segunda-feira, 20 de julho de 2015

A NOVA ABISSÍNIA DE JOCA REINERS TERRON — OU: O MONSTRO DO PÂNTANO DE CUIABÁ


Joca Reiners Terron é conhecido por sua obra ficcional, em que se destacam os romances Não há nada lá (2001), Curva do rio sujo (2004) e os de narrativas breves Hotel Hell (2003) e Sonho interrompido por guilhotina (2006), mas o autor também publicou dois notáveis volumes de poesia: Eletroencefalodrama (1998) e Animal anônimo (2002). Sua literatura é geralmente relacionada com o universo marginal ou “transgressivo” por seu diálogo com as histórias em quadrinhos, música pop, filmes de ficção científica, pelas colagens ficcionais (Aleister Crowley, Jimi Hendrix e William Burroughs aparecem como personagens em Não há nada lá), bem como pela acentuada coloquialidade e atmosfera boêmia que recorda a prosa de Charles Bukowski, referência temática e mesmo comportamental para muitos prosadores brasileiros na década de 1990. Este universo simbólico, porém, não resume toda a escrita do autor e seria injusto atribuir a ele o rótulo de pop ou underground, atitude que não ilumina a multiplicidade de aspectos de sua obra. Joca Reiners Terron é, sobretudo, um bom leitor; a afirmação pode parecer inútil ou tautológica, na medida em que todo bom poeta e ficcionista é acima de tudo um bom leitor, mas no caso de sua escrita poética as trilhas intertextuais conduzem a um singular campo de metamorfose: os signos que remetem a outros textos, imagens e autores são subvertidos, transmutados, e dão origem a outros textos, inconfundivelmente pessoais. Joca Reiners Terron é um dos raros poetas de sua geração que têm voz única, terrosa, ou antes terroniana, sem deixar de ser um vasto palimpsesto de outras vozes e visões. Em seu livro de estreia, Eletroencefalodrama, notamos a presença do ready-made nos textos visuais Hi-A. Zo, inseridos ao longo do volume, à maneira dos recortes e montagens de desenhos e fotografias extraídos de revistas e almanaques antigos realizados por Sebastião Nunes na Antologia mamaluca e Valêncio Xavier em O mez da grippe; poemas visuais construídos a partir de uma sequência cinética de ampliações da foto de uma folha de árvore (Constellatio) ou pela espacialização das palavras e substituição de vogais por fotos de fases da lua (“a lua / de lingerie / ao longe / ri de mim”); o flash bem humorado de cenas do cotidiano (“semáforos / têm três olhos / mas só abrem um / de cada vez”; “não existem / placas de trânsito / em braile”); o erotismo sutil (“Cumprimentei a Noite / ela sorriu e me mostrou / seus peitos brancos”); a paródia de citações de autores célebres (“quando morrer / quero ser um livro”, com eco de Mallarmé); a incorporação do grotesco e do fescenino (“Caso o mundo te visse / com olhos de Medusa, / tornado seu corpo seria / pedra duríssi- / ma. Sua alma, mineral, e / pequenas turquesas (aqui e / ali) no olho / Precioso”, lemos em Uma joia no ânus). A forma clássica do soneto é recriada numa peça memorável, Primeiro movimento, que nos surpreende pelo ritmo sintático inusitado, construído pela pontuação abrupta, cortes elípticos e jogos sonoros de rimas internas, aliterações e paronomásias, que modulam uma dicção áspera, de quebra-língua: “brinco inca; câmara de tintas; finca pé ante o nono sono; / campo bento em que Onan brinca; / -- Palmo calmo de pele; pele-nuca; / naco branco que toda boca trinca; / lacero-te; mas; não; nem; nunca; nunca”. Em outra composição, intitulada Mantenha distância, o poeta condensa em linhas enxutas o seu antidiscurso de simultaneidades e sincronias: ”Acudo / os / sentidos com / a tosca lasca / do risco, / visto uma / pele desnuda / de Puma, / arisco / assisto ao / rebolado de / avenidas, / sem susto. / Resisto ainda / aos obeliscos / e cabarés, / me arrisco”, com trabalho notável de ritmo e rimas. As linhas são recortadas numa operação de “violência organizada contra a língua” (Jakobson), buscando o efeito sonoro áspero, rascante, algo entre a guitarra de punk rock e o expressionismo abstrato de Jackson Pollock. A língua pedrosa de Joca Reiners Terron torna-se ainda mais dissonante e brutalista em seu segundo livro de poemas, Animal anônimo, publicado em 2002, que reúne breves paisagens verbais da cidade de São Paulo, tendo como leitmotiv o Elevado Costa e Silva, conhecido como “Minhocão”: “Elevado onde / cantam os canos / da GARRA / nascem da noite / seus animais / minúsculos / a vérmina / a devorá-la / dá-se ao osso”. A violência urbana, tema comum aos prosadores do período, atravessa os poemas de Animal anônimo, onde até “o vigia / do templo budista usa / uma glock 9 milímetros”, imagem que recorda as graphic novels de Frank Miller ou os filmes de Tarantino. Personagens de seriados e histórias em quadrinhos, aliás, invadem a narrativa poética, de maneira alegórica ou paródica, criando as mais insólitas situações, como acontece no poema Sex horror show: “Se Godzila goza / Tóquio em polvorosa / cai uma chuva viscosa / como manga com leite. / O Drácula ejacula / e o seu dia encurta / King Kong esporra, range / esfrega no Empire State / e mostra a língua hirsuta / A noite se alonga, larga / pra Kong e Jéssica Lange / que tira a tanga e sonha / ser mulher-macaco, a Monga / que sacode a grade, a luz apaga / e a noite segue, de encontro / em encontro, numa suruba monstro”. Escatologia, monstruosidade e sexo bizarro são algumas das obsessões favoritas do poeta, encenadas em narrativas poéticas dispostas em diferentes seções do livro, que incorporam ainda personagens criados pelo próprio poeta, como MC Medo e DJ Fedor, encontrados mortos no poema Um giro no maverick dos subúrbios, vítimas de um desconhecido serial killer. O tom fantasmagórico ou circense dos poemas narrativos de Terron estabelece um diálogo textual com o poeta “maldito” por excelência da década de 1960, Roberto Piva, aliás homenageado numa das peças do volume, intitulada Cine Piva, onde lemos: “Largos são invadidos por pastores com ternos / pequenos demais acompanhados por missionários / ex-gays prestes a morrer de gestos / exagerados e políticos pederastas”, linhas de fluência melódica próxima ao andamento da prosa, assim como acontece em Paranoia ou Piazzas, de Piva. A linguagem desbocada do poeta “maldito” de São Paulo também aparece em pequenos poemas irônicos ou satíricos como “anseia / pela buceta / da sereia / coisas / impossíveis” e “a poesia é inútil / o poeta / perigoso / (...) enfia este poema / no seu cu / agora canta”. Farpa, aspereza e atrito estão presentes em todo o volume, combinados a um rigoroso construtivismo visual que orienta a própria concepção visual do livro, onde trechos de poemas, com as palavras recortadas, quase ilegíveis e em fonte maior, são colocados nas páginas pares, em nítido contraste com os poemas que aparecem nas páginas ímpares, numa dialética entre som e ruído, figura e sentido. Entre as duas colunas de textos, dispostas à esquerda (pares) e à direita (ímpares), o autor inseriu borrões de tinta que simulam formas de folhas, insetos, pegadas ou aves, ampliando a zona de indeterminação. Os poemas respondem a esse torvelinho em sua própria disposição espacial e na variação de fontes e corpos de letras, recursos que derivam do Lance de dados de Mallarmé e seus desdobramentos em Apollinaire, na Poesia Concreta, mas que também se aproximam das montagens e colagens dadaístas e surrealistas, em especial as pinturas “MERZ” de Kurt Schwitters. Não é possível concluirmos este artigo sem fazermos referência à mitológica editora Ciência do acidente, fundada por Terron no final da década de 1990, responsável pela publicação de obras seminais de Valêncio Xavier, Glauco Mattoso, Manoel Carlos Karam, Ademir Assunção e outros poetas e prosadores situados, na época, à margem do mainstream. Todos os livros da Ciência do acidente ainda hoje chamam a nossa atenção pelos ousados projetos de arte e apurado cuidado gráfico, que podem ser creditados ao olho vanguardista de Terron, exilado na prosa à maneira de Rimbaud na Abissínia, em busca de outras cores, aromas e percepções.

Claudio Daniel é poeta, professor de Literatura Portuguesa e colunista da CULT. Publicou, entre outros títulos, os livros de poesia Cadernos bestiais e Esqueletos do nunca (Lumme Editor, 2015).


quinta-feira, 16 de julho de 2015

POEMAS DE LOUIS ZUKOFSKY


















THE LINES OF THIS NEW SONG ARE NOTHING

The lines of this new song are nothing
But a tune making the nothing full
Stonelike become more hard than silent
The tune's image holding in the line.


AS LINHAS DESSE NOVO CANTO NÃO SÃO NADA

As linhas desse novo canto não são nada
Só a melodia tornando pleno o vazio
Igual à pedra se faz mais dura que silente
A imagem sonora suspensa nessa linha.


Tradução: Claudio Daniel e Luiz Roberto Guedes


I WALK IN THE OLD STREET


I walk in the old street
to hear the beloved songs
afresh
this spring night.
Like the leaves - my loves wake -
not to be the same
or look tireless to the stars
and a ripped doorbell.


EU CAMINHO NA VELHA RUA

Caminho na velha rua
para ouvir amadas canções
outra vez
nesta noite de primavera
Como as folhas - despertam meus amores -
não da mesma forma
ou olhar incansável para as estrelas
e a sineta arrancada da porta

Tradução: Claudio Daniel e Virna Teixeira


(A FRAGMENT)

And so till we have died
And grass with grass
Lie faceless as the grass
Grow sheathed with the grass.
Between our spines a hollow
The stillest sense will pass
Or weighted cloud will follow.


(UM FRAGMENTO)

E assim até morrermos
E folha com folha
Jazer sem olho feito folha
Viça embainhada de folha.
Entre nossas espinhas um vão
Que o mais quieto modo acolha
Nossas nuvens que choverão.

Tradução: Ruy Vasconcelos


THE GREEN LEAF THAT WILL OUTLAST THE WINTER

The green leaf that will outlast the winter
because sheltered in the open:
the wall, transverse, and diagonal ribs
of the privet that pocket air
around the leaf inside them
and cover but with walls of wind:
it happens wind colors like glass shelter,
as the light's air from a vault
which has a knob of sun.


A VERDE FOLHA QUE SOBREVIVERÁ AO INVERNO

A verde folha que sobreviverá ao inverno
porque oculta no vão, protegida:
o muro, transversal, e as nervuras diagonais
da alfena que mantém o ar
ao redor e dentro das folhas
e coberta mas com muros de vento:
cores de vento como se fossem um abrigo de vidro,
como as luzes aéreas de uma abóbada
que tem o botão do sol.


Tradução: Adriana Zapparoli e Claudio Daniel

A POESIA-PINTURA DE ELSON FRÓES



      









A poesia visual brasileira, elaborada com recursos da tecnologia digital ou meios artesanais, ainda encontra resistência em uma parcela da crítica literária, incapaz de avaliar essa produção conforme modelos teóricos eficazes para a interpretação de textos tradicionais, mas inadequados para a compreensão de experiências poéticas que transcendem a linguagem escrita, como a poesia sonora, a performance, a holografia ou a videopoesia. O próprio caráter visual da escrita, evidente nas tipologias de letras, disposição das linhas e no aspecto gráfico do objeto livro, torna-se quase invisível para essa crítica, como observou a poeta portuguesa Ana Hatherly ao propor uma “reinvenção da leitura” que leve em consideração, como elemento constitutivo da construção do sentido, a forma visual da escrita. A autora publicou uma obra de referência para o estudo da poesia visual, a antologia A experiência do prodígio, que reúne textos visuais barrocos e maneiristas portugueses dos séculos XVII e XVIII, sem omitir informações sobre as origens greco-latinas dessa modalidade poética, como as composições de Símias de Rodes, datadas do século III a. C. No Brasil, após o movimento da Poesia Concreta, iniciado da década de 1950, com o trabalho poético, crítico e tradutório de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, uma nova geração de poetas tem realizado interessantes pesquisas sobre as possibilidades de interação entre escrita, som, imagem e movimento, destacando-se as inventivas obras de Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, André Vallias, Lúcio Agra e Elson Fróes. Estes poetas veiculam seus experimentos poéticos em livros, mas também em outros suportes, como o compact disc, a instalação, o videoclip, a performance poético-musical, o computador. O diálogo poético com as novas tecnologias eletrônicas está presente, sobretudo, no trabalho do paulistano Elson Fróes, criador de um dos primeiros sites de poesia publicadas na internet a partir da década de 1990, Popbox. Um bom exemplo das experiências do poeta com os recursos digitais é a animação que criou para o poema Lua na água (http://www.elsonfroes.com.br/kamiquase/anim.htm), de Paulo Leminski, em que o movimento das palavras e do ícone da lua na tela do computador traduz visualmente o sentido da composição. Já no poema sonoro SUS (http://www.elsonfroes.com.br/sonora.htm), Elson Fróes desloca o movimento para a oralização das palavras, explorando a musicalidade de assonâncias, aliterações, rimas imprevistas, ecos e pausas. Sua poesia visual, elaborada inicialmente com meios artesanais, como o recorte, colagem e montagem de desenhos, fotos e textos em várias cores e tipologias de letraset, foi digitalizada – e em alguns casos retrabalhada – em Popbox (na página http://www.elsonfroes.com.br/visual.htm), disponibilizando para o leitor/internauta a sua insólita oficina de inventos. Em “a grama diz / o que o vento diz / o indizível bis”, Elson Fróes cria um curioso haicai, em que a diagramação das linhas mimetiza o movimento do vento nas folhas, enquanto a aplicação da cor verde transforma as palavras em ícones vegetais, numa perfeita unidade entre construção e sentido. Os recursos visuais utilizados por Elson Fróes são coerentes com as possibilidades estéticas do haicai japonês, escrito no alfabeto de ideogramas, que representam desenhos abreviados das coisas, justapostos conforme técnicas de montagem, numa lógica pictórica e relacional que combina diferentes elementos de maneira metafórica. Em Recifra-te, o autor realiza um poema enigmático que solicita a intervenção do leitor para a decodificação do sentido, pela substituição das figuras hieroglíficas por letras do alfabeto ocidental. Os enigmas, aliás, são recorrentes na poesia barroca, cujos ecos ressoam na poesia em versos de Elson Fróes, publicada em seu (até agora) único livro publicado, Poemas diversos (2008), onde lemos pequenas joias, como esta belíssima composição: “se faz o ouro em volutas / que se revolve ao vento / ouro revolto em movimento / e no coração como concha / traz uma pequena pérola / incrustada luz que refulge / no fundo da escuridão / pérola, luz,  iluminada”.

(Artigo de Claudio Daniel publicado na edição de julho /2015 da revista CULT, na coluna RETRATO DO ARTISTA.)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

POEMAS DE ROBERT CREELEY

 


DE NOVO

Outro dia ido, 
adiado, achado na 
forma de dias.
Teve início, teve 
fim - foi adian- 
tado, atrasado,
lento, logo um 
sol brilhou, nuvens, 
fiquei flutuando no ar
um tempo com outras, 
então desci 
de novo ao chão.  
Lua alguma. Quarto de 
espelunca - começar 
de novo.


NOVO MUNDO

Terra edênica, adâmico ser - 
Estupidez o preço que você vai pagar 
Por esse inútil saber.


ESPELHO

Ver é crer. 
O que foi pensado ou dito,

essas mortes persistentes, inexoráveis, 
fazem fé assim ausente,  

nossa humanidade uma pergunta, 
um nojo pelo que somos.

Seja que esperança for, 
está perdida aqui.

Por termos cobiçado nossa diferença,
eis o preço.


DEPOIS DE PASTERNAK  

Acha tudo uma coisa só? 
Pancada de neve, porta 
do carro fechada, o sol brilhante, 
paciente -
Quantos milhões de anos 
para chegar e estar 
aqui uma só vez - 
nunca voltando -
Ah, triste margem de perspectiva - 
janela exausta no passado - 
agora, o que quer que viva 
já não pode durar.


VIDA

Para Basil

Claridade intensiva, específica, 
como nada mais 
que não seja 
ela mesma -
isso ecoa assim, 
vista, sentida, ouvida, 
ou saboreada, uma só 
e muitas. Mas
meu punho golpeia 
a porta, pedido 
escasso, contrita entrada 
quer mais.


NATUREZA MORTA

Ainda 
viva. Só 
não anda.

*

Traduções: Rodrigo Garcia Lopes


PARTITURAS DO INSÓLITO: A POESIA DE RICARDO ALEIXO


Ricardo Aleixo realiza sua pesquisa poética em diferentes campos, como a etnopoesia, a performance, experimentos em poesia visual e sonora, objetos tridimensionais, videoarte, canções, com raro domínio técnico e sensibilidade, unindo a tradição da poesia de alto repertório aos recursos tecnológicos e aos territórios simbólicos da cultura popular. Sua poesia em verso, publicada em cinco livros – Festim (1992), A roda do mundo (1996, em parceria com Edmilson de Almeida Pereira), Trívio (2001), Máquina zero (2003) e Modelos vivos (2010) revela um timbre seco, áspero, que comunica “uma percepção crítica da realidade, na qual a forma severa mimetiza de modo mordaz a escassez de um mundo rude, pobre, elementar”, conforme escreveu o crítico Manuel da Costa Pinto[1].

Em seu livro de estreia, Festim, cujo subtítulo é um desconcerto de música plástica, Ricardo Aleixo apresenta um conjunto de poemas breves, compostos em diferentes tipologias de letras, espacializados com recursos de diagramação que denunciam a ressonância da Poesia Concreta. A dicção de revolta, porém, já é bastante pessoal e prenuncia futuras composições do poeta. Assim, por exemplo, nesta peça sem título, composta numa fonte em que as letras aparecem inclinadas, sugerindo uma escrita líquida: “neste código nesta culpa neste olho nesta cólera / neste dardo nesta forma neste alvo nes / ta alma nesta danação neste infernocéu...”. O poema resume, de maneira exemplar, o duplo compromisso do autor, com a arte e o mundo, já em sua semântica: ao lado de termos que remetem à “poesia pura” – código, forma, lira, página – estão alinhados outros termos, indicativos da situação de exclusão social em que ainda vivem amplas parcelas da população brasileira: culpa, cólera, danação, delito, lâmina, inferno. Combinados a esses dois campos semânticos, como se fosse uma camada intermediária, lemos ainda: ócio, ópio, delírio, farsa, indicando tanto a situação da classe hegemônica quanto a dos poetas indiferentes às desigualdades sociais. É um violento poema de protesto, mas construído com rara inteligência combinatória, que evita as facilidades discursivas da lírica social.

Em outra peça sem título, de apenas duas linhas, compostas numa fonte similar ao da escrita gótica, Ricardo Aleixo alterna o brado ríspido com a fina ironia, porém, com o mesmo espírito crítico: “fogo na alma O inferno também / é para quem pode”, que recorda as paródias e paradoxos do polaco mulato Paulo Leminski. A fluência melódica, que caracteriza uma das vertentes da poesia do autor mineiro, é bem representada, neste volume de estreia, por outra composição: “incontáveis linhas / como que dispersas / impensáveis línguas / como que dos persas / cruzam-se no infinito: / ou tornam-se linguagem / ou deixam o dito / por não dito”.

Emblemática da primeira fase da poesia de Ricardo Aleixo, a peça explora de maneira feliz as aliterações e assonâncias, concluindo o discurso poético com um dito popular que dessacraliza a “pureza” da linguagem, revitalizando-a pela contaminação de outros repertórios linguísticos (procedimento que verificamos em muitos de seus companheiros de geração, como Rodrigo Garcia Lopes, Ademir Assunção, Ricardo Corona e Maurício Arruda Mendonça). A roda do mundo (1996), segundo livro publicado pelo autor, tem uma estratégia diferente de Festim: em vez da pesquisa visual, o poeta investe em outra seara, a dos cantos rituais dedicados aos orixás das religiões de matriz africana, ou orikis, tema estudado pelo poeta e antropólogo baiano Antonio Risério do livro Oriki orixá, publicado no mesmo ano. Mistura de poesia, canto, sortilégio e prece devocional, sem formas métricas ou rímicas fixas, os orikis tradicionais, compostos no idioma iorubá e cantados até hoje nos terreiros de umbanda e candomblé, são ricos em trocadilhos, paronomásias e outros jogos semânticos. Seu recurso mais característico é o epíteto, também frequente na poesia épica grega, indiana e escandinava. Assim, Xangô é chamado de “alafim de Oió” (soberano do reino de Oió), Ogum é “Oniré” (rei de Irê), entre outros apelidos poéticos, ou “qualidades”, que destacam as características de cada orixá.

Ricardo Aleixo, dialogando com esse imaginário mitológico e manancial poético, criou um ciclo de dez orikis, que se destacam pela fluência melódica: são poemas para serem lidos em livro, mas poderiam, facilmente, ser cantados. No oriki dedicado a Iemanjá (Mamãe grande), por exemplo, Ricardo Aleixo consegue, pela repetição de contínua de três frases, um efeito quase hipnótico, como na recitação de um mantra: “todas / as águas do mundo são / Dela, fluem / refluem nos ritmos / Dela, tudo que vem, / que revém. todas / as águas / do mundo são / Dela. / fluem refluem / nos ritmos Dela...”. A repetição das mesmas frases sonoras, por outro lado, mimetiza, de forma icônica, o próprio movimento das águas do mar, elemento regido por Iemanjá, Senhora das Águas. Outra peça notável desse conjunto é o oriki de Xangô, onde lemos: “O que / lança pedras / de raio / contra a casa / do curioso / e congela / o olhar do / mentiroso. Leopardo, / marido de Oiá. / Leopardo, / filho de Iemanjá. / Xangô cozinha / o inhame / com o vento / que sai / de suas ventas”, versos concisos e ferinos que recriam a virulência dos textos sonoros iorubás, tal como apresentados a nós por um dos maiores especialista no assunto, Pierre Verger, autor do clássico livro Os orixás.

Embora as “travessuras” dos orixás nada tenham de incomum – fazem parte dos relatos mitológicos originais das nações africanas, em particular dos grupos ketu, bantu, nagô e djedje, e encontradas também em outras religiões e mitologias, como os “passatempos” de Krishna, descritos no Srimad Bhagavatam –, é impossível, para o leitor ocidental, não pensar na tradição coloquial-irônica e erótico-satírica das cantigas de escárnio e mal-dizer até Gregório de Matos, Bocage, Glauco Mattoso e outros autores “desbocados”. Em um oriki de Exu traduzido por Antonio Risério, por exemplo, lemos: “Exu não deixa a rainha cobrir o corpo nu. (...) / Surra de chicote a mulher do rei. / Deixa o chorão chorar / Vê gente se batendo e não aparta. (...) / Agbô vê quando botam pimenta / Na buceta de sua sogra. (...) / Atirando uma pedra hoje, / Mata um pássaro ontem”. No oriki de Exu escrito por Ricardo Aleixo, predominam o paradoxo e a hipérbole, recorrentes também em outras modalidades de poesia popular, como os romances de cordel: “Cabelo pontudo /como um falo. / Dono dos oitocentos / porretes. (...) / Bará chega fungando. / O povo pensa / que é o trem / partindo”.

Após a experiência mitopoética de A roda do mundo, Ricardo Aleixo retoma a pesquisa visual iniciada em Festim no seu terceiro livro, Trívio, publicado em 2001. No posfácio que escreveu para essa nova coleção de poemas, Sebastião Uchoa Leite escreve: “a poética de Ricardo Aleixo é uma poética de interstícios, interconexões, ou, como ele o dia, um ‘estático / teatro de sombras // matéria de / que é / feita a / insônia’. (...) Como se disse antes, tudo está imbricado: lirismo, citações cultas, referências míticas, engajamentos (no poema ‘Brancos’, ‘brancos’ = machos = adultos = cristãos = ricos = ‘sãos’, tudo aludindo à expressão corriqueira: ‘eles que são brancos que se entendam’)”. Trívio (palavra que significa a divisão inferior das artes liberais na Idade Média: gramática, retórica, dialética, mas também a reunião de três caminhos) é um vasto palimpsesto onde encontramos desde os índices cultos, como a epígrafe de Lezama Lima, poemas que dialogam com a passante de Baudelaire, a lírica amorosa de Goethe, a pintura de Caravaggio e a música de John Coltrane até peças de surpreendente leveza, que estão entre as mais notáveis do volume, como Loa da menina deusa: “já perto do poente / o cabelo ornado / com invisíveis fios / de ouro / a menina uma / putinha da areia uma / menina deusa / qualquer / inventa a um / simples meneio / dos dedos / um outro sol / e some / rápida / reconvertida em água”, peça que combina o registro da imagem de uma banhista adolescente com a referência ao mito da sereia e, talvez, a Iemanjá.

Em outra composição de versos curtos encadeados, o poeta mineiro presta homenagem a Bispo do Rosário, artista naif, dadaísta talvez sem sabê-lo, triplamente excluído como negro, pobre e esquizofrênico: “quem fez e refez / cem vezes o / caminho do mundo / até antes / cem vezes na / cabeça o longo / trecho entre o / mar e o / céu / quem re fez o / caminho da perda / com seu manto / de / ver deusfilho”. Neste poema, assim como em outros do volume, podemos considerar que o texto inteiro é um único verso, com sintaxe completa, dividido em linhas breves, que subvertem a linearidade e definem o ritmo da leitura.

O mesmo princípio vamos encontrar na peça Para uma eventual conversa sobre poesia com o fiscal de rendas (cujo título remete a Maiakovski), com a diferença de que, neste caso, em lugar do verso curto, temos uma sequência de blocos de texto que dissolvem os limites entre prosa e poesia, em linhas espacializadas, sem pontuação e com ritmo anafórico: “minha própria língua meu / próprio limo meus próprios /  ombros minha própria sombra / minhas próprias vértebras / minhas próprias pálpebras (...) / meu próprio sinal de nascença minha / própria calva meu próprio / cavalo minha própria idade: / minhas propriedades”. Poema de ironia corrosiva, acentua um dos temas frequentes na poesia de Ricardo Aleixo: a situação desconfortável do poeta numa sociedade regida pela lógica do mercado e da mídia.

Em outros poemas de Trívio, encontraremos diferentes estruturas comunicativas que convidam o leitor a descobrir rotas de leitura distintas do padrão ocidental, que segue da esquerda para a direita, em linhas horizontais. Nas peças de concepção visual mais acentuada, como a Canção noturna do fim de Peixes, Passagens, Nota, o leitor participa da construção de sentido buscando outras formas de leitura, da direita para a esquerda, na vertical, em ziguezague e em outras rotas inusitadas, à maneira do labirinto visual do barroco português e da obra aberta de Umberto Eco.

Máquina zero, publicado em 2003, Ricardo Aleixo radicaliza a vertente coloquial irônico-satírica já presente nos títulos anteriores. No poema Paupéria revisitada, por exemplo, lemos: “Poetas, como os deuses, / vendem quando dão. / Poetas, não. / Policiais e pistoleiros / vendem segurança / (isto é, vingança ou proteção). Poetas se gabam do limbo, do veto / do censor, do exílio, da vaia / e do dinheiro não)”. O tema se amplia, nas peças seguintes, num amplo painel crítico da “república das letras”, em que a língua ferina do autor não poupa leitores, editores, críticos e outros poetas: “Se praticais sonetos – anacrônico. / Se pretendeis chocar – não paga o custo. / Se recriais Homero – macarrônico. / Se experimentais – cópia do Augusto”. A própria cidade natal do poeta, Belo Horizonte – ou Velhorizonte, no dizer irreverente de alguns de seus moradores – não escapa da farpa e da virulência: “Se terra tem cu / Belo Horizonte é o cu das terras”, / Averno oculto / entre as serras, / onde o próprio Belzebu // por certo, não escaparia / ao riso dissimulado, / ao insulto / disfarçado / de elogio, à vilania”, que recorda o brado cáustico de Gregório de Matos.

Novos modelos, livro mais recente de Ricardo Aleixo, publicado em 2010, apresenta surpresas já no projeto gráfico – desde a bela capa, que reproduz a “fotografia digital (que assume diferentes formas) de objeto construído com linhas de costura de diversas cores”, como esclarece o autor em nota no final do volume, até a “releitura, com verniz aplicado, de poema-lema produzido originalmente como um adesivo” nas “orelhas” do livro (“Tem que ter palavra para ser humano”, de evidente ambiguidade referencial). A visualidade está presente em poemas como 11 passos para Merce Cunningham, composto de uma série de desenhos abstratos, ao modo de variações, feitos com tinta acrílica sobre papel fotográfico.

O desfazimento das palavras – e portanto do sentido – acontece também no díptico Real / irreal, em que uma única frase – “o real realiza o irreal” é repetida em sequências que deformam palavras, sílabas e letras, até convertê-las em manchas ou ruídos gráficos. Em outras composições desta seção do livro, o autor apresenta novos labirintos-enigmas, como Babeladormecida, Einstein remix e Solo, que exploram possibilidades combinatórias e rotas de leitura – recursos evidentes também no poema em prosa Cabeça de serpente (“a serpente morde a própria cauda. a serpente pensa que morde a própria cauda. a serpente apenas pensa que morde a própria cauda. a serpente morde a própria cauda que pensa.”) e no labirinto de versos que constroi nos poemas Tempo e Errata, em que as mesmas frases e palavras são distribuídas, nas duas peças, em diferentes sequências e combinações.

Um ano entre os humanos, nome de uma performance poético-musical apresentada por Ricardo Aleixo, é também o título de um interessante poema em prosa incluído no volume, construído por uma sequência de perguntas irônico-incisivas que, é claro, prescindem de respostas: “Você beberia sangue humano? A filha da Madonna é humana? (...) A Barbie é humana?  Você acreditaria se lhe dissessem que Michael Jackson, quando bebê, tinha feições humanas? (...) Charles Darwin era humano? (...) Prisioneiros iraquianos arrastados por coleiras são humanos? (...) Você é humano?”.

Notáveis também são os autorretratos do poeta, distribuídos ao longo do volume, elaborados com câmera digital e produzidos em seu “laboratório-casa” – montagens inusitadas de letras, luzes, perfis e sombras, que nos fazem pensar nos artistas da vanguarda russa da década de 1920, como Ródchenko. Todos estes poemas – e o livro não se resume a esse breve elenco de inventos – situam Ricardo Aleixo não apenas entre os poetas identificados com a poesia visual e o experimentalismo, mas também no campo do neobarroco, entendido aqui como a ampla teia de autores que, desde a década de 1970 até os dias atuais – pensemos em Severo Sarduy, José Kozer, Nestor Perlongher, Coral Bracho, Victor Sosa, Reynaldo Jiménez – reelaboraram influências da poesia barroca do Século de Ouro, à luz da tradição da modernidade. Todos os rótulos, é evidente, são úteis para a compreensão e discussão de aspectos temáticos ou formais de um autor ou geração literária, sem a pretensão de esgotar as chaves interpretativas. No caso de um grande poeta, como é o caso de Ricardo Aleixo, os rótulos colaboram para iluminar, parcialmente, momentos de transformação de uma escrita camaleônica, rara e necessária ao nosso tempo.





[1] Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006, p. 20.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

POEMAS DE WALT WHITMAN
















VOCÊ, LEITOR

Você, leitor, que pulsa
de vida e orgulho e amor,
assim como eu:
para você, por isso,
os cantos que aqui seguem!


A UMA PROSTITUTA COMUM

Tranquilize-se, fique à vontade comigo 
- eu sou Walt Whitman, 
Liberal e saudável como a Natureza! 
Antes que o sol a rejeite, 
Antes que as águas se neguem 
A rebrilhar por você 
Ou as folhagens a sussurar por você, 
Minhas palavras não se negarão 
A rebrilhar e a sussurrar por você. 
Garota minha, eu marco com você 
Um encontro bem marcado, 
E encarrego você 
De fazer todos os preparativos 
Para estar bem em forma 
Ao encontrar-se comigo; 
E encarrego você 
De ser paciente e perfeita 
Até a hora, eu saúdo você 
Com um olhar cheio de significados 
Para você não se esquecer de mim.


SAINDO DE PAUMANOK (fragmentos)

Saindo da ilha em forma de peixe 
onde eu nasci – Paumanok – 
bem concebido e criado por uma perfeita mãe, 
depois de andar muitas terras, 
morando em Mannahatta, cidade minha, 
ou nas savanas do Sul, 
ou soldado acampado ou carregando 
o fuzil e a mochila, 
ou labutando nas minas da Califórnia, 
ou bronco em minha casa nos bosques de Dakota, 
a comer carne e a beber água de fonte, 
ou escondido para meditar 
em algum canto bem fundo 
longe do estrídulo das multidões. (p. 18)1
Uma vez no Alabama, enquanto eu dava 
o meu passeio matinal, 
vi pousada uma fêmea de pardal 
em seu ninho entre os galhos 
chocando seus filhotes.
Eu vi também o passarinho-macho 
e parei a escutá-lo 
ao alcance da mão 
inflando o peito e gorjeando em júbilo. 
E estando eu ali parado, me ocorreu 
que o canto dele 
não era só para o que estava ali, 
nem para a parceira dele 
nem mesmo para ele só, 
nem para tudo o que os ecos mandavam 
de volta 
− mas muito além, sutil e clandestina, 
era mensagem transmitida e oculta herança 
para os que estavam acabando de nascer.


CANTO A MIM MESMO

Celebro a mim mesmo
e canto a mim mesmo:
e o que eu assumo, vocês devem assumir,
pois cada átomo que a mim pertence
também a vocês pertence.
Folgo e convido minha alma,
dito-me e folgo à vontade
vendo no estio uma lança
de capim
Minha língua, cada átomo
do meu sangue, se forma
deste chão, deste ar:
nascido aqui, de pais aqui nascidos
de pais quanto a isso iguais
e os pais deles também,
eu, agora com 37 anos,
em plena saúde vou
contando não parar
até a morte
Crenças e escolas em estado latente,
por enquanto afastadas um pouquinho,
quanto para elas basta,
porém não esquecidas,
ao bem e ao mal dou guarida
e em qualquer circunstância
me permito falar
- natureza sem confronto
com a energia original


CERTA VEZ NUMA CIDADE

Certa vez eu passei
por uma cidade bem populosa,
guardando no meu cérebro impressões
para futuro emprego,
com suas mostras, sua arquitetura,
costumes, tradições,
embora dessa cidade eu agora
me lembre apenas de uma mulher
que encontrei por acaso
e me deteve por amor de mim
e juntos estivemos
dia por dia e mais noite por noite
— posso afirmar que só me lembro mesmo
dessa mulher que se apegou a mim
apaixonadamente,
de quanta vez andamos, nos amamos,
de novo nos deixamos,
de novo ela a pegar-me pela mão,
e eu sem precisar ir:
vejo-a bem perto a meu lado
de tristes lábios trêmulos
calados.

Traduções: Geir Campos

(Do livro Folhas das folhas da relva, de Walt Whitman. São Paulo: Brasiliense, 1983.)

quarta-feira, 8 de julho de 2015

POEMAS DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS



















CONSAGRAÇÃO DE UM PEDAÇO DE TERRA

Este pedaço de terra 
defronte às águas do estreito 
é consagrado à presença viva de 
Emily Dickinson Wellcome 
que nasceu na Inglaterra, se casou, 
perdeu o marido e com 
seu filho de cinco anos 
veio para Nova York num navio de dois mastros, 
foi bater nos Açores; 
vogou a esmo até o baixio de Fire Island, 
encontrou o segundo marido 
numa pensão do Brooklyn, 
foi com ele para Porto Rico 
deu à luz mais três filhos, perdeu 
seu segundo marido, teve oito anos 
de vida dura em St. Thomas, 
Porto Rico, São Domingos, acompanhou 
o filho mais velho a Nova York, 
perdeu sua filha, o seu "bebê", 
pegou os dois meninos do 
segundo casamento do filho mais velho 
serviu-lhes de mãe — deles que eram 
rfãos de mãe — lutou por eles 
contra a outra avó 
e as tias, trouxe-os para cá 
verão após verão se defendeu 
aqui contra ladrões, 
tempestades, sol, incêndio, 
contra moscas, moças 
que vinham farejar à volta, contra 
seca, ervas daninhas, marés de borrasca, 
vizinhos, doninhas que lhe roubavam o galinheiro, 
contra a fraqueza de suas próprias mãos, 
contra a força crescente 
dos meninos, contra ventos, contra 
pedras, contra os invasores, 
contra impostos, contra o seu próprio entendimento. 
Cavoucou esta terra com suas próprias mãos, 
reinou sobre esta leira de relva, 
imprecou o filho mais velho 
até que ele a comprasse, viveu aqui quinze anos, 
alcançou a solidão definitiva e —
Se não puderes trazer a este lugar 
mais do que a tua carcaça, fica longe dele.


O CARRINHO DE MÂO VERMELHO

tanta coisa depende 
de um
carrinho de mão 
vermelho
esmaltado de água de 
chuva
ao lado das galinhas 
brancas.


POEMA

Ao trepar sobre 
o tampo do 
armário de conservas
o gato pôs 
cuidadosamente 
primeiro a pata
direita da frente 
depois a de trás 
dentro
do vaso 
de flores 
vazio.


A ACÁCIA-MELEIRA EM FLOR 

Segunda versão

Por 
entre 
verde
velho 
claro 
rijo
roto 
ramo 
outro
branco 
doce 
Maio
vem.


O POEMA

Tudo está 
no som. Do som, a canção 
Mesmo rara. Bom
que seja uma canção — com 
pormenores, vespas, 
uma genciana — algo 
imediato, tesoura
aberta, olhos 
de senhora — desperta, 
centrífuga, centrípeta.


 A DURAÇÃO

Uma folha amarfanhada 
de papel pardo mais 
ou menos do tamanho
e volume aparente 
de um homem ia 
devagar rua abaixo
arrastada aos trancos 
e barrancos pelo 
vento quando
veio um carro e lhe 
passou por cima 
deixando-a aplastada
no chão. Mas diferente 
de um homem ela se ergueu 
de novo e lá se foi
com o vento aos trancos 
e barrancos para ser 
o mesmo que era antes.

NO JOGO DE BEISEBOL

No jogo de beisebol a multidão 
é identicamente animada
por um espírito de inutilidade 
que a delícia —
todo o detalhe emocionante 
da perseguição
e da evasão, o erro 
o lampejo de gênio —
tudo sem outro fim que não a beleza 
o eterno —
Assim em detalhe os da multidão 
são belos
por isso 
o prevenir-se contra
o saudar e reptar — 
Ela está viva, virulenta
sorri ferozmente 
suas palavras cortam —
A moça vistosa ao lado 
de sua mãe, entende isso —
O judeu entende de imediato — ela 
é mortífera, aterradora —
É a Inquisição, a 
Revolução
É a própria beleza 
que vive
dia por dia neles 
ociosa —
Esse o 
poder do seus rostos —
É verão, é o solstício 
a multidão está
gritando, a multidão está rindo 
em detalhe
permanentemente, gravemente 
sem pensar

 A CABEÇA DE BACALHAU

Miscelânea de algas 
cordões, caules, detritos — 
firmamento
de peixes — 
onde as patas amarelas 
das gaivotas chapinham
ramos batem 
barcos deixam rastro de bolhas 
— de noite doidamente
agitam-se fosfores- 
centes animálculos — mas de dia 
flácidas
luas em cujos 
discos por vezes uma cruz vermelha 
reside — quatro
braças — no fundo assenta 
um salpico 
de areias esverdeadas —
amorfo titu- 
beio de rochas — três braças 
o corpo
vítreo pelo qual — 
peixinhos velozes descem 
fundo — e
eis embalo um sobe 
e desce 
estrelas vermelhas — uma decepada
cabeça de bacalhau entre 
duas pedras — subindo 
descendo.


AS ÁRVORES BOTTICELLIANAS

O alfabeto das 
árvores
vai desmaiando na 
canção das folhas
as hastes cortadas 
das finas
letras que escreviam 
inverno
e frio 
foram iluminadas
com 
pontas de verde
pela chuva e o sol — 
As regras simples
e estritas dos ramos 
retos
vão sendo alteradas 
por ses de cor
pinçados, por cláusulas 
devotas
os sorrisos de amor —
...........
até as frases 
desnudas
se moverem como braços 
e pernas de mulher sob o tecido
e em sigilo o louvor 
entoarem do desejo
e do império do amor 
no estio —
No estio a canção 
canta-se por si
acima das palavras surdas —


MULHER DIANTE DE UM BANCO

O banco é uma questão de colunas, 
tal como. a convenção, 
e não a invenção; mas os frontões 
lá estão sob o sol
para acalmar as dúvidas 
de investimentos "sólidos 
como rocha" — sobre os quais o mundo 
se firma, o mundo da finança,
o único mundo: Logo ali, 
conversando com outra mulher enquanto 
embala um carrinho de criança 
de lá pra cá está uma mulher com um
vestido rosa de algodão, sem meias 
nem chapéu; as pernas nuas 
são duas colunas sustentando 
seu rosto, como o de Lênin (o cabelo
frouxamente preso muito louro) ou 
de Darwin, e aí 
está: 
mulher diante de um banco.


Traduções: José Paulo Paes 

terça-feira, 7 de julho de 2015

POEMAS DE EMILY DICKINSON

 

11

Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém – Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste  – ser  – Alguém!
Que pública  – a Fama  –
Dizer seu nome – como a Rã  –
Para as palmas da Lama!


13

Muita Loucura faz Sentido –
A um Olho esclarecido –
Muito Sentido – é só Loucura –
É a Maioria
Que decide, suprema –
Aceite – e você é são –
Objete – é perigoso –
E merece uma Algema –


16

Algumas Bortboletas há
Nos Campos do Brasil –
Voam ao meio-dia só –
Depois – cessa o Alvará –

Alguns Aromas – vêm e vão –
À tua Escolha, uma só vez –
Estrelas –  que à Noite entrevês –
Estranhas – de Manhã –


19

Banir a Mim –  de Mim –
Fosse eu Capaz –
Fortim inacessível
Ao Eu Audaz –

Mas se meu Eu –  Me assalta –
Como ter paz
Salvo se a Consciência
Submissa jaz?

E se ambos somos Rei
Que outro Fim
Salvo abdicar-
Me de Mim?


27

Mansão malsã de Quem?
Tabernáculo ou Tumba –
Domo de um Verme –
Grota de um Gnomo –
Ou Elfo em Catacumba?


37

A palavra morre
Quando ocorre.
Se dizia.
Eu digo que ela
Se revela
Nesse dia.

41

Ontem é História,
Mas está tão longe –
Ontem é Poesia –
É Filosofia –

Ontem é mistério
Mas onde está Hoje?
Mal especulamos
O tempo nos foge


Traduções: Augusto de Campos

(Do livro Não sou ninguém -- poemas, organizado e traduzido por Augusto de Campos. Campinas: Editora da Unicamp, 2008).  

quarta-feira, 1 de julho de 2015

CAETANO & GIL: GRANDES ARTISTAS, PÉSSIMOS SERES HUMANOS











SOBRE A QUESTÃO DO SHOW DE CAETANO E GIL EM ISRAEL: algumas pessoas acreditam que eles têm o direito de se apresentar lá, e que qualquer crítica a essa apresentação seria "patrulha ideológica". O que estas pessoas pensariam se Caetano e Gil se apresentassem na Africa do Sul, na época do apartheid, ou na Alemanha Nazista, na década de 1930? "São situações diferentes", dirão alguns. Será mesmo? Na Alemanha Nazista, o critério de cidadania era racial: apenas "arianos puros" eram cidadãos plenos. Em Israel, é exatamente assim: apenas judeus étnicos, filhos de mãe judia, têm direito à cidadania plena. Os chamados "árabes israelenses", que descendem dos habitantes originários da região, não têm os mesmos direitos sociais, políticos e trabalhistas que os judeus -- aliás, imigrantes EUROPEUS, caucasianos, que nada têm com a região além de remoto vínculo religioso (em 1920, apenas 5% dos habitantes da Palestina eram judeus, contra 95% de palestinos cristãos e muçulmanos). Israel é um "estado étnico", assim como foi a Alemanha Nazista. Assim como Hitler buscava o "espaço vital" (lebensraum), ocupando territórios na Europa para colonização, Israel, após tomar as terras dos palestinos, ocupou vastas regiões da Síria, Líbano, Egito, Jordânia. Israel é o único país do mundo que não tem fronteiras definidas, para garantir o sonho (pesadelo?) da "Grande Israel" (Eretz Israel), que ocuparia extensões do Nilo ao Eufrates. Hitler confinou os judeus em guetos; Israel confinou os palestinos em bantustões em Gaza e Cisjordânia, que são imensas prisões a céu aberto, cercados por muros e forte presença militar. Para criar o estado artificial de Israel, 750 mil palestinos foram expulsos de suas terras e impedidos de voltarem a suas casas e terras (hoje, são cinco milhões de palestinos vivendo no exílio). Hitler matou milhões de judeus nas câmaras de gás. Israel mata palestinos e libaneses com armas proibidas pela legislação internacional, como bombas de fragmentação e de fósforo branco, além de apoiar, com armas e dinheiro, o Estado Islâmico, que promove a destruição do Iraque e da Síria, onde mais de cem mil pessoas morreram nessa guerra sionista. Qualquer palestino pode ser preso sem acusação prévia nem direito a advogado de defesa por tempo indeterminado, inclusive mulheres e crianças menores de dez anos de idade, submetidas a torturas físicas e psicológicas. Famílias acusadas de cumplicidade com a resistência -- com ou sem provas -- têm as suas casas demolidas e suas propriedades roubadas. Israel é um estado fora-da-lei e fazer vistas grossas a isso não é ignorância, nem ingenuidade de Caetano e Gil: é indiferença ao sofrimento do povo palestino e eles merecem, sim, ser condenados moralmente por seus atos.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

RETRATO
















Mulher branca beija mulher negra,
desnuda seus mamilos;
percorre luas
vermelho-flamboyant
vermelho-tiês
vermelho-eritrino
vermelho-flamingo.
Mínimas mãos
acariciam intermitentes
centaura cabeleira
espraiada nas espáduas.
Arroxeados lábios
palmilham cada cavidade,
fenda, fresta, frincha
indistintas estrelas
ferruginosas, deusa
mergulhada em deusa,
ambas melusinas, duplicidade
de pequenas, delicadas luas
até o reluzir das alamandas.

Claudio Daniel, 2015

terça-feira, 23 de junho de 2015

SETE HAICAIS DE “EROS MÍNIMO”, DE CASIMIRO DE BRITO
















12

Deito-me a teu lado:
somos um só animal
nu, enamorado.


20

A concha obscura
não é um lugar vazio –
tantas estrelas!


24

Deixa que te beije
o umbigo – e assim começar
a volta ao mundo.


27

Beber uma só gota.
Dar-te a beber uma só.
O mundo na boca.


30

Nesse momento
já não sou homem, apenas
águas vivas, subindo.


37

Sei tanto dela
como ela de mim. Entramos,
cegos, um no outro.


53

Eis que regresso
ao lírio roxo, ao túmulo
do meu nascimento.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

SETE POEMAS DE FEDERICO GARCIA LORCA





  










VOLTA DE PASSEIO

Assassinado pelo céu,
entre as formas que vão até a serpente
e as formas que buscam o cristal,
deixarei crescer meus cabelos.

Com a árvore de cotos que não canta
e o menino com o branco rosto de ovo.

Com os animaizinhos de cabeça rota
e a água esfarrapada dos pés secos.

Com tudo o que tem cansaço surdo-mudo
e borboleta afogada no tinteiro.

Tropeçando com meu rosto diferente de cada dia.
Assassinado pelo céu!


1910

Intermédio

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
não viram enterrar os mortos
nem a feira de cinza de quem chora pela madrugada
nem o coração que treme encurralado como um cavalo-marinho.

Aqueles meus olhos de mil novecentos e dez
viram a parede branca onde mijavam as meninas,
o focinho do touro, a seta venenosa
e uma lua incompreensível que iluminava pelos cantos
os pedaços de limão seco sob o negro duro das garrafas.

Aqueles meus olhos no pescoço da égua,
no seio trespassado de Santa Rosa adormecida,
nos telhados do amor com gemidos e frescas mãos,
em um jardim onde os gatos comiam as rãs.

Desvão onde a velha poeira congrega estátuas e musgos.
Caixas que guardam silêncios de caranguejos devorados.
No lugar onde o sonho tropeçava com sua realidade.
Ali meus pequenos olhos.

Não me perguntem nada. Eu vi que as coisas
quando buscam seu curso encontram seu vazio.
Há uma dor de ocos pelo ar sem ninguém
e nos meus olhos criaturas vestidas. Sem nudez!

FÁBULA E RODA DOS TRÊS AMIGOS

Henrique,
Emílio,
Lorenzo.
Estavam os três gelados:
Henrique pelo mundo das camas;
Emilio pelo mundo dos olhos e das feridas das mãos,
Lorenzo pelo mundo das universidades sem telhados.

Lorenzo,
Emilio,
Henrique.
Estavam os três queimados:
Lorenzo pelo mundo das folhas e das bolas de bilhar;
Emílio pelo mundo do sangue e dos alfinetes brancos;
Henrique pelo mundo dos mortos e dos jornais abandonados.

Lorenzo,
Emílio,
Henrique.
Estavam os três enterrados:
Lorenzo em um seio de Flora;
Emílio na hirta genebra que se esquece no copo;
Henrique na formiga, no mar e nos olhos vazios dos pássaros.

Lorenzo,
Emílio,
Henrique,
foram os três em minhas mãos
três montanhas chinesas,
três sombras de cavalo,
três paisagens de neve e uma cabana de açucenas
pelos pombais onde a lua pousa plana sob o galo.

Um
e um
e um.
Estavam os três mumificados,
com as moscas do inverno,
com os tinteiros que o cão urina e o vilão despreza,
com a brisa que gela o coração de todas as mães,
pelas brancas quedas de Júpiter onde os bêbados merendam a morte.

Três
e dois
e um.
Eu os vi perdidos chorando e cantando
por um ovo de galinha,
pela noite que mostrava seu esqueleto de tabaco,
por minha dor cheia de rostos e pungentes lascas da lua,
por minha alegria de rodas dentadas e látegos,
por meu peito turvado pelas pombas,
por minha morte deserta com um só passeador equivocado.

Eu havia matado a quinta lua
e bebiam água pelas fontes os leques e os aplausos,
Leite morno encerrado das recém-paridas
agitava as rosas com uma larga dor branca.

Henrique,
Emílio,
Lorenzo.
Diana é dura
mas às vezes tem as tetas nubladas.
Pode a pedra branca pulsar com o sangue do cervo
e o cervo pode sonhar pelos olhos de um cavalo.

Quando se fundiram as formas puras
sob o cri-cri das margaridas,
compreendi que haviam me assassinado.
Percorreram os cafés e os cemitérios e as igrejas,
abriram os tonéis e os armários,
destroçaram três esqueletos para arrancar seus dentes de ouro.
Já não me encontraram.
Não me encontraram?
Não. Não me encontraram.
Porém se soube que a sexta lua fugiu torrente acima,
e que o mar recordou de imediato
os nomes de todos os seus afogados.
  
POEMA DUPLO DO LAGO EDEN

Nuestro ganado pace, el viento espira

Garcilaso

Era minha voz antiga
ignorante dos densos sumos amargos.
Eu a adivinho lambendo meus pés
sob as frágeis folhas molhadas.
Ai, voz antiga de meu amor,
ai, voz de minha verdade,
ai, voz de meu flanco aberto,
quando todas as rosas manavam de minha língua
e a céspede não conhecia a impassível dentadura do cavalo!
Está aqui bebendo meu sangue,
bebendo meu humor de menino pesado,
enquanto meus olhos se quebram no vento
com o alumínio e as vozes dos bêbados.
Deixai-me passar pela porta
onde Eva come formigas
e Adão fecunda peixes deslumbrados.
Deixai-me passar, homenzinhos de cornos,
ao bosque do espreguiçar
e dos alegríssimos saltos.
Eu sei o uso mais secreto
que tem um velho alfinete oxidado
e sei do horror de uns olhos despertos
sobre a superfície concreta do prato.
Porém não quero mundo nem sonho, voz divina,
quero minha liberdade, meu amor humano
no canto mais escuro da brisa que ninguém deseje.
Meu amor humano!
Esses cães marinhos se perseguem
e o vento espreita troncos descuidados.
Oh, voz antiga, queima com tua língua
esta voz de folha de Flandres e de talco!
Quero chorar porque tenho vontade
como choram os meninos do último banco,
porque eu não sou um homem, nem um poeta, nem uma folha,
mas um pulso ferido que sonda as coisas do outro lado.
Quero chorar dizendo meu nome,
rosa, menino e abeto à margem deste lago,
para dizer minha verdade de homem de sangue
matando em mim a burla e a sugestão do vocábulo.
Não, não, eu não pergunto, eu desejo,
minha voz libertada que me lambe as mãos.
No labirinto de biombos é minha nudez quem recebe
a lua de castigo e o relógio coberto de cinzas.
Assim eu dizia.
Assim eu dizia quando Saturno deteve os trens
e a bruma e o Sonho e a Morte estavam me buscando.
Estavam me buscando
ali onde mugem as vacas que têm patinhas de pajem
e ali onde flutua meu corpo entre os equilíbrios contrários.


CÉU VIVO

Eu não poderei queixar-me
se não encontrei o que buscava.
Próximo das pedras sem sumo e dos insetos vazios
não verei o duelo do sol com as criaturas em carne viva.

Porém eu irei à primeira paisagem
de choques, líquidos e rumores
que tresanda a menino recém-nascido
e onde toda superfície é evitada,
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar mesclado com o amor e as areias.

Ali não chega a geada dos olhos apagados
nem o mugido da árvore assasinada pela lagarta.
Ali todas as formas guardam entrelaçadas
uma só expressão frenética de avanço.

Não podes avançar pelos enxames de corolas
porque o ar dissolve teus dentes de açúcar,
nem podes acariciar a fugaz folha do feto
sem sentir o assombro definitivo do marfim.

Ali sob as raízes e na medula do ar,
comprende-se a verdade das coisas equivocadas.
O nadador de níquel que espreita a onda mais fina
e o rebanho de vacas noturnas com patinhas vermelhas de mulher.

Eu não poderes queixar-me
se não encontrei o que buscava;
porém irei à primeira paisagem de umidades e pulsações
para entender que o que busco terá seu alvo de alegria
quando eu voar mesclado com o amor e as areias.

Vôo fresco de sempre sobre leitos vazios,
sobre grupos de brisas e barcos encalhados.
Tropeço vacilante pela dura eternidade fixa
e amor ao fim sim alvorecer. Amor, Amor visível!

Eden Mills, Vermont. 24 de agosto de 1929.

PAISAGEM COM DUAS TUMBAS E UM CÃO ASSÍRIO

Amigo,
levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio
As três ninfas do câncer estiveram dançando,
meu filho.
Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
e uns lençóis duros onde o câncer estava dormindo.
O cavalo tinha um olho no pescoço
e a lua estava num céu tão frio
que teve de rasgar seu monte de Vênus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos.

Amigo,
desperta, que os montes ainda não respiram
e as ervas de meu coração encontram-se em outro lugar.
Não importa que estejas cheio de água do mar.
Eu amei por muito tempo um garoto
que tinha uma plúmula na língua
e vivemos cem anos dentro de uma navalha.
Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua roxa que deixa
formigas de espanto e licor de lírios.
Já vêm até a rocha. Não alargues tuas raízes!
Aproxima-se. Geme. Não soluces em sonho, amigo.

Amigo!
Levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio.


VALSA NOS RAMOS

Homenagem a Vicente Aleixandre por seu poema
O vale

Caiu uma folha
e duas
e três.
Um peixe nadava pela lua.
A água dorme uma hora
e o mar branco dorme cem.
A dama
estava morta no ramo.
A monja
cantava dentro da toronja.
A menina
ia do pinho à pinha.
E o pinho
buscava a pequena pluma do trinado.
Porém, o rouxinol
chorava suas feridas ao redor.
E eu também
porque caiu uma folha
e duas
e três.
E uma cabeça de cristal
e um violino de papel
e a neve apodrecia com o mundo
se a neve dormisse um mês,
e os ramos lutavam com o mundo
um a um
dos a dois
e três a três.
Oh duro marfim de carnes invisíveis!
Oh golfo sem formigas do amanhecer!
Com o muuu dos ramos,
com o ai das damas,
com o croo das rãs,
e o gloo amarelo do mel.
Chegará um torso de sombra
coroado de laurel.
Será o céu para o vento
duro como uma parede
e os ramos desgalhados
irão dançando com ele.
Um a um
ao redor da lua,
dois a dois
ao redor do sol,
e três a três
para que os marfins durmam bem.

Traduções: Claudio Daniel

(Poemas do livro Poeta en Nueva York)