domingo, 12 de agosto de 2012
POESIA PURA
Armando Freitas Filho
Pura porque suja, porque ela é
extraída do maciço da linguagem só com a lapidação "de serviço", ou
melhor: o esmero é esmerilhado. A impressão que se tem é que existe um
constante esforço, que não desanima, do caos relativo do pensamento para o
cosmo possível e impossível da escrita.
Outra coisa que chama a atenção é
o universo vocabular que esse esforço agencia: estranho, exigente, mirabolante,
disposto e aberto a toda ousadia. Por isso mesmo, os poemas não se entregam na
primeira leitura. Entre o autor e o leitor, para um bom entendimento do que lhe
é oferecido, é imprescindível que se crie um pacto, que não é pacífico, uma
espécie de luta ou de jogo que não almeja a vitória; seu resultado melhor é o
empate, a empatia, o compromisso assumido, cara a cara.
Também é digno de nota que, coisa
rara, nos livros de Claudio Daniel – um por todos e todos por um – como em Yumê, que se reedita agora, não
há desníveis, há progresso paulatino. Não são somente poemas, um punhado
deles, mas uma poética que vai se formando, e que os vai reunindo
- todos - num mesmo cabo de força, sem deixar que nenhum escape, caia. Não
é, apenas, vocação, é um dom que não deixa a mão afrouxar.
Mais: instinto e razão, reflexo e
reflexão são como motores concomitantes; um não precede o outro, um é o
outro se alimentando, simultaneamente. Claro que podemos preferir ou escolher
para este momento de leitura, alguns dos poemas; mas essa escolha não é definitiva,
e quando os relemos pode haver uma troca de elenco e não seremos levianos ao
agir assim, pois a luz mudou, o momento é diverso. As indecisões relatadas
acompanham o leitor atento às nuanças, de capa a capa: como não ser injusto?
Como ser justo? Compreende-se, depois, que a boa poesia não pede justiça. O que essa poesia pede é necessidade, ela se
faz necessária assim: in totum, já
que nela não há desperdício, nem volubilidade. Ela prefere abrir a fome e
não saciá-la. Talvez por isso, cala fundo. É isto: ela cala fundo.
(Texto de "orelha" da segunda edição de Yumê, que saiu em 2007 pela Annablumme / Dix Editorial.)
(Texto de "orelha" da segunda edição de Yumê, que saiu em 2007 pela Annablumme / Dix Editorial.)
sábado, 11 de agosto de 2012
YUMÊ
Meu segundo livro de poemas, Yumê, foi
publicado em 1999, pela editora Ciência do Acidente (uma segunda edição saiu em
2007, pela Annablume). Leiam abaixo o prefácio do livro, escrito pelo poeta
cubano José Kozer.
"Um conhecido dístico, aliás poema (In a
station of the metro) de Pound (“The apparition of these faces in the
crowd: Petals on a wet, black bough.”) reflete de modo especular o belo poema O
um igual a zero, de Claudio Daniel. Arnaut Daniel, o trovador provençal, o trobar
clus amado por Pound, amado por Claudio Daniel.
Um resultado é este formoso livro (Yumê),
onde Oriente e Ocidente, de modo especular, se sonham, mariposa dentro de
mariposa do sonho dentro do famoso sonho deste famoso desconhecido que foi
Chuang-Tzu.
Chuang-Tzu, Claudio Daniel, Ezra Pound: nosso
poeta brasileiro encerrado como por parêntesis entre duas nobres vozes, dois
nobres feitos, que, mais do que clausura, servem de feitura (simbólica) (real)
a esta obra. Oriente em
Claudio Daniel; Ocidente em Claudio Daniel; o
Concretismo, o Neobarroco, a pós-modernidade, a fulgurante jóia límpida de seus
poemas sem ornatos; a singeleza da linguagem, que é a complexidade maior da
linguagem, e o neobarroquismo expressando desde sua estrita abundância a
ulterior singeleza do Oriente, do Ocidente: harmonizados, sintetizados, em obra
aparentemente casta e no entanto sensual, luxuriosa; obra aparentemente límpida
mas cheia de nuvens, nebulosas, constelações ao ignorado, do (desde o)
ignorado; espelhos do caos, esse grande espelhismo.
Um palimpsesto, sem dúvida um palimpsesto:
raspamos com o buril do amanuense e debaixo de cada placa, de cada lâmina
encontramos outra versão, outra visão do mesmo assédio (especular) que implica
uma mesma busca de beleza, que leva (todavia, é válida na boa poesia) ao
ulterior: debaixo de todas as capas superpostas de todos os textos de Yumê
está a reverberante abundância da vida, suas cores, claridades, sua poeira que
como um ponto ressumbra e resume a presença viva, bíblica, da mulher de Lot (Epitáfio
para a mulher de Lot). Água que escorre, Cathay ou Cipango que são
Brasilis, braços abarcando um orbe (o de Claudio Daniel) que são todos os orbes
do Orbe.
Yumê é um camafeu enganoso, que engana o
leitor preguiçoso. Este acreditará de pés juntos ter lido um livro despojado,
ínfimo, magro. O camafeu é um contorno, uma jóia mínima por certo; porém, no
caso de Claudio Daniel, este encerra uma ordenada desordem, uma fragrância
inodora, uma multitudinária voz de vozes que, tigre ao final, se prepara para o
grande salto que desbaratará, por sua força, por sua vital abundância, os
contornos do camafeu: migalhas, invisíveis ao leitor, que se reconformam e
fazem de seus fragmentos um novo camafeu, um camafeu chamado Yumê:
objeto vivo sem suturas visíveis, contorno dentro do qual o Nada se apresta uma
vez mais para o salto (assalto), pela via poética, da Totalidade."
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
A SOMBRA DO LEOPARDO
Caros, publiquei em 2001 meu
terceiro livro de poemas, A sombra do
leopardo (1a. edição: Rio de Janeiro: Azougue Editorial; 2a. edição: Rio de
Janeiro, Multifoco, 2010), que ganhou o prêmio Redescoberta da Literatura
Brasileira, oferecido pela revista CULT (o júri era composto por Nelson Ascher,
Waly Salomão e Claudio Willer). Segue abaixo o prefácio do livro, escrito pelo
poeta e crítico literário uruguaio Eduardo Milán.
“Claudio Daniel pertence a uma
linha criativa da poesia brasileira que parte, aproximadamente, de João Cabral
de Melo Neto, atravessa a vanguarda (a poesia concreta, especialmente algumas
buscas de Haroldo de Campos em sua fase poética mais condensada), e toca experiências
de poetas que derivam, numa primeira fase, da experiência concreta paulista.
Estas não são, no caso de Daniel, relações de dependência, mas um sistema
mínimo de referências poéticas que constituem a linhagem necessária para que se
possa falar de um poeta e situá-lo em sua tradição.
Constante uso da elipse,
definição das imagens com alta precisão, tendência à objetivização do verso
como condição de sua existência. O verso é breve, cortado segundo uma
conveniência rítmica, mais do que semântica, porém, devolve todo o espectro do
sentido, de acordo com uma lógica de surpresa, dada pelo mesmo corte no
aparecer do verso seguinte, abaixo. Alguns motivos que se repetem: a palavra,
naturalmente, o silêncio, a cultura in extensu.
O mundo dado por partes (metonímia,
ainda que, também, e surpreendentemente, metáfora, metáfora crítica surgida às
vezes das relações latentes que emergem na cadeia significante como
conseqüência da organização verbal). Ou, às vezes, a metáfora como dispositivo
gerador do poema, do qual descenderão outras possíveis relações verbais. Um
acréscimo de Claudio Daniel à poesia urbana e pós-concreta brasileira: o apelo
a um universo mítico, dado não por paródia de discurso fundador, senão por
referências — o mito como possibilidade poética que se oferece, de forma
parcelada, no mundo.
Os poemas intentam alinhavar uma
narração, na medida do possível poético contar uma história por imagens,
alinhavar por imagens um tecido que se cria por impressões da existência.
Também está presente a figura totêmica da poesia pós-mallarmeana, a página,
colocada aí como um suporte quase mítico. A brancura da página está (porém, nem
sempre se deixa ver) como referência atualizante, como homenagem —, para fazer
constar que Claudio Daniel também esteve aí. Diria que em Claudio Daniel o
motivo poético central, em sua relação com a poesia brasileira, é reconstituir
a estrutura verbal, encarnar o osso verbal que, em seu polimento maior, havia
feito aparecer a vertente Cabral/poesia concreta. Porém, não se trata de um
retorno, senão de uma contribuição a um ordenamento da mesma ação.
Biografias de culturas,
biografias de certos personagens culturais (Dante, Nagarjuna etc.) são
recortes, impressões de leituras, intuições líricas: a cultura como documento
interior. São projeções do falante, fragmentos civilizatórios. Nenhuma cultura
cabe em uma voz (a prova de Pound dos Cantares). São impressões,
imagens. Mas isto parece um reconhecimento, por parte de Claudio Daniel, de que
não há possibilidade de poesia na atualidade que não tenha uma relação dinâmica
com a cultura, dinâmica e evidente. Claudio Daniel é um lírico cultural.
Ao fim de A sombra do leopardo,
os poemas caem na tematização do poema — o poema como tema — e na tematização
dos arredores do poema, seu âmbito, que, aqui, é existência. Aparece, então, a
miséria do poema, sem a qual, pareceria, nenhuma aventura poética autêntica
pode ser considerada na atualidade.”
Coyoacán, 2000
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
FIGURAS METÁLICAS
A convite de Haroldo de Campos, publiquei uma antologia de minha obra poética para a coleção Signos, que o poeta dirigia para a Editora Perspectiva: Figuras Poéticas -- Travessia Poética (1983-2003), que contou com texto de apresentação do crítico literário João Alexandre Barbosa, que reproduzo abaixo:
"Escrevendo sobre Mallarmé, Valéry
levanta uma questão de interesse para qualquer aproximação à criação poética: a
relação entre esta criação e as origens mais remotas das funções da linguagem
humana.
É que a poesia, diz ele,
vincula-se, sem nenhuma dúvida, a algum estado dos homens anterior à escritura
e à crítica. Encontro, pois, um homem muito antigo em todo
poeta verdadeiro: ele bebe ainda nas fontes da linguagem; ele inventa
"versos", um pouco como os primitivos melhor dotados deviam criar
"palavras", ou ancestrais de palavras.
Em todo o poema bem realizado, o
leitor há de sentir a palavra como se ela surgisse para uma nomeação
originária, transformando o que se nomeia em algo novo por força da própria
nomeação, conferindo ao poeta características de um oficiante de ritual em que
dominassem os poderes da memória (pela recuperação das fontes da linguagem) e
da magia - pela criação de uma nova realidade que é a poética.
Daí a importância das materialidades
sonora e visual que, somente depois de organizadas num estrutura passada pelos
rigores da sintaxe e da semântica, impõem um outro tipo de racionalidade que é
o poema. É a qualidade encantatória da poesia que faz pensar no poeta como
herdeiro daqueles primeiros homens que inventavam palavras para a nomeação
espantada do mundo.
Creio que a poética desta
antologia de Claudio Daniel, vinte anos de uma travessia, tem como dominante
aquela qualidade. O que significa dizer que o leitor, lendo este livro, é
convidado a se deixar envolver por tudo o que é reverberação de som e imagem,
abdicando da objetividade e mergulhando no tumulto das sensações gravadas na
pele das palavras.
Em todos os poemas, extraídos de
três livros publicados entre 1992 e 2001 (Sutra, Yumê e A
sombra do Leopardo) e do inédito Pequenas aniquilações, passa uma
inquietação que, sendo o registro daquele jogo de encantamento referido, mantém
os textos nos tensos limites do indizível.
Por onde são convocados todos os
valores sensíveis da linguagem mas, atenção! sob o controle estrito de uma
consciência acesa pelos valores da história, seja a circunstancial, seja a da
própria linguagem da poesia.
Daí ser possível, sobretudo nos
primeiros textos, realizar os entrecruzamentos de culturas pela utilização
literal de trechos de obras orientais.
É, mais uma vez, a lição que se
pode extrair do trabalho verdadeiro com a criação: o encanto da poesia, como
queria Valéry ao chamar de Charmes o seu grande livro de 1922, e como
está neste livro, é sempre dependente do trabalho com que se enfrenta o próprio
enigma da invenção."
ESCRITO EM OSSO
Escrito em Osso, antologia poética pessoal que publiquei em Portugal em 2009, pela editora Cosmorama, reunindo poemas de Sutra, Yumê, A sombra do leopardo e o inédito Dodecaedro (que escrevi a quatro mãos com Simone Homem de Mello). O livro tem apresentação do poeta e ensaísta português Ernesto de Melo e Castro, um dos expoentes do movimento da PO-EX (Poesia Experimental), ao lado de Ana Hatherly, nos anos 60.
O GAROTO DE RECADOS
O garoto de
recados é uma figura folclórica dos meios literários. Trata-se de aspirante a
poeta, com ou sem livro publicado (o que não importa, já que ninguém o lê), ausente
em todas as antologias de poesia contemporânea, que nunca recebeu atenção da crítica
especializada ou de seus pares consagrados. Este fracasso, devido apenas à
insuficiência imaginativa de sua obra – para não falar em falta de qualidade, o
que soaria agressivo – torna tal tipo profundamente ressentido e disposto à
vingança contra os autores “famosos” que, a seu ver, são responsáveis por sua
desgraça. O garoto de recados só consegue sair, temporariamente, do anonimato,
e ver o seu nome circulando na praça (ainda que negativamente) quando encontra
um senhor a quem servir – por exemplo, um juiz tão louco e ressentido quanto
ele. O garoto recebe então tarefas: falar mal de X, Y, ou Z, em artigos mal
escritos, grosseiros, sem argumentação e com um sarcasmo que mal esconde a sua
inveja. Ele sente um prazer quase erótico ao ver o seu nominho estampado no tabloide
virtual publicado pelo juiz, considera-se importante, a ponto de “julgar” e “condenar”
aqueles que antes o "condenaram" ao justo anonimato. Acusa, difama, calunia, faz
o trabalho sujo pelo juiz, que pode assim eximir-se da tarefa ostensivamente
antiética e posar de neutro editor que garante a “liberdade de opinião”, no
melhor estilo PIG. O garoto de recados acredita que, em troca de seus préstimos
de mau-caráter, receberá o tão esperado lugar ao sol, sendo então lido e
elogiado como o grande (e injustiçado) poeta que julga ser. O que não lhe
ocorre é que a sua “obra poética”, sendo Lodo, já o condenou ao definitivo e
irremediável esquecimento..
OVI-SUNGO, TREZE POETAS DE ANGOLA
Ovi-Sungo, Treze poetas de Angola, que publiquei em 2007 pela Lumme
Editor, seleção que inclui poetas como Abreu Paxe, José Luís Mendonça.
David Mestre, João Maimona, Arlindo Barbeitos, Conceição Cristóvão e outros nomes significativos da poesia
angolana. Foi publicada, há algum tempo, uma bela resenha do livro no Suplemento Literário de Minas Gerais, de autoria de Ricardo Corona.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
NA VIRADA DO SÉCULO, POESIA DE INVENÇÃO NO BRASIL
Caros, publiquei em 2002 (há exatos dez anos) a antologia Na Virada do
Século: Poesia de Invenção no Brasil, que organizei em parceria com
Frederico Barbosa e foi publicada pela editora Landy. O livro reunia 46
poetas, especialmente os que começaram a escrever e publicar na
década de 1990, desde nomes que já eram conhecidos na época, como
Claudia Roquette-Pinto, Carlito Azevedo, Ricardo Aleixo, Rodrigo Garcia Lopes, até aurores então inéditos em livro, mas que já apresentavam uma poética madura, como Amador Ribeiro Neto, André Dick e Micheliny Verunschk. Na Virada saiu numa época em que havia poucas antologias ou estudos
sobre a chamada Geração 90 e ainda hoje é considerada uma obra de
referência, sendo incluída na bibliografia de pesquisas universitárias
sobre poesia contemporânea, além de ser tema de dissertações de
mestrado.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
... ENQUANTO ISSO, NO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO...
Caros, a Curadoria de Literatura e
Poesia do Centro Cultural São Paulo foi criada em dezembro de 2010, com a
proposta de realizar atividades de divulgação de autores brasileiros e do
cenário internacional, pautando-se pelos critérios de qualidade estética,
respeito ao pluralismo de estilos e tendências, democratização do espaço
público e do acesso à produção cultural. Neste sentido, a Curadoria de
Literatura e Poesia tem realizado, periodicamente, recitais, debates,
palestras, performances, festivais de poesia, além da impressão e distribuição
gratuita ao público das plaquetes da coleção Poesia Viva, dedicada à divulgação
de autores contemporâneos, novos ou consagrados, como Armando Freitas Filho,
Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Rodrigo Garcia Lopes, entre outros. Cada plaquete
tem a tiragem de mil exemplares e é distribuída na Central de Informações e nos
guichês da biblioteca do CCSP. De março de 2011 a julho de 2012, realizamos 51
eventos, assistidos por um público de 3.412 pessoas. Nossa programação foi
divulgada em veículos de imprensa como os guias semanais dos jornais Folha de
S. Paulo, Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, além de
programas de rádio, sites e blogues especializados em literatura. Entre os
poetas, escritores e palestrantes que se apresentaram no Centro Cultural nesse
período (2011-2012) destacam-se autores conceituados como Claudio Willer,
Arnaldo Antunes, Glauco Mattoso, Nelson de Oliveira, Frederico Barbosa, Luiz
Ruffato, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Viviana Bosi, Aurora Bernardini, entre
outros. Realizamos eventos internacionais, como o festival 2011 Poetas por Km2,
que aconteceu em setembro de 2011, atividade organizada em parceria com o
Centro Cultural da Espanha, que contou com a presença de autores da Espanha,
Brasil, Peru e México, e em agosto de 2012 realizaremos o I Simpósio de Ação
Poética, que reunirá 44 poetas, críticos literários, músicos e editores, que se
apresentarão em mesas de debates, recitais e apresentações artísticas, no
Centro Cultural São Paulo e na Casa das Rosas, nossa parceira neste evento. Destacamos
também o evento Poesia dos 4 Cantos: Noite Indiana, recital de poesia com
música e dança tradicionais, realizado em 2011, que contou com um público de
368 pessoas, na Sala Adoniran Barbosa, o Sarau Astronômico, realizado no mesmo
ano, com temática japonesa, que atraiu um público de 200 pessoas, e o Sarau do
Rap, realizado em 2012, na Praça Mário Chamie (Bibliotecas), assistido por 170
pessoas. No campo da poesia experimental, a mostra Videopoéticas (Paradas em
Movimento), organizada por Elson Fróes, merece destaque pela qualidade,
originalidade e inovação dos trabalhos apresentados, elaborados por nomes
conhecidos nesse campo de pesquisa estética, como Arnaldo Antunes, Lenora de
Barros e Lúcio Agra, e autores jovens que vêm se destacando nos últimos anos,
como Marcelo Sahea e Márcio-André. Em
agosto, um novo programa da curadoria estará disponível em nossa Rádio Web: o Poesia pra tocar no rádio, série mensal
de entrevistas com poetas que são parceiros de músicos ou músicos que são
parceiros de poetas. As primeiras entrevistas, realizadas por Natália Barros,
foram com Alice Ruiz, Péricles Cavalcante, Rodrigo Garcia Lopes e Ademir
Assunção, e logo serão entrevistados Arnaldo Antunes, Ricardo Corona e Ricardo
Aleixo, aguardem!
P.S.: em tempos de capitalismo selvagem, vale a pena lembrar que o Centro Cultural São Paulo é um órgão público, vinculado à Secretaria Municipal da Cultura, e que todas as atividades da Curadoria de Literatura são gratuitas.
P.S.: em tempos de capitalismo selvagem, vale a pena lembrar que o Centro Cultural São Paulo é um órgão público, vinculado à Secretaria Municipal da Cultura, e que todas as atividades da Curadoria de Literatura são gratuitas.
domingo, 5 de agosto de 2012
POEMAS DE RICARDO CORONA
E NÃO EXPLICA
Che fai tu, in ciel? Dimmi, che fai,
Silenziosa luna?
—
Leopardi
Praias
—
eu
as invento
à
luz da lua alta
luz
borrando zênites
A
paisagem, menos
narcísica
O
vento
as
nuvens
—
leveza —
abrindo
sentidos vitais
Você
nem percebe
râmulos
aquáticos nascem corais
À
noite,
a
lua chama para si
toda
possibilidade de luz
—
depois, deita-se
E
não explica
MESES ÍMPARES DE UM ANO PAR
meses
ímpares
de
um ano par
que
passou
dói
lembrar
daqueles
dias
em
seguida
trinta
e um dias
cravados
no
ímpar
na
overdose dos doze
esses
são
os
meses não
meses
contados
no
osso do soco
de
um ano par
que
passou
COPYRIGHT
BY
sou a flor
tal
e qual
você
não quer nem ler
nos
poemas de blake
baudelaire
sou
a flor do mal
a
flor doente
sou
quem você não quer
nem
vivo nem morto
na
frente
sou
quem você já viu
na
televisão
sub-imagem
estampada
escancarada
isca
de notícia
de
anúncio
isca
de audiência
sou
o cara que você já viu
na
sua câmera de segurança
sou
quem você manda deter
e
detém
os
direitos autorais
o
copyright também
sou
a bala dundun
o
dano o demo a danação
sou
o escuro a escória o escambau
e
estou na sua frente
sou
quem ninguém segura
nem
cães nem grades
nem
os muros grandes do seu quintal
sou
a sua arte
o
seu frankenstein
vim
buscar a minha parte
metade
do que você tem
PESSOA RUIM
Nunca fui campeão de nada
Vim pela rota mais rota
Fui até a última encruzilhada
Topei um pacto com o capeta
Em
troca nunca me faltou caneta
Sou o escriba do poema em linha reta
Tudo que fiz foi levando porrada
Não escrevo o certo por linhas tortas
Escrevo a obra de quem dobra a esquina errada
Escrevo
pra não ser chamado de poeta
Escrevo como quem se ri e espera
A colisão dos planetas
O descarrilo do trem
Escrevo como quem amaldiçoa almas
Amém
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
CORES PARA CEGOS
Cores para cegos é um
livro que reúne minha produção mais recente (os poemas longos Letra Negra,
Flor Occipital, Dodecaedro, a prosa poética Gavita, Gavita e um
poema breve, que dá título ao volume). Os interessados em adquirir o livro
podem encomendá-lo junto à editora pelo e-mail vendas@lummeeditor.com
POEMAS DE RICARDO ALEIXO
MAMÃE
GRANDE
todas
as águas do mundo são
Dela, fluem
refluem nos ritmos
Dela, tudo que vem,
que revém, todas
as águas
do mundo são
Dela,
fluem refluem
nos ritmos Dela.
tudo que
vem, que revém,
todas as águas
do mundo
são Dela, fluem
refluem
nos ritmos Dela, tudo
que vem
que revém.
OIÁ
Repito o que
recita o vento:
que as coisas vêm
a seu tempo,
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
quase nunca
é o dos viventes, mas
que, assim sendo,
que, assim sendo,
força é render-se
à força delas
à força delas
movendo-se, folha
ao vento, rasgacéus,
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
dance na festa
em seu nome ao vento.
veja-a: resplendente
veja-a: resplendente
aqui, já repontando
ali - epa, Oiá-Ô!
ali - epa, Oiá-Ô!
CENÁRIO
um peixe
completa seu
giro cego rente
ao pôr-
do-sol
na água
a noite toda
e parte
da manhã
um búzio
resiste aos
golpes do
mar
sem paz
TEATRO
tudo branco
ao redor
estático
teatro de
sombras
matéria de
que é
feita a
insônia
quem me
dera o ouro
de uma
noite sem
memória
INFERNO
sob um
silêncio pesado
demais para
a ventania sob a
pequena noite
vista da primeira
janela à
esquerda
sob a trilha de
estrelas novas
sob um
nome nunca
pronunciado sob um
trilo terrível
sob o
monstro re
— pior, o mundo —
animado
LOA
DA MENINA DEUSA
já perto do poente
o cabelo ornado
com invisíveis fios
de ouro
a menina uma
putinha da areia uma
menina deusa
qualquer
inventa a um
simples meneio
dos dedos
um outro sol
e some
rápida
reconvertida
em água
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
CANTINHO DE CRÍTICA
“Prova da centralidade da poesia concreta na história recente da
literatura brasileira é o fato de tantos autores diferentes entre si
terem em algum momento compartilhado afinidades com seus valores
estéticos. Itens ‘programáticos’ do movimento como dissolução do verso,
espacialidade e concepção do poema como montagem são perceptíveis no
antilirismo irônico de Nelson Ascher ou na poesia metalingüística de
Júlio Castañon Guimarães e Duda Machado – autores que forjaram, cada um,
sua poética própria, mas de alguma forma devedora das fórmulas
concretistas. Em Bonvicino, ao contrário, a condição de epígono dos
concretos se torna mais evidente. Depois de cortejar o anarquismo
contracultural de Paulo Leminski (1944-1989), esse poeta que alterna
atividades literárias com uma carreira de magistrado produziu livros em
que a sintaxe alinhava imagens descontínuas – como no ‘Quarto Poema
(Canalha Densamente Canina)’, onde aparece o título de Remorso do Cosmo
(de Ter Vindo ao Sol). Aqui, o ‘cosmos’ está reduzido a representações
florais em que ‘calêndulas sem janeiro’ e o ‘crisântemo sem pânico’
(referência ao Crisantempo de Haroldo de Campos?) compõe surtos de um
‘idioma de medos’. (...) Poeta de preocupações cívicas, Bonvicino também
procura dar concreção poética à agenda do mundo globalizado. O
resultado é um poema como ‘Sem Título (4) (Fanti-Axanti)’, que coloca em
linha reta notícias de jornal sobre devastação ecológica, guerra do
narcotráfico, assassinato de um militante antiglobalização em Gênova –
enfim, uma sequência de signos bombardeando a sensibilidade de um
sujeito paranóico, acuado pelo pânico – e que, ao tentar ultrapassar os
limites de seu solipsismo, de seu isolamento poético e pessoal, responde
aos estímulos do mundo numa língua desconexa.” (Manuel da Costa Pinto,
na Antologia Comentada da Poesia Brasileira do século 21. São Paulo:
Publifolha, 2006, pp. 85-87)
terça-feira, 31 de julho de 2012
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