terça-feira, 28 de maio de 2019
CONFISSÕES DO CATADOR DE PAPEL
Para
Luciano Macedo
Folhas amarelas
caem na calçada:
brisa de outono.
Farol vermelho pisca
para carros cegos.
Revistas velhas,
folhas de jornal,
caixas de papelão:
recolho os resíduos
dos brancos e ricos
que desprezam
minha classe,
minha pele.
Numa tarde de sol,
assisti à incompreensível
cena de fuzilamento:
corri para socorrer
o ocupante do veículo
e também fui alvejado.
Agora, os brancos e ricos
podem dormir tranquilos:
há dois pobres a menos
no Rio de Janeiro.
Poema inédito de Claudio Daniel, 2019
sexta-feira, 15 de março de 2019
KITSUNE
Para Alexia Bibi
Raposinha pink fox
singer —
olhos de girassol
olhos de giralua
a mais incrível
comedora de pizzas
da Vila Mariana.
Kawaii de-mil-e-um-talentos
inventa virtuais
lobos híbridos
com chifres de alce
e asas de falcão
no game do computador.
Bibi Blue Chan,
youtuber, desenhista,
que ama border collies,
raposas e unicórnios.
Só uma coisa incomoda
t-e-r-r-i-v-e-l-m-e-n-t-e
a cantora kitsune
com olhos de mangá:
levantar às seis
para a lição
de matemática:
hora de rebelião,
revolta, revolução.
Após a tempestade
e a volta para casa,
tudo se aquieta
com búrgueres
marshmallow
milkshakes
e corn flakes.
Poema inédito de Claudio Daniel, 2019
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
CAMINHOS DO RIO VERMELHO
Riscos verdes e
vermelhos que nos acompanham
-- Raul Bopp
I
Campo branco – catarata – lençol de linho –
miolo de pão – ilhas esbranquiçadas num mar azul: alcateia de nuvens – sol de janeiro – pela janela do avião.
II
(Iansã, senhora-dos-raios-e-dos-ventos, agita
o eruexin – zona de turbulência.)
III
Do branco ao verde – caminho de bambus – verdes
arcos estirados ao céu – do verde ao
branco da praia – o mar misturado ao sol.
IV
Praia de Itapuã (a) – pedras negras, limo verde, areia sem cor – casal passeia de
mãos dadas.
V
Praia de Itapuã (b) – coqueiros, muro branco
do farol, menina corre para o mar, versos de uma canção.
VI
Visita à casa de Vinícius: retrato de
Iemanjá, máquina de escrever, violão, telefone,
foto de Mãe Menininha, sereia de barro com os seios nus.
VII
Na primeira pousada em que nos hospedamos –
eu, Scheila e Bibi –, em Stella Maris, escrevi este haicai:
Árvore de flores vermelhas
faz sombra
para o gato.
VIII
Esta é a terceira vez que visitamos Salvador.
Roteiro amoroso, entre praias e igrejas, moquecas, bobós, acarajés. A cidade, suas
cores e cheiros: tudo parece mais vivo e sanguíneo, música da pele que ensina o
sol a dançar.
Ao som do berimbau
meninos jogam
capoeira de verão
IX
Caminhos do Rio Vermelho (a): dia de festa da senhora das águas. Atabaques,
batuques, flores brancas e azuis, tatuagens decotadas de negras, muvuca
sagrada.
X
Caminhos do Rio Vermelho (b): blocos de foliões saúdam Mamãe
Janaína, filhos de Gandhi e filhos de Marx trazem espelhos, fumo, perfumes, foice
e martelo, Odoyá, Iemanjá!
XI
Após a festa da dona das águas, seguimos
para o Hotel do Convento, no Pelourinho. Meninas tocam tambores no Carmo.
Baianas posam para fotos com turistas, entre quiosques de cocada. Malandros oferecem
rezas contra o mau-olhado.
XII
Na Ladeira do Paço, onde Anselmo Duarte filmou
o Pagador de promessas, ponto de
encontro de skatistas, grafiteiros, acrobatas e tocadores de tambor, escrevi mais um haicai:
Nos degraus
da escada de pedra
acrobacia de verão
XIII
Feira na Rua da Cabeça. Scheila escolhe
flores para o buquê, entre cheiros de alecrim, manjericão, alfazema, hortelã, rosas
brancas e frutas frescas. Aqui você encontra de tudo, até o que não deseja
comprar.
XIV
Convento do Carmo, no centro do Pelourinho. Casamento
barroco, após a festa de Iemanjá. Bibi enfeita o portão da capela com fitinhas
azuis e espalha pétalas de rosas pelo chão. Pedro Costa toca Led Zeppelin ao
violão, na entrada dos noivos. Scheila toda de branco, vestido branco, brincos
brancos de pérola, Claudio de branco e azul, os ladrilhos portugueses, também
brancos e azuis. Juiz de paz realiza a cerimônia junto a um pequeno móvel
japonês do Período Nanbam. Beijos e cliques.
Escrevi um poema para o casamento, chamado Mapa do Céu:
Lua-de-mim
amor-em-pele-de-oxum
moça-de-olhos-quase-céu
amor-em-pele-de-oxum
moça-de-olhos-quase-céu
acende a palavra vermelha
no mais fundo de mim
sempre comigo sempre contigo
sempre comigo sempre contigo
amor-em-pele-de-oxum
lua-olhos-lua-boca-lua-pele-lua-pés
no mais fundo de mim
lua-olhos-lua-boca-lua-pele-lua-pés
no mais fundo de mim
anoitece-me enlouquece-me
moça-de-olhos-quase-céu
sempre comigo sempre contigo
moça-de-olhos-quase-céu
sempre comigo sempre contigo
Lua de mim
XV
Caminhos do Rio Vermelho (c): Scheila atira as pétalas do buquê de
casamento no mar, oferenda a Iemanjá.
Fitas azuis
flores brancas
flutuam no mar
XVI
Durante a viagem, soubemos da tragédia em Minas
Gerais. Rompimento da barragem da Vale, em Brumadinho, centenas de mortos e
desaparecidos. Meus olhos pensam: tanta beleza, tanta tristeza. A Vale é uma
das maiores empresas de mineração do mundo, privatizada por FHC nos anos 90 por
uma fração mínima de seu valor de mercado, e pouco se importa com medidas de
segurança e proteção ambiental. Revoltado, escrevi os últimos haicais dessa
jornada, antes de voltarmos ao ponto de partida:
Criança suja de barro
aperta no peito
filhote de cão.
Olhos, pés, mãos
bocas de lama:
vivos ou mortos?
Olhos, pés, mãos
bocas de lama:
vivos ou mortos?
Chuva de lama:
animais atolados
são mortos a tiros
são mortos a tiros
Moça coberta de lama
o seu rosto
fluem escombros
na água escura
CLAUDIO DANIEL, VERÃO DE 2019
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
POÉTICAS ORIENTAIS
Uma
viagem pela poesia da Índia, China, Coreia e Japão. Esta é a proposta do curso
POÉTICAS ORIENTAIS, ministrado por Claudio Daniel, que acontecerá a partir do
dia 07 de março. Todas as aulas serão realizadas à distância, via internet
(Skype), sempre às quintas-feiras, no horário das 20h às 21h30, e incluem apostilas e bibliografia.. Durante os encontros, com duração de um
semestre, serão discutidos temas como as bases filosóficas da poesia e da arte
orientais – hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo, xintoísmo --, os temas
e as formas poéticas praticadas em cada uma dessas literaturas, seus autores e
obras principais, com a leitura de traduções poéticas feitas a partir dos
textos originais por especialistas renomados e obras teóricas de apoio. A inscrição
para o curso é gratuita e a mensalidade é de R$ 100,00. Se você quiser fazer a sua inscrição para
participar do curso ou obter mais informações, basta escrever para o professor
Claudio Daniel neste grupo mesmo ou pelo e-mail claudio.dan@gmail.com
Claudio
Daniel é doutor em
Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP),
onde defendeu a tese “A recepção da poesia japonesa em Portugal”. Curador de
Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Colaborador
da revista CULT. Editor da Zunái, Revista de Poesia e Debates. Publicou os
livros de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001),
Figuras Metálicas (2005), Fera Bifronte (2009), Letra Negra (2010), Cores para
cegos (2012), Cadernos bestiais (2015), Esqueletos do nunca (2015), Livro de
orikis (2015) e o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004). Como
tradutor, publicou a antologia Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na
América Latina (2004), entre outros títulos. Em Portugal, publicou a antologia
poética pessoal Escrito em Osso.
ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES
FEVEREIRO / 2019
Entrevista com Andreia
Carvalho Gavita
Traduções: Wang Wei, Kim Ki Taek, Jonathan Swift, Robert Creeley
Poemas: Fernando Aguiar (Portugal), Jorge
Arrimar (Angola), León Félix Batista (República Dominicana), Roberto Echavarren
(Uruguai), Armando Roa Vial (Chile), Rodolfo Hasler (Cuba), Charles Perrone
(EUA), Antônio Moura, Scheila Sodré, Diana Junkes, Lígia Dabul, Noku Doi
Prosa de Claudio Daniel
Galeria: telas de Francisco
dos Santos
Especiais: O genocídio
indígena no Brasil
Ensaios:
Males secretos de Virgílio: atonia e degradação em Belém do Grão Pará,
de Dalcídio Jurandir, por Jonathan Pires Fernandes
Opinião:
CADERNOS DA PALESTINA
Zunái, Revista de Poesia & Debates, www. zunai.com.br
Preço: Inconcebível. Inefável.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte”
(Vallejo).
sexta-feira, 21 de dezembro de 2018
UM POEMA INÉDITO DE CLAUDIO DANIEL
2019
Para Bao Dei
Caminho
de um escuro
a outra treva
no
esqueleto da noite.
Palavras
são corvos invisíveis.
Tudo é
silêncio
num tempo
de desaparições.
Apenas no
mercado negro
da
memória
revisito
as cenas
da triste
comédia.
O relógio
é mudo
as horas
abolidas.
Vem,
cavalo negro
da insanidade.
Borra o
mapa de mim mesmo.
Listas
negras
silêncio
imposto
execuções
nos campos
execuções
nas ruas.
Jornais
mentem como juízes.
Esta é a
rosa dos corvos
companheiro
Bao Dei.
Este é o
reflexo sujo
da faca nas
águas do rio.
Que
venham os carrascos.
Que
venham os açougueiros.
Nunca
deixarei de rebelar-me
nem que
seja neste poema
pesado
como um navio.
Nunca
deixarei de amar o meu amor.
Nesta
noite imensa como um sanatório
soldados
removem seus rostos
e
mostram-se nadas de nada.
2018
sexta-feira, 14 de dezembro de 2018
RECITAL DA CAIXA PRETA
O RECITAL DA CAIXA PRETA é um evento organizado pelo poeta Claudio Daniel que acontecerá no dia 14 de dezembro, sexta-feira, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, localizado na rua Vergueiro, n. 1.000, próximo à estação de metrô Vergueiro. Na ocasião, haverá leituras poéticas com a participação de Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Luiz Augusto Borgess, Marcelo Ariel, Ruy Proença, Alfredo Fressia, Vanderley Mendonça, Rubens Jardim, Elson Fróes, Scheila D. Sodré, Andréa Catrópa, Assis de Mello, Marcia Tigani, Maria Marta Nardi de Godoy, Andréia Carvalho Gavita, Valério de Oliveira, Sílvia Nogueira, Luiz Ariston Dantas, Paulo de Toledo, Marcia Barbieri IIi, Diana Junkes e Bruno Kaze
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
BRASIL CHOCOU O OVO DA SERPENTE
Desde o golpe de estado de 2016, que derrubou a presidenta
legítima do Brasil, Dilma Rousseff, eleita com 54 milhões de votos, por um
movimento de direita liderado pela grande imprensa – sobretudo a Rede Globo de
Televisão – e pelo Judiciário, teve início a implantação de um regime
autoritário no Brasil, sustentado por grandes empresários, proprietários
rurais, banqueiros, militares, pastores neoevangélicos e setores da classe
média alta. A prisão sem provas do ex-presidente Lula, do Partido dos
Trabalhadores (PT), e a vitória de Jair Bolsonaro, ex-capitão do
Exército, defensor da tortura praticada na ditadura militar, nas eleições
presidenciais de 2018, deram a esse regime autoritário uma coloração
semifascista.
É possível verificarmos várias afinidades entre os métodos violentos e o discurso de ódio de Jair Bolsonaro com os de Franco, Hitler ou Mussolini, mas há também diferenças importantes. Se a ideologia é similar – negação da diversidade sexual e dos direitos sociais, anticomunismo, antifeminismo, irracionalismo, afirmação da supremacia masculina, branca, cristã e heterossexual, defesa de valores tradicionais em relação à família e à religião, “nacionalismo” (ainda que caricatural) – e também as práticas de intimidação violenta, o projeto econômico do líder autoritário brasileiro é muito diferente.
Os regimes fascistas clássicos europeus estavam baseados no modelo do estado nacional forte, para fazer frente ao hegemonismo anglo-americano nos campos econômico, político, cultural e militar; havia intervenção estatal direta na economia e algumas concessões foram feitas aos trabalhadores, como a Carta del Lavoro, na Itália, em nome de uma unidade de classes em defesa da “raça” e da “nação” contra a “ameaça comunista”.
Já o modelo bolsonazista vai em outra direção: defensor do “estado mínimo” neoliberal, pretende extinguir os direitos trabalhistas e previdenciários, permitir que as empresas privadas explorem os trabalhadores sem qualquer tipo de proteção legal aos assalariados, eliminar qualquer barreira protecionista, abrir o mercado brasileiro para o grande capital internacional, privatizar bancos públicos (responsáveis por programas sociais e projetos de desenvolvimento), entregar nossas riquezas naturais – como a Amazônia e as reservas de pré-sal – a investidores estrangeiros, cortar drasticamente os investimentos públicos em educação, saúde, ciência, tecnologia, esportes, além, é claro, de golpear fortemente os sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda, até colocá-los na ilegalidade, utilizando para isso a bizarra lei antiterrorismo e a força policial-militar, incluindo os métodos da tortura e do assassinato de opositores.
O obscurantismo do novo regime, cujo principal ideoleógo, o radialista e astrólogo Olavo de Carvalho (que se apresenta como “escritor” e “filósofo”), acredita que a terra é plana – inclui ainda a retomada das terras de índios e quilombolas para a atividade econômica, a legalização da posse de armas e da prática da caça, o desrespeito ao meio ambiente, a restrição xenofóbica à entrada de imigrantes no Brasil e a retirada do país de acordos internacionais em relação ao meio ambiente e ao clima (questões consideradas pelos novos detentores do poder como formas de “marxismo cultural”). No campo da educação, o novo regime defende a redução orçamentária, a privatização de universidades públicas, o fim das cotas para afrodescendentes, o ensino à distância desde o fundamental e ainda a extinção de cursos de humanidades, a censura aos professores, o fim da aplicação do método Paulo Freire, o controle ideológico da bibliografia educacional, a concessão de bolsas de mestrado e doutorado de acordo com o perfil político de cada estudante, entre outras práticas ditadoriais. A implementação desse projeto, evidentemente, só será possível pela destruição do estado democrático de direito e sua substituição por uma ditadura militar-policial.
Claro, tudo com as bênçãos dos pastores neoevangélicos do chamado “sionismo cristão”, que colaboram com a disseminação de preconceitos contra negros, mulheres, gays, índios e outros setores sociais e fazem o proselitismo político direto pró-Bolsonaro em seus “templos” e emissoras de rádio e televisão. A brutalidade neofascista (ou semifascista) brasileira está a serviço de um neoliberalismo radical, com vestimenta messiânica, que abre mão da soberania do país, inclusive oferendo nosso território para bases militares dos Estados Unidos, para atender aos interesses da grande burguesia imperialista. Neste sentido, o que se passa no Brasil está mais próximo do que ocorre no Leste Europeu, e em particular a Ucrânia, após a queda do bloco socialista e sua substituição por regimes autoritários de direita. Com os Estados Unidos liderados por um gorila como Donald Trump, Israel por Netanyahu, o Brasil por Bolsonaro e a possível vitória da Frente Nacional na França, o mundo viverá um longo período de trevas.
É possível verificarmos várias afinidades entre os métodos violentos e o discurso de ódio de Jair Bolsonaro com os de Franco, Hitler ou Mussolini, mas há também diferenças importantes. Se a ideologia é similar – negação da diversidade sexual e dos direitos sociais, anticomunismo, antifeminismo, irracionalismo, afirmação da supremacia masculina, branca, cristã e heterossexual, defesa de valores tradicionais em relação à família e à religião, “nacionalismo” (ainda que caricatural) – e também as práticas de intimidação violenta, o projeto econômico do líder autoritário brasileiro é muito diferente.
Os regimes fascistas clássicos europeus estavam baseados no modelo do estado nacional forte, para fazer frente ao hegemonismo anglo-americano nos campos econômico, político, cultural e militar; havia intervenção estatal direta na economia e algumas concessões foram feitas aos trabalhadores, como a Carta del Lavoro, na Itália, em nome de uma unidade de classes em defesa da “raça” e da “nação” contra a “ameaça comunista”.
Já o modelo bolsonazista vai em outra direção: defensor do “estado mínimo” neoliberal, pretende extinguir os direitos trabalhistas e previdenciários, permitir que as empresas privadas explorem os trabalhadores sem qualquer tipo de proteção legal aos assalariados, eliminar qualquer barreira protecionista, abrir o mercado brasileiro para o grande capital internacional, privatizar bancos públicos (responsáveis por programas sociais e projetos de desenvolvimento), entregar nossas riquezas naturais – como a Amazônia e as reservas de pré-sal – a investidores estrangeiros, cortar drasticamente os investimentos públicos em educação, saúde, ciência, tecnologia, esportes, além, é claro, de golpear fortemente os sindicatos, movimentos sociais e partidos de esquerda, até colocá-los na ilegalidade, utilizando para isso a bizarra lei antiterrorismo e a força policial-militar, incluindo os métodos da tortura e do assassinato de opositores.
O obscurantismo do novo regime, cujo principal ideoleógo, o radialista e astrólogo Olavo de Carvalho (que se apresenta como “escritor” e “filósofo”), acredita que a terra é plana – inclui ainda a retomada das terras de índios e quilombolas para a atividade econômica, a legalização da posse de armas e da prática da caça, o desrespeito ao meio ambiente, a restrição xenofóbica à entrada de imigrantes no Brasil e a retirada do país de acordos internacionais em relação ao meio ambiente e ao clima (questões consideradas pelos novos detentores do poder como formas de “marxismo cultural”). No campo da educação, o novo regime defende a redução orçamentária, a privatização de universidades públicas, o fim das cotas para afrodescendentes, o ensino à distância desde o fundamental e ainda a extinção de cursos de humanidades, a censura aos professores, o fim da aplicação do método Paulo Freire, o controle ideológico da bibliografia educacional, a concessão de bolsas de mestrado e doutorado de acordo com o perfil político de cada estudante, entre outras práticas ditadoriais. A implementação desse projeto, evidentemente, só será possível pela destruição do estado democrático de direito e sua substituição por uma ditadura militar-policial.
Claro, tudo com as bênçãos dos pastores neoevangélicos do chamado “sionismo cristão”, que colaboram com a disseminação de preconceitos contra negros, mulheres, gays, índios e outros setores sociais e fazem o proselitismo político direto pró-Bolsonaro em seus “templos” e emissoras de rádio e televisão. A brutalidade neofascista (ou semifascista) brasileira está a serviço de um neoliberalismo radical, com vestimenta messiânica, que abre mão da soberania do país, inclusive oferendo nosso território para bases militares dos Estados Unidos, para atender aos interesses da grande burguesia imperialista. Neste sentido, o que se passa no Brasil está mais próximo do que ocorre no Leste Europeu, e em particular a Ucrânia, após a queda do bloco socialista e sua substituição por regimes autoritários de direita. Com os Estados Unidos liderados por um gorila como Donald Trump, Israel por Netanyahu, o Brasil por Bolsonaro e a possível vitória da Frente Nacional na França, o mundo viverá um longo período de trevas.
Claudio Daniel
Links com exemplos da violência praticada no país pelos adeptos de Bolsonaro:
nvio, abaixo, CAPOEIRISTA é
morto com 12 facadas por eleitor de bolsonaro: https://bit.ly/2y4nMTm
PROFESSOR é
ameaçado de morte por eleitores de bolsonaro: https://glo.bo/2INUOvi
GAY é morto em
Curitiba por eleitor de bolsonaro: https://bit.ly/2y2Thxd
JORNALISTA é
agredida e ameaçada de estupro, por eleitores de bolsonaro: https://glo.bo/2ykZUu4
ELEITORES de
bolsonaro postam fotos com armas nas urnas: https://bit.ly/2yqQBIY
IRMÃ DE MARIELLE É
AGREDIDA, COM A FILHA, por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2pGhlkQ
JOVEM É AGREDIDO
por estar vestindo vermelho, por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2C1ZEDM
MILITANTE é
agredida por eleitor de bolsonaro: https://bit.ly/2IHKViu
FUNCIONÁRIA da
campanha de Boulos é amaçada com arma por simpatizantes de bolsonaro: https://glo.bo/2MAXod0
CACHORRO é morto
em carretata, por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2QuTxfe
JOVENS SÃO
EXPULSOS de condomínio por eleitores de bolsonaro: https://bit.ly/2zYEViO
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
DOIS POEMAS INÉDITOS DE CLAUDIO DANIEL
FATA MORGANA
A estranha irmã viaja
em púrpura
pincela céu de sóis
tatuados.
Galhos amorfos; rumor
de lagartos;
fungos e olhos
espectrais.
Com a espátula-tiara de
relâmpagos,
remove o rosto pálido
das horas.
Desfaz a pedra e o
grilo.
Afunda em jade negro
pétala e pégaso,
páramo e pássaro,
piano e (púbis) pústula.
Até o limoso escárnio
do Insaciado,
unívoco, unívoro,
uníssono.
ESCARAVELHOS
Escuro é o caminho
onde nos encantamos.
Fragmentados em
cenários evasivos,
acreditando em
impossibilidades,
lapidamos escamas de
serpente albina,
seara difratada onde
todo amor coagula.
Somos lunares,
aquosos, imprecisos;
ocorre que a música
da pele incita ao jogo
de escaravelhos, à
pureza do ácido
e da cicatriz.
Dois poemas escritos em 2007, que foram excluídos do livro Fera bifronte e permaneceram inéditos
até agora, por motivos que desconheço.
segunda-feira, 17 de setembro de 2018
TEMPOS SOMBRIOS NA CASA DAS ROSAS
POR CENSURA POLÍTICA IMPOSTA PELA EMPRESA PRIVADA POIÉSIS, que administra a Casa das Rosas e a Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, não poderei mais realizar atividades culturais nesses espaços. por ter uma posição contrária ao desgoverno do fuhrer Geraldo Alckmin, ao P$DB e ao golpe de estado no Brasil. Para mim, é uma honra ser censurado, senhor diretor Marcelo Tápia -- poeta medíocre cuja obra, para ser ruim, ainda precisa melhorar muito. Poderei apresentar em minha biografia o fato de não ter ficado calado durante a nova ditadura que você, como um cãozinho amestrado, servilmente bajula e apoia, em troca de alguns ossos. Estarei em paz com a minha consciência, minha família e minha história de vida, e você?
quinta-feira, 23 de agosto de 2018
UM POEMA DE AGOSTINHO NETO
O CAMINHO DAS ESTRELAS
Seguindo
o caminho
das estrelas
pela
curva ágil do pescoço da gazela
sobre a
onda sobre a nuvem
com as
asas primaveris da amizade
Simples
nota musical
Indispensável
átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação
múltipla do humano
Preciso e
inevitável
como o
inevitável passado escrevo
através
das consciências
como o
presente
Não
abstracto
incolor
entre
ideias sem cor
sem ritmo
entre
as arritmias do irreal
inodoro
entre
as selvas desaromatizadas
de
troncos sem raiz
Mas
concreto
vestido
do verde
do cheiro
novo das florestas depois da chuva
da seiva
do raio do trovão
as mãos
amparando a germinação do riso
sobre os
campos da esperança
A
liberdade nos olhos
o som nos
ouvidos,
das
mãos ávidas sobre a pele do tambor
num
acelerado e claro ritmo
de Zaires
Calaáris montanhas luz
vermelha
de fogueiras infinitas nos capinzais
violentados
harmonia
espiritual de vozes tam-tam
num ritmo
claro de África
Assim
o
caminho das estrelas
pela
curva ágil do pescoço da gazela
para a
harmonia do mundo.
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