Durante toda a crise política
vivida pelo país nos últimos meses, que quase resultou em um golpe de estado, o
"Partido Socialismo e Liberdade" (P$OL) manteve-se em cima do muro.
Não apoiou diretamente a derrubada de Dilma, posição assumida, sem pudores,
pelo P$TU, não deu apoio crítico ao mandato legítimo da presidente, como fez
Guilherme Boulos, não participou dos encontros de movimentos sociais contra o
golpe e em defesa da democracia, nada. Em seu site, aliás há um bom tempo desatualizado, ainda defende a pseudo-esquerda do
Syriza grego como um "modelo" para o Brasil. Com essa postura, o P$OL
não pode mais ser levado a sério como partido de "esquerda" (?), o
que nunca foi. É uma organização pequeno-burguesa que, pela profunda cegueira e
sectarismo (chegou a confundir um golpe pró-nazista na Ucrânia com uma
"revolução popular"!), caminha para a absoluta irrelevância. É nas
crises profundas que conhecemos as pessoas e organizações. P$OL é um partido
COVARDE, e nunca será absolvido por seu oportunismo e covardia.
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
POEMAS DE NELSON ASCHER
BASHÔ EM PARIS
p/ Rose
Manhã de gala:
flores, imóveis
damas desnudas,
desfilam cores.
Midi le juste;
suicida, o sol,
no mar de suor,
se põe a pino.
Tarde-alfarrábio:
folhas em verde,
como as impressas,
amarelecem.
Que noite albina!
A torre, embora
de ferro, quase
treme de frio.
VOZ
Ninguém jamais
regeu tão extra-
(pois sem rivais)
vagante orquestra
como a que destra-
vando os umbrais
com chave-mestra
– cordas vocais –
propõe que, além da
canção, com elas,
a mente aprenda
(mais do que vê-las
sem qualquer venda)
a ouvir estrelas.
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
Caído em si numa ironia
do contragosto feito pele,
mas acossado pela mera
constatação do que existia
quase de todo fora dele,
quem era, enfim, senão quimera
de si, perdido em cada veia
de sua própria carne alheia?
ONDE HÁ FUMAÇA
Dan steigt ihr als Rauch in die Luft
(Paul Celan)
Fumaça alguma implica
memória, já que as coisas
se perdem na fumaça
que, assim, tampouco pode
tornar-se um monumento,
pois sendo transitória
nem mesmo homenageia
a transitoriedade.
Fumaça enquanto tinta,
embora branca (um branco
mais palidez de horror
que alvura de inocência),
serve talvez à escrita;
porém, não há destreza
que inscreva na fumaça,
como na pedra, um nome.
Quando a fumaça, quase
vegetativa, irrompe e,
traindo o genealógico,
assume aspecto arbóreo,
não cabe perguntar
acerca (onde há fumaça,
há cinzas) das raízes
mais fundas da fumaça.
(Poemas do livro O sonho
da razão. São Paulo: ed. 34, 1993)
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
POEMAS DE ANTONIO RISÉRIO
LEMINSKIANA
Querido Enigma:
estou bêbado.
Vou, como se diz,
pisando nas asas.
Paro numa estrela
e sorteio o mar.
Mas estranho
– e muito –
o meu e o teu
linjaguar.
ARTE POÉTICA
na serra da desordem
no piracambu tapiri
em cada igarapé do pindaré
em cada igarapé do gurupi
existe uma palavra
uma palavra nova para mim
(Do livro Fetiche. Salvador: Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996.)
PARA O MAR
1
Países intraduzíveis
em seus caprichos
de treva e luz.
Pai de feitiços
em praias de coral.
Mãe de mistérios
de inúmeras cores negras.
Cama de deusas,
mina de deuses,
sob estrelas.
3
Águas marinhas
sobem acima
do nível do mar.
Sambaquis submersos
na memória
das marés.
Barco sem saída
e eu aqui
nesse convés.
FIM DE CASO 3
onde quer
que você
me esqueça
que eu
apareça
e cresça
fantasia
espessa
doendo
densa
na sua
cabeça.
ORIKI P/ OIÁ-IANSÃ
Leopardo no ar alto
fuzilando a treva.
Ira e brisa pelos campos.
Corisco na cara da escuridão.
Senhora que incendeia
a casa da mentira
Senhora sem medo algum
Senhora que relampeia
entre os tambores do orum.
STRASSENKINDER
Crianças que miram espelhos
e giram as caras cansadas
onde narciso não é conselho
nem comboio acha a estrada.
Crianças que miram espelhos
e giram as caras cansadas
onde narciso não é conselho
nem comboio acha a estrada.
Criança de poucos pentelhos
de rubras roupas rasgadas
entre guinchos gosmas e relhos
orgasmos de putos no ralo.
Crianças de coxas vermelhas
no beco das bocas usadas
moeda e moenda dos grelos
nas fodas das doidas danadas.
Crianças que masturbam velhos
e chupam xotas grisalhas
lambendo o sangue dos medos
nos dedos grudando de gala.
*
Sob a navalha da ira
o sol se descola sagrado
que a vida por mais que me fira
não me verá conformado.
(Do livro Brasibraseiro. São Paulo: Landy, 2004)
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
LIVRO DOS ORIKIS

Dia 22 de agosto (sábado), a
partir das 19h, no bar Canto Madalena (rua Medeiros Albuquerque, 471, próxima
ao metrô Vila Madalena), haverá o lançamento de meu novo livro de poesia,
publicado pela Patuá: o LIVRO DOS ORIKIS, anotem na agenda! Abaixo, um dos poemas do livro:
OXALÁ
Oxalufon —
aquele-que-caminha-
na-areia-
mestre dos corcundas
Obatalá —
aquele-que-come-
caracol-
forte como touro branco
Onírinjà —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar surdo.
Ọbaníjìta —
aquele-que-nunca-
se-esquece-
faz o mentiroso
ficar mudo.
Olufón —
aquele-que-grita-
quando-acorda-
livra a filha
da armadilha.
Òòsàálá —
aquele-que-come-
rato-e-peixe
faz a moça estéril
embarrigar.
Olúorogbo —
aquele-que-fulmina-
fascista-
faz tucano virar
farelo.
Orixanlá —
aquele-que-se-veste-
de-branco
aquele-que-canta-
vestido-de branco
aquele-que-dança-
vestido-de-branco
aquele-que-é-dono-
da-xota-de-Iemanjá
— Òrìşáko!
Epa Bàbá!
DOIS POEMAS DE JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES
ÀS VOLTAS
1.
por dentro um deserto
se poderia pensar
que com o tempo
para fora se alastrasse
(tenaz das imagens
sons em entrechoque
insinuações e recuos
às voltas com a rarefação)
e se movimento que não há
acabasse por operar
dos ardis do horizonte
até mesmo sua linha
2.
com toda a aspereza
de uma operação
às voltas com o que
sequer aventa um corpo
nem todo o peso
do mundo ou da falta
repovoaria regiões
(ora talvez sem
impossíveis relatos)
entre devolutas e infensas
ante o meio-dia
de um raciocínio e corrosões
DOS ESTUDOS DE
OBJETOS E VER
1.
tão brutal a matéria
ao excurso do olhar
que a impossibilidade
de qualquer imagem
pois o adensamento
(cores e formas se desfazem)
que sobre o suporte
obstrui por acúmulo
2.
a expansão da contextura
na superfície que
(sequer hipótese de simulacro)
concreta se amalgama
ainda se acrescenta
na espessura com que
a crueza da matéria
reocupa o espaço
3.
nem é que pela medida
um espaço se define
antes o peso da intensidade
com que severa a cor
pode impor-se como massa
e ora grave e sobretons
se elabora um corpo
que ocupa seu espaço
4.
se os planos se distinguem
pela superposição de recortes
que irregulares compartilham
fragmentos uns dos outros
tal diretriz para medida
ou controle de uma área
avança pela imaginação
se arredores se desvãos
5.
a matéria como objeto
de dimensão do olhar
quando no espaço
não só uma ordenação
nem frágil descompasso
mas todo um percurso
linhas volumes cálculo
talvez resumo de paisagem
(Poemas do
livro Práticas do extravio. Rio de
Janeiro: 7 Letras, 2003)
terça-feira, 11 de agosto de 2015
NÃO VAI TER GOLPE!
Por que os golpistas recuaram em sua estratégia de derrubar a
presidenta Dilma? Por vários motivos: 1) falta de apoio das Forças Armadas, que
não desejam aventurar-se numa guerra civil por tempo indeterminado e
consequências imprevisíveis; 2) falta de apoio dos governadores e de outras
forças políticas; 3) falta de apoio dos grandes industriais, que temem uma
crise institucional generalizada, com a volta da hiperinflação e da retração
econômica; 4) falta de unidade interna no maior partido
golpista, o PSDB (leia-se: a disputa entre Aécio NeveR e Geraldo Alckmin, sendo
este último o candidato favorito da burguesia para as eleições de 2018); 5)
falta de apoio do PMDB ao golpe -- no caso de um impeachment, Dilma e também
Michel Temer seriam impugnados, e o único favorecido neste caso seria Aécio; 5)
a resistência dos movimentos sociais à onda golpista -- vide a calorosa
recepção a Dilma no Maranhão; 6) os interesses econômicos de nossos parceiros
internacionais, em especial os BRICs, sobretudo a China, que investirá 50
bilhões no Brasil. A virada editorial da FALHA e da Rede Goebbels, a apenas dez
dias da marcha fascista marcada para o dia 16, tem o propósito claro de frear o
movimento golpista. Claro: o recuo do golpe não significa que a mídia, o
judiciário e setores tucanos infiltrados no aparelho de estado deixarão de
atacar diariamente Dilma, Lula e o PT, mas, agora, a estratégia é outra:
antecipar a propaganda eleitoral de 2018 para tentar desgastar ao máximo a
esquerda e fortalecer a candidatura de Geraldo Alckmin em 2018.
EM TEMPO: mesmo que tenha sido afastado o risco do
golpe de estado, a direita permanecerá agindo contra a soberania nacional, via
mídia, judiciário, polícia federal e demotucanos. Privatização da Petrobrás,
fim do regime de partilha para a exploração do pré-sal (projeto do canalha José
Serra), desmantelamento de nosso programa nuclear, são alguns dos objetivos dos
vende-pátria. A luta política continuará e os movimentos sociais não podem
abandonar as ruas!
AUGUSTO DE CAMPOS: “SEM MÉDIA, SEM MÍDIA, SEM MEDO”
Augusto de Campos – o mais jovem
dos poetas brasileiros, pela curiosidade em conhecer o que há de novo na
poesia, na vida, no mundo – conversa com a CULT a respeito de seu mais recente
livro de poemas, Outro, publicado
pela editora Perspectiva, que em 2015 comemora 50 anos de existência. Como não
poderia deixar de ser, um dos temas centrais da conversa é a relação entre a
poesia e a tecnologia – há quase vinte anos, o autor pesquisa as possibilidades
de criação poética com os novos recursos eletrônicos, que permitem realizar plenamente
o sonho da Poesia Concreta de unir palavra, imagem, som e movimento. Ganhador
do Prêmio Pablo Neruda, concedido pelo Conselho
Nacional de Cultura e Artes do Chile, e reconhecido no cenário internacional,
sendo estudado em universidades europeias e norte-americanas, Augusto de Campos
ainda é pouco compreendido por uma parcela de nossa crítica literária, incapaz
de assimilar a radicalidade da informação estética nova, que desafia modelos
teóricos mumificados ou em adiantado estado de decomposição. Sensível aos
acontecimentos políticos do país, o poeta, mais uma vez, “desafina o coro dos
contentes”, repudiando o discurso de ódio e o clima de golpe instaurado no país
pela grande imprensa. “Sem média, sem mídia, sem medo” é a palavra-de-ordem do
poeta, na contramão dos que preferem a crise e o caos.
Você publicou, recentemente, uma nova coletânea de poemas, Outro, que reúne composições
visuais elaboradas com recursos das mídias eletrônicas. Como foi o processo de
criação do livro? Você planeja previamente os temas e recursos estéticos que
serão utilizados? Ou o livro é resultado do trabalho de criação de cada poema?
O livro foi planejado a partir do
que produzi ao longo de doze anos, desde a última reunião de poemas inéditos. Com
Despoesia (1994) e Não (2003), forma uma trilogia. Todos foram inteiramente produzidos em meu
computador e assinalam o meu ingresso, sem volta, no mundo da linguagem
digital.
O título do livro faz referência a um termo musical
recorrente nos textos que acompanham discos norte-americanos, com o sentido de
“bônus”, ou “extra”. Qual é o paralelo que você faz entre esse termo, pleno de
significados, e o seu trabalho poético?
Eu desconhecia a expressão
“outro”, em inglês.
Depois , me dei conta que era o contrário de “intro”
(introdução) e achei interessante. Há uma certa autoironia no emprego que faço
dela. De fato, o livro é um “bônus”, um extra, ou “pós”, provavelmente o meu
último livro de poemas. Ao mesmo tempo, sempre impliquei com o palavrão
“outrossim” e o “outro” inglês me lembrou o “outronão” que criei há tempos e que
dá título ao prefácio. Tem também a ver com a discussão literária em torno da
apropriação poética, que se vem acentuando nos Estados Unidos sob a designação
de poesia “conceitual”, ou “unoriginal language”. Entre nós, há precedentes nos
textos de Oswald, em Pau Brasil , onde ele apresenta,
como poemas, trechos da carta de Pero Vaz Caminha e dos nossos primeiros
cronistas. Venho praticando esse tipo de leitura crítico-poética, pelo menos desde
os anos dos anos 70, com os “profilogramas” e as “intraduções”, agora
acrescidos das “outraduções”, em que apenas reorganizo graficamente certos
textos alheios.
Walter Benjamin, em texto publicado em 1926, imaginava que,
no futuro, a escrita e o próprio objeto livro seriam radicalmente
transformados. Estamos próximos da realização dessa profecia, pelo diálogo da
poesia com as artes visuais e a tecnologia?
Sem dúvida. Não direi que é a
“mão única”, porque a poesia tem muitos caminhos e não pode nem deve
congelar-se num só. O único caminho que a poesia rejeita é o do meio. Mas,
Benjamin, inspirado no poema Un Coup de
Dés de Mallarmé, anteviu a crescente incidência da linguagem icônica sobre a
verbal. No universo digital, as imagens se interpenetram cada vez mais com as
palavras. O textograma se instagrama. E em
vez de se deixar atropelar pelas imagens, é mais interessante trazê-las para o
mundo da poesia, que, segundo Pound, está mais próxima da pintura e da música
do que da prosa. A tecnologia nos fornece as ferramentas para essa inflexão
icônica no discurso. É pegar ou largar. A poesia já não poder ser a mesma.
Você cita, com frequência, uma obra de Timothy Leary, Chaos
and cyberculture, publicado em 1994. Em sua opinião, quais ideias apresentadas
pelo autor norte-americano são pertinentes para a discussão da poesia e da
cultura hoje?
As idéias visionárias de
Buckminster Fuller, McLuhan, John Cage, assim como as do último Leary, sempre
foram desprezadas pelo cânone acadêmico, porque não vieram envelopadas no protocolo
universitário, seus “apuds” e notúnculas. Mas eles têm um traço em comum. Vivenciaram
a tecnologia antes dos outros. Aqui, Oswald foi o nosso profeta com o seu
“bárbaro tecnizado”. Pós-wald, a poesia concreta. Nos últimos anos, Timothy
trocou o LSD pelo PC, i. é, o computador. Propôs uma difração semântica no
conceito da cibernética, palavra derivada do grego “kubernetes”, piloto, de que
se originou o verbo “gubernare” em latim. Desligando-a da ideia de
governo, associou-a à de navegante. Percebeu a questão da ingovernabilidade do
ciberespaço, que ainda prevalece, apesar das macrotentativas “bigbrotherianas”
de controle, e deu toques relevantes sobre a revolução digital da linguagem artística.
“Haicais eletrônicos.” “Trailers melhores do que filmes.”
Seu livro de estreia, O
rei menos o reino, publicado em 1951, com
recursos próprios, pela fictícia “Edições Maldoror”, traz ainda uma epígrafe de
Lautréamont. Este é um aspecto pouco abordado em sua poesia: como foi o teu
contato com a obra desse autor francês, considerado o precursor do Surrealismo,
movimento antípoda da Poesia Concreta?
Não estou certo de que o
Surrealismo seja inteiramente oposto à Poesia Concreta. A Seção de Estudos Regionais
do Departamento Administrativo do Partido Surrealista Brasileiro é que declarou guerra aos
“concretistas”… Não faz sentido pregar o surrealismo, quando virou substantivo
comum, vivenciado cotidianamente. Os mais perduráveis são os “dessurrealistas”, isto é, os dissidentes, de
Artaud a Ghérasim Luca. O problema dos ortodoxos é que eles não enfrentaram o
problema estrutural do discurso poético. O Surrealismo deu a sua contribuição.
Aumentou o espectro das associações da imagem, mas se ateve às convenções
retóricas lógico-discursivas, optou pelas metáforas de significados e não de
significantes, e se afastou das matrizes dadaístas inflando-se de “conteúdos” psicologizantes.
Foi superado pelos vocabulemas radicais de Joyce, Gertrude Stein e Cummings e
pelas estruturas ideogrâmicas de Pound. A
ruptura dadá foi mais consequente e alimentou tanto a antiarte de Duchamp quanto
o acaso indeterminado de John Cage, que repaginaram a história da vanguardas, na
segunda metade do século passado, como polo dialético das utopias
construtivistas. Li os Cantos de Maldoror
aos 20 anos, e meu primeiro livro foi muito influenciado pelo “delírio lúcido”
da obra de Isidore Ducasse. Este, que inscreveu nos seus Cantos uma grande ode “às matemáticas severas” e proclamou em suas Poésies que
“a poesia é a geometria por excelência”, ultrapassa de muito a leitura unilateral
bretoniana, que chegou a incluir Mallarmé, mas não se apercebeu da revolução do Lance de Dados e diluiu a ruptura do
lance de dadá.
Como crítico musical, além de artigos publicados sobre a
música erudita contemporânea, reunidos no volume Música de invenção,
você publicou textos sobre João Gilberto e Caetano Veloso, em Balanço da bossa
& outras bossas, e tem parcerias com músicos como Arnaldo Antunes, Cid
Campos, Arrigo Barnabé. Você tem acompanhado a música brasileira atual? O que
tem chamado a sua atenção na MPB?
Preocupei-me mais com a MPB
quando de suas grandes transformações, a Bossa Nova e a Tropicália. Esses
movimentos, então muito contestados , hoje são vitoriosos e só algumas múmias carregadas
pelos Flips da vida ousam renegá-los. Ainda trabalho com Cid nas experiências
da “poemúsica”, para contrastar a banalização das letras de consumo. Com ele
planejo um CD com as suas composições para os balés O Inferno de Wall Street e
Profetas em Movimento. Volto a dedicar-me à música contemporânea num segundo tomo
da Música de Invenção já entregue à editora. Há um enorme vácuo
cultural em nosso país com respeito à música erudita moderna, a mais segregada
das artes entre nós. São cem anos de silêncio, que podem ser ilustrados pela
última coletânea de CDs de música clássica servida em bancas de jornais. Pulou
o Pierrô Lunar, de Schoenberg, que é
de 1912, e parou na Sagração da Primavera,
de Stravinski, que é de 1913. No Brasil nos dão 5% do repertório moderno contra
uma infinidade de redundãncias clássico-românticas ou neo-ambas. Musicalmente,
vivemos no século XIX.
O Conselho Nacional de
Cultura e Artes do Chile concedeu a você, neste ano, o Prêmio Pablo
Neruda. O que esta premiação representa para o reconhecimento de sua poesia?
Recebi o prêmio com muita
surpresa, porque não tenho relação alguma pessoal com os intelectuais chilenos.
Dos vivos, Nicanor Parra, que faz em
breve 101 anos, é o poeta com quem tenho mais afinidade. Apesar de ver com
muita desconfiança a atribuição de prêmios, tão vulneráveis a interesses grupais
ou ao conservadorismo de confrarias acadêmicas, não pude deixar de
sensibilizar-me com esse prêmio, dado pela primeira vez a um brasileiro e justificado
pelo que o júri chamou de
“transversalidade” da minha poesia, o que demonstra, independente do
juízo de mérito, conhecimento pleno de meus objetivos poéticos. Aqui, ao longo
de mais de 60 anos, só recebi um prêmio pela minha poesia, o da Biblioteca Nacional,
pela publicação do livro Não, em
2003. Outros me foram concedidos, sempre por traduções, jamais pela poesia.
Recebi a premiação chilena com humildade, mas com bons fluidos, quase como um desagravo
ao sobrevivente que sou nos meus 84 anos.
Vindo de fora. O que é mais doce.
O Brasil vive hoje uma assustadora onda de discursos e
crimes de ódio, que trazem à tona o que há de mais atrasado na sociedade –
racismo, misoginia, homofobia, anticomunismo, intolerância religiosa. Em sua
opinião, o que está acontecendo no país?
Um
passo para trás, instigado por não sei que interesses da grande mídia. A
população é induzida por ela a manter-se num clima de permanente desconfiança e
descrédito. Enfatizam-se somente os defeitos, jamais as qualidades ou sucessos do
governo. Pouca atenção deu a mídia ao fato de que o Brasil conseguiu
reduzir a pobreza extrema em 82% entre 2002 e 2013 e saiu do mapa mundial da
fome, segundo atestado internacional da FAO.
Como você avalia a situação política
brasileira, com a ameaça de impeachment da presidente Dilma? Há riscos para a
democracia?
Sim, há riscos. A insensatez da
oposição e a sua ânsia delirante pelo poder
foram levados ao limite. Não
estão interessados nem na democracia nem na melhoria do país. Incapazes de
aceitar a derrota nas urnas, querem a cabeça da presidente. É um dos momentos
mais deploráveis da política brasileira. Tudo o que a oposição logrou foi associar-se
às correntes regressivas de um dos congressos mais reacionários que o Brasil já
teve. Exploram a ignorância da população fazendo da presidente uma espécie de
bode expiatório primal, como se ela não fosse vítima e refém de um sistema
político que a oposição não faz nenhum esforço para aperfeiçoar. O ódio é
grande. Uma jornalista de encomenda, percebendo que a presidente emagrecera ao
fazer uma dieta, arreganhou-se: “Vamos ver até quando isso vai durar…” Torcem
até contra a sua saúde… Perderam a compostura e a cabeça.
O que podem fazer os poetas e intelectuais do lado de fora
do “ovo da serpente”?
Os poetas raramente são ouvidos. Preferem
ouvir futebolistas, cantores populares. apresentadores da TV. Mas se conseguirmos
ser ouvidos, cabe-nos denunciar as falsidades da maioria dos políticos
brasileiros, a sua hipocrisia e a sua desumanidade. Protestar contra o retrocesso
do congresso. Defender a democracia contra a grande “pedalada” política que é o
pretenso impedimento da presidente eleita. “Sem média, sem mídia, sem medo.”
Golpe nunca mais.
(Entrevista publicada na edição de agosto da revista CULT.)
domingo, 9 de agosto de 2015
QUAL TIPO?
CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS: eu já ouvi,
de três amigos queridos, a mesma frase, que, confesso, deixou-me surpreso:
"você gosta de um único tipo de poesia". Sempre tive vontade de
responder, perguntando: QUAL TIPO? A Poesia Concreta? O Simbolismo francês? O Barroco
espanhol? O Neobarroco latino-americano? O Cubofuturismo russo? Os
"metafísicos" ingleses? O haicai japonês da Era Tokugawa? O
Modernismo brasileiro dos anos 20-30? O Surrealismo? O Dadaísmo? O
Expressionismo? Os românticos ingleses e alemães? A Poesia Experimental
Portuguesa? A poesia grega e romana clássica? Os orikis africanos? Os sijôs
coreanos? A poesia chinesa clássica coletada por Confúcio? Parodiando a frase
acusatória, eu NÃO GOSTO de um único tipo de poesia: aquela que é mal escrita,
seja incensada -- ou não -- pela Inimigo Rumor / Modos de Usar a Mídia &
Co. E antes que me perguntem, respondo já: poesia mal escrita é aquela que não
tem consciência de linguagem e não sabe utilizar as técnicas poéticas --
qualquer técnica -- para realizar com eficiência o seu propósito (apenas para
efeito de comparação, Glauco Mattoso é eficiente na utilização do soneto,
porque além de dominar as técnicas de versificação clássica, também sabe
transgredi-las com inteligência. Outra coisa é alguém se aventurar a escrever
sonetos sem antes aprender métrica. O mesmo princípio vale para poemas visuais,
haicais, poesia do cotidiano ou qualquer outra modalidade poética.)
SETE POEMAS DE DUDA MACHADO
AO ACORDAR
Ríamos em sonho.
E ríamos, celebrando
aquele encontro longe
da realidade.
JORNADA
Sarcasmos do sol,
a pausa e, depois,
o céu inflige
o seu recorde
de cicatrizes.
NUVENS
Guarda cada vez mais
como nuvens propõem,
adensam, refinam,
repropõem, enquanto
se dissolvem.
NOTURNO COM ÁRVORE
uma noite sem cor,
sem cara, se arrasta
sob raízes, na terra;
até que a outra,
a copa, desça
afinal para encontrá-la.
CENTRO
a câmera se elevando mostra
riacho, copas, rochas,
morro, nuvens, horizonte,
circulando ao redor
de cavalos selvagens
em disparada pelo campo.
SIMETRIA
As ideias assombrando o que existe.
A recíproca vale. E se está quite.
SÓ IMAGEM
Um lugar
sem ninguém
sem ninguém
para vê-lo.
E um único modo
de alcançá-lo.
(Poemas publicados no livro Adivinhação da leveza. Rio de Janeiro:
Azougue Editorial, 2011.)
A PROFANAÇÃO DO SILÊNCIO
Lígia Dabul, poeta e antropóloga
nascida no Rio de Janeiro, realiza um delicado e preciso artesanato poético, em
estruturas concisas que exploram a musicalidade das palavras e estabelecem
relações inesperadas entre imagens, ideias e sensações. O seu método de compor
recorda os procedimentos dos poetas objetivistas norte-americanos, como William
Carlos Williams, que extraíam a estranheza de breves descrições de paisagens ou
objetos do cotidiano, reconfigurados em situações insólitas. O lirismo
concentrado, substantivo, da poeta carioca permite também uma aproximação com
autores brasileiros de voz minimalista, inenfática, como Orides Fontela, que
assina a epígrafe do livro de estreia da autora, intitulado Som (2005): “Saber de cor o silêncio / e
profaná-lo, dissolvê-lo / em palavras”.
Todas estas referências, é claro,
apenas situam Lígia Dabul dentro de uma tradição e repertório da poesia
contemporânea, com os quais ela dialoga para construir uma voz própria, com
dicção e referências particulares, em que estão presentes a ironia, o humor e o
paradoxo, como nas composições em que ela transforma provérbios ou ditados
populares —“O cão não é / o melhor amigo da mulher”, “Uma mão lava / a louça”
—, e também nas peças de reflexão metalinguística: “Esse texto começa justo
onde acaba. / Eu queria ter escrito uma coisa não dita. / Mas perdi-me
novamente num detalhe. Falei / do texto como se fosse”.
A poesia sobre a poesia comparece
em vários textos do volume, mas não elide a temática referencial nem a violenta
carga emocional, como nesta composição de apenas duas linhas, intitulada Aborto: “dura impossibilidade / ao invés
de me suicidar nos outros”. O eu lírico está presente, mas prescinde do
discurso em cascata e apresenta o tema de modo mais sugerido que fotográfico,
não raro ocultando o próprio interlocutor, como nesta outra peça: “tem um quê
de nada / a ver se há / se houver / haverá / e” (Amor). A estratégia do livro, que nasce da oposição entre som e
silêncio, se amplia em outros jogos antitéticos entre paisagem e abstração,
carne e pensamento, história e fuga da história.
O elemento lúdico é recorrente
nessa poesia, que solicita a participação inteligente do leitor para a
construção de significados, à maneira da obra aberta. A “abertura” do trabalho
artístico é facilitado pelo grau de imprecisão, que convida o espectador a
decifrar sinais e preencher lacunas pelo exercício da imaginação, de modo que
cada leitura é uma interpretação ou reinvenção do texto original. No livro Som, de Lígia Dabul, a imprecisão se
torna mais eloquente no poema Pouco mais, de sete linhas, em espaço duplo,
dispostas em figuração geométrica: “Pouco / bem pouco ou nada / nem dor que em
sílaba resume a palavra / que estendo ao máximo para não parecer poema / talvez
à máxima extensão do poema / e se possível / mais”, que faz um entrecruzamento
do lírico com o poético, do subjetivo com o objetivo, recordando o estilo
enigmático e irônico dos poemas curtos do autor catalão Joan Brossa.
Em seu segundo livro publicado, Nave (2010), a autora amplia sua voz em
textos próximos à prosa, na extensão, cadência musical e sintaxe, mantendo a
singularidade do discurso que não se entrega facilmente à compreensão do
leitor, mas altera as regras do jogo, para propor novos enigmas verbais. Assim,
por exemplo, no poema intitulado Musth:
“Tudo esquematizado. / Abandonar a música. Ficar só com os músculos. /
Abastecer com urros a manada / de meninos tomados pelo rumo”, que funciona como
uma arte poética, retratando os
conflitos sutis entre imaginação e matemática, pele e escritura, memória e
mundo, que ocorrem no processo criativo. As referências urbanas do Rio de
Janeiro são mais presentes aqui do que no livro anterior – orla marítima,
pescadores, ultraleves, Leblon, Ipanema, Nova Iguaçu –, mas é uma cidade
inventada, escrita, não descrita, que
se faz poesia: “Pelo mar / deslocam-se as surpresas”.
A luxúria metafórica reveza,
nesta coletânea, com a arquitetura minimalista, em peças de excelente fatura
como Profissão: “O que posso / do
máximo: // asa de borboleta e / alfinete / no feltro verde de uma música. //
Isso tudo depois da manhã, mais para o final da tarde”, que recorda o haicai
japonês pela concisão, despojamento e visualidade. A emoção lírica, na poesia
de Lígia Dabul, comparece nas mais inusitadas metáforas, que aliam agudeza,
engenho e fina sensibilidade, em linhas como estas: “nervosa feito uma
ambulância”, “ninguém morre de câncer nos cabelos”, “viver, esse lapso de
elefante”. Poesia densa, elaborada, com rigor geométrico e os nervos à flor da
pele.
(Artigo publicado na edição de agosto /2015 da revista CULT.)
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
OS ENIGMAS SENSÍVEIS DE JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES
Júlio
Castañon Guimarães, poeta mineiro radicado no Rio de Janeiro, desenvolve uma
pesquisa poética direcionada ao aspecto plástico das coisas: seu delineamento,
espessura, sensação tátil, formato, volume, cores, jogos de luz e de sombra,
disposição espacial e sobretudo a distância física e sensível entre observador
e coisa observada. É uma poesia pensada com o rigor da geometria, manifestada
em sua estrutura fragmentária, concisa e elíptica, que pressupõe movimentos
estratégicos para a leitura, releitura e decodificação, como os lances em um
tabuleiro de xadrez. Ao mesmo tempo, está borrada de subjetividade, fazendo-nos
pensar em um cubismo lírico.
O poeta
descende de João Cabral de Melo Neto, Mallarmé, Valéry, da Poesia Concreta, mas
também da música epidérmica de um Carlos Drummond de Andrade, talvez a sua
maior referência literária – o melhor Drummond, aquele de Áporo e da Máquina do mundo,
que sabia explorar a dimensão visual e sonora das palavras para compor o
pensamento. Assim como a de seus ilustres predecessores, a poesia de Júlio
Castañon Guimarães é enigmática e convida o leitor disponível decifrar seus enigmas sensíveis, correndo todos
os riscos de fascinação e perplexidade.
Em seu
primeiro livro publicado, Vertentes
(1975), a influência do Modernismo de Manuel Bandeira, Murilo Mendes e CDA é
evidente, desde as epígrafes até o humor (“também a memória tem seus dias
contados”) e o percurso sentimental-visualista pelas cidades históricas de
Minas Gerais, com as inevitáveis citações do Aleijadinho e de Alphonsus de
Guimaraens (“onde de bispados em arcebispados”). Na obra seguinte, 17 peças (1983) joga os dados em outra
direção, empregando recursos de desarticulação sintática e espacialização de
palavras e linhas da Poesia Concreta. Os dois livros podem ser considerados,
hoje, cadernos de estudos, em que o poeta ensaia suas primeiras performances, a partir da assimilação
das formas do modernismo e da vanguarda concretista.
Inscrições
(1992) já é um trabalho diferente, em que Júlio Castañon
Guimarães fala com voz própria, apresentando temas e estilemas que serão
desenvolvidos ao longo de seu trabalho textual. A ênfase metalinguística do
título é reforçada pelas epígrafes de Gertrude Stein (“Poetry is doing nothing
but using losing refusing and pleasing and betraying and caressing nous”) e
Michel Butor (“toute architecture, toute organization d’um site, est déjà une
écriture”), e ainda por composições como Órgão
da matriz de Santo Antônio, onde lemos estas linhas: “inscrito no corpo /
um destino: (...) / inscrito na nave / um acorde: (...) / inscrito no silêncio
/ um eco: / vozes sem retórica / memória em silêncio”.
A
palavra inscrição, aqui, tem o seu
sentido ampliado para além da grafia verbal: ela ganha conotações metafóricas,
associadas ao corpo, à arquitetura (a nave da igreja), ao processo da
comunicação, que inclui a memória, o silêncio e o esquecimento. Nas peças
iniciais do livro, as inscrições do tempo, espaço e linguagem estão presentes
em diversos logradouros de Minas Gerais, como a Igreja de São Francisco de
Paula, o Chafariz de São José, a Casa do Padre Toledo, Rosário dos Pretos, o
Largo das Forras, a Rua da Câmara e a Serra de São José, invocados pelo poeta
em sua dimensão histórica, mas sem contar estórias: há um trânsito de ideias,
imagens, sonoridades e sensações que o poeta descreve nestas linhas: “nos
Quatro Cantos / uma cicatriz / escavado este silêncio / uma voz se deixa ler /
no côncavo de outra voz / estes espaços e seus riscos / seus ânimos e seus
pecados / reencenam a música / que lavra que acende / corações tomados pelo
século”.
A ideia
da inscrição como cicatriz é similar à metáfora neobarroca de Nestor Perlongher
e Osvaldo Lamborghini, mas, aqui, ela aparece sem a conotação erótica
sadomasoquista: a cicatriz é a inscrição na pele remetendo a uma dimensão
telúrica, histórica, biográfica, que não se revela em sua totalidade, mas por
sinais.
Esta
ideia de construir um antidiscurso por meio de pistas, vestígios, ruídos,
fiapos, inscrições (“interrogar / pedras? / investigar / frinchas?”, lemos em Pernoite), está presente em diversos
poemas do livro, como Composição (“um
rosto um gesto / um traço um som”), mas sobretudo num ciclo de poemas de linhas
extremamente curtas, todos eles com o mesmo título – Talhe – apresentados não em sequência, mas distribuídos ao longo do
volume. Na quarta composição deste conjunto, lemos: “a meia voz / gestos curtos
/ fôlego a tempo / no rosto um / dois vincos (...) / extirpa o vôo / cego da
expressão / afila farpas / na pele do dia / lateja por trás dos olhos”, poema
construído por uma série de pequenos gestos e sinais que compõem uma paisagem
psicológica, com o título indicando, novamente, a inscrição-cicatriz (talhe).
Em
outra peça do ciclo, novo corte (referencial, também sintático): “dentro a
gastura / a farpa o alerta / fora as arestas / o que a contrapelo / se mesmo o
avesso se dá / ainda é a vez do mesmo / a trama sempre se põe / sem sombras
sempre / antes textura onde / o texto sua trave / a voz rascante / ralenta ou
se nega / até o nada ou o não / e entre dentro e fora / um agreste”. Neste
poema, além dos signos indiciais que compõem o discurso – farpa, arestas, avesso, sombra, textura, até atingir o nada ou o não, um agreste – encontramos
uma organização sintática não-gramatical, e uma musicalidade deliberadamente
agressiva, dissonante, beirando o atonalismo (“se mesmo o avesso se dá / ainda
é a vez do mesmo”, “a voz rascante / ralenta ou se nega”), que serão elementos
decisivos em sua escrita poética.
Matéria e paisagem, publicado em 1998, mantém a visualidade dos livros
anteriores (“aos vidros aos aços às linhas”), por vezes incorporando recursos
da linguagem cinematográfica, como acontece no poema Horizonte (“um jardim / uma faixa de areia / e adiante / um lance
de mar / e ainda além / um trecho de terra / que antecipa / uma linha de
montanhas”), em que o crescendo de
imagens recorda as aproximações e distanciamentos da câmera. Se em Vetentes e Inscrições o poeta retratou as cidades históricas de Minas Gerais,
em Matéria e paisagem o cenário é o
Rio de Janeiro, presente em diversos poemas, entre eles Falso exercício de organização:
“diante desta janela / adiante / pelo trecho da baía / passam navios / pequenos
barcos / seu balanço e o mar / passam / aviões suas sombras / contra as pedras
/ das ilhas”, uma quase-narrativa em que a paisagem externa faz um cruzamento
com a paisagem interna: “desânimos feridas / por entre o que passa / por entre
o que muda / até o outro lado / talvez da baía”.
O jazz
está presente em dois poemas, Fragmento
de conversa para Bill Evans e Mero
léxico para o piano de Thelonius Monk, este último construído em treze
estrofes de duas linhas, em letras minúsculas, sem sinais de pontuação, com as
palavras agrupadas sem qualquer relação gramatical: “farpas farpas / farpas
metálicas / ângulos arestas / quinas esquinas / lâminas e cortes / aparas e
fios”, onde reencontramos a música dissonante de Júlio Castañon Guimarães e o
seu fascínio pelos indícios, mais que pelos objetos. A reflexão
metalinguística, tema sempre presente na poesia do autor mineiro, aparece em
quase todas as composições, e de modo mais enfático no poema Retrato, um estudo: “ponha-se / como
primeiro exercício / breve conjunto de estratégias: / a ordenação sem sobras /
de tais e tais peças / mas ainda severa instrução / da cor / e sem leniência /
sustentar a subtração / mesmo de sua luz”.
Se em Matéria e paisagem ainda vemos os
contornos dos objetos, identificamos barcos e janelas, ruas e montanhas, no
livro seguinte, Práticas de extravio
(2003), adentramos o terreno da abstração, mesmo que seja um abstracionismo
rigorosamente geométrico, como o de Maliévitch: “tão brutal a matéria / ao
excurso do olhar / que a impossibilidade / de qualquer imagem / pois o
adensamento / (cores e formas se desfazem) / que sobre o suporte / obstrui por
acúmulo”.
O poeta
direciona a sua atenção para “a matéria como projeto / de dimensão do olhar /
quando no espaço / não só uma ordenação / nem frágil descompasso / mas todo um
percurso / linhas volumes cálculo / talvez resumo de paisagem”. Palavras como adensamento, ordenação, cálculo remetem
ao pensamento poético de Edgar Allan Poe e Paul Valéry – o primeiro, com sua
definição de poesia como “construção precisa do impreciso” e a defesa do
cálculo prévio dos efeitos estéticos, tal como expôs no ensaio Filosofia da composição; o segundo
(discípulo do primeiro), pelo grau de abstração que atingiu em poemas como Esboço de uma serpente, A jovem parca e Herodíades. Ao contrário do autor
francês, porém, o poeta mineiro prefere a metonímia à metáfora, o substantivo
ao adjetivo, o atrito abrupto aos charmes e encantamentos da alquimia poética.
Castañon
escreve o poema áspero, duro, “tenaz das imagens / sons em entrechoque /
insinuações e recuos / às voltas com a rarefação”, em que o leitor quase perde
o fôlego “entre devolutas e infensas / ate o meio-dia / de um raciocínio e
corrosões”. O ponto máximo dessa poética áspera foi atingido em Ensaios, figuras (2005), coleção de
apenas quinze peças incluídas no volume Poemas
(1975-2005), reunião da obra completa de Castañon até aquela data[1].
Palavras associadas a outras por atrito, por ruído, em formas assimétricas,
desalinhadas, rascantes: “no limiar exato do inacabado”, onde “o silêncio
desenvolve / sua construção metódica” – um método ou antimétodo até a
desorientação, o desvio, o extravio: “precária operação que / se desencadeia um
tempo / também o indefine / nem mera improvisação / como rota de acidentes /
que desmantelam o intento / antes a própria sintaxe / se encaixes tão falhos /
não propriamente desordens / mas essa narrativa / de espaços e projetos / mas
umas tantas perdas / seu descaminho / entre as sombras”.
O
lirismo negativo de Castañon – negativo enquanto sombra, duplo, projeção – introduz
na poesia brasileira uma singular logopeia, em que as formas de articulação do
discurso são pensadas enquanto organismos que se expandem para além de seus próprios
contornos, em direção a outras estruturas irregulares, expansivas, dissonantes,
que nos fascinam por sua monstruosa beleza.
[1] Posteriormente, Júlio
Castañon Guimarães publicou o livro Do
que ainda (2009, com pinturas de Manfredo de Souzanetto e fotografias de
Jaime Acioli).
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
SEM ANA
Recebi, com imensa tristeza, a
notícia do falecimento de Ana Hatherly. Poeta, romancista, ensaísta,
desenhista, pintora, cineasta, musicista, foi uma das mais completas artistas
portuguesas contemporâneas. Durante a Revolução dos Cravos, não ficou em cima do
muro: criou cartazes de agitação política e colocou-se ao lado dos estudantes,
soldados e trabalhadores que derrubaram a ditadura salazarista. Escrevi sobre
ela em meu livro "A estética do labirinto -- barroco e modernidade em
Ana Hatherly" (dissertação de mestrado), e também em
minha tese de doutorado, "A recepção da poesia japonesa em Portugal".
Entre outros feitos notáveis, Ana Hatherly organizou a antologia "A
experiência do prodígio", com poemas visuais do barroco português, reeditou
livros de autores barrocos há muito tempo fora de circulação, divulgou o haicai
e o koan, organizou exposições e performances da Poesia Experimental
Portuguesa, dirigiu um programa de televisão. Um espírito raro, destes que
fazem falta, muita falta, no panorama cultural contemporâneo.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
SÓSIA DA CÓPIA: O CASO RÉGIS BONVICINO
Régis
Bonvicino publicou os seus três primeiros livros de poesia – Bicho papel, Régis hotel e Sósia da cópia
(reunidos, posteriormente, no volume Primeiro
tempo) – entre a segunda metade da década de 1970 e início da década de
1980. O autor está situado, portanto, na mesma geração literária de Paulo
Leminski[1]
(com o qual manteve correspondência, publicada no livro Envie meu dicionário, em 1999), Duda
Machado, Antonio Risério e Alice Ruiz. O seu projeto literário inicial, assim
como o de seus companheiros geracionais, deriva da Poesia Concreta, do
Tropicalismo, da Contracultura, mas esse diálogo logo será interrompido, nas
décadas seguintes, quando o autor descobre a poesia de vanguarda
norte-americana, em especial Robert
Creeley, expoente da Black
Montain College, Charles
Bernstein, Michael Palmer e Douglas Messerli, ligados à Language Poetry, poetas traduzidos e divulgados por Bonvicino no
Brasil.
A
influência norte-americana na poesia do autor brasileiro será imensa, em seu
segundo tempo, sobretudo nos livros Ossos
de borboleta (1996), Céu-eclipse (1999)
e Remorso do cosmo (2003). A partir
dessa produção, inicia um terceiro tempo em sua jornada criativa com os livros Página órfã (2007) e Estado crítico (2013), que retornam a um
discurso de sintaxe linear, linguagem coloquial e temática cotidiana, que o
autor já praticara no livro Más companhias (1987), mas agora com
inflexão política. São, portanto, três momentos bem distintos de sua atividade
literária, que inclui também a edição de revistas – Poesia em greve, Muda, Qorpo estranho, Sibila –, a tradução de
poetas como Jules Laforgue e Oliverio Girondo, a atividade como crítico nos
jornais Folha de S. Paulo e no Jornal da
Tarde e a organização de antologias de poesia brasileira contemporânea,
como Nothing the sun could not explain
(1997) e Lies abouth the truth (2000), publicadas nos Estados Unidos. Neste
artigo, vamos abordar alguns aspectos da poesia de Régis Bonvicino, que também
atua como juiz de direito em
São Paulo.
Bicho papel (1975), seu livro de estréia, cujo título faz trocadilho com bicho papão e, ao mesmo tempo, cria um
curioso animal semiótico (assim como o Occam, do Catatau de Leminski), é o livro mais “concretista” de Bonvicino,
utilizando o neologismo e a palavra-montagem,
a la Lewis Carroll e James Joyce, em poemas como Metaforagir-se
(“metaforagir-se em vocúbulos / metonimizar-se em hiatos / anacolutorcer-se em
paragarfos”), sinais de pontuação inseridos como ruídos gráficos (“?avolho /
?av?lho / ?av?l?o”) e até mesmo o espaço em branco da página, no poema visual
“a 10cm / uma palavra”.
Em Régis hotel, seu segundo livro,
publicado em 1978, a
emulação da Poesia Concreta permanece, em poemas como oO, que exploram a visualidade por meio da utilização não-gramatical
de maiúsculas no texto poético (“oO sSiILÊnNcCioO / gGrRiItTaA pPaArRaA / oO
oOlLvViIDoO”), ou ainda Vamos destruir a
máquina?, ready-made construído pela reprodução de tiras de uma história em
quadrinhos do Professor Pardal, na qual o poeta inseriu outro texto nos balões
de diálogo (experiência similar à realizada por Antonio Risério com quadrinhos
de Flash Gordon, no livro Fetiche).
Nesta obra, além de reproduzir ecos da Poesia Concreta de Augusto e Haroldo de
Campos e Décio Pignatari, o autor também dialoga, de maneira explícita, com o
humor dos haicais de Paulo Leminski, como acontece no poema sem título que diz:
“não sejam tolos! / a verdadeira / linguagem cifrada / é a dos homens escada /
que sobem na vida / sem dizer nada”. Sósia da cópia, publicado em 1983,
mantém a vertente leminsquiana (“não há saídas / só ruas viadutos avenidas”) e
a visualidade concreta (“o céu / não cai / do céu”, “Utopia / you are the
top”), bem como o vocabulário haroldiano, em poemas como Fio de esperança, dedicado ao autor de Signancia: quase céu e Galáxias.
A
composição mais interessante do volume é Vida,
paixão e praga de RB, dividida em oito seções breves, em que Bonvicino
parodia diversos estilos, entre eles o das litanias
da lua do poeta uruguaio de língua francesa Jules Laforgue, em versos
curtos e ferinos, nos quais faz violento autorretrato satírico: “fio e pavio /
do óbvio / epígono sim / ‘inocente’ inútil / dilutor / com todas as letras /
caixinha de eco / menino de recados / robô abobado”. Claro: por trás do aparente
masoquismo poético estava a constatação, naquele momento histórico, do aparente
beco sem saída do concretismo: o que fazer após Tudo está dito, de Augusto de Campos? Más companhias, publicado em 1987, e 33 poemas, que veio à lume em 1990, mantêm a angústia edípica: o
primeiro livro não vai além da dicção coloquial leminsquiana (“palavras não
matam / nem provocam inverno atômico”, “tentar / não contém / nem contenta”, “o
sol de cima / é o dinheiro do sul”) e o segundo mantém a construção concisa, elíptica,
neológica e fragmentária assimilada da vanguarda concretista e seu paideuma (a presença de cummings é
nítida, sobretudo, em Num zoológico de
letras, em linhas como “borbollllleta / raTTo / aa aa aa aa aa belhas”, e
ainda nos poemas Borr, Não voz, Poema em
homenagem a Laforgue).
Já nos
poemas Nada inconexo, Pontas de palavras
e Pregão da primavera, o autor cria labirintos poéticos em que as palavras
são dispostas em três colunas verticais, permitindo diferentes combinações e
caminhos de leitura – recurso adotado, com maior radicalidade inventiva, por
Augusto de Campos, em composições visuais como Inseto e Memos,
publicadas no livro Viva Vaia (Poesia
1949-1979). Enquanto Bonvicino, em seus labirintos poéticos, mantém a sintaxe
discursiva quase intocada, não investe na diversidade tipográfica e dispõe as
palavras e linhas numa diagramação amadora, que conduzem a poucas variações de
leitura, Campos
abole a sintaxe em sequências de verbos e substantivos sem relação gramatical
entre si, que podem ser lidas no sentido horizontal, vertical ou em diagonal,
utiliza diferentes famílias de letras, para ampliar os graus de ruído e
dissonância. A capacidade de geração de múltiplas formas de leitura, pela
recombinação aleatória de fonemas, atinge seu grau máximo no poema-livro-objeto
Colidouescapo, de Augusto de Campos,
formado por diversas folhas soltas que, tiradas de ordem pelo leitor e
colocadas em outras sequências, permite a criação de palavras neológicas como desestinto, resiscanto, desenisto,
menoscontro, resprezo.
A
inabilidade de Bonvicino para trabalhar com a visualidade levou-o a abandonar a
Poesia Concreta a partir de Outros poemas,
publicado em 1993, que reúne poemas escritos entre 1990 e 1992. Dividido em
três partes, este livro, intermediário entre o primeiro e o segundo tempo, é
talvez o mais consistente da obra do autor paulistano, pela densidade
semântica, inteligência estrutural, humor negro, impressões sensoriais,
metáforas agudas, ambientação urbana e outros elementos que definiram o seu
estilo. É uma poesia pós-concreta,
não no sentido de superação formal da Poesia Concreta, mas de sinalização de
uma nova senda criativa, posterior e distinta da vanguarda concretista.
Percebemos, nesta poesia da maturidade de Bonvicino, outras leituras e
influências, em particular a do argentino Olivério Girondo, autor de En la masmédula, traduzido para o português por seu colega brasileiro com
o título de A pupila do zero[2].
No poema Morreu-me, por exemplo
(“Morreu-me o visto como palavra”), há um jogo com Hasta morirla, de Girondo (literalmente, “até morrer-la”, invenção
neológica a partir da construção normativa “até matá-la”).
Em
outra peça, Olhar de dentro, um dos
textos mais inventivos do volume, Bonvicino exerce a escrita enigmática,
lacônica, em linhas como estas: “Olhar de dentro, / tocar-se de dentro – / só,
em si mesmo, / onde em silêncio / adentro”, unificada pelas rimas internas e
pela repetição anafórica da palavra dentro.
As ações e imagens impossíveis contidas no poema (“tocar-se de dentro”,
“cabelos de dentro”, “unhas de dentro”) antecipam uma das figuras recorrentes
na evolução criativa do leitor, sobretudo nos livros Ossos de borboleta e Céu eclipse.
O
absurdo intencional, distante de qualquer veleidade surrealista, será também um
dos pontos de contato entre Bonvicino e Michael Palmer, ambos estimulados pelos
“botões tenros” de Gertrude Stein. A escrita enigmática está presente em outras
peças notáveis do volume, como Este nunca
se dar (“Nunca se dar em negros / só, entre lobo e cão, / branco como
parede / nem ao menos um ocre”) e Repetir-se
(“repetir-se / em putrefatas que nada / nem um ser oco e aparente (...) /
bocejo diante do ereto / um narciso escombro cego”), peças de forte
dissonância, ressaltada pela associação incomum dos termos. Em outra peça, de
concepção mais simples, intitulada O
tempo, Bonvicino escreve: “O tempo foi de encontro / ao galho da
quaresmeira / podre, no chão, / depois da chuva”, construção precisa e
objetiva, somada, nas estrofes seguintes, a diversas outras experiências
sensoriais, formando uma curiosa paisagem de “azuis em tons, / na fachada do
edifício”, “grafites coloridos nos muros” e “o vermelho / do automóvel na
esquina”.
O
retrato de cenas urbanas ou da natureza, com a lente focalizando pequenos
detalhes inesperados, está presente em numerosas composições do livro, como Paisagem (“Cupins em pontas, / farpadas
de arame / e céu”), Dezenas de
louva-a-deus (“Dezenas de louva-a-deus / saem do barro de cupim”), Árvore exala (“em frente um / louco de
cócoras / cata / no cruzamento de terra / pedras na rua”), entre outras peças
de boa fatura. O segundo tempo da poesia de Régis Bonvicino, influenciado pelo
minimalismo de Robert Creeley e pelas pesquisas da Language Poetry norte-americana, compreende os livros Ossos de borboleta (1996), Céu-eclipse (1999) e Remorso do cosmo (2003).
No
texto de apresentação ao primeiro livro desta trilogia, Marjorie Perloff
salienta a lição aprendida por Bonvicino com seus novos mestres espirituais,
sobretudo “a colocação de pequenas palavras – entre, como, alguém –”, considerados tão importantes quanto “os
seus parentes mais pretensiosos, os grandes substantivos que se arvoram a
designar verdades grandiosas sobre a experiência”. Com efeito, este recurso se
tornará lugar-comum na poesia de Bonvicino, e também na de poetas jovens que
iniciaram sua jornada criativa no final da década de 1990, como Manoel Ricardo
de Lima, Virna Teixeira, Fabiano Calixto, Tarso de Melo, André Dick. Todos eles
praticaram o poema conciso, elíptico, escrito em letras minúsculas e com espaço
duplo entre as linhas; todos eles abusaram de palavras como algum, alguma, ninguém, nenhum, isso, isto,
aquilo e dos verbos no infinitivo. Claro: reduzir toda a poesia de
Bonvicino e seus amigos a tais recursos seria injusto, mas não podemos deixar
de registrar o abuso desse maneirismo, responsável, muitas vezes, pela criação
de poemas ocos.
O
próprio autor de Ossos de borboleta
vai além da receita de bolo no poema Janeiro,
onde lemos: “Flor – vermelha / folhas – cabeças de lagarto / talos / avançam
sobre a varanda”, e no final da peça, “sol tenso, de trovões, / um pássaro bica
os pistilos / corolas fechadas / estio”, imagens cinematográficas, construídas
com recursos de montagem que nos fazem lembrar do princípio do ideograma e
também da luxúria visual do barroco. Outra peça que se destaca no volume é Ventilador, poema que dialoga com a obra
visual de Regina Silveira: “o ventilador de regina silveira não é formal /
parece personagem de uma novela de franz kafka / (...) / o ventilador de regina
silveira / não atenua as temperaturas / de quem o queira”. Esta peça é quase uma arte poética, em que Bonvicino
reconhece, na obra singular da artista plástica, pontos de contato com a sua
própria escrita, como a deformação da imagem, os jogos entre objeto e sombra e
a representação simbólica da angústia e da perplexidade.
O
estilo conciso e fragmentário de Ossos de
borboleta tem continuidade em Céu-eclipse,
que podemos considerar um plus com
sobras do livro anterior. Comentando a escrita poética de Bonvicino, Carlito
Azevedo afirma, acertadamente: “Sua operação poética mais constante consiste na
observação atenta de uma cena até conseguir captar (...) uma estrutura mínima,
que seja o núcleo do conjunto (...). Assim é que roupas, janelas, carros ou
portas ganham significados novos quando relacionados a coisas como tempo,
velocidade, cor e memória”. Um recurso usado com frequência nesta fase do autor
paulistano é a criação de animais ou vegetais insólitos, verdadeiros monstros
semânticos: “rosa canina”, “gaviões terrestres”, “corvos quadrúpedes”, não raro
associados a ações impossíveis, como o “peixe fora da água / redes- / atando /
estrelas”.
O
último livro da trilogia, Remorso do
cosmo, desenvolve e radicaliza todos esses procedimentos, com o acréscimo
de um número mais expressivo de poemas em prosa, de peças escritas em inglês e
da temática política mais explícita – nacional e internacional –, como acontece
em Sem título (4) (Fanti-axanti): “estigma decapitado, agora, ‘alcoólatra,
amigo das drogas’ (Fa Lun Gong, calado! e os da Coca-Cola, na Colômbia,
atraídos, assassinando)”. Diversas composições utilizam vocabulário e metáforas
militares (“Borboletas fogem para os abrigos”, “Tateava um morteiro / & seu
alcance”, “Dispara mísseis em sílfides”) – os poemas do livro foram escritos
entre 1999 e 2003, logo, coevos às agressões imperialistas dos EUA ao Iraque e
ao Afeganistão.
Após
dedicar-se, por quase três décadas, a um formalismo estrito, que não é
impermeável ao sentido político e social mas enfatiza a pesquisa vocabular e
estrutural, Bonvicino muda totalmente sua poética em seus dois títulos mais
recentes – Página órfã (2007) e Estado crítico (2013). A ruptura
sintática, a elipse e a fragmentação do discurso cedem vez a poemas narrativos,
lineares, coloquiais (“Fedendo a cigarro e a mim mesmo”), que já não causam
surpresas. São registros líricos de fatos nacionais ou internacionais, cenas do
cotidiano, paisagens, com maior ou menor carga de ironia e sarcasmo. Régis
Bonvicino – o Sósia da Cópia – após
ser concretista, leminquiano, languager,
torna-se, agora, drummondiano. Aguardemos suas próximas metamorfoses.
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