sexta-feira, 15 de outubro de 2010

GALERIA: IMAGENS DO JAPÃO (II)


DOIS TANKAS

Na minha terra natal
As flores ainda cheiram
Como antigamente

Nada porém sabemos
Do coração dos homens.

(Anônimo)

Na palma da minha mão
Um pouco de água onde a lua,
Breve, se refletiu.

Terá sido mesmo a lua?
Assim passei por este mundo.

(Ki No Tsurayuki)

Traduções: Casimiro de Brito

terça-feira, 12 de outubro de 2010

GALERIA: IMAGENS DO JAPÃO (I)


BUSHIDO, O CÓDIGO DE HONRA DOS SAMURAIS

Eu não tenho pais,
Faço do céu e da terra meus pais.

Eu não tenho casa,
Faço do mundo minha casa.

Eu não tenho poder divino,
Faço da honestidade meu poder divino.

Eu não tenho pretensões,
Faço da minha disciplina minha pretensão.

Eu não tenho poder mágico,
Faço da personalidade meu poder mágico.

Eu não tenho vida ou morte,
Faço das duas uma, tenho vida e morte.

Eu não tenho visão,
Faço da luz do relâmpago a minha visão.

Eu não tenho ouvidos,
Faço da sensibilidade meus ouvidos.

Eu não tenho língua,
Faço da prontidão minha língua.

Eu não tenho leis,
Faço da autodefesa minha lei.

Eu não tenho estratégia,
Faço da liberdade de matar e ressucitar minha estratégia.

Eu não tenho projetos,
Faço do apego às oportunidades meus projetos.

Eu não tenho princípios,
Faço da adaptação a todas as circunstâncias meu princípio.

Eu não tenho táticas,
Faço da escassez e da abundância minha tática.

Eu não tenho talento,
Faço da minha imaginação meu talento.

Eu não tenho amigos,
Faço da minha mente minha única amiga.

Eu não tenho inimigos,
Faço da distração meu inimigo.

Eu não tenho armadura,
Faço da benevolência minha armadura.

Eu não tenho castelo,
Faço do caráter meu castelo.

Eu não tenho espada,
Faço da perseverança minha espada.

domingo, 10 de outubro de 2010

O bastão curto, ou , faz parte das técnicas de armas do Aikidô, assim como a espada de madeira (bokken), a espada de metal (kataná) e a faca de madeira (tanto). O treino com armas ajuda a entender melhor os movimentos a mãos nuas (taijutsu), além de trabalhar muito com a concentração, a percepção, a intuição, a sensibilidade, as noções de espaço e tempo e o fluxo de energia a nossa volta. São armas para o autoconhecimento, para a busca da harmonia interna e do equilíbrio, apesar de sua origem nas artes da guerra (bujutsu).

GALERIA: MORIHEI UESHIBA


O QUE ESTOU LENDO...

Um livro muito interessante que estou lendo é A Filosofia do Aikidô, de John Stevens (São Paulo: Cultrix, 2001). Não se trata de um trabalho sobre o treino da arte marcial ou de suas técnicas, mas de sua sabedoria, que descende da tradição cultural, religiosa e filosófica japonesa (xintoísmo, zen-budismo, bujutsu etc.). Morihei Ueshiba, o criador do Aikidô, tinha um pensamento pacifista, ecológico e holístico, opunha-se à política nacionalista e militarista, à destruição do meio ambiente, à exploração dos trabalhadores pelo capitalismo e tinha uma visão ao mesmo tempo mística, social e política. Ele mudou a concepção tradicional do bushidô: o importante, agora, para o guerreiro, não deveria ser o ideal da morte gloriosa, mas a afirmação da vida e a proteção da comunidade. O Sensei acreditava que o Aikidô é uma arte para todos os povos e países, sem distinção de sexo, raça ou religião. Morihei Ueshiba foi também poeta, e muitos de seus ensinamentos foram transmitidos na forma de poemas.

sábado, 9 de outubro de 2010

NÓS ESTAMOS COM A DILMA








“É preciso transformar a vida para cantá-la em seguida”

— Vladimir Maiakovski

O Brasil tem hoje a oportunidade histórica de escolher entre dois caminhos.

O primeiro é o do crescimento econômico aliado a políticas de participação social, com distribuição de renda, respeito às minorias, aos jovens, às mulheres, ao meio ambiente, aos direitos humanos e à cultura. Um caminho de soberania e independência nacional em que a justiça social está colocada em primeiro lugar.

O segundo é o caminho da exclusão, de uma política econômica voltada às privatizações, à extinção de direitos trabalhistas, à defesa dos privilégios dos grandes grupos empresariais, enfim, um caminho de concentração de riqueza e de menosprezo às demandas das classes trabalhadoras.

Nós, poetas e escritores, acreditamos que o Brasil está passando por um profundo processo de mudança desde a eleição de Lula para a presidência da república e queremos a continuidade dessa jornada.

Por essa razão, estamos com Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), que representa um compromisso de luta e a continuidade da esperança.


(Confiram os nomes dos escritores que já assinaram este manifesto em apoio à candidatura de Dilma Rousseff na página http://dilma13brasil.blogspot.com/)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

GALERIA: CÉSAR VALLEJO (II)


MAIS VALLEJO

EPÍSTOLA AOS TRANSEUNTES

Recomeço meu dia de coelho,
minha noite de elefante em repouso.

E, para mim, digo:
esta é minha imensidade em bruto, a cântaros,
este meu grato peso, que me buscara abaixo para pássaro;
este é meu braço
que por sua conta recusou ser asa,
estas são minhas sagradas escrituras,
estes meus alarmados testículos.

Lúgubre ilha me iluminará continental
enquanto o capitólio se apóie em minha íntima derrocada
e a assembléia em lanças clausure meu desfile.

Porém quando eu morrer
de vida e não de tempo
quando forem duas minhas duas maletas,
este há de ser meu estômago em que coube minha lâmpada
em pedaços,
esta aquela cabeça que expiou os tormentos do círculo
em meus passos,
estes esses vermes que o coração contou por unidades,
este há de ser meu corpo solidário
pelo qual vela a alma individual; este há de ser
meu umbigo em que matei meus piolhos natos,
esta minha coisa coisa, minha coisa tremebunda.
Enquanto isso, convulsiva, asperamente,
convalesce meu freio,
sofrendo como sofro da linguagem direta do leão;
e, posto que existi entre duas potestades de tijolo,
convalesço eu mesmo, sorrindo de meus lábios.

Tradução: José Arnaldo Villar

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

LIBERDADE DE IMPRENSA?

Liberdade de imprensa, no Brasil, é a liberdade dos donos dos jornais, que impõem a sua versão dos fatos como sendo a "verdade". Quando um jornalista ousa desafiar essa versão e escreve algo que contraria a opinião de seus patrões, é censurado ou demitido, como aconteceu agora com Maria Rita Kehl, dispensada do jornal O Estado de S. Paulo por causa do artigo que segue abaixo. Esta é a "democracia" dos tucanos e da mídia.


DOIS PESOS...

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.

GALERIA: CÉSAR VALLEJO


UM POEMA DE CÉSAR VALLEJO

TRILCE, LX

Es de madera mi paciência,
sorda, vegetal.

Día que has sido puro, niño, inútil,
que naciste desnudo, las léguas
de tu marcha, van corriendo sobre
tus doce extremidades, ese doblez ceñudo
que después deshiláchase
en no se sabe qué últimos pañales.

Constelado de hemisférios de grumo,
bajo eternas américas inéditas, tu gran plumaje,
te partes y me dejas, sin tu emoción ambígua,
sin tu nudo de sueños, domingo.

Y se apolilla mi paciência,
y me vuelvo a exclamar: ¡Cuándo vendrá
el domingo bocón y mudo del sepulcro;
cuándo vendrá a cargar este sábado
de harapos, esta horrible sutura
del placer que nos engendra sin querer,
y el placer que nos DestieRRA!


TRILCE, LX

É de madeira minha paciência,
surda, vegetal.

Dia que tens sido puro, infantil, inútil
que nasceste nu, as léguas
de tua marcha, vão correndo sobre
tuas doze extremidades, esse vinco cenhoso
que depois desfia-se
em não se sabe que últimas fraldas.

Constelado de hemisférios de grumo,
sob eternas américas inéditas, tua grande plumagem,
te partes e me deixas, sem tua emoção ambígua,
sem teu nó de sonhos, domingo.

E se rói minha paciência,
e eu volto a exclamar: Quando virá
o domingo falastrão e mudo do sepulcro;
quando virá levar este sábado
de farrapos, esta horrível sutura
do prazer que nos engendra sem querer,
e o prazer que nos DesteRRA!


Tradução: Claudio Daniel

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

FESTIVAL ARTIMANHAS POÉTICAS 2010

A segunda edição do festival literário Artimanhas Poéticas será realizada nos dias 13 e 14 de novembro (sábado e domingo) no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro (RJ), com curadoria dos poetas Claudio Daniel e Gabriela Marcondes. O evento contará com a participação de críticos literários como Heloísa Buarque de Hollanda, poetas como Claudia Roquette-Pinto, Arnaldo Antunes, Frederico Barbosa, André Vallias e os portugueses Jorge Melícias e Luís Serguilha, entre outros. O festival incluirá palestras, debates, recitais, apresentação de poesia visual e videopoesia, lançamentos e performances.

Programação:

Dia 13 de novembro

14h

Debate:
A poesia escrita em outras esferas. Com Heloísa Buarque de Hollanda, Gabriela Marcondes e André Vallias.

Mediação: Claudio Daniel.

15h

Recital/performance: Gabriela Marcondes, André Vallias, Victor Paes, Alice Santana, Domingos Guimarães, Valeska de Aguirre e Ana Costa Ribeiro.

Projeção: poemas visuais e poemas-objeto de Arnaldo Antunes, Elson Fróes, Gabriela Marcondes, André Vallias, Marcelo Sahea e Paulo de Toledo.

16h

Debate: O diálogo poético entre o Brasil e Portugal: conquistas e desafios. Com Luís Serguilha, Jorge Melícias, Claudio Daniel e Marcus Mota.

Mediação: Leonardo Gandolfi.

Lançamento: livros dos selos Arqueria, Multifoco, Azougue e Lumme Editor.

18h

Recital: Claudia Roquette-Pinto, Claudio Daniel, Casé Lontra Marques, Camila Vardarac, Frederico Barbosa, Marcelo Tápia, Donny Correia, Lígia Dabul, Jorge Melícias.

Dia 14 de novembro:

14h

Palestra: A poesia brasileira hoje. Com Frederico Barbosa.

Lançamento: livros dos selos Arqueria, Multifoco, Azougue e Lumme Editor.

16h

Debate:
A importância das organizações sociais para a para a gestão da cultura. Com Marcelo Tápia e Donny Correia.
Mediação: Frederico Barbosa.

18h

Exibição do filme Cidade Resposta, de Márcio-André.

18h15

Recital
: Lígia Dabul, Sylvio Back, Thiago Ponce de Moraes, Pablo Araújo, Flávio Castro, Masé Lemos, Dado Amaral, Anderson Fonseca.

Local: Centro Cultural da Justiça Federal, Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro (RJ). CEP 20040-009.

Apoio: Centro Cultural da Justiça Federal, Casa das Rosas, Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, Confraria do Vento, Portal Literal e Zunái, Revista de Poesia e Debates.

Confira a edição de 2009 do evento na página http://artimamhas.blogspot.com/

sábado, 2 de outubro de 2010

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

GALERIA: JOHN KEATS


UM POEMA DE JOHN KEATS

ODE A UMA URNA HELÁDICA

Vós ainda indeliciada noiva da quietude,
vós, afilhada do Silêncio e do Tempo lentíssimo,
historiadora silvática, que assim podeis expressar
um flóreo relato melhor do que nossa rima:
qual por folhas bordada lenda sobrevoa forma
vossa, por deidades ou mortais, ou ambos,
em Tempe ou ravinas da Arcádia? Que homens
ou deuses são estes? quais relutantes donzelas?
Qual perseguição louca? Qual luta por escapar-se?
Quais tubas e címbalos? Qual êxtase selvagem?

Melodias ouvidas são doces, mas as que não o foram
mais doces ainda; assim, vós, tubas macias, tocais;
não à sensual oitiva, porém, mais encarecidamente,
ao espírito silvidos sem som: bela jovem
sob as árvores, não podeis emitir sequer um tom
nem jamais serão tais árvores decíduas;
franco Amante, nunca, nunca podereis beijá-la,
ainda que perto de seu bem -mas não vos aborreceis:
ela não pode desaparecer, mesmo que não a atingirdes,
pois para sempre a amareis, e ela sempre bela!

Ah felizes, felizes cachos! que não podeis estender
vossos racimos, nem acenar adeuses à Primavera;
e, feliz, feliz melodista, despreocupado,
para sempre a assoprar sempre novas músicas;
Mais amor feliz! e mais, amor mais feliz!
para sempre cálido e ainda por ser gozado,
para sempre pulsante e para sempre jovem;
todos respirando a humana paixão no mais alto,
que edulcora ao máximo o coração dolente,
e faz-nos chamejar a fronte, e a língua em pergaminho.

Quem são estes que vieram ao sacrifício?
a qual verde altar, Oh sacerdote misterioso,
dirigistes essas vitelas que se encolhem aos céus,
com flancos sedosos e cobertos por grinaldas?
Qual vilarejo à margem de rio ou litoral,
ou ereto na montanha ao pé de cidadela,
ter-se-á esvaziado de suas gentes, na manhã pia?
E, vilarejo, tuas ruas para todo o sempre
serão silentes; e vivalma haverá, que diga
por que desolado estás, que venha a ti retornar.

Ó forma ática! formosa atitude! com rendilhados
de homens e damiselas de mármore entremeados,
com troncos de bosques e sementes pisadas;
Vós, forma silenciosa! aguçais nosso pensar
para a eternidade. Pastoral fria!
Quando a velhice devastar esta geração,
permanecereis, em meio a cuitas outras
que as nossas, amiga do homem, a quem dizeis:
"O veraz é belo e o belo, veraz, -- isto é tudo
por saber na terra, e o que deveis saber".

Tradução: Horácio Costa

(Leia outras traduções de Keats na edição de outubro da Zunái.)