quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ISRAEL E O MURO DA (IN)SEGURANÇA













Luciana Garcia de Oliveira


“O que importa não é o que fizeram conosco, mas o que fazemos com o que fizeram conosco” (Jean Paul Sartre)

São muitas as razões capazes de comprovar que a ideologia sionista (predominante no Estado de Israel) enfrenta uma crise crescente. A integração forçada de novos imigrantes, as limitações da democracia (defendida pelos atuais governantes), o caráter europeu-ocidental exclusivista, a concentração do yishuv e no Estado, a questão colonial, o expansionismo territorial (e a conseqüente transferência dos palestinos) e a militarização da sociedade são alguns fatores comprovadores dessa situação da atual crise de identidade.

No entanto, é a partir do ano de 1967, que a situação aparece numa versão ainda mais dramática. É nesse momento em que, não somente o expansionismo e a expropriação das terras palestinas foram retomadas, como emergiu uma sociedade de colonos que, busca construir uma comunidade à parte, “semicolonial” que, passou a ser imediatamente denominado pelos nomes bíblicos, “Judea e Samaria”.

Ainda, soma-se à isso, uma forte concepção de segurança, com um exército extremamente brutal e um governo que, ao longo do tempo passou a dispensar um tratamento de “inimigo” aos palestinos residentes no Estado israelense, o que serviu para excluí-los, de fato, do poder político. Em Israel, a promoção da democracia étnica, viola flagrantemente ao princípio universal da igualdade.

E, para piorar ainda mais a situação, o país não possui uma Constituição, o que torna toda a prática de discriminação um fato inqüestionável.

Assim, de acordo com José Maurício Domingues, “nacionalismos étnicos, radicalismos religiosos e a falta de uma concepção multicultural criam enormes barreiras”. As fronteiras entre Israel e os territórios palestinos, tornam-se um problema e um risco, e a segregação dentro dessas fronteiras legitimam um estado de apartheid social.

Nesse passo, a solução imediata para o conflito foi a construção de um Muro que, teoricamente, separa o Estado de Israel dos territórios palestinos.

A maior parte dos turistas e ativistas estrangeiros que já tiveram a oportunidade de viajar a Israel e à Palestina, afirmam frequentemente que, muitos funcionários do aeroporto de Ben Gurion, dificultam o acesso à Cisjordânia (território palestino), numa clara tentativa de apagar a existência da Palestina, do povo palestino e de toda a sua história.

A real impossibilidade de se enxergar “o mundo” para além do Muro (erguido em junho de 2002), legitima que as estradas de acesso à Cisjordânia sinalizem tão somente aos assentamentos judaicos instaurados naquela mesma localidade.

Ao se tentar questionar a existência do Muro em pleno território palestino, grande parte dos israelenses são capazes de justificar, sob um primeiro plano, ao renomear a ostensiva construção para “Barreira de Segurança” ou “Muro de proteção”, requisitado tanto por parte da direita israelense, como pela esquerda, numa conjuntura de pós-Intifada no final de setembro de 2000. Momento em que o Estado de Israel encontrava-se constantemente “ameaçado” por atentados terroristas (advindos da incidência dos chamados “homens bombas” e pelo lançamento de mísseis por parte do grupo Hamas). A essa altura, prevalecia-se um clima de guerra e insegurança.

A idealização para se construir o Muro, surgiu depois do fracasso da Conferência de Camp David (sobre o conflito Israel-Palestina), ocorrido em julho de 2000. E, mesmo diante do consenso israelense para a sua consecução, algumas diferenças foram suscitadas entre as alas da direita e da esquerda. Para a esquerda israelense, a barreira deveria respeitar o traçado da chamada “linha verde” (limite imposto por Israel, após a Guerra dos Seis Dias, em 1967). A direita, por sua vez, pretendia anexar o maior número possível das colônias judaicas existentes, dentro do território palestino, inclusive na parte oriental de Jerusalém.

Por outro lado, são ainda muito poucos os que realmente sabem que, juntamente com a construção do Muro, o Estado de Israel violou o Direito Internacional (em 2004, o Tribunal Penal Internacional de Haia, condenou a construção do Muro), isso porque o empreendimento foi deliberadamente erguido dentro do território palestino, numa clara proposição de anexação de territórios, conforme pode ser visualizado no documentário Budrus (de autoria da cineasta brasileira Julia Bacha). O que, por sua vez, descaracteriza completamente o argumento da “defesa do território israelense”.

Desde a construção do Muro, os palestinos, de uma maneira geral, dependem diretamente da autorização expressa do exército para realizar qualquer tipo de reforma em suas residências. E, mesmo diante da ameaça real dos colonos (dos assentamentos judaicos) que, intimidam constantemente a população palestina da Cisjordânia, é perfeitamente possível depara-se com a livre circulação dos ultraortodoxos nesses mesmos territórios, portando suas armas pesadas nas costas.

Grande parte do território da Cisjordânia encontra-se interditado aos palestinos, justamente para proteger esses mesmos colonos (armados) de eventuais “ataques terroristas” advinda da população palestina (geralmente desarmada). Conjuntura esta, muito semelhante ao regime de apartheid sul-africano.

Mesmo diante de todo repúdio advindo da comunidade internacional e das resoluções da Organização das Nações Unidas (ONU), o governo israelense nunca, de fato, sequer paralisou as construções dos assentamentos, mesmo durante os processos de negociações de paz na região. Apesar, das dificuldades (hoje) em desmantelar toda uma comunidade fortemente armada que, ainda reivindicam a terra de seus ancestrais bíblicos, conforme fora abordado no artigo anterior, Israel e os ultraortodoxos – notícias de uma guerra anunciada.

Aliado à limitação da circulação, é também constatado uma grande diferença no que concerne ao consumo de água. De acordo com Vladimir Safatle em um recente artigo produzido após visita à Palestina, “um colono israelense usa seis vezes mais água que os palestinos. Caso queiram mais, os palestinos precisarão comprar água de uma empresa israelense que explora o rio (Jordão) do qual os próprios palestinos são donos”.

Diante de tantos prejuízos suscitados desde a construção do Muro, a ONG Stop the Wall, deu início à tradição da “semana contra o Muro do apartheid” que ocorre no mundo inteiro, durante o mês de novembro. Data pela qual coincide com a queda do Muro de Berlim, na Alemanha em 1989. Desde então, muitas atividades, seminários, mostra de filmes, lançamento de livro, são promovidos a fim de se posicionar contra a interferência de pelo menos 130 vilarejos palestinos. Estima-se que cerca de 29 deles, deverá estar em total isolamento, brevemente.

A situação de calamidade pela qual vivem os palestinos segregados pelo Muro, torna a região cada vez mais sensível à conflitos e manifestações. Nesse sentido, cabe indagar-se sobre a possibilidade de avançar sobre a atual obsessão pela definição de identidades puras e, assim, aceitar a diversidade e a pluralidade presentes nessa região. A essa altura, visualizar dois Estados (separados) em um espaço extremamente reduzido, é um ingrediente perfeito à uma realidade permanente de pura violência.

O Muro desmistificou a certeza da segurança israelense.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E DEMAIS FONTES DE PESQUISA:

DOMINGUES, José Maurício. A sociologia israelense e a crise do consenso sionista. Revista Brasileira de Ciências Sociais, volume 25, nº 73, junho de 2010.

SAFATLE, Vladimir. Chamar de “muro” um muro. Folha de São Paulo, dia 09 de fevereiro de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1045998-vladimir-safatle-chamar-de-muro-um-muro.shtml.

SAFATLE, Vladimir. A Cisjordânia e política da invisibilidade. Folha de São Paulo, dia 05 de fevereiro de 2012. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1043906-a-cisjordania-e-a-politica-da-invisibilidade.shtml.


Budrus (doc.) título original: Budrus, Israel/Estados Unidos/Palestina, 2010, vídeo, 70 min., documentário, cor, em hebraico, inglês e árabe, com legendas em português. Direção: Julia Bacha. De acordo com o site: http://www.justvision.org/budrus.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

NOTAS SOBRE GAZA, DE JOE SACCO

Claudio Daniel

A Faixa de Gaza é um território com 40km de comprimento e 12km de largura, “um dos lugares mais densamente povoados do planeta”, escreve Joe Sacco no livro Notas sobre Gaza. “Entre 2002 e 2003, quando passei por lá, 1milhão e 300 mil palestinos ocupavam cerca de 70% de seu território. O restante estava sob domínio de 7.500 colonos judeus, que estabeleceram seus enclaves depois que Israel invadiu Gaza, em 1967, e dos soldados que os protegem. A taxa de desemprego entre os palestinos era de 50%. O percentual de pessoas abaixo da linha da pobreza – que vivem com menos de dois dólares por dia – chegava a 70%. Cerca de dois terços eram refugiados registrados, os refugos da guerra de 1948. Todos os acessos a Gaza, tanto para palestinos como para estrangeiros, eram vigiados e rigidamente controlados pelos israelenses. A disposição dos assentamentos e de suas estradas, além dos postos de verificação, permitiam aos israelenses separar facilmente uma parte de Gaza da outra.” Em 2005, Israel tomou uma “iniciativa unilateral (...) de remover os assentamentos judeus existentes em Gaza, deixando aquela estreita porção de terra totalmente à disposição dos palestinos. No entanto, Israel não abriu mão do controle do espaço aéreo e marítimo de Gaza, nem de suas fronteiras terrestres, com exceção de um ponto de passagem. (Esse ponto de passagem é o Terminal de Rafah, na fronteira com o Egito, que dificultava terrivelmente o processo de entrada e saída de Gaza.) Na verdade, a Faixa de Gaza, um lugar miserável e superpovoado, nunca se livrou do bloqueio israelense ou da ameaça de ataques e retaliações por parte das Forças de Defesa de Israel – FDI --, como se comprovou no final de 2008 e no início de 2009. (...) Quando o grupo islâmico Hamas assumiu o poder sobre a região, que detém até hoje”, os israelenses “apertaram ainda mais o cerco. (...) Com a ascensão do Hamas, Israel declarou a Faixa de Gaza uma ‘entidade inimiga’. No momento em que escrevo estas linhas, há um bloqueio quase completo a Gaza, com apoio dos Estados Unidos e da União Europeia”, escreve Joe Sacco. Conforme o toque de recolher imposto por Israel aos palestinos que habitam a Faixa de Gaza, eles são proibidos de saírem de suas casas entre as 20h e as 04h da manhã.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

GREVE DE FOME DE PALESTINO REABRE DEBATE SOBRE JUSTIÇA MILITAR ISRAELENSE


Ana Cárdenes

DA EFE

Os mais de 60 dias de greve de fome do palestino Khader Adnan, preso por Israel sem acusações, voltaram a pôr sobre a mesa o debate sobre a aplicação da justiça militar com a qual Israel julga os palestinos nos territórios ocupados e sua denunciada falta de imparcialidade.

Adnan foi detido no último dia 17 de dezembro pelo Exército israelense sob o amplo conceito de "detenção administrativa", uma ferramenta que permite prender indefinidamente os palestinos sem acusação de delito algum.

Este homem, ex-porta-voz do grupo islamita palestino Jihad Islâmica, é um dos 307 palestinos nesse limbo legal, uma situação que o levou a se negar a ingerir alimentos desde o dia seguinte a sua detenção.

Segundo confirmou à Agência Efe o serviço israelense de prisões, nos últimos dois meses centenas de presos rejeitaram algumas das refeições que recebem em apoio a Adnan.

"Nos casos de detenção administrativa como este não temos direito sequer de ver o dossiê de acusação, porque se considera 'material secreto' que nem o detido nem seu advogado podem conhecer", detalhou à Efe Sahar Francis, diretora de uma organização não governamental palestina de apoio a prisioneiros.

Esta advogada explicou que "na audiência judicial há duas partes, uma na qual o advogado pode fazer perguntas ao promotor, mas que este não contesta argumentando segredo, e outra entre o promotor e o juiz, na qual se decide tudo sem a presença da defesa".

A detenção administrativa pode estender-se a cada seis meses, o que permite que algumas pessoas estejam anos sem saber por que estão detidas nem o que podem fazer para ser libertados.

"Na Primeira Intifada houve presos que passaram oito anos em detenção administrativa e agora há vários que estão há três anos e meio nessa situação", garantiu Francis.

Para ela, o problema das detenções administrativas é só mais um dos exemplos que demonstram que a justiça militar que Israel aplica nos territórios ocupados é "uma ficção" para dotar o sistema de uma imagem de aparente legalidade frente à comunidade internacional.

"Há três problemas fundamentais no sistema: a indefinição dos delitos, os procedimentos que violam direitos básicos do detido e a excessiva dureza das penas, com prisão de até um ano por jogar uma pedra sem atingir ninguém", declarou.

A lei militar permite que os detidos estejam até oito dias sem apresentar-se perante um juiz (em vez das 24 horas em Israel) e dá às forças de segurança 180 dias para interrogá-los, que podem ser estendidos ilimitadamente.

Outra das carências do sistema, ressaltou Francis, é que "a maioria de acusações se baseiam em confissões que outros presos fazem durante interrogatórios nos quais a tortura e o maus-tratos estão muito difundidos. Há muito poucos casos que apresentam provas externas".

Os interrogatórios são em árabe, mas os presos assinam a declaração em hebraico, idioma que muitos não entendem.

Os menores são interrogados sem a presença de um advogado nem de seus pais e também não têm suas fichas policiais apagadas quando completam 18 anos, como acontece em outros países.

Os advogados têm um acesso limitado a seus clientes e os julgamentos transcorrem em hebraico, com um jovem sem formação de tradutor legal entre 18 e 21 anos que realiza o serviço militar obrigatório narrando em árabe aos acusados o que ocorre.

"E depois há a falta de independência judicial. Com juízes contratados, pagos e escolhidos pelo Exército é muito difícil convencer a corte que um prisioneiro diz a verdade", denunciou Francis.

No sistema de justiça militar israelense "não é a Promotoria que tem que demonstrar a culpabilidade, mas o detido que deve provar que é inocente", acrescentou.

Outro problema é que Israel julga em seus tribunais militares não só questões de segurança, mas também crimes civis como infrações de trânsito e multas, que podem levar os palestinos à prisão.

Consultados pela Efe, nem o Exército israelense nem a Promotoria militar responderam estas acusações.

Para Francis, o fato de "mais de 90% dos casos serem fechados com acordos entre promotor e advogado e menos de 1% ser declarados inocentes" demonstra a inexistência de um julgamento justo.

"Os tribunais militares são mais uma parte do aparelho de ocupação, humilhação, controle e opressão israelense", concluiu a advogada.

Fonte: Folha.com, http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1051532-greve-de-fome-de-palestino-reabre-debate-sobre-justica-militar-israelense.shtml

A EXPOSIÇÃO PROIBIDA


Em setembro do ano passado, o site Free Palestine Movement denunciou o cancelamento de uma exposição de pinturas de crianças palestinas da Faixa de Gaza, programada para ocorrer no Museu de Arte para Crianças em Oakland (Mocha). Segundo o referido site, a Aliança do Oriente Médio para a Infância (MECA), que se associou com o Mocha para apresentar a exposição, foi informada da decisão do presidente da junta do museu, que recebeu pressões de organizações Pró-Israel na baia de São Francisco para impedir esta mostra. A diretora executiva do MECA, Barbara Lubin, afirmou que a censura aceita pelo museu vai contra sua missão de "garantir que as artes sejam parte fundamental da vida de todas as crianças", mas mesmo assim diz entender a forte pressão recebida pelo museu. "Mas quem ganha com isso? O museu não ganha, as pessoas que visitariam o museu não ganham. nossa liberdade perde, as crianças de Gaza perdem" [...] "Os únicos ganhadores aqui são os que gastam milhões de dólares para censurar toda critica a Israel e o silenciamento das vozes das crianças que vivem todos os dias sob o cerco militar e com a ocupação" completou Lubin.

Fonte: site Prestes a Ressurgir (http://prestesaressurgir.blogspot.com/2012/01/faixa-de-gaza-vista-pelas-suas-criancas.html)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A GUERRA DE ISRAEL CONTRA AS CRIANÇAS: 1.200 PRESAS NUM SÓ ANO

Jonathan Cook

A polícia israelita tem sido criticada pelo tratamento infligido a centenas de crianças palestinas, algumas das quais com apenas sete anos, presas e sujeitas a interrogatório por suspeita de arremesso de pedras em Jerusalém Leste.

Segundo estatísticas policiais recolhidas pela ACRI (Associação Israelita dos Direitos Humanos) no ano passado foi aberta investigação criminal, em Jerusalém, a mais de 1.200 menores palestinos acusados de arremesso de pedras. Este número é perto do dobro do número de crianças presas no mesmo ano no território Palestino mais alargado da Faixa Ocidental.

A maior parte das detenções ocorreu no distrito de Silwan, próximo da Cidade Velha de Jerusalém, onde 350 colonos judeus extremistas instalaram vários enclaves ilegais, fortemente guardados, no meio de 50.000 residentes Palestinos.

No final do mês passado, e numa atitude que reflecte a crescente indignação face às prisões em Silwan, foi noticiado que uma multidão impediu a polícia de prender Adam Rishek, uma criança de sete anos acusada de arremessar pedras. Mais tarde os seus pais apresentaram um protesto acusando os policies de o ter agredido.

A tensão entre residentes e colonos tem vindo a subir constantemente desde que o município de Jerusalém revelou, em Fevereiro, um plano de demolição de dezenas de habitações Palestinas no bairro Bustan com vista à expansão de um parque arqueológico de temática bíblica gerido pela Elad, uma organização de colonos.

De momento o plano está suspenso, em resultado de pressão dos EUA sobre o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu.

Fakhri Abu Diab, um dirigente da comunidade local, alertou para que os constantes recontros entre os jovens de Silwan e os colonos, que alguns designam como “intifada das pedras”, poderia desencadear um levantamento geral Palestino.

“As nossas crianças estão a ser sacrificadas em nome do objectivo dos colonos de se apossar da nossa comunidade”, disse.

Num relatório recente intitulado “Espaço Inseguro”, a ACRI concluiu que na repressão sobre o arremesso de pedras a polícia faz tábua rasa dos direitos legítimos das crianças e deixa muitos menores profundamente traumatizados.

Testemunhos recolhidos por grupos defensores dos direitos revelam um padrão comum de crianças sendo presas em operações que decorrem alta noite, serem algemadas e interrogadas durante horas sem a presença quer dos pais quer de advogado. Em muitos casos as crianças têm relatado ter sido alvo de ameaças e de violência física.

No mês passado, 60 peritos israelitas - juristas e especialistas em cuidados infantis - incluindo Yehudit Karp, antigo procurador-geral adjunto, escreveram a Netanyahu condenando o comportamento da polícia.

“Causam particular preocupação”, escreveram, “ os testemunhos de crianças com idades inferiores a 12 anos, a idade mínima legal para responsabilização criminal, que foram sujeitas a inquérito e que não forma poupadas a formas violentas e agressivas de interrogatório”.

Ao contrário do que sucede na Faixa Ocidental, sujeita a um regime jurídico militar, supor-se-ia que as crianças suspeitas de arremesso de pedras em Jerusalém Leste fossem tratadas de acordo com a lei criminal israelita.

Israel anexou Jerusalém Leste no seguimento da guerra dos Seis Dias, em 1967 (violando a lei internacional). Os seus 250.000 habitantes Palestinos são tratados como residentes israelitas permanentes.

Os menores, por definição qualquer pessoa com idade inferior a 18 anos, deveriam ser interrogados por pessoal especialmente formado e apenas no decurso do dia. As crianças devem ter a possibilidade de consultar um advogado e um familiar deve estar presente.

Ronit Sela, uma porta-voz da ACRI (Associação Israelita dos Direitos Humanos), afirmou que a sua organização ficara “chocada” perante o número de crianças presas em Jerusalém Leste no decurso dos últimos meses, frequentemente por polícias à paisana.

“Ouvimos muitos testemunhos de crianças que descrevem terríveis experiências de violência, tanto no momento da prisão como no interrogatório posterior”.
Muslim, de 10 anos, vive no bairro Bustan numa casa cuja demolição foi ordenada pelas autoridades israelitas. O seu caso, incluído no relatório da ACRI, refere que este ano foi preso quarto vezes, embora tivesse idade inferior ao limite mínimo para responsabilização criminal. Da última vez, em Outubro, foi apanhado na rua por polícias à civil que saltaram de uma carrinha.

“Um dos homens agarrou-me por trás e começou a estrangular-me. O segundo agarrou a minha camisa e rasgou-a pelas costas, e o terceiro torceu-me as mãos atrás das costas e amarrou-as com tiras de plástico. “Quem atirou pedras?” perguntou um deles. “Não sei”, respondi. Começou a bater-me na cabeça e eu gritei com dores”.

Muslim foi levado preso e libertado seis horas mais tarde. Um médico local relatou que o rapaz tinha os joelhos feridos e ensanguentados e inchaços em várias partes do corpo.
O pai de Muslim, que tem dois filhos na prisão, disse que desde então o filho acorda frequentemente em pânico e perdeu a capacidade de concentração nos estudos escolares. “Estes acontecimentos arrasaram-no”.

Ronit Sela disse que o número de prisões em Silwan aumentou significativamente desde Setembro, quando um segurança privado de um colonato matou um Palestino, Samer Sirhan, e feriu dois outros.
Confrontos entre os colonos e jovens de Silwan ganharam maior visibilidade em Outubro, quando David Beeri, director da organização de colonos Elad, foi filmado quando procurava atropelar dois rapazes que apedrejavam o seu carro.

Um deles, Amran Mansour, de 12 anos, que foi lançado por cima da viatura pelo impacto, foi preso pouco tempo depois em casa da família numa operação nocturna.

Ainda em Outubro, nove deputados israelitas da direita queixaram-se de que o mini-bus em que se deslocavam foi apedrejado. Iam prestar solidariedade a Beit Yonatan, uma grande habitação na zona controlada pelos colonos em Silwan. Os tribunais israelitas ordenaram que essa habitação fosse demolida mas o presidente do município de Jerusalém, Nir Barkat, recusou cumprir a ordem.

Na véspera do ataque Yitzhak Aharonovitch, ministro da segurança pública, avisou: “Vamos fazer com que o arremesso de pedras cesse usando a força, pública ou não pública, e vamos restabelecer a tranquilidade”.

No mês passado a polícia anunciou que passará a ser utilizada com maior frequência a detenção domiciliária de crianças e que aos pais passarão a ser impostas multas que poderão atingir os 1.400 dólares.

Um grupo israelita de defesa dos direitos humanos, B’Tselem, relatou o caso de “A.S”, de 12 anos, preso às 3 da madrugada e levado a interrogatório.

“Puseram-me de joelhos voltado para a parede. De cada vez que me movia um homem à civil batia-me no pescoço com a mão…O homem mandou-me prostrar no chão e pedir perdão mas eu recusei-me e disse-lhe que apenas me ajoelho perante Alá. Entretanto sentia dores intensas nos pés e nas pernas. Senti um violento temor e comecei a tremer”.
B’Tselem declara: “É difícil conceber que as forças de segurança actuassem de forma semelhante contra menores judeus”.

Micky Rosenfeld, um porta-voz da polícia, negou que a polícia tivesse violado os direitos das crianças. E acrescentou: “Cabe aos pais a responsabilidade de fazer parar o comportamento criminoso dos seus filhos”.

Jawad Siyam, activista da comunidade local de Silwan, afirmou que o objectivo das prisões e o recrudescimento da actividade dos colonos é “tornar-nos a vida insuportável e expulsar-nos da zona”.

Os 60 peritos que escreveram a Netanyahu advertiram que a agressão sobre as crianças conduz a “distúrbios pós-traumáticos como pesadelos, insónia, descontrolo urinário e temor permanente de polícias e soldados”. Sublinharam também que as crianças sujeitas a prolongada detenção domiciliária estavam a ser privadas do seu direito à educação.

No ano passado o Comité das Nações Unidas Contra a Tortura exprimiu “profunda preocupação” face à forma como Israel trata os menores Palestinos, denunciando que Israel viola a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança, da qual é subscritor.

No decurso dos últimos 12 meses, a Defesa Internacional das Crianças tem fornecido à ONU dados acerca de mais de 100 crianças que afirmam ter sido violentadas física e psicologicamente sob custódia militar.

Artigo publicado originalmente no site O Diário.Info (http://www.odiario.info/?p=2130)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A SITUAÇÃO DAS CRIANÇAS NA PALESTINA OCUPADA


Claudio Daniel

A situação das crianças palestinas nos territórios ocupados por Israel é assustadora. Segundo relatório divulgado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha, cerca de 700 crianças são detidas todos os anos, para interrogatórios ou confinamento. As prisões em geral são feitas de noite ou de madrugada, num clima de terrorismo que inclui quebrar portas ou disparar balas para o alto, aterrorizando as crianças e suas famílias. Há registros de ocorrências de tais atos de violência em Al-aroub Camp, Bit-rima, aldeia perto de Ramallah City, Bit Ummar aldeia, Nabi Saleh, e em outras comunidades palestinas. Cerca de 35% das crianças palestinas detidas são submetidas a assédio sexual de vários tipos. A associação Alsajeen gravou depoimentos de crianças vítimas de assédio sexual, inclusive ameaças de estupro. Os maus-tratos incluem ainda espancamentos, humilhação verbal e várias formas de violência que atingiram 80% das crianças detidas, segundo o B'Tselem, Centro de Informação Israelense para os Direitos Humanos. Esta entidade aponta ainda a prática de tortura física e psicológica nos menores, como a privação do sono, golpes nas mãos, obrigar as crianças a ouvirem música em volume altíssaimo, mantê-las por várias horas sentadas em pequenas cadeiras, confinamento em celas escuras, ameaça de demolição de suas casas e até o aprisionamento de seus familiares.

Conforme o Centro de Estudos Políticos e de Desenvolvimento de Gaza, as crianças palestinas são interrogadas pela polícia sem a presença de um advogado, sem autorização legal e a maioria das confissões são apresentadas ao procurador-geral militar em até 48 horas após serem recodificadas pela polícia. O testemunho de um soldado israelense pode ser usado para comprovar as acusações, resultando em sentenças de seis meses a um ano para os acusados.

As crianças detidas nas prisões israelenses são proibidas de receber material didático ou qualquer tipo de obra educacional, especialmente nas prisões de Ofer e Majido, e são impedidas de brincar. Elas não recebem visitas de pediatra, contando apenas com o apoio de uma enfermeira. As crianças que sofrem distúrbios psicológicos não recebem qualquer tipo de assistência. Em compensação, o sistema penitenciário israelense permite o acesso a cigarros e material pornográfico, com o objetivo de matar a infância.

É importante ressaltar que todas as facções palestinas são contrárias ao recrutamento de crianças para operações armadas contra Israel.

O caso do jovem Rashid

A Defesa para as Crianças Internacional (DCI) na Palestina apresentou uma queixa ao supervisor jurídico do governo israelense e à administração das prisões israelenses, denunciando a prisão arbitrária do jovem Rashid C., de 16 anos, da aldeia de Lebres. O menino teria sofrido abuso físico, psicológico e maus-tratos por parte de agentes do serviço de inteligência israelense durante sua detenção em Al-Jaloama.

Rashid foi preso por soldados israelenses no dia 04 de novembro de 2011, sendo algemado e forçado a sentar-se sobre um piso de ferro de um veículo militar por longo tempo. Cinco horas após sua detenção, foi transferido para o Centro de Detenção em al-Jalama, onde foi interrogado, sentado numa pequena cadeira de ferro, e ameaçado de tortura, caso não cooperasse com os israelenses. O menino foi proibido de usar o banheiro enquanto era interrogado, apesar de ter solicitado isso várias vezes aos seus captores.

Após o interrogatório, Rashid ficou em confinamento solitário numa pequena cela suja e sem iluminação por 13 dias, até ser libertado.

As práticas de prisão, tortura e maus-tratos contra crianças violam os compromissos assumidos por Israel com a Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente a Convenção contra a Tortura, e a Quarta Convenção de Genebra.

O relator especial da ONU sobre tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, Juan Mendez, em seu relatório para a ONU publicado em outubro de 2011, apelou para a proibição total do confinamento de crianças em solitárias: "Considerando a dor ou sofrimento mental severo que o isolamento pode causar, ele pode ser equiparado à tortura ou aos tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes quando usado como castigo, durante a prisão preventiva, por tempo indeterminado ou por um período prolongado, para as pessoas com transtornos mentais, deficiência ou menores de idade", salientou.

GALERIA: MALIÉVITCH (III)

NOVOS POETAS BRASILEIROS (XXXIV)


INSTANTES QUE CABEM OU CAEM

(excertos)

Metáfora: Golpes espessos em vasos de barro. Eis a nova argila. Úmida lembrança de um crime perfeito. Cresce a vestimenta, roupa do espírito. Carne do imaterial. Jamais falsificar o medo.

Todas as laranjas cortadas sobre a mesa.

E eu, a descascar maçãs antes que o filme acabe.

Monolito: ovo apertado na mão. Gelado que escorre pelo canto de dentro do braço. Grade atravessada na garganta. Quadrado preto no meio da sala. O mesmo de antes, o mesmo que nunca vi.

Feito: costura de retalhos. Chão sujo de fiapos, retirar o que não é composição. Som de corte na mesa, risca de giz, alinhavar e soltar. Partir em carreira, marca do café sob o papel.

Qual o instrumento, qual o instrumento que acontece uma mulher ? Ser, até na dobra dos joelhos. Até aonde o peito voa. Ser, na mesa pequena, toalha quadriculada, no pote de manteiga, faca equilibrada e saco de pão amassado. Colecionar tentáculos. Afiar o corte da manhã. Ser, para reagir, mesmo a um custo,

Até traçar a rota e amassar as uvas:

35 doses de rum, Claire Dennis

Pai e filha, Yasujiro Ozu

Nikita, Luc Bresson

O profeta, Jacques Audiard

White material, Claire Dennis

Até estancar o fim.

Poesia: há um momento em que a vida tem um sentido insuportável: um estado de profundo excesso. O corpo ocupa o seu lugar e o campo continua guardando o sol e a noite. Lucidez depois da chuva, engrenagem nova, ligação inesperada e clara. Certa vez ganhei uma caixinha pequena com uma jóia dentro. Aquela imagem de que se guarda algo a mais do que ela mesma e por isso adquire seu último estado de beleza não me sai da cabeça. Saber que se guarda algo a mais e, no entanto, trazer em si a sobra, que se desdobra porque contém. Sobra: palavra de poesia. Estado poético e poesia: ocupação dos cantos da casa, da palavra e do corpo. Busca de pontos cegos, comprometimento com o que se vê depois da visita da verdade. Condensação, convite ao desdobramento. É sagrado porque é intermitente, entra e sai quando quer. Último passo para a fusão total, ultimo momento antes de descer rio abaixo. Aqui não habita a análise combinatória ou a arrumação de dados. Fundação. Fundição, Casa de Solda. Amálgama. Corpo gasto em outro corpo gasto. Guardião de um único sim.

Última cena do filme A Partida: escrever poesia é aquele momento exato de poder dizer: eu posso, eu posso preparar o enterro do meu próprio pai, preparei-me a vida toda para isso.

Na costura dos silêncios, recebe-se a missão de ser poeta.

Aceita-se ou não.

Poema de Angela Castelo Branco.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

GALERIA: MALIÉVITCH (II)

FLOR OCCIPITAL – A FLOR QUE FENDE O MURO


Antônio Moura

A genuína arte é também uma forma de combate. Não o combate literalmente político ou socialmente engajado de forma militante, panfletário, que, pelo contrário, é, muitas vezes, um dos maiores inimigos da arte, colocando-a numa camisa de força, numa viseira ideológica que não permite a ela, a arte, fazer aquilo que lhe é mais caro, expandir, ampliar os sentidos em todos os sentidos.

A poesia, como uma forma de arte das mais exigentes para consigo mesma, tão exigente que atravessa os tempos procurando ferir-se o mínimo possível nos espinhos envenenados de uma entidade onipresente chamado mercado, a poesia, também tem presença no mundo como elemento de forças combatentes e de resistência. Combate e resistência a quê? A um comodismo, um conformismo e um artificialismo que levam à estagnação da linguagem ou a uma espécie de beletrismo, um modo malandro de agradar uma platéia de “bom gosto” ou um formalismo asséptico que garante a seus autores um lugar na galeria dos “bem sucedidos”, sem correr nenhum risco, já que se satisfazem em repetir padrões estabelecidos e consagrados ou procedimentos formais vazios onde parece não correr uma gota de sangue, um lampejo de vida pulsante, e, no fim das contas, todos de resultados não menos previsíveis. Enfim, um coro apático cantando para os seus próprios aplausos.

Agora nos perguntamos, porque este breve preâmbulo que de forma alusiva dirige-se a uma boa parte da situação da poesia brasileira atual? Porque a aparição de um poema que contradiz toda esta situação de apatia acima descrita é digna nota. O poema em questão é Flor Occipital, de Claudio Daniel. Um poema para o qual não dedicarei nenhuma análise escolar, acadêmica, nenhum tipo de dissecação formal, mas uma celebração, por tratar-se de uma obra de pleno vigor poético, daquelas que tem por natureza se contrapor, o que é mais que saudável, eu diria até vital para o movimento das transformações dentro e fora da linguagem. O poema aqui citado e celebrado não é exemplo de defesa de nenhuma causa social, ambiental ou política, pelo contrário é um poema que se cria e se recria livre como uma nuvem, mas que é obra que parte para o enfrentamento, para o desafio de abrir novas sendas no campo da linguagem, ultrapassando limites do bem aceito, do tão sagrado vocabulário poético e, partindo da implosão da linguagem, atinge os vários dispositivos de rebelião de forma implícita mas expressiva.

Como o próprio poema diz logo em seu inicio, numa espécie de auto-retrato do texto “Uma escrita de ossos, nervos, / orbes, lembranças”, Flor Occipital traz em seu cerne o sabor do perigo, o risco da aventura da criação que, a meu ver, é essencial para que toda obra de arte surja e se insurja nos campos de sombra da vida, jogando novas luzes, aqui e ali, abrindo brechas nos muros da existência e não apenas existindo como um artefato verbal, que também não pode deixar de ser e o é.

Uma arte para se fazer presente no mundo – no nosso caso, a poesia – e ter algum poder de interferência na realidade precisa ir além de suas próprias fronteiras, precisa “Jogar-se na sombra em busca do íntimo escaravelho/tatuado na buceta/da Senhora Linguagem./Jogar-se na sombra porque pedra é mais do que grito é mais do que esquilo/ é mais do que o turvo uivo da lacraia./Escrever poesia não é um trabalho para homens delicados”.

O poema Flor Occipital dá-se a este jogo de vida morte, a este trabalho onde tudo está em jogo, desde a estabilidade do pensamento até a estruturação ou desestruturação do que se fala e de como se fala. E como a palavra já é uma acontecimento, um patamar da realidade, subvertê-la, violar seu íntimo, já é uma forma de subversão da realidade, principalmente quando se trata de uma forma verbal que aguça, sacode e anima o lado fantoche do ser humano com um caleidoscópio vibrante de emoções amortecidas, tornando vivo e redivivo este espantalho urbano guiado pelas ruas.

O poema Flor Occipital, em sua escrita-escavação, traz à tona, à superfície do homem, o homem não-rebanho que tanto agradava a Nietzsche.

O poeta Claudio Daniel, ele mesmo, declarou em entrevista que todo verdadeiro artista é de certa forma um artista experimental, pois jamais se conforma com o estabelecido. Eu só tenho a concordar com sua afirmação e dizer que Flor Occipital vale por suas “mandalas de ternura e escárnio” e que na arte, assim como na vida, “estão todos os jogos, todos os mapas, todas as palavras, inclusive aquelas por inventar.


Antônio Moura (Belém 1964). É autor de Dez (1996), Hong Kong (1999), Rio Silêncio (2004), A Sombra da Ausência (2009).

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

GALERIA: MALIÉVITCH (I)



NOVOS POETAS BRASILEIROS (XXXIII)


Os olhos de mim
janelas de um mundo outro
vejo o dentro
espaço fecundo
pertencente ao interno
céu profundo

Lá fora dizem as luzes
de tudo o que não me importa
o sem-sentido
em que não me confundo
Falam os olhos de mim
de uma esfera de segundos

tornados milênios
perdidos num tempo
secreto, íntimo, profuso

Melhor assim
os olhos de mim
cegos ao escuro

* * *

DANÇA-pulso
fulgor
busca evanescente
em ritmo e cor

nos traz de longe
do deserto da fome
da morte ensinada
das portas da culpa
da ausência autoproclamada

dança
poema do corpo para a alma

Poemas de Rosane Carneiro, do livro Corpoestranho (Rio de Janeiro: Editora da Palavra, 2009.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

CASA DAS ROSAS: UM PATRIMÔNIO CULTURAL DA COMUNIDADE






A Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura – instalada em 2004, no casarão da Avenida Paulista projetado na década de 1920 pelo arquiteto Ramos de Azevedo, é um centro de difusão da poesia brasileira e internacional, que realiza periodicamente cursos, palestras, oficinas de criação literária, festivais de poesia e outras atividades, com espírito democrático, aberto a todas as tendências de criação estética. Poetas e artistas de renome já se apresentaram em eventos na Casa das Rosas, como Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Tom Zé, Francisco Alvim, Alice Ruiz, Glauco Mattoso, Claudio Willer, assim como poetas jovens, que têm a oportunidade de lerem os seus poemas ao público, nos saraus livres. A Casa das Rosas já promoveu ou participou em parceria de eventos internacionais, que trouxeram ao Brasil poetas expressivos da América Latina, Portugal, Espanha e África, como os festivais Tordesilhas, Simpoesia, Mar Aberto, Kantoluanda, que contaram com a presença de poetas reconhecidos no campo internacional, como Roberto Echavarren, Joan Navarro, Victor Sosa e muitos outros.

A Casa das Rosas abriga a biblioteca de Haroldo de Campos, com cerca de 30 mil títulos, para consulta no local, e uma biblioteca circulante, dedicada à poesia, cujos títulos podem ser retirados, mediante inscrição. A instituição tem promovido eventos regulares dedicados à obra de Haroldo de Campos, como o ciclo Hora H, que traz poetas, músicos, artistas visuais, tradutores, professores, para debates e performances artísticas, contribuindo para a reflexão e difusão da obra do poeta paulista, um dos criadores do movimento da Poesia Concreta. Todas estas iniciativas fazem da Casa das Rosas um importante marco da difusão da poesia de qualidade, de várias tendências e estilos, junto à comunidade, trabalho este que já é reconhecido, inclusive, por poetas e estudiosos de literatura dos Estados Unidos, Europa e América Latina, que citam a Casa em artigos publicados em diversas revistas.

Desde o início, a Casa das Rosas está sob a direção do poeta, professor e crítico literário Frederico Barbosa, que integra as principais antologias de poesia brasileira contemporânea e teve o seu trabalho reconhecido por críticos como Antonio Candido, Luiz Costa Lima, Sebastião Uchoa Leite, entre outros. Frederico Barbosa integra a coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos até o seu falecimento, que é a mais importante coleção de poesia editada no Brasil. O trabalho de Frederico Barbosa como diretor da Casa das Rosas é sério, responsável, consistente, inovador e conta com o respaldo de todos aqueles que estão seriamente comprometidos com a poesia e a literatura neste país.

Claudio Daniel

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012