domingo, 12 de agosto de 2012


POESIA PURA

Armando Freitas Filho

Pura porque suja, porque ela é extraída do maciço da linguagem só com a lapidação "de serviço", ou melhor: o esmero é esmerilhado. A impressão que se tem é que existe um constante esforço, que não desanima, do caos relativo do pensamento para o cosmo possível e impossível da escrita. 

Outra coisa que chama a atenção é o universo vocabular que esse esforço agencia: estranho, exigente, mirabolante, disposto e aberto a toda ousadia. Por isso mesmo, os poemas não se entregam na primeira leitura. Entre o autor e o leitor, para um bom entendimento do que lhe é oferecido, é imprescindível que se crie um pacto, que não é pacífico, uma espécie de luta ou de jogo que não almeja a vitória; seu resultado melhor é o empate, a empatia, o compromisso assumido, cara a cara.  

Também é digno de nota que, coisa rara, nos livros de Claudio Daniel – um por todos e todos por um – como em Yumê, que se reedita agora, não há desníveis, há progresso paulatino. Não são somente poemas, um punhado deles, mas uma poética que vai se formando, e que os vai reunindo - todos - num mesmo cabo de força, sem deixar que nenhum escape, caia. Não é, apenas, vocação, é um dom que não deixa a mão afrouxar.

Mais: instinto e razão, reflexo e reflexão são como motores concomitantes; um não precede o outro, um é o outro se alimentando, simultaneamente. Claro que podemos preferir ou escolher para este momento de leitura, alguns dos poemas; mas essa escolha não é definitiva, e quando os relemos pode haver uma troca de elenco e não seremos levianos ao agir assim, pois a luz mudou, o momento é diverso. As indecisões relatadas acompanham o leitor atento às nuanças, de capa a capa: como não ser injusto? Como ser justo? Compreende-se, depois, que a boa poesia não pede justiça.  O que essa poesia pede é necessidade, ela se faz necessária assim: in totum, já que nela não há desperdício, nem volubilidade. Ela prefere abrir a fome e não saciá-la. Talvez por isso, cala fundo. É isto: ela cala fundo.

(Texto de "orelha" da segunda edição de Yumê, que saiu em 2007 pela Annablumme / Dix Editorial.)




sábado, 11 de agosto de 2012

YUMÊ


 Meu segundo livro de poemas, Yumê, foi publicado em 1999, pela editora Ciência do Acidente (uma segunda edição saiu em 2007, pela Annablume). Leiam abaixo o prefácio do livro, escrito pelo poeta cubano José Kozer.

"Um conhecido dístico, aliás poema (In a station of the metro) de Pound (“The apparition of these faces in the crowd: Petals on a wet, black bough.”) reflete de modo especular o belo poema O um igual a zero, de Claudio Daniel. Arnaut Daniel, o trovador provençal, o trobar clus amado por Pound, amado por Claudio Daniel.

Um resultado é este formoso livro (Yumê), onde Oriente e Ocidente, de modo especular, se sonham, mariposa dentro de mariposa do sonho dentro do famoso sonho deste famoso desconhecido que foi Chuang-Tzu.

Chuang-Tzu, Claudio Daniel, Ezra Pound: nosso poeta brasileiro encerrado como por parêntesis entre duas nobres vozes, dois nobres feitos, que, mais do que clausura, servem de feitura (simbólica) (real) a esta obra. Oriente em Claudio Daniel; Ocidente em Claudio Daniel; o Concretismo, o Neobarroco, a pós-modernidade, a fulgurante jóia límpida de seus poemas sem ornatos; a singeleza da linguagem, que é a complexidade maior da linguagem, e o neobarroquismo expressando desde sua estrita abundância a ulterior singeleza do Oriente, do Ocidente: harmonizados, sintetizados, em obra aparentemente casta e no entanto sensual, luxuriosa; obra aparentemente límpida mas cheia de nuvens, nebulosas, constelações ao ignorado, do (desde o) ignorado; espelhos do caos, esse grande espelhismo.

Um palimpsesto, sem dúvida um palimpsesto: raspamos com o buril do amanuense e debaixo de cada placa, de cada lâmina encontramos outra versão, outra visão do mesmo assédio (especular) que implica uma mesma busca de beleza, que leva (todavia, é válida na boa poesia) ao ulterior: debaixo de todas as capas superpostas de todos os textos de Yumê está a reverberante abundância da vida, suas cores, claridades, sua poeira que como um ponto ressumbra e resume a presença viva, bíblica, da mulher de Lot (Epitáfio para a mulher de Lot). Água que escorre, Cathay ou Cipango que são Brasilis, braços abarcando um orbe (o de Claudio Daniel) que são todos os orbes do Orbe.

Yumê é um camafeu enganoso, que engana o leitor preguiçoso. Este acreditará de pés juntos ter lido um livro despojado, ínfimo, magro. O camafeu é um contorno, uma jóia mínima por certo; porém, no caso de Claudio Daniel, este encerra uma ordenada desordem, uma fragrância inodora, uma multitudinária voz de vozes que, tigre ao final, se prepara para o grande salto que desbaratará, por sua força, por sua vital abundância, os contornos do camafeu: migalhas, invisíveis ao leitor, que se reconformam e fazem de seus fragmentos um novo camafeu, um camafeu chamado Yumê: objeto vivo sem suturas visíveis, contorno dentro do qual o Nada se apresta uma vez mais para o salto (assalto), pela via poética, da Totalidade."


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A SOMBRA DO LEOPARDO




Caros, publiquei em 2001 meu terceiro livro de poemas, A sombra do leopardo (1a. edição: Rio de Janeiro: Azougue Editorial; 2a. edição: Rio de Janeiro, Multifoco, 2010), que ganhou o prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT (o júri era composto por Nelson Ascher, Waly Salomão e Claudio Willer). Segue abaixo o prefácio do livro, escrito pelo poeta e crítico literário uruguaio Eduardo Milán.

“Claudio Daniel pertence a uma linha criativa da poesia brasileira que parte, aproximadamente, de João Cabral de Melo Neto, atravessa a vanguarda (a poesia concreta, especialmente algumas buscas de Haroldo de Campos em sua fase poética mais condensada), e toca experiências de poetas que derivam, numa primeira fase, da experiência concreta paulista. Estas não são, no caso de Daniel, relações de dependência, mas um sistema mínimo de referências poéticas que constituem a linhagem necessária para que se possa falar de um poeta e situá-lo em sua tradição.

Constante uso da elipse, definição das imagens com alta precisão, tendência à objetivização do verso como condição de sua existência. O verso é breve, cortado segundo uma conveniência rítmica, mais do que semântica, porém, devolve todo o espectro do sentido, de acordo com uma lógica de surpresa, dada pelo mesmo corte no aparecer do verso seguinte, abaixo. Alguns motivos que se repetem: a palavra, naturalmente, o silêncio, a cultura in extensu.

O mundo dado por partes (metonímia, ainda que, também, e surpreendentemente, metáfora, metáfora crítica surgida às vezes das relações latentes que emergem na cadeia significante como conseqüência da organização verbal). Ou, às vezes, a metáfora como dispositivo gerador do poema, do qual descenderão outras possíveis relações verbais. Um acréscimo de Claudio Daniel à poesia urbana e pós-concreta brasileira: o apelo a um universo mítico, dado não por paródia de discurso fundador, senão por referências — o mito como possibilidade poética que se oferece, de forma parcelada, no mundo.

Os poemas intentam alinhavar uma narração, na medida do possível poético contar uma história por imagens, alinhavar por imagens um tecido que se cria por impressões da existência. Também está presente a figura totêmica da poesia pós-mallarmeana, a página, colocada aí como um suporte quase mítico. A brancura da página está (porém, nem sempre se deixa ver) como referência atualizante, como homenagem —, para fazer constar que Claudio Daniel também esteve aí. Diria que em Claudio Daniel o motivo poético central, em sua relação com a poesia brasileira, é reconstituir a estrutura verbal, encarnar o osso verbal que, em seu polimento maior, havia feito aparecer a vertente Cabral/poesia concreta. Porém, não se trata de um retorno, senão de uma contribuição a um ordenamento da mesma ação.

Biografias de culturas, biografias de certos personagens culturais (Dante, Nagarjuna etc.) são recortes, impressões de leituras, intuições líricas: a cultura como documento interior. São projeções do falante, fragmentos civilizatórios. Nenhuma cultura cabe em uma voz (a prova de Pound dos Cantares). São impressões, imagens. Mas isto parece um reconhecimento, por parte de Claudio Daniel, de que não há possibilidade de poesia na atualidade que não tenha uma relação dinâmica com a cultura, dinâmica e evidente. Claudio Daniel é um lírico cultural.

Ao fim de A sombra do leopardo, os poemas caem na tematização do poema — o poema como tema — e na tematização dos arredores do poema, seu âmbito, que, aqui, é existência. Aparece, então, a miséria do poema, sem a qual, pareceria, nenhuma aventura poética autêntica pode ser considerada na atualidade.”

Coyoacán, 2000

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

FIGURAS METÁLICAS




A convite de Haroldo de Campos, publiquei uma antologia de minha obra poética para a coleção Signos, que o poeta dirigia para a Editora Perspectiva: Figuras Poéticas -- Travessia Poética (1983-2003), que contou com texto de apresentação do crítico literário João Alexandre Barbosa, que reproduzo abaixo:

"Escrevendo sobre Mallarmé, Valéry levanta uma questão de interesse para qualquer aproximação à criação poética: a relação entre esta criação e as origens mais remotas das funções da linguagem humana.

É que a poesia, diz ele, vincula-se, sem nenhuma dúvida, a algum estado dos homens anterior à escritura e à crítica. Encontro, pois, um homem muito antigo em todo poeta verdadeiro: ele bebe ainda nas fontes da linguagem; ele inventa "versos", um pouco como os primitivos melhor dotados deviam criar "palavras", ou ancestrais de palavras.

Em todo o poema bem realizado, o leitor há de sentir a palavra como se ela surgisse para uma nomeação originária, transformando o que se nomeia em algo novo por força da própria nomeação, conferindo ao poeta características de um oficiante de ritual em que dominassem os poderes da memória (pela recuperação das fontes da linguagem) e da magia - pela criação de uma nova realidade que é a poética.

Daí a importância das materialidades sonora e visual que, somente depois de organizadas num estrutura passada pelos rigores da sintaxe e da semântica, impõem um outro tipo de racionalidade que é o poema. É a qualidade encantatória da poesia que faz pensar no poeta como herdeiro daqueles primeiros homens que inventavam palavras para a nomeação espantada do mundo.

Creio que a poética desta antologia de Claudio Daniel, vinte anos de uma travessia, tem como dominante aquela qualidade. O que significa dizer que o leitor, lendo este livro, é convidado a se deixar envolver por tudo o que é reverberação de som e imagem, abdicando da objetividade e mergulhando no tumulto das sensações gravadas na pele das palavras.

Em todos os poemas, extraídos de três livros publicados entre 1992 e 2001 (Sutra, Yumê e A sombra do Leopardo) e do inédito Pequenas aniquilações, passa uma inquietação que, sendo o registro daquele jogo de encantamento referido, mantém os textos nos tensos limites do indizível.

Por onde são convocados todos os valores sensíveis da linguagem mas, atenção! sob o controle estrito de uma consciência acesa pelos valores da história, seja a circunstancial, seja a da própria linguagem da poesia.

Daí ser possível, sobretudo nos primeiros textos, realizar os entrecruzamentos de culturas pela utilização literal de trechos de obras orientais.

É, mais uma vez, a lição que se pode extrair do trabalho verdadeiro com a criação: o encanto da poesia, como queria Valéry ao chamar de Charmes o seu grande livro de 1922, e como está neste livro, é sempre dependente do trabalho com que se enfrenta o próprio enigma da invenção."

ESCRITO EM OSSO


Escrito em Osso, antologia poética pessoal que publiquei em Portugal em 2009, pela editora Cosmorama, reunindo poemas de Sutra, Yumê, A sombra do leopardo e o inédito Dodecaedro (que escrevi a quatro mãos com Simone Homem de Mello). O livro tem apresentação do poeta e ensaísta português Ernesto de Melo e Castro, um dos expoentes do movimento da PO-EX (Poesia Experimental), ao lado de Ana Hatherly, nos anos 60.

O GAROTO DE RECADOS


O garoto de recados é uma figura folclórica dos meios literários. Trata-se de aspirante a poeta, com ou sem livro publicado (o que não importa, já que ninguém o lê), ausente em todas as antologias de poesia contemporânea, que nunca recebeu atenção da crítica especializada ou de seus pares consagrados. Este fracasso, devido apenas à insuficiência imaginativa de sua obra – para não falar em falta de qualidade, o que soaria agressivo – torna tal tipo profundamente ressentido e disposto à vingança contra os autores “famosos” que, a seu ver, são responsáveis por sua desgraça. O garoto de recados só consegue sair, temporariamente, do anonimato, e ver o seu nome circulando na praça (ainda que negativamente) quando encontra um senhor a quem servir – por exemplo, um juiz tão louco e ressentido quanto ele. O garoto recebe então tarefas: falar mal de X, Y, ou Z, em artigos mal escritos, grosseiros, sem argumentação e com um sarcasmo que mal esconde a sua inveja. Ele sente um prazer quase erótico ao ver o seu nominho estampado no tabloide virtual publicado pelo juiz, considera-se importante, a ponto de “julgar” e “condenar” aqueles que antes o "condenaram" ao justo anonimato. Acusa, difama, calunia, faz o trabalho sujo pelo juiz, que pode assim eximir-se da tarefa ostensivamente antiética e posar de neutro editor que garante a “liberdade de opinião”, no melhor estilo PIG. O garoto de recados acredita que, em troca de seus préstimos de mau-caráter, receberá o tão esperado lugar ao sol, sendo então lido e elogiado como o grande (e injustiçado) poeta que julga ser. O que não lhe ocorre é que a sua “obra poética”, sendo Lodo, já o condenou ao definitivo e irremediável esquecimento..  

OVI-SUNGO, TREZE POETAS DE ANGOLA



 
Ovi-Sungo, Treze poetas de Angola, que publiquei em 2007 pela Lumme Editor, seleção que inclui poetas como Abreu Paxe, José Luís Mendonça. David Mestre, João Maimona, Arlindo Barbeitos, Conceição Cristóvão e outros nomes significativos da poesia angolana. Foi publicada, há algum tempo, uma bela resenha do livro no Suplemento Literário de Minas Gerais, de autoria de Ricardo Corona.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

NA VIRADA DO SÉCULO, POESIA DE INVENÇÃO NO BRASIL

 

Caros, publiquei em 2002 (há exatos dez anos) a antologia Na Virada do Século: Poesia de Invenção no Brasil, que organizei em parceria com Frederico Barbosa e foi publicada pela editora Landy. O livro reunia 46 poetas, especialmente os que começaram a escrever e publicar na década de 1990, desde nomes que já eram conhecidos na época, como Claudia Roquette-Pinto, Carlito Azevedo, Ricardo Aleixo, Rodrigo Garcia Lopes, até aurores então inéditos em livro, mas que já apresentavam uma poética madura, como Amador Ribeiro Neto, André Dick e Micheliny Verunschk. Na Virada saiu numa época em que havia poucas antologias ou estudos sobre a chamada Geração 90 e ainda hoje é considerada uma obra de referência, sendo incluída na bibliografia de pesquisas universitárias sobre poesia contemporânea, além de ser tema de dissertações de mestrado.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO


... ENQUANTO ISSO, NO CENTRO CULTURAL SÃO PAULO...



Caros, a Curadoria de Literatura e Poesia do Centro Cultural São Paulo foi criada em dezembro de 2010, com a proposta de realizar atividades de divulgação de autores brasileiros e do cenário internacional, pautando-se pelos critérios de qualidade estética, respeito ao pluralismo de estilos e tendências, democratização do espaço público e do acesso à produção cultural. Neste sentido, a Curadoria de Literatura e Poesia tem realizado, periodicamente, recitais, debates, palestras, performances, festivais de poesia, além da impressão e distribuição gratuita ao público das plaquetes da coleção Poesia Viva, dedicada à divulgação de autores contemporâneos, novos ou consagrados, como Armando Freitas Filho, Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Rodrigo Garcia Lopes, entre outros. Cada plaquete tem a tiragem de mil exemplares e é distribuída na Central de Informações e nos guichês da biblioteca do CCSP. De março de 2011 a julho de 2012, realizamos 51 eventos, assistidos por um público de 3.412 pessoas. Nossa programação foi divulgada em veículos de imprensa como os guias semanais dos jornais Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Jornal da Tarde, Diário do Grande ABC, além de programas de rádio, sites e blogues especializados em literatura. Entre os poetas, escritores e palestrantes que se apresentaram no Centro Cultural nesse período (2011-2012) destacam-se autores conceituados como Claudio Willer, Arnaldo Antunes, Glauco Mattoso, Nelson de Oliveira, Frederico Barbosa, Luiz Ruffato, Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Viviana Bosi, Aurora Bernardini, entre outros. Realizamos eventos internacionais, como o festival 2011 Poetas por Km2, que aconteceu em setembro de 2011, atividade organizada em parceria com o Centro Cultural da Espanha, que contou com a presença de autores da Espanha, Brasil, Peru e México, e em agosto de 2012 realizaremos o I Simpósio de Ação Poética, que reunirá 44 poetas, críticos literários, músicos e editores, que se apresentarão em mesas de debates, recitais e apresentações artísticas, no Centro Cultural São Paulo e na Casa das Rosas, nossa parceira neste evento. Destacamos também o evento Poesia dos 4 Cantos: Noite Indiana, recital de poesia com música e dança tradicionais, realizado em 2011, que contou com um público de 368 pessoas, na Sala Adoniran Barbosa, o Sarau Astronômico, realizado no mesmo ano, com temática japonesa, que atraiu um público de 200 pessoas, e o Sarau do Rap, realizado em 2012, na Praça Mário Chamie (Bibliotecas), assistido por 170 pessoas. No campo da poesia experimental, a mostra Videopoéticas (Paradas em Movimento), organizada por Elson Fróes, merece destaque pela qualidade, originalidade e inovação dos trabalhos apresentados, elaborados por nomes conhecidos nesse campo de pesquisa estética, como Arnaldo Antunes, Lenora de Barros e Lúcio Agra, e autores jovens que vêm se destacando nos últimos anos, como Marcelo Sahea e Márcio-André.  Em agosto, um novo programa da curadoria estará disponível em nossa Rádio Web: o Poesia pra tocar no rádio, série mensal de entrevistas com poetas que são parceiros de músicos ou músicos que são parceiros de poetas. As primeiras entrevistas, realizadas por Natália Barros, foram com Alice Ruiz, Péricles Cavalcante, Rodrigo Garcia Lopes e Ademir Assunção, e logo serão entrevistados Arnaldo Antunes, Ricardo Corona e Ricardo Aleixo, aguardem!

P.S.: em tempos de capitalismo selvagem, vale a pena lembrar que o Centro Cultural São Paulo é um órgão público, vinculado à Secretaria Municipal da Cultura, e que todas as atividades da Curadoria de Literatura são gratuitas.  

domingo, 5 de agosto de 2012


POEMAS DE RICARDO CORONA


 
E NÃO EXPLICA
 
Che fai tu, in ciel? Dimmi, che fai,
Silenziosa luna?
— Leopardi

Praias —
eu as invento
à luz da lua alta
luz borrando zênites

A paisagem, menos
narcísica

O vento
as nuvens
— leveza —
abrindo sentidos vitais

Você nem percebe
râmulos aquáticos nascem corais

À noite,
a lua chama para si
toda possibilidade de luz

— depois, deita-se

E não explica

 MESES ÍMPARES DE UM ANO PAR

meses ímpares
de um ano par
que passou

dói lembrar
daqueles dias
em seguida

trinta e um dias
cravados
no ímpar

na overdose dos doze
esses são
os meses não

meses contados
no osso do soco
de um ano par
que passou


COPYRIGHT BY

sou a flor                 
tal e qual
você não quer nem ler
nos poemas de blake
baudelaire
sou a flor do mal
a flor doente
sou quem você não quer
nem vivo nem morto
na frente
sou quem você já viu
na televisão
sub-imagem
estampada escancarada
isca de notícia
de anúncio
isca de audiência
sou o cara que você já viu
na sua câmera de segurança
sou quem você manda deter
e detém
os direitos autorais
o copyright também
sou a bala dundun
o dano o demo a danação
sou o escuro a escória o escambau
e estou na sua frente
sou quem ninguém segura
nem cães nem grades
nem os muros grandes do seu quintal
sou a sua arte
o seu frankenstein
vim buscar a minha parte
metade do que você tem


PESSOA  RUIM

Nunca fui campeão de nada
Vim pela rota mais rota
Fui até a última encruzilhada
Topei um pacto com o capeta
Em troca nunca me faltou caneta
Sou o escriba do poema em linha reta
Tudo que fiz foi levando porrada
Não escrevo o certo por linhas tortas
Escrevo a obra de quem dobra a esquina errada
Escrevo pra não ser chamado de poeta
Escrevo como quem se ri e espera
A colisão dos planetas
O descarrilo do trem
Escrevo como quem amaldiçoa almas
Amém

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

CORES PARA CEGOS



 Cores para cegos é um livro que reúne minha produção mais recente (os poemas longos Letra Negra, Flor Occipital, Dodecaedro, a prosa poética Gavita, Gavita e um poema breve, que dá título ao volume). Os interessados em adquirir o livro podem encomendá-lo junto à editora pelo e-mail vendas@lummeeditor.com


POEMAS DE RICARDO ALEIXO



MAMÃE GRANDE

todas
as águas do mundo são
Dela, fluem
refluem nos ritmos
Dela, tudo que vem,
que revém, todas
as águas
do mundo são
Dela,
fluem refluem
nos ritmos Dela.
tudo que
vem, que revém,
todas as águas
do mundo
são Dela, fluem
refluem
nos ritmos Dela, tudo
que vem
que revém.


OIÁ

Repito o que
recita o vento:

que as coisas vêm
a seu tempo,

que elas sabem
qual tempo é o delas,

que esse tempo
quase nunca

é o dos viventes, mas
que, assim sendo,

força é render-se
à força delas

movendo-se, folha
ao vento, rasgacéus,

deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem

e de cada corpo quando
dance na festa

em seu nome ao vento.
veja-a: resplendente

aqui, já repontando
ali - epa, Oiá-Ô!


CENÁRIO

um peixe
completa seu

giro cego rente
ao pôr-

do-sol
na água

a noite toda
e parte

da manhã
um búzio

resiste aos
golpes do

mar
sem paz


TEATRO

tudo branco
ao redor

estático
teatro de

sombras
matéria de

que é
feita a

insônia
quem me

dera o ouro
de uma

noite sem
memória


INFERNO

sob um
silêncio pesado

demais para
a ventania sob a

pequena noite
vista da primeira

janela à
esquerda

sob a trilha de
estrelas novas

sob um
nome nunca

pronunciado sob um
trilo terrível

sob o
monstro re

— pior, o mundo —
animado


LOA DA MENINA DEUSA

já perto do poente

o cabelo ornado

com invisíveis fios

de ouro

a menina uma

putinha da areia uma

menina deusa

qualquer

inventa a um

simples meneio

dos dedos

um outro sol

e some

rápida

reconvertida

em água

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


CANTINHO DE CRÍTICA


“Prova da centralidade da poesia concreta na história recente da literatura brasileira é o fato de tantos autores diferentes entre si terem em algum momento compartilhado afinidades com seus valores estéticos. Itens ‘programáticos’ do movimento como dissolução do verso, espacialidade e concepção do poema como montagem são perceptíveis no antilirismo irônico de Nelson Ascher ou na poesia metalingüística de Júlio Castañon Guimarães e Duda Machado – autores que forjaram, cada um, sua poética própria, mas de alguma forma devedora das fórmulas concretistas. Em Bonvicino, ao contrário, a condição de epígono dos concretos se torna mais evidente. Depois de cortejar o anarquismo contracultural de Paulo Leminski (1944-1989), esse poeta que alterna atividades literárias com uma carreira de magistrado produziu livros em que a sintaxe alinhava imagens descontínuas – como no ‘Quarto Poema (Canalha Densamente Canina)’, onde aparece o título de Remorso do Cosmo (de Ter Vindo ao Sol). Aqui, o ‘cosmos’ está reduzido a representações florais em que ‘calêndulas sem janeiro’ e o ‘crisântemo sem pânico’ (referência ao Crisantempo de Haroldo de Campos?) compõe surtos de um ‘idioma de medos’. (...) Poeta de preocupações cívicas, Bonvicino também procura dar concreção poética à agenda do mundo globalizado. O resultado é um poema como ‘Sem Título (4) (Fanti-Axanti)’, que coloca em linha reta notícias de jornal sobre devastação ecológica, guerra do narcotráfico, assassinato de um militante antiglobalização em Gênova – enfim, uma sequência de signos bombardeando a sensibilidade de um sujeito paranóico, acuado pelo pânico – e que, ao tentar ultrapassar os limites de seu solipsismo, de seu isolamento poético e pessoal, responde aos estímulos do mundo numa língua desconexa.” (Manuel da Costa Pinto, na Antologia Comentada da Poesia Brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006, pp. 85-87)

terça-feira, 31 de julho de 2012