romance ocupei-me de uma
cidade que no final ficou abandonada; agora quis o processo inverso: uma cidade
abandonada é povoada”, declarou a mim numa entrevista realizada por
e-mail. O romance conta a história de um
grupo de artistas circenses que, ao chegar numa cidade deserta, similar à
Comala de Rulfo, decide permanecer ali e fundar uma nova comunidade, batizada
de Santa Maria do Circo. A troupe é
composta por figuras bizarras como Barbarela, a mulher barbada; Natanael, o
anão; Hércules, o homem forte; Mandrake, o mágico; Fléxor, o contorcionista, e Balo,
o homem-bala, que decidem escolher novos ofícios, mais úteis à construção do
novo mundo. Sendo assim, cada membro do grupo escreve em pedaços de papel as
ocupações que julga essenciais, que depois são misturados na cartola do mágico
e sorteados ao acaso. Barbarela torna-se médica; Balo, general; Natanael, padre, e Hércules,
prostituta. O bizarro dessa cena é relativizado pelo escritor, para quem o
acaso “é o que define quase todas as vidas. São muito poucos os que decidem. Abrir
um papelote do chapéu de um mágico e abrir as páginas do jornal para buscar trabalho
são coisas muito parecidas. (...) O acaso faz com que um taxista dirija um táxi,
posto que quando criança não dizia ‘Quando crescer quero ser taxista’. E no
final a vida se parece un pouco com o circo. Pensemos por exemplo na política;
aí temos palhaços, prestidigitadores, mágicos, cães dançarinos, equilibristas,
domadores, malabaristas e um enorme público que paga muito caro pelo bilhete, ainda
que o espetáculo seja péssimo”.
O fracasso da nova sociedade é inevitável, pela escassez de recursos do
povoado, e após inúmeras peripécias, similares a farsas circenses, os artistas
resolvem abandonar o povoado, acompanhando a caravana de outra companhia
circense que passava pelo local. O dono do circo, Don Estevão, porém, recusa-se
a levar o anão, a mulher barbada e o homem forte, que são abandonados à própria
sorte. Santa Maria do Circo, assim como as cidades míticas criadas por Borges,
Onetti e Rulfo, pode ser entendida como uma vasta alegoria da solidão, do
fracasso e do absurdo que regem as sociedades latino-americanas.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
UM POEMA DE YUMÊ
BAROQUE MARINA
spume-cataract-blue, the sea's nebula-near-white-blue of the sea whitens into krishna-lotus-blue; dolphin furrows marine-musk-blue in curvets, a graceful cambodian dancer with an apsara's feet; and (myriad!) aquatic birds, mandalic whirling dervishes meru-bound, beneath feather-lakshmi-sky an immense enameled gate opens like a young bride. fillets of violet-blue in an insect's pupils see: on white sand sheets, an old obese lady, vulva nested in hair gone white, ferments tears in liqueur glasses under an umbrella; a sardonic german biochemist with long silverplated sideburns slices prosciutto between expectorations; a lovely vietcong nymph with sinuous mechanical legs: her gaze burns like napalm. in the end, the arctic penguin is banished for excessive daltonism; at last there is nothing to be seen but the purest blue.
Poema de Claudio Daniel, do livro Yumê, traduzido para o inglês por Chris Daniels.
domingo, 29 de abril de 2012
UM POEMA DE CLAUDIO DANIEL
OCCIPITAL FLOWER
Occipital flower is the head’s name.
Lines, volumes.
A writing of bones, nerves,
orbs, memories.
Words that got lost in some place
that you avoid.
Stage scenery that suddenly emerges
like lakes, crystals,
small white
knives.
A snake that is not the Name that runs on
your
lips.
Tree that says neither more nor less
than
this.
Can madness be learnt?
You crush an insect between your fingers
but the sensation
remains.
It’s a shiver that you cannot explain.
Fibres, everything fibres of a miraculous
cloth.
An oriental carpet
shaped like a kidney,
on which we are a minuscule detail,
ant riding on the back of a dragon.
On your palm, your pulse, your epidermis,
you thought you felt the games of the
night,
fleeting hands, a stilled voice,
no board
or pawn.
This is not the face of a dream,
less light, no membrane,
fuck, you yell
at the breadcrumbs.
Nobody’s ants are crossing, from one side
to the other,
the garden’s
flowerbed.
The illusion of love exists and the teeth,
teeth, teeth.
Because everything is real.
The stone that explodes in your temples.
The Earth in the shape of a chalice.
The word that reproduces like the birds in
the Palace
of the Moon Goddess.
The meaning is just the shadow.
I’m the hunger for a clarity that will
never be.
Because the rhythms, the rhythms, the
rhythms.
Because of the she-dog’s laughter.
Celan and the ‘lunatic-open pore’.
Now exit to anywhere.
Crabs adrift in the rain, a portrait, a
name
that is not the snake
that does not run
on your lips.
Throwing yourself into the shadow searching
for the meaning of chewing
copper leaves.
Throwing yourself into the shadow searching
for the intimate beetle
tattooed on the pussy
of Lady Language.
Throwing yourself into the shadow because
stone is more than yell
is more than squirrel
is more than the cloudy
howl
of the centipede.
Writing poetry is not a job for delicate
men.
Occipital flower is the head’s name.
Here are all the games, all the maps, all
the
words,
including the ones to be invented.
Occipital flower is the head’s name.
Your voice.
Your faces.
Your mandalas of affection and scorn.
Lines disfigured on the convulsing body,
exploding spectres.
Emerald.
Everything commences and ends with the enchantment
of the emerald.
In memory of Rodrigo de Souza
Leão, 2011
poem by Claudio
Daniel
translation ©
Stefan Tobler
sexta-feira, 27 de abril de 2012
VERSO REVERSO NA CASA DAS ROSAS
Caros, amanhã, às 19h, eu e o Chacal estaremos na Casa das Rosas, participando do evento VERSO REVERSO. Será uma entrevista aberta, com a participação do público. Quem puder, apareça!
terça-feira, 24 de abril de 2012
NOITE RUSSA NO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO

Poesia dos Quatro Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, num formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras. Em abril, será feita a apresentação de uma noite russa com os poetas Claudio Daniel e Alex Dias, a Companhia Balalaika e o músico Vadim Klokov.Centro Cultural São Paulo -- Praça Mário Chamie (Bibliotecas). Rua Vergueiro, n. 1.000, próximo ao metrô.Sexta-feira, dia 27/04/2012 - 20h30 às 22h.
DOIS POEMAS DE KHLÉBNIKOV
Crepitai, bétulas azuis!
Albas da noite, zaraturvem
Ao céu cerúleo mozarteante!
Goyam trevas como nuvens!
Roops é um cirro soturno!
Voa uma tromba de risos,
Enfrento firme o verdugo,
Gargalham garras de gritos,
E em torno o silêncio escuro.
A mim convoco os valentes,
Saem dos rios os afogados,
O miosótis, estridente,
Declama a velames pardos.
Gira o eixo cotidiano,
Move-se a massa verpertina,
Nas águas da noite vogando
(Sonho) uma carpa-menina.
Mamáj - pinhos ao vento!
Nuvens nômades de Báti!
Como cains do silêncio
Palavras santas se abatem.
Passo tardo, cercado de tropas,
Asdrúbal azul vai ao baile das rochas.
Tradução: Haroldo de Campos.
* * *
Neste dia de ursos cerúleos
a correr sobre cílios tranqüilos
transvejo para além da água azul
o acordar na taça das pupilas.
Na colher de prata de olhos latos
vejo a procelária em mar sonoro
e ao largo vai a Rússia dos pássaros
transvoando entrecílios ignotos.
Marventoso em celamor soçobra
a vela de alguém na azul esfera,
e eis que o desepero tudo engolfa
trovão e porvir de primavera.
Tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.
domingo, 22 de abril de 2012
A POESIA EM REVISTA
Debate com Edson Cruz, Victor Del Franco e Ademir Demarchi sobre a edição de revistas
literárias no Brasil. Lançamento das revistas Babel, Celuzlose e Musa
Rara e dos livros de poesia Tambores pra N'zinga, de Nina Rizzi,
EsfingE, de Victor Del Franco, Pele & Osso, de Neuzza Pinheiro, e
Pirão de sereia, de Ademir Demarchi
Dia 25 de abril, quarta-feira, às 19h30.
Entrada franca - sem necessidade de inscrição, nem retirada de ingressos
Praça Mário Chamie (Bibliotecas) do Centro Cultural São Paulo.
Rua Vergueiro, 1.000, próximo à estação do metrô.
sábado, 21 de abril de 2012
UM POEMA DE NINA RIZZI
CANÇÃO ÀS PROLETÁRIAS DE GUERRA
caem línguas e ouvidos mortos
sob o céu vazio e cinzento
devia dizer uma velha cantiga
judaico-germânica
marina c., aqui vai tudo na mesma
nas esquinas, porões, grades
dentro da concha, o mar
na semente, uma floresta
as asas dos insetos se debatem
em palmas ao sem-fim
nós, em meio aos escombros e afetos
pegamos vassouras, vasilhas, tetos
nos habitam lídices, drésdens
do caos, imensas catedrais.
UM POEMA DE JONATAS ONOFRE
TUMBEIROS
I
As horas se dissolverão
depois da linha do equador.
Num desvão soturno
olhos velam a espera.
II
A carne cala o corte.
Tantas mãos afagando
navalhas, no porão,
antes da âncora e do archote.
III
Indiferente ao traçado
de paralelos e meridianos
sobre a carta. O corpo singra
e sonha o dia da cova exata.
IV
Acender-se dói.
E eles com a treva costurada
ao corpo
tendo que descoser-se
ao sol cru do porto.
ao sol cru do porto.
(Leia mais poemas de Jonatas Onofre na Zunái, http://www.revistazunai.com/poemas/jonatas_onofre.htm)
sexta-feira, 20 de abril de 2012
UM POEMA DE ROBERTA TOSTES DANIEL
AINDA
No silêncio: compasso de solidão.
Depois que a música (me) acaba,
Fazer o sem-lugar onde desvio
Linguagem e desejo.
Fremir de ondas
Entre mim e canção,
Escrever as pausas de outra:
Mais sutil, de sombra.
O que eu não toco: pertença minha
(toda escuta, posse).
Onde não sou e não tenho;
Até que ouço, simplesmente.
Presa por vontade
De escutar o que é livre:
O inalcançável movimento
Do mar -
O chamado:
Palavras instigando ondas.
Ouvir o tempo insondável
No mesmo silêncio de corredores e sótãos.
Menina, lia. Escutava Quintana
Onde todas as canções comandam a nau
Apinhada de meninos mortos.
Terrível-suave.
E virgem. O silêncio virgem.
Ocupá-lo com desejo e memória,
Violentá-lo. Se tento calar,
Bebo o tempo: nau frágil.
Um ponto afogado e luminoso da escada,
Perto do peito: o porão do prédio.
Sou eu, um barco ainda ouvindo em segredo.
Degredada em sombra.
Um buraco de luz; deixada pela canção
E pelas brechas nos tijolos.
Abri a porta para o vazio.
Veio a rebentação. Nem perto o mar.
Os vizinhos não sabem; suas casas quando acendem;
Luzes me arrebentam faróis no peito.
As cortinas me abrem. Não saí do quarto.
Tudo veio à voz, depois da voz, minha voz sibilante.
O corredor ainda grande.
Meu sem-lugar: linha do tempo.
Tento uma ausência. Tudo lembrando.
Imagens correm, três delas, ardendo.
O novo. Arrebenta o novo. Oscilações de novo.
Até mesmo no fogo. Tudo são águas.
É um estar-se preso, realmente
(como no amor).
Quem ouve o silêncio, sem fim,
Devorando quem canta,
Move o sagrado, morre em mim.
Não só leveza. Todo instante é um corte,
Toda delicadeza funda o sal na voz
E um corte sempre fala ao dentro.
Arde o vigoroso.
A carne não é rente;
Requentada no sangue, vem antes
(na alma do que não fomos).
Nos afogamos.
A palavra, aprende:
Vai fracassar.
Como a música, seu fim.
Um tempo de mortes, no sempre.
Mas não enquanto:
O canto.
No silêncio: compasso de solidão.
Depois que a música (me) acaba,
Fazer o sem-lugar onde desvio
Linguagem e desejo.
Fremir de ondas
Entre mim e canção,
Escrever as pausas de outra:
Mais sutil, de sombra.
O que eu não toco: pertença minha
(toda escuta, posse).
Onde não sou e não tenho;
Até que ouço, simplesmente.
Presa por vontade
De escutar o que é livre:
O inalcançável movimento
Do mar -
O chamado:
Palavras instigando ondas.
Ouvir o tempo insondável
No mesmo silêncio de corredores e sótãos.
Menina, lia. Escutava Quintana
Onde todas as canções comandam a nau
Apinhada de meninos mortos.
Terrível-suave.
E virgem. O silêncio virgem.
Ocupá-lo com desejo e memória,
Violentá-lo. Se tento calar,
Bebo o tempo: nau frágil.
Um ponto afogado e luminoso da escada,
Perto do peito: o porão do prédio.
Sou eu, um barco ainda ouvindo em segredo.
Degredada em sombra.
Um buraco de luz; deixada pela canção
E pelas brechas nos tijolos.
Abri a porta para o vazio.
Veio a rebentação. Nem perto o mar.
Os vizinhos não sabem; suas casas quando acendem;
Luzes me arrebentam faróis no peito.
As cortinas me abrem. Não saí do quarto.
Tudo veio à voz, depois da voz, minha voz sibilante.
O corredor ainda grande.
Meu sem-lugar: linha do tempo.
Tento uma ausência. Tudo lembrando.
Imagens correm, três delas, ardendo.
O novo. Arrebenta o novo. Oscilações de novo.
Até mesmo no fogo. Tudo são águas.
É um estar-se preso, realmente
(como no amor).
Quem ouve o silêncio, sem fim,
Devorando quem canta,
Move o sagrado, morre em mim.
Não só leveza. Todo instante é um corte,
Toda delicadeza funda o sal na voz
E um corte sempre fala ao dentro.
Arde o vigoroso.
A carne não é rente;
Requentada no sangue, vem antes
(na alma do que não fomos).
Nos afogamos.
A palavra, aprende:
Vai fracassar.
Como a música, seu fim.
Um tempo de mortes, no sempre.
Mas não enquanto:
O canto.
(Leiam mais poemas da autora na Zunái, em http://www.revistazunai.com/poemas/roberta_tostes_daniel.htm)
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