Por que a mídia e as grandes editoras, com apoio de alguns
escritores renomados, promovem a literatura de má qualidade, ao mesmo tempo que
fecham as portas para autores inventivos? Porque não estão preocupados com literatura,
e sim com a indústria do livro, que envolve vários "segmentos do
mercado" e "unidades de negócio" -- fábricas de papel, gráficas,
distribuidores, livrarias etc. Autores medíocres são facilmente vendáveis, não
exigem esforço de leitura, não perturbam o status
quo, são dóceis bibelôs, assim como as novelas de televisão. Claro: para
justificarem suas escolhas, as grandes editoras -- com apoio de alguns
escritores renomados -- promovem ou participam de feiras, concursos, prêmios,
viagens e outras ações que funcionam como campanhas de marketing para a
divulgação dos novos "produtos", ao mesmo tempo que atribuem uma
discutível aura de "seriedade" a seus enlatados.
sábado, 25 de julho de 2015
DESCOMEMORAÇÃO
DIA DO ESCRITOR? Não sei para que serve isso. Talvez para
lembrarmos que Literatura de verdade -- com "L" maiúsculo -- não é
aquela que participa de FLIPs, viaja para Frankfurt e Paris, e sim aquela que
tem a coragem de ser inovadora na forma e perturbadora no conteúdo. Como é o
caso do escritor palestino Ghassan Kanafani, morto num atentado a bomba
realizado pelo serviço secreto israelense, o Mossad. Literatura de verdade
incomoda muito. E às vezes até mata.
POEMAS DE CHARLES OLSON
THE PRAISES
She who was burned more than half her body
skipped out of death
Observing
That there are five solid figures, the Master
(or so Aetius reports, in the Placita)
concluded that
the Sphere of the Universe arose from
the dodecahedron
whence Alexander
appearing in a dream to Antiochus
show him
And on the morrow, the enemy (the Galates)
ran before it,
before the sing, that is
appearing in a dream to Antiochus
show him
And on the morrow, the enemy (the Galates)
ran before it,
before the sing, that is
EXALTAÇÕES
Ela que teve mais da metade de seu corpo queimado
escapou da morte
Observando
que há cinco figuras sólidas, o Mestre
(ou como relata Aetius, no Placita)
concluiu que
a Esfera do Universo ergue-se
do dodecaedro
aparecendo em um sonho para Antiochus
mostrou-lhe
E no dia seguinte, o inimigo (os gálatas)
escapou diante disso,
antes da canção, isto é
Tradução: Adriana Zapparoli.
You who followed Henry Thoreau
beware
Forbear to drive life into a corner
and think to trap her
She will slip way like any girl
and think to trap her
She will slip way like any girl
Men curiously without appetite
want wild muskrat meat
want wild muskrat meat
Você que segue Henry Thoreau
cuidado
Evite largar a vida num canto
e achar de acuá-la
Ela escapará de fino como qualquer moça
e achar de acuá-la
Ela escapará de fino como qualquer moça
Homens curiosamente fastiosos
comem carne de rato-almiscarado
comem carne de rato-almiscarado
under every green tree, sex
is sympathetic
magic
the uncontrolled use
Of analogy
characteristic of
early thought
a pillar of gold
and of emerald
hold up
the sky
and of emerald
hold up
the sky
"SOB CADA
VERDE RAMO ."
sob cada verde ramo, sexo
é satisfatória
mágica
o incontrolável uso
da analogia
inerente ao
pensar anterior
um pilar de ouro
e esmeralda
sustém
o céu
e esmeralda
sustém
o céu
TANTO E AMARA
I have heard the dread song I had not heard
in the middle of life, I had not heard.
I was all eyes, all things were, now they are blind
and I am, I crawl, do not know where I go
You who have heard will understand
death is a remote beginning.
I am rudimentary.
I grow a heart.
death is a remote beginning.
I am rudimentary.
I grow a heart.
I stumbled when I saw, knew high passage, persons
one imperial nature whose conclusion was
nothing, it is nothing.
I know now it was nothing.
one imperial nature whose conclusion was
nothing, it is nothing.
I know now it was nothing.
The wise man said, nothing dieth
but changing as they do one for another show
sundry forms. He lieth. I cannot have back my mother.
but changing as they do one for another show
sundry forms. He lieth. I cannot have back my mother.
In the grave, before the dirt goes, will go my love.
And what shall I be, which forms will plague me then
where shall I go, in what ditch pour what blood to hear
her voice, the love I hear, that voice now mingled
in the song,
the song of Worms?
And what shall I be, which forms will plague me then
where shall I go, in what ditch pour what blood to hear
her voice, the love I hear, that voice now mingled
in the song,
the song of Worms?
TANTO E AMARA
Ouvi a temível canção que não ouvi
à meia-idade, não ouvi.
Eu era todo olhos, tudo era, agora às cegas
e eu, rastejo, não sei para onde ir.
Você que ouviu vai entender
morte é um remoto começo.
Sou primário.
Cultivo um coração.
morte é um remoto começo.
Sou primário.
Cultivo um coração.
Vacilo quando vejo, conheci alta
travessia, gente
cuja imperial natureza de conclusão era
nada, nonada.
Agora sei que era nada.
cuja imperial natureza de conclusão era
nada, nonada.
Agora sei que era nada.
O sábio disse, nada morre
mas cambiando, como usa ser, um por outro, assumem
várias formas. Ele mentia. Não posso ter de volta minha mãe.
mas cambiando, como usa ser, um por outro, assumem
várias formas. Ele mentia. Não posso ter de volta minha mãe.
No túmulo, antes da sordidez, segue
meu amor.
Então que devo ser, que formas, então, me infestarão
aonde ir, em que vala verter o sangue de ouvir
a voz dela, o amor que ouço, naquela voz, ora, mesclada
na canção,
na canção dos Vermes?
Então que devo ser, que formas, então, me infestarão
aonde ir, em que vala verter o sangue de ouvir
a voz dela, o amor que ouço, naquela voz, ora, mesclada
na canção,
na canção dos Vermes?
"AT MIDNIGHT
AFTER HOURS OF LOVE."
At midnight after hours of love, I ate
and drank wine, sitting on the edge of the bed.
The whole time, I thought of Ovid
at Tomi. It could have been because I was wrapped
in a blanket.
"À MEIA-NOITE, APÓS HORAS DE AMOR..."
À meia-noite, após horas de amor, comi
bebi vinho, sentado à beira da cama.
O tempo todo pensei em Ovídio
num cobertor.
I can see in the night
No matter how close you are
But in the day, in the light
I see too many things to see this one
I see too many things to see this one
Well
BEM
Posso enxergar de noite
não importa o quanto estás rente
Mas de dia, à luz
vejo coisas demais para enxergar esta
vejo coisas demais para enxergar esta
bem
segunda-feira, 20 de julho de 2015
POEMAS DE GREGORY CORSO
SOL
(poema automático)
Sol hipnótico! sagrada quase eterna
esfera! taça em chamas! balbuciar do dia!
Sol, solar teia de calor! seca taça
tropical! sede aracníde! Sol, nãoágua!
Sol miséria sol ira sol doença sol
morte sol podre sol relíquia!
Sol baixo e torto sobre o céu
africano, derramado quase vazio, ampola oca, osso do sol,pedra do
sol, sol de aço, relógio de sol.
Sol dinossauro do elétrico
movimento extinto e fossilizado, balbucie!
Sol, temporada das temporadas,
pegar o verdadeiro peixe solar, na verde costa tomando sol como loucura.
Sol eros infernal superreal
conglomeração de ira miasmática!
Sol, seres do pôr do sol chocados
na desértica vida, cai!
Sol circo! tenda de hélio, apolo,
rá, sol, sun, triunfem!
O sol como uma fumegante nave caiu
no lago Teliphicci.
O sol como um fumegante disco
gelatinoso escorreu pelos alpes Telephiccianos
O sol comanda a noite e segue a
noite e comanda a noite.
O sol pode ser conduzido por uma
carruagem.
O sol como um fumegante pirulito
pode ser chupado.
O sol tem a forma de um dedo curvo
que te chama.
O sol gira anda dança foge corre.
O sol favorece a cítrica palmeira
de tuberculosos pulmões
O sol engole o lago e alpes de
Teliphicci a cada ascensão.
O sol não sabe o que é gostar ou
não gostar
O sol toda minha vida caiu no lago
Teliphicci.
Ó buraco constante onde tudo pra lá
é verdadeiramente Bizantino!
MINHAS MÃOS SÃO UMA CIDADE
minhas mãos são uma cidade, uma
lira
e minha mão em chamas assovia
e minha mãe toca Corelli
enquanto minhas mãos queimam
EXTRAVAGÂNCIA ITALIANA
O filho de um mês da Sra. Lombardi
morreu
Eu vi na funerária do Rizzo
uma enrugada e roxa cabeça que não
cresceu
Acabaram de rezar uma grande missa
pra ele
Agora estão saindo
...uou, tão pequeno caixão
E dez cadillacs preto o carregando.
TENHO SAUDADES DE MEUS
QUERIDOS GATOS
Minhas mãos aquareláveis agora
estão sem gatos
Sentado aqui sozinho no breu
minha cabeça em forma de janela
está curvada com tristes cortinas
Estou sem gatos sem vida quase
atrás de mim meu último gato
enforcado na parede
morto por minha mão bêbada inchada
E em todas outras paredes do
sotão á adega
minha triste vida de gatos
enforcados
EU SOU 25
Com um amor uma loucura por Shelley
Chatterton
Rimbaud
e o latido de necessidade da minha
mocidade
passou de ouvido a ouvido:
EU ODEIO VELHOS POETAS!
Especialmente velhos poetas que se
retratam
que consultam outros velhos poetas
que contam sua juventude em
sussurros
dizendo: -- Eu fiz esses naquela
vez
mas isso foi naquela vez
foi naquela vez--
Ô eu iria, velhor que falar nunca
fez,
a eles dizer: --sou seu amigo
o que vocês eram, através de mim
serão mais uma vez--
E a noite na confiança de seu lar
suas desculposas línguas arrancar
e seus poemas roubar.
TRÊS
1
O cantor de rua está doente
agachado na fachada, segurando o
coração.
uma canção a menos na ruidosa
noite.
2
Fora do muro
o envelhecido jardineiro planta
suas tesouras
Um novo jovem
veio podar a cerca viva
3
A Morte chora porque a Morte é
humana
passa o dia todo no cinema quando
morre uma criança.
SUICÍDIO EM GREENWICH VILLAGE
Braços abertos
mãos pressionando pra fora da
janela
Ela olha pra baixo
Pensa em Bartok, Van Gogh
e nos desenhos do New Yorker
Ela cai
Tiram ela dali com um Daily News na
cara
E o lojista joga água quente na
calçada
HINO DO MAR
Minha mãe odeia meu mar
meu mar devo afirmar.
Eu a avisei contra isso
era o mínimo a ser dito.
Dois anos demorou
mas o mar a devorou.
Na beira do mar achei uma estranha
mas linda comida;
Perguntei ao mar se podia comer
e sim eu podia.
--Oh, mar, que peixe
macio e doce este é?--
--De tua mãe o pé--foi a resposta
Tradução: Matheus Carrera Massabki
A NOVA ABISSÍNIA DE JOCA REINERS TERRON — OU: O MONSTRO DO PÂNTANO DE CUIABÁ
Joca Reiners Terron é conhecido por
sua obra ficcional, em que se destacam os romances Não há nada lá (2001), Curva
do rio sujo (2004) e os de narrativas breves Hotel Hell (2003) e Sonho
interrompido por guilhotina (2006), mas o autor também publicou dois
notáveis volumes de poesia: Eletroencefalodrama
(1998) e Animal anônimo (2002). Sua literatura é geralmente relacionada com o
universo marginal ou “transgressivo” por seu diálogo com as histórias em
quadrinhos, música pop, filmes de ficção científica, pelas colagens ficcionais
(Aleister Crowley, Jimi Hendrix e William Burroughs aparecem como personagens
em Não há nada lá), bem como pela
acentuada coloquialidade e atmosfera boêmia que recorda a prosa de Charles
Bukowski, referência temática e mesmo comportamental para muitos prosadores
brasileiros na década de 1990. Este universo simbólico, porém, não resume toda a escrita do autor e seria injusto
atribuir a ele o rótulo de pop ou underground, atitude que não ilumina a
multiplicidade de aspectos de sua obra. Joca Reiners Terron é, sobretudo, um
bom leitor; a afirmação pode parecer
inútil ou tautológica, na medida em que todo bom poeta e ficcionista é acima de
tudo um bom leitor, mas no caso de sua escrita poética as trilhas intertextuais
conduzem a um singular campo de metamorfose: os signos que remetem a outros
textos, imagens e autores são subvertidos, transmutados, e dão origem a outros
textos, inconfundivelmente pessoais. Joca Reiners Terron é um dos raros poetas
de sua geração que têm voz única, terrosa, ou antes terroniana, sem deixar de ser um vasto palimpsesto de outras vozes
e visões. Em seu livro de estreia, Eletroencefalodrama,
notamos a presença do ready-made nos
textos visuais Hi-A. Zo, inseridos ao longo do volume, à maneira dos recortes e
montagens de desenhos e fotografias extraídos de revistas e almanaques antigos realizados
por Sebastião Nunes na Antologia mamaluca
e Valêncio Xavier em O mez da grippe;
poemas visuais construídos a partir de uma sequência cinética de ampliações da
foto de uma folha de árvore (Constellatio)
ou pela espacialização das palavras e substituição de vogais por fotos de fases
da lua (“a lua / de lingerie / ao longe / ri de mim”); o flash bem humorado de cenas do cotidiano (“semáforos / têm três
olhos / mas só abrem um / de cada vez”; “não existem / placas de trânsito / em
braile”); o erotismo sutil (“Cumprimentei a Noite / ela sorriu e me mostrou /
seus peitos brancos”); a paródia de citações de autores célebres (“quando
morrer / quero ser um livro”, com eco de Mallarmé); a incorporação do grotesco
e do fescenino (“Caso o mundo te visse / com olhos de Medusa, / tornado seu
corpo seria / pedra duríssi- / ma. Sua alma, mineral, e / pequenas turquesas
(aqui e / ali) no olho / Precioso”, lemos em Uma joia no ânus). A forma clássica do soneto é recriada numa peça
memorável, Primeiro movimento, que
nos surpreende pelo ritmo sintático inusitado, construído pela pontuação
abrupta, cortes elípticos e jogos sonoros de rimas internas, aliterações e
paronomásias, que modulam uma dicção áspera, de quebra-língua: “brinco inca;
câmara de tintas; finca pé ante o nono sono; / campo bento em que Onan brinca; / --
Palmo calmo de pele; pele-nuca; / naco branco que toda boca trinca; /
lacero-te; mas; não; nem; nunca; nunca”. Em outra composição, intitulada Mantenha distância, o poeta condensa em
linhas enxutas o seu antidiscurso de simultaneidades e sincronias: ”Acudo / os
/ sentidos com / a tosca lasca / do risco, / visto uma / pele desnuda / de
Puma, / arisco / assisto ao / rebolado de / avenidas, / sem susto. / Resisto
ainda / aos obeliscos / e cabarés, / me arrisco”, com trabalho notável de ritmo
e rimas. As linhas são recortadas numa operação de “violência organizada contra
a língua” (Jakobson), buscando o efeito sonoro áspero, rascante, algo entre a
guitarra de punk rock e o
expressionismo abstrato de Jackson Pollock. A língua pedrosa de Joca Reiners
Terron torna-se ainda mais dissonante e brutalista em seu segundo livro de
poemas, Animal anônimo, publicado em
2002, que reúne breves paisagens verbais da cidade de São Paulo, tendo como leitmotiv o Elevado Costa e Silva,
conhecido como “Minhocão”: “Elevado onde / cantam os canos / da GARRA / nascem
da noite / seus animais / minúsculos / a vérmina / a devorá-la / dá-se ao
osso”. A violência urbana, tema comum aos prosadores do período, atravessa os
poemas de Animal anônimo, onde até “o
vigia / do templo budista usa / uma glock 9 milímetros ”, imagem
que recorda as graphic novels de
Frank Miller ou os filmes de Tarantino. Personagens de seriados e histórias em
quadrinhos, aliás, invadem a narrativa poética, de maneira alegórica ou
paródica, criando as mais insólitas situações, como acontece no poema Sex horror show: “Se Godzila goza /
Tóquio em polvorosa / cai uma chuva viscosa / como manga com leite. / O Drácula
ejacula / e o seu dia encurta / King Kong esporra, range / esfrega no Empire
State / e mostra a língua hirsuta / A noite se alonga, larga / pra Kong e
Jéssica Lange / que tira a tanga e sonha / ser mulher-macaco, a Monga / que
sacode a grade, a luz apaga / e a noite segue, de encontro / em encontro, numa
suruba monstro”. Escatologia, monstruosidade e sexo bizarro são algumas das
obsessões favoritas do poeta, encenadas em narrativas poéticas dispostas em
diferentes seções do livro, que incorporam ainda personagens criados pelo
próprio poeta, como MC Medo e DJ Fedor, encontrados mortos no poema Um giro no maverick dos subúrbios,
vítimas de um desconhecido serial killer.
O tom fantasmagórico ou circense dos poemas narrativos de Terron estabelece um
diálogo textual com o poeta “maldito” por excelência da década de 1960, Roberto
Piva, aliás homenageado numa das peças do volume, intitulada Cine Piva, onde lemos: “Largos são invadidos
por pastores com ternos / pequenos demais acompanhados por missionários /
ex-gays prestes a morrer de gestos / exagerados e políticos pederastas”, linhas
de fluência melódica próxima ao andamento da prosa, assim como acontece em Paranoia ou Piazzas, de Piva. A linguagem desbocada do poeta “maldito” de São
Paulo também aparece em pequenos poemas irônicos ou satíricos como “anseia /
pela buceta / da sereia / coisas / impossíveis” e “a poesia é inútil / o poeta
/ perigoso / (...) enfia este poema / no seu cu / agora canta”. Farpa, aspereza
e atrito estão presentes em todo o volume, combinados a um rigoroso
construtivismo visual que orienta a própria concepção visual do livro, onde
trechos de poemas, com as palavras recortadas, quase ilegíveis e em fonte
maior, são colocados nas páginas pares, em nítido contraste com os poemas que
aparecem nas páginas ímpares, numa dialética entre som e ruído, figura e
sentido. Entre as duas colunas de textos, dispostas à esquerda (pares) e à
direita (ímpares), o autor inseriu borrões de tinta que simulam formas de
folhas, insetos, pegadas ou aves, ampliando a zona de indeterminação. Os poemas
respondem a esse torvelinho em sua própria disposição espacial e na variação de
fontes e corpos de letras, recursos que derivam do Lance de dados de Mallarmé e seus desdobramentos em Apollinaire, na
Poesia Concreta, mas que também se aproximam das montagens e colagens dadaístas
e surrealistas, em especial as pinturas “MERZ” de Kurt Schwitters. Não é
possível concluirmos este artigo sem fazermos referência à mitológica editora Ciência do acidente, fundada por Terron
no final da década de 1990, responsável pela publicação de obras seminais de
Valêncio Xavier, Glauco Mattoso, Manoel Carlos Karam, Ademir Assunção e outros
poetas e prosadores situados, na época, à margem do mainstream. Todos os livros da Ciência
do acidente ainda hoje chamam a nossa atenção pelos ousados projetos de
arte e apurado cuidado gráfico, que podem ser creditados ao olho vanguardista
de Terron, exilado na prosa à maneira de Rimbaud na Abissínia, em busca de
outras cores, aromas e percepções.
Claudio Daniel
é poeta, professor de Literatura Portuguesa e colunista da CULT. Publicou,
entre outros títulos, os livros de poesia Cadernos
bestiais e Esqueletos do nunca
(Lumme Editor, 2015).
quinta-feira, 16 de julho de 2015
POEMAS DE LOUIS ZUKOFSKY
THE
LINES OF THIS NEW SONG ARE NOTHING
The lines of this new song are nothing
But a tune making the nothing full
Stonelike become more hard than silent
The tune's image holding in the line.
AS LINHAS DESSE NOVO CANTO
NÃO SÃO NADA
As linhas desse novo canto não são nada
Só a melodia tornando pleno o vazio
Igual à pedra se faz mais dura que silente
A imagem sonora suspensa nessa linha.
Tradução: Claudio Daniel e Luiz Roberto Guedes
I
WALK IN THE OLD STREET
I walk in the old street
to hear the beloved songs
afresh
this spring night.
I walk in the old street
to hear the beloved songs
afresh
this spring night.
Like the leaves - my loves wake -
not to be the same
or look tireless to the stars
and a ripped doorbell.
not to be the same
or look tireless to the stars
and a ripped doorbell.
EU CAMINHO NA VELHA RUA
Caminho na velha rua
para ouvir amadas canções
outra vez
nesta noite de primavera
Como as folhas -
despertam meus amores -
não da mesma forma
ou olhar incansável para as estrelas
e a sineta arrancada da porta
não da mesma forma
ou olhar incansável para as estrelas
e a sineta arrancada da porta
Tradução: Claudio Daniel e Virna Teixeira
(A FRAGMENT)
And so till we have died
And grass with grass
Lie faceless as the grass
Grow sheathed with the grass.
Between our spines a hollow
The stillest sense will pass
Or weighted cloud will follow.
Between our spines a hollow
The stillest sense will pass
Or weighted cloud will follow.
(UM FRAGMENTO)
E assim até morrermos
E folha com folha
Jazer sem olho feito folha
Viça embainhada de
folha.
Entre nossas espinhas um vão
Que o mais quieto modo acolha
Nossas nuvens que choverão.
Entre nossas espinhas um vão
Que o mais quieto modo acolha
Nossas nuvens que choverão.
Tradução: Ruy Vasconcelos
THE GREEN LEAF THAT WILL OUTLAST THE WINTER
The green leaf that will outlast the winter
because sheltered in the open:
the wall, transverse, and diagonal ribs
of the privet that pocket air
around the leaf inside them
and cover but with walls of wind:
it happens wind colors like glass shelter,
as the light's air from a vault
which has a knob of sun.
A VERDE FOLHA QUE
SOBREVIVERÁ AO INVERNO
A verde folha que
sobreviverá ao inverno
porque oculta no
vão, protegida:
o muro,
transversal, e as nervuras diagonais
da alfena que mantém o ar
da alfena que mantém o ar
ao redor e dentro
das folhas
e coberta mas com
muros de vento:
cores de vento como
se fossem um abrigo de vidro,
como as luzes
aéreas de uma abóbada
que tem o botão do
sol.
Tradução: Adriana Zapparoli e Claudio Daniel
A POESIA-PINTURA DE ELSON FRÓES
A poesia visual brasileira, elaborada
com recursos da tecnologia digital ou meios artesanais, ainda encontra
resistência em uma parcela da crítica literária, incapaz de avaliar essa
produção conforme modelos teóricos eficazes para a interpretação de textos
tradicionais, mas inadequados para a compreensão de experiências poéticas que
transcendem a linguagem escrita, como a poesia sonora, a performance, a holografia ou a videopoesia. O próprio caráter
visual da escrita, evidente nas tipologias de letras, disposição das linhas e
no aspecto gráfico do objeto livro, torna-se quase invisível para essa crítica,
como observou a poeta portuguesa Ana Hatherly ao propor uma “reinvenção da
leitura” que leve em consideração, como elemento constitutivo da construção do
sentido, a forma visual da escrita. A autora publicou uma obra de referência
para o estudo da poesia visual, a antologia A
experiência do prodígio, que reúne textos visuais barrocos e maneiristas
portugueses dos séculos XVII e XVIII, sem omitir informações sobre as origens
greco-latinas dessa modalidade poética, como as composições de Símias de Rodes,
datadas do século III a. C. No Brasil, após o movimento da Poesia Concreta,
iniciado da década de 1950, com o trabalho poético, crítico e tradutório de
Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, uma nova geração de poetas tem
realizado interessantes pesquisas sobre as possibilidades de interação entre
escrita, som, imagem e movimento, destacando-se as inventivas obras de Arnaldo
Antunes, Lenora de Barros, André Vallias, Lúcio Agra e Elson Fróes. Estes
poetas veiculam seus experimentos poéticos em livros, mas também em outros
suportes, como o compact disc, a instalação, o videoclip, a performance poético-musical, o computador. O diálogo poético com as
novas tecnologias eletrônicas está presente, sobretudo, no trabalho do
paulistano Elson Fróes, criador de um dos primeiros sites de poesia publicadas
na internet a partir da década de 1990, Popbox.
Um bom exemplo das experiências do poeta com os recursos digitais é a animação
que criou para o poema Lua na água (http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/anim.htm),
de Paulo Leminski, em que o movimento das palavras e do ícone da lua na tela do
computador traduz visualmente o sentido da composição. Já no poema sonoro SUS (http://www.elsonfroes.com.br/sonora.htm),
Elson Fróes desloca o movimento para a oralização das palavras, explorando a
musicalidade de assonâncias, aliterações, rimas imprevistas, ecos e pausas. Sua
poesia visual, elaborada inicialmente com meios artesanais, como o recorte,
colagem e montagem de desenhos, fotos e textos em várias cores e tipologias de
letraset, foi digitalizada – e em alguns casos retrabalhada – em Popbox (na
página http://www.elsonfroes.com.br/visual.htm),
disponibilizando para o leitor/internauta a
sua insólita oficina de inventos. Em “a grama diz / o que o vento diz / o
indizível bis”, Elson Fróes cria um curioso haicai, em que a diagramação das
linhas mimetiza o movimento do vento nas folhas, enquanto a aplicação da cor
verde transforma as palavras em ícones vegetais, numa perfeita unidade entre
construção e sentido. Os recursos visuais utilizados por Elson Fróes são
coerentes com as possibilidades estéticas do haicai japonês, escrito no
alfabeto de ideogramas, que representam desenhos abreviados das coisas,
justapostos conforme técnicas de montagem, numa lógica pictórica e relacional
que combina diferentes elementos de maneira metafórica. Em Recifra-te, o autor realiza um poema enigmático que solicita a
intervenção do leitor para a decodificação do sentido, pela substituição das
figuras hieroglíficas por letras do alfabeto ocidental. Os enigmas, aliás, são
recorrentes na poesia barroca, cujos ecos ressoam na poesia em versos de Elson
Fróes, publicada em seu (até agora) único livro publicado, Poemas diversos (2008), onde lemos pequenas joias, como esta
belíssima composição: “se faz o ouro em volutas / que se revolve ao vento /
ouro revolto em movimento / e no coração como concha / traz uma pequena pérola
/ incrustada luz que refulge / no fundo da escuridão / pérola, luz, iluminada”.
(Artigo de Claudio Daniel publicado na edição de julho /2015 da
revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)
segunda-feira, 13 de julho de 2015
POEMAS DE ROBERT CREELEY
DE NOVO
Outro dia ido,
adiado, achado na
forma de dias.
adiado, achado na
forma de dias.
Teve início, teve
fim - foi adian-
tado, atrasado,
fim - foi adian-
tado, atrasado,
lento, logo um
sol brilhou, nuvens,
fiquei flutuando no ar
sol brilhou, nuvens,
fiquei flutuando no ar
um tempo com outras,
então desci
de novo ao chão.
então desci
de novo ao chão.
Lua alguma. Quarto de
espelunca - começar
de novo.
espelunca - começar
de novo.
NOVO MUNDO
Terra edênica, adâmico ser -
Estupidez o preço que você vai pagar
Por esse inútil saber.
Estupidez o preço que você vai pagar
Por esse inútil saber.
ESPELHO
Ver é crer.
O que foi pensado ou dito,
O que foi pensado ou dito,
essas mortes persistentes, inexoráveis,
fazem fé assim ausente,
fazem fé assim ausente,
nossa humanidade uma pergunta,
um nojo pelo que somos.
Seja que esperança for,
está perdida aqui.
Por termos cobiçado nossa diferença,
eis o preço.
um nojo pelo que somos.
Seja que esperança for,
está perdida aqui.
Por termos cobiçado nossa diferença,
eis o preço.
DEPOIS DE PASTERNAK
Acha tudo uma coisa só?
Pancada de neve, porta
do carro fechada, o sol brilhante,
paciente -
Pancada de neve, porta
do carro fechada, o sol brilhante,
paciente -
Quantos milhões de anos
para chegar e estar
aqui uma só vez -
nunca voltando -
para chegar e estar
aqui uma só vez -
nunca voltando -
Ah, triste margem de perspectiva -
janela exausta no passado -
agora, o que quer que viva
já não pode durar.
janela exausta no passado -
agora, o que quer que viva
já não pode durar.
VIDA
Para Basil
Claridade intensiva, específica,
como nada mais
que não seja
ela mesma -
como nada mais
que não seja
ela mesma -
isso ecoa assim,
vista, sentida, ouvida,
ou saboreada, uma só
e muitas. Mas
vista, sentida, ouvida,
ou saboreada, uma só
e muitas. Mas
meu punho golpeia
a porta, pedido
escasso, contrita entrada
quer mais.
a porta, pedido
escasso, contrita entrada
quer mais.
NATUREZA MORTA
Ainda
viva. Só
não anda.
viva. Só
não anda.
*
Traduções: Rodrigo Garcia Lopes
PARTITURAS DO INSÓLITO: A POESIA DE RICARDO ALEIXO
Ricardo Aleixo realiza sua
pesquisa poética em diferentes campos, como a etnopoesia, a performance, experimentos em poesia
visual e sonora, objetos tridimensionais, videoarte, canções, com raro domínio
técnico e sensibilidade, unindo a tradição da poesia de alto repertório aos
recursos tecnológicos e aos territórios simbólicos da cultura popular. Sua
poesia em verso, publicada em cinco livros – Festim (1992), A roda do mundo (1996, em parceria com Edmilson
de Almeida Pereira), Trívio (2001), Máquina zero (2003) e Modelos vivos (2010) revela um timbre
seco, áspero, que comunica “uma percepção crítica da realidade, na qual a forma
severa mimetiza de modo mordaz a escassez de um mundo rude, pobre, elementar”,
conforme escreveu o crítico Manuel da Costa Pinto[1].
Em seu livro de estreia, Festim, cujo subtítulo é um desconcerto de música plástica,
Ricardo Aleixo apresenta um conjunto de poemas breves, compostos em diferentes
tipologias de letras, espacializados com recursos de diagramação que denunciam
a ressonância da Poesia Concreta. A dicção de revolta, porém, já é bastante
pessoal e prenuncia futuras composições do poeta. Assim, por exemplo, nesta
peça sem título, composta numa fonte em que as letras aparecem inclinadas,
sugerindo uma escrita líquida: “neste código nesta culpa neste olho nesta
cólera / neste dardo nesta forma neste alvo nes / ta alma nesta danação neste
infernocéu...”. O poema resume, de maneira exemplar, o duplo compromisso do
autor, com a arte e o mundo, já em sua semântica: ao lado de termos que remetem
à “poesia pura” – código, forma, lira,
página – estão alinhados outros termos, indicativos da situação de exclusão
social em que ainda vivem amplas parcelas da população brasileira: culpa, cólera, danação, delito, lâmina,
inferno. Combinados a esses dois campos semânticos, como se fosse uma
camada intermediária, lemos ainda: ócio,
ópio, delírio, farsa, indicando
tanto a situação da classe hegemônica quanto a dos poetas indiferentes às
desigualdades sociais. É um violento poema de protesto, mas construído com rara
inteligência combinatória, que evita as facilidades discursivas da lírica
social.
Em outra peça sem título, de
apenas duas linhas, compostas numa fonte similar ao da escrita gótica, Ricardo
Aleixo alterna o brado ríspido com a fina ironia, porém, com o mesmo espírito
crítico: “fogo na alma O inferno também / é para quem pode”, que recorda as
paródias e paradoxos do polaco mulato Paulo Leminski. A fluência melódica, que
caracteriza uma das vertentes da poesia do autor mineiro, é bem representada,
neste volume de estreia, por outra composição: “incontáveis linhas / como que
dispersas / impensáveis línguas / como que dos persas / cruzam-se no infinito:
/ ou tornam-se linguagem / ou deixam o dito / por não dito”.
Emblemática da primeira fase da
poesia de Ricardo Aleixo, a peça explora de maneira feliz as aliterações e
assonâncias, concluindo o discurso poético com um dito popular que dessacraliza
a “pureza” da linguagem, revitalizando-a pela contaminação de outros
repertórios linguísticos (procedimento que verificamos em muitos de seus
companheiros de geração, como Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Ricardo
Corona e Maurício Arruda Mendonça). A
roda do mundo (1996), segundo livro publicado pelo autor, tem uma
estratégia diferente de Festim: em
vez da pesquisa visual, o poeta investe em outra seara, a dos cantos rituais
dedicados aos orixás das religiões de matriz africana, ou orikis, tema estudado pelo poeta e antropólogo baiano Antonio
Risério do livro Oriki orixá,
publicado no mesmo ano. Mistura de poesia, canto, sortilégio e prece
devocional, sem formas métricas ou rímicas fixas, os orikis tradicionais, compostos no idioma iorubá e cantados até hoje
nos terreiros de umbanda e candomblé, são ricos em trocadilhos, paronomásias e
outros jogos semânticos. Seu recurso mais característico é o epíteto, também
frequente na poesia épica grega, indiana e escandinava. Assim, Xangô é chamado
de “alafim de Oió” (soberano do reino de Oió), Ogum é “Oniré” (rei de Irê),
entre outros apelidos poéticos, ou “qualidades”, que destacam as
características de cada orixá.
Ricardo Aleixo, dialogando com
esse imaginário mitológico e manancial poético, criou um ciclo de dez orikis, que se destacam pela fluência
melódica: são poemas para serem lidos em livro, mas poderiam, facilmente, ser
cantados. No oriki dedicado a Iemanjá
(Mamãe grande), por exemplo, Ricardo
Aleixo consegue, pela repetição de contínua de três frases, um efeito quase hipnótico,
como na recitação de um mantra: “todas / as águas do mundo são / Dela, fluem /
refluem nos ritmos / Dela, tudo que vem, / que revém. todas / as águas / do
mundo são / Dela. / fluem refluem / nos ritmos Dela...”. A repetição das mesmas
frases sonoras, por outro lado, mimetiza, de forma icônica, o próprio movimento
das águas do mar, elemento regido por Iemanjá, Senhora das Águas. Outra peça
notável desse conjunto é o oriki de
Xangô, onde lemos: “O que / lança pedras / de raio / contra a casa / do curioso
/ e congela / o olhar do / mentiroso. Leopardo, / marido de Oiá. / Leopardo, /
filho de Iemanjá. / Xangô cozinha / o inhame / com o vento / que sai / de suas
ventas”, versos concisos e ferinos que recriam a virulência dos textos sonoros
iorubás, tal como apresentados a nós por um dos maiores especialista no
assunto, Pierre Verger, autor do clássico livro Os orixás.
Embora as “travessuras” dos
orixás nada tenham de incomum – fazem parte dos relatos mitológicos originais
das nações africanas, em particular dos grupos ketu, bantu, nagô e djedje, e
encontradas também em outras religiões e mitologias, como os “passatempos” de
Krishna, descritos no Srimad Bhagavatam –,
é impossível, para o leitor ocidental, não pensar na tradição coloquial-irônica
e erótico-satírica das cantigas de escárnio e mal-dizer até Gregório de Matos,
Bocage, Glauco Mattoso e outros autores “desbocados”. Em um oriki de Exu traduzido por Antonio
Risério, por exemplo, lemos: “Exu não deixa a rainha cobrir o corpo nu. (...) /
Surra de chicote a mulher do rei. / Deixa o chorão chorar / Vê gente se batendo
e não aparta. (...) / Agbô vê quando botam pimenta / Na buceta de sua sogra.
(...) / Atirando uma pedra hoje, / Mata um pássaro ontem”. No oriki de Exu escrito por Ricardo Aleixo,
predominam o paradoxo e a hipérbole, recorrentes também em outras modalidades
de poesia popular, como os romances de cordel: “Cabelo pontudo /como um falo. /
Dono dos oitocentos / porretes. (...) / Bará chega fungando. / O povo pensa /
que é o trem / partindo”.
Após a experiência mitopoética de
A roda do mundo, Ricardo Aleixo
retoma a pesquisa visual iniciada em Festim
no seu terceiro livro, Trívio,
publicado em 2001. No posfácio que escreveu para essa nova coleção de poemas,
Sebastião Uchoa Leite escreve: “a poética de Ricardo Aleixo é uma poética de
interstícios, interconexões, ou, como ele o dia, um ‘estático / teatro de
sombras // matéria de / que é / feita a / insônia’. (...) Como se disse antes,
tudo está imbricado: lirismo, citações cultas, referências míticas,
engajamentos (no poema ‘Brancos’, ‘brancos’ = machos = adultos = cristãos =
ricos = ‘sãos’, tudo aludindo à expressão corriqueira: ‘eles que são brancos
que se entendam’)”. Trívio (palavra
que significa a divisão inferior das artes liberais na Idade Média: gramática,
retórica, dialética, mas também a reunião de três caminhos) é um vasto
palimpsesto onde encontramos desde os índices cultos, como a epígrafe de Lezama
Lima, poemas que dialogam com a passante de Baudelaire, a lírica amorosa de
Goethe, a pintura de Caravaggio e a música de John Coltrane até peças de
surpreendente leveza, que estão entre as mais notáveis do volume, como Loa da menina deusa: “já perto do poente
/ o cabelo ornado / com invisíveis fios / de ouro / a menina uma / putinha da
areia uma / menina deusa / qualquer / inventa a um / simples meneio / dos dedos
/ um outro sol / e some / rápida / reconvertida em água”, peça que combina o
registro da imagem de uma banhista adolescente com a referência ao mito da
sereia e, talvez, a Iemanjá.
Em outra composição de versos
curtos encadeados, o poeta mineiro presta homenagem a Bispo do Rosário, artista
naif, dadaísta talvez sem sabê-lo,
triplamente excluído como negro, pobre e esquizofrênico: “quem fez e refez /
cem vezes o / caminho do mundo / até antes / cem vezes na / cabeça o longo /
trecho entre o / mar e o / céu / quem re fez o / caminho da perda / com seu
manto / de / ver deusfilho”. Neste poema, assim como em outros do volume,
podemos considerar que o texto inteiro é um único verso, com sintaxe completa,
dividido em linhas breves, que subvertem a linearidade e definem o ritmo da
leitura.
O mesmo princípio vamos encontrar
na peça Para uma eventual conversa sobre
poesia com o fiscal de rendas
(cujo título remete a Maiakovski), com a diferença de que, neste caso, em lugar
do verso curto, temos uma sequência de blocos de texto que dissolvem os limites
entre prosa e poesia, em linhas espacializadas, sem pontuação e com ritmo
anafórico: “minha própria língua meu / próprio limo meus próprios / ombros minha própria sombra / minhas próprias
vértebras / minhas próprias pálpebras (...) / meu próprio sinal de nascença
minha / própria calva meu próprio / cavalo minha própria idade: / minhas
propriedades”. Poema de ironia corrosiva, acentua um dos temas frequentes na
poesia de Ricardo Aleixo: a situação desconfortável do poeta numa sociedade
regida pela lógica do mercado e da mídia.
Em outros poemas de Trívio, encontraremos diferentes
estruturas comunicativas que convidam o leitor a descobrir rotas de leitura
distintas do padrão ocidental, que segue da esquerda para a direita, em linhas
horizontais. Nas peças de concepção visual mais acentuada, como a Canção noturna do fim de Peixes, Passagens,
Nota, o leitor participa da construção de sentido buscando outras formas de
leitura, da direita para a esquerda, na vertical, em ziguezague e em outras
rotas inusitadas, à maneira do labirinto visual do barroco português e da obra aberta de Umberto Eco.
Máquina zero, publicado em 2003, Ricardo Aleixo radicaliza a
vertente coloquial irônico-satírica já presente nos títulos anteriores. No
poema Paupéria revisitada, por exemplo, lemos: “Poetas, como os deuses, / vendem quando dão. / Poetas, não. /
Policiais e pistoleiros / vendem segurança / (isto é, vingança ou proteção). Poetas
se gabam do limbo, do veto / do censor, do exílio, da vaia / e do dinheiro
não)”. O tema se amplia, nas peças seguintes, num amplo painel crítico da
“república das letras”, em que a língua ferina do autor não poupa leitores,
editores, críticos e outros poetas: “Se praticais sonetos – anacrônico. / Se
pretendeis chocar – não paga o custo. / Se recriais Homero – macarrônico. / Se
experimentais – cópia do Augusto”. A própria cidade natal do poeta, Belo
Horizonte – ou Velhorizonte, no dizer irreverente de alguns de seus moradores –
não escapa da farpa e da virulência: “Se terra tem cu / Belo Horizonte é o cu
das terras”, / Averno oculto / entre as serras, / onde o próprio Belzebu // por
certo, não escaparia / ao riso dissimulado, / ao insulto / disfarçado / de
elogio, à vilania”, que recorda o brado cáustico de Gregório de Matos.
Novos modelos, livro mais recente de Ricardo Aleixo, publicado em
2010, apresenta surpresas já no projeto gráfico – desde a bela capa, que
reproduz a “fotografia digital (que assume diferentes formas) de objeto
construído com linhas de costura de diversas cores”, como esclarece o autor em
nota no final do volume, até a “releitura, com verniz aplicado, de poema-lema
produzido originalmente como um adesivo” nas “orelhas” do livro (“Tem que ter
palavra para ser humano”, de evidente ambiguidade referencial). A visualidade
está presente em poemas como 11 passos
para Merce Cunningham, composto de uma série de desenhos abstratos, ao modo
de variações, feitos com tinta acrílica sobre papel fotográfico.
O desfazimento das palavras – e
portanto do sentido – acontece também no díptico Real / irreal, em que uma única frase – “o real realiza o irreal” é
repetida em sequências que deformam palavras, sílabas e letras, até
convertê-las em manchas ou ruídos gráficos. Em outras composições desta seção
do livro, o autor apresenta novos labirintos-enigmas, como Babeladormecida, Einstein remix e Solo, que exploram possibilidades combinatórias e rotas de leitura
– recursos evidentes também no poema em prosa Cabeça de serpente (“a serpente morde a
própria cauda. a serpente pensa que morde a própria cauda. a serpente apenas
pensa que morde a própria cauda. a serpente morde a própria cauda que pensa.”)
e no labirinto de versos que constroi nos poemas Tempo e Errata, em que as
mesmas frases e palavras são distribuídas, nas duas peças, em diferentes
sequências e combinações.
Um ano entre os humanos, nome
de uma performance poético-musical apresentada por Ricardo Aleixo, é também o
título de um interessante poema em prosa incluído no volume, construído por uma
sequência de perguntas irônico-incisivas que, é claro, prescindem de respostas:
“Você beberia sangue humano? A filha da Madonna é humana? (...) A Barbie é
humana? Você acreditaria se lhe
dissessem que Michael Jackson, quando bebê, tinha feições humanas? (...)
Charles Darwin era humano? (...) Prisioneiros iraquianos arrastados por
coleiras são humanos? (...) Você é humano?”.
Notáveis também são os
autorretratos do poeta, distribuídos ao longo do volume, elaborados com câmera
digital e produzidos em seu “laboratório-casa” – montagens inusitadas de
letras, luzes, perfis e sombras, que nos fazem pensar nos artistas da vanguarda
russa da década de 1920, como Ródchenko. Todos estes poemas – e o livro não se
resume a esse breve elenco de inventos – situam Ricardo Aleixo não apenas entre
os poetas identificados com a poesia visual e o experimentalismo, mas também no
campo do neobarroco, entendido aqui
como a ampla teia de autores que, desde a década de 1970 até os dias atuais –
pensemos em Severo
Sarduy , José Kozer, Nestor Perlongher, Coral Bracho, Victor
Sosa, Reynaldo Jiménez – reelaboraram influências da poesia barroca do Século
de Ouro, à luz da tradição da modernidade. Todos os rótulos, é evidente, são
úteis para a compreensão e discussão de aspectos temáticos ou formais de um
autor ou geração literária, sem a pretensão de esgotar as chaves
interpretativas. No caso de um grande poeta, como é o caso de Ricardo Aleixo,
os rótulos colaboram para iluminar, parcialmente, momentos de transformação de
uma escrita camaleônica, rara e necessária ao nosso tempo.
quinta-feira, 9 de julho de 2015
POEMAS DE WALT WHITMAN
VOCÊ, LEITOR
Você, leitor, que pulsa
de vida e orgulho e amor,
assim como eu:
para você, por isso,
os cantos que aqui seguem!
de vida e orgulho e amor,
assim como eu:
para você, por isso,
os cantos que aqui seguem!
A UMA PROSTITUTA COMUM
Tranquilize-se, fique à vontade comigo
- eu sou Walt Whitman,
Liberal e saudável como a Natureza!
Antes que o sol a rejeite,
Antes que as águas se neguem
A rebrilhar por você
Ou as folhagens a sussurar por você,
Minhas palavras não se negarão
A rebrilhar e a sussurrar por você.
Garota minha, eu marco com você
Um encontro bem marcado,
E encarrego você
De fazer todos os preparativos
Para estar bem em forma
Ao encontrar-se comigo;
E encarrego você
De ser paciente e perfeita
Até a hora, eu saúdo você
Com um olhar cheio de significados
Para você não se esquecer de mim.
- eu sou Walt Whitman,
Liberal e saudável como a Natureza!
Antes que o sol a rejeite,
Antes que as águas se neguem
A rebrilhar por você
Ou as folhagens a sussurar por você,
Minhas palavras não se negarão
A rebrilhar e a sussurrar por você.
Garota minha, eu marco com você
Um encontro bem marcado,
E encarrego você
De fazer todos os preparativos
Para estar bem em forma
Ao encontrar-se comigo;
E encarrego você
De ser paciente e perfeita
Até a hora, eu saúdo você
Com um olhar cheio de significados
Para você não se esquecer de mim.
SAINDO DE PAUMANOK
(fragmentos)
Saindo da ilha em forma de peixe
onde eu nasci – Paumanok –
bem concebido e criado por uma perfeita mãe,
depois de andar muitas terras,
morando em Mannahatta, cidade minha,
ou nas savanas do Sul,
ou soldado acampado ou carregando
o fuzil e a mochila,
ou labutando nas minas da Califórnia,
ou bronco em minha casa nos bosques de Dakota,
a comer carne e a beber água de fonte,
ou escondido para meditar
em algum canto bem fundo
longe do estrídulo das multidões. (p. 18)1
Uma vez no Alabama, enquanto eu dava
o meu passeio matinal,
vi pousada uma fêmea de pardal
em seu ninho entre os galhos
chocando seus filhotes.
Eu vi também o passarinho-macho
e parei a escutá-lo
ao alcance da mão
inflando o peito e gorjeando em júbilo.
E estando eu ali parado, me ocorreu
que o canto dele
não era só para o que estava ali,
nem para a parceira dele
nem mesmo para ele só,
nem para tudo o que os ecos mandavam
de volta
− mas muito além, sutil e clandestina,
era mensagem transmitida e oculta herança
para os que estavam acabando de nascer.
onde eu nasci – Paumanok –
bem concebido e criado por uma perfeita mãe,
depois de andar muitas terras,
morando em Mannahatta, cidade minha,
ou nas savanas do Sul,
ou soldado acampado ou carregando
o fuzil e a mochila,
ou labutando nas minas da Califórnia,
ou bronco em minha casa nos bosques de Dakota,
a comer carne e a beber água de fonte,
ou escondido para meditar
em algum canto bem fundo
longe do estrídulo das multidões. (p. 18)1
Uma vez no Alabama, enquanto eu dava
o meu passeio matinal,
vi pousada uma fêmea de pardal
em seu ninho entre os galhos
chocando seus filhotes.
Eu vi também o passarinho-macho
e parei a escutá-lo
ao alcance da mão
inflando o peito e gorjeando em júbilo.
E estando eu ali parado, me ocorreu
que o canto dele
não era só para o que estava ali,
nem para a parceira dele
nem mesmo para ele só,
nem para tudo o que os ecos mandavam
de volta
− mas muito além, sutil e clandestina,
era mensagem transmitida e oculta herança
para os que estavam acabando de nascer.
CANTO A MIM MESMO
Celebro a mim mesmo
e canto a mim mesmo:
e o que eu assumo, vocês devem assumir,
pois cada átomo que a mim pertence
também a vocês pertence.
Folgo e convido minha alma,
dito-me e folgo à vontade
vendo no estio uma lança
de capim
Minha língua, cada átomo
do meu sangue, se forma
deste chão, deste ar:
nascido aqui, de pais aqui nascidos
de pais quanto a isso iguais
e os pais deles também,
eu, agora com 37 anos,
em plena saúde vou
contando não parar
até a morte
Crenças e escolas em estado latente,
por enquanto afastadas um pouquinho,
quanto para elas basta,
porém não esquecidas,
ao bem e ao mal dou guarida
e em qualquer circunstância
me permito falar
- natureza sem confronto
com a energia original
e canto a mim mesmo:
e o que eu assumo, vocês devem assumir,
pois cada átomo que a mim pertence
também a vocês pertence.
Folgo e convido minha alma,
dito-me e folgo à vontade
vendo no estio uma lança
de capim
Minha língua, cada átomo
do meu sangue, se forma
deste chão, deste ar:
nascido aqui, de pais aqui nascidos
de pais quanto a isso iguais
e os pais deles também,
eu, agora com 37 anos,
em plena saúde vou
contando não parar
até a morte
Crenças e escolas em estado latente,
por enquanto afastadas um pouquinho,
quanto para elas basta,
porém não esquecidas,
ao bem e ao mal dou guarida
e em qualquer circunstância
me permito falar
- natureza sem confronto
com a energia original
CERTA VEZ NUMA CIDADE
Certa vez eu passei
por uma cidade bem populosa,
guardando no meu cérebro impressões
para futuro emprego,
com suas mostras, sua arquitetura,
costumes, tradições,
embora dessa cidade eu agora
me lembre apenas de uma mulher
que encontrei por acaso
e me deteve por amor de mim
e juntos estivemos
dia por dia e mais noite por noite
— posso afirmar que só me lembro mesmo
dessa mulher que se apegou a mim
apaixonadamente,
de quanta vez andamos, nos amamos,
de novo nos deixamos,
de novo ela a pegar-me pela mão,
e eu sem precisar ir:
vejo-a bem perto a meu lado
de tristes lábios trêmulos
calados.
por uma cidade bem populosa,
guardando no meu cérebro impressões
para futuro emprego,
com suas mostras, sua arquitetura,
costumes, tradições,
embora dessa cidade eu agora
me lembre apenas de uma mulher
que encontrei por acaso
e me deteve por amor de mim
e juntos estivemos
dia por dia e mais noite por noite
— posso afirmar que só me lembro mesmo
dessa mulher que se apegou a mim
apaixonadamente,
de quanta vez andamos, nos amamos,
de novo nos deixamos,
de novo ela a pegar-me pela mão,
e eu sem precisar ir:
vejo-a bem perto a meu lado
de tristes lábios trêmulos
calados.
Traduções:
Geir Campos
(Do livro Folhas das folhas da relva, de Walt
Whitman. São Paulo: Brasiliense, 1983.)
Assinar:
Postagens (Atom)







