terça-feira, 25 de agosto de 2015

UM POEMA DE VELIMIR KHLÉBNIKOV



VOZES E CANTOS DA RUA

Tzares, tzares tremiam,
Tzares, tzares tremem!
Para o ô
Para o oco da foice
Patrões,
Para o ô,
Para o oco
Patrões,
Para o ô,
Para o oco
Tzares,
O tzar,
O tzar,
O povo,
O po,
O povo.
Ferreiro,
Malha,
Malhador.
A rou,
A roupa
Rapa
Dos patrões,
Para o ô, para o ô, os tzares
Rapa
E põe
O povo.
Malha,
Malhador,
Os tza
Os tzares
Para o oco,
E que se dani
Fiquem
Na Sibé,
Na Sibéria lá nos mon,
Nos montí,
Tículos brancos de neve.
Patrões, patrões põe
Põe, põe,
Povo,
Põe,
Põe,
Povo,
Põe o tzar branco,
Põe o tzar branco! O tzar branco!
O tzar branco!
- O tzar!
E nós? – E nós olhamos, e nós, nós olhamos!
Tzares, tzares tremem!
Eles tremem, tremem!
O grão-duque
O quê? É agora?
(Olha para o relógio)
Sim, está na hora!

novembro 1921

Tradução: Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

GALERIA: KAZIMIR MALEVITCH


POEMAS DE ORIDES FONTELA


AURORA

Rosa, rosas. A primeira cor.
Rosas que os cavalos
esmagam.


DO ECLESIASTES

Há um tempo para
desarmar os presságios

há um tempo para
desamar os frutos

há um tempo para
desviver
o tempo.


REBECA (II)

A moça do cântaro
e
seu
silêncio de água
e de barro.


ESTRELA

A tranquila explosão
fria
fora do tempo e
nos olhos

esplêndida
solitária

no ápice do amor
tremeluzia.


ESFINGE

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.

HABITAT

O peixe
é a ave
do mar

a ave
o peixe
do ar

e só o
homem
nem peixe nem
ave

não é
daquém
e nem de além
e
nem

o que será
já em nenhum
lugar.


A LOJA (DE RELÓGIOS)

I

O relógio
horologium
a hora
o logos.


II

Os peixes estão
no aquário
o touro está
na balança

e a virgem
parindo
os gêmeos.


III

os relógios estão
na eternidade.


* * *

O branco é campo para o desespero
É quando sem infância persistimos
E nos fita de face a luz sem pausa
Da memória suspensa (tempo em branco).

O branco é luz aberta: existimos
Sem sombra de segredo, sem mais causa
Sem mais infância em nós. É desespero
Nos fixando (puro campo branco).

O branco é branco apenas. Sem refúgio
Insistimos na luz. A luz constrói
A flor em nós (sua rosácea branca).

O branco é campo para a crueldade
Onde nos encontramos: tenso espaço
Na luz vivente (branco apenas).



(FONTELA, Orides. Rosácea. São Paulo: Roswitha Kempf Editores, )

domingo, 23 de agosto de 2015

O LIVRO NEGRO DO CAPITALISMO


Nas duas guerras mundiais, a de 1914-18 e a de 1939-45, causadas pela disputa entre as principais potências capitalistas europeias por mercados, fontes de matérias-primas, vias de transporte e campos cultiváveis, morreram cerca de 94 milhões de pessoas, entre civis e militares (10 milhões na I Guerra Mundial, 84 milhões na II Guerra Mundial). Apenas em Hiroshima e Nagasaki, os Estados Unidos mataram 220 mil pessoas, usando armas de destruição em massa. Nos anos seguintes, a França matou um milhão de pessoas na Guerra da Argélia e os Estados Unidos mataram quatro milhões de coreanos e um milhão de chineses, na Guerra da Coreia, quatro milhões de vietnamitas e dois milhões de cambojanos e laocianos, na Guerra do Vietnã, entre 500 mil e dois milhões de indonésios, após o golpe de estado de Suharto, apoiado pelos EUA, entre 400 mil e um milhão de iraquianos, na Guerra do Golfo, para citarmos apenas alguns números.


P.S. No livro Churchill’s secret war, Madhusree Mukerjee, estudiosa indiana que já pertenceu ao conselho de editores da Scientific American, denunciou o holocausto indiano de 1943, causado pelo desvio de alimentos imposto à região de Bengala por Winston Churchill, na época em que a Índia era ocupada militarmente e colonizada pelos ingleses. O então primeiro-ministro britânico recusou até mesmo a ajuda alimentar oferecida por americanos e canadenses, que teria permitido evitar o genocídio de até 5 milhões de indianos. Viva o "liberalismo democrático" da burguesia!

terça-feira, 18 de agosto de 2015

POEMAS DE HORÁCIO COSTA



 











 DO LIVRO DOS FRACTA


IV

QUETZALCÓATL


Neste 16 de Agosto os pardais derramam
plumas sobre lagartixas. Em meu jardim
anuncia o deus o seu regresso.



XVI

LA STORIA


Um alvéolo sonha a árvore;
o ponto-que-desliza, o aleph.
A identidade é imitação.



XX

THE PLUMED SERPENT


Plumas sobre lagartixas, you’ve said? descem elipses, caminham helicoidais?se fundem no espaçotempo entre azáleas, bananeiras? No jardim, Tabu vira delicioso Totem. Na Coisa, Frisson Nouveau petrifica o observador e observado.


XXXIII

TEBAIDA


paredes em branco, jejum às sextas, Auto-Transportes Silêncio LTDA., carvão de néon, baobás-bonsai, MILS-Minist. da Implant. de Lantej. Subcutân., dunasinvadem o meio da paisagem sobre lagoas forradas de caramujos, luz azul

XXXIV

LOS BIGOTES DE MALLARMÉ

ônix de Tiffany’s, timbre mudo, pesado veludo sobre a representação, fios de prata nas fraldas do rideau, voz de fundo, entr’acte,desce a cortina sobre os lábios, sinais dançantes no panejamento, OM.



XLVII

PONTO EUXINO

negra mina, uma segunda pele veste-me a tua presença, ao bisonte íbis jaguarque sós ocupavam a tela dos sonhos a procissão me leva a teu negrumr,move-se tão lentamente como deito-me no divã, mar negro, mar eterno, vem


(COSTA, Horácio. O livro dos fracta. São Paulo: Iluminuras, 1990) 

ESTE É O PAÍS QUE O P$DB QUER TRAZER DE VOLTA. NÃO PASSARÃO!


CRÍTICA



CRÍTICA LITERÁRIA significa fazer escolhas, seleção de textos e autores, a partir de um modelo de teoria literária e gosto pessoal. O bom crítico, segundo Ezra Pound, é reconhecido não apenas pela qualidade de seus argumentos, mas pela excelência de suas escolhas. Intervir na cena literária, de forma crítica e criativa, implica reconhecer o que há de inovador e consistente nos novos autores, mas também indicar aquilo que não é bem realizado esteticamente (ainda que seja incensado pelo mercado e pela mídia). Fechar os olhos, esconder a cabeça na areia, como avestruz, e adotar o discurso de que "tudo é válido, tudo é lindo, tudo é maravilhoso, vamos ser todos amiguinhos" é uma postura indefensável do ponto de vista ético e intelectual; mais do que tudo, é uma postura covarde.

UTAMARO E SUAS CINCO MULHERES















Kenji Mizoguchi (1898-1956), um dos três grandes diretores de cinema do Japão, ao lado de Kurosawa e Ozu, foi frequentador assíduo das casas de prazer do Bairro das Flores. No filme Utamaro e suas cinco mulheres (1946), Mizoguchi recupera episódios da vida do artista plástico japonês, célebre por suas gravuras de cortesãs. Filme belíssimo do mesmo diretor de "Contos de lua vaga depois da chuva". Ele é, há bastante tempo, um de meus diretores favoritos, pela beleza fotográfica de seus filmes, pela técnica de desenvolvimento da narrativa e por seu pensamento pacifista e feminista, numa época em que o Japão era uma sociedade patriarcal e belicosa.

UM POEMA DE MICHELINY VERUNSCHK



 


















CALIGRAFIA

eu me escrevo
para você
contínua
e repetidamente
me escrevo
para você
em rasura
e ranhura
fissura
tessitura
essa rima
tatuagem
essa música
eu me escrevo
para você.
obsessiva escritura
é o seu nome
em minha pauta
em minha pele
o seu nome
estrela pulsar arquitetura
clara-escura criatura
é o seu nome
letra
signo
lavratura
que eu escrevo
para você.

sábado, 15 de agosto de 2015

A BUSCA DE UM DEUS QUE SAIBA DANÇAR





Chiu Yi Chih realiza um trabalho poético que tem como ponto de partida o conceito de imagem poética formulado por Paul Reverdy – a aproximação inusitada de referências que pertencem a realidades diferentes (conceito antecipado por Lautréamont, nos Cantos de Maldoror, que imagina “o encontro fortuito de um guarda-chuva e uma máquina de costura sobre uma mesa de dissecação”, formulação que descende das metáforas de agudeza da poética barroca). No livro de estreia de Chiu, Naufrágios, publicado em 2011 pela editora Multifoco, vamos encontrar uma rica variedade de imagens bizarras, tais como: “mãos de lânguidas grutas”, “línguas em forma de ovo”, “mar-avenida-mulher”, “peixe triângulo losango”. A imagem poética, recurso frequente na poesia simbolista e surrealista, busca aproximar os planos do sonho, da imaginação e da realidade cotidiana, estimular a experiência sensorial, pela junção de elementos sonoros, visuais, táteis em imprevistas sinestesias e – não menos importante – fazer da poesia uma jornada de liberdade. A alquimia verbal de Chiu viola, deliberadamente, a ordem rotineira das coisas, criando paradoxos como “O triângulo possui lados incalculáveis”, ações impossíveis como as pedras que “lambem espirais de verde osso”, definições como “cor é quase um feixe de barbatanas sem fios” ou “o mar não é a esfera de Parmênides”, imagens monstruosas de seres híbridos, como “homem de brânquias”, embora o poeta também seja capaz de uma lente quase realista, como no poema Macau: “Os cais de Macau / são / lama podre / faiscando / coágulos: a vida / arrastada entre / osso / e poças / a madrugada que cai / os olhos / da lua / exilados / no peito”. 

O universo mitológico é uma constante em sua poesia, onde encontramos referências greco-romanas – Orfeu, Ulisses, Cronos – ao lado de divindades do candomblé, do budismo, do xamanismo. Claro: não se trata de poesia mística, no sentido doutrinário, mas de uma visão de mundo baseada no retorno à natureza, à experiência sensorial, lúdica, do sagrado – cuja expressão máxima são as danças iniciáticas dos rituais antigos, que Chiu retoma em suas performances: a poesia se corporifica, a palavra ganha expressão de voz, rosto e corpo em movimento (nesse sentido, podemos fazer uma aproximação entre a poesia-corpo de Chiu e as intervenções no palco de Marcelo Ariel, poeta também fascinado pelo hermetismo). Em sua poesia escrita, Chiu enfatiza o movimento na espacialização das linhas na página, como acontece na composição Pólipo, dedicada a Roberto Piva (uma de suas mais fortes referências literárias).

O uso de palavras e frases em caixa alta, o uso do itálico, de palavras ou sílabas isoladas na linha, entre outros recursos – que remontam ao Lance de dados de Mallarmé – atribuem timbre e ritmo às palavras, como se fossem notas de uma partitura musical – além do aspecto plástico do poema, que ganha uma ênfase, uma retórica, própria do ideograma e das primeiras formas de escrita caligráfica. A própria leitura torna-se operação lúdica, como acontece em Rezando com José Agripino de Paula, poema escrito em homenagem ao autor de Panamérica, em que as linhas podem ser lidas na horizontal ou na vertical, ampliando a construção de significados. A formação do autor, mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, sugere possível viés filosofante em seus poemas, que não raro citam Nietzsche, Heráclito, Parmênides, Deleuze – porém, não se trata de logopeia, a “dança do intelecto entre as palavras”, conforme Ezra Pound, nem de mera exibição de citações cultas: Chiu não busca encontrar ou defender uma suposta “verdade”, e sim celebrar a experiência do estar no mundo: o seu deus, como aquele de Assim falava Zaratustra, é um deus que sabe dançar.     

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A TRAIÇÃO DO P$OL


Durante toda a crise política vivida pelo país nos últimos meses, que quase resultou em um golpe de estado, o "Partido Socialismo e Liberdade" (P$OL) manteve-se em cima do muro. Não apoiou diretamente a derrubada de Dilma, posição assumida, sem pudores, pelo P$TU, não deu apoio crítico ao mandato legítimo da presidente, como fez Guilherme Boulos, não participou dos encontros de movimentos sociais contra o golpe e em defesa da democracia, nada. Em seu site, aliás há um bom tempo desatualizado, ainda defende a pseudo-esquerda do Syriza grego como um "modelo" para o Brasil. Com essa postura, o P$OL não pode mais ser levado a sério como partido de "esquerda" (?), o que nunca foi. É uma organização pequeno-burguesa que, pela profunda cegueira e sectarismo (chegou a confundir um golpe pró-nazista na Ucrânia com uma "revolução popular"!), caminha para a absoluta irrelevância. É nas crises profundas que conhecemos as pessoas e organizações. P$OL é um partido COVARDE, e nunca será absolvido por seu oportunismo e covardia.

POEMAS DE NELSON ASCHER



BASHÔ EM PARIS

p/ Rose

Manhã de gala:
flores, imóveis
damas desnudas,
desfilam cores.

Midi le juste;
suicida, o sol,
no mar de suor,
se põe a pino.

Tarde-alfarrábio:
folhas em verde,
como as impressas,
amarelecem.

Que noite albina!
A torre, embora
de ferro, quase
treme de frio.


VOZ

Ninguém jamais
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra

como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
 cordas vocais –

propõe que, além da
canção, com elas,
a mente aprenda

(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.


MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

Caído em si numa ironia
do contragosto feito pele,
mas acossado pela mera
constatação do que existia
quase de todo fora dele,
quem era, enfim, senão quimera
de si, perdido em cada veia
de sua própria carne alheia?


ONDE HÁ FUMAÇA

Dan steigt ihr als Rauch in die Luft

(Paul Celan)


Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode

tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.

Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),

serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.

Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,

não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.


(Poemas do livro O sonho da razão. São Paulo: ed. 34, 1993)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

POEMAS DE ANTONIO RISÉRIO















LEMINSKIANA

Querido Enigma:
estou bêbado.

Vou, como se diz,
pisando nas asas.

Paro numa estrela
e sorteio o mar.

Mas estranho
– e muito –
o meu e o teu

linjaguar.


ARTE POÉTICA

na serra da desordem
no piracambu tapiri
em cada igarapé do pindaré
em cada igarapé do gurupi
existe uma palavra
uma palavra nova para mim

(Do livro Fetiche. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1996.)


PARA O MAR

1

Países intraduzíveis
em seus caprichos
de treva e luz.

Pai de feitiços
em praias de coral.
Mãe de mistérios
de inúmeras cores negras.

Cama de deusas,
mina de deuses,
sob estrelas.

3

Águas marinhas
sobem acima
do nível do mar.

Sambaquis submersos
na memória
das marés.

Barco sem saída
e eu aqui
nesse convés.


FIM DE CASO 3

onde quer
que você        
me esqueça

que eu
apareça
e cresça

fantasia
espessa

doendo
densa

na sua
cabeça.


ORIKI P/ OIÁ-IANSÃ

Leopardo no ar alto
fuzilando a treva.
Ira e brisa pelos campos.
Corisco na cara da escuridão.

Senhora que incendeia
a casa da mentira
Senhora sem medo algum
Senhora que relampeia
entre os tambores do orum.


STRASSENKINDER

Crianças que miram espelhos
e giram as caras cansadas
onde narciso não é conselho
nem comboio acha a estrada.

Criança de poucos pentelhos
de rubras roupas rasgadas
entre guinchos gosmas e relhos
orgasmos de putos no ralo.

Crianças de coxas vermelhas
no beco das bocas usadas
moeda e moenda dos grelos
nas fodas das doidas danadas.

Crianças que masturbam velhos
e chupam xotas grisalhas
lambendo o sangue dos medos
nos dedos grudando de gala.

*

Sob a navalha da ira
o sol se descola sagrado
que a vida por mais que me fira
não me verá conformado.

(Do livro Brasibraseiro. São Paulo: Landy, 2004)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

LIVRO DOS ORIKIS



Dia 22 de agosto (sábado), a partir das 19h, no bar Canto Madalena (rua Medeiros Albuquerque, 471, próxima ao metrô Vila Madalena), haverá o lançamento de meu novo livro de poesia, publicado pela Patuá: o LIVRO DOS ORIKIS, anotem na agenda! Abaixo, um dos poemas do livro:


OXALÁ

Oxalufon —
aquele-que-caminha-
na-areia-
mestre dos corcundas
Obatalá —
aquele-que-come-
caracol-
forte como touro branco
Onírinjà —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar surdo.
Ọbaníjìta —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar mudo.
Olufón —
aquele-que-grita-
quando-acorda-
livra a filha
da armadilha.
Òòsàálá —
aquele-que-come-
rato-e-peixe
faz a moça estéril
embarrigar.
Olúorogbo —
aquele-que-fulmina-
fascista-
faz tucano virar
farelo.
Orixanlá —
aquele-que-se-veste-
de-branco
aquele-que-canta-
vestido-de branco
aquele-que-dança-
vestido-de-branco
aquele-que-é-dono-
da-xota-de-Iemanjá
— Òrìşáko!


Epa Bàbá!

DOIS POEMAS DE JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES



ÀS VOLTAS

1.

por dentro um deserto
se poderia pensar
que com o tempo
para fora se alastrasse

(tenaz das imagens
sons em entrechoque
insinuações e recuos
às voltas com a rarefação)

e se movimento que não há
acabasse por operar
dos ardis do horizonte
até mesmo sua linha


2.

com toda a aspereza
de uma operação
às voltas com o que
sequer aventa um corpo

nem todo o peso
do mundo ou da falta
repovoaria regiões
(ora talvez sem

impossíveis relatos)
entre devolutas e infensas
ante o meio-dia
de um raciocínio e corrosões


DOS ESTUDOS DE OBJETOS E VER

1.

tão brutal a matéria
ao excurso do olhar
que a impossibilidade
de qualquer imagem

pois o adensamento
(cores e formas se desfazem)
que sobre o suporte
obstrui por acúmulo


2.

a expansão da contextura
na superfície que
(sequer hipótese de simulacro)
concreta se amalgama

ainda se acrescenta
na espessura com que
a crueza da matéria
reocupa o espaço


3.

nem é que pela medida
um espaço se define
antes o peso da intensidade
com que severa a cor

pode impor-se como massa
e ora grave e sobretons
se elabora um corpo
que ocupa seu espaço



4.

se os planos se distinguem
pela superposição de recortes
que irregulares compartilham
fragmentos uns dos outros

tal diretriz para medida
ou controle de uma área
avança pela imaginação
se arredores se desvãos


5.

a matéria como objeto
de dimensão do olhar
quando no espaço
não só uma ordenação

nem frágil descompasso
mas todo um percurso
linhas volumes cálculo
talvez resumo de paisagem


(Poemas do livro Práticas do extravio. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003)

terça-feira, 11 de agosto de 2015

NÃO VAI TER GOLPE!


Por que os golpistas recuaram em sua estratégia de derrubar a presidenta Dilma? Por vários motivos: 1) falta de apoio das Forças Armadas, que não desejam aventurar-se numa guerra civil por tempo indeterminado e consequências imprevisíveis; 2) falta de apoio dos governadores e de outras forças políticas; 3) falta de apoio dos grandes industriais, que temem uma crise institucional generalizada, com a volta da hiperinflação e da retração econômica; 4) falta de unidade interna no maior partido golpista, o PSDB (leia-se: a disputa entre Aécio NeveR e Geraldo Alckmin, sendo este último o candidato favorito da burguesia para as eleições de 2018); 5) falta de apoio do PMDB ao golpe -- no caso de um impeachment, Dilma e também Michel Temer seriam impugnados, e o único favorecido neste caso seria Aécio; 5) a resistência dos movimentos sociais à onda golpista -- vide a calorosa recepção a Dilma no Maranhão; 6) os interesses econômicos de nossos parceiros internacionais, em especial os BRICs, sobretudo a China, que investirá 50 bilhões no Brasil. A virada editorial da FALHA e da Rede Goebbels, a apenas dez dias da marcha fascista marcada para o dia 16, tem o propósito claro de frear o movimento golpista. Claro: o recuo do golpe não significa que a mídia, o judiciário e setores tucanos infiltrados no aparelho de estado deixarão de atacar diariamente Dilma, Lula e o PT, mas, agora, a estratégia é outra: antecipar a propaganda eleitoral de 2018 para tentar desgastar ao máximo a esquerda e fortalecer a candidatura de Geraldo Alckmin em 2018.

EM TEMPO: mesmo que tenha sido afastado o risco do golpe de estado, a direita permanecerá agindo contra a soberania nacional, via mídia, judiciário, polícia federal e demotucanos. Privatização da Petrobrás, fim do regime de partilha para a exploração do pré-sal (projeto do canalha José Serra), desmantelamento de nosso programa nuclear, são alguns dos objetivos dos vende-pátria. A luta política continuará e os movimentos sociais não podem abandonar as ruas!

AUGUSTO DE CAMPOS: “SEM MÉDIA, SEM MÍDIA, SEM MEDO”


















Claudio Daniel

Augusto de Campos – o mais jovem dos poetas brasileiros, pela curiosidade em conhecer o que há de novo na poesia, na vida, no mundo – conversa com a CULT a respeito de seu mais recente livro de poemas, Outro, publicado pela editora Perspectiva, que em 2015 comemora 50 anos de existência. Como não poderia deixar de ser, um dos temas centrais da conversa é a relação entre a poesia e a tecnologia – há quase vinte anos, o autor pesquisa as possibilidades de criação poética com os novos recursos eletrônicos, que permitem realizar plenamente o sonho da Poesia Concreta de unir palavra, imagem, som e movimento. Ganhador do Prêmio Pablo Neruda, concedido pelo Conselho Nacional de Cultura e Artes do Chile, e reconhecido no cenário internacional, sendo estudado em universidades europeias e norte-americanas, Augusto de Campos ainda é pouco compreendido por uma parcela de nossa crítica literária, incapaz de assimilar a radicalidade da informação estética nova, que desafia modelos teóricos mumificados ou em adiantado estado de decomposição. Sensível aos acontecimentos políticos do país, o poeta, mais uma vez, “desafina o coro dos contentes”, repudiando o discurso de ódio e o clima de golpe instaurado no país pela grande imprensa. “Sem média, sem mídia, sem medo” é a palavra-de-ordem do poeta, na contramão dos que preferem a crise e o caos.

Você publicou, recentemente, uma nova coletânea de poemas, Outro, que reúne composições visuais elaboradas com recursos das mídias eletrônicas. Como foi o processo de criação do livro? Você planeja previamente os temas e recursos estéticos que serão utilizados? Ou o livro é resultado do trabalho de criação de cada poema?

O livro foi planejado a partir do que produzi ao longo de doze anos, desde a última reunião de poemas inéditos. Com Despoesia (1994) e Não (2003), forma uma trilogia. Todos foram inteiramente produzidos em meu computador e assinalam o meu ingresso, sem volta, no mundo da linguagem digital.

O título do livro faz referência a um termo musical recorrente nos textos que acompanham discos norte-americanos, com o sentido de “bônus”, ou “extra”. Qual é o paralelo que você faz entre esse termo, pleno de significados, e o seu trabalho poético?

Eu desconhecia a expressão “outro”, em inglês. Depois, me dei conta que era o contrário de “intro” (introdução) e achei interessante. Há uma certa autoironia no emprego que faço dela. De fato, o livro é um “bônus”, um extra, ou “pós”, provavelmente o meu último livro de poemas. Ao mesmo tempo, sempre impliquei com o palavrão “outrossim” e o “outro” inglês me lembrou o “outronão” que criei há tempos e que dá título ao prefácio. Tem também a ver com a discussão literária em torno da apropriação poética, que se vem acentuando nos Estados Unidos sob a designação de poesia “conceitual”, ou “unoriginal language”. Entre nós, há precedentes nos textos de Oswald, em Pau Brasil, onde ele apresenta, como poemas, trechos da carta de Pero Vaz Caminha e dos nossos primeiros cronistas. Venho praticando esse tipo de leitura crítico-poética, pelo menos desde os anos dos anos 70, com os “profilogramas” e as “intraduções”, agora acrescidos das “outraduções”, em que apenas reorganizo graficamente certos textos alheios.

Walter Benjamin, em texto publicado em 1926, imaginava que, no futuro, a escrita e o próprio objeto livro seriam radicalmente transformados. Estamos próximos da realização dessa profecia, pelo diálogo da poesia com as artes visuais e a tecnologia?

Sem dúvida. Não direi que é a “mão única”, porque a poesia tem muitos caminhos e não pode nem deve congelar-se num só. O único caminho que a poesia rejeita é o do meio. Mas, Benjamin, inspirado no poema Un Coup de Dés de Mallarmé, anteviu a crescente incidência da linguagem icônica sobre a verbal. No universo digital, as imagens se interpenetram cada vez mais com as palavras. O textograma se instagrama.  E em vez de se deixar atropelar pelas imagens, é mais interessante trazê-las para o mundo da poesia, que, segundo Pound, está mais próxima da pintura e da música do que da prosa. A tecnologia nos fornece as ferramentas para essa inflexão icônica no discurso. É pegar ou largar. A poesia já não poder ser a mesma.

Você cita, com frequência, uma obra de Timothy Leary, Chaos and cyberculture, publicado em 1994. Em sua opinião, quais ideias apresentadas pelo autor norte-americano são pertinentes para a discussão da poesia e da cultura hoje?

As idéias visionárias de Buckminster Fuller, McLuhan, John Cage, assim como as do último Leary, sempre foram desprezadas pelo cânone acadêmico, porque não vieram envelopadas no protocolo universitário, seus “apuds” e notúnculas. Mas eles têm um traço em comum. Vivenciaram a tecnologia antes dos outros. Aqui, Oswald foi o nosso profeta com o seu “bárbaro tecnizado”. Pós-wald, a poesia concreta. Nos últimos anos, Timothy trocou o LSD pelo PC, i. é, o computador. Propôs uma difração semântica no conceito da cibernética, palavra derivada do grego “kubernetes”, piloto, de que se  originou o verbo “gubernare” em latim.  Desligando-a da ideia de governo, associou-a à de navegante. Percebeu a questão da ingovernabilidade do ciberespaço, que ainda prevalece, apesar das macrotentativas “bigbrotherianas” de controle, e deu toques relevantes sobre a revolução digital da linguagem artística. “Haicais eletrônicos.” “Trailers melhores do que filmes.”

Seu livro de estreia, O rei menos o reino, publicado em 1951, com recursos próprios, pela fictícia “Edições Maldoror”, traz ainda uma epígrafe de Lautréamont. Este é um aspecto pouco abordado em sua poesia: como foi o teu contato com a obra desse autor francês, considerado o precursor do Surrealismo, movimento antípoda da Poesia Concreta?

Não estou certo de que o Surrealismo seja inteiramente oposto à Poesia Concreta. A Seção de Estudos Regionais do Departamento Administrativo do Partido Surrealista  Brasileiro é que declarou guerra aos “concretistas”… Não faz sentido pregar o surrealismo, quando virou substantivo comum, vivenciado cotidianamente. Os mais perduráveis são os  “dessurrealistas”, isto é, os dissidentes, de Artaud a Ghérasim Luca. O problema dos ortodoxos é que eles não enfrentaram o problema estrutural do discurso poético. O Surrealismo deu a sua contribuição. Aumentou o espectro das associações da imagem, mas se ateve às convenções retóricas lógico-discursivas, optou pelas metáforas de significados e não de significantes, e se afastou das matrizes dadaístas inflando-se de “conteúdos” psicologizantes. Foi superado pelos vocabulemas radicais de Joyce, Gertrude Stein e Cummings e pelas estruturas ideogrâmicas  de Pound. A ruptura dadá foi mais consequente e alimentou tanto a antiarte de Duchamp quanto o acaso indeterminado de John Cage, que repaginaram a história da vanguardas, na segunda metade do século passado, como polo dialético das utopias construtivistas. Li os Cantos de Maldoror aos 20 anos, e meu primeiro livro foi muito influenciado pelo “delírio lúcido” da obra de Isidore Ducasse. Este, que inscreveu nos seus Cantos uma grande ode “às matemáticas severas” e proclamou em suas Poésies que “a poesia é a geometria por excelência”, ultrapassa de muito a leitura unilateral bretoniana, que chegou a incluir Mallarmé,  mas não se apercebeu da revolução do Lance de Dados e diluiu a ruptura do lance de dadá.

Como crítico musical, além de artigos publicados sobre a música erudita contemporânea, reunidos no volume Música de invenção, você publicou textos sobre João Gilberto e Caetano Veloso, em Balanço da bossa & outras bossas, e tem parcerias com músicos como Arnaldo Antunes, Cid Campos, Arrigo Barnabé. Você tem acompanhado a música brasileira atual? O que tem chamado a sua atenção na MPB?

Preocupei-me mais com a MPB quando de suas grandes transformações, a Bossa Nova e a Tropicália. Esses movimentos, então muito contestados , hoje são vitoriosos e só algumas múmias carregadas pelos Flips da vida ousam renegá-los. Ainda trabalho com Cid nas experiências da “poemúsica”, para contrastar a banalização das letras de consumo. Com ele planejo um CD com as suas composições para os balés O Inferno de Wall Street e Profetas em Movimento. Volto a dedicar-me à música contemporânea num segundo tomo da Música de Invenção já entregue à editora. Há um enorme vácuo cultural em nosso país com respeito à música erudita moderna, a mais segregada das artes entre nós. São cem anos de silêncio, que podem ser ilustrados pela última coletânea de CDs de música clássica servida em bancas de jornais. Pulou o Pierrô Lunar, de Schoenberg, que é de 1912, e parou na Sagração da Primavera, de Stravinski, que é de 1913. No Brasil nos dão 5% do repertório moderno contra uma infinidade de redundãncias clássico-românticas ou neo-ambas. Musicalmente, vivemos no século XIX.

O Conselho Nacional de Cultura e Artes do Chile concedeu a você, neste ano, o Prêmio Pablo Neruda. O que esta premiação representa para o reconhecimento de sua poesia?

Recebi o prêmio com muita surpresa, porque não tenho relação alguma pessoal com os intelectuais chilenos. Dos vivos, Nicanor Parra, que faz  em breve 101 anos, é o poeta com quem tenho mais afinidade. Apesar de ver com muita desconfiança a atribuição de prêmios, tão vulneráveis a interesses grupais ou ao conservadorismo de confrarias acadêmicas, não pude deixar de sensibilizar-me com esse prêmio, dado pela primeira vez a um brasileiro e justificado pelo que o júri chamou de  “transversalidade” da minha poesia, o que demonstra, independente do juízo de mérito, conhecimento pleno de meus objetivos poéticos. Aqui, ao longo de mais de 60 anos, só recebi um prêmio pela minha poesia, o da Biblioteca Nacional, pela publicação do livro Não, em 2003. Outros me foram concedidos, sempre por traduções, jamais pela poesia. Recebi a premiação chilena com humildade, mas com bons fluidos, quase como um desagravo ao sobrevivente que sou nos meus 84 anos.  Vindo de fora. O que é mais doce.

O Brasil vive hoje uma assustadora onda de discursos e crimes de ódio, que trazem à tona o que há de mais atrasado na sociedade – racismo, misoginia, homofobia, anticomunismo, intolerância religiosa. Em sua opinião, o que está acontecendo no país?

Um passo para trás, instigado por não sei que interesses da grande mídia. A população é induzida por ela a manter-se num clima de permanente desconfiança e descrédito. Enfatizam-se somente os defeitos, jamais as qualidades ou sucessos do governo. Pouca atenção deu a mídia ao fato de que o Brasil conseguiu reduzir a pobreza extrema em 82% entre 2002 e 2013 e saiu do mapa mundial da fome, segundo atestado internacional da FAO.
Como você avalia a situação política brasileira, com a ameaça de impeachment da presidente Dilma? Há riscos para a democracia?
Sim, há riscos. A insensatez da oposição e a sua ânsia delirante pelo poder  foram levados ao  limite. Não estão interessados nem na democracia nem na melhoria do país. Incapazes de aceitar a derrota nas urnas, querem a cabeça da presidente. É um dos momentos mais deploráveis da política brasileira. Tudo o que a oposição logrou foi associar-se às correntes regressivas de um dos congressos mais reacionários que o Brasil já teve. Exploram a ignorância da população fazendo da presidente uma espécie de bode expiatório primal, como se ela não fosse vítima e refém de um sistema político que a oposição não faz nenhum esforço para aperfeiçoar. O ódio é grande. Uma jornalista de encomenda, percebendo que a presidente emagrecera ao fazer uma dieta, arreganhou-se: “Vamos ver até quando isso vai durar…” Torcem até contra a sua saúde… Perderam a compostura e a cabeça.

O que podem fazer os poetas e intelectuais do lado de fora do “ovo da serpente”?

Os poetas raramente são ouvidos. Preferem ouvir futebolistas, cantores populares. apresentadores da TV. Mas se conseguirmos ser ouvidos, cabe-nos denunciar as falsidades da maioria dos políticos brasileiros, a sua hipocrisia e a sua desumanidade. Protestar contra o retrocesso do congresso. Defender a democracia contra a grande “pedalada” política que é o pretenso impedimento da presidente eleita. “Sem média, sem mídia, sem medo.” Golpe nunca mais.

(Entrevista publicada na edição de agosto da revista CULT.)

domingo, 9 de agosto de 2015


QUAL TIPO?


CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS: eu já ouvi, de três amigos queridos, a mesma frase, que, confesso, deixou-me surpreso: "você gosta de um único tipo de poesia". Sempre tive vontade de responder, perguntando: QUAL TIPO? A Poesia Concreta? O Simbolismo francês? O Barroco espanhol? O Neobarroco latino-americano? O Cubofuturismo russo? Os "metafísicos" ingleses? O haicai japonês da Era Tokugawa? O Modernismo brasileiro dos anos 20-30? O Surrealismo? O Dadaísmo? O Expressionismo? Os românticos ingleses e alemães? A Poesia Experimental Portuguesa? A poesia grega e romana clássica? Os orikis africanos? Os sijôs coreanos? A poesia chinesa clássica coletada por Confúcio? Parodiando a frase acusatória, eu NÃO GOSTO de um único tipo de poesia: aquela que é mal escrita, seja incensada -- ou não -- pela Inimigo Rumor / Modos de Usar a Mídia & Co. E antes que me perguntem, respondo já: poesia mal escrita é aquela que não tem consciência de linguagem e não sabe utilizar as técnicas poéticas -- qualquer técnica -- para realizar com eficiência o seu propósito (apenas para efeito de comparação, Glauco Mattoso é eficiente na utilização do soneto, porque além de dominar as técnicas de versificação clássica, também sabe transgredi-las com inteligência. Outra coisa é alguém se aventurar a escrever sonetos sem antes aprender métrica. O mesmo princípio vale para poemas visuais, haicais, poesia do cotidiano ou qualquer outra modalidade poética.)