quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

QUARTA LUA

 









Une fleur est écrite au bout de chaque doigt.

Tristan Tzara

 

um corpo sonha com outro corpo

uma flor escrita

em cada dedo

da mulher amada

e desenhos espiralados

em sua boca

ela disse:

“borboletas são

flores com asas”

na ilha do leão

– lua crescente

sobre algum mar

luzeiro branco

nas águas

de esmeralda

corpos quase nus

“com o que sonham as flores?”

tudo tão pele

tão areia

tudo tão seios

tão cabelos

tudo tão olhar

em meu olhar

miúra ou escaravelho

tudo tão longe

e tão perto,

vento no vento

pai sol

mãe lua

este mundo

é um lugar insensato

onde os pés

famintos

a boca

faminta

as coxas

famintas

este mundo

é um lugar insensato

vejo a lua

em teus pés

e nos devoramos

cães correm

na areia da praia

balseiros, ao longe

rêmoras

tentilhões

èéru ìyá!

auá aabô aiô iemanjá

auá abô aiô

 

Claudio Daniel, 2021

 

 

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

TERCEIRA LUA

 









Corvos nutridos da poeira do mundo

Cecília Meireles

 

Este caminho seria uma possibilidade se

fosse algo simples

como um canto

corvo branco

corvo branco

corvo branco

sim, você diz:

Este caminho seria uma possibilidade ou

talvez nem tanto

você quer dizer vida ou quer dizer morte

enquanto a aranha tece a sua teia

enquanto a aranha

enquanto a aranha

enquanto a aranha

mudez ou nudez e ainda assim

perna esquerda perna direita

torsos distorcidos

na deformação geral

de tudo

cetáceo vermelho cetáceo

polvo de luz ao contrário

lua cheia desestrelas

rutilando rutilando rutilando

tua língua bifurcada sussurra em aramaico

e talvez o caminho seja para outro lado

cômoro daquilo que não morre

par de seios

da mulher estranha que sorri

para você

par de seios

da mulher conhecida que olha

para você

em algum lugar em algum lugar

não importa

realidade é tudo aquilo que escrevo

e num abrir-

fechar de olhos

se transforma

então o caminho a aranha o corvo

então a lua polvo cetáceo cetáceo

pernas direita esquerda par de seios

e tudo morre um pouco

e tudo nasce um pouco 

nas palavras palavras palavras que escrevo

 

Claudio Daniel, 2021

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

SEGUNDA LUA

 








It was the begginning of time

Laura Riding

 

O que dizer sobre o esqueleto da noite?

Dizer o enquanto

da tíbia, fíbula,

fêmur, no quase

sempre da

escápula

a sombra do crânio te assombra

te esmurra com o cutelo

das mãos

esmigalha teu sexo morto como zumbi

por isso o úmero

o esterno o frontal

de tua mente perturbada

úmida iriando occipitais

na última luz de pedrarias persas

mas você tem medo

do canto, enquanto,

entretanto

da palavra óssea que te soca

no final turvo

de uma rua

escura

você morre de medo

de um homem-réptil

que é você

sua face escamosa

seu peito escamoso

suas mãos seus pés

escamosos

você monstro escamoso

tem medo da gigante

iguana verde

do pesadelo

você tem medo de sua cabeça

nervurada

de seus pés ao contrário

você sonha e tem medo

da sanha

da criança medonha

que te assopra

no ouvido

palavras sujas

teu medo de hoje

de ontem

dura-máter de anteontem

no entressonho

dos entornos

pode ser a mão morta

de tua mãe atrás da porta

pode ser a lua nova

que zomba de ti

em tua cova

talvez o medo seja

uma mulher louca e preta

com pentelhos pretos

na buceta

mas você não sabe

o que dizer sobre o esqueleto da noite

rótula, sacro, clavícula

em lugarejos

de quando

se você estiver indo

eu estarei voltando

se você estiver sorrindo

eu estarei morrendo

e a lua nova flor de tântalo

apenas te cospe

após a longa noite estrelada

na dura e solene

madrugada

em que você se levanta

da cama

para viver mais um dia

do mais profundo horror.

 

Claudio Daniel, 2021

 

 

PRIMEIRA LUA

  


 






Je vous écris du bout du monde.

Michaux

 

Tudo o que existe vibra, canta;

lua, noite-lua,

flores-centelhas

da lua,

os mil dedos da lua;

Tudo o que existe vibra, canta;

sariema, muçum,

flores negras

da lua;

jimbu, urutau,

flores brancas

da lua.

Tudo o que existe vibra, canta;

teus lábios

vermelhos,

tua vulva

vermelha,

flores vermelhas

da lua.

Tudo o que existe vibra, canta;

só não me esqueço

da história-tumba-

pesadelo;

só não me esqueço

do acúmulo branco

de minúsculos ossos

desse horror-humanidade.

Tudo o que tenho

é a lua-lua,

teus lábios-luz-

de-lua;

sonoros mares

vermelhos

anunciam teu nome

que eu amo,

flores brancas

flores negras

da palavra

verdadeira.

Juntos fazemos

um pacto:

o de navegarmos

sempre juntos,

até depois do pesadelo.

 

Claudio Daniel, 2021

 

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

UM ORIKI DE JORGE DE LIMA

 


















XANGÔ


Num sujo mocambo dos «Quatro Recantos»,
quimbundos, cafuzos, cabindas, mazombos
mandingam xangô.
Oxum! Oxalá. Ô! Ê!
Dois feios calungas - oxalá e taió rodeados de contas no centro o Oxum!
Oxum! Oxalá! Ô! Ê!
Caboclos, mulatos, negrinhas membrudas
Aos tombos os quadris e as mamas bojudas
Retumbam o tantã...
Oxum! Oxalá! Ô! Ê!
Sinhô e Sinhá num méis ou dois méis se
Há de casa
Mano e mana! Credo manco!
No centro o Oxum!
Dois feios bonecos na rede bem bamba!
Ioiô e Iaiá!
Minhas almas
Santas benditas
Aquelas são
Do mesmo Senhor;
Todas duas
Todas três
odas seis
E todas nove!
Santo Onofre
São Gurdim
São Pagão
Anjo Custódio
Moserrate
Amén
Oxum!
No sujo mocambo a dança batuca.
Recendo o fartum dos sangues cabindas.
Batendo com os pés, tremendo com as ancas,
Volteia sem roupas
Com o santo Oxum-Nila
A preta mais nova.
Oxum! Ô! Ê!
Redobram o tantã, incensam maconha!
Oxalá sorri...
E a preta mais nova com as pernas tremendo,
No crânio um zunzum,
No ventre um chamego
De cabra no cio... Ê! Ê!
Redobram o tantã.
Ogum taiá-iê!
Me pega ioiô!
O santo Ogum-Chila redobra o feitiço.
Oxalá sorri.
Os olhos da preta parecem dois rombos
Na pele retinta.
Mas chega o momento: Xangô sai do nicho
De contas redondas,
Se encarna no corpo dos negros fetiches...
A negra mais nova se esponja no chão.
Acode o mocambo,
Xangô tinha entrado no ventre bojudo,
Subira pro crânio da negra mais nova.
Um canto da sala,
Oxalá sorri.
Meu São Mangangá
Caculo
Pitomba
Gambá-marundu
Gurdim
Santo Onofre
Custódio
Ogum.
Minhas almas
Santas benditas
Aquelas são
Do mesmo Senhor
Todas duas
Todas três
Todas nove
O mal seja nela
São Marcos, São Manços
com o signo de Salomão
com Ogum-Chila na mão
com três cruzes no surrão
São Cosme! São Damião!
Credo
Oxum-Nila
Amém. 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

POEMA PARA CARLOS MARIGHELLA

 












tempo sombrio

de cadáveres

escritos na pele

tempo de olhos

sem línguas

nos mortos em mim

mar de amarume

sem luzeiros

cobra verde

que morde

o próprio rabo

tempo de rasuras

borrões

e acúmulo

de resíduos;

apesar do luto,

Carlos, nós lutamos

não há tempo

para sentir medo;

sob a nebulosa

cabeça de cavalo

fazemos um trato,

camarada

comandante:

até o último

sopro

até a última

farripa de cabelo

colocaremos

o regime

em alerta

de segurança máxima:

estamos cercados

pelo inimigo   

–  disse outro Carlos –  

não vamos deixá-lo

escapar!

 

Claudio Daniel,  2021