quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

BREVIÁRIO DA TRAGÉDIA BRASILEIRA
















RETRATO IV

Pedras queimadas
na crueza
do abandono
tuas disformes formas
marcadas
a cutelo.
Pele dispersa
arroxeada
de corpo inânime
esfiapada
entremostrada
em febras
de açougue.
Despejada
na lama,
como detrito:
um aviso
do quebra-ossos
para que ninguém
reclame.
Mundo
desmundo
de mortes
emudecidas
onde olhos
se fecham
para o flagelo
mais cegos
que a noite
mais cegos
que a morte
de indistintas
estrelas —
apenas os corvos
crocitam,
apenas os corvos
— cachorros do céu —
desenham,
com suas vozes
desconexas
a cena do mais
absoluto
horror.

 PORTRAIT IV
 Scorched stones
in the cruelty rawness
of abandonment
your shapeless figure
marked
by the chopper.
Scattered skin
      purplish
inanimate body
shredded
appears
in the butcher’s
cuts.
Dumped
in the mud,
like garbage debris:
a warning
from the bearded vulture
so that no one
protests.
Underworld
of muted deaths
where eyes
close on themselves
to the scourge
more blind
than the night
more blind
than the death
of indistinct
stars —
only the crows
crow,
only the crows
— dogs of the sky —
depict
incoherently
with their voices
the scene of the most
absolute horror.
        

 RETRATO V

Entranhados no terror.
Estirados na terra.
Suas mãos terrosas.
Suas bocas aterradas.
Seus olhos, fundas covas.
Seus olhos, gritos óticos. 
Abatidos como feras
pelos furiosos.
Abatidos como párias
pelos paranoicos.
Porque nascem da terra.
Porque vivem da terra.
Porque se multiplicam,
tumultuários, e sua voz
é a voz vermelha da terra.


PORTRAIT V

Deeply rooted in terror.
Stretched on the ground.
Their earth-colored hands.
Their mouths covered with dirt.
Their eyes, deep caverns.
Their eyes, optical screams.
Slaughtered like beasts
by the furious.
Slaughtered like pariahs
by the paranoid.  
Because they are born from the earth.
Because they survive from the soil.
Because they multiply,
Tumultuous, and his voice
Is the red voice of the earth.

RETRATO VII
Dezenove cabeças de ninguém:
cabeças-
de-corvo,
de noite-
desnoite,
de lua-
nanquim.
Abatidos a tiros:
noite
negra-
vermelha,
noite
muda-
estridente  
— extermínio.
carmim.
Linhas móveis
multiplicam
luzes:
indistintas
estrelas
no desfazimento
do breu.
Os que somem
sem deixar
vestígios;
os que calam
sobre mortes
anônimas.
Sim:
vivemos
no tempo
dos invisíveis,
no tempo
descolorido
dos surdos-mudos.
A mutabilidade
dos corpos,
reconfiguráveis.
As estruturas
de poder
mimetizadas
em abismo.
A indiferença
ante os dezenove
desalinhados
corpos
em Barueri
e Osasco.
Limo recobre
qualquer hipótese
de legalidade.
Sim, houve
um massacre:
todos nós
somos culpados.


  
PORTRAIT VII

Nineteen heads of noone:
heads-
of-raven
at night-
night,
Indian ink
moon
shotdown:
night
black-
red,
night
mute-
strident
— extermination.
crimson.
Free lines
increase
lights:
indistinct
stars
in the dissolving
pitch.
Those that disappear
without leaving
traces;
those who keep quiet
about anonymous
deaths.
Yes:
we live
in time
with the invisible,
in time
discolored
by the deaf and dumb.
The mutability
of the bodies,
reconfigured.
The structures
of power
mimicked
in abyss.
Indifference
before the nineteen
misaligned
bodies
in Barueri
and Osasco.
Pond scum
Recovers
Any legal
Hypothesis.
Yes, there was
a massacre:
all of us
are guilty 
                    

 RETRATO X

E todos os sentidos foram amputados

Luís Carlos Patraquim

entretanto a aranha entretece sua teia expele os fios de fiandeira gotas de seda convertidas em amarras nos entornos das paredes uma jornada pela noite manuscrita sem temor ao desengano à desmesura uma jornada na curvatura do ambíguo até a lenta corrosão de tudo enquanto buscamos entrestrelas entrevértebras uma saída da insanidade um escape desse alcácer de ínferos onde bolsonazis esfolam fêmeas e hordas de hunos urram de ira nas ruas rubras turbas das trevas zumbis das telas de plasma espancam negros espancam travecos espancam putas viaturas expandindo luzes multiplicando mocambos e mortos expostos em vitrines para as festas tanáticas de hitler para as festas tanáticas de obama para as festas tanáticas de israel celebram falos celebram falos com pontas de agulha num desfile carnavalesco da morte caveira neanderthal essa marcha de insanos leitores do globo esses insanos leitores da veja esses insanos leitores da folha esses insanos leitores do völkischer beobachter há um céu de pureza eu sei em alguma dimensão da mente há alguma dimensão de pureza eu sei no sutra no tantra no veda mas aqui legiões de dobermans saúdam o coronel brilhante ustra descerebrados acumulam-se nas igrejas para louvarem o santo dólar o santo dízimo a santa estrela de david caveira neanderthal este espaço tétrico onde queimam gárgulas linhas retorcidas de um metálico esqueleto talvez um anjo extraterrestre chacinado por ter seis dedos em cada pé não há saída na viagem noturna do corcunda não há saída neste circo dark de lesmas liberais lobotomizadas pela mídia então eu caminho entre a alcateia com um maço de cigarros no bolso e dez moedas de cinco centavos e sigo e persigo uma rota que não existe uma rota rota uma trilha para fora dessa cova onde talvez quem sabe seja possível desescrever-me anular-me excluir-me para sempre dessa página.



PORTRAIT X

And all of the senses were amputated

Luís Carlos Patraquim

however the spider weaves its web expelling its spinneret threads of dropped silk converted into moorings in the surrounding walls spilling a journey into the handwritten night without fear of disillusionment of the immense journey in ambiguous curvatures to the slow corrosion of everything we search between stars and vértebras for a way out of the insanity an escape from this inferior fortress where Trump-Nazis skinned females and hordes of Huns roar with rage in the ruby streets mobs of dark zombies of the plasma television screens battered blacks battered trans battered whores vehicle lights expanding multiplying shanties and the dead exposed in showcases for hitler’s tantric parties for obama’s tantric parties for israel’s tantric parties they celebrate phalluses they celebrate phalluses with needlepoint in a carnival parade of Neanderthal skull death this march of insane readers of the New York Times these solitary insane readers these insane readers of the newspaper these insane readers of völkischer beobachter there is a pure heaven i know in some dimension of mind some pure dimension i know in the sutra in the tantra in the veda but here legions of dobermans salute the brilliant colonel ustra brainlessly congregate in churches to praise the holy dollar the holy tithe the holy star of david neanderthal skull this tetric space where burning gargoyles twisted from a metallic skeleton maybe an extraterrestrial angel slaughtered for having six toes on each foot there is no way out from the hunchback’s night trip there is no way out of being in this dark circus of liberal slugs lobotomized by the media so i walk between the pack with a packet of cigarettes in my pocket and ten nickels and i follow and i pursue a route that does not exist a route a trail out of that pit where maybe who knows maybe it is possible to extricate myself to null myself forever preclude myself from that page.

 
ANTILABIRINTO

éstos mis alarmados compañones.

César Vallejo

À desordem de pensamentos escuros —
figuras foscas, restos roídos
nos escaninhos
da memória.
Este é o meu braço esquerdo
que por sua conta
recusou ser treva.
Este é o meu braço direito
avesso a considerações
indelineável como um pesadelo.

Absurdidade, minha fêmea
entulhada em meu desterro.
Tudo são retalhos,
figuras em folhas-de-flandres
refratadas em meu próprio minério.
Morde-se, minha memória.
Nenhuma similitude
com o lameiro do cotidiano.
Estamos quites. Ensarilhados
em nosso nevoeiro.

Absurdidade, minha fêmea
reverbera em meus ossos:
estas quinas sem remate;
estas quinas de um antilabirinto
que sozinho percorro.
Esta é a minha clavícula;
esta é a carantonha com que insulto
as febres no espelho. Porque nada
faz sentido. Estamos quites.
Ensarilhados em nosso nevoeiro.

Absurdidade, minha fêmea
esta é a minha língua deformante,
meus jogos dissuasórios.
Porque nada faz sentido, nada.
Anjos pictóricos de estranhas asas
anunciam o próximo massacre:
corpos carbonizados numa aldeia
da Nigéria. Dois mil mortos.
Nenhuma repercussão na mídia.
São apenas negros: quem se importa?


ANTILABYRINTH

these are my alarmed companions

César Vallejo

The disorder of dark thoughts —
dull figures, gnawed remains
in the pigeonhole
of memory.
This is my left arm
that on its own account
has refused to be dark.
This is my right arm
averse to consideration
indecipherable as a nightmare.

Absurdity, my female
crammed in my exile
everything is remnants
figures in tinplate
refracted in my own ore
my memory bites itself.
Dissimilar to the quagmire of daily life.
We are equal.  Troubled
In our fog.

Absurdity, my female
reverberates in my bones:
these edges without end
these edges of an antilabyrinth
that all alone I traverse
this is my clavicle
this is my horrible appearance with which I insult
the fevers in the mirror. Because nothing
makes sense. We are free.
Troubled in our fog.

Absurdity, my female
this is my deformed tongue
my deformed games.
Because nothing makes sense, nothing.
Strange wings of pictorial angels
announce the next massacre
charred bodies in a Nigerian
village.  Two thousand dead.
Not one repercussion in the media.
They are only black: who cares?

Translated by Sean Negus, and edited by Scheila D. Sondré

NOTA SOBRE OS POEMAS
 Horácio, em sua Arte poética, escreveu o conhecido adágio ut pictura poiesis, que a partir da mímese aristotélica aproxima as técnicas da pintura às da poesia. O conceito será recorrente no barroco, especialmente no gênero poético conhecido como retrato, praticado por poetas como Don Francisco de Quevedo, em composições como A un retrato de don Pedro de Girón, duque de Osuna. Na presente coleção de poemas, que integra uma trilogia de plaquetes, futuramente reunidas em um único volume, adotamos o retrato como forma poética, abordada de modo bastante livre, sem nos atermos aos tratados dos preceptistas clássicos.

O que as peças incluídas nesta série guardam em comum com o retrato barroco é a descrição, ainda que elíptica, alusiva, fragmentária, metafórica, alegórica, de fatos e personagens reais, situados em anos recentes, que a nosso ver são exemplos trágicos dos acontecimentos recentes em nosso país. Os três volumes dos Cadernos bestiais se propõem exatamente a registrar, por meio da poesia, um momento da história nacional, iniciado em 2013 e ainda não concluído, de destruição da democracia, do estado de direito e das liberdades civis. Sendo assim, muitos dos poemas deste volume remetem a atos de violência cometidos contra a população:

Retrato IV refere-se a Francisca das Chagas Silva, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Miranda do Norte, no Maranhão, assassinada a mando de fazendeiros da região, com
requintes de crueldade: seu corpo foi encontrado nu, com sinais de estupro, estrangulamento e perfurações. “O simbolismo desta imagem, é do escárnio de como são tratadas as reivindicações e a luta das mulheres para serem vistas, tratadas e respeitadas na lei e na vida como seres humanos”, comentou Isis Tavares Neves, presidenta da CTB-MA.

Retrato V foi escrito em homenagem aos trabalhadores rurais sem terras assassinados em abril de 2016 no Acampamento Dom Tomás Balduíno, no Paraná.

Retrato VI foi inspirado em um morador de rua da Avenida Paulista, na cidade de São Paulo.

Retrato VII recorda o massacre de 19 jovens pobres e negros ocorrido em agosto de 2015 em Barueri e Osasco, no estado de São Paulo, por policiais militares.

Retrato VIII celebra os estudantes secundaristas que ocuparam mais de mil escolas públicas no país, em 2016, em protesto contra a aprovação da PEC 55 no Senado, que congela por vinte anos os investimentos públicos na educação e na saúde. Antilabirinto, por sua vez, recorda o massacre de duas mil pessoas na Nigéria, por um grupo fundamentalista, que não
obteve repercussão similar ao de atentados na França ou na Alemanha, por se tratar de um país africano, logo, distante dos centros de poder que alimentam a mídia.

Nosso propósito, em todas essas composições, não foi o de realizar jornalismo, historiografia ou crônica de época, mas poesia – suja, impura, manchada de história, mas que em nenhum momento abdica do artesanato de linguagem, da inventividade verbal que define a poesia como arte. 

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

CURSO 'A POESIA E O CINEMA"















Bibliografia:


ANDRADE, Oswald. Pau Brasil. São Paulo: Editora Globo, 2011.

________. Memórias sentimentais de João Miramar. São Paulo: Editora Globo, 2012.

ASSUNÇÃO, Ademir. Zona branca. Curitiba: Travessa dos editores, 2006.

­­­­­________. Cinemitologias. Londrina: Atrito Art, 2000. 

BARBOSA, Frederico. Rarefato. São Paulo: Iluminuras, 1990.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2014.

BERNADET, Jean Claude. O que é cinema? São Paulo: Brasiliense, 2011.

CAMPOS, Haroldo. Ideograma. Lógica, Poesia, Linguagem. São Paulo: Edusp, 2000.

CORONA, Ricardo. Cinemaginário. São Paulo: Iluminuras, 1999.

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995.

MACIEL, Maria Esther, e SEDLMAYER, Sabrina (org.). Textos à flor da tela. Editora da Faculdade de Letras da UFMG, 2004.

________. O cinema enciclopédico de Peter Greenaway. São Paulo: Editora da Unimarco, 2004. 


MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Belo Horizonte: Itatiaia, s/d.

MAIAKOVSKI, Vladimir. Poemas. Tradução: Augusto e Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman. São Paulo: Perspectiva, 2017.

LOPES, Rodrigo Garcia. Nômada. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.

MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. São Paulo: Brasiliense, 1990.

SCHNAIDERMAN, Boris. A poética de Maiakovski. São Paulo: Perspectiva, 1978.



Filmografia:

A greve, de Eisenstein

Outubro, de Eisenstein

Cine-Olho, de Dziga-Vertov

M, O vampiro de Dusseldorf, de Fritz Lang

O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais

O cão andaluz, de Luís Buñuel e Salvador Dali

O livro de cabeceira, de Peter Greenaway


UM POEMA DE JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES



HORIZONTE          

a janela enquadra
quase ao pé
um jardim
uma faixa de areia
e adiante
um lance de mar
e ainda além
um trecho de terra
que antecipa
uma linha de montanhas

a janela (não) enquadra
o ar maculado
(escórias escárnios)
o estertor dos músculos
acionado pelo trânsito dos ruídos
a tensão de ofensas ascos
lacerações (acúmulo
de escombros)

entre o que a janela
e o que não
toda uma vida (oculta)
relances limites
algumas disposições
nesgas de perspectivas
traços de razão

sim o que insistente
degrada o quadro
é tudo tudo
menos
este crespo cansaço e talvez
a música de sua imaginação 

UM POEMA DE DONIZETE GALVÃO



LIVRO DE CABECEIRA

Rói as unhas,
os cantos dos dedos
e os nós da mão
até que doer
seja uma forma
de esquecimento.
Lanha-se com
caco de vidro
cada pedaço da pele
para que se auto-revele
a urdidura de cicatrizes,
incunábulo, xilogravura,
esgar de máscara:
a dor como escritura.



UM POEMA DE CLAUDIA ROQUETTE-PINTO


NO ÉDEN

peça a ela que se desnude
começa pelos cílios
segue-se ao arame dos
utensílios diários
(insônia alinhavando-se
de tiros,
a infância       seus disfarces)
é preciso
que se arranque toda a face
deixar que os olhos descansem
lado a lado com os sapatos
na camurça oscilante
de um quarto
isso, se quer (sequer desconfia)
tocar o que se fia (um par
de presas, topázios)
entre os vãos das costelas
abra o fecho ela desfecha
no escuro o quadrante onde vaza

a luz e suas arestas

UM POEMA DE ADEMIR ASSUNÇÃO



OS LEÕES ESTÃO BRINCANDO  NO JARDIM


Dentes gelados, unhas à mostra

o leão arranha levemente

a pele de puro gesso: estátua branca

Peônias farfalham mudas

ante a imaginação selvagem e furiosa

vento vento vento

na tarde de abismos, constelações

de leões, centauros prontos para o bote,

o amor perigoso, atado ao tudo

ou nada: um par de olhos diante


de sua máscara de oxigênio

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

BREVIÁRIO DA TRAGÉDIA BRASILEIRA












Para Augusto de Campos

I
País tão escuro
tão pedra
e osso
ponta cega
de faca
caranguejo
que avança
para trás.

II
País tão bruto
tão fome
e fezes
onde tudo
fere fundo
tontos torpes
tramam
trevas.

III
País tão escroto
tão rato
e esgoto
rua estreita
sem saída
lesma
dissolvida
no sal.

IV
Impossível
mudar
a direção
dos ventos
fazer a lua
girar
ao contrário
secar o sol.

V
O fogo
não vai
gelar,
nem a nuvem
percorrer
o mar,
nem o peixe
viajar no céu.

VI
Impossível
aceitar
tanto horror
tanto escuro
impossível
aceitar
tanta lama
tanto asco.

VII
Este chão de feras
poço de detritos
partitura
de confusão
e ódio
agora
será palco
de batalha.

VIII
NÃO ACEITO.
NÃO ACEITE.

IX
Nossa voz, agora:

X
Explosão vermelha.

25 de janeiro de 2018, após a condenação ilegal de Lula.


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O P$DB E A DESTRUIÇÃO DA CULTURA EM SÃO PAULO


















A Poiésis, empresa terceirizada que administra a Casa das Rosas e a Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, já teve uma política aberta, pluralista, democrática, na época em que Frederico Barbosa esteve à frente dessa "organização social". Nos últimos anos, porém, desde que ele foi afastado injustamente e substituído por burocratas golpistas que nada sabem de cultura, a programação foi comprometida por vetos políticos, "listas negras" de poetas de esquerda, opositores de Alckmin, e outros absurdos. O P$DB, sob cujos governos tantos museus foram estranhamente incendiados, é o coveiro da cultura em São Paulo.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A SANTA CEIA: É POSSÍVEL SER CRISTÃO E SOCIALISTA?










Claudio Daniel

Leonardo da Vinci pintou o afresco A santa ceia (ou A última ceia) entre 1495 e 1498, em Milão. A obra representa a última reunião de Jesus com os seus discípulos, antes de ser preso, julgado e crucificado, conforme relata o texto bíblico. Gostaria de propor uma paródia da famosa pintura do artista italiano, em que Jesus divide o pão e o vinho com outros convidados: Marx, Engels, Lênin, Stalin, Mao, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Fidel Castro, Carlos Marighella, Ho Chi Minh. Claro: esse quadro, que reúne revolucionários de diferentes época e países, é alegórico, sendo a alegoria, conforme definição do retórico romano Quintiliano, do século III d.C., uma figura de linguagem em que o pensamento é construído por uma série de metáforas. Ou ainda: alegoria é a formulação de ideias abstratas por meio de imagens concretas. No caso do presente artigo, o quadro alegórico representa o tema que discutiremos a seguir: é possível conciliar espiritualidade e militância política, ou, mais precisamente, marxismo e religião? 

Sem dúvida, o tema é polêmico e pode suscitar inúmeras respostas, sendo a mais superficial a seguinte: não, não é possível a conciliação, porque o marxismo é ateu e inimigo da religião. Sem dúvida, a filosofia de Marx é materialista, ou seja, considera o universo, a natureza e a sociedade como resultados da interação de diferentes energias, fenômenos e agentes materiais, e não como criação mágica de uma entidade sobrenatural, como lemos no livro do Gênese; também considera que os fatos da vida social decorrem das relações de poder entre as classes sociais, e não da vontade divina. Nesse aspecto, há uma divergência radical entre o pensamento dialético marxista e a metafísica judaico-cristã. Porém, não é a especulação filosófica abstrata que afasta ou aproxima as duas doutrinas, e sim a atuação política e social das instituições religiosas.

As igrejas católica, anglicana, ortodoxa, luterana, para citar poucos exemplos, no âmbito do cristianismo, mantiveram, por séculos, estreitos vínculos com a aristocracia europeia, com o regime monárquico, com a propriedade feudal, e posteriormente com a moderna burguesia, o regime republicano democrático-burguês e a livre iniciativa da sociedade industrial. Por conta desses vínculos, que garantiram às igrejas inúmeros privilégios – desde a posse de terras até a isenção de impostos, a posse de emissoras de rádio e televisão e a participação acionária em grandes bancos privados –, o discurso religioso convencional busca convencer os mais pobres de que a sua situação material precária é fruto da vontade divina, e que uma possível mudança em sua qualidade de vida viria, também, dessa mesma vontade sobrenatural, representada na Terra por determinada instituição religiosa, com a sua hierarquia eclesiástica, livros canônicos, liturgias, sacramentos, dogmas, práticas devocionais e concepção de vida e de mundo. Caso o crente deseje obter sucesso material, deve fazer promessas aos santos, submeter-se a penitências, rezar muito ou simplesmente doar altos valores à igreja, em troca da intermediação que o padre ou bispo fará a seu favor junto à divindade. Por conta de tais práticas, Marx declarou que “a religião é o ópio do povo”, pois em sua época o que ele verificou foi a aliança entre os clérigos e os poderosos para iludir o povo, explorar a sua capacidade de trabalho e subtrair as suas posses, quando não para justificar a escravização de povos ameríndios ou africanos e as guerras para conquista de colônias, onde as metrópoles iriam explorar riquezas como ouro, prata, especiarias e pedras preciosas, sob o pretexto da missão evangelizadora  e civilizatória (nos tempos atuais, os Estados Unidos agridem outros países em nome da “liberdade” e da “democracia”, como fizeram na ex-Iugoslávia, Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão).

Na Idade Média, a teologia cristã considerava que os reis tinham direito ao poder por um plano divino, sendo a monarquia a realização temporal do plano traçado pelo Altíssimo. Essa doutrina não esteve em vigor apenas no pensamento católico, mas também no anglicano – o soberano do trono inglês é também o sumo-pontífice, mesmo nos dias atuais – e ortodoxo – basta lembrarmos do caso da Rússia, onde a Igreja Ortodoxa esteve ao lado do czar Nicolau II até a sua queda, com a revolução de 1917, declarando-o santo após a sua morte.

Se fossemos fazer uma lista com exemplos contemporâneos da relação íntima entre as instituições religiosas e os privilégios das elites ela seria imensa, basta lembrarmos o apoio de igrejas cristãs aos golpes militares na América Latina, nas décadas de 1960-1970, o alinhamento de rabinos e pastores neopentecostais com o regime sionista de Israel, responsável pelo genocídio humano e cultural do povo palestino, a participação dos “bispos” (?) como Silas Malafaia e Marcos Feliciano nas marchas fascistas que resultaram na deposição da presidenta legítima do Brasil, Dilma Rousseff, ou a bênção do cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Pedro Scherer, à “ração” para pobres proposta pelo alcaide João Dória Jr. (P$DB), a partir de resíduos alimentares próximos à sua data de vencimento. Podemos recordar também o obscurantismo das seitas neopentecostais, como a Assembleia de Deus, Renascer em Cristo, Igreja Universal do Reino de Deus, entre muitas outras, que defendem o fechamento de museus, a censura artística, a “cura gay”, a proibição total do aborto (mesmo em casos de estupro ou de risco de vida para a gestante), a perseguição aos cultos afro-brasileiros, como a umbanda e o candomblé, a discriminação de mulheres, homoafetivos ou afrodescendentes, entre outros absurdos que ferem a democracia, a liberdade individual e o estado laico. No Congresso Nacional brasileiro, a Bancada Evangélica tem apoiado a aprovação dos projetos mais retrógrados, como as reformas previdenciária, trabalhista e a “flexibilização” do conceito de trabalho escravo, para dificultar as ações de fiscalização nas grandes propriedades rurais, onde ainda existe esse triste resquício do período colonial.

Todos esses fatos revelam o caráter profundamente conservador de inúmeras igrejas, tradicionais ou recém-inventadas, porém, isso não significa que TODOS os religiosos sejam reacionários: para que a nossa análise seja justa, precisamos recordar também a participação política de padres e freiras na resistência à ditadura militar no Brasil, na defesa da anistia e pela volta das eleições diretas, o quer só aconteceu em 1989,  e ainda  a criação das Comunidades Eclesiais de Base, inspiradas na Teologia da Libertação, na década de 1980, com o objetivo de organizar e conscientizar a população mais pobre para a luta em defesa de seus direitos. Religiosos como Dom Paulo Evaristo Arns, Dom Pedro Casaldáliga, Frei Leonardo Boff e Frei Beto, para citarmos apenas quatro nomes bem conhecidos, destacaram-se nas lutas democráticas, e inúmeras lideranças eclesiásticas sofreram prisões e torturas nos “anos de chumbo” do regime militar. A Pastoral da Terra, ligada também à Igreja Católica, realiza até hoje importantes ações de solidariedade junto aos trabalhadores rurais, denuncia os assassinatos de lideranças camponesas por jagunços a mando do latifúndio e coleta dados importantes para a compreensão do problema agrário no Brasil. Lideranças católicas identificadas com as causas sociais estiveram ao lado dos metalúrgicos que realizaram grandes greves no ABC paulista, no final da década de 1970, e impulsionaram a criação do Partido dos Trabalhadores (PT) e, mais tarde, da Central Única dos Trabalhadores (CUT).  Após o golpe de estado de 2016 e o início da mais violenta ofensiva contra os direitos sociais já registrada no Brasil, setores progressistas das igrejas tradicionais – católicas, luteranas, metodistas, da umbanda e do candomblé, entre outras – tem estado presentes nas manifestações em defesa da volta da democracia e da manutenção dos direitos ameaçados pelo governo ilegítimo de Michel Temer. Isso sem falarmos dos pronunciamentos de autoridades como o Papa Francisco, que tem buscado recuperar a “opção preferencial pelos pobres”, deixada de lado por seus antecessores, João Paulo II e Bento XIII. Assim como há contradições na Igreja Católica entre setores progressistas e reacionários, o mesmo acontece em outras religiões, o que apenas evidencia a polarização entre pobres e ricos que caracteriza o sistema capitalista.

A resposta à pergunta que dá título ao presente artigo, portanto, é: sim, é possível alguém ser socialista e cristão, ou budista, ou espírita, ou muçulmano, ou adepto de qualquer outra denominação religiosa, desde que apoie a luta da classe trabalhadora em defesa de seus direitos. A questão aqui não é metafísica, mas ética e política. O próprio fundador do cristianismo, aliás – aquele que chicoteou mercadores no templo, desafiava autoridades romanas e rabínicas, distribuía pão e peixe para os pobres e impediu o apedrejamento de uma mulher acusada de adultério –, é autor da célebre frase: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no céu”.  Jesus Cristo, o palestino, tem a minha total admiração.

NOTA: o autor do presente artigo nasceu em família católica, foi ateu por quase toda a vida, depois frequentou templos hindus, de umbanda e de candomblé.  Hoje, considera-se zen-budista, e em nenhum momento essa escolha por um caminho espiritual entrou em conflito com a sua militância no Partido Comunista do Brasil (PCdoB).