domingo, 20 de setembro de 2015

SOBRE A LITERATURA DE MERCADO


Há uma literatura de mercado no país, desenvolvida pelas grandes editoras, especialmente a Companhia das Letras e a Record, com apoio da mídia hegemônica, como a FALHA de S. Paulo, de eventos midiáticos como a FLIP, subsidiada pelo BNDS – logo, por nossos impostos – e pelo Ministério da Cultura, que financia “aviões da alegria" para Frankfurt e Paris, em que 80% ou 90% dos autores convidados são publicados pelas empresas editoriais citadas acima (e com explícito predomínio da prosa sobre a poesia: no último convescote internacional, de 40 autores, apenas DOIS eram poetas). No caso específico da poesia, o lobby da revista carioca Inimigo Rumor monopoliza editais de concursos, bolsas de criação literária, como a da Petrobrás, onde as mesmas pessoas se revezam, ora como jurados, ora como poetas contemplados (este é o verdadeiro escândalo da Petrobrás) e inventa autores de qualidade duvidosa da noite para o dia, valendo-se de sua influência nos meios universitários e jornalísticos. O que caracteriza essa literatura de mercado não é a qualidade estética, a pesquisa formal, a reflexão crítica sobre a realidade ou qualquer justificativa humanista, mas a consolidação de um “segmento do mercado” ou “unidade de negócio”, que oferece aos leitores / consumidores obras bastante convencionais, não raro medíocres – vide os casos de Angélica Freitas, Ricardo Domeneck ou Fernanda Torres, para citar poucos exemplos. São obras de consumo fácil, que dispensam a densidade, o rigor, a preocupação filosófica, cultural ou política, e mesmo assim (ou por isso mesmo) monopolizam a atenção da crítica midiática e são os grandes favorecidos em concursos, bolsas e viagens, além de serem vendidas para bibliotecas públicas e secretarias de educação e cultura, rendendo bons dividendos às empresas editoriais. Este não é um fato literário, mas comercial. Não basta, porém, reconhecermos o óbvio: é preciso pensarmos coletivamente em estratégias voltadas à outra face da moeda: a literatura séria, consistente, que sobrevive em nosso país graças ao esforço das pequenas editoras, como a Patuá, Lumme, Dobra, Demônio Negro, Oficina Raquel, a revistas como a CULT e, claro, ao trabalho sério de poetas e prosadores. Gostaria de apresentar quatro propostas para discussão: 1) criarmos um coletivo que seja representativo dos autores brasileiros, já que não dispomos de nenhuma entidade séria e atuante nos dias de hoje; 2) estreitarmos relações com as universidades, onde se encontra boa parte do público leitor, promovendo feiras de livros, festivais de poesia, eventos de prosa, entre outras ações; 3) estreitarmos relações com as entidades que representam as pequenas editoras, como a LIBRE; e 4) cobrarmos do governo federal e das secretarias municipais e estaduais de educação e cultura quais são os critérios para as compras de livros, que favorecem apenas o lobby das grandes casas editoriais, em detrimento da qualidade, da diversidade, da transparência e da igualdade de oportunidades.      


(Resumo de minha comunicação apresentada hoje no evento LETRAVIVA – LITERATURA DE CONFRONTO, no Centro Cultural São Paulo.)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

LABORATÓRIO DO OUVIDO & CINE-OLHO














Dziga Vertov (1896-1954), um dos principais cineastas soviéticos da primeira metade do século XX, iniciou sua atividade artística no campo da poesia experimental. Com apenas 15 anos de idade fundou o “Laboratório do ouvido”, para pesquisar as possibilidades da poesia sonora – ele gravava falas e ruídos das ruas, fábricas, praças, com um fonógrafo Pathéphone, depois editava as gravações, criando a ambientação sonora de seus poemas. Aos 22 anos, começou a trabalhar com cinema – ingressou no Kino Komittet de Moscou e tornou-se redator do primeiro cinejornal soviético, o Kinonedelia (“cinema semanal”). Inventou então um novo conceito de documentário, que chamou de “Cine-olho” (Kino Glaz) e “Cine-verdade” (Kino Pravda), ou cinema não-ficcional, sem roteiro, sem atores e sem estúdio, focado na nova realidade socialista, no mundo das máquinas, da produção industrial, da agricultura coletivizada e das relações pessoais. Dziga Vertov tinha vários cinegrafistas à sua disposição, que registravam cenas do cotidiano, e depois editava esse material na sala de montagem, empregando técnicas revolucionárias de construção fílmica, só comparáveis às de Sergei Eisenstein. Entre seus trabalhos mais brilhantes estão Um homem com uma câmera (1928) e Réquiem para Lênin (1934).

terça-feira, 15 de setembro de 2015

LANÇAMENTO DO LIVRO DE ORIKIS





















A Editora Patuá e o Bar Canto Madalena convidam a todos para o lançamento LIVRO DE ORIKIS, novo livro de poemas de Claudio Daniel.

O evento será realizado dia 26 de setembro (sábado) a partir das 19h no Bar Canto Madalena - Rua Medeiros de Albuquerque, 471 - São Paulo - SP.

A entrada para o evento é gratuita e o exemplar estará à venda por R$ 35,00 (Atenção: pagamento em dinheiro, cheque e cartões de crédito e débito).

No mesmo dia realizaremos o lançamento dos livros Bocas de lobo, de Rosana Piccolo e Livro dos Epílogos, de Assis de Melo

Amigos e leitores de qualquer cidade do país que realizarem a compra antes do lançamento receberão o exemplar autografado após o evento. Imperdível!

O livro já está à venda em nosso catálogo. As compras pelo site podem ser parceladas em até 12x. Aproveite!

Saiba mais sobre o livro e o autor em: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=358

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

CADERNOS BESTIAIS















Amador Ribeiro Neto

Claudio Daniel (São Paulo, 1962) é poeta, tradutor, ensaísta, jornalista e professor. Mestre e Doutor em Literatura Portuguesa pela USP. Autor dos seguintes livros de poesia: Sutra (1992), Yumê (1999), A sombra do leopardo (2001), Figuras metálicas (2005), Fera bifronte (2009), Letra negra (2010), Cores para cegos (2013).

Cadernos bestiais (São Paulo: Lumme Editor, 2015), recém lançado, é dividido em três seções. A primeira, “Infernais fungos-de-papiro”, é um libelo antimídia e antipolíticas ditatoriais. Tudo é detonado num forte tom satírico. A segunda, “(Intermezzo)”, dá seguimento à poesia detratora da fase anterior. Versa sobre preconceitos e privilégios. A terceira, “Fabulações de outra margem”, é um poema erótico. Dado o contexto do livro, pode ser lido como metáfora de um novo tempo, usufruído em delícias. A semelhança com o bíblico “Cântico dos cânticos” não é gratuita coincidência.

A poesia cifrada e construída sobre imagens nem sempre decodificáveis, que marca certa produção de Claudio Daniel, cede lugar a uma linguagem expressa e direta. Com isto não queremos afirmar que sua poesia fosse neobarroca. Ele é tradutor e organizador de antologias neobarrocas. Que fique claro. Mas sua poesia, ainda que postergando significados numa chuva de significantes, não é neobarroca. Talvez se aproxime mais do nonsense ou mesmo de certos procedimentos surrealistas.

No presente volume o poeta embrenha-se na poesia engajada. Sem descuidar da forma. E, talvez devido à necessidade de refletir sobre temas sociais, empenha-se na elaboração de uma linguagem mais evidente.

Isto pode ser perigoso, sob a pena de escorregar para o panfletário. Mas não acontece. Claudio Daniel, por ser ensaísta, poeta e professor de literatura, domina admirável repertório teórico. O que não lhe autoriza as facilidades das pasmaceiras que desgraçam boa parte da produção poética hoje. Pelo contrário: sua poesia prima por acentuada consciência de linguagem. Com Valéry e Pound, entre outros, sabemos que, em arte, este traço é fundamental.

O poema que abre o volume intercala vozes diferentes, separadas por versos demarcados por parênteses, que se interpenetram. Ler cada fala e a seguir a interação entre elas, como terceira via, é necessário. Além de rico e elucidativo.

A seguir temos a série intitulada “Antimídia”, numerada de I a X. Cito uma parte do poema II: “Tempo carreira / desenterra / escaravelhos ao contrário / onde abismais / esqueletos do nunca / fornicam trevas. / Esta é a cidade esfíngica /onde passos trilhados / ao avesso da membrana. / Esta é a cidade esfíngica / onde a desrazão / navega a insanidade. / Porco burguês. / Porca burguesa. / Chafurdam na mídia pré-histórica, / colecionando cifras. / Onde neste caos aritmético, / há lugar para o infinito?”.

“Cantiga”, poema que fecha o livro, formado por sete partes, diz: “todas as mulheres / são tigres desenhados / em teus olhos, que se desdobram / na noite estrelada: olhos-pés, olhos-mãos, / olhos-boca, olhos-peitos, olhos-nada”, num enlevo que vai do da louvação encantatória ao apagamento absoluto. Em outro momento: “porém, a delícia / de caminharmos lado a lado, / sem destino, nessa terra ignorada, / quando lagartos devoram cicatrizes, / e então mais uma vez, / você é para mim um anjo, e eu a sua sombra”. A construção final retoma a epígrafe de Tristan Tzara: a amada é vista angelicalmente, enquanto o eu-lírico se projeta como nefelibata. Ou seja: o mundo onírico surge enquanto uma das asas da utopia.

Cadernos bestiais investe na expressividade poética. Com a beleza do leve e transparente. 

(Publicado pelo jornal Contraponto, de João Pessoa-PB. Caderno B, coluna “Augusta Poesia”, dia 28 de agosto de 2015, p. B-7.)

CADERNOS BESTIAIS, A LINGUAGEM FUNDIDA DA POESIA


 
















Antônio Moura

Uma das mais marcantes definições de arte que conheço é também bastante conhecida de muitos, trata-se do célebre postulado do Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont, em que afirma que “a arte é o encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação”.  A força dos elementos díspares reunidos num mesmo espaço e nesta frase é a mais próxima tradução daquilo que, a meu ver, faz a força da arte, a união de contrários para a explosão de novos sentidos. Este choque de opostos gera o impacto necessário para fazer a linguagem acordar, levantar de súbito como que num susto e recobrar a vida, a energia vital que havia desaparecido ou estava adormecida por baixo dos panos do entorpecedor discurso mercadológico. Este acordar da linguagem faz também acordar o leitor, que, também, de súbito, se ergue através de suas emoções, sua memória, seu pathos e seu ethos. 

Ao abrir os Cadernos bestiais, Lumme Editor, 2015, de Claudio Daniel, temos a sensação do encontro entre a máquina de costura e o guarda-chuva sobre a mesa de dissecação de Ducasse.  Isso acontece de maneira mais contundente, principalmente, por causa do primeiro poema da coletânea, chamado Anônimos. Nele, um certo número de diferentes realidades encarnadas através de vários personagens se encontram e se conflitam  numa espécie de cinema fragmentado em que ainda se acrescenta uma tipo de voz em surdina, onde frases paralelas aparecem entre parênteses, como uma forma de coro surreal que evoca e aproxima realidades distantes daquela que se desenrola, digamos, no corpo principal do poema. Uma realidade banal que vai se transformando num estado de coisas absurdo, como, às vezes, parece ser o estado cotidiano do mundo em que vivemos e não percebemos. Leiamos um trecho inicial do poema Anônimos:

Há um louco na rua.

 (Os livros dos uigures foram escritos para serem esquecidos)

Um policial pede os seus documentos.

 ( três ou quatro especialistas em língua suméria.)

O louco entrega-lhe um tijolo.

(Uma tribo na Ásia Central escreve seus livros sagrados nos ventres de mulheres anãs.)

Para, mais adiante, finalizar:

A mulher gorda ataca o louco com um sapato.

(Quem conhece um grande romancista da Lituania?)

O Cinegrafista do Grande Telejornal filma todo episódio para exibir no horário nobre.

(Há indícios de vogais e consoantes em teus pequenos lábios.)

Logo surgem legiões de publicitários, jornaleiros e vendedores de apólices de seguros e tem inicio uma pancadaria.

(Poucos são capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)

O livro divide-se em três secções: Infernais fungos de papiro, (Intermezzo) e Fabulação de outra margem. Na primeira parte está o já citado poema acima e a série de poemas intitulados Antimídia, que vão do numero I até o número X. Aqui estamos diante aquilo que muitos costumam chamar de uma poesia participativa. Termo que acho vago e impreciso já que toda poesia, toda poesia de verdade é, de certa forma, participativa de alguma esfera da realidade, seja ela política, social, lírica ou metafísica, já que, assim como o visível, o invisível também é parte constituinte da existência. Mas vamos aqui nos restringir a esfera de participação, digamos, na falta de melhor termo, sócio-política. Costumo dizer que fazer poesia engajada, aliás, não só poesia, mas arte que, de forma geral, é chamada de participativa ou engajada, é um grande risco por tratar-se de uma matéria muito difícil de modelar. Nestes casos o autor sempre corre o risco de enveredar pela simples propaganda ideológica, pelo discurso panfletário, mas, são os ossos do ofício, assim como na lírica corre-se o outro risco de se derramar e cair no confessional. No caso dos Cadernos bestiais, nos poemas Antimídia, o autor consegue caminhar equilibradamente sobre uma lâmina em que não se deixa sucumbir apenas pelo discurso, mas, que ao contrário, o constrói com bases plenamente fincadas no terreno fértil da poesia, onde a metáfora, a ironia, o estranhamento, a surpresa e o ritmo estão presentes, não permitindo que a linguagem, o que muitas vezes acontece nesses casos, torne-se elemento de viés mais antropológico e sociológico do que estético. Em seus poemas dessa ordem Claudio dispara sua mira certeira contra os usos e abusos de uma sociedade doente, mas o seu gatilho, a sua arma continua sendo feita do material fundido da poesia. Mas, melhor do que falar do objeto é mostrar o objeto. O poema Antimídia VIII que corrobora plenamente o que há pouco foi dito e que faço questão de transcrever alguns trechos: 

A Colunista do Grande Jornal Diário
equilibra-se
nos indispensáveis
saltos Christian Louboutin
para analisar os fatos políticos
com distanciamento crítico
e objetividade jornalística.

Mais adiante o poema , num humor sardônico, evidencia o contraste:

Entre um e outro gole de cherry brandy
folheia, na revista nova-iorquina,
as últimas criações de Domenico Dolce
e Stefano Gabana, inimagináveis
nessa selva selvagem de mortos de fome.


Para, enfim, finalizar:

Ela acredita na Divina Providência,
no Destino, nas Forças Vivas da Nação.
E aplica suavemente gotas aromáticas
(Ralph Lauren) em sua nuca,
enquanto espera pela Vinda de seu Führer.


A terceira parte do livro, (Intermezzo), constitui-se de um único poema chamado Cabeça de Não, dedicado “a meninada da Batucada Popular Carlos Marighella”, em que parece operar-se uma fusão entre o combatente e o lírico, que virá em seguida, na terceira e última parte da obra, dando, dessa forma, uma organicidade ao livro. Um poema onde a revolta se apresenta de forma compassiva e comovente, construído numa concisão, numa economia de recursos, como se o próprio poema se apoiasse num material léxico precário, numa linguagem sem fartura, exígua, quase esquelética, como que para torna-se semelhante ao próprio objeto de sua fala, os mal nutridos, os mal aceitos. Eis um trecho:

Cabeça de negro –

não entra –

cabeça de branco –

entra –

cabeça de pobre –

não entra –

cabeça de nobre –

entra –

cabeça de pardo –

não entra –

cabeça de podre –

entra

(...)

Há, por fim, uma última e especialíssima parte deste livro que, na verdade constitui-se em uma unidade, Fabulação de outra margem, que, como o próprio intertítulo aponta levará o leitor para um outro lado de tudo que foi lido/vivido até agora. Esta outra margem é o lirismo, onde, ao cruzá-lo, vamos nos encontrando com explosões de luminosidade, lembrando, por vezes, as súbitas imagens luminosas de Tristan Tzara, que, não por acaso, assina a epígrafe desta secção do livro. Mas um lirismo que em nenhum momento faz concessões ao edulcoramento, ao meramente confessional, pois nesta série de pequenos poemas sob o único de título de Cantiga, o lirismo contem “a ferocidade no limiar da noite”, para citar um dos próprios poemas. Um lirismo, onde a experiência vivida ou imaginária transforma-se em uma espécie de jubileu da linguagem, encarnando poeticamente uma celebração perplexa da beleza, da arte e do amor diante do imenso vazio que nos cerca.

Porém, a delícia
de caminharmos lado a lado,
sem destino, nessa terra ignorada,
quando lagartos devoram cicatrizes
e então, mais uma vez,
você é para mim um anjo, e eu sua sombra.


Agora, curiosamente, quando estou prestes a terminar de escrever este texto, o gato de estimação, o Nhõnho, a quem já dediquei um poema em um dos meus livros, vem e, felinamente, misteriosamente, debruça-se sobre o Cadernos bestiais que está aberto ao meu lado. Debruça-se e olha fixamente para as páginas abertas, dando a nítida impressão de o estar lendo. É a poesia que atrai poesia.

Belém, 14 de julho de 2015.


(Resenha publicada originalmente na revista Zunái.)

CADERNOS BESTIAIS OU AS PALAVRAS A DESPEITO DAS PALAVRAS: UM LIVRO POLÍTICO



Ana Cristina Joaquim

Em 2015, numa aldeia situada ao sul do hemisfério sul, historicamente nomeada São Paulo de Piratininga,  habitavam algumas espécies de animais selvagens — grande quantidade delas, diziam alguns, já em vias de extinção — que, por estarem excessivamente atreladas aos tempos de antanho (em sua maioria, parentes mais ou menos próximos do caranguejo, mas que destes se distinguiam pela maior extensão corporal e por prescindirem da água para sua sobrevivência), não eram capazes de perceber que as palavras haviam ocupado suma importância nos modos todos de relação implicados na convivência interespécies. Utilizavam-se, portanto, de grunhidos muito pouco diversificados, que causavam grande irritação naqueles que a eles eram submetidos.

Neste mesmo ano de 2015, na aldeia que popularmente ficou conhecida como Paulicéia, Sampa ou Sampã (graças ao refinamento de três grandes retores do português brasileiro: Mário de Andrade, Caetano Veloso e José Celso Martinez Corrêa) — parte do estado federativo homônimo: o maior representante da lusofonia na América Latina (irônico?) — surge, entretanto, uma forma altamente elaborada de intervenção, que aponta justamente para a bestialidade envolvida no desprezo pelas palavras, ou, o que de alguma maneira é equivalente, no uso da palavra como mídia (meio ou mero veículo) de um conteúdo completamente destituído de valor para uma comunidade de proporções tais.

Refiro-me ao primeiro volume dos Cadernos bestiais, do poeta Claudio Daniel, publicado pela Editora Lumme nesta famigerada aldeia. Livro incisivamente atual que vem lembrar à comunidade selvática deste nosso estado paulista, que não apenas por meio de grunhidos nos expressamos.

A série de 10 poemas antimídia — um verdadeiro manifesto ético-político — oscila entre o trágico e o cômico da denúncia, como se entre um e outro houvesse apenas um direcionamento do agudo olhar. Sobre o  trágico, eis algumas das violentas panóplias: "(…) a morte engole manápulas/ e adensa paisagens-vértebras/ daqueles que não têm nome daqueles que/ não tem nome nenhum nada além/ de ninguém", "tateando entre os tufos da fome/ entre os húmus da usura tateando entre", "o estrondo mudo/ de uma pistola de 9mm"; "Nenhuma hipótese/ de lucidez/ nessa máquina/ para a produção do medo"; "fala para si, solipsista,/ como jargão/ de ofícios militares"; "unhas enegrecidas/ maxilares arrancados,/ miuçalha de carcaças". Sobre o cômico e o bufo expressionista: "O Apresentador do Grande Telejornal/ sofre de terríveis/ dores estomacais./ Tosse./ É impotente./ E peida muito."; "A Colunista do Grande Jornal Diário/ (…) folheia, na revista nova-iorquina,/ as últimas criações de Domenico Dolce/ e Stefano Gabbana (…)". Eis a mão impiedosa do poeta.

Há ainda um último poema da série antimídia, cuja epígrafe de Ionesco, "Quelle est ma langue?", coloca a questão poética no centro do interesse; questão com a qual o poeta debate-se no desenrolar dos ritmos e grunhidos que atravessam o poema: é como se  o poeta sussurrasse em meio a barulhos indistinguíveis, chamando a atenção dos Anônimos (título do poema que abre o livro), que devem buscar o poema num esforço de escuta contra toda a algaravia: "(Um miniaturista persa escreveu um longo poema épico numa pena de faisão"), "(Nuvens serão letras de um alfabeto cabalístco?)", "(quem conhece um grande romancista na Lituânia?)", "letras que são bichos no escuro letras que/ são lepras de lorpas no escuro",  "(…) um poeta (tunisiano?) soletra a sub-reptícia/ sombra da vivissecção.", etc. Trata-se da metalinguagem muito apropriadamente usada com o propósito de ressaltar o duplo poder da palavra: arma e escudo contra a selvageria reinante, contra a linguagem inarticulada, em suma, a guerra contra os meios de comunicação.

Com fabulação de outras margens, uma série de breves poemas amorosos-sensuais, este primeiro volume dos Cadernos se encerra, de modo a oferecer ao leitor esta outra face da palavra, sua via de exaltação, um direcionamento possível.

Por fim, desde esta Paulicéia errática, Sampa ou Sampã melodiosa, proponho o movimento circular em direção à epígrafe (nunca em retrocesso, vale frisar), um atentado contra os caranguejos selvagens deste brejo ressequido: "Ao Desconhecido/ que sempre muda tudo".

(Resenha publicada originalmente na revista Germina.) 

ENTRE O FRACTAL E A PROFUNDIDADE: A POESIA DE CLAUDIO DANIEL



Rafael Walter

Claudio Daniel é o pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira nascido em 1962 em São Paulo, onde se formou em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Libero. Atualmente é mestre e doutor em Literatura Portuguesa pela USP.

Sua bibliografia como poeta é composta por: Sutra (edição do autor, 1992), Yumê (Ciência do Acidente, 1999), A sombra do leopardo (Azogue editoria, 2001), Figuras metálicas (Perspectiva, 2005), Fera bifronte (Lumme, 2009), Letra negra (Arqueria, 2010), Cores para cegos (Lumme, 2013), Esqueletos do nunca e Cadernos bestiais, volume I (Lumme, ambos em 2015).


É responsável pela tradução de vários autores latino-americanos: José Kozer (Cuba), Eduardo Milán e Victor Sosa (Uruguai), Reynaldo Jiménez (Argentina), León Felix Batista (República Dominicana), os quais se encontram em antologias organizadas e traduzidas por Caudio Daniel. É também um agitador cultural e editor da revista virtual Zunái. Atualmente é professor de Literatura Portuguesa e colunista da revista Cult. Lançou dois livros de poesia no primeiro período de 2015, Esqueletos do nunca e Cadernos bestiais, ambos pela Lumme Editor, com capa, design e projeto gráfico de Francisco dos Santos.


Esqueletos do Nunca

Esqueletos do nunca reúne 54 poemas breves composições poéticas de dois a cinco versos, as quais levam títulos que colaboram para a compreensão do texto. O conjunto de poemas havia sido publicado em 2012 no site musarara.com.br, dedicado à memória de Wilson Bueno, e também na Revista Desassossego.

A epígrafe do livro é do autor francês Henri Meschonnic e dá ao leitor uma vaga ideia do que irá se sucederá durante a leitura: “Este livro é constituído por suas obsessões”, ou seja, um livro a ser lido/(re)construído diretamente pela obsessão do leitor.

Logo de entrada, num tom lírico, Claudio Daniel evoca o espírito do Carpe diem em seu poema Confissão: “No apodrecer de mim, caranguejos copulam em minhas órbitas”. Pode-se contemplar neste texto a fusão do poeta à natureza, numa unidade concisa de quem acerta um verso em cheio, como um gol de meio de campo, ou como a paisagem de um bonsai florido. Ao final deste poema há a referência a “(Mademoiselle Mélancolie)”, como uma assinatura do poema, uma espécie de heterônimo do poeta.

No poema Óbvio: “O desprezo ao óbvio de anúncios, epitáfios, crônicas, bilhetes,/ memorandos, maus poemas, sociologias, cartões-postais”, o poeta assume a condição de desprezo, de sujeito fadado à margem, como já anunciara Baudelaire ainda no século 19.

Há em seu texto uma consciência do jogo de preto e branco proposto pela construção do poema, através de sua concepção do verso na página, como assinala no poema Pessanha II (p. 24) último e penúltimo verso: “A página em branco rasura minha completa falta de imaginação”. A imaginação veiculada a musicalidade e a imagem é o que guia a construção de seu texto, o qual não se resume a palavra no papel, mas ultrapassa os limites da página.

Autorretrato demonstra um processo de introspecção em que o poeta reconhece seu caráter polivalente e multifacetado: “Funambulesco, funâmbulo, volantin, burlantin, volteador,/ aramista, equilibrista, fazedor de bicos.” Neste poema o autor realiza uma autorreflexão de seu fazer poético.

Ariadne I, II e III são um exemplo de três poemas que formam uma sequência, a qual não necessariamente foi concebida cronologicamente, o que caracteriza o árduo trabalho do escritor de colocar ordem no caos. É um poema composto em três tempos não sequenciais cronologicamente datados dos anos de 94 – 84 – 87, o que demonstra a circularidade do tempo e da poesia.

Paisagem é um poema no qual há predomínio da logopeia, podemos observar que a dança das ideias é de fato o poema, não há necessidade de mais palavras: “Flores amarelas. Sentado no banco do jardim, vejo a dança das/ três meninas e não escrevo nenhum poema. / (Num setembro qualquer)”. O silêncio da contemplação é a própria poesia neste instante de miragem.

A reflexão de Mallarmé da composição do poema, da colocação do verso e do uso do branco na página reaparece no poema Onde: “Onde o verde da palavra, onde o asco da palavra, caranguejo/ devora o espaço em branco da página. / (?)”. Pode-se notar nestes versos a ânsia pelo jogo de branco e preto na construção do texto.

Seu eu-lírico assume a perspectiva de um cão, assim como el perro de Maldoror chafurdando entre as palavras e ideias encontra a poesia no poema Difração (p. 48): “Difração é o tempo em que viajamos entre palavras e coisas,/ memórias e ressentimentos. Nossos focinhos avançam para além/ dos retratos e nada encontramos além de fungos, fiapos e fêmures.”

A poética de Claudio Daniel neste livro pode ser descrita pelo seguinte poema “volume e cor (...)”: “Navega-me, hidrófoba, acende linhas e planos com a paleta/ da língua; coxas expandem-se, laboriosas, quando tudo é pele,/ volume e cor, quando tudo é estrondo./ (Do Diário sentimental)”.

Estes versos levam à reflexão de que a poesia não é somente a palavra impressa, mas os sentidos que esta possibilita ao leitor em seu processo de descoberta no emaranhado de signos.

O livro é encerrado com dois intertextos-referências ao poeta César Vallejo e a Rimbaud. A proposta deste livro é a montagem de um quebra-cabeças poético, o qual pode ser visto como um mosaico e numa perspectiva caleidoscópica de decifração o leitor se vê em cheque a todo o momento na busca da significação do texto.

Cadernos Bestiais vol. 1

Cadernos bestiais é dividido em três partes: Infernais Fungos-de-Papiro, (Intermezzo) e Fabulação de outra margem. O livro, que reúne dezenove poemas de Claudio Daniel, tem por epígrafe o poema Sobre um leão chinês de raiz de chá de Bertolt Brecht, na tradução de Haroldo de Campos: “Os maus temem tuas garras/ Os bons alegram-se com teu garbo./ O mesmo quero ouvir/ de meus versos.”. O poeta dedica seu livro “ao desconhecido/ que sempre muda tudo.”

Este conjunto de textos tem por temática o rechaço ao golpe de 64, a ruptura ao normativo e à mídia. Este livro me faz recordar um graffiti manifesto numa parede argentina da cidade de Medonza: “La prensa es de ellos/ las paredes son nuestras”.

Infernais Fundos-de-Papiro traz poemas em sua maioria não-versificados e se encerra com um poema em prosa.

O poema Anônimos se inicia com o verso: “Há um louco solto na rua.” e se encerra com o verso: “(Poucos são os capazes de ler as mensagens ocultas no interior das nozes.)”. Uma possível leitura do poema é que o louco solto na rua é o próprio poeta que mescla a épica e o aforismo alternando isto através do uso de parênteses.

Antimídia II é um poema no qual encontramos os versos que dão título a esta parte do livro, neste poema o autor dialoga com a mitologia egípcia através da figura de Anúbis, deus da morte. O poeta critica São Paulo, cidade onde vive, através dos seguintes versos: “Esta é a cidade esfíngica / onde a desrazão / navega a insanidade. / Porco burguês. / Porca burguesa. / Chafurdam na mídia pré-histórica, / colecionando cifras. Onde, nesse caos aritimético, / há lugar para o infinito?”. Os dois últimos versos se repetem como uma espécie de refrão do poema.

Antimídia III pode ser visto como uma critica a metrópole e ao império burguês midiático, comandado por interesses mesquinhos. Este poema se encerra com os seguintes versos escatológicos: “Tua face, deserto em miniatura./ Tua voz, imagem-terracota./ Tuas mãos, alfabeto do escarro.”

No poema Antimídia IV há a criação de uma metáfora muito bem estruturada sobre a televisão denominando-a como “máquina/ para a produção do medo”, e encerra o poema reconhecendo a raiva produzida pela sociedade de classes. A voz da mídia a qual o poeta se refere neste poema é uma voz de uma boca costurada e desumanizada pela alienação que ela mesma gera.

Atimídia V é um poema dedicado às vitimas da tortura do Golpe de 64, como uma marca temporal dos 50 anos do fato que desnorteou o país e reprimiu a criação artística e o pensamento político, social e filosófico. O poeta se refere a legião dos que sofreram este duro período da história política brasileira.  Em seguida temos o poema Antimídia VI, o qual figura como uma manchete, ou um lembrete afixado na parede do tempo: “Jornais apoiaram a ditadura militar”.

Antimídia VII leva por subtítulo a mensagem entre parênteses: “macumba poética”. Neste texto o poeta realiza uma profecia patológica sobre “O Apresentador do Grande Telejornal”, figura central sobre a qual o poema é desenvolvido. Em Antimídia VIII o poeta apresenta “A Colunista do Grande Jornal Diário”, personagem que padece da ignorância midiática, que produz a “Massa mal-cheirosa,/ escura, ignara, que nunca leu Plínio Salgado,/ Afonso Arinos, Fernando Henrique Cardoso”, massa manipulada a qual vive a espera da “Vinda do seu Fühner”.

Antimídia X é uma prosa poética visceral que encerra esta parte do livro, um texto sem vírgulas somente dotado de ponto final. Através do elemento dramático, da representação da realidade ao extremo o poeta leva seu leitor refletir sobre a lucidez humana: “quando garotos racistas de São Paulo ateiam fogo na/ mendiga refugos de rastilhos de rebotalhos neste açougue onde repartem carne humana/ Tíbias são dejetos olhos são dejetos orelhas são dejetos nesta terra de ninguém que a/ terra há de comer”.

(Intermezzo) é composto de um só poema Cabeça de Não, onde aparece a verve metalinguística de Claudio Daniel já nos versos finais: “por isso –/ o poeta desafia –/ por isso –/ o poeta desafina –/ se alinha –/ junto a esses –/ e a essas –/ por isso –/ por aquilo –/ por tudo –/ por nada –”. Nestes versos o poeta realiza um canto de batalha e demonstra ao leitor a dualidade de sua trincheira poética no constante jogo de absoluto e vazio.

Fabulação de outra margem é a última parte do livro composta pelo poema Cantiga e por outros poemas curtos que não levam título, os quais também podem ser compreendidos como componentes de Cantiga, o qual tem por epígrafe versos de Tristan Tzara.

Este poema pode ser considerado o que mais explora o aspecto visual do texto, antes mesmo de anunciar que “Um minúsculo leão branco habita sua fenda.” o poeta constrói a fenda metafórica graficamente através de duas linhas tracejadas e a enche de gozo através da palavra.

Ambos os livros são curtos e de acessível leitura, a grande maioria dos poemas está na rede para o acesso do público. A escolha vocabular de Cláudio Daniel é minuciosa e a partir da criação deste universo poético próprio o poeta desafia seu leitor a imersão neste oceano de signos, onde o prumo está em suas mãos.

(Resenha publicada originalmente no Portal Vermelho)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

IDADE MÍDIA




















Jornais são grandes empresas capitalistas que se mantêm pela participação do capital acionário, inclusive do capital financeiro, anúncios de outras empresas, empréstimos, sonegação de imposto de renda, depósitos irregulares em bancos no exterior (vide caso HSBC), assinaturas -- inclusive de órgãos públicos e privados -- e vendas em bancas. Seus proprietários têm interesses políticos e partidários em relação aos rumos da economia do país. Notícias sempre são veiculadas conforme esses interesses e os jornalistas não são livres para escreverem aquilo que sabem e pensam. Não existe "liberdade de imprensa" no capitalismo, mas liberdade de empresa.

domingo, 6 de setembro de 2015

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (III)













MENINOS, EU VI a montagem da peça “O percevejo”, de meu camarada Vladimir Maiakovski, no Sesc Pompéia, com direção de Luiz Antônio Martinez Corrêa, música de Caetano Veloso e, no elenco, Cacá Rosset, Maria Alice Vergueiro, Dedé Veloso. Foi no início dos anos 1980. Havia teatro de vanguarda – Gerald Thomas, Asdrúbal Trouxe o Trombone, Teatro do Ornitorrinco (Ubu rei, de Alfred Jarry, numa montagem belíssima), e música, muita música nova: Arrigo Barnabé e a banda Sabor de Veneno, com uma mistura de atonalismo, ópera-rock e pastiche da imprensa popular e das histórias em quadrinhos... Itamar Assumpção e a Banda Isca de Polícia, com o seu samba do futuro... cantoras excelentes – Vânia Bastos, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros... a festa acontecia no Lira Paulistana, templo musical de Sampa nessa época... a editora Brasiliense publicava livros de poesia de autores contemporâneos – Paulo Leminski, Alice Ruiz, Ana Cristina César, Chacal, a reedição da antologia “Poesia Russa Moderna” e outras obras seminais de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari... o Centro Cultural São Paulo, recém-inaugurado, nas proximidades do metrô Vergueiro, criava um novo conceito de espaço e de gestão cultural – e no seu time tinha pessoas como Leda Tenório da Motta, Cid Campos, Lenora de Barros... Havia imprensa cultural –sim, inacreditável, havia até imprensa! – como o caderno semanal Folhetim, da Folha de S. Paulo (naquela década, respeitável), que publicava regularmente artigos sobre poesia brasileira e internacional, filosofia, psicanálise, poemas inéditos de Nelson Ascher, Arnaldo Antunes, traduções de Huidobro por Antonio Risério, entre outras preciosidades... os jornais mantinham correspondentes nas principais capitais do mundo e não se limitavam a republicar press releases de agências de notícias norte-americanas – e havia pesos pesados como Paulo Francis em Nova York, Claudio Abramo em Londres, Mauro Santayana em Paris, Clovis Rossi (então decente) em Buenos Aires, Gerardo Mello Mourão em Pequim, Osvaldo Peralva em Tóquio. O Estado de S. Paulo, mais conservador (naquela época distante, havia diferença de linha editorial entre Folha e Estado) publicava o Suplemento Cultural, onde li pela primeira vez os poemas de Hilda Hilst. Cinemas? Havia os cineclubes, como o Oscarito, na Praça Roosevelt, onde via filmes underground, e salas grandes como o Belas-Artes, onde assisti pela primeira vez os filmes de Werner Herzog e Píer Paolo Pasolini. Estávamos no final da ditadura militar, mas, entre os jovens, havia um forte clima de esperança. O PT e a CUT, surgidos entre o final da década de 1970 e início de 1980, pareciam, a nossos olhos, a vanguarda do proletariado para a revolução socialista. Nos comícios por eleições diretas já, em 1984, que levaram milhões de pessoas às ruas – eu participei de todos os comícios em São Paulo –, havia a sensação de que conseguiríamos tomar os céus de assalto, repetindo a Revolução Sandinista na Nicarágua. Kit militante básico: lenço palestino no pescoço, camiseta com estampa de Che Guevara, estrelinha do PT no peito e bandeira vermelha. Nossa insurreição, porém, durou pouco: a emenda Dante de Oliveira, que instituía as eleições diretas, foi derrotada no Congresso Nacional e começou um longo período de inverno: “voto útil” dos deputados e senadores de oposição na candidatura de Tancredo e Sarney no Colégio Eleitoral, para derrotar Paulo Maluf, “transição negociada” da ditadura militar para a “Nova República”, novo surto de esperança em 1989, com a candidatura de Lula à presidência da república, pela Frente Brasil Popular... derrota de Lula para Fernando Collor de Mello, após intensa campanha difamatória desse candidato, respaldado pela Rede Goebbels e toda a mídia golpista (já sem a máscara de “democrática” e “progressista” de poucos anos atrás)... início dos Anos Neoliberais, queda da União Soviética e do bloco socialista na Europa Oriental, derrota da Revolução Sandinista, eleição de presidentes de direita no Brasil (Fernando Henrique Cardoso), no Peru (Alberto Fujimori), na Argentina (Carlos Menem) e em outros países da América Latina... longo inverno que começou a findar a partir de 1998, com a vitória de Hugo Chávez na Venezuela, e depois, em 2002, com a eleição de Lula no Brasil... novos tempos, novas conquistas, uma situação histórica rara, estratégica, que pode nos levar a grandes transformações – ou a graves retrocessos. Em tempo: não sou saudosista, mas a música, o teatro e a poesia dos anos 1980 eram MUITO mais interessantes que as de hoje.  

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (II)















Conversei com Haroldo de Campos em três ocasiões, em sua casa, a convite do poeta, poucos meses antes de seu falecimento. Ele foi – é – a minha principal referência literária e intelectual, pelo conjunto de sua obra poética, ensaística, tradutória. Dialogar pessoalmente com Haroldo, ainda que por pouco tempo, foi um imenso privilégio. Nessa época, ele estava particularmente interessado na poesia de autores brasileiros de minha geração – Claudia Roquette-Pinto, Angela de Campos, Josely Vianna Baptista, Frederico Barbosa, Arnaldo Antunes, entre outros –, acompanhava as revistas literárias, os livros de autores jovens, opinava sobre o que estava sendo feito naquele momento, com raras atenção e generosidade, sem perder o rigor jamais. Apresentou-me a alguns tradutores de poesia que tinham contato frequente com ele – Michel Sleiman, Trajano Vieira, Yun Jung Im –, aceitou responder a uma entrevista que fiz com ele e publiquei na revista Et Cetera, em 2003, e manifestou o maior entusiasmo quando lhe contei sobre a criação de minha revista eletrônica, a Zunái. Prometeu colaborar na revista com traduções de poesia asteca (ele estudava o idioma nauatl, pouco antes de falecer), mas infelizmente não teve tempo de enviar-me os originais. Escreveu o prefácio para o meu livro Jardim de camaleões – A poesia neobarroca na América Latina e convidou-me para publicar a minha poesia reunida na coleção Signos, que dirigia para a editora Perspectiva, o que aconteceu em 2004, quando saiu o livro Figuras metálicas – travessia poética (1983-2003). Sou imensamente grato a Haroldo por todo o apoio que ele deu a meu trabalho literário e sinto grande saudade de nossas conversas, sempre regadas a vinho do porto e bom humor – ele era bonachão, divertidíssimo, e não perdia oportunidade para contar “causos”, especialmente de certos críticos literários brasileiros. Embora não fosse expert em política internacional, condenou a agressão norte-americana ao Iraque – escreveu poemas sobre isso, publicados no livro Entremilênios – e tinha noção do que estava acontecendo no mundo naquela época, a pretexto do combate ao terrorismo. Do mesmo modo que foi solidário aos sem-terras, por ocasião do massacre de Eldorado dos Carajás, durante o desgoverno de FHC, e apoiou a candidatura de Lula à presidência da república. Haroldo não foi apenas um grande poeta, mas um ser humano ético, generoso, que sabia “ver com olhos livres”. Faz imensa falta à nossa triste época.

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (I)


Conversei com Mário Schenberg uma única vez, nos remotos anos 1980. Ele morava numa casa ampla, com quadros e obras de arte por todos os lados. Surpreendeu-me ouvir de um dos maiores físicos da segunda metade do século XX e marxista convicto, membro do Comitê Central do antigo PCB, um discurso semelhante ao de Erich von Daniken, autor de "Eram os deuses astronautas?". Mário acreditava que houve intercâmbio entre alienígenas e antigas civilizações, como as dos maias e astecas, e acompanhava a ufologia com interesse. Também estudava religiões orientais, como o taoísmo e o zen-budismo (após o seu falecimento, conforme instruções que deixou à família, recebeu cerimônia fúnebre em um templo budista). Mário também era grande interessado em poesia e, após ler minhas tímidas e arrogantes produções de mocidade, fez um único comentário: que após o Modernismo os poetas usavam e abusavam dos substantivos, mas se esqueceram dos verbos. Nunca me esqueci dessa lição e até hoje, em meus poemas, busco a diversidade de verbos e tempos verbais. Também aprendi com ele a não ser sectário, manter a mente aberta e entender o marxismo como ciência social útil para a compreensão de diversos aspectos da realidade, mas não a sua totalidade. Sou marxista em política, em economia, o que não me impede de flertar com outras filosofias e formas de compreensão do mundo, em campos que escapam ao repertório teórico, métodos e estratégias do marxismo – e não vejo nisso nenhuma heresia ou contradição: o próprio Marx considerava que o socialismo não seria a destruição de todas as conquistas culturais do passado, mas, ao contrário, seria a conclusão lógica do avanço das forças produtivas, ciência, tecnologia e cultura desenvolvidos pela humanidade.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

COMO É O MEU PROCESSO CRIATIVO? (II)


Após escolher o tema, o título, a extensão, a sintaxe e algumas palavras-chave do poema, começo a escrever as primeiras linhas, por livre associação de ideias. Claro: as regras previstas inicialmente são úteis para orientar a imaginação no trabalho criativo, mas não é raro que o poema mude o plano inicial e crie as suas próprias regras. Assim, mudou a extensão -- o poema terá várias estrofes de treze (ou mais) versos -- e a sintaxe será um pouco mais discursiva do que imaginava, por imposição do ritmo dos versos. A primeira versão (haverá outras? Não sei neste momento) da primeira estrofe, que orienta a criação de todo o poema, ficou assim:

DEZENOVE CORPOS

I

Vivemos
no tempo descolorido
dos surdos-mudos.
Os que somem sem deixar vestígios.
Os que calam sobre as mortes anônimas.
Dançam, dançam os paladinos,
os magros paladinos do diabo,
os esqueletos dos saladinos .
A mutabilidade dos corpos, reconfiguráveis.
As estruturas de poder mimetizadas em abismo.
A indiferença ante os dezenove corpos alinhados.
O limo recobre qualquer hipótese de delicadeza.


A estrofe está pronta? Não sei. Eu ainda vou ler e reler este esboço várias vezes, prestando atenção no som e no sentido de cada palavra, de cada linha, para descobrir eventuais atritos sonoros ou de significado, até chegar à versão final.

COMO É O MEU PROCESSO CRIATIVO?

1) escolhi um tema -- a chacina de 19 pessoas em Osasco e Barueri pela PM de Geraldo Alckmin (P$DB); 2) defini a extensão do poema, que terá entre 15 e 20 linhas; 3) defini o título do poema: "Dezenove cabeças" (talvez mude); 4) escolhi algumas palavras para o poema, por sua sonoridade e força expressiva: anônimas, cumplicidade, surdos-mudos, vestígios, vitrines, mimetizada, desfiguração, viaturas, mocambos, repercorre-se; 5) começo a combinar essas palavras em frases, de sintaxe fraturada, elíptica, sem ter ainda ideia da estrutura do poema. A partir da combinação bem-sucedida de algumas palavras, que definam uma ou duas estrofes, terei noção de como será o poema completo. Isso vai me dar bastante trabalho, assim que estiver pronto, publicarei aqui.

domingo, 30 de agosto de 2015

ZUNÁI, REVISTA DE POESIA & DEBATES















AGOSTO / 2015
  
A figuração do cigano em narrativas modernistas: leitura de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, Rui Lobato Bahia Jr.

Guimarães Rosa, Peter Lund e o homem da lagoa santa, Jean Marcos Torres de Oliveira e Wellingtin Diogo Leite Rocha

Cadernos bestiais, a linguagem fundida da poesia, Antônio Moura

Partituras do insólito: a poesia de Ricardo Aleixo, Claudio Daniel

Exatos trinta anos depois, o crítico sociólogo ainda tropeça na poesia, Leda Tenório da Motta

A flor de lótus de Adriana Zapparoli, Lucas Zapparoli de Agustini

Poemas traduzidos de Federico Garcia Lorca, Antonin Artaud, Henri Michaux, Lezama Lima, Júlio Cortazar, Gonzalo Rojas

Entrevistas com Glauco Mattoso & Ademir Demarchi

Prosa de Fernando Ramos, José Tamargo, Roseana Nogueira

Galeria: obra visual de Henri Michaux, poemas visuais de Gil Jorge, poemas e trabalhos plásticos de Chiu Yi Chih (projeto LOZ)

Especial: homenagem a Gilka Machado.


Zunái, Revista de Poesia & Debates, www. zunai.com.br

Preço: Inconcebível. Inefável.


Onde encontrar: no ciberespaço, essa “gran cualquierparte” (Vallejo).

terça-feira, 25 de agosto de 2015

UMA CRÔNICA DA TRAGÉDIA PALESTINA


Claudio Daniel

Ghassan Kanafani (1936-1972), um dos escritores palestinos mais importantes do século XX, considerado um dos renovadores da prosa de ficção em língua árabe, também se destacou como ativista da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e escreveu um notável ensaio histórico sobre a gênese dos conflitos na região, que acaba de ser publicado no Brasil, com o título A revolta de 1936-1939 na Palestina (São Paulo: Sundermann, 2015). Nesta obra, Kanafani – nascido na cidade de Akka (Acre), numa família de classe média, exilado no Líbano desde o massacre da aldeia palestina de Deir Yassin, em 1948, e assassinado pelo Mossad em 1972 –, retrata o início da colonização do pais das oliveiras, quando milhares de judeus europeus imigraram para a região, nas primeiras décadas do século XX, com apoio explícito do Império Britânico, que administrava o país árabe. Conforme escreve o autor: “Entre 1933 e 1935, 150 mil judeus imigraram para a Palestina, elevando a parcela dessa população no país a 443 mil, ou seja, 29,6% do total” (nos primeiros anos do século XX, a população judaica na Palestina era de apenas 5%). A imigração foi facilitada pela compra de vastas extensões de terras na Palestina por capitalistas judeus da Europa, que expulsaram os camponeses palestinos das propriedades agrícolas para oferecer emprego unicamente a trabalhadores judeus. A dominação econômica dos novos senhores estendeu-se também ao comércio e à indústria: “Em 1935, por exemplo, os judeus controlavam 872 de um total de 1.212 estabelecimentos industriais na Palestina, empregando 13.678 trabalhadores, enquanto os demais eram controlados por árabes-palestinos e empregavam 4 mil trabalhadores”. Além disso, as diferenças salariais eram gritantes: “Um censo oficial de 1937 indicava que um trabalhador judeu recebia 145% a mais em salários que um árabe palestino. Na indústria têxtil, a diferença entre trabalhadoras judias e árabe-palestinas atingia 433%, e na indústria de tabaco, 233%”. A situação causada pelo êxodo rural dos camponeses palestinos, desemprego nas grandes cidades, baixos salários e segregação étnica motivou greves e manifestações de protesto da população palestina: “Durante os levantes de 1929 e 1933, muitos pequenos camponeses árabe-palestinos venderam suas terras aos latifundiários para comprar armas para resistir à invasão sionista e ao Mandato Britânico. Foi essa invasão que, por ameaçar o modo de vida no qual religião, tradição e honra jogam um papel importante, capacitou os líderes feudais e clericais a permanecerem numa posição de liderança”. O Partido Comunista Palestino, nessa época, tinha pouca adesão de trabalhadores árabe-palestinos e sua influência era escassa. Os países árabes vizinhos, por sua vez – Síria, Iraque, Jordânia – eram governados por monarquias reacionárias alinhadas aos interesses britânicos e não tinham interesse em apoiar uma revolução nacionalista e antiimperialista das massas trabalhadoras palestinas, que poderia repercutir na região e desestabilizar as tiranias locais. A revolta palestina, portanto, reencenava o mito bíblico da luta de Davi contra Golias: neste caso, um imenso Golias, representado pela Inglaterra – maior potência econômica e militar do planeta, na época –, pelo sionismo, governos árabes feudais e uma liderança palestina que temia tanto a perda de poder para os sionistas quanto as aspirações revolucionárias da classe trabalhadora palestina. Este é o cenário da tragédia.          

LEVANTE QASSAMISTA

No dia 12 de novembro de 1935, um clérigo palestino, Izz al-Din al-Qassam, partiu para as colinas de Ya’bad com um grupo de 25 homens, com o objetivo de iniciar a resistência armada contra a ocupação sionista e o Mandato Britânico. Conforme relata Kanafani, a revolta deveria acontecer em três etapas: “preparação psicológica e a disseminação do espírito revolucionário, a formação de grupos secretos, a formação de comitês para recolher contribuições e outros para adquirir armas, comitês de treinamento, segurança, espionagem, propaganda e informação e para contatos políticos – e, então, revolta armada”. Os planos revolucionários foram descobertos pelos britânicos, ainda em sua etapa inicial, e al-Qassam foi executado, gritando: “Morrer como mártir!”. O cortejo fúnebre do clérigo atraiu as massas palestinas e logo se tornou um ato de protesto político, cujos desdobramentos aconteceriam nos anos seguintes.

Em 1936, foi decretada uma greve geral, seguida por um movimento de desobediência civil e insurreição armada. “Centenas de homens em armas afluíram para juntar-se aos bandos que haviam começado a espalhar-se pelas montanhas”, escreve Kanafani. “O não-pagamento de impostos foi decidido na conferência que ocorreu na Universidade Raudat al-Ma’aref al-Wataniya em Jerusalém em 7 de maio de 1936, à qual compareceram 150 delegados representando os árabes da Palestina”. Foi nessa conferência, prossegue Kanafani, “que a liderança do movimento de massas comprometeu-se com uma aliança imaterial entre a liderança feudal-clerical, a burguesia comercial urbana e um número limitado de intelectuais. (...) A conferência decidiu unanimemente anunciar que nenhuma taxação será paga, a iniciar-se em 15 de maio de 1936, se o governo britânico não fizer uma mudança radical em sua política, cessando a imigração judaica”. A resposta das autoridades britânicas foi clara: nenhum diálogo, nenhuma negociação, apenas a mais feroz repressão, realizada conjuntamente com as forças sionistas locais, como a milícia paramilitar Haganá e os quadros policiais integrados por imigrantes judeus. Conforme relata Kanafani: “o número de palestinos-árabes mortos na revolta de 1936 foi por volta de mil, além dos feridos, desaparecidos e internados. Os britânicos utilizaram a política de explodir casas em larga escala. Além de explodir e destruir parte da cidade de Jaffa (18 de junho de 1936), onde o número de casas explodidas estimado foi de 220 e o número de pessoas que ficaram sem teto, 6 mil. Além disso, centenas de cabanas foram demolidas em Jabalia, 300 em Abu Kabir, 350 em Sheik Murad e 75 em Arab al-Daudi. (...) Nos vilarejos, de acordo com as estimativas de al-Sifri, 143 casas foram explodidas por razões diretamente ligadas à revolta”. A prática da demolição de casas de suspeitos de colaboração com a resistência contra a ocupação sionista é realizada até hoje nos territórios palestinos e, para citarmos apenas um episódio, cerca de cem mil palestinos ficaram desabrigados durante a ofensiva israelense na Faixa de Gaza, em 2014, como resultado dos bombardeios e da demolição de moradias realizada pelo Exército israelense.

A revolta de 1936 foi encerrada em 11 de outubro, devido à pressão das monarquias árabes da região, ansiosas pelo fim do conflito, e não trouxe nenhuma conquista significativa para os palestinos. Ao mesmo tempo, os vínculos entre os britânicos e os sionistas se fortaleceram, sobretudo no campo da repressão: em 1935, havia 365 sionistas servindo nas forças policiais na Palestina; no ano seguinte, esse número aumentou para 682, e logo saltou para 1.240 sionistas, armados com rifles militares. No final de 1936, o número de policiais judeus armados era de 2.836, sem contar as milícias sionistas, como a Irgun e a Haganá, que somavam 6.500 homens. Estas organizações dariam origem, a partir de 1948, às Forças Armadas da entidade sionista.

Nova ascensão revolucionária: 1937-39

Entre 1937 e 1939, porém, a revolta palestina assume novo fôlego: segundo Kanafani, “as forças britânicas que dominavam a Palestina estavam enfraquecidas, o prestígio do colonialismo estava no seu ponto mais baixo e a reputação e influência da revolta tornaram-se a força principal no campo”. Como sinal de solidariedade aos camponeses rebelados, nas cidades palestinas, muitos estudantes, intelectuais e trabalhadores passaram a usar o lenço típico do camponês, o keffiya. A repressão, novamente, se abateu sobre o movimento: um grande números de camponeses foi executada apenas pela posse de arma, cerca de dois mil palestinos foram encarcerados e cinco mil casas destruídas. Além disso, 148 revoltosos foram enforcados em Acre.

Novamente, os governos árabes submissos ao Império Britânico, especialmente os da Arábia Saudita e Iraque, realizaram missões diplomáticas com o objetivo de encerrar toda atividade de resistência, mas a revolta prosseguiu até 1939, apesar da lei marcial e do toque de recolher impostos pelos britânicos, das prisões em massa, execuções e demolições de casas. Em março de 1939, é assassinado um dos principais líderes da revolta, Abd al-Rahim al-Haji Muhammad, e pouco depois as forças jordanianas prendem Yusuf Abu Daur, entregue por eles aos britânicos. “Além disso”, escreve Kanafani, “o terrorismo britânico e sionista nos vilarejos fez com que as pessoas ficassem com medo de apoiar os rebeldes e supri-los com munição e comida e, sem dúvida, a ausência de até mesmo uma mínima organização tornou impossível superar esses obstáculos”.

O Partido Comunista Palestino atribuiu a derrota a vários fatores, entre eles a ausência de uma direção revolucionária, a falta de comando central para as forças revoltosas e a situação mundial desfavorável (em 1939, teve início a II Guerra Mundial e o fascismo estava em plena ascensão na Europa). Como resultado do fracasso da insurreição, entre 1936 e 1939 as perdas árabes-palestinas totalizavam 19.762 mortos e feridos, além de 5.679 presos. A burguesia judaica aproveitou-se do clima de instabilidade política para ampliar a sua presença na região e “construir uma rede de rodovias entre as principais colônias sionistas e as cidades que mais tarde formariam a porção básica da infraestrutura da economia sionista. Depois, a principal rodovia de Haifa a Tel Aviv foi pavimentada, e o porto de Haifa foi expandido e aprofundado. Um porto foi construído em Tel Aviv, o que mais tarde ‘mataria’ o porto de Jaffa”. Além disso, cinquenta novas colônias sionistas foram estabelecidas entre 1936 e 1939, e, no mesmo período, as milícias sionistas, armadas e treinadas pelos britânicos, tornaram-se ainda mais poderosas: “havia 12 mil homens na Haganá em 1937, além de mais 3 mil na Organização Militar Nacional de Jabotinski”. Em 1939, os sionistas contavam com “62 unidades motorizadas, de oito a dez homens cada”. Com autorização britânica, as milícias sionistas começaram a fazer ações de patrulha e operações militares contra os árabes-palestinos, assumindo, na prática, o papel de força repressiva estatal.

Após o final da II Guerra Mundial, os sionistas, motivados pelo “clima internacional extremamente a favor, seguindo a atmosfera psicológica e política causada pelo massacre de Hitler aos judeus”, sentiram-se fortes o suficiente para se voltarem contra os seus parceiros do Mandato Britânico, naquilo que entrou para a história da entidade sionista com o nome de “guerra da independência”, que culminou com a criação artificial do Estado de Israel, em 1948, em mais da metade dos territórios palestinos – o restante seria ocupado nos anos seguintes, durante a chamada Nakba (“catástrofe” em árabe), que resultou em 500 aldeias palestinas destruídas e no exílio forçado de 750 mil palestinos, entre eles a família de Ghassan Kanafani, que imigrou do Acre, situado no norte da Palestina, para Sidon, no sul do Líbano. A história política da Palestina é a matéria-prima dos romances e contos do autor palestino, como é o caso do romance Homens ao sol (São Paulo: Bibliaspa, 2012), que comentaremos, futuramente, em outro artigo.


Claudio Daniel é poeta, tradutor, ensaísta e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Editor da Zunái, Revista de Poesia e Debates, publicou, entre outros livros de poesia, os Cadernos bestiais e Esqueletos do nunca (ambos pela Lumme Editor, 2015).