Poetas que defendem o golpe de
estado contra Dilma não são ingênuos, desinformados ou ignorantes, não
desconhecem a história recente do país nem estão preocupados com ética,
democracia, inclusão social ou com o desenvolvimento do país. São apenas
burgueses que defendem os seus interesses de classe e pequeno-burgueses que
imaginam fazer parte da elite e estão pouco se lixando para os programas
sociais e a erradicação da miséria. São bons poetas? Sim, muitos deles são bons
poetas, mas, como seres humanos, são LIXO e prefiro não conviver com a escória
fascista. P.S.: a carapuça é para todas as cabeças que a merecerem.
terça-feira, 13 de outubro de 2015
domingo, 11 de outubro de 2015
PEQUENA LISTA DE COISAS DELICADAS
1) microleão esculpido em
marfim; 2) leque decorado com uma lua vermelha; 3) formigueiro seco construído
sobre um pedaço de cristal; 4) borboleta amarela voando sobre um filete de
água; 5) faca tradicional japonesa (tanto), utilizada no suicídio ritual dos
samurais (seppuku); 6) um anel de estanho entalhado; 7) coleção de malaquitas;
8) visão inesperada de seios; 9) caracol subindo numa folha; 10) pintura de
galo a nanquim em papel de seda; 11) cálice de saquê do tamanho de um dedal; 12) o som da
flauta de bambu; 13) pêlos ruivos púbicos; 14) o desenho da espuma nas ondas,
recordando um dragão-do-mar; 15) o desenho das nuvens simulando um elefante;
16) frasco de mercúrio líquido; 17) pequeno peixe obeso cor de mercúrio; 18)
arcos no pátio de uma igreja franciscana do século XVII; 19) espadas
curvilíneas árabes; 20) fazer um tucano sangrar pelos olhos; 21) lagarto marrom
se escondendo atrás das rochas numa tarde clara de sol.
PEQUENA LISTA DE COISAS ENÉRGICAS
1) deusa Kali dançando
sobre o corpo de Shiva, com um colar de crânios sobre os seios e um cinturão
com mãos de demônios decepadas; 2) Avalokiteshvara com seus 108 braços
segurando diferentes armas sobrenaturais; 3) Ogum dançando com a sua espada; 4)
vendedor na feira partindo um coco ao meio com o seu facão, em um único golpe;
5) zigurate de sete andares da antiga Babilônia; 6) a cidade de pedra de
Angkor, no Camboja; 7) hélices de um helicóptero russo; 8) casal de leões fazendo amor na caverna; 9) leopardo
correndo na savana; 10) kotegaeshi (chave de pulso do Aikidô e outras artes
marciais japonesas) aplicado com timing, energia e precisão; 11) anel de ouro
com um rubi vermelho-marrom; 12) a voz de sua mãe, em algum momento de sua
infância; 13) os dentes de um cão pincher; 14) a Sagração da Primavera de Igor
Stravinski; 15) caça russo Sukhoi-32 voando a dois mil km/2 sobre a Síria,
mandando os terroristas para o inferno; 16) Claudio Daniel arrancando a
mandíbula de tucanos e liberais.
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
A LÍRICA ANARCOPUNK DE DELMO MONTENEGRO
Delmo Montenegro publicou em 2003 o seu livro de estreia, Os
jogadores de cartas, poema longo que mescla narrativa histórica, mitologia,
crítica política, drama teatral e sátira do discurso da alta cultura. Seguindo
o conceito do poeta norte-americano Edgar Allan Poe, para quem o poema longo é
uma sucessão de poemas breves, Delmo Montenegro constroi seu livro inaugural
como uma sequência fragmentária e descontínua de elementos verbais e visuais,
utilizando diferentes tipologias de letras e recursos de espacialização de
palavras e linhas, à maneira do Lance de dados de Mallarmé, que
funcionam como a notação em uma partitura musical, indicando pausas,
ênfases, mudanças de timbre, materializadas na oralização. A dicção do poeta pernambucano
é paródica, captura e amplia diversas
vozes, a melopeia simbolista, o jorro semântico beatnik e certo
brutalismo expressionista, como podemos ler nestas linhas: “nos túneis de
horror materno / nós caminhamos / por ordem da rainha de Bethsabath / (...)
tateando pelo escuro pelas fossas / pelo sol pútrido das fezes / caduceu das
moscas / avançamos / pelo Horror disforme / em nossas máscaras”. O jogo
paródico e polifônico é reforçado pela colagem de desenhos e ilustrações que
funcionam como ready made dadaístas, assim como as citações de personagens
históricos e mitológicos de diversos tempos e espaços, reais e imaginários. Todas
essas citações têm evidente caráter lúdico e compõem uma alegoria jocosa e
cruel da jornada humana.
Ciao cadáver, segundo livro de Delmo Montenegro,
publicado em 2005, com projeto gráfico de Jorge Padilha, investe em outra
estratégia criativa, apresentando poemas de arquitetura minimalista que
exploram recursos semânticos como neologismos, arcaísmos, termos científicos
extraídos da medicina e da biologia e vocábulos estrangeiros para a criação de
teratologias que recordam a pintura de Pieter Bruegel ou Hieronymus Bosch:
“luxo-caveira”, “mandíbula-bistrot: vagina”, “achtung-esqueleto”,
“cobra-caveira”, “pirâmide fecal”. É uma
poesia altamente concentrada, com ecos evidentes da música erudita de vanguarda
– Boulez, Stockhausen, Varèse, Cage –, porém, não deve ser identificada com
alguma forma de poesia pura ou abstrata, alheia aos acontecimentos no mundo,
bem ao contrário; trata-se de uma poesia crítica, tanto às formas consolidadas
do discurso quanto à própria realidade, crítica que se concretiza em compactas
metáforas como “latão-ônix-pesadelo”, “televisão-diapasão-diarreia”, “língua-porco-crematório”,
“aracnoacordedestempero”. Ciao cadáver tem uma dicção anarcopunk
habitada por pesadelos de Francis Bacon ou fantasmas de Franz Kafka, em que o
próprio lirismo se transfigura em cenários hellraiser,
como nestas linhas da composição intitulada ausência:
tálamo-caveira-canto (para greta):
“um leque / esqueleto-cobre: / rizoma-de-dores (maria / erêndira / recostada)
ossuário- / fragonard / pânico da
língua / vestes / sob vestes / : ali (ônfalo-angústia- / cachalote)
sobrescreves / beleza-máscara”.
Em seu livro mais recente, Recife
no hay, publicado em 2013 e vencedor do I Prêmio Pernambuco de Literatura,
Delmo Montenegro retorna a um discurso mais linear, porém, mantém a ironia, o
sarcasmo e o humor negro já presentes em seus livros anteriores, em versos como
estes: “vamos para a praia dos nervos / para as geleiras / infames / desossar
orquídeas / montar na prancha dos assassinos / o grande / kahuna / espera / por
/ nós”. Em outra composição, intitulada os
dinossauros, o poeta pernambucano escreve: “poetas são como / dinossauros /
todos vão ser extintos / de uma hora / pra outra, todos / sem exceção / guarde
o seu lote / na cratera / de / Chicxulub”.
A virulência satírica, mais visível neste volume que nos anteriores,
aproxima Delmo Montenegro da tradição marginal de poetas como Roberto Piva,
Sebastião Nunes e Glauco Mattoso, linha criativa diversa do construtivismo de Ciao cadáver mas com o mesmo potencial subversivo
em relação às “boas maneiras” do verbo. Outro aspecto que chama a atenção em Recife
no hay são as narrativas poéticas, a meio fio entre a fabulação e o canto
dissonante, como por exemplo nesta peça, de alto impacto: “sim, seremos amantes
/ solte sua voz / valvulada / durma comigo / seja meu cadáver esta noite /
depois / ponha / os cílios postiços / e / desapareça / sem amor, sem paradas
cardíacas / sejamos / apenas / dóceis animais empalhados / -- ouça agora,
revolva agora -- / meu / nome /é / cão / -- abra meu zíper // / palhas”.
(Artigo de Claudio
Daniel publicado na
edição de outubro da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA)
quarta-feira, 7 de outubro de 2015
RECITAL DA CAIXA PRETA & CADERNOS BESTIAIS
O Recital da Caixa Preta acontecerá
no dia 22 de outubro, quinta-feira, a partir das 19h, na Casa das Rosas,
situada na Av. Paulista, n. 37. Na ocasião haverá leituras poéticas de autores convidados e o lançamento de vários livros da Lumme Editor, inclusive do segundo volume de minha obra Cadernos Bestiais. Publico abaixo um dos poemas do livro:
HINO À POLÍCIA
Toca o terror —
cabeças de arimãs
reverberam féretros
assanha-se histérica
turba de behemoths
damballas beherits
capacetes visores
escudos tonfas
vidro moído ferro
esturricado pneus
incendiados entre
balas de borracha
rasgando rasgando
vielas entrevértebras
fantoches toscos
fantoches-ferrabrás
com fuzis automáticos
de mira telescópica
escarnecidos espectros
em carros blindados
para a contra-insurgência
nas avenidas furiosas
de meu próprio país.
2015
terça-feira, 6 de outubro de 2015
PEQUENA LISTA DE LIVROS ESSENCIAIS
1) a Odisseia de Homero; 2) Tao Te King, de Lao Tzu; 3) Dhammapada;
4) Bhagavad Gita; 5) I Ching; 6) Cântico dos Cânticos de Salomão e o Qohélet,
do Antigo Testamento (pela poesia); 7) A Antologia da Poesia Clássica definida
por Confúcio; 8) A poesia de Li T'ai Po; 9) os diários de viagem de Bashô; 10)
a Chrestomatia arcaica, que reúne a poesia trovadoresca galego-portuguesa; 11)
a Divina Comédia de Dante; 12) os Lusíadas (e os sonetos) de Camões; 12) os Ensaios de Montaigne; 13) o Fausto de
Goethe; 14) As Flores do mal de Baudelaire; 15) a Poesia Completa de Rimbaud;
16) idem, de Mallarmé; 16) Parerga e Paraliponema, de Schopenhauer; 17) Assim
falava Zaratustra, de Nietzsche; 18) A origem das espécies, de Darwin; 19) o Manifesto
Comunista e O Capital, de Marx; 20) O futuro de uma ilusão e O mal estar na
civilização, de Freud; 21) Crime e castigo e Os irmãos Karamazov, de
Dostoievski; 22) O castelo, A metamorfose e O processo, de Kafka; 23) A
montanha mágica e Doutor Fausto, de Thomas Mann; 24) Obras completas de Jorge
Luis Borges; 25) O eu profundo e os outros eus, de Fernando Pessoa; 26) Os
cantos, de Ezra Pound; 27) Terra devastada, de T. S. Eliot; 28) Ulisses e
Finnegans Wake, de James Joyce; 29) Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa;
30) Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; 31) Rosa do povo, de
Carlos Drummond de Andrade; 32) Poesia completa de Maiakovski; 33) Poesia
completa de João Cabral de Melo Neto; 34) centenas de outros títulos que não
caberiam aqui.
PEQUENA LISTA DE COISAS SENSUAIS
1) tatuagens; 2) tecidos indianos; 3) safiras; 4) conchas brancas; 5)
frutos-do-mar; 6) a Lua; 7) papel de seda; 8) o marfim; 9) a madrepérola; 10)
saquê gelado; 11) estátuas do período alexandrino; 12) pés femininos nus; 13)
gargantilhas; 14) correntinhas de tornozelo; 15) o mar; 16) a cor azul; 17)
morangos, goiabas; 18) gravuras coloridas japonesas; 19) danças africanas; 20)
Cuba; 21) a noite; 22) música de Debussy e Henri Duparc; 23) poesia de Herberto
Helder; 24) uma larva, transformada em borboleta, rompendo o casulo e alçando
voo pela primeira vez.
PEQUENA LISTA DE COISAS ADMIRÁVEIS
1) sashimi e sushi com saquê; 2) arroz indiano com passas e
especiarias; 3) chá do Ceilão; 4) vinho tinto seco; 5) doces portugueses; 6)
danças tradicionais da Indonésia; 7) espadas japonesas; 8) máscaras africanas;
9) os Cantos de Ezra Pound; 10) os Ensaios de Montaigne; 11) os haicais de
Bashô; 12) o jazz de John Coltrane; 13) as óperas de Wagner; 14) gatos, tigres,
panteras, felinos em geral; 15) orquídeas; 16) a pintura de Miró, Kandinsky,
Maliévitch; 17) a Palestina; 18) a Índia; 19) a China; 20) o Japão; 21) Marx,
Engels, Lênin, Stalin; 22) a arquitetura de Gaudí; 23) a mulher que nunca
conheci; 24) a cor vermelha; 25) a revolução socialista internacional.
PEQUENA LISTA DE COISAS ABOMINÁVEIS
1) couve-de-bruxelas; 2) beterraba; 3) mandioquinha; 4) vinho doce
espumante; 5) a cor roxa; 6) karaokê; 7) pastores evangélicos; 8) sertanejo,
pagode e outros ruídos antimusicais; 9) a mídia hegemônica; 10) bancos; 11)
latifúndios; 12) juízes; 13) Paulo Coelho; 14) Angélica Freitas; 15) Ricardo
Domeneck; 16) fome; 17) guerra; 18) ódio; 19) preconceito; 20) P$DB; 21) o
telefone; 22) capitalismo; 23) racismo; 24) sionismo; 25) fascismo; 26)
imperialismo; 27) a burrice.
domingo, 4 de outubro de 2015
SOBRE A CRÍTICA LITERÁRIA
Críticos literários cometem erros? Sim, com frequência!
Saint-Beuve condenou a suposta "imoralidade" de Flaubert e
Baudelaire. Sílvio Romero não reconheceu plenamente o talento de Machado de
Assis. José Veríssimo condenou a linguagem “obscura” de “Os sertões”, de
Euclides da Cunha. Antonio Candido excluiu o barroco de sua “Formação da
Literatura Brasileira” e não compreendeu Sousândrade. Wilson Martins
considerava Mário Palmério superior a Guimarães Rosa -- para citar poucos exemplos. A crítica
literária, quando não segue determinada teoria literária, com um método
particular de leitura e interpretação de textos, obedece a critérios subjetivos
de gosto pessoal, e em AMBOS os casos pode cometer injustiças, inclusive pela
inadequação da teoria ao texto analisado. Isto não significa que o trabalho do
crítico seja sempre insuficiente ou inferior ao texto literário: ele é uma
intervenção paralela à obra literária e o seu mérito, quando o crítico realiza
bem a sua tarefa, está na discussão inteligente dos procedimentos artísticos
adotados pelo escritor, contribuindo para iluminar o entendimento dessa obra. O
crítico fracassa quando sua leitura não é capaz de dar conta da proposta do
autor analisado, quando valoriza excessivamente autores de segunda ordem, por
motivos nem sempre literários, ou quando subestima autores de maior
originalidade, por não compreendê-los ou por razões de desavença pessoal,
interesse comercial, orientação jornalística ou política literária. Uma
atividade de especial importância do crítico literário é a do questionamento,
ampliação ou reinvenção do cânone literário, pela inclusão de autores de
qualidade injustamente esquecidos, como Augusto de Campos fez com Sousândrade e
Pedro Kilkerry, e também pela exclusão de autores sem originalidade e densidade
semântica, cuja reputação foi construída a partir de redes de relacionamento
social próximas às instâncias de poder universitário, editorial ou midiático
(sim, esta é uma referência direta a Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e
outros autores medíocres inventados por Carlito Azevedo). Em todos os casos, a
crítica literária nunca é mais importante que a leitura direta dos poemas,
contos, novelas ou romances. Ela própria constitui um gênero literário, quando
tem a densidade do ensaio, e pode ser considerada, para além da dimensão
argumentativa, como construção estética, como no caso dos livros de Walter
Benjamin.
FILÓSOFOS, COGUMELOS
Rumor de verde-água esse bosque de caninos que desaparece.
Trevos
na boca
— odor
de cogumelos
e lua-de-
mosquitos —.
Estranha senhora fênix viaja em
caligrafia sua
tiara
azul.
Vagares da lua de outono biombo jasmim dragão
no teto
curvo
como atravessar
espelhos.
— Armas e cascos de cavalos
ao longe —.
Filósofos-de-laca conjeturam possíveis amanhãs
2003
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
LEOA, CLAVÍCULA
Jovem negra pinta de azul-violeta as pontas dos mamilos.
Há jaguares
sob as unhas.
sob as unhas.
Mímica
de esfinge
nos pulsos.
de esfinge
nos pulsos.
Núbia voz animal raio-de-pedra golpeia nudez janaína
reflexo de híbrida
orquídea
ou seio-
noite-
flor-
que incandesce.
reflexo de híbrida
orquídea
ou seio-
noite-
flor-
que incandesce.
(Três colares
de relva;
riscos
gravados
na rocha,
sortilégio.)
de relva;
riscos
gravados
na rocha,
sortilégio.)
(Pintura: mascar o carvão leonino da desértica
epiderme,
ruminando
arenoso
até cantar
a clavícula.)
epiderme,
ruminando
arenoso
até cantar
a clavícula.)
Claudio
Daniel, 2003.
Imagem: Uwe
Ommer.
(Poema publicado no livro Figuras metálicas. São Paulo:
Perspectiva, 2004.)
terça-feira, 29 de setembro de 2015
UM POEMA INÉDITO DE CLAUDIO DANIEL
OXAGUIÃ
Ajagunã,
aquele-que-muda-todas-as-coisas-
muda-noite-em-rio-
pedra-em-flor-
mulher-em-tempestade.
Kabiyesi —
aquele-que-sabe-
todos-os-saberes
sabe das minas de prata
sabe dos rios de água quente.
Eléèjìgbó —
orixá-comedor-de-inhame-
inventor do pilão
pai de todos os inventos
aquele-que-dança-com-espada-na-mão.
Eléèjìgbó —
orixá-comedor-de-inhame-
orixá-comedor-de-inhame-
aquele-que-é-branco-
aquele-que-é-vermelho-
aquele-que-dança-com-espada-na-mão.
Oisa-Je-Iyán,
Oisa-Je-Iyán,
o grande teimoso
aquele-que-nunca-
se-conforma-
Oisa-Je-Iyán,
o grande teimoso
aquele-que-nunca-
silencia-
toma de
quem
tudo
tem
para
saciar
a fome
de seus filhos.
Filho de Oxalufã,
o astucioso
livra
da miséria
todos
os teus filhos.
Babá Ejigbô, aquelele-que-dança-
vestido-de-branco-
aquele-que-canta-
vestido-de branco-
aquele-que-canta-
e-encanta-
todas-as-cores-
do-céu.
Epe, Epe, Babá Oxaguiã!
2015
2015
O LIVRO DE ORIKIS DE CLAUDIO DANIEL É PUBLICADO PELA EDITORA PATUÁ
Oriki é o poema ritual da tradição iorubá,
cantado até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, celebrando deuses, reis
e herois lendários. Quem introduziu o oriki
no Brasil foram os negros africanos, escravizados no período colonial-monárquico,
que conservaram as suas tradições religiosas sob o aparente sincretismo com o
culto aos santos da devoção cristã. As primeiras traduções desses textos orais para
o idioma português em forma poética foram realizadas por Antonio Risério em seu
belíssimo livro Oriki orixá,
publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de
Campos. Nesse livro, Risério apresenta aos leitores excelentes ensaios críticos
e traduções de alguns desses poemas cantados. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria no livro A roda do mundo. Ricardo
Corona, Fabiano Calixto e Frederico
Barbosa também escreveram bons orikis. Claudio Daniel, em seu Livro de orikis, procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos
dos orixás, seus mitos, atribuições e atributos, com uma visada crítica
contemporânea, incorporando temas da situação política e social do país. Todos
os poemas que compõem o livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015,
com exceção do Oriki de Orunmilá, redigido em 2006. As linhas apresentadas em
itálico no interior dos poemas são citações de “pontos” cantados nos rituais em
diversos terreiros no Brasil e os textos são apresentados conforme a ordem do xiré cantado no candomblé (foi adotada a
sequência estabelecida por Pierre Verger no livro Os orixás, com poucas variações). A seleção de 18 orixás homenageados
no livro incorporou divindades cultuadas nas tradições ketu, bantu e jejê. No final do volume, é apresentado
um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas. Quem quiser
adquirir o livro pode solicitá-lo ao editor Eduardo Lacerda pelo e-mail editorapatua@gmail.com
Leia abaixo alguns poemas do livro:
EXU
Lagunã
corrige o corcunda.
Faz
crescer a lepra do leproso.
Põe
pimenta no cu do curioso.
Legbá
ensina cobra a cantar.
Entorta
aquilo que é reto,
endireita
aquilo que é curvo.
Exu
Melekê — o desordeiro
faz a
noite virar dia e o dia
virar
noite. Surra com açoite
o
colunista da revista. Cega
o olho
grande do tucano —
e zomba
do piolho caolho.
Marabô
vai-vem-revém.
Quente
é a aguardente
do
delinquente. Elegbará
com seu
porrete potente
quebra
todos os dentes
do
entreguista privatista.
Bará
tem falo de elefante.
É o
farsante dos farsantes:
fode a
mulher do deputado
hoje –
e faz o filho ontem.
Agbô
confunde o viajante
e o faz
perder a sua rota.
Bará
Melekê compra azeite
no
mercado — levando peneira
volta
sem derramar uma gota.
Larôye
Exu! O desalmado
soma
pedras e perdas na sina
do
condenado. Sete Caveiras:
que
seja suave minha sina
neste
mundo tão contrariado.
Que
seja suave – Larôye Exu!
OGUM
Ogum
Oniré
pisca o
olho
e cai
um dedo
do
mentiroso.
Pesca o
peixe
sem ir
ao rio.
Molamolá
—
farejador
de
farelos —
livra
seus filhos
do
abismo.
Ogum Ondó
viajou
a Ará
e a
incendiou.
Viajou
a Irê
e a
demoliu.
Senhor
de Ifé,
livra
seus filhos
do
abismo.
Ogundelê
malha o
ferro
e faz
flechas
de
flagelo.
Comedor
de cães
fulmina
o racista.
Ogum Megê
queima
o sangue
do
fascista.
Megegê
golpeia
o golpista
da
revista.
Ferreiro-ferrador
forja a
foice
forja o
martelo.
Que não
falte
o
inhame.
Que não
falte
massa
de pão.
Pai do
meu avô,
livra
seus filhos
do
abismo.
Ògún ieé!
OXOSSI
Akueran feiticeiro
sabe folha
que mata.
Akueran feiticeiro
sabe folha
que cura.
Akueran feiticeiro
fere o olho
do sol.
Akueran feiticeiro
mata a morte
de medo.
Akueran feiticeiro
faz janeiro
virar outubro.
Akueran feiticeiro
faz amarelo
virar vermelho.
Akueran feiticeiro
encanta a lua
com sua beleza.
Akueran feiticeiro
apavora a terra
com sua força.
Akueran feiticeiro
livra seus filhos
da fome.
Akueran feiticeiro
livra seus filhos
da usura.
Òké Aro! Arolé!
XANGÔ
Xangô
Oluaxô —
o raio
rubro
rasga o
céu.
Obakossô
faz o
forte fugir
de
medo.
Alafim
de Oió
não
lute comigo.
Alafim
de Oió
seja
meu abrigo.
Oba
Arainã
fala
com boca
Oba
Arainã
fala
com olhos
Oba
Arainã
fala
com pele
Oba
Arainã
fala
com raio.
Leopardo
de Oiá
não
lute comigo.
Leopardo
de Oiá
seja
meu abrigo.
Aganju
olho-de-chispa
mata o
que mente
com
pedras de raio.
Mastiga
os juízes.
Castiga
a mídia.
Oba
Lubê
não
lute comigo.
Oba
Lubê
seja
meu abrigo.
Oba
Orungá dança alujá
queima
a xota
da
dondoca.
Oba
Orungá dança alujá
queima
o falo
do
Bolsonaro.
Oba
Orungá dança alujá
e saúda
a beleza
que há
no mundo.
Oba
Orungá dança alujá
e saúda
a beleza
que há
no mundo.
Kawó
Kabiesilé!
LOGUNEDÉ
Dedicado a Gilberto Gil
Logunedé
leopardo-menino-
aquele-que-nasceu-
numa-pétala-
de-flor-
Logunedé
leopardo-menino-
beleza-preta-
senhor-de-toda-
a-beleza-
Logunedé
leopardo-menino-
filho-d’Oxum-
pesca-nas-águas-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
filho d’Oxóssi-
caça-nas matas-
d’Oxossi-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-todos-os
feitiços-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-feitiço-
que-mata-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-fetiço-
que-cura-
que-cura-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-foi-mudado-
em-cavalo-
marinho-
Logunedé
leopardo-menino-
muda-de-forma
em-todas-as-
formas-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-lua-pavão-
e-água-do-rio-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-onça-
poesia-estrela-
tempestade-
Logunedé
leopardo-menino-
senhor-de-todas-
as-surpesas-
Logunedé
leopardo-menino-
faz-o-baobá-
virar-formiga-
e-a-formiga-
virar-centelha-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-veste-saia-
no-palácio-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
castra-aquele-
que-estupra-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-as-suas-
três-muitas-
rainhas-
rainhas-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-todas-
as moças-
todas-as-moças-
são-rainhas-
Alaketo-ê
Ala Ni Mala
Ala Ni Mala
okê
Ala Ni Mala
Ala Ni Mala
okê
Eru wawá!
OBÁ
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oyá
venceu
Oyá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Exu
venceu
Exu.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oxalá
venceu
Oxalá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por intriga
d’Oxum.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por amor
de Oba-
Orungá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
protege
aquele
que ama.
Obá Obá
protege
aquele
que luta.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obà Siré!
OXALÁ
Oxalufon —
aquele-que-caminha-
na-areia-
mestre dos corcundas
Obatalá —
aquele-que-come-
caracol-
forte como touro branco
Onírinjà —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar surdo.
Ọbaníjìta —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar mudo.
Olufón —
aquele-que-grita-
quando-acorda-
livra a filha
da armadilha.
Òòsàálá —
aquele-que-come-
rato-e-peixe
faz a moça estéril
embarrigar.
Olúorogbo —
aquele-que-fulmina-
fascista-
faz tucano virar
farelo.
Orixanlá —
aquele-que-se-veste-
de-branco
aquele-que-canta-
vestido-de branco
aquele-que-dança-
vestido-de-branco
aquele-que-é-dono-
da-xota-de-Iemanjá
— Òrìşáko!
Epa Bàbá!
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
BURGUESIA BRASILEIRA
A burguesia brasileira soube
conviver com o trabalho escravo, a monarquia, a oligárquica república velha, o
Estado Novo, o latifúndio, a ditadura militar. Ela sempre foi uma classe social
parasitária, machista, racista, homofóbica, inimiga de qualquer avanço social.
É uma classe que não tem – nunca teve – qualquer compromisso com a democracia,
a ética, os direitos humanos, o crescimento econômico independente e soberano,
a distribuição de renda, o progresso social – foi incapaz de realizar uma autêntica revolução democrática e, ao
contrário, aceita ser sócia menor do imperialismo, comendo as sobras. Hoje, seu
objetivo maior é destruir o PT e colocar na ilegalidade o conjunto da esquerda
-- partidos, sindicatos, movimentos sociais -- para desencadear uma contrarrevolução que destrua todas as conquistas obtidas
nos últimos treze anos de governos democrático-populares. NÃO PASSARÃO!!!
OU BARBÁRIE
As ciências humanas tiveram
rápido desenvolvimento no início do capitalismo porque a burguesia precisava
opor um conhecimento laico à herança cultural da Igreja Católica e da
Monarquia, formar novos quadros intelectuais e políticos e criar um outro sistema
político e administrativo, a democracia representativa parlamentar, sustentada
pelo sufrágio universal dos cidadãos. Entre o final do século XVIII e o final
do século XX, inúmeras disciplinas universitárias e ciências surgiram, inclusive para fomentar empregos para jovens e
mulheres da pequena burguesia, como os estudos literários, a sociologia, a
antropologia. Hoje, não é mais necessário, ao
desenvolvimento do capitalismo, essa pluralidade de saberes, nem os direitos
sociais conquistados ao longo do século XX, nem mesmo a democracia burguesa:
com as vitórias eleitorais da esquerda na América Latina, a própria democracia
é vista como contrária aos interesses das elites, que sonham com uma nova
sociedade, muito parecida com o que foi o nazifascismo na Europa: uma sociedade
altamente hierarquizada, verticalizada, com rígido controle das classes
populares pelos capitalistas e a eliminação de qualquer forma de pensamento
crítico, seja nas escolas, universidades, seja na vida política e social, seja
na internet e nos veículos de comunicação. Nos próximos anos ou décadas, a
escolha da humanidade, como dizia Rosa Luxemburgo, será entre o socialismo e a
barbárie.
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