
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
UM CONTO INÉDITO DE WILSON BUENO
SOMBRUS
É que em Sombrus vivem e latem, noite e dia, os cães selvagens do Arquipélago, que ali fizeram morada não se sabe igualmente como e muito menos por meio de quem. Aliás, pouco se sabe da história primeira de Sombrus, suja, sem dúvida, de lendas sinistras e ainda mais sinistros eventos de sangue e mar, sal e insistência.
Não convém, de nenhum modo, entretanto, ficar aqui lembrando a história pregressa de uma ilha que emergiu das águas do Pacífico feito uma flor monstruosa e triste. O que vale anotar é o presente. Este se dá, em Sombrus, de forma sumamente enigmática – as horas passam não em direção ao futuro, mas num lentíssimo escoar-se passado e saudade afora. Herança, odores, perfumes – esvaídos nas dobras dos dias, puro reverso, notícias longínquas, ecos de tardes soterradas pelo Tempo.
Em Sombrus, primeiro vêm as noites e depois delas o entardecer e, na sequência, a própria tarde, a manhã, o alvorecer, a madrugada inteira, para só então sobrevir de novo a noite antes da meia-noite, a lua e as estrelas.
É sempre assim. Conosco também retornam as faces que a mó dos anos puiu e gastou, e, tudo o que era sulcos e rugas reverte, o que é ainda mais inquietante, até uma temida infância que ameaça as gentes com o retorno ao útero e do útero ao aéreo nada de que fomos feitos um dia. A morte de não haver?
Contudo, os cães de Sombrus são os únicos seres que alcançam vencer a marcha à ré do Tempo. Nascem, crescem, procriam e morrem – os alvos ossos nas praias desertas; cada vez mais desertas.
Ninguém até hoje conseguiu explicar porque de toda ilha são os únicos seres vivos capazes do que chamamos, em Sombrus, ou fora dela, escassamente, de futuro.
Então é que se dá de Sombrus o inenarrável encanto – os cães, diz a lenda, são os testemunhos fiéis de que, mesmo ao contrário, os anos andam e andam, consumindo seres e coisas, vegetais e pedras.
Por isso, aturdidos, os cães latem, tarde da noite, e vão aos bandos pelas praias da ilha, como se sentissem a dor do Tempo atravessada na garganta.
Isso um dia vimos e ouvimos, nós, os navegadores de Hérida, há muitos e muitos séculos. Desconhecemos apenas se, pelos indizíveis meses que passamos ao mar, e o nenhum calendário, eles, os séculos, se encontravam ou não ao revés.
Perde-se na noite dos tempos a memória do primeiro navegador que desembarcou na ilha de Sombrus. Não se sabe quando isso se deu nem a nossa humanidade foi capaz de buscar mesmo a data aproximada da arriscada façanha.
É que em Sombrus vivem e latem, noite e dia, os cães selvagens do Arquipélago, que ali fizeram morada não se sabe igualmente como e muito menos por meio de quem. Aliás, pouco se sabe da história primeira de Sombrus, suja, sem dúvida, de lendas sinistras e ainda mais sinistros eventos de sangue e mar, sal e insistência.
Não convém, de nenhum modo, entretanto, ficar aqui lembrando a história pregressa de uma ilha que emergiu das águas do Pacífico feito uma flor monstruosa e triste. O que vale anotar é o presente. Este se dá, em Sombrus, de forma sumamente enigmática – as horas passam não em direção ao futuro, mas num lentíssimo escoar-se passado e saudade afora. Herança, odores, perfumes – esvaídos nas dobras dos dias, puro reverso, notícias longínquas, ecos de tardes soterradas pelo Tempo.
Em Sombrus, primeiro vêm as noites e depois delas o entardecer e, na sequência, a própria tarde, a manhã, o alvorecer, a madrugada inteira, para só então sobrevir de novo a noite antes da meia-noite, a lua e as estrelas.
É sempre assim. Conosco também retornam as faces que a mó dos anos puiu e gastou, e, tudo o que era sulcos e rugas reverte, o que é ainda mais inquietante, até uma temida infância que ameaça as gentes com o retorno ao útero e do útero ao aéreo nada de que fomos feitos um dia. A morte de não haver?
Contudo, os cães de Sombrus são os únicos seres que alcançam vencer a marcha à ré do Tempo. Nascem, crescem, procriam e morrem – os alvos ossos nas praias desertas; cada vez mais desertas.
Ninguém até hoje conseguiu explicar porque de toda ilha são os únicos seres vivos capazes do que chamamos, em Sombrus, ou fora dela, escassamente, de futuro.
Então é que se dá de Sombrus o inenarrável encanto – os cães, diz a lenda, são os testemunhos fiéis de que, mesmo ao contrário, os anos andam e andam, consumindo seres e coisas, vegetais e pedras.
Por isso, aturdidos, os cães latem, tarde da noite, e vão aos bandos pelas praias da ilha, como se sentissem a dor do Tempo atravessada na garganta.
Isso um dia vimos e ouvimos, nós, os navegadores de Hérida, há muitos e muitos séculos. Desconhecemos apenas se, pelos indizíveis meses que passamos ao mar, e o nenhum calendário, eles, os séculos, se encontravam ou não ao revés.
(Do livro de contos Ilhas, ainda inédito, que o pintor das tardes da floresta enviou para mim, semanas antes de virar constelação. Saudades, mano velho!)
domingo, 8 de agosto de 2010
ME ROUBARAM UNS DIAS CONTADOS
Só estou vivo neste livro. No mundo real, sou um zumbi. Um vampiro. Uma criatura estranha. O profeta Gentileza é que estava certo: “Gentileza gera gentileza”. A ordem das gentilezas. A ordem das sutilezas. Do caos. Das idéias. Dos pensamentos. A Ordem dos pensamentos. A Ordem do Carmo. Rodrigo é beato. Acredita em deuses. Cristo. Iemanjá. Apolo. Afrodite. Ateneia. Exu. Afrodite. Mickey Mouse. Chaves. Eu acredito que tudo pode ser Deus. Tudo que vem do humano é Deus. Uma geladeira. Uma máquina de lavar. Conheci deuses na infância. Garotos que morreram. Solidões inóspitas que só se davam comigo. Café com leite. A utopia é importante. Escrever uma página hoje já é uma utopia. O futuro manda lembranças. As lambanças que fiz, que farei. Eu sofro. Sofro de um sopro de vida.
(Do livro Me roubaram uns dias contados, de Rodrigo de Souza Leão. Rio de Janeiro: Record, 2010.)
(Do livro Me roubaram uns dias contados, de Rodrigo de Souza Leão. Rio de Janeiro: Record, 2010.)
sábado, 7 de agosto de 2010
UM POEMA DE ANDRÉ BRETON
A UNIÃO LIVRE
Minha mulher com o cabelo de fogo de lenha
Com pensamentos de relâmpagos de calor
De talhe de ampulheta
Minha mulher com a talhe de lontra entre os dentes de tigre
Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza
Com dentes de rastro de camundongo sobre a terra branca
Com língua de âmbar e de vidro em atritos
Minha mulher com língua de hóstia apunhalada
Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de inacreditável pedra
Minha mulher com cílios de lápis de cor das crianças
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E de vapor nos vidros
Minha mulher com espáduas de champanhe
E de fonte com cabeças de delfins sob o gelo
Minha mulher com pulsos de fósforos
Minha mulher com dedos de acaso e de ás de copas
De dedos de feno ceifado
Minha mulher com axilas de marta e de faia
De noite de São João
De ligustro e de ninho de carás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E de mistura do trigo e do moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e de desespero
Minha mulher com panturrilhas de polpa de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de chaveiros com pés de calafates que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta de Vale d’Ouro
De encontro no leito mesmo da torrente
Com seios de noite
Minha mulher com seios de toupeira marinha
Minha mulher com seios de crisol de rubis
Com seios de espectro da rosa sob o orvalho
Minha mulher com ventre de desdobra de leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com dorso de pássaro que foge vertical
Com dorso de mercúrio
Com dorso de luz
Com a nuca de pedra rolada e de giz molhado
E de queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com ancas de chalupa
Com ancas de lustre e de penas de flecha
E de caule de plumas de pavão branco
De balança insensível
Minha mulher com nádegas de arenito e de amianto
Minha mulher com nádegas de dorso de cisne
Minha mulher com nádegas de primavera
Com sexo de gladíolo
Minha mulher com sexo de mina de ouro e de ornitorrinco
Minha mulher com sexo de algas e de bombons antigos
Minha mulher com sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e de agulha magnetizada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar de terra e de fogo.
Tradução: Priscila Manhães e Carlos Eduardo Ortolan
Minha mulher com o cabelo de fogo de lenha
Com pensamentos de relâmpagos de calor
De talhe de ampulheta
Minha mulher com a talhe de lontra entre os dentes de tigre
Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza
Com dentes de rastro de camundongo sobre a terra branca
Com língua de âmbar e de vidro em atritos
Minha mulher com língua de hóstia apunhalada
Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos
Com a língua de inacreditável pedra
Minha mulher com cílios de lápis de cor das crianças
Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha
Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa
E de vapor nos vidros
Minha mulher com espáduas de champanhe
E de fonte com cabeças de delfins sob o gelo
Minha mulher com pulsos de fósforos
Minha mulher com dedos de acaso e de ás de copas
De dedos de feno ceifado
Minha mulher com axilas de marta e de faia
De noite de São João
De ligustro e de ninho de carás
Com braços de espuma de mar e de eclusa
E de mistura do trigo e do moinho
Minha mulher com pernas de foguete
Com movimentos de relojoaria e de desespero
Minha mulher com panturrilhas de polpa de sabugueiro
Minha mulher com pés de iniciais
Com pés de chaveiros com pés de calafates que bebem
Minha mulher com pescoço de cevada perolada
Minha mulher com a garganta de Vale d’Ouro
De encontro no leito mesmo da torrente
Com seios de noite
Minha mulher com seios de toupeira marinha
Minha mulher com seios de crisol de rubis
Com seios de espectro da rosa sob o orvalho
Minha mulher com ventre de desdobra de leque dos dias
Com ventre de garra gigante
Minha mulher com dorso de pássaro que foge vertical
Com dorso de mercúrio
Com dorso de luz
Com a nuca de pedra rolada e de giz molhado
E de queda de um copo do qual se acaba de beber
Minha mulher com ancas de chalupa
Com ancas de lustre e de penas de flecha
E de caule de plumas de pavão branco
De balança insensível
Minha mulher com nádegas de arenito e de amianto
Minha mulher com nádegas de dorso de cisne
Minha mulher com nádegas de primavera
Com sexo de gladíolo
Minha mulher com sexo de mina de ouro e de ornitorrinco
Minha mulher com sexo de algas e de bombons antigos
Minha mulher com sexo de espelho
Minha mulher com olhos cheios de lágrimas
Com olhos de panóplia violeta e de agulha magnetizada
Minha mulher com olhos de savana
Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão
Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado
Com olhos de nível d’água de nível do ar de terra e de fogo.
Tradução: Priscila Manhães e Carlos Eduardo Ortolan
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Caros, a reunião do Ministério da Cultura com os escritores para discutir as propostas de reforma da Lei de Direito Autoral está sendo transferida. O local e horário ainda não foram definidos.
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
TRÊS POEMAS DE KHLÉBNIKOV
TREVAS
Quando não aguento mais o tédio,
Saio para o sol em disparada,
Asa esvoaçando pelo éter,
A virtude e o vício misturados.
Morro, eu morro, o sangue escorre a cântaros
Na couraça do meu corpo.
Caio em mim – e então, de novo,
Só enxergo a guerra em teu olhar.
1907 - 1914
CANÇÃO DE UM CONFUSO
Eu, na pintura de pedra,
Vejo agulhas de pinheiro.
Desossada me parece aquela mão,
Quando bate violenta em minha entranha.
Mas tão cedo assim? Estranho o hóspede
Que adentrou a casa ao pôr-do-sol:
Esqueleto erguendo lento os longos braços,
Para encher de estrelas a sala de estar.
1913
* * *
A noite, coalhada de constelações.
Que destinos, considerações,
Brilhas, livro, na amplidão do escuro
Fundo? Liberdade ou jugo?
Qual a parte que me cabe deste
Latifúndio-céu de estrelas?
1912
Tradução: André Vallias
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
DOIS POEMAS DE HENRI MICHAUX
Labirinto, a vida, labirinto, a morte
Labirinto sem fim, diz o Mestre de Ho.
Tudo afunda, nada libera
O suicida renasce para um novo sofrimento.
A prisão termina em uma prisão
O corredor termina em outro corredor:
Aquele que crê desenrolar o rolo de sua vida
Não desenrola nada em absoluto.
Nada desemboca em nenhuma parte
Os séculos vivem também sob a terra, diz o Mestre de Ho.
* * *
Sem que eles falem, lapidado por seus pensamentos
Mais um dia de menor nível. Gestos sem sombras
A qual século é preciso se inclinar para perceber?
Samambaias, samambaias, diríamos suspiros, por toda parte, suspiros
O vento espalha as folhas soltas
Força das macas, há cento e oitenta mil anos já se nascia
para apodrecer, para perecer, para sofrer
Este dia, quando éramos semelhantesquantidade de semelhantes
dia em que o vento se tragadia de pensamentos insustentáveis
Vejo os homens imóveis
deitados nas canoas
Partir.
De qualquer maneira, partir.
A longa lâmina do fluxo d´água deterá a palavra.
Tradução: Daniela Osvald Ramos
Labirinto sem fim, diz o Mestre de Ho.
Tudo afunda, nada libera
O suicida renasce para um novo sofrimento.
A prisão termina em uma prisão
O corredor termina em outro corredor:
Aquele que crê desenrolar o rolo de sua vida
Não desenrola nada em absoluto.
Nada desemboca em nenhuma parte
Os séculos vivem também sob a terra, diz o Mestre de Ho.
* * *
Sem que eles falem, lapidado por seus pensamentos
Mais um dia de menor nível. Gestos sem sombras
A qual século é preciso se inclinar para perceber?
Samambaias, samambaias, diríamos suspiros, por toda parte, suspiros
O vento espalha as folhas soltas
Força das macas, há cento e oitenta mil anos já se nascia
para apodrecer, para perecer, para sofrer
Este dia, quando éramos semelhantesquantidade de semelhantes
dia em que o vento se tragadia de pensamentos insustentáveis
Vejo os homens imóveis
deitados nas canoas
Partir.
De qualquer maneira, partir.
A longa lâmina do fluxo d´água deterá a palavra.
Tradução: Daniela Osvald Ramos
terça-feira, 3 de agosto de 2010
UM POEMA DE GAO GE
PAISAGEM DE MACAU
Uma fera agachada na sombra de um castelo
são os seus olhos faróis a sondar todas as direcções
Um moinho de vento invertido faz lembrar a cruz brilhante
O século XIX atirou para o Oriente as lanças
cujos gumes cruzados reflectem os raios da santa cidade
A ponte da longa vida foi reduzida entre tintas de uma pintura chinesa
e a noite torna-se mais palpável no colo de uma mulher lasciva
A graça do vento marítimo é a ilusão do diamante na ágata negra
e as sombras que se movimentam nos raios giratórios
mantêm entre si a menor distância para que disparem um contra o outro
Passo a passo, a história tem vindo a entrar numa estação mais excitante
A redonda cama eléctrica tenta desgastar os limites da sua tipologia
O Deus que protege a Praça do Cavalo de Cobre saiu do memorial
ainda numa postura de dom Quixote
e os alcoviteiros adaptaram histórias eróticas com as lendas do herói
São histórias que se repetem todas as noites
porque nas gaiolas de luxo vive-se um ambiente sensual
em que os homens sobrevivem com uma sensação amorosa
Mas a questão é como manter a eterna erecção
e como fortalecer o regime representativo com o bálsamo mágico da Índia
"O jogo moderado dá prazer" é justificação do público para se divertir
Os "Come-moedas" funcionam ruidosamente para criar efeitos publicitários
Dominó, grande ou pequeno, roleta e bah ka lo deslumbram os olhos
Desde os assaltos dos piratas até aos desafios contra o rei do cassino
tudo é uma combinação da civilização ocidental e da sabedoria oriental
A fome e o sexo são dois eixos da natureza
Hoje são os novos confucionistas que lideram a moda
Há quem se retire da rede de camarões
Há quem finja o porco para devorar o tigre
Há quem apanhe a galinha de patas amarelas
Há quem se torne no caranguejo de Dai Zah
Aqui se pode provar um vasto leque de especialidades
desde os bolinhos a vapor de Shangai
até as pamonhas com carne salgada do Território
O gosto tailandês e a delícia filipina fazem crescer água na boca
Não importa quem seja o cliente
compatriota da Formosa ou visitante do Japão
O que preocupa as dançarinas é o câmbio das moedas estrangeiras
e a nostalgia da terra é medida com a diferença
entre o dólar de Hong Kong e o da América
As meretrizes do norte já não sabem cantar "Quando o senhor regressa?"
e as beldades vestidas de cabaia ignoram o que é o "Tratado de Mong Há"
Para saciar o sexo é preciso explorar a imaginação histórica
No sonho de reencarnação a vida é fantástica e colorida
Reúnem-se os fantasmas de quatrocentos
junto dos Montes da Guia e da Penha
Por fim, o castelo reduziu-se a um recorte dentado
defendendo o Monte Carlo do Oriente indefeso.
Tradução: Yao Jingming
Uma fera agachada na sombra de um castelo
são os seus olhos faróis a sondar todas as direcções
Um moinho de vento invertido faz lembrar a cruz brilhante
O século XIX atirou para o Oriente as lanças
cujos gumes cruzados reflectem os raios da santa cidade
A ponte da longa vida foi reduzida entre tintas de uma pintura chinesa
e a noite torna-se mais palpável no colo de uma mulher lasciva
A graça do vento marítimo é a ilusão do diamante na ágata negra
e as sombras que se movimentam nos raios giratórios
mantêm entre si a menor distância para que disparem um contra o outro
Passo a passo, a história tem vindo a entrar numa estação mais excitante
A redonda cama eléctrica tenta desgastar os limites da sua tipologia
O Deus que protege a Praça do Cavalo de Cobre saiu do memorial
ainda numa postura de dom Quixote
e os alcoviteiros adaptaram histórias eróticas com as lendas do herói
São histórias que se repetem todas as noites
porque nas gaiolas de luxo vive-se um ambiente sensual
em que os homens sobrevivem com uma sensação amorosa
Mas a questão é como manter a eterna erecção
e como fortalecer o regime representativo com o bálsamo mágico da Índia
"O jogo moderado dá prazer" é justificação do público para se divertir
Os "Come-moedas" funcionam ruidosamente para criar efeitos publicitários
Dominó, grande ou pequeno, roleta e bah ka lo deslumbram os olhos
Desde os assaltos dos piratas até aos desafios contra o rei do cassino
tudo é uma combinação da civilização ocidental e da sabedoria oriental
A fome e o sexo são dois eixos da natureza
Hoje são os novos confucionistas que lideram a moda
Há quem se retire da rede de camarões
Há quem finja o porco para devorar o tigre
Há quem apanhe a galinha de patas amarelas
Há quem se torne no caranguejo de Dai Zah
Aqui se pode provar um vasto leque de especialidades
desde os bolinhos a vapor de Shangai
até as pamonhas com carne salgada do Território
O gosto tailandês e a delícia filipina fazem crescer água na boca
Não importa quem seja o cliente
compatriota da Formosa ou visitante do Japão
O que preocupa as dançarinas é o câmbio das moedas estrangeiras
e a nostalgia da terra é medida com a diferença
entre o dólar de Hong Kong e o da América
As meretrizes do norte já não sabem cantar "Quando o senhor regressa?"
e as beldades vestidas de cabaia ignoram o que é o "Tratado de Mong Há"
Para saciar o sexo é preciso explorar a imaginação histórica
No sonho de reencarnação a vida é fantástica e colorida
Reúnem-se os fantasmas de quatrocentos
junto dos Montes da Guia e da Penha
Por fim, o castelo reduziu-se a um recorte dentado
defendendo o Monte Carlo do Oriente indefeso.
Tradução: Yao Jingming
UM POEMA DE DAVID HUERTA
LOUCURA, UM CORPO: ESTE PAPEL
AGORA salta a fantasia como lasca de ferro, espumas velozes,
tantas luas na garganta sob a linha do frio,
uma mulher azul na água das mãos e uma longitude frágil na
procissão do verão sobre o olho.
Unhas cravadas na luz, roupa de cego. A loucura passeia, navega.
As pernas estão afiadas como navalhas: filtros do talho,
calcanhares desnudos sobre o pó das maneiras sociais.
Filtros da punhalada, saliva luminosa no peito desejado.
Baixam os dedos pela laguna de um peito, no ar se ocultam
palavras negras,
desfiadas profecias, entalhes, documentos, esquinas repletas,
rincões borrados pela ânsia.
O verão passeia, passa entre as pernas.
Toca o corpo: é uma aurora entre os cabelos.
Amêndoas salgadas para o que foge de sua mãe: o Desejoso.
Vapores, tóxicos do século para o que grita, voraz, para o que vocifera nas ruas vazias.
O doce louco geme, gagueja, suplica: sua saliva brilha para nós
nos cantos da boca.
Temos beijado o mundo com lábios mecânicos, no ardor,
afastados de ti,
apartados de toda ciência e de todo saber para chegar a ti,
mais nus que livres, mais estranhos que a fantasia que dói
em teus rostos de bocas abertas,
em teu pijama de hospital, em tua mãe e seus gestos à defensiva,
mas gestos de tigre
que babeja o leite da piedade, a comiseração, a dor, etcétera.
Sentes o ar ou a brisa, seus fantasmas brilhantes.
Quem te fala ouve também, desesperado, só e mais só que tu,
encerrado, quem fala e te ouve
está mais encerrado que tu, tem suas próprias frestas, escuras dores como tu, como tu.
Abres a boca e recebes o verão. Falsa salvação, outra mentira à
conta das maneiras sociais, da beleza, da contemplação, etcétera.
Abres as mãos: nada. Nem um peito nem umas pernas afiladas contra os pedernais.
Quem te fala, caralho, tem verão próprio, saliva escura e uns
lábios inconsoláveis.
As túnicas do medo, da culpa, da batalha surda para ti.
Nenhum peito primaveril entre a seca morte do verão, entre os
barreiros despedaçados,
entre as letras lidas com uma enorme dificuldade, entre as páginas
submersas numa luz mais estranha que teus lábios.
Cresceu a tua barba e dizes que todavia estás confundido.
Fala com quem te ouve, saca o desejo de tua maquinaria sentimental
como vulto de areia para o próximo embarque,
fala de poesia, ignora tudo e abre os olhos outra vez, caralho.
O verão te engana, eu te engano ao escrever isto.
Pensa com as pernas juntas e com as pernas separadas, ouve a água da chuva e passa as mãos pela janela,
pelos olhos, pelo peito sangrando de tua terceira ou quarta tentativa de
suicidar-se vivendo morto, vivo, fictício, etcétera.
Eu não sei nada. Eu te vejo entre 95 paredes e uma frágil fresta
como um planeta à deriva. Nessa fresta porás as mãos
quando eu te vou visitar, Desejoso.
O verão é outra ficção, estas palavras também.
De onde te vejo, te ouço, toco tuas mãos frágeis em meio a uma
tormenta de antipsicóticos,
tua espádua no abraço como uma praia submersa em espessos detritos.
Céu de verão, loucura, pureza. Estas palavas para ti.
As maneiras sociais ardem comprazidas. Nenhuma rebelião, só
amêndoas salgadas como ratos para tua boca surda.
Onde te queimas, te dói, te cala. Dás com a cabeça contra uma das
95 paredes que te cercam.
Este sal implacável entrando por tua boca é minha comodidade,
o fervor médico, os engarrafamentos de trânsito, as eleições de
um domingo plácido,
a roupa negra do coveiro, as grilhetas do verão civil.
O desejo úmido é uma cova salpicada de maravilhas, no reino de
outra realidade.
Pássaros vêm pelas pontas desta luz metálica, o verão se fecha
como uma caixa
e te deixa com um corpo extravagante de mimo, de obscurantista.
Cada filete de tuas palavras entra nessa caixa,
o céu médico te unge e te amordaça, estende seus alvéolos de cura em teus membros lastimados, lastrados.
Porém o desejo e seus colares de mesmidade. Caralho. Uma cascata se fecha sobre ti,
sobre os reinos de tua cabeça, sobre tuas mãos adelgaçadas.
Luz curva de verão, linhas fraturadas. Linguagem fraturada.
Tradução: Claudio Daniel
AGORA salta a fantasia como lasca de ferro, espumas velozes,
tantas luas na garganta sob a linha do frio,
uma mulher azul na água das mãos e uma longitude frágil na
procissão do verão sobre o olho.
Unhas cravadas na luz, roupa de cego. A loucura passeia, navega.
As pernas estão afiadas como navalhas: filtros do talho,
calcanhares desnudos sobre o pó das maneiras sociais.
Filtros da punhalada, saliva luminosa no peito desejado.
Baixam os dedos pela laguna de um peito, no ar se ocultam
palavras negras,
desfiadas profecias, entalhes, documentos, esquinas repletas,
rincões borrados pela ânsia.
O verão passeia, passa entre as pernas.
Toca o corpo: é uma aurora entre os cabelos.
Amêndoas salgadas para o que foge de sua mãe: o Desejoso.
Vapores, tóxicos do século para o que grita, voraz, para o que vocifera nas ruas vazias.
O doce louco geme, gagueja, suplica: sua saliva brilha para nós
nos cantos da boca.
Temos beijado o mundo com lábios mecânicos, no ardor,
afastados de ti,
apartados de toda ciência e de todo saber para chegar a ti,
mais nus que livres, mais estranhos que a fantasia que dói
em teus rostos de bocas abertas,
em teu pijama de hospital, em tua mãe e seus gestos à defensiva,
mas gestos de tigre
que babeja o leite da piedade, a comiseração, a dor, etcétera.
Sentes o ar ou a brisa, seus fantasmas brilhantes.
Quem te fala ouve também, desesperado, só e mais só que tu,
encerrado, quem fala e te ouve
está mais encerrado que tu, tem suas próprias frestas, escuras dores como tu, como tu.
Abres a boca e recebes o verão. Falsa salvação, outra mentira à
conta das maneiras sociais, da beleza, da contemplação, etcétera.
Abres as mãos: nada. Nem um peito nem umas pernas afiladas contra os pedernais.
Quem te fala, caralho, tem verão próprio, saliva escura e uns
lábios inconsoláveis.
As túnicas do medo, da culpa, da batalha surda para ti.
Nenhum peito primaveril entre a seca morte do verão, entre os
barreiros despedaçados,
entre as letras lidas com uma enorme dificuldade, entre as páginas
submersas numa luz mais estranha que teus lábios.
Cresceu a tua barba e dizes que todavia estás confundido.
Fala com quem te ouve, saca o desejo de tua maquinaria sentimental
como vulto de areia para o próximo embarque,
fala de poesia, ignora tudo e abre os olhos outra vez, caralho.
O verão te engana, eu te engano ao escrever isto.
Pensa com as pernas juntas e com as pernas separadas, ouve a água da chuva e passa as mãos pela janela,
pelos olhos, pelo peito sangrando de tua terceira ou quarta tentativa de
suicidar-se vivendo morto, vivo, fictício, etcétera.
Eu não sei nada. Eu te vejo entre 95 paredes e uma frágil fresta
como um planeta à deriva. Nessa fresta porás as mãos
quando eu te vou visitar, Desejoso.
O verão é outra ficção, estas palavras também.
De onde te vejo, te ouço, toco tuas mãos frágeis em meio a uma
tormenta de antipsicóticos,
tua espádua no abraço como uma praia submersa em espessos detritos.
Céu de verão, loucura, pureza. Estas palavas para ti.
As maneiras sociais ardem comprazidas. Nenhuma rebelião, só
amêndoas salgadas como ratos para tua boca surda.
Onde te queimas, te dói, te cala. Dás com a cabeça contra uma das
95 paredes que te cercam.
Este sal implacável entrando por tua boca é minha comodidade,
o fervor médico, os engarrafamentos de trânsito, as eleições de
um domingo plácido,
a roupa negra do coveiro, as grilhetas do verão civil.
O desejo úmido é uma cova salpicada de maravilhas, no reino de
outra realidade.
Pássaros vêm pelas pontas desta luz metálica, o verão se fecha
como uma caixa
e te deixa com um corpo extravagante de mimo, de obscurantista.
Cada filete de tuas palavras entra nessa caixa,
o céu médico te unge e te amordaça, estende seus alvéolos de cura em teus membros lastimados, lastrados.
Porém o desejo e seus colares de mesmidade. Caralho. Uma cascata se fecha sobre ti,
sobre os reinos de tua cabeça, sobre tuas mãos adelgaçadas.
Luz curva de verão, linhas fraturadas. Linguagem fraturada.
Tradução: Claudio Daniel
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
DOIS POEMAS DE GEORGE TRAKL
O SONO
Amaldiçoados, veneno escuro,
Sono branco!
Este jardim estranhíssimo
De árvores entardecentes
Fartas de serpentes, falenas,
Aranhas, morcegos.
Forasteiro!
Tua sombra perdida
No crepúsculo,
Um obscuro corsário
No mar salgado da tribulação.
Esvoaçam pássaros brancos na aba da noite
Sobre cadentes cidades
De aço.
CLAMOR
Sono e morte, as águias da sombra
Esvoaçam noite adentro nesta fronte:
O dourado retrato dos homens
Teriam-no tragado as ondas gélidas
Da eternidade.
Em recife horrível
Esfacela-se a carne púrpura
E a voz escura clama
Sobre o mar.
Irmã de irada angústia, mira:
Uma frágil jangada naufraga
Sob estrelas, face
A face da noite que se cala.
Traduções: André Vallias
Amaldiçoados, veneno escuro,
Sono branco!
Este jardim estranhíssimo
De árvores entardecentes
Fartas de serpentes, falenas,
Aranhas, morcegos.
Forasteiro!
Tua sombra perdida
No crepúsculo,
Um obscuro corsário
No mar salgado da tribulação.
Esvoaçam pássaros brancos na aba da noite
Sobre cadentes cidades
De aço.
CLAMOR
Sono e morte, as águias da sombra
Esvoaçam noite adentro nesta fronte:
O dourado retrato dos homens
Teriam-no tragado as ondas gélidas
Da eternidade.
Em recife horrível
Esfacela-se a carne púrpura
E a voz escura clama
Sobre o mar.
Irmã de irada angústia, mira:
Uma frágil jangada naufraga
Sob estrelas, face
A face da noite que se cala.
Traduções: André Vallias
domingo, 1 de agosto de 2010
UM POEMA DE MARIA-MERCÈ MARÇAL
1
Disseste-me: este
é o meu corpo,
o meu sangue.
Toma, come e bebe
- vida e mortalha.
Depois, o pão
fatiado, ferido
pela faca
e o vinho vermelho
vertido, manchando
as toalhas.
Sob o olhar
obsceno de um deus
que te usurpava
as palavras.
2
Sagrada obscenidade
do corpo
tocado pela promessa
da morte:
como um pária
ou como a marca
de um deus ausente.
Sejas sacrílega
e devolve-lhe
a qualidade humilde
dos corpos vivos.
3
Como se me viesse de ti
a carne, o sangue
das palavras.
Tradução: Ronald Polito
Disseste-me: este
é o meu corpo,
o meu sangue.
Toma, come e bebe
- vida e mortalha.
Depois, o pão
fatiado, ferido
pela faca
e o vinho vermelho
vertido, manchando
as toalhas.
Sob o olhar
obsceno de um deus
que te usurpava
as palavras.
2
Sagrada obscenidade
do corpo
tocado pela promessa
da morte:
como um pária
ou como a marca
de um deus ausente.
Sejas sacrílega
e devolve-lhe
a qualidade humilde
dos corpos vivos.
3
Como se me viesse de ti
a carne, o sangue
das palavras.
Tradução: Ronald Polito
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