1) couve-de-bruxelas; 2) beterraba; 3) mandioquinha; 4) vinho doce
espumante; 5) a cor roxa; 6) karaokê; 7) pastores evangélicos; 8) sertanejo,
pagode e outros ruídos antimusicais; 9) a mídia hegemônica; 10) bancos; 11)
latifúndios; 12) juízes; 13) Paulo Coelho; 14) Angélica Freitas; 15) Ricardo
Domeneck; 16) fome; 17) guerra; 18) ódio; 19) preconceito; 20) P$DB; 21) o
telefone; 22) capitalismo; 23) racismo; 24) sionismo; 25) fascismo; 26)
imperialismo; 27) a burrice.
terça-feira, 6 de outubro de 2015
domingo, 4 de outubro de 2015
SOBRE A CRÍTICA LITERÁRIA
Críticos literários cometem erros? Sim, com frequência!
Saint-Beuve condenou a suposta "imoralidade" de Flaubert e
Baudelaire. Sílvio Romero não reconheceu plenamente o talento de Machado de
Assis. José Veríssimo condenou a linguagem “obscura” de “Os sertões”, de
Euclides da Cunha. Antonio Candido excluiu o barroco de sua “Formação da
Literatura Brasileira” e não compreendeu Sousândrade. Wilson Martins
considerava Mário Palmério superior a Guimarães Rosa -- para citar poucos exemplos. A crítica
literária, quando não segue determinada teoria literária, com um método
particular de leitura e interpretação de textos, obedece a critérios subjetivos
de gosto pessoal, e em AMBOS os casos pode cometer injustiças, inclusive pela
inadequação da teoria ao texto analisado. Isto não significa que o trabalho do
crítico seja sempre insuficiente ou inferior ao texto literário: ele é uma
intervenção paralela à obra literária e o seu mérito, quando o crítico realiza
bem a sua tarefa, está na discussão inteligente dos procedimentos artísticos
adotados pelo escritor, contribuindo para iluminar o entendimento dessa obra. O
crítico fracassa quando sua leitura não é capaz de dar conta da proposta do
autor analisado, quando valoriza excessivamente autores de segunda ordem, por
motivos nem sempre literários, ou quando subestima autores de maior
originalidade, por não compreendê-los ou por razões de desavença pessoal,
interesse comercial, orientação jornalística ou política literária. Uma
atividade de especial importância do crítico literário é a do questionamento,
ampliação ou reinvenção do cânone literário, pela inclusão de autores de
qualidade injustamente esquecidos, como Augusto de Campos fez com Sousândrade e
Pedro Kilkerry, e também pela exclusão de autores sem originalidade e densidade
semântica, cuja reputação foi construída a partir de redes de relacionamento
social próximas às instâncias de poder universitário, editorial ou midiático
(sim, esta é uma referência direta a Ricardo Domeneck, Angélica Freitas e
outros autores medíocres inventados por Carlito Azevedo). Em todos os casos, a
crítica literária nunca é mais importante que a leitura direta dos poemas,
contos, novelas ou romances. Ela própria constitui um gênero literário, quando
tem a densidade do ensaio, e pode ser considerada, para além da dimensão
argumentativa, como construção estética, como no caso dos livros de Walter
Benjamin.
FILÓSOFOS, COGUMELOS
Rumor de verde-água esse bosque de caninos que desaparece.
Trevos
na boca
— odor
de cogumelos
e lua-de-
mosquitos —.
Estranha senhora fênix viaja em
caligrafia sua
tiara
azul.
Vagares da lua de outono biombo jasmim dragão
no teto
curvo
como atravessar
espelhos.
— Armas e cascos de cavalos
ao longe —.
Filósofos-de-laca conjeturam possíveis amanhãs
2003
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
LEOA, CLAVÍCULA
Jovem negra pinta de azul-violeta as pontas dos mamilos.
Há jaguares
sob as unhas.
sob as unhas.
Mímica
de esfinge
nos pulsos.
de esfinge
nos pulsos.
Núbia voz animal raio-de-pedra golpeia nudez janaína
reflexo de híbrida
orquídea
ou seio-
noite-
flor-
que incandesce.
reflexo de híbrida
orquídea
ou seio-
noite-
flor-
que incandesce.
(Três colares
de relva;
riscos
gravados
na rocha,
sortilégio.)
de relva;
riscos
gravados
na rocha,
sortilégio.)
(Pintura: mascar o carvão leonino da desértica
epiderme,
ruminando
arenoso
até cantar
a clavícula.)
epiderme,
ruminando
arenoso
até cantar
a clavícula.)
Claudio
Daniel, 2003.
Imagem: Uwe
Ommer.
(Poema publicado no livro Figuras metálicas. São Paulo:
Perspectiva, 2004.)
terça-feira, 29 de setembro de 2015
UM POEMA INÉDITO DE CLAUDIO DANIEL
OXAGUIÃ
Ajagunã,
aquele-que-muda-todas-as-coisas-
muda-noite-em-rio-
pedra-em-flor-
mulher-em-tempestade.
Kabiyesi —
aquele-que-sabe-
todos-os-saberes
sabe das minas de prata
sabe dos rios de água quente.
Eléèjìgbó —
orixá-comedor-de-inhame-
inventor do pilão
pai de todos os inventos
aquele-que-dança-com-espada-na-mão.
Eléèjìgbó —
orixá-comedor-de-inhame-
orixá-comedor-de-inhame-
aquele-que-é-branco-
aquele-que-é-vermelho-
aquele-que-dança-com-espada-na-mão.
Oisa-Je-Iyán,
Oisa-Je-Iyán,
o grande teimoso
aquele-que-nunca-
se-conforma-
Oisa-Je-Iyán,
o grande teimoso
aquele-que-nunca-
silencia-
toma de
quem
tudo
tem
para
saciar
a fome
de seus filhos.
Filho de Oxalufã,
o astucioso
livra
da miséria
todos
os teus filhos.
Babá Ejigbô, aquelele-que-dança-
vestido-de-branco-
aquele-que-canta-
vestido-de branco-
aquele-que-canta-
e-encanta-
todas-as-cores-
do-céu.
Epe, Epe, Babá Oxaguiã!
2015
2015
O LIVRO DE ORIKIS DE CLAUDIO DANIEL É PUBLICADO PELA EDITORA PATUÁ
Oriki é o poema ritual da tradição iorubá,
cantado até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, celebrando deuses, reis
e herois lendários. Quem introduziu o oriki
no Brasil foram os negros africanos, escravizados no período colonial-monárquico,
que conservaram as suas tradições religiosas sob o aparente sincretismo com o
culto aos santos da devoção cristã. As primeiras traduções desses textos orais para
o idioma português em forma poética foram realizadas por Antonio Risério em seu
belíssimo livro Oriki orixá,
publicado pela editora Perspectiva na coleção Signos, dirigida por Haroldo de
Campos. Nesse livro, Risério apresenta aos leitores excelentes ensaios críticos
e traduções de alguns desses poemas cantados. Ricardo Aleixo publicou orikis de sua autoria no livro A roda do mundo. Ricardo
Corona, Fabiano Calixto e Frederico
Barbosa também escreveram bons orikis. Claudio Daniel, em seu Livro de orikis, procura manter elementos do oriki tradicional -- os nomes e epítetos
dos orixás, seus mitos, atribuições e atributos, com uma visada crítica
contemporânea, incorporando temas da situação política e social do país. Todos
os poemas que compõem o livro foram escritos entre fevereiro e março de 2015,
com exceção do Oriki de Orunmilá, redigido em 2006. As linhas apresentadas em
itálico no interior dos poemas são citações de “pontos” cantados nos rituais em
diversos terreiros no Brasil e os textos são apresentados conforme a ordem do xiré cantado no candomblé (foi adotada a
sequência estabelecida por Pierre Verger no livro Os orixás, com poucas variações). A seleção de 18 orixás homenageados
no livro incorporou divindades cultuadas nas tradições ketu, bantu e jejê. No final do volume, é apresentado
um glossário com as palavras em iorubá que aparecem nos poemas. Quem quiser
adquirir o livro pode solicitá-lo ao editor Eduardo Lacerda pelo e-mail editorapatua@gmail.com
Leia abaixo alguns poemas do livro:
EXU
Lagunã
corrige o corcunda.
Faz
crescer a lepra do leproso.
Põe
pimenta no cu do curioso.
Legbá
ensina cobra a cantar.
Entorta
aquilo que é reto,
endireita
aquilo que é curvo.
Exu
Melekê — o desordeiro
faz a
noite virar dia e o dia
virar
noite. Surra com açoite
o
colunista da revista. Cega
o olho
grande do tucano —
e zomba
do piolho caolho.
Marabô
vai-vem-revém.
Quente
é a aguardente
do
delinquente. Elegbará
com seu
porrete potente
quebra
todos os dentes
do
entreguista privatista.
Bará
tem falo de elefante.
É o
farsante dos farsantes:
fode a
mulher do deputado
hoje –
e faz o filho ontem.
Agbô
confunde o viajante
e o faz
perder a sua rota.
Bará
Melekê compra azeite
no
mercado — levando peneira
volta
sem derramar uma gota.
Larôye
Exu! O desalmado
soma
pedras e perdas na sina
do
condenado. Sete Caveiras:
que
seja suave minha sina
neste
mundo tão contrariado.
Que
seja suave – Larôye Exu!
OGUM
Ogum
Oniré
pisca o
olho
e cai
um dedo
do
mentiroso.
Pesca o
peixe
sem ir
ao rio.
Molamolá
—
farejador
de
farelos —
livra
seus filhos
do
abismo.
Ogum Ondó
viajou
a Ará
e a
incendiou.
Viajou
a Irê
e a
demoliu.
Senhor
de Ifé,
livra
seus filhos
do
abismo.
Ogundelê
malha o
ferro
e faz
flechas
de
flagelo.
Comedor
de cães
fulmina
o racista.
Ogum Megê
queima
o sangue
do
fascista.
Megegê
golpeia
o golpista
da
revista.
Ferreiro-ferrador
forja a
foice
forja o
martelo.
Que não
falte
o
inhame.
Que não
falte
massa
de pão.
Pai do
meu avô,
livra
seus filhos
do
abismo.
Ògún ieé!
OXOSSI
Akueran feiticeiro
sabe folha
que mata.
Akueran feiticeiro
sabe folha
que cura.
Akueran feiticeiro
fere o olho
do sol.
Akueran feiticeiro
mata a morte
de medo.
Akueran feiticeiro
faz janeiro
virar outubro.
Akueran feiticeiro
faz amarelo
virar vermelho.
Akueran feiticeiro
encanta a lua
com sua beleza.
Akueran feiticeiro
apavora a terra
com sua força.
Akueran feiticeiro
livra seus filhos
da fome.
Akueran feiticeiro
livra seus filhos
da usura.
Òké Aro! Arolé!
XANGÔ
Xangô
Oluaxô —
o raio
rubro
rasga o
céu.
Obakossô
faz o
forte fugir
de
medo.
Alafim
de Oió
não
lute comigo.
Alafim
de Oió
seja
meu abrigo.
Oba
Arainã
fala
com boca
Oba
Arainã
fala
com olhos
Oba
Arainã
fala
com pele
Oba
Arainã
fala
com raio.
Leopardo
de Oiá
não
lute comigo.
Leopardo
de Oiá
seja
meu abrigo.
Aganju
olho-de-chispa
mata o
que mente
com
pedras de raio.
Mastiga
os juízes.
Castiga
a mídia.
Oba
Lubê
não
lute comigo.
Oba
Lubê
seja
meu abrigo.
Oba
Orungá dança alujá
queima
a xota
da
dondoca.
Oba
Orungá dança alujá
queima
o falo
do
Bolsonaro.
Oba
Orungá dança alujá
e saúda
a beleza
que há
no mundo.
Oba
Orungá dança alujá
e saúda
a beleza
que há
no mundo.
Kawó
Kabiesilé!
LOGUNEDÉ
Dedicado a Gilberto Gil
Logunedé
leopardo-menino-
aquele-que-nasceu-
numa-pétala-
de-flor-
Logunedé
leopardo-menino-
beleza-preta-
senhor-de-toda-
a-beleza-
Logunedé
leopardo-menino-
filho-d’Oxum-
pesca-nas-águas-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
filho d’Oxóssi-
caça-nas matas-
d’Oxossi-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-todos-os
feitiços-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-feitiço-
que-mata-
Logunedé
leopardo-menino-
sabe-fetiço-
que-cura-
que-cura-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-foi-mudado-
em-cavalo-
marinho-
Logunedé
leopardo-menino-
muda-de-forma
em-todas-as-
formas-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-lua-pavão-
e-água-do-rio-
Logunedé
leopardo-menino-
vira-onça-
poesia-estrela-
tempestade-
Logunedé
leopardo-menino-
senhor-de-todas-
as-surpesas-
Logunedé
leopardo-menino-
faz-o-baobá-
virar-formiga-
e-a-formiga-
virar-centelha-
Logunedé
leopardo-menino-
o-que-veste-saia-
no-palácio-
d’Oxum-
Logunedé
leopardo-menino-
castra-aquele-
que-estupra-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-as-suas-
três-muitas-
rainhas-
rainhas-
Logunedé
leopardo-menino-
protege-todas-
as moças-
todas-as-moças-
são-rainhas-
Alaketo-ê
Ala Ni Mala
Ala Ni Mala
okê
Ala Ni Mala
Ala Ni Mala
okê
Eru wawá!
OBÁ
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oyá
venceu
Oyá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Exu
venceu
Exu.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
lutou
com Oxalá
venceu
Oxalá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por intriga
d’Oxum.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
cortou
a orelha
por amor
de Oba-
Orungá.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obá Obá
protege
aquele
que ama.
Obá Obá
protege
aquele
que luta.
Obá Obá
moça que
é noite
moça que
é rio.
Obà Siré!
OXALÁ
Oxalufon —
aquele-que-caminha-
na-areia-
mestre dos corcundas
Obatalá —
aquele-que-come-
caracol-
forte como touro branco
Onírinjà —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar surdo.
Ọbaníjìta —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar mudo.
Olufón —
aquele-que-grita-
quando-acorda-
livra a filha
da armadilha.
Òòsàálá —
aquele-que-come-
rato-e-peixe
faz a moça estéril
embarrigar.
Olúorogbo —
aquele-que-fulmina-
fascista-
faz tucano virar
farelo.
Orixanlá —
aquele-que-se-veste-
de-branco
aquele-que-canta-
vestido-de branco
aquele-que-dança-
vestido-de-branco
aquele-que-é-dono-
da-xota-de-Iemanjá
— Òrìşáko!
Epa Bàbá!
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
BURGUESIA BRASILEIRA
A burguesia brasileira soube
conviver com o trabalho escravo, a monarquia, a oligárquica república velha, o
Estado Novo, o latifúndio, a ditadura militar. Ela sempre foi uma classe social
parasitária, machista, racista, homofóbica, inimiga de qualquer avanço social.
É uma classe que não tem – nunca teve – qualquer compromisso com a democracia,
a ética, os direitos humanos, o crescimento econômico independente e soberano,
a distribuição de renda, o progresso social – foi incapaz de realizar uma autêntica revolução democrática e, ao
contrário, aceita ser sócia menor do imperialismo, comendo as sobras. Hoje, seu
objetivo maior é destruir o PT e colocar na ilegalidade o conjunto da esquerda
-- partidos, sindicatos, movimentos sociais -- para desencadear uma contrarrevolução que destrua todas as conquistas obtidas
nos últimos treze anos de governos democrático-populares. NÃO PASSARÃO!!!
OU BARBÁRIE
As ciências humanas tiveram
rápido desenvolvimento no início do capitalismo porque a burguesia precisava
opor um conhecimento laico à herança cultural da Igreja Católica e da
Monarquia, formar novos quadros intelectuais e políticos e criar um outro sistema
político e administrativo, a democracia representativa parlamentar, sustentada
pelo sufrágio universal dos cidadãos. Entre o final do século XVIII e o final
do século XX, inúmeras disciplinas universitárias e ciências surgiram, inclusive para fomentar empregos para jovens e
mulheres da pequena burguesia, como os estudos literários, a sociologia, a
antropologia. Hoje, não é mais necessário, ao
desenvolvimento do capitalismo, essa pluralidade de saberes, nem os direitos
sociais conquistados ao longo do século XX, nem mesmo a democracia burguesa:
com as vitórias eleitorais da esquerda na América Latina, a própria democracia
é vista como contrária aos interesses das elites, que sonham com uma nova
sociedade, muito parecida com o que foi o nazifascismo na Europa: uma sociedade
altamente hierarquizada, verticalizada, com rígido controle das classes
populares pelos capitalistas e a eliminação de qualquer forma de pensamento
crítico, seja nas escolas, universidades, seja na vida política e social, seja
na internet e nos veículos de comunicação. Nos próximos anos ou décadas, a
escolha da humanidade, como dizia Rosa Luxemburgo, será entre o socialismo e a
barbárie.
domingo, 20 de setembro de 2015
SOBRE A LITERATURA DE MERCADO
Há uma literatura de mercado no
país, desenvolvida pelas grandes editoras, especialmente a Companhia das Letras
e a Record, com apoio da mídia hegemônica, como a FALHA de S. Paulo, de eventos
midiáticos como a FLIP, subsidiada pelo BNDS – logo, por nossos impostos – e pelo
Ministério da Cultura, que financia “aviões da alegria" para Frankfurt e Paris,
em que 80% ou 90% dos autores convidados são publicados pelas empresas
editoriais citadas acima (e com explícito predomínio da prosa sobre a poesia:
no último convescote internacional, de 40 autores, apenas DOIS eram poetas). No
caso específico da poesia, o lobby da revista carioca Inimigo Rumor monopoliza
editais de concursos, bolsas de criação literária, como a da Petrobrás, onde as
mesmas pessoas se revezam, ora como jurados, ora como poetas contemplados (este
é o verdadeiro escândalo da Petrobrás) e inventa autores de qualidade duvidosa
da noite para o dia, valendo-se de sua influência nos meios universitários e
jornalísticos. O que caracteriza essa literatura de mercado não é a qualidade
estética, a pesquisa formal, a reflexão crítica sobre a realidade ou qualquer
justificativa humanista, mas a consolidação de um “segmento do mercado” ou
“unidade de negócio”, que oferece aos leitores / consumidores obras bastante
convencionais, não raro medíocres – vide os casos de Angélica Freitas, Ricardo
Domeneck ou Fernanda Torres, para citar poucos exemplos. São obras de consumo
fácil, que dispensam a densidade, o rigor, a preocupação filosófica, cultural
ou política, e mesmo assim (ou por isso mesmo) monopolizam a atenção da crítica
midiática e são os grandes favorecidos em concursos, bolsas e viagens, além de
serem vendidas para bibliotecas públicas e secretarias de educação e cultura,
rendendo bons dividendos às empresas editoriais. Este não é um fato literário,
mas comercial. Não basta, porém, reconhecermos o óbvio: é preciso pensarmos
coletivamente em estratégias voltadas à outra face da moeda: a literatura
séria, consistente, que sobrevive em nosso país graças ao esforço das pequenas
editoras, como a Patuá, Lumme, Dobra, Demônio Negro, Oficina Raquel, a revistas
como a CULT e, claro, ao trabalho sério de poetas e prosadores. Gostaria de
apresentar quatro propostas para discussão: 1) criarmos um coletivo que seja
representativo dos autores brasileiros, já que não dispomos de nenhuma entidade
séria e atuante nos dias de hoje; 2) estreitarmos relações com as
universidades, onde se encontra boa parte do público leitor, promovendo feiras
de livros, festivais de poesia, eventos de prosa, entre outras ações; 3)
estreitarmos relações com as entidades que representam as pequenas editoras,
como a LIBRE; e 4) cobrarmos do governo federal e das secretarias municipais e
estaduais de educação e cultura quais são os critérios para as compras de
livros, que favorecem apenas o lobby das grandes casas editoriais, em
detrimento da qualidade, da diversidade, da transparência e da igualdade de
oportunidades.
(Resumo de minha comunicação
apresentada hoje no evento LETRAVIVA – LITERATURA DE CONFRONTO, no Centro
Cultural São Paulo.)
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
LABORATÓRIO DO OUVIDO & CINE-OLHO
Dziga Vertov (1896-1954), um dos
principais cineastas soviéticos da primeira metade do século XX, iniciou sua
atividade artística no campo da poesia experimental. Com apenas 15 anos de
idade fundou o “Laboratório do ouvido”, para pesquisar as possibilidades da
poesia sonora – ele gravava falas e ruídos das ruas, fábricas, praças, com um
fonógrafo Pathéphone, depois editava as gravações, criando a ambientação sonora
de seus poemas. Aos 22 anos, começou a trabalhar com cinema – ingressou no Kino Komittet de Moscou e tornou-se redator
do primeiro cinejornal soviético, o Kinonedelia (“cinema semanal”). Inventou
então um novo conceito de documentário, que chamou de “Cine-olho” (Kino Glaz) e
“Cine-verdade” (Kino Pravda), ou cinema não-ficcional, sem roteiro, sem atores
e sem estúdio, focado na nova realidade socialista, no mundo das máquinas, da
produção industrial, da agricultura coletivizada e das relações pessoais. Dziga
Vertov tinha vários cinegrafistas à sua disposição, que registravam cenas do
cotidiano, e depois editava esse material na sala de montagem, empregando
técnicas revolucionárias de construção fílmica, só comparáveis às de Sergei
Eisenstein. Entre seus trabalhos mais brilhantes estão Um homem com uma câmera
(1928) e Réquiem para Lênin (1934).
terça-feira, 15 de setembro de 2015
LANÇAMENTO DO LIVRO DE ORIKIS
A Editora Patuá e o Bar Canto Madalena convidam a todos para o lançamento LIVRO DE ORIKIS, novo livro de poemas de Claudio Daniel.
O evento será realizado dia 26 de setembro (sábado) a partir das 19h no Bar Canto Madalena - Rua Medeiros de Albuquerque, 471 - São Paulo - SP.
A entrada para o evento é gratuita e o exemplar estará à venda por R$ 35,00 (Atenção: pagamento em dinheiro, cheque e cartões de crédito e débito).
No mesmo dia realizaremos o lançamento dos livros Bocas de lobo, de Rosana Piccolo e Livro dos Epílogos, de Assis de Melo
Amigos e leitores de qualquer cidade do país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!
O livro já está à venda em nosso catálogo. As compras pelo site podem ser parceladas em até 12x. Aproveite!
Saiba mais sobre o livro e o autor em: http://
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
CADERNOS BESTIAIS
Amador Ribeiro Neto
Claudio Daniel (São Paulo, 1962) é poeta, tradutor, ensaísta,
jornalista e professor. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa
pela USP. Autor dos seguintes livros de poesia: Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001), Figuras metálicas (2005), Fera bifronte (2009), Letra negra (2010), Cores para cegos (2013).
Cadernos bestiais (São Paulo: Lumme Editor, 2015), recém lançado, é dividido em três seções. A primeira, “Infernais fungos-de-papiro”, é um libelo antimídia e antipolíticas ditatoriais. Tudo é detonado num forte tom satírico. A segunda, “(Intermezzo)”, dá seguimento à poesia detratora da fase anterior. Versa sobre preconceitos e privilégios. A terceira, “Fabulações de outra margem”, é um poema erótico. Dado o contexto do livro, pode ser lido como metáfora de um novo tempo, usufruído
A poesia cifrada e construída sobre imagens nem sempre decodificáveis, que marca certa produção de Claudio Daniel, cede lugar a uma linguagem expressa e direta. Com isto não queremos afirmar que sua poesia fosse neobarroca. Ele é tradutor e organizador de antologias neobarrocas. Que fique claro. Mas sua poesia, ainda que postergando significados numa chuva de significantes, não é neobarroca. Talvez se aproxime mais do nonsense ou mesmo de certos procedimentos surrealistas.
No presente volume o poeta embrenha-se na poesia engajada. Sem descuidar da forma. E, talvez devido à necessidade de refletir sobre temas sociais, empenha-se na elaboração de uma linguagem mais evidente.
Isto pode ser perigoso, sob a pena de escorregar para o panfletário. Mas não acontece. Claudio Daniel, por ser ensaísta, poeta e professor de literatura, domina admirável repertório teórico. O que não lhe autoriza as facilidades das pasmaceiras que desgraçam boa parte da produção poética hoje. Pelo contrário: sua poesia prima por acentuada consciência de linguagem. Com Valéry e Pound, entre outros, sabemos que, em arte, este traço é fundamental.
O poema que abre o volume intercala vozes diferentes, separadas por versos demarcados por parênteses, que se interpenetram. Ler cada fala e a seguir a interação entre elas, como terceira via, é necessário. Além de rico e elucidativo.
A seguir temos a série intitulada “Antimídia”, numerada de I a X. Cito uma parte do poema II: “Tempo carreira / desenterra / escaravelhos ao contrário / onde abismais / esqueletos do nunca / fornicam trevas. / Esta é a cidade esfíngica /onde passos trilhados / ao avesso da membrana. / Esta é a cidade esfíngica / onde a desrazão / navega a insanidade. / Porco burguês. / Porca burguesa. / Chafurdam na mídia pré-histórica, / colecionando cifras. / Onde neste caos aritmético, / há lugar para o infinito?”.
“Cantiga”, poema que fecha o livro, formado por sete partes, diz: “todas as mulheres / são tigres desenhados / em teus olhos, que se desdobram / na noite estrelada: olhos-pés, olhos-mãos, / olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada”, num enlevo que vai do da louvação encantatória ao apagamento absoluto. Em outro momento: “porém, a delícia / de caminharmos lado a lado, / sem destino, nessa terra ignorada, / quando lagartos devoram cicatrizes, / e então mais uma vez, / você é para mim um anjo, e eu a sua sombra”. A construção final retoma a epígrafe de Tristan Tzara: a amada é vista angelicalmente, enquanto o eu-lírico se projeta como nefelibata. Ou seja: o mundo onírico surge enquanto uma das asas da utopia.
Cadernos bestiais investe na expressividade poética. Com a beleza do leve e transparente.
(Publicado pelo jornal Contraponto, de João Pessoa-PB. Caderno B, coluna “Augusta Poesia”, dia 28 de agosto de 2015, p. B-7.)
CADERNOS BESTIAIS, A LINGUAGEM FUNDIDA DA POESIA
Antônio Moura
Uma das mais marcantes definições
de arte que conheço é também bastante conhecida de muitos, trata-se do célebre
postulado do Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, em que afirma que “a arte
é o encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma
mesa de dissecação”. A força dos
elementos díspares reunidos num mesmo espaço e nesta frase é a mais próxima
tradução daquilo que, a meu ver, faz a força da arte, a união de contrários
para a explosão de novos sentidos. Este choque de opostos gera o impacto
necessário para fazer a linguagem acordar, levantar de súbito como que num
susto e recobrar a vida, a energia vital que havia desaparecido ou estava
adormecida por baixo dos panos do entorpecedor discurso mercadológico. Este
acordar da linguagem faz também acordar o leitor, que, também, de súbito, se
ergue através de suas emoções, sua memória, seu pathos e seu ethos.
Ao abrir os Cadernos bestiais, Lumme Editor, 2015, de Claudio Daniel, temos a
sensação do encontro entre a máquina de costura e o guarda-chuva sobre a mesa
de dissecação de Ducasse. Isso acontece
de maneira mais contundente, principalmente, por causa do primeiro poema da coletânea,
chamado Anônimos. Nele, um certo
número de diferentes realidades encarnadas através de vários personagens se
encontram e se conflitam numa espécie de
cinema fragmentado em que ainda se acrescenta uma tipo de voz em surdina, onde
frases paralelas aparecem entre parênteses, como uma forma de coro surreal que
evoca e aproxima realidades distantes daquela que se desenrola, digamos, no
corpo principal do poema. Uma realidade banal que vai se transformando num
estado de coisas absurdo, como, às vezes, parece ser o estado cotidiano do
mundo em que vivemos e não percebemos. Leiamos um trecho inicial do poema Anônimos:
Há
um louco na rua.
(Os
livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos)
Um
policial pede os seus documentos.
(Há três ou quatro especialistas em língua
suméria.)
O
louco entrega-lhe um tijolo.
(Uma tribo na Ásia Central escreve seus
livros sagrados nos ventres de mulheres anãs.)
Para, mais adiante, finalizar:
A
mulher gorda ataca o louco com um sapato.
(Quem conhece um grande romancista da
Lituania?)
O
Cinegrafista do Grande Telejornal filma todo episódio para exibir no horário
nobre.
(Há indícios de vogais e consoantes em teus
pequenos lábios.)
Logo
surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de
seguros e tem inicio uma pancadaria.
(Poucos são capazes de ler as mensagens
ocultas no interior das nozes.)
O livro divide-se em três
secções: Infernais fungos de papiro,
(Intermezzo) e Fabulação de outra margem.
Na primeira parte está o já citado poema acima e a série de poemas intitulados Antimídia, que vão do numero I até o
número X. Aqui estamos diante aquilo que muitos costumam chamar de uma poesia
participativa. Termo que acho vago e impreciso já que toda poesia, toda poesia
de verdade é, de certa forma, participativa de alguma esfera da realidade, seja
ela política, social, lírica ou metafísica, já que, assim como o visível, o
invisível também é parte constituinte da existência. Mas vamos aqui nos
restringir a esfera de participação, digamos, na falta de melhor termo,
sócio-política. Costumo dizer que fazer poesia engajada, aliás, não só poesia,
mas arte que, de forma geral, é chamada de participativa ou engajada, é um
grande risco por tratar-se de uma matéria muito difícil de modelar. Nestes
casos o autor sempre corre o risco de enveredar pela simples propaganda
ideológica, pelo discurso panfletário, mas, são os ossos do ofício, assim como
na lírica corre-se o outro risco de se derramar e cair no confessional. No caso
dos Cadernos bestiais, nos poemas Antimídia, o autor consegue caminhar
equilibradamente sobre uma lâmina em que não se deixa sucumbir apenas pelo
discurso, mas, que ao contrário, o constrói com bases plenamente fincadas no
terreno fértil da poesia, onde a metáfora, a ironia, o estranhamento, a
surpresa e o ritmo estão presentes, não permitindo que a linguagem, o que
muitas vezes acontece nesses casos, torne-se elemento de viés mais
antropológico e sociológico do que estético. Em seus poemas dessa ordem Claudio
dispara sua mira certeira contra os usos e abusos de uma sociedade doente, mas
o seu gatilho, a sua arma continua sendo feita do material fundido da poesia.
Mas, melhor do que falar do objeto é mostrar o objeto. O poema Antimídia VIII que corrobora plenamente
o que há pouco foi dito e que faço questão de transcrever alguns trechos:
A Colunista do Grande Jornal Diário
equilibra-se
nos indispensáveis
saltos Christian Louboutin
para analisar os fatos políticos
com distanciamento crítico
e
objetividade jornalística.
Mais adiante o poema , num humor sardônico, evidencia o contraste:
Entre
um e outro gole de cherry brandy
folheia,
na revista nova-iorquina,
as
últimas criações de Domenico Dolce
e
Stefano Gabana, inimagináveis
nessa
selva selvagem de mortos de fome.
Para, enfim, finalizar:
Ela
acredita na Divina Providência,
no
Destino, nas Forças Vivas da Nação.
E
aplica suavemente gotas aromáticas
(Ralph
Lauren) em sua nuca,
enquanto
espera pela Vinda de seu Führer.
A terceira parte do livro, (Intermezzo), constitui-se de um único
poema chamado Cabeça de Não, dedicado
“a meninada da Batucada Popular Carlos Marighella”, em que parece operar-se uma
fusão entre o combatente e o lírico, que virá em seguida, na terceira e última
parte da obra, dando, dessa forma, uma organicidade ao livro. Um poema onde a
revolta se apresenta de forma compassiva e comovente, construído numa concisão,
numa economia de recursos, como se o próprio poema se apoiasse num material
léxico precário, numa linguagem sem fartura, exígua, quase esquelética, como
que para torna-se semelhante ao próprio objeto de sua fala, os mal nutridos, os
mal aceitos. Eis um trecho:
Cabeça
de negro –
não
entra –
cabeça
de branco –
entra
–
cabeça
de pobre –
não
entra –
cabeça
de nobre –
entra
–
cabeça
de pardo –
não
entra –
cabeça
de podre –
entra
(...)
Há, por fim, uma última e
especialíssima parte deste livro que, na verdade constitui-se em uma unidade, Fabulação de outra margem, que, como o
próprio intertítulo aponta levará o leitor para um outro lado de tudo que foi
lido/vivido até agora. Esta outra margem é o lirismo, onde, ao cruzá-lo, vamos
nos encontrando com explosões de luminosidade, lembrando, por vezes, as súbitas
imagens luminosas de Tristan Tzara, que, não por acaso, assina a epígrafe desta
secção do livro. Mas um lirismo que em nenhum momento faz concessões ao
edulcoramento, ao meramente confessional, pois nesta série de pequenos poemas
sob o único de título de Cantiga, o
lirismo contem “a ferocidade no limiar da noite”, para citar um dos próprios
poemas. Um lirismo, onde a experiência vivida ou imaginária transforma-se em
uma espécie de jubileu da linguagem, encarnando poeticamente uma celebração
perplexa da beleza, da arte e do amor diante do imenso vazio que nos cerca.
Porém,
a delícia
de
caminharmos lado a lado,
sem
destino, nessa terra ignorada,
quando
lagartos devoram cicatrizes
e
então, mais uma vez,
você
é para mim um anjo, e eu sua sombra.
Agora, curiosamente, quando estou
prestes a terminar de escrever este texto, o gato de estimação, o Nhõnho, a
quem já dediquei um poema em um dos meus livros, vem e, felinamente,
misteriosamente, debruça-se sobre o Cadernos
bestiais que está aberto ao meu lado. Debruça-se e olha fixamente para as
páginas abertas, dando a nítida impressão de o estar lendo. É a poesia que
atrai poesia.
Belém, 14 de julho de 2015.
(Resenha publicada originalmente na revista Zunái.)
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