sábado, 25 de julho de 2015

SOBRE A "LITERATURA DE MERCADO"


Por que a mídia e as grandes editoras, com apoio de alguns escritores renomados, promovem a literatura de má qualidade, ao mesmo tempo que fecham as portas para autores inventivos? Porque não estão preocupados com literatura, e sim com a indústria do livro, que envolve vários "segmentos do mercado" e "unidades de negócio" -- fábricas de papel, gráficas, distribuidores, livrarias etc. Autores medíocres são facilmente vendáveis, não exigem esforço de leitura, não perturbam o status quo, são dóceis bibelôs, assim como as novelas de televisão. Claro: para justificarem suas escolhas, as grandes editoras -- com apoio de alguns escritores renomados -- promovem ou participam de feiras, concursos, prêmios, viagens e outras ações que funcionam como campanhas de marketing para a divulgação dos novos "produtos", ao mesmo tempo que atribuem uma discutível aura de "seriedade" a seus enlatados.

DESCOMEMORAÇÃO
















DIA DO ESCRITOR? Não sei para que serve isso. Talvez para lembrarmos que Literatura de verdade -- com "L" maiúsculo -- não é aquela que participa de FLIPs, viaja para Frankfurt e Paris, e sim aquela que tem a coragem de ser inovadora na forma e perturbadora no conteúdo. Como é o caso do escritor palestino Ghassan Kanafani, morto num atentado a bomba realizado pelo serviço secreto israelense, o Mossad. Literatura de verdade incomoda muito. E às vezes até mata.

POEMAS DE CHARLES OLSON











THE PRAISES

She who was burned more than half her body
                                                           skipped  out of death 

Observing 
That there are five solid figures, the Master 
(or so Aetius reports, in the Placita) 
concluded that 
the Sphere of the Universe arose from 
the dodecahedron
whence Alexander 
appearing in a dream to Antiochus 
show him 
And on the morrow, the enemy (the Galates) 
ran before it, 
before the sing,  that is


EXALTAÇÕES

Ela que teve mais da metade de seu corpo queimado
                                                                            escapou da morte 
Observando 
que há cinco figuras sólidas, o Mestre 
(ou como relata Aetius, no Placita) 
concluiu que 
a Esfera do Universo ergue-se 
do dodecaedro
de onde Alexandre 
aparecendo em um sonho para Antiochus 
mostrou-lhe 
E no dia seguinte, o inimigo (os gálatas) 
escapou diante disso, 
antes da canção, isto é


Tradução: Adriana Zapparoli.


A FISH IS THE FLOWER OF WATER

You who followed Henry Thoreau 
beware
Forbear to drive life into a corner 
and think to trap her 
She will slip way like any girl
Men curiously without appetite 
want wild muskrat meat


UM PEIXE É A FLOR DA ÁGUA

Você que segue Henry Thoreau 
cuidado
Evite largar a vida num canto 
e achar de acuá-la 
Ela escapará de fino como qualquer moça
Homens curiosamente fastiosos
comem carne de rato-almiscarado



"UNDER EVERY GREEN TREE..."

under every green tree, sex 
is sympathetic 
magic 
the uncontrolled use 
Of analogy 
characteristic of 
early thought 
 
a pillar of gold 
and of emerald 
hold up 
the sky


"SOB CADA VERDE RAMO ."

sob cada verde ramo, sexo 
é satisfatória 
mágica 
o incontrolável uso 
da analogia 
inerente ao 
pensar anterior
um pilar de ouro 
e esmeralda 
sustém 
o céu


TANTO E AMARA

I have heard the dread song I had not heard 
in the middle of life, I had not heard. 
I was all eyes, all things were, now they are blind 
and I am, I crawl, do not know where I go
You who have heard will understand 
death is a remote beginning. 
I am rudimentary. 
I grow a heart.
I stumbled when I saw, knew high passage, persons 
one imperial nature whose conclusion was 
nothing, it is nothing. 
I know now it was nothing.
The wise man said, nothing dieth 
but changing as they do one for another show 
sundry forms. He lieth. I cannot have back my mother.
In the grave, before the dirt goes, will go my love. 
And what shall I be, which forms will plague me then 
where shall I go, in what ditch pour what blood to hear 
her voice, the love I hear, that voice now mingled 
in the song, 
the  song of Worms?


TANTO E AMARA

Ouvi a temível canção que não ouvi 
à meia-idade, não ouvi. 
Eu era todo olhos, tudo era, agora às cegas 
e eu, rastejo, não sei para onde ir.
Você que ouviu vai entender 
morte é um remoto começo. 
Sou primário. 
Cultivo um coração.
Vacilo quando vejo, conheci alta travessia, gente 
cuja imperial natureza de conclusão era 
nada, nonada. 
Agora sei que era nada.
O sábio disse, nada morre 
mas cambiando, como usa ser, um por outro, assumem 
várias formas. Ele mentia. Não posso ter de volta minha mãe.
No túmulo, antes da sordidez, segue meu amor. 
Então que devo ser, que formas, então, me infestarão 
aonde ir, em que vala verter o sangue de ouvir 
a voz dela, o amor que ouço, naquela voz, ora, mesclada 
na canção, 
na canção dos Vermes?


"AT MIDNIGHT AFTER HOURS OF LOVE."

At midnight after hours of love, I ate
and drank wine, sitting on the edge of the bed.
The whole time, I thought of Ovid 

at Tomi. It could have been because I was wrapped 
in a blanket.

"À MEIA-NOITE, APÓS HORAS DE AMOR..."

À meia-noite, após horas de amor, comi 
bebi vinho, sentado à beira da cama. 
O tempo todo pensei em Ovídio 
em Tomi. Talvez porque eu estivesse envolto 
num cobertor.


WELL

I can see in the night 
No matter how close you are
But in the day, in the light 
I see too many things to see this one
Well


BEM

Posso enxergar de noite 
não importa o quanto estás rente
Mas de dia, à luz 
vejo coisas demais para enxergar esta
bem


Traduções: Ruy Vasconcelos

segunda-feira, 20 de julho de 2015

POEMAS DE GREGORY CORSO


SOL
(poema automático)

Sol hipnótico! sagrada quase eterna esfera! taça em chamas! balbuciar do dia!
Sol, solar teia de calor! seca taça tropical! sede aracníde! Sol, nãoágua!
Sol miséria sol ira sol doença sol morte sol podre sol relíquia!
Sol baixo e torto sobre o céu africano, derramado quase vazio, ampola oca, osso do   sol,pedra do sol, sol de aço, relógio de sol.
Sol dinossauro do elétrico movimento extinto e fossilizado, balbucie!
Sol, temporada das temporadas, pegar o verdadeiro peixe solar, na verde costa tomando sol como loucura.
Sol eros infernal superreal conglomeração de ira miasmática!
Sol, seres do pôr do sol chocados na desértica vida, cai!
Sol circo! tenda de hélio, apolo, rá, sol, sun, triunfem!
O sol como uma fumegante nave caiu no lago Teliphicci.
O sol como um fumegante disco gelatinoso escorreu pelos alpes Telephiccianos
O sol comanda a noite e segue a noite e comanda a noite.
O sol pode ser conduzido por uma carruagem.
O sol como um fumegante pirulito pode ser chupado.
O sol tem a forma de um dedo curvo que te chama.
O sol gira anda dança foge corre.
O sol favorece a cítrica palmeira de tuberculosos pulmões
O sol engole o lago e alpes de Teliphicci a cada ascensão.
O sol não sabe o que é gostar ou não gostar
O sol toda minha vida caiu no lago Teliphicci.
Ó buraco constante onde tudo pra lá é verdadeiramente Bizantino!

MINHAS MÃOS SÃO UMA CIDADE

minhas mãos são uma cidade, uma lira
e minha mão em chamas assovia
e minha mãe toca Corelli
         enquanto minhas mãos queimam

EXTRAVAGÂNCIA ITALIANA

O filho de um mês da Sra. Lombardi morreu
Eu vi na funerária do Rizzo
uma enrugada e roxa cabeça que não cresceu

Acabaram de rezar uma grande missa pra ele
Agora estão saindo
...uou, tão pequeno caixão
E dez cadillacs preto o carregando.

TENHO SAUDADES DE MEUS QUERIDOS GATOS

Minhas mãos aquareláveis agora estão sem gatos
Sentado aqui sozinho no breu
minha cabeça em forma de janela está curvada com tristes cortinas
Estou sem gatos sem vida quase
atrás de mim meu último gato enforcado na parede
morto por minha mão bêbada inchada
 E em todas outras paredes do sotão á adega
minha triste vida de gatos enforcados

EU SOU 25

Com um amor uma loucura por Shelley
Chatterton            Rimbaud
e o latido de necessidade da minha mocidade
                                      passou de ouvido a ouvido:
                 EU ODEIO VELHOS POETAS!
Especialmente velhos poetas que se retratam
que consultam outros velhos poetas
que contam sua juventude em sussurros
dizendo: -- Eu fiz esses naquela vez
                       mas isso foi naquela vez
                       foi naquela vez--
Ô eu iria, velhor que falar nunca fez,
a eles dizer: --sou seu amigo
                             o que vocês eram, através de mim
                             serão mais uma vez--
E a noite na confiança de seu lar
suas desculposas línguas arrancar
                             e seus poemas roubar.

TRÊS

1
O cantor de rua está doente
agachado na fachada, segurando o coração.

uma canção a menos na ruidosa noite.

2
Fora do muro
o envelhecido jardineiro planta suas tesouras
Um novo jovem
veio podar a cerca viva

3
A Morte chora porque a Morte é humana
passa o dia todo no cinema quando morre uma criança.

SUICÍDIO EM GREENWICH VILLAGE

Braços abertos
mãos pressionando pra fora da janela
Ela olha pra baixo
 Pensa em Bartok, Van Gogh
e nos desenhos do New Yorker
Ela cai

Tiram ela dali com um Daily News na cara
E o lojista joga água quente na calçada

HINO DO MAR

Minha mãe odeia meu mar
meu mar devo afirmar.
Eu a avisei contra isso
era o mínimo a ser dito.
Dois anos demorou
mas o mar a devorou.

Na beira do mar achei uma estranha
mas linda comida;
Perguntei ao mar se podia comer
e sim eu podia.
--Oh, mar, que peixe
macio e doce este é?--
--De tua mãe o pé--foi a resposta

Tradução: Matheus Carrera Massabki 

A NOVA ABISSÍNIA DE JOCA REINERS TERRON — OU: O MONSTRO DO PÂNTANO DE CUIABÁ


Joca Reiners Terron é conhecido por sua obra ficcional, em que se destacam os romances Não há nada lá (2001), Curva do rio sujo (2004) e os de narrativas breves Hotel Hell (2003) e Sonho interrompido por guilhotina (2006), mas o autor também publicou dois notáveis volumes de poesia: Eletroencefalodrama (1998) e Animal anônimo (2002). Sua literatura é geralmente relacionada com o universo marginal ou “transgressivo” por seu diálogo com as histórias em quadrinhos, música pop, filmes de ficção científica, pelas colagens ficcionais (Aleister Crowley, Jimi Hendrix e William Burroughs aparecem como personagens em Não há nada lá), bem como pela acentuada coloquialidade e atmosfera boêmia que recorda a prosa de Charles Bukowski, referência temática e mesmo comportamental para muitos prosadores brasileiros na década de 1990. Este universo simbólico, porém, não resume toda a escrita do autor e seria injusto atribuir a ele o rótulo de pop ou underground, atitude que não ilumina a multiplicidade de aspectos de sua obra. Joca Reiners Terron é, sobretudo, um bom leitor; a afirmação pode parecer inútil ou tautológica, na medida em que todo bom poeta e ficcionista é acima de tudo um bom leitor, mas no caso de sua escrita poética as trilhas intertextuais conduzem a um singular campo de metamorfose: os signos que remetem a outros textos, imagens e autores são subvertidos, transmutados, e dão origem a outros textos, inconfundivelmente pessoais. Joca Reiners Terron é um dos raros poetas de sua geração que têm voz única, terrosa, ou antes terroniana, sem deixar de ser um vasto palimpsesto de outras vozes e visões. Em seu livro de estreia, Eletroencefalodrama, notamos a presença do ready-made nos textos visuais Hi-A. Zo, inseridos ao longo do volume, à maneira dos recortes e montagens de desenhos e fotografias extraídos de revistas e almanaques antigos realizados por Sebastião Nunes na Antologia mamaluca e Valêncio Xavier em O mez da grippe; poemas visuais construídos a partir de uma sequência cinética de ampliações da foto de uma folha de árvore (Constellatio) ou pela espacialização das palavras e substituição de vogais por fotos de fases da lua (“a lua / de lingerie / ao longe / ri de mim”); o flash bem humorado de cenas do cotidiano (“semáforos / têm três olhos / mas só abrem um / de cada vez”; “não existem / placas de trânsito / em braile”); o erotismo sutil (“Cumprimentei a Noite / ela sorriu e me mostrou / seus peitos brancos”); a paródia de citações de autores célebres (“quando morrer / quero ser um livro”, com eco de Mallarmé); a incorporação do grotesco e do fescenino (“Caso o mundo te visse / com olhos de Medusa, / tornado seu corpo seria / pedra duríssi- / ma. Sua alma, mineral, e / pequenas turquesas (aqui e / ali) no olho / Precioso”, lemos em Uma joia no ânus). A forma clássica do soneto é recriada numa peça memorável, Primeiro movimento, que nos surpreende pelo ritmo sintático inusitado, construído pela pontuação abrupta, cortes elípticos e jogos sonoros de rimas internas, aliterações e paronomásias, que modulam uma dicção áspera, de quebra-língua: “brinco inca; câmara de tintas; finca pé ante o nono sono; / campo bento em que Onan brinca; / -- Palmo calmo de pele; pele-nuca; / naco branco que toda boca trinca; / lacero-te; mas; não; nem; nunca; nunca”. Em outra composição, intitulada Mantenha distância, o poeta condensa em linhas enxutas o seu antidiscurso de simultaneidades e sincronias: ”Acudo / os / sentidos com / a tosca lasca / do risco, / visto uma / pele desnuda / de Puma, / arisco / assisto ao / rebolado de / avenidas, / sem susto. / Resisto ainda / aos obeliscos / e cabarés, / me arrisco”, com trabalho notável de ritmo e rimas. As linhas são recortadas numa operação de “violência organizada contra a língua” (Jakobson), buscando o efeito sonoro áspero, rascante, algo entre a guitarra de punk rock e o expressionismo abstrato de Jackson Pollock. A língua pedrosa de Joca Reiners Terron torna-se ainda mais dissonante e brutalista em seu segundo livro de poemas, Animal anônimo, publicado em 2002, que reúne breves paisagens verbais da cidade de São Paulo, tendo como leitmotiv o Elevado Costa e Silva, conhecido como “Minhocão”: “Elevado onde / cantam os canos / da GARRA / nascem da noite / seus animais / minúsculos / a vérmina / a devorá-la / dá-se ao osso”. A violência urbana, tema comum aos prosadores do período, atravessa os poemas de Animal anônimo, onde até “o vigia / do templo budista usa / uma glock 9 milímetros”, imagem que recorda as graphic novels de Frank Miller ou os filmes de Tarantino. Personagens de seriados e histórias em quadrinhos, aliás, invadem a narrativa poética, de maneira alegórica ou paródica, criando as mais insólitas situações, como acontece no poema Sex horror show: “Se Godzila goza / Tóquio em polvorosa / cai uma chuva viscosa / como manga com leite. / O Drácula ejacula / e o seu dia encurta / King Kong esporra, range / esfrega no Empire State / e mostra a língua hirsuta / A noite se alonga, larga / pra Kong e Jéssica Lange / que tira a tanga e sonha / ser mulher-macaco, a Monga / que sacode a grade, a luz apaga / e a noite segue, de encontro / em encontro, numa suruba monstro”. Escatologia, monstruosidade e sexo bizarro são algumas das obsessões favoritas do poeta, encenadas em narrativas poéticas dispostas em diferentes seções do livro, que incorporam ainda personagens criados pelo próprio poeta, como MC Medo e DJ Fedor, encontrados mortos no poema Um giro no maverick dos subúrbios, vítimas de um desconhecido serial killer. O tom fantasmagórico ou circense dos poemas narrativos de Terron estabelece um diálogo textual com o poeta “maldito” por excelência da década de 1960, Roberto Piva, aliás homenageado numa das peças do volume, intitulada Cine Piva, onde lemos: “Largos são invadidos por pastores com ternos / pequenos demais acompanhados por missionários / ex-gays prestes a morrer de gestos / exagerados e políticos pederastas”, linhas de fluência melódica próxima ao andamento da prosa, assim como acontece em Paranoia ou Piazzas, de Piva. A linguagem desbocada do poeta “maldito” de São Paulo também aparece em pequenos poemas irônicos ou satíricos como “anseia / pela buceta / da sereia / coisas / impossíveis” e “a poesia é inútil / o poeta / perigoso / (...) enfia este poema / no seu cu / agora canta”. Farpa, aspereza e atrito estão presentes em todo o volume, combinados a um rigoroso construtivismo visual que orienta a própria concepção visual do livro, onde trechos de poemas, com as palavras recortadas, quase ilegíveis e em fonte maior, são colocados nas páginas pares, em nítido contraste com os poemas que aparecem nas páginas ímpares, numa dialética entre som e ruído, figura e sentido. Entre as duas colunas de textos, dispostas à esquerda (pares) e à direita (ímpares), o autor inseriu borrões de tinta que simulam formas de folhas, insetos, pegadas ou aves, ampliando a zona de indeterminação. Os poemas respondem a esse torvelinho em sua própria disposição espacial e na variação de fontes e corpos de letras, recursos que derivam do Lance de dados de Mallarmé e seus desdobramentos em Apollinaire, na Poesia Concreta, mas que também se aproximam das montagens e colagens dadaístas e surrealistas, em especial as pinturas “MERZ” de Kurt Schwitters. Não é possível concluirmos este artigo sem fazermos referência à mitológica editora Ciência do acidente, fundada por Terron no final da década de 1990, responsável pela publicação de obras seminais de Valêncio Xavier, Glauco Mattoso, Manoel Carlos Karam, Ademir Assunção e outros poetas e prosadores situados, na época, à margem do mainstream. Todos os livros da Ciência do acidente ainda hoje chamam a nossa atenção pelos ousados projetos de arte e apurado cuidado gráfico, que podem ser creditados ao olho vanguardista de Terron, exilado na prosa à maneira de Rimbaud na Abissínia, em busca de outras cores, aromas e percepções.

Claudio Daniel é poeta, professor de Literatura Portuguesa e colunista da CULT. Publicou, entre outros títulos, os livros de poesia Cadernos bestiais e Esqueletos do nunca (Lumme Editor, 2015).


quinta-feira, 16 de julho de 2015

POEMAS DE LOUIS ZUKOFSKY


















THE LINES OF THIS NEW SONG ARE NOTHING

The lines of this new song are nothing
But a tune making the nothing full
Stonelike become more hard than silent
The tune's image holding in the line.


AS LINHAS DESSE NOVO CANTO NÃO SÃO NADA

As linhas desse novo canto não são nada
Só a melodia tornando pleno o vazio
Igual à pedra se faz mais dura que silente
A imagem sonora suspensa nessa linha.


Tradução: Claudio Daniel e Luiz Roberto Guedes


I WALK IN THE OLD STREET


I walk in the old street
to hear the beloved songs
afresh
this spring night.
Like the leaves - my loves wake -
not to be the same
or look tireless to the stars
and a ripped doorbell.


EU CAMINHO NA VELHA RUA

Caminho na velha rua
para ouvir amadas canções
outra vez
nesta noite de primavera
Como as folhas - despertam meus amores -
não da mesma forma
ou olhar incansável para as estrelas
e a sineta arrancada da porta

Tradução: Claudio Daniel e Virna Teixeira


(A FRAGMENT)

And so till we have died
And grass with grass
Lie faceless as the grass
Grow sheathed with the grass.
Between our spines a hollow
The stillest sense will pass
Or weighted cloud will follow.


(UM FRAGMENTO)

E assim até morrermos
E folha com folha
Jazer sem olho feito folha
Viça embainhada de folha.
Entre nossas espinhas um vão
Que o mais quieto modo acolha
Nossas nuvens que choverão.

Tradução: Ruy Vasconcelos


THE GREEN LEAF THAT WILL OUTLAST THE WINTER

The green leaf that will outlast the winter
because sheltered in the open:
the wall, transverse, and diagonal ribs
of the privet that pocket air
around the leaf inside them
and cover but with walls of wind:
it happens wind colors like glass shelter,
as the light's air from a vault
which has a knob of sun.


A VERDE FOLHA QUE SOBREVIVERÁ AO INVERNO

A verde folha que sobreviverá ao inverno
porque oculta no vão, protegida:
o muro, transversal, e as nervuras diagonais
da alfena que mantém o ar
ao redor e dentro das folhas
e coberta mas com muros de vento:
cores de vento como se fossem um abrigo de vidro,
como as luzes aéreas de uma abóbada
que tem o botão do sol.


Tradução: Adriana Zapparoli e Claudio Daniel

A POESIA-PINTURA DE ELSON FRÓES



      









A poesia visual brasileira, elaborada com recursos da tecnologia digital ou meios artesanais, ainda encontra resistência em uma parcela da crítica literária, incapaz de avaliar essa produção conforme modelos teóricos eficazes para a interpretação de textos tradicionais, mas inadequados para a compreensão de experiências poéticas que transcendem a linguagem escrita, como a poesia sonora, a performance, a holografia ou a videopoesia. O próprio caráter visual da escrita, evidente nas tipologias de letras, disposição das linhas e no aspecto gráfico do objeto livro, torna-se quase invisível para essa crítica, como observou a poeta portuguesa Ana Hatherly ao propor uma “reinvenção da leitura” que leve em consideração, como elemento constitutivo da construção do sentido, a forma visual da escrita. A autora publicou uma obra de referência para o estudo da poesia visual, a antologia A experiência do prodígio, que reúne textos visuais barrocos e maneiristas portugueses dos séculos XVII e XVIII, sem omitir informações sobre as origens greco-latinas dessa modalidade poética, como as composições de Símias de Rodes, datadas do século III a. C. No Brasil, após o movimento da Poesia Concreta, iniciado da década de 1950, com o trabalho poético, crítico e tradutório de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, uma nova geração de poetas tem realizado interessantes pesquisas sobre as possibilidades de interação entre escrita, som, imagem e movimento, destacando-se as inventivas obras de Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, André Vallias, Lúcio Agra e Elson Fróes. Estes poetas veiculam seus experimentos poéticos em livros, mas também em outros suportes, como o compact disc, a instalação, o videoclip, a performance poético-musical, o computador. O diálogo poético com as novas tecnologias eletrônicas está presente, sobretudo, no trabalho do paulistano Elson Fróes, criador de um dos primeiros sites de poesia publicadas na internet a partir da década de 1990, Popbox. Um bom exemplo das experiências do poeta com os recursos digitais é a animação que criou para o poema Lua na água (http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/anim.htm), de Paulo Leminski, em que o movimento das palavras e do ícone da lua na tela do computador traduz visualmente o sentido da composição. Já no poema sonoro SUS (http://www.elsonfroes.com.br/sonora.htm), Elson Fróes desloca o movimento para a oralização das palavras, explorando a musicalidade de assonâncias, aliterações, rimas imprevistas, ecos e pausas. Sua poesia visual, elaborada inicialmente com meios artesanais, como o recorte, colagem e montagem de desenhos, fotos e textos em várias cores e tipologias de letraset, foi digitalizada – e em alguns casos retrabalhada – em Popbox (na página http://www.elsonfroes.com.br/visual.htm), disponibilizando para o leitor/internauta a sua insólita oficina de inventos. Em “a grama diz / o que o vento diz / o indizível bis”, Elson Fróes cria um curioso haicai, em que a diagramação das linhas mimetiza o movimento do vento nas folhas, enquanto a aplicação da cor verde transforma as palavras em ícones vegetais, numa perfeita unidade entre construção e sentido. Os recursos visuais utilizados por Elson Fróes são coerentes com as possibilidades estéticas do haicai japonês, escrito no alfabeto de ideogramas, que representam desenhos abreviados das coisas, justapostos conforme técnicas de montagem, numa lógica pictórica e relacional que combina diferentes elementos de maneira metafórica. Em Recifra-te, o autor realiza um poema enigmático que solicita a intervenção do leitor para a decodificação do sentido, pela substituição das figuras hieroglíficas por letras do alfabeto ocidental. Os enigmas, aliás, são recorrentes na poesia barroca, cujos ecos ressoam na poesia em versos de Elson Fróes, publicada em seu (até agora) único livro publicado, Poemas diversos (2008), onde lemos pequenas joias, como esta belíssima composição: “se faz o ouro em volutas / que se revolve ao vento / ouro revolto em movimento / e no coração como concha / traz uma pequena pérola / incrustada luz que refulge / no fundo da escuridão / pérola, luz,  iluminada”.

(Artigo de Claudio Daniel publicado na edição de julho /2015 da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

POEMAS DE ROBERT CREELEY

 


DE NOVO

Outro dia ido, 
adiado, achado na 
forma de dias.
Teve início, teve 
fim - foi adian- 
tado, atrasado,
lento, logo um 
sol brilhou, nuvens, 
fiquei flutuando no ar
um tempo com outras, 
então desci 
de novo ao chão.  
Lua alguma. Quarto de 
espelunca - começar 
de novo.


NOVO MUNDO

Terra edênica, adâmico ser - 
Estupidez o preço que você vai pagar 
Por esse inútil saber.


ESPELHO

Ver é crer. 
O que foi pensado ou dito,

essas mortes persistentes, inexoráveis, 
fazem fé assim ausente,  

nossa humanidade uma pergunta, 
um nojo pelo que somos.

Seja que esperança for, 
está perdida aqui.

Por termos cobiçado nossa diferença,
eis o preço.


DEPOIS DE PASTERNAK  

Acha tudo uma coisa só? 
Pancada de neve, porta 
do carro fechada, o sol brilhante, 
paciente -
Quantos milhões de anos 
para chegar e estar 
aqui uma só vez - 
nunca voltando -
Ah, triste margem de perspectiva - 
janela exausta no passado - 
agora, o que quer que viva 
já não pode durar.


VIDA

Para Basil

Claridade intensiva, específica, 
como nada mais 
que não seja 
ela mesma -
isso ecoa assim, 
vista, sentida, ouvida, 
ou saboreada, uma só 
e muitas. Mas
meu punho golpeia 
a porta, pedido 
escasso, contrita entrada 
quer mais.


NATUREZA MORTA

Ainda 
viva. Só 
não anda.

*

Traduções: Rodrigo Garcia Lopes


PARTITURAS DO INSÓLITO: A POESIA DE RICARDO ALEIXO


Ricardo Aleixo realiza sua pesquisa poética em diferentes campos, como a etnopoesia, a performance, experimentos em poesia visual e sonora, objetos tridimensionais, videoarte, canções, com raro domínio técnico e sensibilidade, unindo a tradição da poesia de alto repertório aos recursos tecnológicos e aos territórios simbólicos da cultura popular. Sua poesia em verso, publicada em cinco livros – Festim (1992), A roda do mundo (1996, em parceria com Edmilson de Almeida Pereira), Trívio (2001), Máquina zero (2003) e Modelos vivos (2010) revela um timbre seco, áspero, que comunica “uma percepção crítica da realidade, na qual a forma severa mimetiza de modo mordaz a escassez de um mundo rude, pobre, elementar”, conforme escreveu o crítico Manuel da Costa Pinto[1].

Em seu livro de estreia, Festim, cujo subtítulo é um desconcerto de música plástica, Ricardo Aleixo apresenta um conjunto de poemas breves, compostos em diferentes tipologias de letras, espacializados com recursos de diagramação que denunciam a ressonância da Poesia Concreta. A dicção de revolta, porém, já é bastante pessoal e prenuncia futuras composições do poeta. Assim, por exemplo, nesta peça sem título, composta numa fonte em que as letras aparecem inclinadas, sugerindo uma escrita líquida: “neste código nesta culpa neste olho nesta cólera / neste dardo nesta forma neste alvo nes / ta alma nesta danação neste infernocéu...”. O poema resume, de maneira exemplar, o duplo compromisso do autor, com a arte e o mundo, já em sua semântica: ao lado de termos que remetem à “poesia pura” – código, forma, lira, página – estão alinhados outros termos, indicativos da situação de exclusão social em que ainda vivem amplas parcelas da população brasileira: culpa, cólera, danação, delito, lâmina, inferno. Combinados a esses dois campos semânticos, como se fosse uma camada intermediária, lemos ainda: ócio, ópio, delírio, farsa, indicando tanto a situação da classe hegemônica quanto a dos poetas indiferentes às desigualdades sociais. É um violento poema de protesto, mas construído com rara inteligência combinatória, que evita as facilidades discursivas da lírica social.

Em outra peça sem título, de apenas duas linhas, compostas numa fonte similar ao da escrita gótica, Ricardo Aleixo alterna o brado ríspido com a fina ironia, porém, com o mesmo espírito crítico: “fogo na alma O inferno também / é para quem pode”, que recorda as paródias e paradoxos do polaco mulato Paulo Leminski. A fluência melódica, que caracteriza uma das vertentes da poesia do autor mineiro, é bem representada, neste volume de estreia, por outra composição: “incontáveis linhas / como que dispersas / impensáveis línguas / como que dos persas / cruzam-se no infinito: / ou tornam-se linguagem / ou deixam o dito / por não dito”.

Emblemática da primeira fase da poesia de Ricardo Aleixo, a peça explora de maneira feliz as aliterações e assonâncias, concluindo o discurso poético com um dito popular que dessacraliza a “pureza” da linguagem, revitalizando-a pela contaminação de outros repertórios linguísticos (procedimento que verificamos em muitos de seus companheiros de geração, como Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Ricardo Corona e Maurício Arruda Mendonça). A roda do mundo (1996), segundo livro publicado pelo autor, tem uma estratégia diferente de Festim: em vez da pesquisa visual, o poeta investe em outra seara, a dos cantos rituais dedicados aos orixás das religiões de matriz africana, ou orikis, tema estudado pelo poeta e antropólogo baiano Antonio Risério do livro Oriki orixá, publicado no mesmo ano. Mistura de poesia, canto, sortilégio e prece devocional, sem formas métricas ou rímicas fixas, os orikis tradicionais, compostos no idioma iorubá e cantados até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, são ricos em trocadilhos, paronomásias e outros jogos semânticos. Seu recurso mais característico é o epíteto, também frequente na poesia épica grega, indiana e escandinava. Assim, Xangô é chamado de “alafim de Oió” (soberano do reino de Oió), Ogum é “Oniré” (rei de Irê), entre outros apelidos poéticos, ou “qualidades”, que destacam as características de cada orixá.

Ricardo Aleixo, dialogando com esse imaginário mitológico e manancial poético, criou um ciclo de dez orikis, que se destacam pela fluência melódica: são poemas para serem lidos em livro, mas poderiam, facilmente, ser cantados. No oriki dedicado a Iemanjá (Mamãe grande), por exemplo, Ricardo Aleixo consegue, pela repetição de contínua de três frases, um efeito quase hipnótico, como na recitação de um mantra: “todas / as águas do mundo são / Dela, fluem / refluem nos ritmos / Dela, tudo que vem, / que revém. todas / as águas / do mundo são / Dela. / fluem refluem / nos ritmos Dela...”. A repetição das mesmas frases sonoras, por outro lado, mimetiza, de forma icônica, o próprio movimento das águas do mar, elemento regido por Iemanjá, Senhora das Águas. Outra peça notável desse conjunto é o oriki de Xangô, onde lemos: “O que / lança pedras / de raio / contra a casa / do curioso / e congela / o olhar do / mentiroso. Leopardo, / marido de Oiá. / Leopardo, / filho de Iemanjá. / Xangô cozinha / o inhame / com o vento / que sai / de suas ventas”, versos concisos e ferinos que recriam a virulência dos textos sonoros iorubás, tal como apresentados a nós por um dos maiores especialista no assunto, Pierre Verger, autor do clássico livro Os orixás.

Embora as “travessuras” dos orixás nada tenham de incomum – fazem parte dos relatos mitológicos originais das nações africanas, em particular dos grupos ketu, bantu, nagô e djedje, e encontradas também em outras religiões e mitologias, como os “passatempos” de Krishna, descritos no Srimad Bhagavatam –, é impossível, para o leitor ocidental, não pensar na tradição coloquial-irônica e erótico-satírica das cantigas de escárnio e mal-dizer até Gregório de Matos, Bocage, Glauco Mattoso e outros autores “desbocados”. Em um oriki de Exu traduzido por Antonio Risério, por exemplo, lemos: “Exu não deixa a rainha cobrir o corpo nu. (...) / Surra de chicote a mulher do rei. / Deixa o chorão chorar / Vê gente se batendo e não aparta. (...) / Agbô vê quando botam pimenta / Na buceta de sua sogra. (...) / Atirando uma pedra hoje, / Mata um pássaro ontem”. No oriki de Exu escrito por Ricardo Aleixo, predominam o paradoxo e a hipérbole, recorrentes também em outras modalidades de poesia popular, como os romances de cordel: “Cabelo pontudo /como um falo. / Dono dos oitocentos / porretes. (...) / Bará chega fungando. / O povo pensa / que é o trem / partindo”.

Após a experiência mitopoética de A roda do mundo, Ricardo Aleixo retoma a pesquisa visual iniciada em Festim no seu terceiro livro, Trívio, publicado em 2001. No posfácio que escreveu para essa nova coleção de poemas, Sebastião Uchoa Leite escreve: “a poética de Ricardo Aleixo é uma poética de interstícios, interconexões, ou, como ele o dia, um ‘estático / teatro de sombras // matéria de / que é / feita a / insônia’. (...) Como se disse antes, tudo está imbricado: lirismo, citações cultas, referências míticas, engajamentos (no poema ‘Brancos’, ‘brancos’ = machos = adultos = cristãos = ricos = ‘sãos’, tudo aludindo à expressão corriqueira: ‘eles que são brancos que se entendam’)”. Trívio (palavra que significa a divisão inferior das artes liberais na Idade Média: gramática, retórica, dialética, mas também a reunião de três caminhos) é um vasto palimpsesto onde encontramos desde os índices cultos, como a epígrafe de Lezama Lima, poemas que dialogam com a passante de Baudelaire, a lírica amorosa de Goethe, a pintura de Caravaggio e a música de John Coltrane até peças de surpreendente leveza, que estão entre as mais notáveis do volume, como Loa da menina deusa: “já perto do poente / o cabelo ornado / com invisíveis fios / de ouro / a menina uma / putinha da areia uma / menina deusa / qualquer / inventa a um / simples meneio / dos dedos / um outro sol / e some / rápida / reconvertida em água”, peça que combina o registro da imagem de uma banhista adolescente com a referência ao mito da sereia e, talvez, a Iemanjá.

Em outra composição de versos curtos encadeados, o poeta mineiro presta homenagem a Bispo do Rosário, artista naif, dadaísta talvez sem sabê-lo, triplamente excluído como negro, pobre e esquizofrênico: “quem fez e refez / cem vezes o / caminho do mundo / até antes / cem vezes na / cabeça o longo / trecho entre o / mar e o / céu / quem re fez o / caminho da perda / com seu manto / de / ver deusfilho”. Neste poema, assim como em outros do volume, podemos considerar que o texto inteiro é um único verso, com sintaxe completa, dividido em linhas breves, que subvertem a linearidade e definem o ritmo da leitura.

O mesmo princípio vamos encontrar na peça Para uma eventual conversa sobre poesia com o fiscal de rendas (cujo título remete a Maiakovski), com a diferença de que, neste caso, em lugar do verso curto, temos uma sequência de blocos de texto que dissolvem os limites entre prosa e poesia, em linhas espacializadas, sem pontuação e com ritmo anafórico: “minha própria língua meu / próprio limo meus próprios /  ombros minha própria sombra / minhas próprias vértebras / minhas próprias pálpebras (...) / meu próprio sinal de nascença minha / própria calva meu próprio / cavalo minha própria idade: / minhas propriedades”. Poema de ironia corrosiva, acentua um dos temas frequentes na poesia de Ricardo Aleixo: a situação desconfortável do poeta numa sociedade regida pela lógica do mercado e da mídia.

Em outros poemas de Trívio, encontraremos diferentes estruturas comunicativas que convidam o leitor a descobrir rotas de leitura distintas do padrão ocidental, que segue da esquerda para a direita, em linhas horizontais. Nas peças de concepção visual mais acentuada, como a Canção noturna do fim de Peixes, Passagens, Nota, o leitor participa da construção de sentido buscando outras formas de leitura, da direita para a esquerda, na vertical, em ziguezague e em outras rotas inusitadas, à maneira do labirinto visual do barroco português e da obra aberta de Umberto Eco.

Máquina zero, publicado em 2003, Ricardo Aleixo radicaliza a vertente coloquial irônico-satírica já presente nos títulos anteriores. No poema Paupéria revisitada, por exemplo, lemos: “Poetas, como os deuses, / vendem quando dão. / Poetas, não. / Policiais e pistoleiros / vendem segurança / (isto é, vingança ou proteção). Poetas se gabam do limbo, do veto / do censor, do exílio, da vaia / e do dinheiro não)”. O tema se amplia, nas peças seguintes, num amplo painel crítico da “república das letras”, em que a língua ferina do autor não poupa leitores, editores, críticos e outros poetas: “Se praticais sonetos – anacrônico. / Se pretendeis chocar – não paga o custo. / Se recriais Homero – macarrônico. / Se experimentais – cópia do Augusto”. A própria cidade natal do poeta, Belo Horizonte – ou Velhorizonte, no dizer irreverente de alguns de seus moradores – não escapa da farpa e da virulência: “Se terra tem cu / Belo Horizonte é o cu das terras”, / Averno oculto / entre as serras, / onde o próprio Belzebu // por certo, não escaparia / ao riso dissimulado, / ao insulto / disfarçado / de elogio, à vilania”, que recorda o brado cáustico de Gregório de Matos.

Novos modelos, livro mais recente de Ricardo Aleixo, publicado em 2010, apresenta surpresas já no projeto gráfico – desde a bela capa, que reproduz a “fotografia digital (que assume diferentes formas) de objeto construído com linhas de costura de diversas cores”, como esclarece o autor em nota no final do volume, até a “releitura, com verniz aplicado, de poema-lema produzido originalmente como um adesivo” nas “orelhas” do livro (“Tem que ter palavra para ser humano”, de evidente ambiguidade referencial). A visualidade está presente em poemas como 11 passos para Merce Cunningham, composto de uma série de desenhos abstratos, ao modo de variações, feitos com tinta acrílica sobre papel fotográfico.

O desfazimento das palavras – e portanto do sentido – acontece também no díptico Real / irreal, em que uma única frase – “o real realiza o irreal” é repetida em sequências que deformam palavras, sílabas e letras, até convertê-las em manchas ou ruídos gráficos. Em outras composições desta seção do livro, o autor apresenta novos labirintos-enigmas, como Babeladormecida, Einstein remix e Solo, que exploram possibilidades combinatórias e rotas de leitura – recursos evidentes também no poema em prosa Cabeça de serpente (“a serpente morde a própria cauda. a serpente pensa que morde a própria cauda. a serpente apenas pensa que morde a própria cauda. a serpente morde a própria cauda que pensa.”) e no labirinto de versos que constroi nos poemas Tempo e Errata, em que as mesmas frases e palavras são distribuídas, nas duas peças, em diferentes sequências e combinações.

Um ano entre os humanos, nome de uma performance poético-musical apresentada por Ricardo Aleixo, é também o título de um interessante poema em prosa incluído no volume, construído por uma sequência de perguntas irônico-incisivas que, é claro, prescindem de respostas: “Você beberia sangue humano? A filha da Madonna é humana? (...) A Barbie é humana?  Você acreditaria se lhe dissessem que Michael Jackson, quando bebê, tinha feições humanas? (...) Charles Darwin era humano? (...) Prisioneiros iraquianos arrastados por coleiras são humanos? (...) Você é humano?”.

Notáveis também são os autorretratos do poeta, distribuídos ao longo do volume, elaborados com câmera digital e produzidos em seu “laboratório-casa” – montagens inusitadas de letras, luzes, perfis e sombras, que nos fazem pensar nos artistas da vanguarda russa da década de 1920, como Ródchenko. Todos estes poemas – e o livro não se resume a esse breve elenco de inventos – situam Ricardo Aleixo não apenas entre os poetas identificados com a poesia visual e o experimentalismo, mas também no campo do neobarroco, entendido aqui como a ampla teia de autores que, desde a década de 1970 até os dias atuais – pensemos em Severo Sarduy, José Kozer, Nestor Perlongher, Coral Bracho, Victor Sosa, Reynaldo Jiménez – reelaboraram influências da poesia barroca do Século de Ouro, à luz da tradição da modernidade. Todos os rótulos, é evidente, são úteis para a compreensão e discussão de aspectos temáticos ou formais de um autor ou geração literária, sem a pretensão de esgotar as chaves interpretativas. No caso de um grande poeta, como é o caso de Ricardo Aleixo, os rótulos colaboram para iluminar, parcialmente, momentos de transformação de uma escrita camaleônica, rara e necessária ao nosso tempo.





[1] Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006, p. 20.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

POEMAS DE WALT WHITMAN
















VOCÊ, LEITOR

Você, leitor, que pulsa
de vida e orgulho e amor,
assim como eu:
para você, por isso,
os cantos que aqui seguem!


A UMA PROSTITUTA COMUM

Tranquilize-se, fique à vontade comigo 
- eu sou Walt Whitman, 
Liberal e saudável como a Natureza! 
Antes que o sol a rejeite, 
Antes que as águas se neguem 
A rebrilhar por você 
Ou as folhagens a sussurar por você, 
Minhas palavras não se negarão 
A rebrilhar e a sussurrar por você. 
Garota minha, eu marco com você 
Um encontro bem marcado, 
E encarrego você 
De fazer todos os preparativos 
Para estar bem em forma 
Ao encontrar-se comigo; 
E encarrego você 
De ser paciente e perfeita 
Até a hora, eu saúdo você 
Com um olhar cheio de significados 
Para você não se esquecer de mim.


SAINDO DE PAUMANOK (fragmentos)

Saindo da ilha em forma de peixe 
onde eu nasci – Paumanok – 
bem concebido e criado por uma perfeita mãe, 
depois de andar muitas terras, 
morando em Mannahatta, cidade minha, 
ou nas savanas do Sul, 
ou soldado acampado ou carregando 
o fuzil e a mochila, 
ou labutando nas minas da Califórnia, 
ou bronco em minha casa nos bosques de Dakota, 
a comer carne e a beber água de fonte, 
ou escondido para meditar 
em algum canto bem fundo 
longe do estrídulo das multidões. (p. 18)1
Uma vez no Alabama, enquanto eu dava 
o meu passeio matinal, 
vi pousada uma fêmea de pardal 
em seu ninho entre os galhos 
chocando seus filhotes.
Eu vi também o passarinho-macho 
e parei a escutá-lo 
ao alcance da mão 
inflando o peito e gorjeando em júbilo. 
E estando eu ali parado, me ocorreu 
que o canto dele 
não era só para o que estava ali, 
nem para a parceira dele 
nem mesmo para ele só, 
nem para tudo o que os ecos mandavam 
de volta 
− mas muito além, sutil e clandestina, 
era mensagem transmitida e oculta herança 
para os que estavam acabando de nascer.


CANTO A MIM MESMO

Celebro a mim mesmo
e canto a mim mesmo:
e o que eu assumo, vocês devem assumir,
pois cada átomo que a mim pertence
também a vocês pertence.
Folgo e convido minha alma,
dito-me e folgo à vontade
vendo no estio uma lança
de capim
Minha língua, cada átomo
do meu sangue, se forma
deste chão, deste ar:
nascido aqui, de pais aqui nascidos
de pais quanto a isso iguais
e os pais deles também,
eu, agora com 37 anos,
em plena saúde vou
contando não parar
até a morte
Crenças e escolas em estado latente,
por enquanto afastadas um pouquinho,
quanto para elas basta,
porém não esquecidas,
ao bem e ao mal dou guarida
e em qualquer circunstância
me permito falar
- natureza sem confronto
com a energia original


CERTA VEZ NUMA CIDADE

Certa vez eu passei
por uma cidade bem populosa,
guardando no meu cérebro impressões
para futuro emprego,
com suas mostras, sua arquitetura,
costumes, tradições,
embora dessa cidade eu agora
me lembre apenas de uma mulher
que encontrei por acaso
e me deteve por amor de mim
e juntos estivemos
dia por dia e mais noite por noite
— posso afirmar que só me lembro mesmo
dessa mulher que se apegou a mim
apaixonadamente,
de quanta vez andamos, nos amamos,
de novo nos deixamos,
de novo ela a pegar-me pela mão,
e eu sem precisar ir:
vejo-a bem perto a meu lado
de tristes lábios trêmulos
calados.

Traduções: Geir Campos

(Do livro Folhas das folhas da relva, de Walt Whitman. São Paulo: Brasiliense, 1983.)