sexta-feira, 30 de março de 2012
quarta-feira, 28 de março de 2012
UM POEMA DE PAUL ÉLUARD
DIZ-SE DO AMOR
I
Nosso silêncio faz calar a tempestade
Acalmará a folhagem profunda
Carrego duas mãos abandonadas
II
O barco naufragava para sempre na bruma
Longe longe diz o ódio
Perto perto diz o amor
III
Os olhos de um ar vivo soberano inocente
Os seios leves ela ria de tudo
E o mar dispersou a areia de seu trono.
--
Diz-se da forma do amor
I
O sol duro como uma pedra
Razão compacta vinha feroz
E o espaço cruel é um muro que me encerra
II
Neste deserto que me habitava que me vestia
Ela me beijou e ao me beijar
Ela me ordenou que eu visse e escutasse.
III
Com beijos e palavras
Sua boca seguiu o caminho de seus olhos
Ali havia vivos mortos e vivos.
Tradução: Maria Elvira Braga Lopes e Gilson Maurity.
(Do livro Últimos poemas de amor, de Paul Éluard.)
I
Nosso silêncio faz calar a tempestade
Acalmará a folhagem profunda
Carrego duas mãos abandonadas
II
O barco naufragava para sempre na bruma
Longe longe diz o ódio
Perto perto diz o amor
III
Os olhos de um ar vivo soberano inocente
Os seios leves ela ria de tudo
E o mar dispersou a areia de seu trono.
--
Diz-se da forma do amor
I
O sol duro como uma pedra
Razão compacta vinha feroz
E o espaço cruel é um muro que me encerra
II
Neste deserto que me habitava que me vestia
Ela me beijou e ao me beijar
Ela me ordenou que eu visse e escutasse.
III
Com beijos e palavras
Sua boca seguiu o caminho de seus olhos
Ali havia vivos mortos e vivos.
Tradução: Maria Elvira Braga Lopes e Gilson Maurity.
(Do livro Últimos poemas de amor, de Paul Éluard.)
terça-feira, 27 de março de 2012
A ESTÉTICA DO LABIRINTO
domingo, 25 de março de 2012
PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL: 90 ANOS.

No dia 25 de março, o Partido Comunista do Brasil comemora 90 anos. É a mais antiga organização política brasileira, e se destacou em momentos importantes da vida nacional, como a campanha "O petróleo é nosso", a oposição ao Estado Novo, o apoio à luta contra o nazifascismo na Europa, a resistência ao regime militar e a participação nos governos de Lula e Dilma. Parabéns, PC do B!
NOITE FRANCESA NO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO
Poesia dos 4 Cantos é uma atividade mensal dedicada à divulgação da poesia internacional, em um formato que inclui a leitura com danças e músicas típicas de cada país, nos intervalos das leituras.
No dia 30 de março, sexta-feira, às 20h30, haverá a apresentação da Noite Francesa com os poetas Roberta Ferraz e Danilo Bueno, a cantora Laura de Souza e a pianista Dana Radu, que apresentarão canções de Duparc e Débussy baseadas em poemas de autores como Baudelaire e Mallarmé.
Entrada franca - sem necessidade de inscrição, nem retirada de ingressos
Centro Cultural São Paulo
Espaço Mário Chamie (Praça das Bibliotecas)
Rua Vergueiro, n. 1.000, próximo ao metrô
Haverá uma exposição temática de literatura francesa nos exibidores da Biblioteca Sérgio Milliet na semana do evento
sábado, 24 de março de 2012
POEMAS DE RAUL MACEDO
MUDO CONVITE
Há palavras que vestem o seu corpo
tecem fugas:
Sangue.
Carne.
Mundo.
E há palavras que de tão silenciosas
deitam nuas:
***
MORADA
Dormindo à porta do sonho
teu corpo é a janela que entra
***
TELA
Branco
inaudível
palavra
rosa
decepada
do vermelho
carne
na tinta
(trans) muda
sóis à boca
em silêncios
de moldura
Há palavras que vestem o seu corpo
tecem fugas:
Sangue.
Carne.
Mundo.
E há palavras que de tão silenciosas
deitam nuas:
***
MORADA
Dormindo à porta do sonho
teu corpo é a janela que entra
***
TELA
Branco
inaudível
palavra
rosa
decepada
do vermelho
carne
na tinta
(trans) muda
sóis à boca
em silêncios
de moldura
UM POEMA DE NUNO RAU
CINCO OU SEIS MANEIRAS DE SE PERDER NA CIDADE
você tem cinco ou seis maneiras de se perder
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviário
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
estranha cujo último verso
esconde uma
chave As outras não
interessam
você tem cinco ou seis maneiras de se perder
na cidade Numa delas
o Livro dos Espíritos é um oráculo
tatuado em braile na pele
de meninas mestiças que dançam
nuas sobre lençóis grená
um cântico sufi enquanto
o sentido arde em suas vísceras e seus pés
escrevem um livro chamado
motel nosso lar Em outra
o labirinto de memórias detona
a dessublimação feroz
que você rasura no Breviário
das Horas, estação
por estação, como se isso
criasse qualquer âncora
entre você e o mundo E ainda uma
que repete ao infinito a metamorfose
em que diante do abismo você
é um poema escrito numa língua
estranha cujo último verso
esconde uma
chave As outras não
interessam
UM POEMA DE ROBERTA TOSTES DANIEL
Tenho a arma de todos os dragões:
Labareda-boca
Dói-me a alma pela cicatriz.
(E nem um pássaro empedrado doeria tanto)
As águas
Cicatrizam-me
Histórias de abandono.
Doem-me
Também pelos cotovelos
As paixões do arvoredo.
É o bicho tristonho
Movendo as pedras
Do meu rio sem margens.
Na fumaça que trago
Recobrem-me saudades.
Respiro fundamente a superfície
De um atroz
E absorto
Nada.
Labareda-boca
Dói-me a alma pela cicatriz.
(E nem um pássaro empedrado doeria tanto)
As águas
Cicatrizam-me
Histórias de abandono.
Doem-me
Também pelos cotovelos
As paixões do arvoredo.
É o bicho tristonho
Movendo as pedras
Do meu rio sem margens.
Na fumaça que trago
Recobrem-me saudades.
Respiro fundamente a superfície
De um atroz
E absorto
Nada.
quinta-feira, 22 de março de 2012
DONA VIRGO (FINAL)
O mund’ é torvado e, de pran, cuidamos que quer fiir. Tudo treva, pó, tudo triste treva, só o solo seco, chão sem erva; estou só, sem Deus, sem dom, sem nada. Eu, Gil Eanes, em Finisterre tendo chegado, findo o canto, digo adeus, sem pranto. Vem, esposa-irmã, filha-esposa-irmã, ama de minha alma, agora é o começo do fim: noite em noite dissolvida, consumida, fado todo consumado, saga contada, fava masca-da, sabre partido, dados lançados, ciclo cumprido, caso encerrado: o fim da picada. Aqui é o fim do mundo, Fisterre, Finis Terrae. E agora, o que dizer de mim, de nós, do irado sultão otomano e sua airada odalisca, airosa corista, toda ajaezada, flores de amaranto nos cabelos, escura écharpe de zibelina no pescoço de passarinha? O que dizer do tempo passado, escuna azinhavre no mar de marfim, tempo de pletora, de carmim, de índigo gozo em leito alecrim? O que falar daquilo que foi flor, fera, faca, e hoje é fezes, menos que fezes, reles nada? O que pensar, após tanto pesar? O que dizer do que em mim fizeste, de como me feriste, e sugaste, sem lagunas de lágrimas, escumas na face, como algures o orvalho na nervura das folhas?
Os óio da cobra verde, hoje só que arreparei, se arreparasse há mais tempo, não amava a quem amei.
Mas agora, pelo sim, pelo não, tanto faz, tanto fez, que não vales um conto de réis, um vintém, valete de ouros ou sete de paus, e sei de outras cem, ali além, que valem mais. E não cortarei os pulsos, e não beberei veneno, e não poderei apertar contra as têmporas o gatilho. Aqui é o fim do suplício, James Finícius, e voltarei ao velho lar, ao início, livre do vero vício, do pubendo precipício. Sim, santa, voltarei a Sampa, de cara lavada, barba cortada, de terno e gravata, e, new yuppie third world, poderei abrir um bingo, bordel ou boteco, e gastar a grana na gruta da Greta Garbo de plantão: Sharon Stone, Demi Moore, Winona Ryder, ok, gurias, podem vir, façam fila, uma por vez, a meus braços amargos. Que tal? Poderei, ainda, talvez, virar um boêmio francês, ou bardo inglês, ou sábio chinês, usar saiote escocês, beber minha urina, fazer-me de poeta, de profeta, declarar-me o messias, virar-me do avesso, até tornar-me a sombra de mim. O que achas? Em nada mais creio: de tudo e de todos me despeço, e digo apenas isto, epitáfio do que fui: um homem sincero, de poucos amigos, que escreveu seu nome nas areias de Vigo. Sim, é o fim. Réquiem. Descanse em paz. toquem os sinos. Close, ação!
* * *
Intermezzo: E depois, ah, sim, meu amigo, e depois, o que houve em nossa história? Onde eu estava? Já perdi o fio da moela, da medula, da medusa, da meada, fio de Ariadne no labirinto do minotáurico racconto, texto bestial de autor animálico olímpico. Mas logo eu me acho, e junto os meus cacos, lascas, trapos, tragos e trecos e retomo o conto porque eu quero contar. O conto é o osso da prosa, é osso e sangue, carne e sangue, é só sangue, célere no corpo da prosa, irrigando as palavras-células, suas inervações. O conto é o canto que não se canta, que só se ouve sem ouvir, música de papel que encanta sem cantar. Sim, Dom Pelegrin, pouco fiquei em Finisterre; nem quis ver o farol, as altas dunas e a pedra de abalar. Entejado com tudo, de tudo enojado, segui para Madri, de carro, com o amigo Arnaldo Damazio, que encontrei por acaso e me ofereceu carona, para por fim ao caso. Lá chegando, comprei passagem para o Brasil, terra de palmeiras e papagaios, de tristes heróis e larápios. Antes de embarcar, porém, fui a um cibercafé, próximo ao aeroporto, tomar uma boa cerveja irlandesa, e, por um cômodo vício de recirculação, acessei a Internet e abri a minha caixa postal, onde li um e-mail da beladona, que por mim esperava em vicus sacorum — dixit a diva — por astúcia de Carlos Cazali, diabos o levem ao décimo círculo do Hades.
Arrenego de quem diz que o nosso amor se acabou, ele hoje está mais firme do que quando começou. It’s a long way.
Só vi o avião decolar após a quarta dose, meu amigo, da janela oval da taberna, e pensei em suas asas flamejantes de sol, em seu caudaloso rastro no céu, no denso cortejo das nuvens. Paguei a garçonete, deixei o jornal amassado sobre a mesa e corri para chamar um táxi. Já no centro de Madri, fiquei só o tempo preciso para alugar um carro, comprar comida e um par de brincos de prata, mimo para a mina mimada. Tomei a estrada, em seguida, e, caminho inverso, reverso da moeda, avesso do vento, pensei: aquele que ama, na face da amada vê o divino, e, em amá-la, ama o divo, Odin-Osíris-Krishna-Oxalá, e se diviniza. Deus é tudo só amor. E assim me guardei.
* * *
Gran prazer viron os olhos meus. O ponto de partida é o ponto de chegada. Voltei a Vigo, meu amigo, e lá vi Vera, a moçela alvura-densa-escura, olhos vivos de gazela, seu tênue torso em fulvo quimono sobre a tanga. Ah, moça-mel, dama das miçangas, dos muiraquitãs, mascando mariscos na praia cor de prata sob o céu nimboso. E nós olhamo-nos, olhar molhado, e éramos olhos sem pés nem bocas, depois fomos mãos e braços sem olhos, e, por fim, fomos apenas lábios. Ao rugir da procela, caminhamos pela orla, e segui a leona hermosa, de longa sedosa cabeleira, até o seu chalé perfumado a almíscar, máscara balinesa na porta, luminária de crochê no teto e largo leito acolchoado. Ali entrelaçados, as cortinas cerradas, o quimono no biombo de treliças, eu e ela fomos uma só carne, um só espírito, ao som das ondas do mar de Vigo.
quarta-feira, 21 de março de 2012
DONA VIRGO (VI)
Quand’eu un dia fui en Compostela en romaria. Vaguei por veredas e várzeas seguindo a concha vieira, e vi mantos de verde relva, rebanhos e alvoradas, ora um riacho, um lagarto, um cão, os olhos prenhes de beleza e beleza. Após muito vagar, o corpo exaurido, cheguei à terra da Via Láctea, São Tiago do Campo da Estrela; e só então chorei, Dom Pelegrin. Recordei a saga do apóstolo, decapitado por Herodes Agripa; seu corpo foi levado da Palestina para as terras da Ibéria, em barca marmórea, por Atanásio e Teodoro, e sepultado no bosque Libredón. Ali restou oculto, até que uma chuva de estrelas guiou Pelayo, o eremita, ao sacro túmulo, no século oitavo. Sim, chorei, mas logo senti estranha felicidade, feita de matéria sem tempo, impalpável; e assim fiquei, por alguns minutos, estático e mudo. Depois, fiz uma pequena refeição, e segui até a Praça do Obradoiro, onde avistei a catedral, o verbo feito carne feito pedra, o eterno em rocha temporal manifestado. Entrei pelo alto pórtico, sentei-me no banco, e era meio-dia; o botafumeiro incensava o ar com um odor de beatitude e martírio, enquanto o padre, em voz monótona e turva, recitava, em vernáculo, a missa dos peregrinos. Pensei no Codex Calixtinus, de Aimeric Picaud; numa das páginas proféticas do Apocalipse; nas manhãs de Pontevedra; nas ondas do mar de Vigo; no rosto oval da núbil núbia; numa fuga de Bach; e nas linhas finais do Fédon de Platão. Eu já sabia, em meu coraçon, que não haveria paz para minha alma, e que tudo fora em vão. Pouco depois, ao falar com padre Guedes, tive a certeza: Vera nunca estivera em Campus Stelle. Tudo reles nada, noves fora, zero. Andei pela cidade por horas, vendo sem ver o Palácio do Ayuntamento, o Hospital de los Reyes Caóticos, hoje um parador, as pequenas casas baixas, as pombas e os niños rosados de largas bochechas. Sabe o que penso, Dom Pelegrin, amigo João Airas? Tutti é burla nel mondo. Tudo é sonho. Somos cegos e loucos, tolos mancebos sem siso, sem eira nem beira. Vivemos de lucro em logro, de mágoa em malogro. Só a dor é real. Deus? Não creio. Só no demo. Que está aqui, na rua, no meio do redemunho.
En santiago, seend’ albergado en mia pousada, chegaron romeus, preguntei-os e disseron: — par Deus, muito levade-lo caminh’ errado, ca, se verdade quiserdes achar, outro caminho conven a buscar, ca non saben aqui dela mandado.
Onde está o teu paradiso, jardim edênico, Shamballa, Vrajabhumi, Vrajadhama? Onde está o teu Brahma, em que lótus de áurea flama? Som de búzios, luz de prata em prata refletida, seda rara em seda entretecida, o mais puro branco em rosa infinita; onde está a tua terra prometida? Que rios a banham? Qual Nilo, Ganges, Tigre ou Eufrates? Em que prística era primeva estão o tonto Adão e sua velha Eva, Noé, sua barca e a arca da aliança? Onde as ninfas do céu e suas danças? Tua aérea Meca diamantina está na mente de Deus: Qual Deus? E se o divino não há? Nele já não creio, pois negou-me a minha dona:
Deus nunca mi a mi nada deu e tolhe-me bõa senhor: por esto, non creo en el eu nen me tenh’ en pecador, ca me fez mia senhor perder. Catad’o que mi foi fazer, confiand’ eu no seu amor!
Tudo é névoa, nébula, néquia de nadas, nicas de nuncas, fábula, fumaça de fervura ou coisa alguma. E você, o que me diz, Dom Pelegrin? O quê? ahn? êee... ah, louco, o que ouço! O que é isso? Esse dizer entre o roxo cetim, o ouro fosco e o açafrão merino? Esse falar de fábula, tão mascavo, tão melaço de cana? Sua língua é polpa de fruta, gomo de tangerina, mar de Sargaço onde me perco. Mas eu insisto, resisto e recuso teu canto-de-engano, sereia-só-escamas! Teus sofismas? Inumeráveis; não estrelas trêmulas, mas negras listras em pele brônzea de fera. E não tens o rubor violeta nas faces, nem sulcos no rosto albino que me olha. não, não creio em tua fala, amigo João Airas, Dom Pelegrin! Ah, encantador de serpentes! Olhos-de-flama-e-gume! Mas vá em paz, irmão. Dei gratia. Salam, shalon, shante. Se Deus não me der a parda leoparda, gata galatéia de lácteos túmidos mamilos, metade da minha alma, nele não crerei. E mais não digo. Vou seguir, danado, penado, condenado, até o limite da terra, que, diziam, é plana como um prato, circundada de águas por todos os lados. Na manhã seguinte, caminhei, e caminhei por dias e dias, até Finisterre, a fronteira do abismo, para olvidar quem me olvidou (e como me olvidaste!).
En santiago, seend’ albergado en mia pousada, chegaron romeus, preguntei-os e disseron: — par Deus, muito levade-lo caminh’ errado, ca, se verdade quiserdes achar, outro caminho conven a buscar, ca non saben aqui dela mandado.
Onde está o teu paradiso, jardim edênico, Shamballa, Vrajabhumi, Vrajadhama? Onde está o teu Brahma, em que lótus de áurea flama? Som de búzios, luz de prata em prata refletida, seda rara em seda entretecida, o mais puro branco em rosa infinita; onde está a tua terra prometida? Que rios a banham? Qual Nilo, Ganges, Tigre ou Eufrates? Em que prística era primeva estão o tonto Adão e sua velha Eva, Noé, sua barca e a arca da aliança? Onde as ninfas do céu e suas danças? Tua aérea Meca diamantina está na mente de Deus: Qual Deus? E se o divino não há? Nele já não creio, pois negou-me a minha dona:
Deus nunca mi a mi nada deu e tolhe-me bõa senhor: por esto, non creo en el eu nen me tenh’ en pecador, ca me fez mia senhor perder. Catad’o que mi foi fazer, confiand’ eu no seu amor!
Tudo é névoa, nébula, néquia de nadas, nicas de nuncas, fábula, fumaça de fervura ou coisa alguma. E você, o que me diz, Dom Pelegrin? O quê? ahn? êee... ah, louco, o que ouço! O que é isso? Esse dizer entre o roxo cetim, o ouro fosco e o açafrão merino? Esse falar de fábula, tão mascavo, tão melaço de cana? Sua língua é polpa de fruta, gomo de tangerina, mar de Sargaço onde me perco. Mas eu insisto, resisto e recuso teu canto-de-engano, sereia-só-escamas! Teus sofismas? Inumeráveis; não estrelas trêmulas, mas negras listras em pele brônzea de fera. E não tens o rubor violeta nas faces, nem sulcos no rosto albino que me olha. não, não creio em tua fala, amigo João Airas, Dom Pelegrin! Ah, encantador de serpentes! Olhos-de-flama-e-gume! Mas vá em paz, irmão. Dei gratia. Salam, shalon, shante. Se Deus não me der a parda leoparda, gata galatéia de lácteos túmidos mamilos, metade da minha alma, nele não crerei. E mais não digo. Vou seguir, danado, penado, condenado, até o limite da terra, que, diziam, é plana como um prato, circundada de águas por todos os lados. Na manhã seguinte, caminhei, e caminhei por dias e dias, até Finisterre, a fronteira do abismo, para olvidar quem me olvidou (e como me olvidaste!).
terça-feira, 20 de março de 2012
DONA VIRGO (V)
Céu pavão-alvura-esperma. Casas baixas e antigas ao longo do caminho. Moças galegas de xales e lenços sobre as madeixas, manadas de bois, pedras, arbustos, um pássaro azul-safira, odor de estrume, não toca um sino. Aqui é Pontevedra, meu amigo, lugar de maravilhas várias, valha-me a virgem, milagres ou miragens, tão belas e raras como a pena do faisão, o reflexo da lua em espátula de prata ou máscara chinesa em verde jade esculpida. Após léguas, a língua já seca, o corpo à míngua, cheguei à Vila Vasco, mio caro fratello, onde vi um velho cego tocando mudo violino, seus olhos brancos, em pele negra rugosa, plenos de solfejos e melancolia; crianças viçosas de rubor violeta e longos cachos corriam atrás de um porco em latão coroado; e um rapaz sandeu, quase nu, com tonel-capacete e vassoura-alabarda, terçava armas com sua sombra. Ninguém dizia meia palavra, e eu, mudo fingido, não disse patavim. Tendo encontrado — Cristo louvado! — um bom albergue, por puro acaso, fiz menção, com sinais, do que queria: e recebi, para o almoço, um prato de feijões e legumes com forte pimenta, grossa fatia de pão e vinho. depois, deitei-me na dura cama de ferro e li mais alguns trechos da Imitação de Cristo, até a hora de dormir:
"O verdadeiro sinal de virtude sólida e de grande merecimento é combater os movimentos desordenados da alma, e desprezar as sugestões do demônio. Não te perturbem as imaginações que te ocorrem de qualquer espécie que sejam. "
No dia seguinte, fui à praça, e lá vi mulheres que bailavam como loucas no gramado; um palhaço vestido de frade com peruca de mulher que virava cambalhotas; e um pipoqueiro ruivo que imitava um macaco. Nos degraus da igrejinha, velhas beatas surdas e mudas recitavam sem voz suas preces, e num banco de pedra da praça um senhor inglês de terno xadrez, bigodes pequinês e cachimbo sherloquês lia o jornal em branco com o seu pince-nez. E eu pensei: sim, pirei, estou maluco, doidão, gira, dedéu, insano. o que é isso tudo? Que diabos!? Nisso, um fox terrier mordeu a batata da perna do velho cego, que o espancou com o violino; Sherlock Holmes fez strep-tease, ficou nu para as beatas, o palhaço vestido de frade foi dançar com as moças e o pipoqueiro de repente ficou com os olhos serenos de quem alcançou a iluminação. Levantei-me para voltar ao albergue quando a niña judia de Tétuan passou por mim, numa metálica Yamaha verde-escura, e fez sinais para que eu sentasse na garupa. Fiz isso, sem saber por quê, e ela voou na estrada, como o arcanjo da trombeta do juízo final.
Ah, maga magana, mana marrana, onde me levas, madre magriça, mina macanja, onde me levas, mirrada morgana? Vais a Belém, a Jerusalém? Talvez a Jafa, Haifa, Arava, Mizpe Ramon? Baruj ata Adonai, eloheinu melech aulam, acher quidechanu vemits votab, benatanlam Torat hemed, baruj ata Adonai, Adonai ehad. Ah, meraviglia! Miraculo! Estamos chegando, enfim, signorina? Diga para mim, moça-de-jasmim! Seus longos cabelos, como revoam ao vento! Baruj elohenu, baruj adonenu, baruj malkenu, baruj moshienu, atau elohenu, atau adonenu, atau malkenu, atau moshienu, atau sheiktidu, abotenu lefaneha, ektoret azamim. Ah, morena macabéia, meninha da Judéia, herética hebréia, levas-me ao Jordão? Ou ainda, quem sabe, ao rei Salomão? Salame, salaminho, salmão, Josafá, Josafá, e a rainha de Sabá! há, há, há! Seu cavalo fogo-fátuo, faceira-fogosa-feiticeira, vai ao reino de Judá? Shema Israel, Adonai eloheinu, Adonai ehad. Então, mio caro fratello, ela parou sua macchina malva móbil, bem em frente a uma velha capela. Apeei, o sol a pino, e entrei no lugar santo, na pedra viva de São Roque, Kyrie eleison, Chryste eleison, Kyrie eleison. Mal pude ver suas imagens e vitrais, amigo romeiro, e digo de boa fé: ao fundo, sobre o altar, per nostro senhor, vi a cabeça do Salvador, lacerada de espinhos, inclinar-se à direita. Pater noster qui est in coelis, santifice-tur nomem tuum. Caminhei nessa direção, o coração tumultuado, os membros trêmulos, e encontrei, numa meseta de mogno, um arcaico Macintosh, que irradiava rubra luciferina auréola. sentei-me em frente ao mefistofélico bruxedo, inicializei, e, para meu espanto, surgiu a seguinte mensagem, na tela de cristal líquido:
o G r Q n D z
Estava em sonho? Bêbado sorumbático, sonâmbulo lunático? Num átimo, sem pensar, apenas abri o envelope, prenda cabalística da ninã de Tétuan e retirei o talismânico CD; coloquei-o no drive e comecei a limpar a winchester do vírus. And has thou slain the jabberwock! Come to my arms, my beamish boy! O frabjous day! Callooh! callay!
— Ah, júbilo de júbilos, alegria-oh-aleluia, está morto o Ogre-que-Não-Diz!
— Foi você, meu rapaz?
— O quê?
— Ah, não! ele?
— É, sim, ah, esse tem culhão!
— Parabéns, querido! Vá com Deus. Passe bem.
— Esse é o herói? Duvido.
— Não foi, não.
— Esse João-ninguém, brasileño, fracote, Zé-bosta, borra-botas?
— Não foi, não!
— Foi, eu vi!
— Fui eu, eu, eu, que matei o Ogre-que-Não Diz!, disse um garoto imberbe.
— Meu filho, ah, filho meu!
E todos falavam, gesticulavam, cantavam e rezavam, e muitos agradeciam a São Roque e a São Tiago. Quando pude ver-me livre da turba, de seus dentes amarelos, de seus olhos baços e bocas tortas, de suas toucas, lenços e cachimbos, de seus grossos dedos que tocavam em minhas roupas, como quem toca um grifo, elfo, silfo ou basilisco, saí correndo, o mais célere que pude. foi então que aconteceu uma aventura de maravilha, mas isso eu não vou contar. Digo apenas que parti de Pontevedra, e voltei a pôr o pé na estrada, rumo a Compostela.
domingo, 18 de março de 2012
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