MARABÔ
OBATALÁ é o meu novo livro de poesia, publicado no formato e-book, e reúne
todos os poemas que escrevi até agora sobre os orixás, incluindo as peças que
saíram no Livro de Orikis, mais
algumas inéditas, além de notas atualizadas. Publicado pela Leonella Editorial,
dirigida pela Adriana Zapparoli, o livro custa R$ 12,00 e pode ser adquirido no
site da Amazon, na página https://www.amazon.com.br/dp/B0713P2QNN
quinta-feira, 27 de abril de 2017
A POESIA E OS ORIXÁS
O curso "A poesia e os orixás" voltará a ser realizado, em maio, dessa vez em novo formato: será um curso ministrado à distância, via internet (Skype), em 16 aulas, sempre às sextas-feiras, no horário das 14h às 15h30, e a mensalidade será de R$ 80,00. Vamos conversar sobre o oriki, poema cantado de origem iorubá de louvor aos orixás, os mitos e as histórias tradicionais, ou itãs, entre outros temas, a partir dos estudos de autores como Pierre Verger, Reginaldo Prandi, Antonio Risério e Lídia Cabrera. Quem quiser participar, pode me escrever pelo e-mail claudio.dan@gmail.com.
DATA DE INÍCIO DO CURSO: 12 de maio.
quarta-feira, 26 de abril de 2017
MODOS DE USAR A MÍDIA @ CO.
Antonio Candido, em sua obra clássica Formação da Literatura Brasileira, criou o conceito de SISTEMA LITERÁRIO, formado por três elementos – o autor, o livro e o leitor – sem os quais não haveria literatura. O conceito, válido de acordo com o método adotado pelo autor para o estudo crítico da literatura, é questionável, entre outros motivos, por não ser aplicável às literaturas orais – por exemplo, a poesia cantada e as narrativas mitológicas dos povos indígenas e africanos, transmitidas de geração a geração por meio da fala e do canto, e também às literaturas digitais, que utilizam outros suportes, diferentes do livro, como o CD, o DVD ou as ferramentas oferecidas pela internet. Na era contemporânea, também podemos pensar em outros elementos que participam da difusão de obras literárias, como as editoras (subentendidas por Candido quando se refere ao livro), a imprensa, as redes sociais e os grupos que exercem o poder literário. Um autor será lido não apenas pela qualidade de seu texto, por seu domínio do engenho poético e por sua imaginação fabulatória, mas sobretudo se for publicado por uma editora “importante”, como a Record, a 7 Letras, a ex-Cosac&Naif ou a Companhia das Letras, se obter divulgação eficiente nos jornais e redes sociais e mais ainda se for “apadrinhado” por um lobby poderoso, com eficiente máquina de marketing, que exerça influência em concursos e bolsas literárias, como a da Petrobrás, na crítica literária e na universidade: nesse caso, mesmo um(a) autor(a) medíocre será transformad@ em celebridade da noite para o dia e terá a unanimidade da mídia e das instituições culturais a seu favor, mesmo que suas obras sejam irrelevantes. Já um(a) autor(a) que desenvolva um trabalho sério, mas que não tenha o apoio de todos os elementos do novo sistema literário, circulará apenas no meio underground de seus pares, colegas e amigos. É injusto? Sim, é injusto e quem critica o sistema é colocado automaticamente fora dele, boicotado e excluído, quando não é caluniado e difamado. Porém, não há marketing que dure para sempre: o Tempo é o maior de todos os críticos literários e não pode ser bajulado ou corrompido: cabe a ele separar o joio do trigo, as obras “premiadas” que cairão no esquecimento e as obras rejeitadas que receberão novo olhar crítico.
sábado, 15 de abril de 2017
DOIS POEMAS INÉDITOS DE CLAUDIO DANIEL
OTIM
Otim-Otim
moça da mata
fugiu, fugiu.
Otim-Otim
moça da mata
que virou rio.
Otim-Otim
filha de Oquê
cadê, cadê?
Otim-Otim
dona de Odé,
aqui-ali-além?
Otim-Otim
moça de ofá,
é água de mar?
Otim-Otim
filha de Otã
tinha segredo.
Otim-Otim
mana-oh-mana
era o segredo.
Otim-Otim
seu pai
é montanha.
Otim-Otim
sua pele
é de água.
Otim-Otim
sei o segredo:
que não direi
que não direi
que não direi.
Aquele-aquela
que-vem
e-leva-
me-leve-
não-me-leve-
orixá-mais-
leve-
que-a-pluma-
de-pavão-
mais-leve-
que-o-vento-
de-Oiá.
Ikú-meu-avô-,
negro-
negrura-
mais-escuro-
que-a-noite;
mais-branco-
que-o-branco-
do-olho-
mais-branco-
que-o-miolo-
do-pão-
leve-o-Temer-
primeiro;
orixá-que-
tudo-come-
-o-grande-
glutão-
leve-o-Moro-
em-seguida;
leve-o-Gilmar-
depois-.
Senhor-dos-rios-
que-se-encontram,
permita-que-eu-
viva-um-pouco-
mais.
2017
sábado, 7 de janeiro de 2017
RETRATO X
"E todos os sentidos foram amputados"
-- Luís Carlos Patraquim
entretanto a aranha entretece sua
teia expele os fios de fiandeira gotas de seda convertidas em amarras nos
entornos das paredes uma jornada pela noite manuscrita sem temor ao desengano à
desmesura uma jornada na curvatura do ambíguo até a lenta corrosão de tudo
enquanto buscamos entrestrelas entrevértebras uma saída da insanidade um
escape desse alcácer de ínferos onde bolsonazis esfolam fêmeas e hordas urram
de ira nas ruas turbas das trevas zumbis das telas de plasma espancam negros
espancam travecos espancam putas viaturas expandindo luzes multiplicando
mocambos e mortos expostos em vitrines para as festas tanáticas de hitler para
as festas tanáticas de obama para as festas tanáticas de israel celebram falos
celebram falos com pontas de agulha num desfile carnavalesco da morte caveira
neanderthal essa marcha de insanos leitores do globo esses insanos leitores da veja esses insanos leitores da folha esses insanos leitores do völkischer
beobachter há um céu de pureza eu sei em alguma
dimensão da mente há alguma dimensão de pureza eu sei no sutra no tantra no veda mas aqui legiões de dobermans
saúdam o coronel brilhante ustra descerebrados acumulam-se nas igrejas para
louvarem o santo dólar o santo dízimo a santa estrela de david caveira
neanderthal este espaço tétrico onde queimam gárgulas linhas
retorcidas de um metálico esqueleto talvez um anjo extraterrestre chacinado por
ter seis dedos em cada pé não há saída na viagem noturna do corcunda não há
saída neste circo dark de lesmas
liberais lobotomizadas pela mídia então eu caminho entre a alcateia com um maço
de cigarros no bolso e dez moedas de cinco centavos e sigo e persigo uma rota
que não existe uma rota rota uma trilha para fora dessa cova onde talvez quem
sabe seja possível desescrever-me anular-me excluir-me para sempre dessa
página.
(Poema inédito de Claudio Daniel)
sábado, 31 de dezembro de 2016
RETRATO VII
Dezenove cabeças de ninguém:
cabeças-
de-corvo,
de noite-
desnoite,
de lua-
nanquim.
Abatidos a tiros:
noite
negra-
vermelha,
noite
muda-
estridente
— extermínio.
carmim.
Linhas móveis
multiplicam
luzes:
indistintas
estrelas.
Os que somem
sem deixar
vestígios;
os que calam
sobre mortes
anônimas.
Sim:
vivemos
no tempo
dos invisíveis,
no tempo
descolorido
dos surdos-mudos.
A mutabilidade
dos corpos,
reconfiguráveis.
As estruturas
de poder
mimetizadas
em abismo.
A indiferença
ante os dezenove
desalinhados
corpos
em Osasco
e Barueri.
Onde o limo
recobre
qualquer hipótese
de civilidade.
Sim, houve
um massacre:
todos nós
somos culpados.
Poema inédito de Claudio Daniel, 2016
Poema escrito para recordar o massacre
de 19 jovens negros ocorrido em agosto de 2015 em Osasco e Barueri, no estado de São
Paulo, por policiais militares.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
URUTAU
ave da noite
olho da noite
em nãos
de nunca mais
olho amarelo
nos fumos da noite
lua amarela
em nuncas
de nada mais
emenda-toco
de unhas curvas
uruvati, urutaguá
canta os pedaços de mim.
dito kuá kuá
dito pássaro-
princesa
canto de arame
e arranha-tripa
se acaso
se entremostrasse
no último infinito
do fim
esfumado
entre agapantos
e alamandras
entre os pedaços de mim.
uruvati
come-morcegos
urutaguá
come-lagartos
onde está
o meu eu
oh mãe-da-lua?
onde está
a minha ela
oh pássaro-
fantasma?
no último
fim de mim?
O que canta
no galho
transforma-se
em galho
o que canta
no tronco
transforma-se
em tronco
canto tonto
nos entornos
do sem fim
repercorre ângulos
no mais rascante de mim.
Poema inédito de Claudio Daniel, 2016
segunda-feira, 26 de dezembro de 2016
ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES
DEZEMBRO / 2016
Entrevista com Marcelo
Ariel
Traduções: Marcial, Maquiavel, Rimbaud,
James Joyce
Poemas: Augusto de Campos, Diego Vinhas, Lucas Perito, Fernando Maroja Silveira, Régis Mesquita,
Jorge Elias, José Pinto, Pilar Bu, Priscila Prado, Mauro Jorge dos Santos,
Patrícia Claudine Hoffman. Antologia do Laboratório de Criação Poética.
Prosa de Jorge Lúcio
de Campos
Galeria: telas de
Sandra Maret e poemas visuais de Antero de Alda
Especiais: Poesia na
pele, intervenções poético-fotográficas de Germana Zanettini.
Ensaios:
Opinião / Cadernos da Palestina:
Cadernos da Palestina:
A história da catarinense que
trabalhou como voluntária em campos de refugiados na Palestina
Serra e Israel, por Salem Nasser
Abbas insta a declarar 2017 como el año del fin de la ocupación de los territorios palestinos - por Mike Segar Reuters
Roger Waters
explica por que os músicos têm medo de criticar Israel, por Paul Gallagher
Zunái, Revista de Poesia & Debates, www. zunai.com.br
Preço: Inconcebível. Inefável.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte”
(Vallejo).
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
OCUPAÇÃO POÉTICA
Tudo treva
— tudo seca,
surda treva.
Tempo-
tarântula.
Tempo-
tentáculo
de cortes e cutelos.
Tudo fratura,
tudo vértebras
partidas.
Tempo-
esqueleto (morcego).
Tempo-
tonfa-capacete-
escudo.
Tempo-spray-
de-pimenta
e balas
de borracha.
Tempo-
tempestade.
Excessivos dias
de muros
cercados.
Excessivos dias
Excessivos dias
de tumores
e temores.
Excessivos dias
lição escrita
nas ruas,
lição de pés,
mãos, bocas,
e mentes irmanadas,
encarnadas, encantadas.
Ocupem todas as escolas.
Ocupem todas as letras do alfabeto.
Ocupem todos os números, do zero ao infinito.
Ocupem todas as cores do arco-íris.
Ocupem todos os afetos, do amor à fúria.
Ocupem a Lua e o Sol.
Ocupem tudo
por todos,
por vocês
e por mim.
Claudio Daniel, 10 de novembro de 2016
quarta-feira, 19 de outubro de 2016
À BEIRA-PELE
Acende a noite de palavras
Paula Tavares
I
Meia-lua para iniciar um poema;
letra v entre as
coxas
erguendo relâmpagos.
II
Considere esta mulher deitada,
a mão direita
entre os joelhos
e o antebraço (esquerdo)
na altura das pupilas,
Ariadne em Naxos.
Logo inverte a posição,
estica os tornozelos
e desenha pequenos círculos
imprecisos
com os pés,
mapa de um labirinto?
(Dríade, convoca a mitologia dos lábios
para abolir a noite.)
Súbito, sua mão escorrega
até a pirâmide invertida,
após acariciar o umbigo,
como se violasse
o silêncio
de uma pétala.
III
Anoitecer em ti,
percorrê-la
em cada poro
mínimo:
de uma estrela
a outra estrela
de teu céu
indecifrável.
Poema inédito de Claudio Daniel
sexta-feira, 14 de outubro de 2016
Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
Hilda Hilst
FIGURA DE DANÇA
Flamingo
olho-de-flamingo
algo que nasce dos pés
em direção ao vermelho:
uma escrita-labareda
tecida em fumos
de touros e mantilhas
com a doçura da flama
que devora a manhã.
Poema de Claudio Daniel, 2016
quarta-feira, 14 de setembro de 2016
CURSO DE PROSA CRIATIVA VIA INTERNET
A Oficina de Prosa Criativa é um curso teórico e prático de criação literária realizado à distância, via Skype, ministrado por Claudio Daniel, que tem como objetivo apresentar aos alunos conceitos sobre a prosa de ficção – conto, novela, romance – formulados por autores como Walter Benjamin, Auerbach, Todorov, Luckács, entre outros, propor exercícios de criação, estimular os alunos a desenvolverem os seus projetos literários pessoais, além de oferecer dicas sobre como publicar o primeiro livro e iniciar a carreira literária.
O curso é realizado nos seguintes horários: SEGUNDAS-FEIRAS, das 11h às 12h30. TERÇAS-FEIRAS, das 15h às 16h30, SEXTAS, das 14h às 15h30, e SÁBADOS, das 14h às 15h30. Cada aluno fazer quantas aulas por semana quiser, nesses horários e a mensalidade é de R$ 100,00. Quem já participa do Laboratório de Criação Poética terá 50% de desconto.
INÍCIO DO CURSO: 03 DE OUTUBRO DE 2016.
Página no Facebook: https://www.facebook.com/ groups/681652955318909/?fref= ts
Quem estiver interessado no curso poderá enviar e-mail para o professor,claudio.dan@gmail.com.
Claudio Daniel é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP). Curador de Literatura e Poesia no Centro Cultural São Paulo entre 2010 e 2014. Colaborou, como colunista, na revista CULT. Editor da Zunái, Revista de Poesia e Debates. Publicou o livro de contos Romanceiro de Dona Virgo (2004) e os de poesia Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001), Figuras metálicas (2005), Fera bifronte (2009), Letra negra (2010), Cores para cegos (2012), Cadernos bestiais (2015), Esqueletos do nunca (2015), Livro de orikis (2015) e Poemas lunares (2016). Como tradutor, publicou a antologia Jardim de camaleões, a poesia neobarroca na América Latina (2004), entre outros títulos. Em Portugal, publicou a antologia poética pessoal Escrito em Osso.
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
ANTIMÍDIA V
Contra a entranha —
multiplica o medo
no borrão desfigurado;
unhas enegrecidas,
maxilares arrancados,
miuçalha de carcaças.
miuçalha de carcaças.
Nenhuma língua enterrada
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;
na fossa onde caranguejos
copulam com capulhos;
mistério ou talvez corrosão
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.
de ácidos na decapagem
para a despossessão de tudo.
Retrátil, contra teu sangue,
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.
a exaustão do que esfiapa
o símile do pensamento.
Esta pele, tua pele, nenhuma pele:
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.
tudo é número e o número
é legião; meu nome é legião.
(Os poemas da série ANTIMÍDIA foram publicados em minha plaquete Cadernos bestiais, volume I. Bauru: Lumme Editor, 2015.)
ANTIMÍDIA IV
desentranha.
voz que vem da carne;
adensamento da voz
que recusa ser centaura.
desmultiplicada,
limítrofe da afasia.
no antilabirinto:
fugitiva do Limbo.
que ninguém escuta:
hermafrodita, hermafrodita.
onde queimam fetais:
é absurda, quimérica.
fala para si, solipsista,
como jargão
de ofícios militares;
soa tantálica, prometeica,
como se saísse
de uma boca costurada;
como ressurgido mugido
de um mamute siberiano.
como se não fosse nenhum
som humano.
voz que vem da carne;
adensamento da voz
que recusa ser centaura.
desmultiplicada,
limítrofe da afasia.
no antilabirinto:
fugitiva do Limbo.
que ninguém escuta:
hermafrodita, hermafrodita.
onde queimam fetais:
é absurda, quimérica.
fala para si, solipsista,
como jargão
de ofícios militares;
soa tantálica, prometeica,
como se saísse
de uma boca costurada;
como ressurgido mugido
de um mamute siberiano.
como se não fosse nenhum
som humano.
ANTIMÍDIA III
Voici le temps des assassins
Rimbaud
Qual é a palavra mais terrível
para definir
essa fragilidade,
essa corrosão?
Em qual aterro
acumulam-se,
entre estrumes,
as multifaces de Rávana?
Ferros oxidados,
oleosidade, madeiras,
feldspato;
arame retorcido,
betume,
cabeças secas
de cogumelos.
Nenhuma hipótese
de lucidez
nessa máquina
para a produção do medo;
nenhuma hipótese
além do imponderável
e sua rude sequência
de mutilações.
Jogos obscenos
como incendiar abrigos
— esta é a estranha
anatomia do precário,
cor difusa que atravessa
todas as letras da epiderme.
Pensamento-ciclope
no comando da sanha
assassina: é assim
que a sociedade de classes
decuplica o abismo em abismos,
com sua raiva infecta,
raiva refugo, raiva corroída,
que mata às cegas.
para definir
essa fragilidade,
essa corrosão?
Em qual aterro
acumulam-se,
entre estrumes,
as multifaces de Rávana?
Ferros oxidados,
oleosidade, madeiras,
feldspato;
arame retorcido,
betume,
cabeças secas
de cogumelos.
Nenhuma hipótese
de lucidez
nessa máquina
para a produção do medo;
nenhuma hipótese
além do imponderável
e sua rude sequência
de mutilações.
Jogos obscenos
como incendiar abrigos
— esta é a estranha
anatomia do precário,
cor difusa que atravessa
todas as letras da epiderme.
Pensamento-ciclope
no comando da sanha
assassina: é assim
que a sociedade de classes
decuplica o abismo em abismos,
com sua raiva infecta,
raiva refugo, raiva corroída,
que mata às cegas.
ANTIMÍDIA II
Fundo escuro
esta rua de infernais
fungos-de-papiro
onde se espraiam
corpos deformados
— Anúbis enfurecido
ante o massacre.
Tempo caveira
desenterra
escaravelhos ao contrário
onde abismais
esqueletos do nunca
fornicam trevas.
Esta é a cidade esfíngica
onde passos trilhados
ao avesso da membrana.
Esta é a cidade esfíngica
onde a desrazão
navega a insanidade.
Porco burguês.
Porca burguesa.
Chafurdam na mídia pré-histórica,
colecionando cifras.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
(Tudo é número
nessa configuração
de lamentos:
até os fios de teu cabelo
estão contados,
e assim os anos de tua
breve trajetória.)
Mumifica a pele retesada,
em sarcófagos de cólera:
recolhidas em vasos
(canopos), tuas vísceras,
sob um céu ferruginoso
e o estrondo mudo
de uma pistola de 9mm.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
Tua face, deserto em miniatura.
Tua voz, imagem-terracota.
Tuas mãos, alfabeto do escarro.
esta rua de infernais
fungos-de-papiro
onde se espraiam
corpos deformados
— Anúbis enfurecido
ante o massacre.
Tempo caveira
desenterra
escaravelhos ao contrário
onde abismais
esqueletos do nunca
fornicam trevas.
Esta é a cidade esfíngica
onde passos trilhados
ao avesso da membrana.
Esta é a cidade esfíngica
onde a desrazão
navega a insanidade.
Porco burguês.
Porca burguesa.
Chafurdam na mídia pré-histórica,
colecionando cifras.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
(Tudo é número
nessa configuração
de lamentos:
até os fios de teu cabelo
estão contados,
e assim os anos de tua
breve trajetória.)
Mumifica a pele retesada,
em sarcófagos de cólera:
recolhidas em vasos
(canopos), tuas vísceras,
sob um céu ferruginoso
e o estrondo mudo
de uma pistola de 9mm.
Onde, nesse caos aritmético,
há lugar para o infinito?
Tua face, deserto em miniatura.
Tua voz, imagem-terracota.
Tuas mãos, alfabeto do escarro.
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
O DIA EM QUE A DEMOCRACIA MORREU NO BRASIL
Hoje, dia 31 de agosto de 2016, a democracia
brasileira foi revogada, num golpe de estado comandado pela grande mídia, por
um judiciário partidarizado e corrupto e por um legislativo com maioria de
deputados e senadores fascistas. Uma mulher honesta, eleita por 54 milhões de
votos, foi destituída de seu cargo na presidência da república, num processo
que viola a Constituição do país, e o cargo passou a ser ocupado, de maneira
ilegítima, por um medíocre personagem -- Michel Temer -- que em seu primeiro
discurso na televisão ataca a legislação trabalhista. Seu "plano de
governo": congelar investimentos em educação, saúde e habitação popular
por VINTE ANOS, aumentar a idade da aposentadoria para 75 anos, privatizar
empresas estatais lucrativas, como a Petrobrás, e entregar nossas riquezas
naturais, o pré-sal em especial, às companhias norte-americanas. Há três dias
consecutivos, protestos populares pacíficos são reprimidos com violência pela
Polícia Militar em São Paulo
e outras cidades brasileiras, inclusive com o uso de bombas de gás lacrimogênio
e balas de borracha. Viveremos, nos próximos meses ou anos, uma guerra dos
ricos contra os pobres no Brasil. Peço aos amigos que moram em outros países
que compartilhem essa mensagem: ACABOU A DEMOCRACIA NO BRASIL. VIVEMOS EM UMA NOVA DITADURA
-- E HAVERÁ LUTA.
Há braços -- e Fora Temer!,
Claudio Daniel
RECITAL DA CAIXA PRETA
No Recital da Caixa Preta, que acontecerá no dia 09 de
setembro, a partir das 18h, na Casa Guilherme de Almeida, haverá lançamentos de
livros da Lumme Editor (inclusive de minha plaquete Poemas lunares) e leituras
poéticas de Marcelo
Ariel, Chiu Yi Chih, Luiz
Augusto Contador Borges, Claudio Daniel, Andréa Catrópa, Abreu Paxe, Simone Homem de Mello, Leonardo Gandolfi, Marcelo
Tápia, Grazi Brum, Luiz Ariston Dantas, Marceli Andresa Becker, Júlia Cortes
Rodrigues, Marcia
Barbieri.
Endereço: Rua Cardoso de Almeida, 1943, São Paulo (SP).
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