terça-feira, 13 de outubro de 2015

CARAPUÇAS PARA TODOS



Poetas que defendem o golpe de estado contra Dilma não são ingênuos, desinformados ou ignorantes, não desconhecem a história recente do país nem estão preocupados com ética, democracia, inclusão social ou com o desenvolvimento do país. São apenas burgueses que defendem os seus interesses de classe e pequeno-burgueses que imaginam fazer parte da elite e estão pouco se lixando para os programas sociais e a erradicação da miséria. São bons poetas? Sim, muitos deles são bons poetas, mas, como seres humanos, são LIXO e prefiro não conviver com a escória fascista. P.S.: a carapuça é para todas as cabeças que a merecerem.

domingo, 11 de outubro de 2015

PEQUENA LISTA DE COISAS DELICADAS

1) microleão esculpido em marfim; 2) leque decorado com uma lua vermelha; 3) formigueiro seco construído sobre um pedaço de cristal; 4) borboleta amarela voando sobre um filete de água; 5) faca tradicional japonesa (tanto), utilizada no suicídio ritual dos samurais (seppuku); 6) um anel de estanho entalhado; 7) coleção de malaquitas; 8) visão inesperada de seios; 9) caracol subindo numa folha; 10) pintura de galo a nanquim em papel de seda; 11) cálice de saquê do tamanho de um dedal; 12) o som da flauta de bambu; 13) pêlos ruivos púbicos; 14) o desenho da espuma nas ondas, recordando um dragão-do-mar; 15) o desenho das nuvens simulando um elefante; 16) frasco de mercúrio líquido; 17) pequeno peixe obeso cor de mercúrio; 18) arcos no pátio de uma igreja franciscana do século XVII; 19) espadas curvilíneas árabes; 20) fazer um tucano sangrar pelos olhos; 21) lagarto marrom se escondendo atrás das rochas numa tarde clara de sol.


PEQUENA LISTA DE COISAS ENÉRGICAS

1) deusa Kali dançando sobre o corpo de Shiva, com um colar de crânios sobre os seios e um cinturão com mãos de demônios decepadas; 2) Avalokiteshvara com seus 108 braços segurando diferentes armas sobrenaturais; 3) Ogum dançando com a sua espada; 4) vendedor na feira partindo um coco ao meio com o seu facão, em um único golpe; 5) zigurate de sete andares da antiga Babilônia; 6) a cidade de pedra de Angkor, no Camboja; 7) hélices de um helicóptero russo; 8) casal de leões fazendo amor na caverna; 9) leopardo correndo na savana; 10) kotegaeshi (chave de pulso do Aikidô e outras artes marciais japonesas) aplicado com timing, energia e precisão; 11) anel de ouro com um rubi vermelho-marrom; 12) a voz de sua mãe, em algum momento de sua infância; 13) os dentes de um cão pincher; 14) a Sagração da Primavera de Igor Stravinski; 15) caça russo Sukhoi-32 voando a dois mil km/2 sobre a Síria, mandando os terroristas para o inferno; 16) Claudio Daniel arrancando a mandíbula de tucanos e liberais.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A LÍRICA ANARCOPUNK DE DELMO MONTENEGRO





















Delmo Montenegro publicou em 2003 o seu livro de estreia, Os jogadores de cartas, poema longo que mescla narrativa histórica, mitologia, crítica política, drama teatral e sátira do discurso da alta cultura. Seguindo o conceito do poeta norte-americano Edgar Allan Poe, para quem o poema longo é uma sucessão de poemas breves, Delmo Montenegro constroi seu livro inaugural como uma sequência fragmentária e descontínua de elementos verbais e visuais, utilizando diferentes tipologias de letras e recursos de espacialização de palavras e linhas, à maneira do Lance de dados de Mallarmé, que funcionam como a notação em uma partitura musical, indicando pausas, ênfases, mudanças de timbre, materializadas na oralização. A dicção do poeta pernambucano é paródica, captura e amplia diversas vozes, a melopeia simbolista, o jorro semântico beatnik e certo brutalismo expressionista, como podemos ler nestas linhas: “nos túneis de horror materno / nós caminhamos / por ordem da rainha de Bethsabath / (...) tateando pelo escuro pelas fossas / pelo sol pútrido das fezes / caduceu das moscas / avançamos / pelo Horror disforme / em nossas máscaras”. O jogo paródico e polifônico é reforçado pela colagem de desenhos e ilustrações que funcionam como ready made dadaístas, assim como as citações de personagens históricos e mitológicos de diversos tempos e espaços, reais e imaginários. Todas essas citações têm evidente caráter lúdico e compõem uma alegoria jocosa e cruel da jornada humana.

Ciao cadáver, segundo livro de Delmo Montenegro, publicado em 2005, com projeto gráfico de Jorge Padilha, investe em outra estratégia criativa, apresentando poemas de arquitetura minimalista que exploram recursos semânticos como neologismos, arcaísmos, termos científicos extraídos da medicina e da biologia e vocábulos estrangeiros para a criação de teratologias que recordam a pintura de Pieter Bruegel ou Hieronymus Bosch: “luxo-caveira”, “mandíbula-bistrot: vagina”, “achtung-esqueleto”, “cobra-caveira”, “pirâmide fecal”.  É uma poesia altamente concentrada, com ecos evidentes da música erudita de vanguarda – Boulez, Stockhausen, Varèse, Cage –, porém, não deve ser identificada com alguma forma de poesia pura ou abstrata, alheia aos acontecimentos no mundo, bem ao contrário; trata-se de uma poesia crítica, tanto às formas consolidadas do discurso quanto à própria realidade, crítica que se concretiza em compactas metáforas como “latão-ônix-pesadelo”, “televisão-diapasão-diarreia”, “língua-porco-crematório”, “aracnoacordedestempero”. Ciao cadáver tem uma dicção anarcopunk habitada por pesadelos de Francis Bacon ou fantasmas de Franz Kafka, em que o próprio lirismo se transfigura em cenários hellraiser, como nestas linhas da composição intitulada ausência: tálamo-caveira-canto (para greta): “um leque / esqueleto-cobre: / rizoma-de-dores (maria / erêndira / recostada) ossuário- / fragonard / pânico da língua / vestes / sob vestes / : ali (ônfalo-angústia- / cachalote) sobrescreves / beleza-máscara”.   

Em seu livro mais recente, Recife no hay, publicado em 2013 e vencedor do I Prêmio Pernambuco de Literatura, Delmo Montenegro retorna a um discurso mais linear, porém, mantém a ironia, o sarcasmo e o humor negro já presentes em seus livros anteriores, em versos como estes: “vamos para a praia dos nervos / para as geleiras / infames / desossar orquídeas / montar na prancha dos assassinos / o grande / kahuna / espera / por / nós”. Em outra composição, intitulada os dinossauros, o poeta pernambucano escreve: “poetas são como / dinossauros / todos vão ser extintos / de uma hora / pra outra, todos / sem exceção / guarde o seu lote / na cratera / de / Chicxulub”.  A virulência satírica, mais visível neste volume que nos anteriores, aproxima Delmo Montenegro da tradição marginal de poetas como Roberto Piva, Sebastião Nunes e Glauco Mattoso, linha criativa diversa do construtivismo de Ciao cadáver mas com o mesmo potencial subversivo em relação às “boas maneiras” do verbo. Outro aspecto que chama a atenção em Recife no hay são as narrativas poéticas, a meio fio entre a fabulação e o canto dissonante, como por exemplo nesta peça, de alto impacto: “sim, seremos amantes / solte sua voz / valvulada / durma comigo / seja meu cadáver esta noite / depois / ponha / os cílios postiços / e / desapareça / sem amor, sem paradas cardíacas / sejamos / apenas / dóceis animais empalhados / -- ouça agora, revolva agora -- / meu / nome /é / cão / -- abra meu zíper // / palhas”.

(Artigo de Claudio Daniel  publicado na edição de outubro da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA)

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

RECITAL DA CAIXA PRETA & CADERNOS BESTIAIS


















O Recital da Caixa Preta acontecerá no dia 22 de outubro, quinta-feira, a partir das 19h, na Casa das Rosas, situada na Av. Paulista, n. 37. Na ocasião haverá leituras poéticas de autores convidados e o lançamento de vários livros da Lumme Editor, inclusive do segundo volume de minha obra Cadernos Bestiais. Publico abaixo um dos poemas do livro:

HINO À POLÍCIA

Toca o terror —
cabeças de arimãs

reverberam féretros
assanha-se histérica

turba de behemoths
damballas beherits

capacetes visores
escudos tonfas

vidro moído ferro
esturricado pneus

incendiados entre
balas de borracha

rasgando rasgando
vielas entrevértebras

fantoches toscos
fantoches-ferrabrás

com fuzis automáticos
de mira telescópica

escarnecidos espectros
em carros blindados

para a contra-insurgência
nas avenidas furiosas

de meu próprio país.

2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

PEQUENA LISTA DE LIVROS ESSENCIAIS



1) a Odisseia de Homero; 2) Tao Te King, de Lao Tzu; 3) Dhammapada; 4) Bhagavad Gita; 5) I Ching; 6) Cântico dos Cânticos de Salomão e o Qohélet, do Antigo Testamento (pela poesia); 7) A Antologia da Poesia Clássica definida por Confúcio; 8) A poesia de Li T'ai Po; 9) os diários de viagem de Bashô; 10) a Chrestomatia arcaica, que reúne a poesia trovadoresca galego-portuguesa; 11) a Divina Comédia de Dante; 12) os Lusíadas (e os sonetos) de Camões; 12) os Ensaios de Montaigne; 13) o Fausto de Goethe; 14) As Flores do mal de Baudelaire; 15) a Poesia Completa de Rimbaud; 16) idem, de Mallarmé; 16) Parerga e Paraliponema, de Schopenhauer; 17) Assim falava Zaratustra, de Nietzsche; 18) A origem das espécies, de Darwin; 19) o Manifesto Comunista e O Capital, de Marx; 20) O futuro de uma ilusão e O mal estar na civilização, de Freud; 21) Crime e castigo e Os irmãos Karamazov, de Dostoievski; 22) O castelo, A metamorfose e O processo, de Kafka; 23) A montanha mágica e Doutor Fausto, de Thomas Mann; 24) Obras completas de Jorge Luis Borges; 25) O eu profundo e os outros eus, de Fernando Pessoa; 26) Os cantos, de Ezra Pound; 27) Terra devastada, de T. S. Eliot; 28) Ulisses e Finnegans Wake, de James Joyce; 29) Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa; 30) Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; 31) Rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade; 32) Poesia completa de Maiakovski; 33) Poesia completa de João Cabral de Melo Neto; 34) centenas de outros títulos que não caberiam aqui.

PEQUENA LISTA DE COISAS SENSUAIS



1) tatuagens; 2) tecidos indianos; 3) safiras; 4) conchas brancas; 5) frutos-do-mar; 6) a Lua; 7) papel de seda; 8) o marfim; 9) a madrepérola; 10) saquê gelado; 11) estátuas do período alexandrino; 12) pés femininos nus; 13) gargantilhas; 14) correntinhas de tornozelo; 15) o mar; 16) a cor azul; 17) morangos, goiabas; 18) gravuras coloridas japonesas; 19) danças africanas; 20) Cuba; 21) a noite; 22) música de Debussy e Henri Duparc; 23) poesia de Herberto Helder; 24) uma larva, transformada em borboleta, rompendo o casulo e alçando voo pela primeira vez.

PEQUENA LISTA DE COISAS ADMIRÁVEIS



1) sashimi e sushi com saquê; 2) arroz indiano com passas e especiarias; 3) chá do Ceilão; 4) vinho tinto seco; 5) doces portugueses; 6) danças tradicionais da Indonésia; 7) espadas japonesas; 8) máscaras africanas; 9) os Cantos de Ezra Pound; 10) os Ensaios de Montaigne; 11) os haicais de Bashô; 12) o jazz de John Coltrane; 13) as óperas de Wagner; 14) gatos, tigres, panteras, felinos em geral; 15) orquídeas; 16) a pintura de Miró, Kandinsky, Maliévitch; 17) a Palestina; 18) a Índia; 19) a China; 20) o Japão; 21) Marx, Engels, Lênin, Stalin; 22) a arquitetura de Gaudí; 23) a mulher que nunca conheci; 24) a cor vermelha; 25) a revolução socialista internacional.

PEQUENA LISTA DE COISAS ABOMINÁVEIS



1) couve-de-bruxelas; 2) beterraba; 3) mandioquinha; 4) vinho doce espumante; 5) a cor roxa; 6) karaokê; 7) pastores evangélicos; 8) sertanejo, pagode e outros ruídos antimusicais; 9) a mídia hegemônica; 10) bancos; 11) latifúndios; 12) juízes; 13) Paulo Coelho; 14) Angélica Freitas; 15) Ricardo Domeneck; 16) fome; 17) guerra; 18) ódio; 19) preconceito; 20) P$DB; 21) o telefone; 22) capitalismo; 23) racismo; 24) sionismo; 25) fascismo; 26) imperialismo; 27) a burrice.

domingo, 4 de outubro de 2015

SOBRE A CRÍTICA LITERÁRIA


Críticos literários cometem erros? Sim, com frequência! Saint-Beuve condenou a suposta "imoralidade" de Flaubert e Baudelaire. Sílvio Romero não reconheceu plenamente o talento de Machado de Assis. José Veríssimo condenou a linguagem “obscura” de “Os sertões”, de Euclides da Cunha. Antonio Candido excluiu o barroco de sua “Formação da Literatura Brasileira” e não compreendeu Sousândrade. Wilson Martins considerava Mário Palmério superior a Guimarães Rosa -- para citar poucos exemplos. A crítica literária, quando não segue determinada teoria literária, com um método particular de leitura e interpretação de textos, obedece a critérios subjetivos de gosto pessoal, e em AMBOS os casos pode cometer injustiças, inclusive pela inadequação da teoria ao texto analisado. Isto não significa que o trabalho do crítico seja sempre insuficiente ou inferior ao texto literário: ele é uma intervenção paralela à obra literária e o seu mérito, quando o crítico realiza bem a sua tarefa, está na discussão inteligente dos procedimentos artísticos adotados pelo escritor, contribuindo para iluminar o entendimento dessa obra. O crítico fracassa quando sua leitura não é capaz de dar conta da proposta do autor analisado, quando valoriza excessivamente autores de segunda ordem, por motivos nem sempre literários, ou quando subestima autores de maior originalidade, por não compreendê-los ou por razões de desavença pessoal, interesse comercial, orientação jornalística ou política literária. Uma atividade de especial importância do crítico literário é a do questionamento, ampliação ou reinvenção do cânone literário, pela inclusão de autores de qualidade injustamente esquecidos, como Augusto de Campos fez com Sousândrade e Pedro Kilkerry, e também pela exclusão de autores sem originalidade e densidade semântica, cuja reputação foi construída a partir de redes de relacionamento social próximas às instâncias de poder universitário, editorial ou midiático (sim, esta é uma referência direta a Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e outros autores medíocres inventados por Carlito Azevedo). Em todos os casos, a crítica literária nunca é mais importante que a leitura direta dos poemas, contos, novelas ou romances. Ela própria constitui um gênero literário, quando tem a densidade do ensaio, e pode ser considerada, para além da dimensão argumentativa, como construção estética, como no caso dos livros de Walter Benjamin.

FILÓSOFOS, COGUMELOS
















Rumor de verde-água esse bosque de caninos que desaparece.

Trevos
na boca

— odor
de cogumelos

e lua-de-
mosquitos —.

Estranha senhora fênix viaja em
caligrafia sua
tiara
azul.

Vagares da lua de outono biombo jasmim dragão
no teto
curvo
como atravessar
espelhos.

— Armas e cascos de cavalos
ao longe —.

Filósofos-de-laca conjeturam possíveis amanhãs

2003 

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

LEOA, CLAVÍCULA




















Jovem negra pinta de azul-violeta as pontas dos mamilos.
Há jaguares
sob as unhas.
Mímica
de esfinge
nos pulsos.
Núbia voz animal raio-de-pedra golpeia nudez janaína
reflexo de híbrida
orquídea
ou seio-
noite-
flor-
que incandesce.
(Três colares
de relva;
riscos
gravados
na rocha,
sortilégio.)
(Pintura: mascar o carvão leonino da desértica
epiderme,
ruminando
arenoso
até cantar
a clavícula.)

Claudio Daniel, 2003.

Imagem: Uwe Ommer.

(Poema publicado no livro Figuras metálicas. São Paulo: Perspectiva, 2004.)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

UM POEMA INÉDITO DE CLAUDIO DANIEL






















OXAGUIÃ

Ajagunã, aquele-que-muda-todas-as-coisas-
muda-noite-em-rio-
pedra-em-flor-
mulher-em-tempestade. 
Kabiyesi —
aquele-que-sabe-
todos-os-saberes
sabe das minas de prata
sabe dos rios de água quente.
Eléèjìgbó —
orixá-comedor-de-inhame-
inventor do pilão
pai de todos os inventos
aquele-que-dança-com-espada-na-mão. 
Eléèjìgbó —
orixá-comedor-de-inhame-
aquele-que-é-branco-
aquele-que-é-vermelho-
aquele-que-dança-com-espada-na-mão. 
Oisa-Je-Iyán,
o grande teimoso
aquele-que-nunca-
se-conforma-
Oisa-Je-Iyán,
o grande teimoso
aquele-que-nunca-
silencia-
toma de quem
tudo tem
para saciar
a fome de seus filhos.
Filho de Oxalufã,
o astucioso
livra da miséria
todos os teus filhos.
Babá Ejigbô, aquelele-que-dança-
vestido-de-branco-
aquele-que-canta-
vestido-de branco-
aquele-que-canta-
e-encanta-
todas-as-cores-
do-céu.

Epe, Epe, Babá Oxaguiã!

2015

O LIVRO DE ORIKIS DE CLAUDIO DANIEL É PUBLICADO PELA EDITORA PATUÁ




 















Oriki é o poema ritual da tradição iorubá, cantado até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, celebrando deuses, reis e herois lendários. Quem introduziu o oriki no Brasil foram os negros africanos, escravizados no período colonial-monárquico, que conservaram as suas tradições religiosas sob o aparente sincretismo com o culto aos santos da devoção cristã. As primeiras traduções desses textos orais para o idioma português em forma poética foram realizadas por Antonio Risério em seu belíssimo livro Oriki orixá, publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos. Nesse livro, Risério apresenta aos leitores excelentes ensaios críticos e traduções de alguns desses poemas cantados. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria no livro A roda do mundo. Ricardo Corona, Fabiano Calixto e Frederico Barbosa também escreveram bons orikis. Claudio Daniel, em seu Livro de orikis, procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos dos orixás, seus mitos, atribuições e atributos, com uma visada crítica contemporânea, incorporando temas da situação política e social do país. Todos os poemas que compõem o livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015, com exceção do Oriki de Orunmilá, redigido em 2006. As linhas apresentadas em itálico no interior dos poemas são citações de “pontos” cantados nos rituais em diversos terreiros no Brasil e os textos são apresentados conforme a ordem do xiré cantado no candomblé (foi adotada a sequência estabelecida por Pierre Verger no livro Os orixás, com poucas variações). A seleção de 18 orixás homenageados no livro incorporou divindades cultuadas nas tradições ketu, bantu e jejê. No final do volume, é apresentado um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas. Quem quiser adquirir o livro pode solicitá-lo ao editor Eduardo Lacerda pelo e-mail editorapatua@gmail.com

Leia abaixo alguns poemas do livro:
 

EXU

Lagunã corrige o corcunda.
Faz crescer a lepra do leproso.
Põe pimenta no cu do curioso.

Legbá ensina cobra a cantar.
Entorta aquilo que é reto,
endireita aquilo que é curvo.

Exu Melekê — o desordeiro
faz a noite virar dia e o dia
virar noite. Surra com açoite

o colunista da revista. Cega
o olho grande do tucano —
e zomba do piolho caolho.

Marabô vai-vem-revém.
Quente é a aguardente
do delinquente. Elegbará

com seu porrete potente
quebra todos os dentes
do entreguista privatista.

Bará tem falo de elefante.
É o farsante dos farsantes:
fode a mulher do deputado

hoje – e faz o filho ontem.
Agbô confunde o viajante
e o faz perder a sua rota.

Bará Melekê compra azeite
no mercado — levando peneira
volta sem derramar uma gota.

Larôye Exu! O desalmado
soma pedras e perdas na sina
do condenado. Sete Caveiras:

que seja suave minha sina
neste mundo tão contrariado.
Que seja suave – Larôye Exu!
 

OGUM

Ogum Oniré
pisca o olho
e cai um dedo
do mentiroso.
Pesca o peixe
sem ir ao rio.
Molamolá
— farejador
de farelos —
livra seus filhos
do abismo.
Ogum Ondó
viajou a Ará
e a incendiou.
Viajou a Irê
e a demoliu.
Senhor de Ifé,
livra seus filhos
do abismo.
Ogundelê
malha o ferro
e faz flechas
de flagelo.
Comedor de cães
fulmina o racista.
Ogum Megê
queima o sangue
do fascista.
Megegê
golpeia o golpista
da revista.
Ferreiro-ferrador
forja a foice
forja o martelo.
Que não falte
o inhame.
Que não falte
massa de pão.
Pai do meu avô,
livra seus filhos
do abismo.

Ògún ieé!


 OXOSSI

Akueran feiticeiro
sabe folha
que mata.

Akueran feiticeiro
sabe folha
que cura.

Akueran feiticeiro
fere o olho
do sol.

Akueran feiticeiro
mata a morte
de medo.

Akueran feiticeiro
faz janeiro
virar outubro.

Akueran feiticeiro
faz amarelo
virar vermelho.

Akueran feiticeiro
encanta a lua
com sua beleza.

Akueran feiticeiro
apavora a terra
com sua força.

Akueran feiticeiro
livra seus filhos
da fome.

Akueran feiticeiro
livra seus filhos
da usura.

Òké Aro! Arolé!

 
XANGÔ

Xangô Oluaxô —
o raio rubro
rasga o céu.
Obakossô
faz o forte fugir
de medo.
Alafim de Oió
não lute comigo.
Alafim de Oió
seja meu abrigo.
Oba Arainã
fala com boca
Oba Arainã
fala com olhos
Oba Arainã
fala com pele
Oba Arainã
fala com raio.
Leopardo de Oiá
não lute comigo.
Leopardo de Oiá
seja meu abrigo.
Aganju
olho-de-chispa
mata o que mente
com pedras de raio.
Mastiga os juízes.
Castiga a mídia.
Oba Lubê
não lute comigo.
Oba Lubê
seja meu abrigo.
Oba Orungá dança alujá
queima a xota
da dondoca.
Oba Orungá dança alujá
queima o falo
do Bolsonaro.
Oba Orungá dança alujá
e saúda a beleza
que há no mundo.
Oba Orungá dança alujá
e saúda a beleza
que há no mundo.

Kawó Kabiesilé!

 
LOGUNEDÉ

Dedicado a Gilberto Gil

Logunedé
leopardo-menino-
aquele-que-nasceu-
numa-pétala-
de-flor-
Logunedé
leopardo-menino-
beleza-preta-
senhor-de-toda-
a-beleza-
Logunedé
leopardo-menino-
filho-d’Oxum-
pesca-nas-águas-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
filho d’Oxóssi-
caça-nas matas-
d’Oxossi-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-todos-os
feitiços-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-feitiço-
que-mata-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-fetiço-
que-cura-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-foi-mudado-
em-cavalo-
marinho-
Logunedé
leopardo-menino-
muda-de-forma
em-todas-as-
formas-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-lua-pavão-
e-água-do-rio-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-onça-
poesia-estrela-
tempestade-
Logunedé
leopardo-menino-
senhor-de-todas-
as-surpesas-
Logunedé
leopardo-menino-
faz-o-baobá-
virar-formiga-
e-a-formiga-
virar-centelha-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-veste-saia-
no-palácio-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
castra-aquele-
que-estupra-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-as-suas-
três-muitas-
rainhas-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-todas-
as moças-
todas-as-moças-
são-rainhas-
Alaketo-ê
Ala Ni Mala
Ala Ni Mala
okê

Eru wawá!



OBÁ

Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oyá
venceu
Oyá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Exu
venceu
Exu.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oxalá
venceu
Oxalá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por intriga
d’Oxum.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por amor
de Oba-
Orungá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
protege
aquele
que ama.
Obá Obá
protege
aquele
que luta.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.

Obà Siré!


OXALÁ

Oxalufon —
aquele-que-caminha-
na-areia-
mestre dos corcundas
Obatalá —
aquele-que-come-
caracol-
forte como touro branco
Onírinjà —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar surdo.
Ọbaníjìta —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar mudo.
Olufón —
aquele-que-grita-
quando-acorda-
livra a filha
da armadilha.
Òòsàálá —
aquele-que-come-
rato-e-peixe
faz a moça estéril
embarrigar.
Olúorogbo —
aquele-que-fulmina-
fascista-
faz tucano virar
farelo.  
Orixanlá —
aquele-que-se-veste-
de-branco
aquele-que-canta-
vestido-de branco
aquele-que-dança-
vestido-de-branco
aquele-que-é-dono-
da-xota-de-Iemanjá
— Òrìşáko!

Epa Bàbá!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

PORQUE A LUTA DE CLASSES NÃO TEM IDADE


BURGUESIA BRASILEIRA



A burguesia brasileira soube conviver com o trabalho escravo, a monarquia, a oligárquica república velha, o Estado Novo, o latifúndio, a ditadura militar. Ela sempre foi uma classe social parasitária, machista, racista, homofóbica, inimiga de qualquer avanço social. É uma classe que não tem – nunca teve – qualquer compromisso com a democracia, a ética, os direitos humanos, o crescimento econômico independente e soberano, a distribuição de renda, o progresso social – foi incapaz de realizar uma autêntica revolução democrática e, ao contrário, aceita ser sócia menor do imperialismo, comendo as sobras. Hoje, seu objetivo maior é destruir o PT e colocar na ilegalidade o conjunto da esquerda -- partidos, sindicatos, movimentos sociais -- para desencadear uma contrarrevolução que destrua todas as conquistas obtidas nos últimos treze anos de governos democrático-populares. NÃO PASSARÃO!!!

OU BARBÁRIE



As ciências humanas tiveram rápido desenvolvimento no início do capitalismo porque a burguesia precisava opor um conhecimento laico à herança cultural da Igreja Católica e da Monarquia, formar novos quadros intelectuais e políticos e criar um outro sistema político e administrativo, a democracia representativa parlamentar, sustentada pelo sufrágio universal dos cidadãos. Entre o final do século XVIII e o final do século XX, inúmeras disciplinas universitárias e ciências surgiram, inclusive para fomentar empregos para jovens e mulheres da pequena burguesia, como os estudos literários, a sociologia, a antropologia. Hoje, não é mais necessário, ao desenvolvimento do capitalismo, essa pluralidade de saberes, nem os direitos sociais conquistados ao longo do século XX, nem mesmo a democracia burguesa: com as vitórias eleitorais da esquerda na América Latina, a própria democracia é vista como contrária aos interesses das elites, que sonham com uma nova sociedade, muito parecida com o que foi o nazifascismo na Europa: uma sociedade altamente hierarquizada, verticalizada, com rígido controle das classes populares pelos capitalistas e a eliminação de qualquer forma de pensamento crítico, seja nas escolas, universidades, seja na vida política e social, seja na internet e nos veículos de comunicação. Nos próximos anos ou décadas, a escolha da humanidade, como dizia Rosa Luxemburgo, será entre o socialismo e a barbárie.