domingo, 9 de agosto de 2015
SETE POEMAS DE DUDA MACHADO
AO ACORDAR
Ríamos em sonho.
E ríamos, celebrando
aquele encontro longe
da realidade.
JORNADA
Sarcasmos do sol,
a pausa e, depois,
o céu inflige
o seu recorde
de cicatrizes.
NUVENS
Guarda cada vez mais
como nuvens propõem,
adensam, refinam,
repropõem, enquanto
se dissolvem.
NOTURNO COM ÁRVORE
uma noite sem cor,
sem cara, se arrasta
sob raízes, na terra;
até que a outra,
a copa, desça
afinal para encontrá-la.
CENTRO
a câmera se elevando mostra
riacho, copas, rochas,
morro, nuvens, horizonte,
circulando ao redor
de cavalos selvagens
em disparada pelo campo.
SIMETRIA
As ideias assombrando o que existe.
A recíproca vale. E se está quite.
SÓ IMAGEM
Um lugar
sem ninguém
sem ninguém
para vê-lo.
E um único modo
de alcançá-lo.
(Poemas publicados no livro Adivinhação da leveza. Rio de Janeiro:
Azougue Editorial, 2011.)
A PROFANAÇÃO DO SILÊNCIO
Lígia Dabul, poeta e antropóloga
nascida no Rio de Janeiro, realiza um delicado e preciso artesanato poético, em
estruturas concisas que exploram a musicalidade das palavras e estabelecem
relações inesperadas entre imagens, ideias e sensações. O seu método de compor
recorda os procedimentos dos poetas objetivistas norte-americanos, como William
Carlos Williams, que extraíam a estranheza de breves descrições de paisagens ou
objetos do cotidiano, reconfigurados em situações insólitas. O lirismo
concentrado, substantivo, da poeta carioca permite também uma aproximação com
autores brasileiros de voz minimalista, inenfática, como Orides Fontela, que
assina a epígrafe do livro de estreia da autora, intitulado Som (2005): “Saber de cor o silêncio / e
profaná-lo, dissolvê-lo / em palavras”.
Todas estas referências, é claro,
apenas situam Lígia Dabul dentro de uma tradição e repertório da poesia
contemporânea, com os quais ela dialoga para construir uma voz própria, com
dicção e referências particulares, em que estão presentes a ironia, o humor e o
paradoxo, como nas composições em que ela transforma provérbios ou ditados
populares —“O cão não é / o melhor amigo da mulher”, “Uma mão lava / a louça”
—, e também nas peças de reflexão metalinguística: “Esse texto começa justo
onde acaba. / Eu queria ter escrito uma coisa não dita. / Mas perdi-me
novamente num detalhe. Falei / do texto como se fosse”.
A poesia sobre a poesia comparece
em vários textos do volume, mas não elide a temática referencial nem a violenta
carga emocional, como nesta composição de apenas duas linhas, intitulada Aborto: “dura impossibilidade / ao invés
de me suicidar nos outros”. O eu lírico está presente, mas prescinde do
discurso em cascata e apresenta o tema de modo mais sugerido que fotográfico,
não raro ocultando o próprio interlocutor, como nesta outra peça: “tem um quê
de nada / a ver se há / se houver / haverá / e” (Amor). A estratégia do livro, que nasce da oposição entre som e
silêncio, se amplia em outros jogos antitéticos entre paisagem e abstração,
carne e pensamento, história e fuga da história.
O elemento lúdico é recorrente
nessa poesia, que solicita a participação inteligente do leitor para a
construção de significados, à maneira da obra aberta. A “abertura” do trabalho
artístico é facilitado pelo grau de imprecisão, que convida o espectador a
decifrar sinais e preencher lacunas pelo exercício da imaginação, de modo que
cada leitura é uma interpretação ou reinvenção do texto original. No livro Som, de Lígia Dabul, a imprecisão se
torna mais eloquente no poema Pouco mais, de sete linhas, em espaço duplo,
dispostas em figuração geométrica: “Pouco / bem pouco ou nada / nem dor que em
sílaba resume a palavra / que estendo ao máximo para não parecer poema / talvez
à máxima extensão do poema / e se possível / mais”, que faz um entrecruzamento
do lírico com o poético, do subjetivo com o objetivo, recordando o estilo
enigmático e irônico dos poemas curtos do autor catalão Joan Brossa.
Em seu segundo livro publicado, Nave (2010), a autora amplia sua voz em
textos próximos à prosa, na extensão, cadência musical e sintaxe, mantendo a
singularidade do discurso que não se entrega facilmente à compreensão do
leitor, mas altera as regras do jogo, para propor novos enigmas verbais. Assim,
por exemplo, no poema intitulado Musth:
“Tudo esquematizado. / Abandonar a música. Ficar só com os músculos. /
Abastecer com urros a manada / de meninos tomados pelo rumo”, que funciona como
uma arte poética, retratando os
conflitos sutis entre imaginação e matemática, pele e escritura, memória e
mundo, que ocorrem no processo criativo. As referências urbanas do Rio de
Janeiro são mais presentes aqui do que no livro anterior – orla marítima,
pescadores, ultraleves, Leblon, Ipanema, Nova Iguaçu –, mas é uma cidade
inventada, escrita, não descrita, que
se faz poesia: “Pelo mar / deslocam-se as surpresas”.
A luxúria metafórica reveza,
nesta coletânea, com a arquitetura minimalista, em peças de excelente fatura
como Profissão: “O que posso / do
máximo: // asa de borboleta e / alfinete / no feltro verde de uma música. //
Isso tudo depois da manhã, mais para o final da tarde”, que recorda o haicai
japonês pela concisão, despojamento e visualidade. A emoção lírica, na poesia
de Lígia Dabul, comparece nas mais inusitadas metáforas, que aliam agudeza,
engenho e fina sensibilidade, em linhas como estas: “nervosa feito uma
ambulância”, “ninguém morre de câncer nos cabelos”, “viver, esse lapso de
elefante”. Poesia densa, elaborada, com rigor geométrico e os nervos à flor da
pele.
(Artigo publicado na edição de agosto /2015 da revista CULT.)
sexta-feira, 7 de agosto de 2015
OS ENIGMAS SENSÍVEIS DE JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES
Júlio
Castañon Guimarães, poeta mineiro radicado no Rio de Janeiro, desenvolve uma
pesquisa poética direcionada ao aspecto plástico das coisas: seu delineamento,
espessura, sensação tátil, formato, volume, cores, jogos de luz e de sombra,
disposição espacial e sobretudo a distância física e sensível entre observador
e coisa observada. É uma poesia pensada com o rigor da geometria, manifestada
em sua estrutura fragmentária, concisa e elíptica, que pressupõe movimentos
estratégicos para a leitura, releitura e decodificação, como os lances em um
tabuleiro de xadrez. Ao mesmo tempo, está borrada de subjetividade, fazendo-nos
pensar em um cubismo lírico.
O poeta
descende de João Cabral de Melo Neto, Mallarmé, Valéry, da Poesia Concreta, mas
também da música epidérmica de um Carlos Drummond de Andrade, talvez a sua
maior referência literária – o melhor Drummond, aquele de Áporo e da Máquina do mundo,
que sabia explorar a dimensão visual e sonora das palavras para compor o
pensamento. Assim como a de seus ilustres predecessores, a poesia de Júlio
Castañon Guimarães é enigmática e convida o leitor disponível decifrar seus enigmas sensíveis, correndo todos
os riscos de fascinação e perplexidade.
Em seu
primeiro livro publicado, Vertentes
(1975), a influência do Modernismo de Manuel Bandeira, Murilo Mendes e CDA é
evidente, desde as epígrafes até o humor (“também a memória tem seus dias
contados”) e o percurso sentimental-visualista pelas cidades históricas de
Minas Gerais, com as inevitáveis citações do Aleijadinho e de Alphonsus de
Guimaraens (“onde de bispados em arcebispados”). Na obra seguinte, 17 peças (1983) joga os dados em outra
direção, empregando recursos de desarticulação sintática e espacialização de
palavras e linhas da Poesia Concreta. Os dois livros podem ser considerados,
hoje, cadernos de estudos, em que o poeta ensaia suas primeiras performances, a partir da assimilação
das formas do modernismo e da vanguarda concretista.
Inscrições
(1992) já é um trabalho diferente, em que Júlio Castañon
Guimarães fala com voz própria, apresentando temas e estilemas que serão
desenvolvidos ao longo de seu trabalho textual. A ênfase metalinguística do
título é reforçada pelas epígrafes de Gertrude Stein (“Poetry is doing nothing
but using losing refusing and pleasing and betraying and caressing nous”) e
Michel Butor (“toute architecture, toute organization d’um site, est déjà une
écriture”), e ainda por composições como Órgão
da matriz de Santo Antônio, onde lemos estas linhas: “inscrito no corpo /
um destino: (...) / inscrito na nave / um acorde: (...) / inscrito no silêncio
/ um eco: / vozes sem retórica / memória em silêncio”.
A
palavra inscrição, aqui, tem o seu
sentido ampliado para além da grafia verbal: ela ganha conotações metafóricas,
associadas ao corpo, à arquitetura (a nave da igreja), ao processo da
comunicação, que inclui a memória, o silêncio e o esquecimento. Nas peças
iniciais do livro, as inscrições do tempo, espaço e linguagem estão presentes
em diversos logradouros de Minas Gerais, como a Igreja de São Francisco de
Paula, o Chafariz de São José, a Casa do Padre Toledo, Rosário dos Pretos, o
Largo das Forras, a Rua da Câmara e a Serra de São José, invocados pelo poeta
em sua dimensão histórica, mas sem contar estórias: há um trânsito de ideias,
imagens, sonoridades e sensações que o poeta descreve nestas linhas: “nos
Quatro Cantos / uma cicatriz / escavado este silêncio / uma voz se deixa ler /
no côncavo de outra voz / estes espaços e seus riscos / seus ânimos e seus
pecados / reencenam a música / que lavra que acende / corações tomados pelo
século”.
A ideia
da inscrição como cicatriz é similar à metáfora neobarroca de Nestor Perlongher
e Osvaldo Lamborghini, mas, aqui, ela aparece sem a conotação erótica
sadomasoquista: a cicatriz é a inscrição na pele remetendo a uma dimensão
telúrica, histórica, biográfica, que não se revela em sua totalidade, mas por
sinais.
Esta
ideia de construir um antidiscurso por meio de pistas, vestígios, ruídos,
fiapos, inscrições (“interrogar / pedras? / investigar / frinchas?”, lemos em Pernoite), está presente em diversos
poemas do livro, como Composição (“um
rosto um gesto / um traço um som”), mas sobretudo num ciclo de poemas de linhas
extremamente curtas, todos eles com o mesmo título – Talhe – apresentados não em sequência, mas distribuídos ao longo do
volume. Na quarta composição deste conjunto, lemos: “a meia voz / gestos curtos
/ fôlego a tempo / no rosto um / dois vincos (...) / extirpa o vôo / cego da
expressão / afila farpas / na pele do dia / lateja por trás dos olhos”, poema
construído por uma série de pequenos gestos e sinais que compõem uma paisagem
psicológica, com o título indicando, novamente, a inscrição-cicatriz (talhe).
Em
outra peça do ciclo, novo corte (referencial, também sintático): “dentro a
gastura / a farpa o alerta / fora as arestas / o que a contrapelo / se mesmo o
avesso se dá / ainda é a vez do mesmo / a trama sempre se põe / sem sombras
sempre / antes textura onde / o texto sua trave / a voz rascante / ralenta ou
se nega / até o nada ou o não / e entre dentro e fora / um agreste”. Neste
poema, além dos signos indiciais que compõem o discurso – farpa, arestas, avesso, sombra, textura, até atingir o nada ou o não, um agreste – encontramos
uma organização sintática não-gramatical, e uma musicalidade deliberadamente
agressiva, dissonante, beirando o atonalismo (“se mesmo o avesso se dá / ainda
é a vez do mesmo”, “a voz rascante / ralenta ou se nega”), que serão elementos
decisivos em sua escrita poética.
Matéria e paisagem, publicado em 1998, mantém a visualidade dos livros
anteriores (“aos vidros aos aços às linhas”), por vezes incorporando recursos
da linguagem cinematográfica, como acontece no poema Horizonte (“um jardim / uma faixa de areia / e adiante / um lance
de mar / e ainda além / um trecho de terra / que antecipa / uma linha de
montanhas”), em que o crescendo de
imagens recorda as aproximações e distanciamentos da câmera. Se em Vetentes e Inscrições o poeta retratou as cidades históricas de Minas Gerais,
em Matéria e paisagem o cenário é o
Rio de Janeiro, presente em diversos poemas, entre eles Falso exercício de organização:
“diante desta janela / adiante / pelo trecho da baía / passam navios / pequenos
barcos / seu balanço e o mar / passam / aviões suas sombras / contra as pedras
/ das ilhas”, uma quase-narrativa em que a paisagem externa faz um cruzamento
com a paisagem interna: “desânimos feridas / por entre o que passa / por entre
o que muda / até o outro lado / talvez da baía”.
O jazz
está presente em dois poemas, Fragmento
de conversa para Bill Evans e Mero
léxico para o piano de Thelonius Monk, este último construído em treze
estrofes de duas linhas, em letras minúsculas, sem sinais de pontuação, com as
palavras agrupadas sem qualquer relação gramatical: “farpas farpas / farpas
metálicas / ângulos arestas / quinas esquinas / lâminas e cortes / aparas e
fios”, onde reencontramos a música dissonante de Júlio Castañon Guimarães e o
seu fascínio pelos indícios, mais que pelos objetos. A reflexão
metalinguística, tema sempre presente na poesia do autor mineiro, aparece em
quase todas as composições, e de modo mais enfático no poema Retrato, um estudo: “ponha-se / como
primeiro exercício / breve conjunto de estratégias: / a ordenação sem sobras /
de tais e tais peças / mas ainda severa instrução / da cor / e sem leniência /
sustentar a subtração / mesmo de sua luz”.
Se em Matéria e paisagem ainda vemos os
contornos dos objetos, identificamos barcos e janelas, ruas e montanhas, no
livro seguinte, Práticas de extravio
(2003), adentramos o terreno da abstração, mesmo que seja um abstracionismo
rigorosamente geométrico, como o de Maliévitch: “tão brutal a matéria / ao
excurso do olhar / que a impossibilidade / de qualquer imagem / pois o
adensamento / (cores e formas se desfazem) / que sobre o suporte / obstrui por
acúmulo”.
O poeta
direciona a sua atenção para “a matéria como projeto / de dimensão do olhar /
quando no espaço / não só uma ordenação / nem frágil descompasso / mas todo um
percurso / linhas volumes cálculo / talvez resumo de paisagem”. Palavras como adensamento, ordenação, cálculo remetem
ao pensamento poético de Edgar Allan Poe e Paul Valéry – o primeiro, com sua
definição de poesia como “construção precisa do impreciso” e a defesa do
cálculo prévio dos efeitos estéticos, tal como expôs no ensaio Filosofia da composição; o segundo
(discípulo do primeiro), pelo grau de abstração que atingiu em poemas como Esboço de uma serpente, A jovem parca e Herodíades. Ao contrário do autor
francês, porém, o poeta mineiro prefere a metonímia à metáfora, o substantivo
ao adjetivo, o atrito abrupto aos charmes e encantamentos da alquimia poética.
Castañon
escreve o poema áspero, duro, “tenaz das imagens / sons em entrechoque /
insinuações e recuos / às voltas com a rarefação”, em que o leitor quase perde
o fôlego “entre devolutas e infensas / ate o meio-dia / de um raciocínio e
corrosões”. O ponto máximo dessa poética áspera foi atingido em Ensaios, figuras (2005), coleção de
apenas quinze peças incluídas no volume Poemas
(1975-2005), reunião da obra completa de Castañon até aquela data[1].
Palavras associadas a outras por atrito, por ruído, em formas assimétricas,
desalinhadas, rascantes: “no limiar exato do inacabado”, onde “o silêncio
desenvolve / sua construção metódica” – um método ou antimétodo até a
desorientação, o desvio, o extravio: “precária operação que / se desencadeia um
tempo / também o indefine / nem mera improvisação / como rota de acidentes /
que desmantelam o intento / antes a própria sintaxe / se encaixes tão falhos /
não propriamente desordens / mas essa narrativa / de espaços e projetos / mas
umas tantas perdas / seu descaminho / entre as sombras”.
O
lirismo negativo de Castañon – negativo enquanto sombra, duplo, projeção – introduz
na poesia brasileira uma singular logopeia, em que as formas de articulação do
discurso são pensadas enquanto organismos que se expandem para além de seus próprios
contornos, em direção a outras estruturas irregulares, expansivas, dissonantes,
que nos fascinam por sua monstruosa beleza.
[1] Posteriormente, Júlio
Castañon Guimarães publicou o livro Do
que ainda (2009, com pinturas de Manfredo de Souzanetto e fotografias de
Jaime Acioli).
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
SEM ANA
Recebi, com imensa tristeza, a
notícia do falecimento de Ana Hatherly. Poeta, romancista, ensaísta,
desenhista, pintora, cineasta, musicista, foi uma das mais completas artistas
portuguesas contemporâneas. Durante a Revolução dos Cravos, não ficou em cima do
muro: criou cartazes de agitação política e colocou-se ao lado dos estudantes,
soldados e trabalhadores que derrubaram a ditadura salazarista. Escrevi sobre
ela em meu livro "A estética do labirinto -- barroco e modernidade em
Ana Hatherly" (dissertação de mestrado), e também em
minha tese de doutorado, "A recepção da poesia japonesa em Portugal".
Entre outros feitos notáveis, Ana Hatherly organizou a antologia "A
experiência do prodígio", com poemas visuais do barroco português, reeditou
livros de autores barrocos há muito tempo fora de circulação, divulgou o haicai
e o koan, organizou exposições e performances da Poesia Experimental
Portuguesa, dirigiu um programa de televisão. Um espírito raro, destes que
fazem falta, muita falta, no panorama cultural contemporâneo.
terça-feira, 4 de agosto de 2015
SÓSIA DA CÓPIA: O CASO RÉGIS BONVICINO
Régis
Bonvicino publicou os seus três primeiros livros de poesia – Bicho papel, Régis hotel e Sósia da cópia
(reunidos, posteriormente, no volume Primeiro
tempo) – entre a segunda metade da década de 1970 e início da década de
1980. O autor está situado, portanto, na mesma geração literária de Paulo
Leminski[1]
(com o qual manteve correspondência, publicada no livro Envie meu dicionário, em 1999), Duda
Machado, Antonio Risério e Alice Ruiz. O seu projeto literário inicial, assim
como o de seus companheiros geracionais, deriva da Poesia Concreta, do
Tropicalismo, da Contracultura, mas esse diálogo logo será interrompido, nas
décadas seguintes, quando o autor descobre a poesia de vanguarda
norte-americana, em especial Robert
Creeley, expoente da Black
Montain College, Charles
Bernstein, Michael Palmer e Douglas Messerli, ligados à Language Poetry, poetas traduzidos e divulgados por Bonvicino no
Brasil.
A
influência norte-americana na poesia do autor brasileiro será imensa, em seu
segundo tempo, sobretudo nos livros Ossos
de borboleta (1996), Céu-eclipse (1999)
e Remorso do cosmo (2003). A partir
dessa produção, inicia um terceiro tempo em sua jornada criativa com os livros Página órfã (2007) e Estado crítico (2013), que retornam a um
discurso de sintaxe linear, linguagem coloquial e temática cotidiana, que o
autor já praticara no livro Más companhias (1987), mas agora com
inflexão política. São, portanto, três momentos bem distintos de sua atividade
literária, que inclui também a edição de revistas – Poesia em greve, Muda, Qorpo estranho, Sibila –, a tradução de
poetas como Jules Laforgue e Oliverio Girondo, a atividade como crítico nos
jornais Folha de S. Paulo e no Jornal da
Tarde e a organização de antologias de poesia brasileira contemporânea,
como Nothing the sun could not explain
(1997) e Lies abouth the truth (2000), publicadas nos Estados Unidos. Neste
artigo, vamos abordar alguns aspectos da poesia de Régis Bonvicino, que também
atua como juiz de direito em
São Paulo.
Bicho papel (1975), seu livro de estréia, cujo título faz trocadilho com bicho papão e, ao mesmo tempo, cria um
curioso animal semiótico (assim como o Occam, do Catatau de Leminski), é o livro mais “concretista” de Bonvicino,
utilizando o neologismo e a palavra-montagem,
a la Lewis Carroll e James Joyce, em poemas como Metaforagir-se
(“metaforagir-se em vocúbulos / metonimizar-se em hiatos / anacolutorcer-se em
paragarfos”), sinais de pontuação inseridos como ruídos gráficos (“?avolho /
?av?lho / ?av?l?o”) e até mesmo o espaço em branco da página, no poema visual
“a 10cm / uma palavra”.
Em Régis hotel, seu segundo livro,
publicado em 1978, a
emulação da Poesia Concreta permanece, em poemas como oO, que exploram a visualidade por meio da utilização não-gramatical
de maiúsculas no texto poético (“oO sSiILÊnNcCioO / gGrRiItTaA pPaArRaA / oO
oOlLvViIDoO”), ou ainda Vamos destruir a
máquina?, ready-made construído pela reprodução de tiras de uma história em
quadrinhos do Professor Pardal, na qual o poeta inseriu outro texto nos balões
de diálogo (experiência similar à realizada por Antonio Risério com quadrinhos
de Flash Gordon, no livro Fetiche).
Nesta obra, além de reproduzir ecos da Poesia Concreta de Augusto e Haroldo de
Campos e Décio Pignatari, o autor também dialoga, de maneira explícita, com o
humor dos haicais de Paulo Leminski, como acontece no poema sem título que diz:
“não sejam tolos! / a verdadeira / linguagem cifrada / é a dos homens escada /
que sobem na vida / sem dizer nada”. Sósia da cópia, publicado em 1983,
mantém a vertente leminsquiana (“não há saídas / só ruas viadutos avenidas”) e
a visualidade concreta (“o céu / não cai / do céu”, “Utopia / you are the
top”), bem como o vocabulário haroldiano, em poemas como Fio de esperança, dedicado ao autor de Signancia: quase céu e Galáxias.
A
composição mais interessante do volume é Vida,
paixão e praga de RB, dividida em oito seções breves, em que Bonvicino
parodia diversos estilos, entre eles o das litanias
da lua do poeta uruguaio de língua francesa Jules Laforgue, em versos
curtos e ferinos, nos quais faz violento autorretrato satírico: “fio e pavio /
do óbvio / epígono sim / ‘inocente’ inútil / dilutor / com todas as letras /
caixinha de eco / menino de recados / robô abobado”. Claro: por trás do aparente
masoquismo poético estava a constatação, naquele momento histórico, do aparente
beco sem saída do concretismo: o que fazer após Tudo está dito, de Augusto de Campos? Más companhias, publicado em 1987, e 33 poemas, que veio à lume em 1990, mantêm a angústia edípica: o
primeiro livro não vai além da dicção coloquial leminsquiana (“palavras não
matam / nem provocam inverno atômico”, “tentar / não contém / nem contenta”, “o
sol de cima / é o dinheiro do sul”) e o segundo mantém a construção concisa, elíptica,
neológica e fragmentária assimilada da vanguarda concretista e seu paideuma (a presença de cummings é
nítida, sobretudo, em Num zoológico de
letras, em linhas como “borbollllleta / raTTo / aa aa aa aa aa belhas”, e
ainda nos poemas Borr, Não voz, Poema em
homenagem a Laforgue).
Já nos
poemas Nada inconexo, Pontas de palavras
e Pregão da primavera, o autor cria labirintos poéticos em que as palavras
são dispostas em três colunas verticais, permitindo diferentes combinações e
caminhos de leitura – recurso adotado, com maior radicalidade inventiva, por
Augusto de Campos, em composições visuais como Inseto e Memos,
publicadas no livro Viva Vaia (Poesia
1949-1979). Enquanto Bonvicino, em seus labirintos poéticos, mantém a sintaxe
discursiva quase intocada, não investe na diversidade tipográfica e dispõe as
palavras e linhas numa diagramação amadora, que conduzem a poucas variações de
leitura, Campos
abole a sintaxe em sequências de verbos e substantivos sem relação gramatical
entre si, que podem ser lidas no sentido horizontal, vertical ou em diagonal,
utiliza diferentes famílias de letras, para ampliar os graus de ruído e
dissonância. A capacidade de geração de múltiplas formas de leitura, pela
recombinação aleatória de fonemas, atinge seu grau máximo no poema-livro-objeto
Colidouescapo, de Augusto de Campos,
formado por diversas folhas soltas que, tiradas de ordem pelo leitor e
colocadas em outras sequências, permite a criação de palavras neológicas como desestinto, resiscanto, desenisto,
menoscontro, resprezo.
A
inabilidade de Bonvicino para trabalhar com a visualidade levou-o a abandonar a
Poesia Concreta a partir de Outros poemas,
publicado em 1993, que reúne poemas escritos entre 1990 e 1992. Dividido em
três partes, este livro, intermediário entre o primeiro e o segundo tempo, é
talvez o mais consistente da obra do autor paulistano, pela densidade
semântica, inteligência estrutural, humor negro, impressões sensoriais,
metáforas agudas, ambientação urbana e outros elementos que definiram o seu
estilo. É uma poesia pós-concreta,
não no sentido de superação formal da Poesia Concreta, mas de sinalização de
uma nova senda criativa, posterior e distinta da vanguarda concretista.
Percebemos, nesta poesia da maturidade de Bonvicino, outras leituras e
influências, em particular a do argentino Olivério Girondo, autor de En la masmédula, traduzido para o português por seu colega brasileiro com
o título de A pupila do zero[2].
No poema Morreu-me, por exemplo
(“Morreu-me o visto como palavra”), há um jogo com Hasta morirla, de Girondo (literalmente, “até morrer-la”, invenção
neológica a partir da construção normativa “até matá-la”).
Em
outra peça, Olhar de dentro, um dos
textos mais inventivos do volume, Bonvicino exerce a escrita enigmática,
lacônica, em linhas como estas: “Olhar de dentro, / tocar-se de dentro – / só,
em si mesmo, / onde em silêncio / adentro”, unificada pelas rimas internas e
pela repetição anafórica da palavra dentro.
As ações e imagens impossíveis contidas no poema (“tocar-se de dentro”,
“cabelos de dentro”, “unhas de dentro”) antecipam uma das figuras recorrentes
na evolução criativa do leitor, sobretudo nos livros Ossos de borboleta e Céu eclipse.
O
absurdo intencional, distante de qualquer veleidade surrealista, será também um
dos pontos de contato entre Bonvicino e Michael Palmer, ambos estimulados pelos
“botões tenros” de Gertrude Stein. A escrita enigmática está presente em outras
peças notáveis do volume, como Este nunca
se dar (“Nunca se dar em negros / só, entre lobo e cão, / branco como
parede / nem ao menos um ocre”) e Repetir-se
(“repetir-se / em putrefatas que nada / nem um ser oco e aparente (...) /
bocejo diante do ereto / um narciso escombro cego”), peças de forte
dissonância, ressaltada pela associação incomum dos termos. Em outra peça, de
concepção mais simples, intitulada O
tempo, Bonvicino escreve: “O tempo foi de encontro / ao galho da
quaresmeira / podre, no chão, / depois da chuva”, construção precisa e
objetiva, somada, nas estrofes seguintes, a diversas outras experiências
sensoriais, formando uma curiosa paisagem de “azuis em tons, / na fachada do
edifício”, “grafites coloridos nos muros” e “o vermelho / do automóvel na
esquina”.
O
retrato de cenas urbanas ou da natureza, com a lente focalizando pequenos
detalhes inesperados, está presente em numerosas composições do livro, como Paisagem (“Cupins em pontas, / farpadas
de arame / e céu”), Dezenas de
louva-a-deus (“Dezenas de louva-a-deus / saem do barro de cupim”), Árvore exala (“em frente um / louco de
cócoras / cata / no cruzamento de terra / pedras na rua”), entre outras peças
de boa fatura. O segundo tempo da poesia de Régis Bonvicino, influenciado pelo
minimalismo de Robert Creeley e pelas pesquisas da Language Poetry norte-americana, compreende os livros Ossos de borboleta (1996), Céu-eclipse (1999) e Remorso do cosmo (2003).
No
texto de apresentação ao primeiro livro desta trilogia, Marjorie Perloff
salienta a lição aprendida por Bonvicino com seus novos mestres espirituais,
sobretudo “a colocação de pequenas palavras – entre, como, alguém –”, considerados tão importantes quanto “os
seus parentes mais pretensiosos, os grandes substantivos que se arvoram a
designar verdades grandiosas sobre a experiência”. Com efeito, este recurso se
tornará lugar-comum na poesia de Bonvicino, e também na de poetas jovens que
iniciaram sua jornada criativa no final da década de 1990, como Manoel Ricardo
de Lima, Virna Teixeira, Fabiano Calixto, Tarso de Melo, André Dick. Todos eles
praticaram o poema conciso, elíptico, escrito em letras minúsculas e com espaço
duplo entre as linhas; todos eles abusaram de palavras como algum, alguma, ninguém, nenhum, isso, isto,
aquilo e dos verbos no infinitivo. Claro: reduzir toda a poesia de
Bonvicino e seus amigos a tais recursos seria injusto, mas não podemos deixar
de registrar o abuso desse maneirismo, responsável, muitas vezes, pela criação
de poemas ocos.
O
próprio autor de Ossos de borboleta
vai além da receita de bolo no poema Janeiro,
onde lemos: “Flor – vermelha / folhas – cabeças de lagarto / talos / avançam
sobre a varanda”, e no final da peça, “sol tenso, de trovões, / um pássaro bica
os pistilos / corolas fechadas / estio”, imagens cinematográficas, construídas
com recursos de montagem que nos fazem lembrar do princípio do ideograma e
também da luxúria visual do barroco. Outra peça que se destaca no volume é Ventilador, poema que dialoga com a obra
visual de Regina Silveira: “o ventilador de regina silveira não é formal /
parece personagem de uma novela de franz kafka / (...) / o ventilador de regina
silveira / não atenua as temperaturas / de quem o queira”. Esta peça é quase uma arte poética, em que Bonvicino
reconhece, na obra singular da artista plástica, pontos de contato com a sua
própria escrita, como a deformação da imagem, os jogos entre objeto e sombra e
a representação simbólica da angústia e da perplexidade.
O
estilo conciso e fragmentário de Ossos de
borboleta tem continuidade em Céu-eclipse,
que podemos considerar um plus com
sobras do livro anterior. Comentando a escrita poética de Bonvicino, Carlito
Azevedo afirma, acertadamente: “Sua operação poética mais constante consiste na
observação atenta de uma cena até conseguir captar (...) uma estrutura mínima,
que seja o núcleo do conjunto (...). Assim é que roupas, janelas, carros ou
portas ganham significados novos quando relacionados a coisas como tempo,
velocidade, cor e memória”. Um recurso usado com frequência nesta fase do autor
paulistano é a criação de animais ou vegetais insólitos, verdadeiros monstros
semânticos: “rosa canina”, “gaviões terrestres”, “corvos quadrúpedes”, não raro
associados a ações impossíveis, como o “peixe fora da água / redes- / atando /
estrelas”.
O
último livro da trilogia, Remorso do
cosmo, desenvolve e radicaliza todos esses procedimentos, com o acréscimo
de um número mais expressivo de poemas em prosa, de peças escritas em inglês e
da temática política mais explícita – nacional e internacional –, como acontece
em Sem título (4) (Fanti-axanti): “estigma decapitado, agora, ‘alcoólatra,
amigo das drogas’ (Fa Lun Gong, calado! e os da Coca-Cola, na Colômbia,
atraídos, assassinando)”. Diversas composições utilizam vocabulário e metáforas
militares (“Borboletas fogem para os abrigos”, “Tateava um morteiro / & seu
alcance”, “Dispara mísseis em sílfides”) – os poemas do livro foram escritos
entre 1999 e 2003, logo, coevos às agressões imperialistas dos EUA ao Iraque e
ao Afeganistão.
Após
dedicar-se, por quase três décadas, a um formalismo estrito, que não é
impermeável ao sentido político e social mas enfatiza a pesquisa vocabular e
estrutural, Bonvicino muda totalmente sua poética em seus dois títulos mais
recentes – Página órfã (2007) e Estado crítico (2013). A ruptura
sintática, a elipse e a fragmentação do discurso cedem vez a poemas narrativos,
lineares, coloquiais (“Fedendo a cigarro e a mim mesmo”), que já não causam
surpresas. São registros líricos de fatos nacionais ou internacionais, cenas do
cotidiano, paisagens, com maior ou menor carga de ironia e sarcasmo. Régis
Bonvicino – o Sósia da Cópia – após
ser concretista, leminquiano, languager,
torna-se, agora, drummondiano. Aguardemos suas próximas metamorfoses.
domingo, 2 de agosto de 2015
BUDÔ
Fudo Myo-o, divindade budista, é considerado patrono das artes marciais (budô). "Fudo significa 'imóvel', 'inabalável', 'imperturbável', simbolizando a imobilidade e a determinação de que necessitam os artistas marciais. Myo-o é 'o rei da luz', indicando a iluminação que se manifesta no mais elevado nível de graduação do mestre. Fudo maneja a espada da sabedoria instrutiva e segura uma corda para amarrar os malfeitores que não prestam atenção à mensagem." (Texto: John Stevens)
"A palavra japonesa budô compõe-se de dois caracteres.
Embora o caractere bu geralmente seja traduzido por 'marcial', os componentes
originais desse ideograma têm o sentido de 'parar o conflito com armas', o que
implica, exatamente, restaurar a paz. Bu também pode ser interpretado como
'ação de valor', 'modo corajoso de viver' e 'compromisso com a justiça'. Do
significa o Tao, 'o Caminho para a verdade', 'a Vereda para a libertação'. Os
dois conceitos se juntam para formar a palavra budô, 'o Caminho para ações de
coragem e de iluminação." (John Stevens, em "Segredos do budô".)
Miyamoto Musashi, o mais conhecido mestre da espada japonês, foi também pintor e calígrafo. Segundo comentaristas como John Stevens, as duas artes -- a da espada e a da caligrafia -- possuem afinidades entre si, pois ambas pressupõem o domínio do movimento. Por esse motivo, mestres de espada famosos ensinavam sua técnica também por meio de pinturas. Nesta ilustração, Miyamoto Musashi representa o buda Hotei contemplando, "com desconcertante imparcialidade, dois galos de briga em tenso confronto. (...) Hotei não vai intervir porque compreende que faz parte da natureza do galo lutar; o próprio monge, porém, nunca entrará em contendas por assuntos insignificantes, como bens, posição social ou insultos recebidos" (John Stevens)
O SONHO DO ARQUITETO: SOBRE A POESIA DE NELSON ASCHER
Nelson Ascher ocupa um lugar excêntrico na poesia brasileira contemporânea. Em seus quatro livros publicados – Ponta da língua (1983), Sonho da razão (1993), Algo de sol (1996) e Parte alguma (2005), o autor concilia a métrica, o ritmo e as rimas da poesia clássica, em peças que se destacam também pelo notável perfeccionismo sintático, com a influência da Poesia Concreta – não exatamente na investigação da visualidade, mas na ênfase dada à materialidade da escrita poética. A este insólito matrimônio do céu com o inferno soma-se o influxo de suas leituras de poetas modernos húngaros, romenos, russos e poloneses, especialmente Paul Celan, Czeslaw Milosz, Zbigniew Herbert, Joseph Brodsky, entre outros (alguns dos quais traduzidos e publicados pelo autor nos livros Canção antes da ceifa, 1990, e Poesia alheia, 1998).
Sua dicção, por isso mesmo, é altamente pessoal e se diferencia de outros
poetas de sua geração, menos afeitos às normas rígidas da versificação
tradicional (praticadas também, mas com acentuado caráter conservador, formal e
ideológico, por autores como Alexei Bueno e Bruno Tolentino). Em seu livro de
estreia, Ponta da língua, que reúne
poemas escritos entre 1978 e 1983, encontramos
peças de acentuado caráter metalinguístico, desde a composição intitulada definição de poesia (“Poesia, ponte em
cima / de abismos não abertos / ainda ou flor que anima / a pedra no deserto”),
até as composições que tem por títulos nomes de poetas como T. S. Eliot, Mário
de Sá-Carneiro, Velimir Khlébnikov e João Cabral de Melo Neto. São poemas
metrificados, rimados, que exibem, orgulhosos, figuras de linguagem como
trocadilhos (“Quede tão mudo / quanto amiúde”), paronomásias (“modelos de
medula”), aliterações e assonâncias (“a esfinge / feroz nem finge / que me
devora”), trava-línguas (“um símio / banal se abana / inverossímil / entre
bananas”) e paradoxos (“quem era, enfim, senão quimera / de si, perdido em cada
veia / de sua própria carne alheia?”).
Referências à medicina, à zoologia e à
filosofia são constantes, sobretudo, na poesia humorística de Nelson Ascher, em
que se destaca, nesta sua primeira coletânea poética, a peça intitulada trompas: “Se tua língua / linda de longa
/ lábia se aninha / em cada lábio / lábil da minha / trompa de Eustáquio / e
langue-lenga, / a minha língua / logo se vinga, / lambe o batom / sabor de ópio
/ das tuas trom- / pas de Falópio / e nelas míngua”. O uso das rimas, na poesia de Nelson Ascher,
não é simples recurso musical, mas parte integrante da construção do sentido, o
que fica mais evidente em sua poesia irônica ou satírica, pelo alto poder de
impacto, que garante o efeito estético desejado em cada composição. Em seu
segundo livro de poesia, O sonho da razão,
publicado em 1993 (cujo título remete a uma frase de Goya: “El sueño de la
razón produce monstruos”), o poeta paulistano mantém os jogos de palavras
(“fúnebre – funébrio”, “líquidos iníquos”, “colóquio de ventríloquos”) e outros
jogos semânticos de sua primeira lírica, mas já avança no sentido da logopeia,
que será a marca característica de sua poesia, em peças mais sóbrias, quase
elegíacas, como o poema Onde há fumaça,
com epígrafe do poeta romeno Paul Celan, que tematiza o horror da Shoah. Dividida em seis quartetos, com
métrica de seis sílabas, o poema conta o extermínio a partir de seus indícios
quase imateriais, como a memória, a fumaça, as cinzas: “Fumaça alguma implica /
memória, já que coisas / se perdem na fumaça / que, assim, tampouco pode /
tornar-se monumento / (...) Fumaça enquanto tinta, / embora branca (um branco /
mais palidez de horror / que alvura de inocência)”.
Em outra peça, intitulada No centenário de Mallarmé, Nelson Ascher
apresenta um soneto em medida menor – no caso, versos hexassilábicos –,
construído como se fosse uma única sentença sintática dividida em catorze
linhas (o que nos faz lembrar dos poemas de um só verso do cubano José Kozer,
em que a linha única se desdobra em imensos conjuntos textuais). Nesta
composição dialógica, o poeta insere, à maneira de “pontos luminosos” ou signos
indiciais, palavras extraídas do vocabulário do poeta francês, como jogo, linguagem, indecifrável, estrelas,
inscrição, numa trama verbal que intenta recriar os labirintos de múltiplos
sentidos da escrita mallarmaica.
Sob o signo de Mallarmé e suas “subdivisões
prismáticas da Ideia”, Nelson Ascher investe na ruptura com a linearidade
discursiva pela fratura semântica, pelo uso frequente de parêntesis e
travessões e pela tmese, tropo
conhecido desde os tempos de Ausônio (310-395 d.C.) que consiste na divisão de
uma palavra para se intercalar outra, modificando e ampliando as camadas de
significação, como acontece, por exemplo, no poema Voz: “Ninguém jamais / regeu tão extra- / (pois sem rivais) /
vagante orquestra / como a que destra- / vando os umbrais / com chave-mestra
/ cordas vocais – / propõe que, além da
/ canção, com elas, / a mente aprenda / (mais do que vê-las / sem qualquer
venda) / a ouvir estrelas”. O poema, lúdico e irônico, incorpora em sua última
linha uma citação de conhecido poema do autor parnasiano Olavo Bilac – "Ora (direis) ouvir estrelas!
Certo Perdeste o senso!" –, que atribui uma qualidade humana (a
audição) a seres inanimados (as estrelas), figura de linguagem conhecida como
prosopopeia.
A profusão de tais recursos na poesia de Nelson Ascher – que já
definiu a si mesmo, em carta endereçada a Antonio Candido, como uma “combinação
sui generis de parnasianismo e concretismo”
– pode causar, por vezes, a impressão de mero artifício, distanciado de
qualquer preocupação de ordem filosófica, social e política: enfim, em certa
futilidade poética, que não dialoga com o momento histórico e as tensões
sociais. É uma crítica pertinente, que não nos impede, porém, de admirar a
perfeição de peças como Bashô em Paris, talvez
o melhor poema do livro: “Manhã de gala: / flores, imóveis / damas desnudas, /
desfilam cores. / Midi le juste: /
suicida, o sol, / no mar de suor, / se põe a pino. / Tarde-alfarrábio: / como
as impressas, / amarelecem. / Que noite albina! / A torre, embora / de ferro,
quase / treme de frio”. Com notável precisão geométrica, Nelson Ascher cria uma
arquitetura de quatro estrofes com quatro versos cada, em métrica de quatro
sílabas, para descrever uma impossível viagem do poeta-samurai japonês à cidade
de Baudelaire e Mallarmé, onde ele vislumbra imagens rápidas, fragmentárias,
cubistas (“flores, imóveis / damas desnudas, / desfilam cores”), que culminam
na paisagem de um oxímoro (“Que noite albina!”) e uma prosopopeia (“A torre,
embora / de ferro, quase / treme de frio”). É uma poesia pensada, construída a frio, na temerária fronteira entre a razão e
o sonho, que o próprio autor irá superar na virada logopaica de seus livros
posteriores.
Algo de sol, publicado
em 1996, mantém a ossatura métrica, o gosto pelo artifício, a constante
intertextualidade, mas amplia o leque temático do autor, incorporando ou
aprofundando temas como a reflexão existencial (“Se – máquinas precisas / que
somos de morrer –”), o erotismo (“Segundo a pincelada / que, súbito, um
calígrafo / traçasse da cerviz / ao cóccix”), a paixão pelos felinos (“Nobreza
não lhe falta / no jeito aristocrata, / sua linhagem alta / se chama vira-lata”), o futebol (“articulando
músculos / pensantes com tendões / inteligentes”), mas sobretudo a evocação da
Hungria, terra natal de seus antepassados. No poema Gyorgy Somlyó aos 75, presta homenagem a um dos mais conhecidos
poetas húngaros, falecido em 2006, autor de Fábulas
contra a fábula, em versos dialógicos como estes: “(...) uma noctâmbula / e
intransigente fábula / que sempre recomeça / ou, antes, que não pára / jamais –
qual Sharazade / também fizera outrora / mil e uma vezes – para / que a estória
nos resguarde / da lâmina da História”, onde podemos ler nas entrelinhas a
sutil relação estabelecida pelo autor entre a narração de contos tradicionais pela
protagonista das Mil e uma noites e os acontecimentos trágicos da primeira metade
do século XX.
O tema será
desenvolvido nas últimas composições do livro, Fábula (no tricentenário da
morte de La Fontaine )
e A estátua de Wallenberg. Nos
dois poemas, o contexto histórico é o mesmo – I e II Guerras Mundiais,
antissemitismo, libertação dos países do Leste Europeu pelo Exército Vermelho e
criação das repúblicas populares – examinado sob um prisma nacionalista
húngaro conservador, hostil tanto à Alemanha quanto à União Soviética. O primeiro poema, Fábula, é construído como uma sequência
de diálogos entre um cordeiro chamado Baranówicz e o lobo Wolfgang, que ostenta
a patente de coronel. As frases ou farpas trocadas entre eles retomam, pela via
paródica, o discurso antissemita da época (“não lhe darei indulto / porque
vocês mataram Jesus Cristo”, “não insista, / capitalista-ovino-bolchevista”),
retrucado de maneira irônica pelo cordeiro (“—Foi a loba romana que fez isto /
e mesmo que um cordeiro fosse o algoz / de quem, como Agnus Dei, era um de nós, / seria assunto nosso”). O tom geral do
poema é o da farsa dramática, com elementos da fábula, do conto de fadas, da
sátira política.
Diferente é o tom de A
estátua de Wallenberg, composição
alegórica onde revezam momentos de lirismo, ironia e gravidade. Com perícia
impecável, o poeta retrata as constantes mudanças políticas na Hungria,
sobretudo no período entre a I Guerra Mundial e o final da Guerra Fria, pela
alegoria das trocas de estátuas nas praças públicas de Budapeste: “Na Hungria
as ruas mudam / de nome com frequência: / primeiro, imperadores; / herois,
então, de alguma / causa; depois, herois / da causa oposta; bardos / e
novamente os mesmos / imperadores. Entre / uma floresta negra / e um mar idem,
sob uma / ponte suspensa...”, finalizando, com aguda ironia, que “... até /
mesmo as estátuas podem /sofrer vicissitudes / demasiado humanas”. Nestes dois
poemas, que dialogam com a vida e a história, o artífice Nelson Ascher logrou a
unidade entre texto e contexto no artefato estético, elevando sua poesia à
dimensão da logopeia.
Parte alguma,
seu livro mais recente, publicado em 2005, apresenta peças menos ambiciosas –
poemas bem-humorados, peças de circunstância, paródias de gêneros poéticos
tradicionais como a cantiga medieval (“Quem ta a fim duma gata bacana, / venha
comigo a Copacabana / e vamos pegar umas ondas”), o limerick (“Havia um surfista em Recife / que usava só pranchas de
grife. / Tubarões, todavia, / devoraram-no um dia / pensando tratar-se de um
bife”), o epigrama (“Fazer um epigrama não demora : / compõe-se um Mahabharata e se joga, / salvo as
últimas linhas, tudo fora”) e o epitáfio (“Aqui jaz Nelson Ascher consumido /
pelo amor-próprio não correspondido”). Nestas e em outras peças do volume, o
autor adota a linguagem coloquial, a gíria, o palavrão, ditados populares
alterados (“todos os trilhos / vão dar no matadouro”), obtendo, diversas vezes,
bons resultados, mas sem obter a mesma densidade estética e referencial do
livro anterior.
O poema mais ambicioso formalmente de Parte alguma talvez seja Pomos
de ouro, composição dividida em dez partes breves que relatam, de maneira
fragmentária e evasiva, uma viagem a Itália, em versos livres e contínuos, sem
cortes gramaticais ou elípticos; em cada seção, as linhas desdobram-se como se
fossem uma única interminável sentença, com pausas para a respiração no espaço
em branco da página. É preciso destacar também a série de sonetos satíricos que
encerram o volume, em que o poeta se vinga da crítica, da amada, de sua cidade
natal e da própria obra, no soneto de título paródico Algo de escuro.
sábado, 1 de agosto de 2015
UM POEMA DE DÉCIO PIGNATARI
(farsa
trágica)
Onde eras a mulher deitada, depois
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema:
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.
A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.
É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miras-te no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter(ataúde e espelho)morres.
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miras-te no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter(ataúde e espelho)morres.
Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:
Tudo passa neste rio, menos o rio.
Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu te componha, recompondo:
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu te componha, recompondo:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das persianas.
Guilhotinas de luz lapidam o teu dorso em rosas: tens um punho decepado e um
seio bebendo na sombra. Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas).
Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
“Há uma estátua afogada...” (Em câmara lenta! – disse).
“Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz (ardo
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos.”
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
“Há uma estátua afogada...” (Em câmara lenta! – disse).
“Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz (ardo
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos.”
Choremos por todos – soluço, e entoandum
litúrgicos impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicédio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.
litúrgicos impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicédio AAquela
que deitada era um poema e o não é mais.
Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo do retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:
subterrâneo do retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:
Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.
Décio Pignatari (1927-2012)
sexta-feira, 31 de julho de 2015
A LUNETA MUTANTE DE FABIANO CALIXTO
Fabiano Calixto publicou em 2000
o seu livro de estreia, Fábrica, que
denota, já no título, tanto a paisagem industrial quanto a própria manufatura
poética, como observou Horácio Costa no texto de apresentação ao volume. Já na
epígrafe de Rimbaud – “La ville, avec sa fumée et ses bruits de métiers...” a
referência urbana e fabril se impõe e será desenvolvida num conjunto
consistente de poemas, construídos conforme princípios de concisão e alta
precisão vocabular: “asfalto / pneus e motores / repouso de gotas / chuva / --
o brilho / dos postes / reabastece a ideia / de universo” (maio). Ao longo da leitura, somos surpreendidos por “máquinas /
vapores / produtos reagentes / peças às dezenas” (máquinas / fábrica 2), pelo “muro-vitiligo” (último dia / fábrica 3) e ainda por “caixas metálicas / que exalam
ferrugens” (sobre caixas metálicas),
imagens de uma “coagulada paisagem” (quase
calçada) em que nos deparamos com “ratos cruzando / ruas desertas” e
“baratas explicando / metáforas” (fragmentos).
O cenário urbano e industrial, no entanto, é apenas um dos planos narrativos do
volume, em intersecção com outro plano, subjetivo ou intimista: “mãos emolduram
/ o rosto / bomba explode / avessa / lágrimas / atravessam / o piso / exemplo
de silêncio” (em vidro), “uma hora /
de música / um quinto / cigarro / para passar o tempo / -- rumor de fresta /
noite de maio / uma espera / acesa / durando uma estrela”. O elemento construtivista da poesia de
Fabiano Calixto, poeta pernambucano que reside na cidade de Santo André,
situada no ABC paulista, deriva da leitura atenta de João Cabral de Melo Neto e
da Poesia Concreta, mas também de poetas que derivam da vanguarda concretista,
como Paulo Leminski e Régis Bonvicino, este último autor do livro Ossos de borboleta, cuja poesia
concentrada exerceu influência em muitos poetas jovens na década de 1990, entre
eles o próprio Fabiano Calixto, Tarso de Melo e Kleber Mantovani, que juntos
editaram os três números da revista literária Monturo. Bonvicino também
divulgou no país poetas norte-americanos como Robert Creeley, Michael Palmer e
Charles Bernstein (este último, integrante do movimento literário conhecido
como Language Poetry), que foram
referências importantes para os jovens poetas reunidos em torno de Monturo.
É possível verificar, nesta
primeira fase da poesia de Fabiano Calixto (e também no livro A lapso, de Tarso de Melo, publicado em
1999), diversos procedimentos que derivam desse repertório minimalista, como o
uso exclusivo de letras minúsculas, o espaço duplo entre as linhas, os verbos
no infinitivo, a elipse, a metonímia e certas imagens e metáforas de sabor
surrealizante, à maneira dos “botões tenros” de Gertrude Stein: “matemático-céu
/ onde nuvens inteiras / fracionam o céu” (máquinas
/ fábrica 2), “mamífero-ave / de manobras concisas / costura águas / com
seu voo”. O uso ostensivo desses recursos é verificável também na poesia
inicial de outros poetas que se aproximaram de Bonvicino, como é o caso de
Virna Teixeira, Angela de Campos e André Dick, que constituíram uma das
vertentes da poesia brasileira na década de 1990.
No caso específico de Fabiano Calixto, a influência do autor de Ossos de borboleta será reduzida nas obras posteriores, que estabelecem outros diálogos intertextuais, como é o caso de Música possível, seu segundo livro de poemas, publicado em 2006, cujo titulo remete a um verso de Carlos Drummond de Andrade: “A música se embala no possível, / no finito redondo, em que se crispa / uma agonia moderna”. Nesta nova coletânea, o corte preciso das linhas, o discurso recortado pela elipse e a dimensão geométrica ainda estão presentes, mas o eu lírico se sobrepõe, pela fluência melódica dos versos, timbre intimista e certo confessionalismo, que não decai, porém, no sentimentalismo, como por exemplo no poema Quanto,: “entre noites / melancólicas, / ruas sem saída, / dia após dia / piorando a ferida / aberta”, construído num fluxo narrativo linear, em primeira pessoa e versos curtos, dispostos numa coluna vertical.
No caso específico de Fabiano Calixto, a influência do autor de Ossos de borboleta será reduzida nas obras posteriores, que estabelecem outros diálogos intertextuais, como é o caso de Música possível, seu segundo livro de poemas, publicado em 2006, cujo titulo remete a um verso de Carlos Drummond de Andrade: “A música se embala no possível, / no finito redondo, em que se crispa / uma agonia moderna”. Nesta nova coletânea, o corte preciso das linhas, o discurso recortado pela elipse e a dimensão geométrica ainda estão presentes, mas o eu lírico se sobrepõe, pela fluência melódica dos versos, timbre intimista e certo confessionalismo, que não decai, porém, no sentimentalismo, como por exemplo no poema Quanto,: “entre noites / melancólicas, / ruas sem saída, / dia após dia / piorando a ferida / aberta”, construído num fluxo narrativo linear, em primeira pessoa e versos curtos, dispostos numa coluna vertical.
Simplicidade e recorte preciso de imagens, à maneira do Objetivismo
de William Carlos Williams, estão presentes numa composição dividida em três
estrofes, intitulada Uma tarde, em
que lemos: “pedras / aquário / alguns legumes / na água (...) / nesta tarde /
apenas a luz / do sol / acariciando cores / no vitral”. Em outra peça,
intitulada Na rota do Jardim Alvorada,
encontramos essa mesma leveza na criação de uma paisagem: “ônibus quase / vazio
– a lua -- / semana da paixão / brisa leve / carregando / pétalas entre / conversas
/ de esquina”. Se no livro anterior a imagem fabril era a dominante, em Música possível é o cotidiano de
pequenas ações, como ouvir um disco dos Beatles, fumar um cigarro, caminhar à
noite nas ruas, embora também surjam imagens de “cigarras serrando / sentidos
ao meio”, de “relógios” que “pautam o caos” e de “ratos” que “defecam / sobre
os livros”, figuras herdadas da poética de Bonvicino, que atribui aos animais
ou a objetos inanimados ações impossíveis.
Em outra peça, intitulada Paisagem, dedicada a Ronald Polito,
encontramos uma linha de alto impacto semântico: “a paisagem brota como de um
aborto”, com o jogo quase anagramático entre os termos brota e aborto. No poema Horário de almoço, Mauá, outro verso
incisivo: “eu: vivamente morto: / respiro), construído como um paradoxo
barroco. Na segunda parte do livro, Ônix,
encontramos uma das composições mais intimistas de Fabiano Calixto, Canção para minha Avó Preta, que
consegue moldar a memória familiar (real ou inventada) em versos fluentes,
melódicos e narrativos que escapam ao risco da facilidade sentimental e
retórica: “noite clara / como se, da batida / dos atabaques, se / desprendessem
/ sóis diversos / ajudando a lua / a compor a paisagem”. Em três outras peças
desta seção do livro, o poeta, sob o influxo de Antonio Risério, dedica-se ao oriki, ou canto ritual de louvor aos
orixás: Oxumaré entre os iorubás, Iemanjá e A
zanga de Exu, este último, de apenas oito linhas curtas, talvez o poema
melhor realizado da série: “quando / a sanha / a zanga / insana / o consome /
Exu sangra / com os pés / a pedra”.
Domínio técnico, imaginação, sensibilidade e variedade temática fazem de
Música possível o melhor livro de
Fabiano Calixto, e talvez um dos melhores livros de poesia publicados por
autores de sua geração. O mesmo não podemos dizer de Sanguínea, terceiro livro publicado pelo poeta, e o mais irregular
de todos. A “retórica das dedicatórias” apontada por Marcos Siscar em seu
posfácio ao volume soa antipática, bajulatória;
já nas primeiras páginas do livro, encontramos poemas endereçados a
autores de prestígio midiático e próximos às revistas Inimigo Rumor / Modo de Usar;
é algo que não acrescenta nada aos textos, mas indica o contexto em que foram
escritos. É uma explicitação de relações de amizade e de grupo literário, não
de um ideário estético ou ideológico. O
título do livro, Sanguínea, motiva
diversas leituras – vitalidade, visceralidade, expressividade, qualidades que
notamos, sobretudo, em Fábrica e Música possível, mas não nesta coleção
de poemas, em que há uma dose maior de artificialidade, como se o autor
buscasse, conscientemente, adotar outra linguagem, diferente da sua, por
motivos menos poéticos do que práticos: para se firmar como membro de um grupo
literário, de notória visibilidade midiática e editorial.
Há, sim, bons poemas
em Sanguínea, naqueles em que notamos
vestígios de sinceridade do poeta – textos que foram escritos por uma
necessidade íntima de retratar um cenário, estado de espírito ou de testar
recursos da criação poética pela própria beleza de uma sonoridade, de uma
metáfora, não para agradar a quem
quer que seja. Assim, por exemplo, em Uma
paisagem de São Paulo,onde lemos:
“antes da chuva, o mendigo / já estava morto / (uma flor suja – pétalas /
despencando da camiseta – sua / única coroa). Pedaços do esqueleto, um dos raros poemas em prosa escritos até
então por Fabiano Calixto, também é notável pela fluência melódica e imagens de
alto impacto: “se eu quebrar com meus sonhos / e só restar o tédio medonho, / a
decrepitude, a tristeza infinita / o monturo (na escrita, na vida)”, texto que
confirma o timbre melancólico, desencantado, do poeta. Outra composição que se
destaca, agora pela extrema sutileza da escrita, é Delicadeza: “novamente a vi dormir / novamente o cheiro / e aquele
último trovão / acendeu todo o quarto / iluminou sua nuca”.
Há poemas longos,
com dicção próxima à prosa e coloquialidade mais acentuada, como Simão no deserto, The ballad of Sid & Nancy e a série de “e-mails” – para Torquato Neto, Marcelo Montenegro, Adriana
Calcanhoto e outras personalidades do mundo literário e musical, vivas ou
falecidas – que revelam um esforço em testar novas possibilidades, renovar o
arsenal linguístico, mas que se perdem, muitas vezes, pelo abuso de
referências, citações e emulações dos autores homenageados; é uma poesia de
circunstância, limitada pelo contexto excessivo. A melhor poesia de Sanguínea não está nas composições
endereçadas a amigos, mas naquelas que o autor escreveu porque era preciso
escrevê-las, sem nenhuma motivação além do próprio jogo textual.
Nominata morfina, livro mais recente de Fabiano Calixto, publicado em 2014, é uma surpreendente coleção de poemas em prosa, sem um desenvolvimento narrativo linear, que mescla referências biográficas, literárias, históricas e políticas de maneira bastante livre e fluente. É possível pensarmos aqui na ruptura dos gêneros literários, inaugurada entre o final do século XVIII e início do XIX por Goethe, no Fausto (mescla de poesia-teatro-narrativa) e Baudelaire, nos Pequenos poemas em prosa – obra que desencadeou a Temporada no inferno de Rimbaud e os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, até as Galáxias de Haroldo de Campos e o Catatau de Leminski. A escrita poética híbrida permite incorporar todos os discursos possíveis em seu fluxo melódico: da lista de compras à bula de remédio, da partitura sinfônica a cálculos matemáticos, transformados em elementos narrativos, sem perder a sua condição de índices ou ícones, conforme as categorias da semiótica de Charles Peirce. No livro de Fabiano Calixto, a miscigenação de signos é bem mais modesta: encontramos a forma do diálogo teatral, no fragmento intitulado Delirismo – Um poema sobre o tempo (para vozes), em que há personagens como O Cacto Mentecapto, O Respeitável Público, Nicole Kidman, Gregório de Matos e o Bandido da Luz Vermelha; a forma musical do tema e variações, no fragmento intitulado Herança (Presto), em que a mesma frase é repetida, ao longo de seis páginas, em diferentes corpos de letras, cada vez menores, até a escrita tornar-se ilegível; a paródia da linguagem dos e-mails, do diário, da crônica, da letra de canção popular etc.
Nominata morfina, livro mais recente de Fabiano Calixto, publicado em 2014, é uma surpreendente coleção de poemas em prosa, sem um desenvolvimento narrativo linear, que mescla referências biográficas, literárias, históricas e políticas de maneira bastante livre e fluente. É possível pensarmos aqui na ruptura dos gêneros literários, inaugurada entre o final do século XVIII e início do XIX por Goethe, no Fausto (mescla de poesia-teatro-narrativa) e Baudelaire, nos Pequenos poemas em prosa – obra que desencadeou a Temporada no inferno de Rimbaud e os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, até as Galáxias de Haroldo de Campos e o Catatau de Leminski. A escrita poética híbrida permite incorporar todos os discursos possíveis em seu fluxo melódico: da lista de compras à bula de remédio, da partitura sinfônica a cálculos matemáticos, transformados em elementos narrativos, sem perder a sua condição de índices ou ícones, conforme as categorias da semiótica de Charles Peirce. No livro de Fabiano Calixto, a miscigenação de signos é bem mais modesta: encontramos a forma do diálogo teatral, no fragmento intitulado Delirismo – Um poema sobre o tempo (para vozes), em que há personagens como O Cacto Mentecapto, O Respeitável Público, Nicole Kidman, Gregório de Matos e o Bandido da Luz Vermelha; a forma musical do tema e variações, no fragmento intitulado Herança (Presto), em que a mesma frase é repetida, ao longo de seis páginas, em diferentes corpos de letras, cada vez menores, até a escrita tornar-se ilegível; a paródia da linguagem dos e-mails, do diário, da crônica, da letra de canção popular etc.
Em quase todos os textos que compõem o volume – cada fragmento é independente
dos demais, sem um fio condutor temático –, o eu lírico está presente, numa ego trip narcisista. A linguagem dos
fragmentos líricos é coloquial, sem cair, porém, nas facilidades excessivas dos
poetas prestigiados pela revista Modo de
usar & Co., da qual Fabiano Calixto é um dos editores e propagandistas.
Podemos estabelecer paralelos entre esse coloquialismo poético sério e aquele
praticado por poetas como Ademir Assunção, em A voz do ventríloquo, e Rodrigo Garcia Lopes, em Experiências extraordinárias, e ainda
Roberto Piva (citado numa das epígrafes do livro) em Estranhos sinais de Saturno. Todos estes poetas incorporaram o
universo pop das histórias em quadrinhos, do cinema e do rock and roll, misturados
às referências “cultas” da poesia e da prosa de vanguarda, da filosofia ou da
música de concerto, rompendo diques entre as categorias estáticas de “alto” e
“baixo” repertório. No caso de Fabiano Calixto, esse trânsito de linguagens e
territórios falhou em Sanguínea, mas
obteve ótimos momentos em Nominata
morfina, em especial nos fragmentos intitulados Entr’act, O coma de Cronos, Buceta mundo, Autópsia abstrata, para
citar poucos exemplos. É preciso assinalar ainda que o livro, publicado 50 anos
após o golpe militar de 1964, é dedicado pelo autor a “todos os mortos e
desaparecidos durante a violenta ditadura militar brasileira”, tema que
comparece em várias passagens do livro, registrando um dos momentos mais
dramáticos de nossa história recente.
O QUE ESTÁ EM JOGO?
A luta política que se trava no Brasil não é um episódio isolado, nem mesmo um episódio apenas latino-americano (há articulações golpistas em curso também na Argentina, Venezuela e Equador). Trata-se de uma batalha geopolítica internacional, que contrapõe o imperialismo norte-americano, de um lado, e os BRICs -- Brasil, Rússia, India, China e Africa do Sul -- de outro. Se Dilma cair, a direita fascista ficará fortalecida no continente para derrubar Maduro, Evo, Corrêa, Cristina, e recolocar a América Latina sob as botas dos EUA. Se Dilma esmagar o golpe, com o apoio de uma Frente Ampla de partidos e movimentos sociais, a crise do Império se agravará nos próximos anos. Esta é uma guerra de cachorros grandes, crianças.
quinta-feira, 30 de julho de 2015
NÃO PASSARÃO!
Este é o Brasil que os demotucanos querem trazer de volta: um
país semicolonial, dependente do capital internacional, hierarquizado, com
privilégios e desigualdade social. Por isso mesmo, desejam liquidar a
Petrobrás, as grandes empresas de engenharia civil, responsáveis pelas obras de
infra-estrutura, a pesquisa nuclear e as leis e programas sociais que
beneficiam a juventude, as mulheres, os negros e os trabalhadores. Por isso
mesmo desejam criminalizar o PT, o PSOL, o PCdoB e o conjunto da esquerda, para
depois atacarem o MST e os sindicatos, em sua ofensiva traidora e lesa-pátria.
NÃO PASSARÃO!
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