Quando eu iniciei a carreira
literária, no início da década de 1980, costumava visitar alguns poetas,
críticos literários, artistas e intelectuais que eu respeitava, para conversar.
Queria apresentar o meu trabalho, trocar experiências, saber mais sobre as
pesquisas que eles realizavam na poesia e em outras artes e ramos do
conhecimento. Eu era jovem e ainda imaturo. Fui bem recebido por Mário
Schenberg, José Celso Martinez Corrêa, Jorge Schwartz, para citar poucos nomes,
e troquei cartas (na época não havia e-mail) com
Augusto de Campos e José Paulo Paes. Com alguma frequência, ouvi a pergunta:
"Você é filho de quem?". Confesso que na época fiquei surpreso com a
questão, não entendi a sua relevância, mas respondia: "Meu pai se chama
Orlando, e minha mãe, Lázara". Eles ouviam a resposta com curiosíssimas
expressões faciais. Muitos anos depois, ao folhear uma revista literária --
cujos editores eram, todos eles, filhos de ministros da área econômica e
grandes empresários -- entendi, finalmente, a pergunta. Poetas iniciantes
"deveriam" ser filhos de importantes artistas plásticos, homens de
negócios, atores renomados, professores da USP, críticos importantes, enfim,
"gente de bem". Eu era a ovelha negra -- aliás, vermelha -- no
rebanho. Hoje, sempre que posso, digo com orgulho: sou filho de Orlando, um
técnico eletrônico com segundo grau incompleto, que trabalhou a vida toda em
fábricas de caldeiras e de equipamentos eletrônicos, e de Lázara, uma
secretária das Indústrias Reunidas F. Matarazzo. Foi com eles que adquiri o
gosto pela leitura. Tudo o que consegui na vida literária, em mais de 30 anos
de carreira, conquistei por mim mesmo.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
MAIS PATRAQUIM
MATERIAIS
está na oficina e burila o sangue
-- que flores se desenham no ar?
Porém os lógicos dirão o
impossível
A VOZ E O VENTO
com palavras faço a voz
e o vento
de que viajam e são
insistente desejo a lucilar
sobre a pele morna
de girassóis filtrando
teu rosto
seios
paisagem nua de ventre
com palavras a voz do que faço
estes dias infensos
a pendor de gume
* * *
afasto as cortinas da tarde
porque te desejo inteira
no poema
e passas de capulana
teu corpo como as dunas
plantadas de casuarinas
rumorejando perto
a fúria das ondas
caindo brandas
no meu gesto
* * *
ó minha palavra nua
idioma do teu corpo
aqui fundo a raiz
e o espaço
neste ciciado cio
teu monte azeviche
aberto às manhãs
cacimbadas a nervo!
(Do livro Monção, 1980)
ACONTECIMENTO
sobre as espigas trémulas
os pássaros migram
para os meridianos virgens
do teu rosto no vento
a densidade da boca
(Do livro A inadiável viagem, 1985)
* * *
Quero a táctil nervura do teu
corpo
e o ritmo das vozes penetrando-se
a galope sobre o verde.
Trago a pacaça nos dentes e
soletro
a montanha agachada no asfalto.
As casas verdes são húmidas e
verdes.
Verdes os remos com livros no mar.
Verde uivo corre Junho e exaustas
tropeçam as patas do poema
A menina é dos olhos o baço
espelho.
Close-up a golfadas de mênstruo
ainda com putas e açaimos,
quero o verde, os cavalos e os
sapos,
verdes as vogais salgadas e
verdes.
Verde tu, cósmica explosão aberta
no meu peito fulgurando as coisas.
Verdes.
* * *
Sentam-se sob as acácias no
asfalto roto
os mutilados com cigarros de embalar.
Nenhum som os recorta
e todos os sentidos foram amputados.
Nem para a tarde crescem frustrados.
Esperam. Que inconclusa forma
os limita em fórmula de serração?
Que ameaça os delira? Nenhuma flor
explode, poeta, no coração?
Os mutilados sonharão? Suas pernas?
O desejo, fruto pobre adubando. Outra mão?
Que triste palavra os baba
no cigarro morto! Vendem.
Nenhum incesto os estanca.
À revelia do sol, os mutilados
montam banca.
os mutilados com cigarros de embalar.
Nenhum som os recorta
e todos os sentidos foram amputados.
Nem para a tarde crescem frustrados.
Esperam. Que inconclusa forma
os limita em fórmula de serração?
Que ameaça os delira? Nenhuma flor
explode, poeta, no coração?
Os mutilados sonharão? Suas pernas?
O desejo, fruto pobre adubando. Outra mão?
Que triste palavra os baba
no cigarro morto! Vendem.
Nenhum incesto os estanca.
À revelia do sol, os mutilados
montam banca.
MUHÍPITI
É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.
É onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como mãos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. É onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
É onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
É onde me confundo de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. É onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.
* * *
lha, corpo, mulher. Ilha, encantamento.
Primeiro tema para cantar. Primeira aproximação para ver-te, na carne cansada da
fortaleza ida, na rugosidade hirta do casario decrépito, a pensar memórias,
escravos, coral e açafrão. Minha ilha/vulva de fogo e pedra no Índico
esquecida. Circum-navego-te, dos crespos cabelos da rocha ao ventre arfante e
esculturo-te de azul e sol. Tu, solto colmo a oriente, para sempre de ti exilada.
Foste uma vez a sumptuosidade mercantil, cortesão impossível roçagando-se nas paredes altas dos palácios. Sobre a flor árabe a excisão esboçada com nomes de longe. São Paulo. Fadário quinhentista de «armas e varões assinalados». São Paulo e o rastilho do envangelho nas bombardas dos galeões. São Paulo rosa, ébano, sangue, tinir de cristais, gibões e espadas, arfar de vozes nas alcovas efémeras. Nas ranhuras deste empedrado com torre a escandir lamentos dormirão os fantasmas?Almas minhas de panos e missangas gentis,quem vos partiu o parto em tijolo ficado e envelhecido? Ilha, capulana estampada de soldados e morte. Ilha elegíaca nos monumentos. Porta-aviões de agoirentos corvos na encruzilhada das monções. De oriente a oriente flagelaste o interior da terra. De Calicut e Lisboa a lança que o vento lascivo trilou em nocturnos, espasmódicos duelos e a dúvida retraduzindo-se agora entre campanário e minarete. Muezzin alcandorado, inconquistável. Porque ao princípio era o mar e a Ilha. Sindbad e Ulisses. Xerazzade e Penélope. Nomes sobre nomes. Língua de línguas em Macua matriciadas.
INDICA MISSANGA SOBRE O TEU CORPO
Agora percorro-te pelas artérias de poeira e branco encardido. Pedra obsessiva, vazia, petrificando o tempo. Pedra de mulher mítica, olhando-me. Mulher onde eram as ondas e os pássaros e os barcos
elementares.
E agora fotografo-te em ritmo de coda, em variações batidas pelas veias abertas do teu segredo violado. Usurpado. Acrescentado. Agora, sobre os dias de tédio martelados a luz, de partos povoando-se, da epiderme em grito contra a pedra. Naufrágio de colmo guerrilhando-te os afectos, os amantes em
rotação de geografias, o íman das coifas e das desembainhadas, tesas baionetas.
Agora possuo-te. Perco-te. A minha boca em Macua perguntando-te como se diz «bom dia», neste articulado silêncio de arquitecturas que em quotidiano caminhar cruzo, tu cruzas, entre levas de intestino e fome. Como um distúrbio da grandeza maior que te cobre.
Agora eu, moçambicana concha, madeirame de açoitada nau escorando-me os músculos, indica missanga perdida, sobre o teu corpo, minha mulher, minha irmã, minha mãe, percorro-te. Sou.
(Do livro Vinte e tal novas formulações e uma elegia
carnívora, 1991)
CHAGALL
a Lagosta alando-se
ao flanco mais lúcido das estrelas,
mestre, esta é a casa
ou só silêncio em percussão de formas,
Rumor de virgens
sagrando de mênstruo as raízes
(Do livro Mariscando
luas, 1992)
ELEGIA DO NILO
Diante das ruínas de Karnak,
como sobes, visto daqui, das águas obscuras
Onde Ogum verteu suas lágrimas e cantou
O sulco vindouro, persistente e duro caminhante
De sul para norte sobre as areias, rasgando a volúvel pele
Dos deuses.
Reis e templos, em tuas margens ordenaram o mundo
Entre cada ciclo solar, suspensos do fim;
E louvo a cidade dos que partiram, o fluxo da pedra
que ainda sustém a geometria do eterno
emergindo da tua indiferença;Tu, que escondes os gatos
imóveis e os sabes para sempre espíritos soltos, eriçados; e te deleitas,
vendo-os na ronda dos desenhos enigmáticos, anichando-se junto aos
Sarcófagos que extrapolam de Ti, como se o teu leito derramado
Tivesse soerguido, da solidão granular, o perfil oblongo
Da cabeça de Nefertiti e Te espojasses na beleza efémera
Dos esponsais da Carne;
Ó matéria perecível que as ânforas guardam, aguardam,
Nós que perdemos o divino selo das libações inaugurais e salmodiamos,
No medo litúrgico da palavra esquecida, o simulacro do Livro
E a salvação dos mortos;
O que subia deles, extirpadas as vísceras, iluminados pelo ouro e a água
De que eras a substância!
Desceram as noites e o desmundo bebeu nas tuas margens
Enquanto Tu cantavas e era de ti o canto
Moldando a forma, lacerando as cidades e erguendo-as,
Com nossos pés descalços sobre a erva, acocorados
E breves, uma inscrição de sangue diluindo-se
Até ao mar.
(Do livro O osso
côncavo e outros poemas, 2004)
Luís Carlos Patraquim nasceu em Lourenço Marques
(atual Maputo), em 1953. Refugiou-se na Suécia, em 1973, por motivos políticos.
Regressou ao país em 1975, ingressando no jornal A Tribuna. Membro do
núcleo fundador da AIM (Agência de Informação de Moçambique) e do Instituto
Nacional de Cinema (INC), atuou, de 1977 a 1986, como roteirista / argumentista e
redator do jornal cinematográfico Kuxa
Kanema. Foi o criador e coordenador
da Gazeta de Artes e Letras (1984/86)
da revista Tempo. Desde 1986 reside em Portugal. Publicou,
entre outros títulos, Monção (1980), A Inadiável Viagem (1985), Vinte e tal novas formulações e uma
elegia carnívora (1992), Lidemburgo
Blues (1997) e O Osso Côncavo (2005). Recebeu o Prêmio
Nacional de Poesia de Moçambique, em 1995.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
sábado, 2 de janeiro de 2016
FÓSFORO BRANCO
Para Emir Mourad
Fósforo branco ácido ilumina escombro escárnio nos céus do
Líbano.
Talhos retalhos de torsos retorcidos
ossos negrume carcaças.
Corpos enfileirados peles requeimadas
de carne sucata
nos campos de refugiados
em Sabra e Chatila.
Esta é a hora do morticínio.
Farpas fiapos nacos de membros desmembrados
e o aroma escuro escuro da hora lenta lenta de um dia que
nunca termina.
Nenhum Kaddish para os filhos da escrava Agar
nenhuma lágrima para Ismael.
Apenas o silêncio de talhos retalhos peles farpas fiapos
e o escuro escuro.
Esta é uma história
exilada da história,
que eu e você não devemos saber:
por isso cala o escombro cala o negrume cala a sucata do
morticínio.
É preciso calar
a matraca dos jornais;
sim, é preciso fechar os livros, fechar para sempre os
livros
e condenar os mortos à perene desmemória
(em algum sítio
mefistofáustico
de Tel Aviv,
que moveu a macabra máquina da morte,
a estrela de David
se converte
em nova suástica).
Porém, eu e você não nos calamos,
eu e você não iremos esquecer,
eu e você somos o cedro do Líbano, a oliveira da Palestina,
o pão fresco nas mesas da Síria.
Houve aqui uma página infame da história,
mas eu e você recusamos o silêncio,
recusamos o esquecimento,
recusamos o perdão.
2013
(Poema que será publicado no terceiro
volume de meu livro Cadernos
bestiais)
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
FELIZ 2016. NÃO VAI TER GOLPE!
Os últimos meses de 2015 --
novembro e dezembro -- foram essenciais para a defesa da democracia e do
mandato legítimo de Dilma Rousseff contra as tentativas de golpe de estado no
Brasil: os estudantes secundaristas ocuparam mais de 200 escolas, enfrentaram a
Polícia Militar e impuseram a primeira derrota política que os tucanos sofreram
no estado de São Paulo, em vinte anos de desgoverno do P$DB; os movimentos
sociais levaram mais de 100 mil pessoas às ruas em São Paulo contra o golpe
(os fascistas, poucos dias antes, reuniram de 40 mil a 55 mil); a deputada
federal Jandira Feghali (PCdoB) consegue derrubar a manobra golpista de Cunha
no STF; Dilma quita a dívida do governo federal com os bancos públicos (as
chamadas "pedaladas"), derrubando a tese do impeachment, demite Levy
e reajusta o salário mínimo para R$ 880 reais, o que irrita a mídia, a
oposição, a burguesia e os zumbis de classe média, mas é bem recebido pela
classe trabalhadora, enfraquecendo o apoio popular ao golpe. Faço votos que em 2016 a esquerda continue
jogando assim para derrotarmos de vez os fascistas!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES / DEZEMBRO / 2015
Editorial: Guerra contra a juventude. Estado de São Paulo, dezembro de 2015.
Entrevista com Antônio Moura
Poemas: José
João Craveirinha (Moçambique), José Kozer (Cuba), Victor Sosa (Uruguai),
Roberto Echavarren (Uruguai), Alfredo Fressia (Uruguai), David Gonzáles
(Argentina), Erin Moure (Canadá), Ronald Polito, Israel Azevedo, Marcelo Ariel, Roberta Tostes
Daniel, Contador Borges, Angel Cabeza, Mário Alex Rosa, Bruno Bolossan, Nydia
Bonetti, Marcelo Adifa, Carla Diacov, João Pestana Nery, Leandro Rodrigues,
Simone de Andrade Neves,
Traduções:
Rig-Veda, Vicente Huidobro, William
Carlos Williams, Robert Creeley, Hart Crane, Tristan Tzara, Paul Éluard, Ghérasim Luca, Yves
Bonnefoy, Gabriel
Ferrater, Néstor Díaz de Villegas.
Prosa de Lisa Alves e Daniel Lopes
Galeria: a fotografia de Luiza Prado
Especial: homenagem a Guilherme Mansur
Opinião / Cadernos da Palestina:
Uma crônica da tragédia palestina
Um texto de Ghassan Kanafani
Israel mata uma criança palestina a cada
três dias
Ensaios:
A literatura como estranheza, de Jorge Lúcio de Campos
Herberto Helder, o lento labor da beleza, de Paulo Braz
O desvelar do amor e da morte em Max Martins , de N.
L. Ribeiro
Os enigmas sensíveis de Júlio Castañon
Guimarães, de Claudio Daniel
Desbaratinados: a metamorfose em nosso mundo
kafkiano ou Como maçãs atiradas às costas, de Adriano Messias
O despejo quieto
de pedacinhos de ossos: o atual e o virtual na escrita ensaística de Luís
Maffei e Manuel de Freitas, de Kigenes Simas.
Zunái, Revista de Poesia & Debates,
www. zunai.com.br
Preço: Inconcebível. Inefável.
Onde encontrar: no ciberespaço, essa
“gran cualquierparte” (Vallejo).
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
2015, ANO DE PERDAS E GANHOS

2015 foi um ano difícil para todos os brasileiros. Já comentei a situação política nacional em outra postagem neste blog (http://cantarapeledelontra.blogspot.com.br/2015/12/2015-o-ano-que-derrotamos-o-golpe.html), então farei aqui um breve balanço pessoal. O ano começou para mim sob os auspícios da conclusão de meu doutorado no programa de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo – defendi minha tese, sobre o tema “A recepção da literatura japonesa em Portugal”, com orientação do prof. Horácio Costa, em dezembro de 2014 e ingressei no pós-doutorado já no início de 2015, no programa de Teoria Literária da Universidade Federal de Minas Gerais, com supervisão da profa. Maria Esther Maciel. Em 2016, meu desafio será ser aprovado em concurso público para lecionar numa universidade federal ou estadual. Fora do âmbito acadêmico, publiquei três títulos de poesia de 2015: Cadernos bestiais (volumes I e II) e Esqueletos do nunca, pela Lumme Editor, e Livro de orikis, pela Patuá. Os Cadernos reúnem poemas de caráter político que dialogam com o momento histórico em que vivemos, com timbre ora satírico, ora elegíaco, sem abrir mão do rigoroso artesanato de linguagem; Esqueletos é uma série de aforismos, ou poemas em prosa breves, de conteúdo autobiográfico; e o Livro de orikis é uma coleção de composições que homenageiam os orixás dos cultos afrobrasileiros, tema que pesquisei entre 2014-2015, em livros de Antonio Risério, Pierre Verger e outros autores, além da visita a terreiros de umbanda e candomblé e conversas com babalorixás (joguei os búzios com Pai Toninho de Xangô, que confirmou: sou filho de Oxalá e de Oxum). 2015 também foi o ano em que me iniciei na arte do kenjutsu, a arte da esgrima samurai, sob a orientação do sensei Ruben Espinoza. Eventos culturais
terça-feira, 22 de dezembro de 2015
A PALAVRA EM MOVIMENTO
A poesia visual de Mário Alex Rosa se apropria de objetos de uso cotidiano, como talheres, luvas, tesouras e cadeados, que são incorporados em outros territórios simbólicos, adquirindo novas possibilidades de significação. Os procedimentos estéticos utilizados pelo poeta mineiro nessa jornada criativa, como o recorte, montagem e colagem de signos, recordam as técnicas dadaístas de ready made desenvolvidas nas primeiras décadas do século XX por poetas e artistas plásticos como Kurt Schwitters e Marcel Duchamp, que incorporaram detritos da sociedade industrial em suas obras, como cédulas monetárias, selos ou bilhetes de trem, denunciando a sociedade de consumo e a perda da “aura” da obra de arte, tal como assinalado pelo filósofo alemão Walter Benjamin. A crítica da realidade imediata e dos valores culturais hegemônicos é inerente a essa perspectiva, ao mesmo tempo criadora e demolidora, que se realiza de forma eficaz pelo uso do paradoxo, da alegoria e do humor. Em seus inusitados inutensílios – para usarmos uma palavra do vocabulário de Manoel de Barros –, o poeta mineiro, nascido em São João Del Rey, não renuncia à palavra, que é incorporada ao trabalho visual como representação do pensamento e como elemento plástico: as letras possuem um desenho que se tornou quase imperceptível na prática rotineira da leitura e cabe ao poeta justamente recuperar a sua vitalidade, o seu caráter de inscrição, mais evidente nos antigos alfabetos orientais e ocidentais, como as runas escandinavas, em que a escrita possuía um caráter simbólico e sagrado.
Ao
revalorizar a dimensão visual da escrita, Mário Alex Rosa atualiza a demanda de
Mallarmé, para quem era missão do poeta “dar um sentido mais puro às palavras
da tribo”, retirando-as de sua função apenas utilitária, ditada pelo
capitalismo, para que elas sejam valorizadas em seus aspectos plástico e
sonoro. A intersecção entre conceito,
ritmo, imagem e movimento, de evidente caráter lúdico, constroi a ironia desses
poemas visuais e poemas-objeto, que o autor mineiro apresentou na exposição Meus utensílios, realizada na Galeria de
Arte Copasa, em Belo
Horizonte, e que também em revistas eletrônicas como a Zunái (http://zunai.com.br/post/117084664838/galeria-m%C3%A1rio-alex).
Na composição intitulada Trouxeste a
chave?, por exemplo, o autor constroi a palavra Poema a partir da junção de cinco cadeados, cada um com uma letra
afixada em sua superfície, indicando, de maneira metafórica, o caráter cifrado
da poesia; em Uma broca para Brossa,
faz um jogo de imagens e de palavras com o nome do poeta catalão, associado à
capacidade de perfuração de materiais;
em Passando o poema a limpo,
um ferro de passar roupa é associado a um conjunto de palavras recortadas e
letraset, sob uma superfície vermelha.
Em todas estas composições, que poderiam ser comparadas aos inutensílios
de outro poeta mineiro, Sebastião Nunes, autor da Antologia mamaluca, a ênfase está na metalinguagem, na reflexão
sobre a própria atividade criadora do poeta; longe de representar uma atitude
escapista, coloca em xeque alguns dos vetores fundamentais da lógica de
mercado, como valor e função, além de questionar a facilidade da linguagem dos mass media. A subversão estética e
conceitual de Mário Alex Rosa está presente também em seus livros, como Formigas (2013), elaborado em parceria
com a artista plástica Lilian Teixeira, poema-objeto em que as palavras estão
distribuídas em diferentes posições, à esquerda, à direita, acima e abaixo,
conferindo mobilidade à escrita – e também à leitura e à própria relação entre
o leitor e o livro. Em Ouro Preto (2012), Via férrea (2013) e Deus não me livre (2015), obras que apresentam poemas em versos
livres, a visualidade está presente também: conforme diz o poeta, “a minha
questão é sempre a letra, a forma, a palavra, o sentido tátil-visual-sonoro que
cada palavra carrega, a busca é sempre a mesma, ou seja, me concentrar na
particularidade que cada palavra possa oferecer. O processo é diferente, mas a
tentativa de se chegar ao sentido crítico é o mesmo. A dor é a mesma”. Em Ouro
Preto, é preciso
destacar o diálogo que o poeta estabelece com a paisagem natural, a
arquitetura, a história e a mitologia da cidade que encantou Murilo Mendes. Não
se trata de lírica nativista, melancólica, nem de emulação da atmosfera
barroca: o poeta reinventa a cidade como espaço subjetivo e textual, onde “cada
palavra é cadafalso”.
(Artigo publicado na edição de dezembro/2015 da revista
CULT)
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
CULTURA EM CHAMAS
Incêndio no Museu da Língua Portuguesa, neste exato momento, em São Paulo. Se houvesse um jornal sério, ele faria uma
longa reportagem investigativa sobre a situação dos equipamentos culturais no
estado, desgovernado há vinte anos pelo P$DB de Geraldo Alckmin, recordando
antecedentes como os incêndios do Teatro Cultura Artística, do Liceu de Artes e Ofícios, do Instituto Butantã e do Memorial da
América Latina e o fechamento, por anos, do Museu do Ipiranga e do Museu do
Imigrante, além da desapropriação do Conservatório Dramático e Musical por José
Serra (PSDB) quando prefeito da cidade de São Paulo, em 2006, que levou à
dispersão de sua biblioteca e ao encerramento de suas atividades. #PSDBInimigoDaCultura.
2015, O ANO EM QUE DERROTAMOS O GOLPE
A sociedade brasileira viveu em 2015 uma intensa disputa política entre dois projetos de poder: o da presidenta Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT), reeleita em eleições livres e democráticas no ano anterior, e o da oposição golpista, liderada pelos grandes meios de comunicação, empresários, setores conservadores da classe média e partidos como o PSDB, PPS e DEM, derrotados nas urnas e até hoje inconformados com o repúdio da população ao seu candidato, Aécio Neves.
Antes mesmo de a presidenta assumir seu novo mandato, para dar continuidade a um ciclo de doze anos de governos democráticos e
populares iniciado em 2002 com a vitória do ex-líder operário brasileiro Luís
Inácio Lula da Silva (PT), a oposição golpista tentou impedir a sua posse,
realizando marchas fascistas pedindo a volta da ditadura militar e usando
diferentes artimanhas para impedir que ela assumisse o cargo, ora pedindo
a recontagem dos votos, que teriam sido “manipulados” pelas urnas eletrônicas (!!!),
ora questionando as contas da campanha e o orçamento do ano anterior para impedir a sua diplomação, sem nenhuma base legal. Atualmente, o pretexto usado
pela oposição é a política fiscal do governo federal – as chamadas “pedaladas”
– também praticada por governos anteriores e nunca questionada.
Dilma Rousseff tem uma biografia
limpa, ao contrário de seus adversários: lutou na resistência contra a ditadura
militar, como guerrilheira, não enriqueceu, não tem contas na Suíça (como
Eduardo Cunha), nem casas em Paris (como FHC), nem sonegou o imposto de renda,
como os seus principais opositores. Ela obteve 54 milhões de votos nas urnas e
é apoiada por partidos de esquerda e centro-esquerda como PT, PDT e PCdoB, setores de legendas de centro-direita, como o PMDB, pelos principais movimentos sociais brasileiros, como as centrais
sindicais CUT e CTB, o Movimento dos trabalhadores sem terras (MST) e sem
moradia (MTST), entidades estudantis (UNE, UBES, UJS), de mulheres (UBM),
negros (Unegro), entre outras, e por intelectuais, escritores e artistas como Antonio Candido, Alfredo Bosi, Augusto de Campos, Marilena Chauí, Chico Buarque de Hollanda, Fernando Moraes, Marieta Severo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Roberto Schwartz.
Seus opositores têm apoio da Rede
Globo, revista VEJA, jornais Folha de S.
Paulo e Estado de S. Paulo (que também promoveram o golpe de 1964 e apoiaram o regime militar), da FIESP, entidade dos
grandes empresários, da maioria conservadora na Câmara dos Deputados, presidida
por Eduardo Cunha (PMDB), processado por corrupção, e de grupos abertamente de
extrema-direita, financiados pelos Estados Unidos, como Revoltados On Line, Vem
Pra Rua e Movimento Brasil Livre, protagonizados por personagens oriundos da
ditadura militar, como o ex-capitão Jair Bolosonaro, com passado de tortura,
estupro e assassinatos.
Apesar da intensa campanha de
difamação de Dilma, Lula e do Partido dos Trabalhadores na mídia, que acontece
todos os dias (não se trata de jornalismo, mas de difamação, calúnia e
propaganda política explícita em favor do partido PSDB, que representa a
direita no Brasil), no dia 16 de dezembro foi realizada uma passeata com mais
de cem mil pessoas na Avenida Paulista, em São Paulo, em apoio à presidenta, além de dezenas
de milhares que se reuniram em outras capitais e cidades brasileiras. Para
efeito de comparação, a última passeata pró-impeachment, realizada na mesma
Avenida Paulista, reuniu de 28 mil a 40 mil fascistas.
Juristas de diferentes posições
ideológicas como Claudio Lembo, Fábio Konder Comparato, Dalmo de Abreu
Dallari, declararam a inconstitucionalidade do pedido de impeachment – na
verdade, golpe de estado --, também repudiado pela Ordem dos Advogados do
Brasil (OAB) e pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Na última
semana, graças à defesa que a sociedade civil fez do mandato legítimo de Dilma
Rousseff e da manutenção da democracia e do estado de direito no país, o
Supremo Tribunal Federal mudou o rito do impeachment definido pela Câmara dos
Deputados, de modo que o tema seja discutido e votado em respeito à
Constituição, sem as manobras golpistas que garantiriam a execução do golpe de
estado.
Mesmo que a Câmara aprove o impeachment, o que hoje é muito mais difícil, graças ao entendimento do STF, poderá ser facilmente derrotado no Senado, cujo presidente, Renan Calheiros, já se manifestou contra o afastamento da presidenta. Esta é uma grande vitória da democracia no Brasil e motivo de orgulho para a bancada, militância e eleitores do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cuja deputada Jandira Feghali foi responsável pela ação junto ao STF que praticamente enterrou o golpe de estado no país.
Mesmo que a Câmara aprove o impeachment, o que hoje é muito mais difícil, graças ao entendimento do STF, poderá ser facilmente derrotado no Senado, cujo presidente, Renan Calheiros, já se manifestou contra o afastamento da presidenta. Esta é uma grande vitória da democracia no Brasil e motivo de orgulho para a bancada, militância e eleitores do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), cuja deputada Jandira Feghali foi responsável pela ação junto ao STF que praticamente enterrou o golpe de estado no país.
O que representa, afinal, essa
disputa política?
A oposição de direita apresenta
os mesmos “argumentos” já utilizados em 1964 no golpe civil-militar que
derrubou o presidente João Goulart: corrupção e ameaça comunista. Curiosamente,
essa mesma oposição nunca denunciou a compra de votos no Congresso para a reeeleição
de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que pagou R$ 200 mil para cada deputado e
senador que votasse a favor da reeleição, assim como nunca se revoltou com
as propinas recebidas por FHC e José Serra (também do PSDB) durante a chamada
Privataria Tucana – privatizações irregulares de empresas estatais lucrativas
brasileiras a preço de banana, como a Companhia Vale do Rio Doce, cujo valor de
mercado era de R$ 100 bilhões na época e que foi vendida por apenas R$ 3
bilhões (os valores recebidos pelos tucanos, depositados em paraísos fiscais, é
fato documentado no livro “Privataria Tucana”, de Amaury Jr., mas nunca foi
investigado ou punido).
A indignação seletiva da direita
brasileira também aceita o chamado “mensalão mineiro” de Aécio Neves, o tráfico
de drogas dirigido por um senador próximo ao PSDB – um helicóptero com 450 kg de cocaína foi
apreendido, mas seu proprietário até hoje encontra-se em completa liberdade --,
e ainda os escândalos de corrupção que envolvem o governo de Geraldo Alckmin
(PSDB) no estado de São Paulo, especialmente nas empresas de metrô e de
abastecimento de água. Dilma Rousseff, ao contrário, deu completa liberdade à
Polícia Federal, ao Ministério Público e ao Procurador Geral da República para
que todos os escândalos de corrupção, dentro e fora de seu governo, sejam
investigados e os responsáveis, punidos – o que JAMAIS aconteceu nos oito anos
de desgoverno de FHC, que engavetou todos os processos e denúncias que
envolviam, já em seu mandato, a Petrobrás.
A corrupção, portanto, é apenas
um pretexto para a direita, não uma questão de princípio. Em 2015, inclusive,
revelou-se que grandes empresários brasileiros – os mesmos que apoiam o golpe
de estado – sonegaram imposto de renda e
depositaram bilhões de dólares irregularmente em contas no exterior (confiram
em http://www.brasildefato.com.br/node/33330
e em http://transfersan.com.br/portal/itau-bradesco-vale-500-empresas-devem-r-392-bilhoes-a-uniao/).
Apenas três empresas – os bancos Itaú, Bradesco e Vale do Rio Doce – devem R$ 392
bilhões à União, sem que isso seja amplamente denunciado na mídia golpista. Entre as empresas sonegadoras e com depósitos em paraísos fiscais estão, é claro, grandes jornais e emissoras de televisão.
Quanto ao suposto “comunismo” de
Dilma Rousseff, ele se traduz em políticas de inclusão social que, pela
primeira vez na história do país, favoreceram os mais pobres, os negros e as
mulheres – 32 milhões de brasileiros saíram da miséria em doze anos e o país
foi retirado do mapa da fome pela ONU, graças a programas como o Bolsa-Família,
elogiado nos EUA por Hillary Clinton e adotado, posteriormente, na Suíça e no
Japão. Dilma e Lula construíram 12 universidades federais (FHC, nenhuma) e mais
de 400 escolas técnicas (FHC, menos de 20). No primeiro mandato de Dilma, foi
aprovado que 10% do PIB e 75% dos roylaties do petróleo sejam investidos na
educação (e os demais 25% na saúde). O programa Mais Médicos contratou mais 18
mil profissionais da saúde brasileiros e estrangeiros para atenderem a cerca de
50 milhões de brasileiros nas regiões mais pobres do país (claro, sendo
duramente atacado pela elite médica brasileira, cuja origem social é a
burguesia, que tem nojo de pobres, negros e nordestinos e recusa-se a
trabalhar em tais áreas).
Dilma reajustou o salário mínimo
acima da inflação (segundo o insuspeito jornal Folha de S. Paulo a vida dos
mais pobres melhorou 129% nos últimos 12 anos), preservou a legislação
trabalhista, que o PSDB pretende “flexibilizar”, revogando direitos em
benefício do acúmulo de mais lucros pelos empresários, e interrompeu o ciclo de
privatizações de FHC, mantendo a propriedade estatal da Petrobrás, Banco do
Brasil, Caixa Econômica Federal e outras empresas públicas. O PSDB, por sua
vez, tem votado no Congresso Nacional – o mais conservador desde 1964 – a favor
de projetos de exclusão social, como os da redução da maioridade penal para 15
anos de idade, o da ampliação da terceirização no mercado de trabalho, o que na
prática revoga direitos trabalhistas, pela redução do acesso da mulher ao
aborto em hospitais públicos, privatização da Petrobrás e outras empresas públicas,
fim do regime de partilha para a exploração do pré-sal, entre outras pautas
reacionárias.
O PT não é um partido revolucionário; ele nasceu das lutas operárias e populares no final da década de 1970 contra o regime militar e possuía um programa socialista. Hoje, é uma legenda social-democrata, que se propõe a fazer programas de distribuição de renda, democratização do estado e ampliação dos direitos sociais, mas nem isso a burguesia brasileira, que conserva a ideologia de Casa Grande & Senzala, está disposta a aceitar.
Já o PSDB, nos estados do país que desgoverna, como São Paulo, Goiás e Paraná, tem protagonizado violenta repressão policial a estudantes, professores e movimentos sociais, inclusive com o uso de helicópteros, blindados, tropa de choque, spray pimenta, bombas e balas de borracha. Exercida pela Polícia Militar, criada na época da ditadura, a violência acontece regularmente nos bairros de periferia, contra a juventude negra e pobre. Como se não bastasse a violência contra a juventude, os desgovernos tucanos ainda tentam implementar o projeto de "reorganização" da educação, que na prática significa privatização do ensino, fechamento de centenas de escolas e demissão de professores e funcionários, além do crescimento da evasão escolar. Em São Paulo, os estudantes ocupam mais de 200 escolas e enfrentam a Polícia Militar, aos gritos de "Não tem arrego! Você tira a nossa escola, a gente tira o seu sossego!".
O PT não é um partido revolucionário; ele nasceu das lutas operárias e populares no final da década de 1970 contra o regime militar e possuía um programa socialista. Hoje, é uma legenda social-democrata, que se propõe a fazer programas de distribuição de renda, democratização do estado e ampliação dos direitos sociais, mas nem isso a burguesia brasileira, que conserva a ideologia de Casa Grande & Senzala, está disposta a aceitar.
Já o PSDB, nos estados do país que desgoverna, como São Paulo, Goiás e Paraná, tem protagonizado violenta repressão policial a estudantes, professores e movimentos sociais, inclusive com o uso de helicópteros, blindados, tropa de choque, spray pimenta, bombas e balas de borracha. Exercida pela Polícia Militar, criada na época da ditadura, a violência acontece regularmente nos bairros de periferia, contra a juventude negra e pobre. Como se não bastasse a violência contra a juventude, os desgovernos tucanos ainda tentam implementar o projeto de "reorganização" da educação, que na prática significa privatização do ensino, fechamento de centenas de escolas e demissão de professores e funcionários, além do crescimento da evasão escolar. Em São Paulo, os estudantes ocupam mais de 200 escolas e enfrentam a Polícia Militar, aos gritos de "Não tem arrego! Você tira a nossa escola, a gente tira o seu sossego!".
Na política internacional, Dilma
Rousseff manteve a política iniciada por Lula – integração com a América Latina
(MERCOSUL, Celac, Unasul), recusa à participação em uma “zona de livre
comércio” com os EUA (antes, ALCA, hoje, Aliança do Pacífico), que arruinaria a
indústria nacional, incapaz de concorrer com a norte-americana. Dilma denunciou
a agressão imperialista à Líbia, apoia firmemente a causa da criação do Estado
da Palestina, denunciando a violência sionista contra o povo palestino, e está
entre os arquitetos do novo bloco geopolítico internacional, os BRICs – Brasil,
Rússia, Índia, China, África do Sul – que ameaça a hegemonia política e
econômica do imperialismo norte-americano.
Já a oposição golpista, liderada pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes, Geraldo Alckmin, defende o oposto: redução da importância do MERCOSUL, retorno à OEA (onde os Estados Unidos têm direito a voto e veto), ingresso na Aliança do Pacífico, privatização da Petrobrás, fim do regime de partilha para a exploração do pré-sal e entrega de nossas riquezas para as companhias internacionais, tal como FHC fez com a Companhia Vale do Rio Doce. Um Brasil desgovernado pelo PSDB estaria fora dos BRICs e alinhado com os Estados Unidos, a OTAN, Israel, e exerceria um papel de desestabilização dos governos progressistas na América Latina – Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Chile, Uruguai.
Já a oposição golpista, liderada pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes, Geraldo Alckmin, defende o oposto: redução da importância do MERCOSUL, retorno à OEA (onde os Estados Unidos têm direito a voto e veto), ingresso na Aliança do Pacífico, privatização da Petrobrás, fim do regime de partilha para a exploração do pré-sal e entrega de nossas riquezas para as companhias internacionais, tal como FHC fez com a Companhia Vale do Rio Doce. Um Brasil desgovernado pelo PSDB estaria fora dos BRICs e alinhado com os Estados Unidos, a OTAN, Israel, e exerceria um papel de desestabilização dos governos progressistas na América Latina – Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador, Chile, Uruguai.
Quanto à suposta crise econômica
brasileira, é preciso ressaltar alguns pontos: 1) há uma crise econômica
internacional iniciada em 2007, nos EUA, quando Obama usou dinheiro público para
socorrer os bancos privados, para evitar sua falência. Essa crise teve
desdobramentos, nos anos seguintes, na Europa, especialmente na Grécia,
Portugal, Espanha, Itália e França (nesse último país, a taxa de desemprego é
de 10%; na Espanha, 26%, e na Grécia, 27%). O Brasil, sob os governos de Lula e
Dilma, foi pouco atingido por essa crise, que se tornou mais visível a partir
de 2014, com o crescimento das taxas de inflação e desemprego.
O que a mídia não diz é que parte da responsabilidade por essa crise é das grandes empresas brasileiras, que demitem milhares de trabalhadores, usando a desculpa da “crise”, para reduzir despesas e concentrar ainda mais o lucro, e dos próprios meios de comunicação, que buscam criar, artificialmente, um sentimento de pessimismo para justificar o afastamento da presidenta. A criminalização pela mídia das grandes construtoras brasileiras, que empregam 500 mil trabalhadores e têm realizado obras de grande porte no país e no exterior, também tem a sua parcela de culpa pela retração da economia (neste caso, há um reflexo da contradição entre os setores capitalistas produtivos e aqueles vinculados ao capital financeiro e ao rentismo).
A situação econômica brasileira atual nem de longe pode ser comparada com a dos oito anos de mandato de FHC: basta compararmos os números dos dois governos – taxas de desemprego, inflação, PIB, valor do salário mínimo, da cesta básica, da gasolina etc. Com a saída de Levy do Ministério da Fazenda, o país tem todas as condições para retomar uma agenda positiva de desenvolvimento e de ampliação dos investimentos em programas sociais como o Minha Casa Minha Vida, maior projeto de habitação popular já implementado no Brasil, que entregou, até 2014, quatro milhões de moradias.
O que a mídia não diz é que parte da responsabilidade por essa crise é das grandes empresas brasileiras, que demitem milhares de trabalhadores, usando a desculpa da “crise”, para reduzir despesas e concentrar ainda mais o lucro, e dos próprios meios de comunicação, que buscam criar, artificialmente, um sentimento de pessimismo para justificar o afastamento da presidenta. A criminalização pela mídia das grandes construtoras brasileiras, que empregam 500 mil trabalhadores e têm realizado obras de grande porte no país e no exterior, também tem a sua parcela de culpa pela retração da economia (neste caso, há um reflexo da contradição entre os setores capitalistas produtivos e aqueles vinculados ao capital financeiro e ao rentismo).
A situação econômica brasileira atual nem de longe pode ser comparada com a dos oito anos de mandato de FHC: basta compararmos os números dos dois governos – taxas de desemprego, inflação, PIB, valor do salário mínimo, da cesta básica, da gasolina etc. Com a saída de Levy do Ministério da Fazenda, o país tem todas as condições para retomar uma agenda positiva de desenvolvimento e de ampliação dos investimentos em programas sociais como o Minha Casa Minha Vida, maior projeto de habitação popular já implementado no Brasil, que entregou, até 2014, quatro milhões de moradias.
Em 2016, com certeza, a disputa
política continuará intensa, e os movimentos sociais têm clareza de seus
objetivos: defender a democracia, o estado de direito e o mandato legítimo de
Dilma Rousseff, defenestrar Eduardo Cunha da presidência da Câmara Federal –
ele tem um prontuário criminal suficiente para ser preso – e lutar pela
retomada do crescimento econômico, com distribuição de renda e ampliação dos
programas sociais para o benefício de toda a sociedade brasileira.
#NãoVaiTerGolpe!
#FascistasNãoPassarão!
Claudio
Daniel
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
POEMAS DE CRAVEIRINHA
GULA
Uivam
as suas maldições
as insidiosas hienas
própria sanha.
Rituais
de tão escabrosa gulodice
que até nos esfomeados
aldeões da tragédia
a gula das quizumbas
se baba nas beiças
das catanas,
dos machados.
A BOCA
Jucunda boca
deslabiada a ferozes
júbilos de lâmina
afiada.
Alva dentadura
antônima do riso
às escancaras desde a cilada.
Exotismo de povo flagelado
esse atroz formato
da fala.
BLASFÉMIA
No relicário que te acolhe
é-me angustioso supor
o labor das areias
na madeira.
E meu pesadelo dos pesadelos
a iconoclasta muchém
no afã da sua lavra
orgiando-se voraz.
Blasfémia suprema
o festim.
MISSANGAS
Do avesso das pálpebras
gotejam missangas
de sal.
Penosa
amargura escorrendo
faz alcalino o rasto.
MONOGRAMA
A sotavento da face
colar aquoso
se desfia
E
em sua fímbria macia
meu lenço azul-escuro
discreto humedece
o monograma
Jota
Cê.
Colar
que se desfia
no próprio lapso.
OS POROS DA PESTE
O
gordo gato de sangue
ouve triste na madrepérola das unhas
os africanos rumores do nosso passajando
suco caqui epidérmico a chiar
um ror de ratos assomando
as cabeças perdidas
nos milhões de poros
da peste!
DE PROFUNDIS
Possessos de sangue
em abrenúncios
de gritos.
Ao rosnar
da súcia,
em de profundis de
facas.
SUELTO
No laboratório
o lobo dirige a radioatividade
e concentra o cobalto.
Na igreja
pequenos esqueletos juntam
no catecismo os metacarpos
e rezam.
É UMA NÁUSEA
É uma náusea
a manifesta piedade
e cobarde a inteligência
se não interpreta a realidade.
POEMETO
Na cidade calada à força
agora falamos mais.
Que para violar este silêncio
basta porem-nos juntos
na prisão.
A GRANDE MALDITA
Isso a Grande Maldita
nunca devia ter feito.
Chegar de surpresa
e levar-te.
.......................
Sem merecer
ainda estar
ao teu lado.
SEM ALMA
Recuso
meu corpo.
Companheiro desolado
ele foge de sua alma
quando por instantes
a ternura do diabo
me toma.
KARINGANA UA KARINGANA
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana ! –
é que faz o poeta sentir-se
gente.
E nem
de outra forma se inventa
o que é propriedade dos poetas
e em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser.
– Karingana
!
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
OS DISFARCES DO CRUEL DEUS TEMPO
Claudio
Daniel
A duração do deserto (2013), de Nina Rizzi, lançado no I
Festival Poesia Nova, realizado no Centro Cultural São Paulo, é o segundo
título da autora paulista que reside em Fortaleza e também publicou Tambores
pra n’zinga (2012). Em ambos volumes, a lírica narrativa de matiz
modernista soma-se a outras referências, como a fotografia, o cinema, a
estética do fragmento e a cultura afrobrasileira (candomblé pra nanã).
Neste segundo livro, o leque é ainda mais plural, incorporando, de maneira
bastante pessoal, ecos do cubofuturismo russo e da paisagem expressionista, em poemas
construídos em diferentes formas e estruturas, da paródia da linguagem do
e-mail à casida – gênero
poético praticado nas literaturas árabe e persa, popularizado no
ocidente por Federico Garcia Lorca. O multiculturalismo, aliás, é um
traço evidente na escrita poética da autora: o acento oriental já aparece em
seu primeiro livro, em poemas como kabuki
(“com a força de um hímem / os pés apertados da gueixa / me recolho / lanço /
bênçãos e espadas”), mesclado às citações africanas, em peças como jongo ojo-bo (“uso o vestido, o colar de
contas, a rosa, encarnados. / e não apareço. é outubro e eu danço pra mim”) e flauta pra n’zinga (“arranco dos meus ovários teus rosários / contas pra meus
afoxés, tambores”). Todas essas referências revelam uma poeta culta, que
dialoga com a tradição literária e temas culturais, porém, sem afetação
acadêmica ou pretensão erudita: a intertextualidade, na poesia de Nina Rizzzi,
é um índice sentimental, uma pista da relação amorosa com o seu repertório de
afinidades eletivas e uma exteriorização de seu imaginário. A voz da autora é
lúdica e quase sempre com um timbre bem-humorado, irreverente, embora seja
capaz também da solenidade da elegia, como no poema Na estrada de Sintra,
dedicado ao jovem poeta Raul Macedo, falecido em desastre de automóvel (“O que
acontece quando morrem os poetas? / Insensíveis, vão, corpo e mente findos.
Ficam essas / Palavras e àquelas mais que lindas, lazarentas”).
A diversidade de temas, estilemas e timbres de A duração do deserto faz pensar – a princípio – na ausência de um foco narrativo, de uma unidade estrutural, mas a impressão se desfaz após uma convivência maior com esses poemas, que podem ser lidos como um diário cujo leitmotiv é o tempo, explícito já no título da obra. A anotação epistolar (além do diário, podemos notar aqui a presença da carta, do bilhete, do e-mail) é mais evidente nos poemas lacônicos, que assumem por vezes a forma de dístico, como nesta composição: “lançar meu corpo ao cimo / e alcançar teu nome, abismo” (poema impossível, dionises variegada), ou ainda nesta peça, que justifica o título da obra: “água e sal são meus olhos, / deserto é te esperar” (te amar, assombro). A brevidade é também marca característica de seu primeiro livro, Tambores pra n’zinga, onde lemos peças admiráveis como bachiana em dois movimentos pra villa-lobos (“já volto, vou me inexistir / no peito, aquela coisa de moer cana”, que apresenta em poucas linhas um jogo entre imagem concreta e experiência subjetiva), barcarola (“é preciso me afogar de você / como se fosse morrer”) e barcarola em dó bemol (“doído é / descalçar as nuvens”), que dialogam com a música erudita e empregam o recurso da prosopopeia, ou atribuição de qualidades humanas a entes inanimados. Impossível não recordar a lírica de Safo, a poeta de Lesbos, especialmente a Safo dos poemas mais condensados, como este: “A lua já se pôs, / as Plêiades também: / meia-noite; foge o tempo, / e estou deitada sozinha” (tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos).
Notáveis, também, os poemas mais longos: Escrita aos ímpares (“Pedra ontem, pedra hoje e nunca”) e Contrapoema ao homem de meu tempo (“o homem do meu tempo em se punir, manso, me estrangula e ri”), que remete ao lirismo de Carlos Drummond de Andrade, ao mesmo tempo individual e cósmico. A poesia de Nina Rizzzi é um vasto palimpsesto onde, camada após camada, lemos os diferentes disfarces assumidos pelo cruel deus do Tempo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
TEMOS O MELHOR CONGRESSO QUE O DINHEIRO PODE COMPRAR
Desde o início de suas atividades em 2015, o atual Congresso Nacional se constituiu em um governo paralelo, colocando em pauta projetos que se chocam não apenas com o Governo Federal, mas com a própria democracia, o estado laico e de direito: redução da maioridade penal, flexibilização da legislação trabalhista, estatuto da família homofóbico, restrição do direito ao aborto, fim da lei de desarmamento, entre outras insanidades. O Parlamento declara guerra às mulheres, aos negros, aos jovens, aos homoafetivos, aos trabalhadores, enfim, à sociedade.
quinta-feira, 29 de outubro de 2015
O QUE ESTÁ EM JOGO NA ATUAL CRISE POLÍTICA
A atual crise política brasileira
é um conflito entre dois projetos de país: um que promove os direitos sociais,
a inclusão, o crescimento econômico com distribuição de renda, a transparência,
a democracia, a defesa de nossos recursos naturais, a participação popular, a
independência e soberania nacional; e outro que defende o retorno a um modelo
autoritário de exclusão social, de repressão aos movimentos sociais e
criminalização de mulheres, jovens, negros e homoafetivos, de liquidação dos
direitos trabalhistas e elevada concentração de renda, especialmente nos
setores financeiro, fundiário e agroindustrial, de entrega de nossas riquezas
naturais às grandes companhias internacionais e de submissão ao capital
internacional e à política externa dos Estados Unidos e de Israel.
Assinar:
Postagens (Atom)











