sexta-feira, 22 de maio de 2015

DIBUJO (Abu Ghraib)



 














Uma figura
de enguia --
palavras
de carbono,
forma esquálida
de garra,
à maneira
simples
de tubérculo.
Dizer
o diamante?
Não, a demência
papilar
traçada
em rocha:
pintura
de mortos,
caligrafia 
de grunhidos.
Assim
porque
ferrugem
ou azul-ferrete,
despetalar
os corvos
brancos
— tudo
é tumulto,
gritos
fanhos
na pupila.

2001/02

quinta-feira, 21 de maio de 2015

OS BUDAS DE BAMIYAN















Lua-cimitarra sobre os budas de pedra em Bamiyan (asa 
sanguínea de grou)
(mandala
com olhos
de tigre)
demolidos
(o deserto,
espelho
de fúrias)
e agora
núpcias
ritmadas
em rasantes
de F-16
(lágrimas
veladas
sob o linho)
(Om vajra
sattva samaya
manu palaya):
diálogo surdo
(línguas-harpias)
entre a loucura
e leviatã
(Vajra bawa
maha samaya
sattva ah
hum phe).
Vestida de ruínas,
a velha cega
ora ao nicho
vazio dos budas.
  
2001

(Poema do livro Figuras metálicas. São Paulo: Perspectiva, 2004)

UM POEMA DO LIVRO FIGURAS METÁLICAS



 









PORQUE A HORA É VIOLENTA

Porque a hora é violenta e tudo esmaga, abrir cabeças
de serpente.
Há o verde sonoro
de metais;
há o roxo
da flor
cujo nome
ignoramos.
Dedos rugem
escura perplexidade;
arcos rebentam
bicos
de pássaro.
Sou anfíbio,
e calo
o que me apavora.
Onde viajar outros dias possíveis?
Como
extirpar
essa desolação?
Eis o inevitável
campo
de batalha;
eis a letra inverossímil, vermelho
decapita
amarelo.
Sinceramente,
confesso
meu pesar:
quando ponteiros corroem pulsos, 
povoar
mandíbulas
para corvos.
A hora é violenta e o medo em escamas
arranha
a pele
da voz.
Explodir palavras-de-argila;
degolar
leões
de pedra
(ignotos);
mutilar
a escura epiderme,
em chuva
azul-
de-agonia.
Tudo
por um
nada
soando crânios e trompetes,
cortando (súbito)
o branco-
cinza
da manhã.
— Sri Baghavan uvaca:
Yam hi na
vyathayanty ete
purusam
purusarsabha
sama-duhkha-sukham dhiram
so ‘mrtavaya
kalpate.

2002

terça-feira, 19 de maio de 2015

UM POEMA DO LIVRO A SOMBRA DO LEOPARDO (2001)




POROS

Um silêncio verde 
— Paul Celan

O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.

1999



quinta-feira, 14 de maio de 2015

POEMAS DO TAO TE KING, DE LAO ZI


















I

O Tao que pode ser pronunciado 
não é o Tao eterno.
O nome que pode ser proferido 
não é o Nome eterno.
Ao princípio do Céu e da Terra chamo “Não ser”.
À mãe dos seres individuais chamo “Ser”.
Dirigir-se para o “Não ser” leva 
à contemplação da maravilhosa Essência; 
dirigir-se para o Ser leva
à contemplação das limitações espaciais.
Pela origem, ambos são uma coisa só, 
diferindo apenas no nome.
Em sua Unidade, esse Um é mistério.
O mistério dos mistérios 
é o portal por onde entram as maravilhas.


VI

O espírito do vale não morre nunca;
ele é a mulher misteriosa.
A porta da mulher misteriosa 
é a raiz do Céu e da Terra.
Ininterrupta, assim como perpétua, 
ela age sem esforço.


XII

Trinta raios cercam o eixo:
a utilidade do carro consiste no seu nada.
Escava-se a argila para modelar vasos:
a utilidade dos vasos está no seu nada.
Abrem-se portas e janelas para que haja um quarto:
a utilidade do quarto está no seu nada.

Por isso o que existe serve para ser possuído
e o que não existe, para ser útil.


XVIII

Quando se perde o grande Tao,
aparecem a moralidade e o dever.
Quando a inteligência e o saber prosperam,
aparecem as grandes mentiras.
Quando os parentes próximos discordam,
aparecem o dever filial e o amor.
Quando os Estados estão em desordem,
aparecem os funcionários leais.


XLIII

A coisa mais macia da terra
vence a mais dura.
O que não existe penetra até mesmo
no que não tem frestas.
Nisso se reconhece o valor da não-ação.
O ensino sem palavras, o valor da não-ação
são raros os que o conseguem na terra.


Tradução: Margit Martincic

quarta-feira, 13 de maio de 2015

UM POEMA DOS CADERNOS BESTIAIS (terceiro volume, inédito)















RETRATO DE MULHER
(serpentinata)

estranha mulher intercambiáveis
folhas de outono
ou lâminas de aço
sem corrosão
relaminadas fina a frio,
ou apenas murmúrio
sem jardins nem quintais
só alinhamento do corte:
o pensar do coração – alto carbono
em conformidade
com a memória –
(nua entre fósforos acesos)
um adeus e o carboneto de vanádio
em oposição ao cromo –
decapadas, expandidas, minimizadas
palavras entre tuas perplexas peles:
a resistência mecânica do substrato aço
– retalhos, chapas, tubos, barras
e sucatas de ferrosos, para fundição

2012

CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS (V)


Um autor é sempre o pior crítico literário de sua obra. Sua opinião, contaminada pela subjetividade, pode conduzir a dois grandes equívocos: o da excessiva indulgência, motivada pelo narcisismo, ou o da autodepreciação, ditada por têmpera masoquista ou simulada modéstia. Em ambos os casos, será difícil separar o seu parecer de uma intenção de propaganda, não sendo raros os casos em que o autor faz a exposição pública de seus ressentimentos: não ter merecido o elogio de seus pares, nem ao menos uma única resenha de seu livro (obviamente) genial. Alguns bradarão a injustiça dos prêmios e concursos, outros acusarão o colega mais conhecido de ter se apropriado de sua ideia (obviamente) genial para um grande romance ou peça de teatro. Poucos se atreverão a analisar a própria escrita como um pintor descreve o seu método de pintar, ou como um compositor expõe o seu processo criativo: a escrita tem (ainda) uma “aura” romantizada, apesar da conhecida anedota de Baudelaire, retomada por Walter Benjamin. Correndo todos os riscos expostos acima, atrevo-me a fazer um breve comentário sobre as fases de minha atividade poética, por um único motivo: é um balanço crítico que faço para mim mesmo, e para aqueles interessados em minha escrita. Em meus três primeiros livros – Sutra (1992), Yumê (1999) e A sombra do leopardo (2001), é visível a influência da Poesia Concreta – especialmente de Haroldo de Campos –, do Neobarroco, da poesia e filosofia chinesa e japonesa e (no caso do último título) de alguns poetas expressionistas de língua alemã, especialmente Georg Trakl e Gottfried Benn. Acredito que este repertório me acompanha até hoje, apesar das mudanças temáticas que aconteceram no livro seguinte, Figuras metálicas (2004), que inicia uma segunda fase de minha escrita, à qual pertencem ainda Fera bifronte (2008), Cores para cegos (2012) e Esqueletos do nunca (2015, este último uma série de aforismos e pequenos poemas em prosa de caráter autobiográfico). Nestas quatro obras, a presença barroca é mais explícita, pelo emprego de recursos e formas poéticas como o anagrama, o enigma, a alegoria, o labirinto de versos e o labirinto de palavras, mas há um elemento novo aqui: o afastamento da ilusão de uma “poesia pura”, abstratizante, e a tentativa de representação do mundo, por exemplo no bestiário incluído em Figuras metálicas, em que baratas, piolhos, pulgas e formigas representam personagens contemporâneos como a atriz de novela, o executivo, o gerente de markerting e o operário fabril. Nos primeiros poemas do volume, também está presente o tema da guerra, e em especial as intervenções imperialistas no Iraque e no Afeganistão (por exemplo, no poema Os budas de Bamyan). Esta mudança temática, embrionária, irá amadurecer na terceira fase de meu trabalho, que inclui, até agora, os Cadernos bestiais, organizados em três volumes, sendo que o primeiro foi publicado em 2015, e o Livro dos orikis, inédito. No primeiro volume dos Cadernos, reuni os dez poemas Antimídia; no segundo, que sairá em 2016, estão os Hinos -- ao Homem de Bem, ao Juiz, ao Médico, ao Fabricante de Cerveja, à Polícia, ao Predicante, ao Humorista, ao Congresso Nacional etc. -- e no terceiro haverá uma série de Retratos -- do Banqueiro, do Filósofo, do Sonegador, do Endividado, do Famoso Romancista, do Poeta Burguês etc. Retrato é um gênero da poesia barroca em que as qualidades (ou defeitos) do retratado são simbolizadas por animais, pedras, flores, frutos, minérios. Posteriormente, reunirei os três cadernos em um único volume, que terá como fio condutor a representação crítica, alegórica, do tempo presente, com o emprego da ironia e da sátira (elementos ausentes, até então, em minha poesia, embora visíveis na prosa do Romanceiro de Dona Virgo). A influência de Brecht e de Maiakovski, nesta terceira fase, é evidente. O livro dos orikis será uma reunião de 18 poemas dedicados aos principais orixás do candomblé, das tradições ketu, jejê e bantu, com uma visada contemporânea. A espiritualidade, aqui, não se divorcia do enfoque crítico das injustiças sociais, ao contrário: as entidades são evocadas – ou invocadas – dentro de uma voluntária parcialidade e posicionamento político. Este é, talvez – e aqui é impossível evitar a subjetividade – o meu livro melhor realizado, em termos poéticos, pela fusão de fundo e forma e por uma espontaneidade musical que surpreendeu o autor. Acrescentar qualquer outra declaração seria condenável prolixidade; creio ter dito o suficiente para delimitar o terreno e expor-me à crítica roedora do tempo e das traças.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

sábado, 9 de maio de 2015

UM POEMA DE JONATAS ONOFRE


O vento só aparece no escuro, uma voz disse.
Deves esconder teus dentes
naquilo que ainda
não perdeste
antes que o medo
o faça
deves morder sem pressa,
sem presságios,
e esquecer a língua no
improvável céu de outras
bocas,
deves abrir todas essas bocas
com alguma faca,
ou hinários, ou manuais
obscenos,
mas nunca se dar ao trabalho
de limpar o sangue
deves esperar que coagule,
procurar respingos nas pedras
e nos abrigos
onde os cães e as mães
ressonam,
por toda a eternidade
das calçadas
procurar os respingos,
e deves achar, se tiveres sorte,
um principio de fome,
que nem perceberás como fome,
e que não será só
fome,
mas uma vontade que ainda
não se nomeou,
desconhecendo-se por completo
o lado em que dorme numa
possível vastidão de
dicionários
e deves acreditar em mim,
deves seguir mordendo, e procurando,
e andando em círculos,
uma, duas, sete vidas
de vitrine em vitrine,
sem perguntas, preocupando-se
apenas em fabricar os círculos
cada vez mais
abertos,
entre os dedos dos pés
deves ser ínfimo antes de
cínico ,
e não deves andar tão abraçado
com pequenos fracassos,
mas nunca será
demais
tropeçar a cada esquina
e sorrir
ao partir a primeira perna,
ao perder uma mísera
clavícula,
pois bem-
aventurado
és, como uma libélula
no nariz de uma rã,
e tolo como um profeta
degolando leões cegos,
há uma morte súbita
e um doce esquecimento
ao lado do único
poema
que te permitirão
escrever,
então sufoque o desejo
de ver o vento,
quando fizer escuro
suficiente,
não haverá olho,
os poucos dentes estarão
perdidos
onde os escondeste,
terás
apenas a sombra de uma
boca,
latejando num quarto,
e ventiladores
no teto
para te atormentar,
sempre
que lembrares o que
uma voz disse.

terça-feira, 5 de maio de 2015

POEMAS DE BERTOLT BRECHT


















EPITÁFIO

Escapei aos tigres
Nutri os percevejos
Fui devorado
Pela mediocridade


REMAR, CONVERSA

Noite. Passam deslizando
dois barcos. Dentro
dois jovens. Torsos
nus. Lado a lado remando
conversam. Conversando
remam lado a lado.


HOLLYWOOD

Toda manhã, para ganhar meu pão
Vou ao mercado, onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
alinho-me entre os vendedores.


MANHÃ MALIGNA

O álamo branco, famosa beldade local
hoje uma velha bruxa. O lago
um charco de águas de lavagem. Não agitar!
As fúcsias junto à boca-de-leão — baratas e fúteis.
Por quê?
À noite em sonho eu vira dedos que me apontavam
como a um leproso. Dedos rotos
dedos mortos.

Ignorantes! gritei
cheio de culpa.


A MÁSCARA DO MAL

Na minha parede, a máscara de madeira
de um demônio maligno, japonesa —
ouro e laca.
Compassivo, observo
as túmidas veias frontais, denunciando
o esforço de ser maligno.


SOBRE UM LEÃO CHINÊS DE RAIZ DE CHÁ

Os maus temem tuas garras.
Os bons alegram-se com teu garbo.
O mesmo
quero ouvir
de meus versos.

Traduções: Haroldo de Campos


AS MOÇAS SOB AS ÁRVORES DA ALDEIA

Escolhem os namorados.
A morte
Também.


É NOITE

Os casais
Deitam-se nos leitos. As mulheres
Parirão órfãos.


NA MANHÃ DO NOVO DIA

Na manhã do novo dia, ainda na aurora
Os abutres se levantarão em negras nuvens
Em costas distantes
Em voo silente
Em nome da ordem.


ALÉM DESSA ESTRELA

Além dessa estrela, pensei, nada existe
E ela está tão devastada
Ela somente é nosso abrigo, e
Olha o aspecto dele.


A FUMAÇA

A pequena casa entre árvores no lago.
Do telhado sobe fumaça
Sem ela
Quão tristes seriam
Casa, árvores e lago.

Traduções: Paulo César de Souza

MAIO É O MÊS DE LEMBRARMOS A NAKBA















O judaísmo é uma religião e um conjunto de costumes e tradições, não define uma nacionalidade ou grupo étnico-linguístico específico -- há comunidades judaicas chinesas, indianas, persas, eslavas, africanas, que descendem de povos convertidos à religião judaica nos primeiros séculos da era cristã, como relata o historiador israelense Shlomo Sand, da Universidade de Jerusalém, no ótimo livro "A invenção do povo judeu" (São Paulo: Benvirá, 2011). O sionismo é uma ideologia política nacionalista criada no século XIX por Theodor Herzl, refutada em seu tempo pelos rabinos ortodoxos, que a consideravam uma heresia (a Torá profetiza que a criação do reino de Israel aconteceria apenas com a vinda do Messias) e rejeitada por intelectuais e artistas judeus, que não reivindicavam outra nacionalidade além daquela de seus países de origem. O pensamento sionista se tornou hegemônico nas comunidades judaicas apenas a partir do final da II Guerra Mundial, em que a maioria dos judeus assimilados -- anarquistas, comunistas, socialistas, democratas, liberais -- foi morta nos campos de extermínio nazistas. A Palestina, nessa época, possuía apenas 5% de judeus e 95% de árabes cristãos e muçulmanos. A criação de Israel em 1947 foi possível pela imigração de milhões de judeus EUROPEUS para a Palestina e pelo apoio dos Estados Unidos ao novo estado, planejado para ser uma base militar e política estratégica para a defesa dos interesses imperialistas no Oriente Médio. Cerca de 750 mil palestinos foram expulsos de suas casas e terras, numa operação de limpeza étnica conhecida como NAKBA ("catástrofe" em árabe). Hoje, o número de palestinos que vivem no exílio, proibidos pelos sionistas de voltarem a seus lares, é de cinco milhões de pessoas. No mês de maio, lembramos o aniversário da NAKBA, uma das principais datas do calendário de solidariedade ao povo palestino. Defender os direitos da comunidade palestina ao seu próprio estado, independente, soberano, com suas próprias leis, governo, fronteiras seguras e outras prerrogativas de um estado nacional não significa ser contra os judeus, e sim contra a intransigência de um regime fascista e colonialista instalado em Tel Aviv, que impõe aos palestinos a mais brutal política de segregação racial dos tempos atuais, só comparável ao apartheid da antiga Africa do Sul -- aliás, e não por acaso, um dos grandes aliados da entidade sionista. VIVA A LUTA DO POVO PALESTINO!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

POEMAS DE AUGUST STRAMM



  

















RECORDAÇÃO

mundos emudecem para fora de mim
mundos mundos
negror e palor e cor!
luz na luz!
arder flamejar chamejar
agitar flutuar viver
acercar-se caminhar
caminhar
todos os dorido-esvaídos desejos
todas as acre-escorridas lágrimas
todas as áspero-escarnecidas ânsias
todos os frios fogos sufocados
através da fervitorrente de meu sangue
através do incêndio de meus nervos
através do pensamento-labareda
tempestuam tempestuam
rompem rampam
rodoviam
a ti
a via
a via
a via
para mim!
a ti
a via
meclamorosa
a ti
a via
flamirrasgada
a ti
a via
impercorrida
nunca
encontrada
via
para
mim!


CASA DE PRAZER

Luzes meretrizam nas janelas
A doença
Roja-se à porta
E conclama gemidos de mulher!
Almas femininas enrubescem risadas agudas!
Colos de mães bocejam filhos mortos!
O não nascido
Fantasmabuleia
Volátil
Pelo espaço!
Medrosa
Num canto
Envergonrevolroída
Esconde-se
A espécie!


INCONSTÂNCIA

Meu buscar busca!
Mil vezes me transformo
Me apalpo
E tateio-te
E te apanho!
Anseio-me!
E a ti, a ti, tu
Mil vezes tu
E sempre tu
Multívia tu
Nosfusão
Confusão
Circunfusa
Cada vez mais difusa
Através da
Ambifusão
Tu
Te
Me!


LUAR

Lívidos langues
Lábeis flexíveis
Gatos odoram
Flores fremem
Águas lambem
Ventos soluçam
A luz desnuda seios agudos
O tacto geme em minha mão


Traduções: Haroldo de Campos

sábado, 2 de maio de 2015

BREVE REFLEXÃO SOBRE A SITUAÇÃO POLÍTICA


A situação política brasileira evolui de maneira rápida e imprevisível. Qualquer análise que se faça hoje é parcial e temporária, pela velocidade com que surgem novos fatos. Até há poucas semanas, o governo federal estava acuado pelas marchas organizadas pela extrema-direita nas principais capitais brasileiras e pela mais violenta campanha difamatória já organizada pelos empresários que controlam os meios de comunicação no Brasil, só comparável às conspirações midiáticas contra Getúlio Vargas e João Goulart.

A ofensiva conservadora, apoiada por partidos como o PSDB, PPS, DEM, pela maioria patronal no Congresso e até por setores reacionários do próprio aparelho do estado, em especial no Ministério Público, Judiciário e Polícia Federal, visa incriminar a presidenta Dilma Rousseff no caso da Operação Lava à Jato – ainda que sem nenhuma evidência material ou argumento jurídico para um impeachment, conforme parecer de Miguel Reale – e ainda mais: envolver o ex-presidente Lula, provável candidato às eleições presidenciais em 2018, cassar o registro do PT e colocar na ilegalidade os pequenos partidos de esquerda, como o PSOL e o PCdoB, por meio da manobra para a aprovação do voto distrital.

Ou seja: o objetivo é esmagar a representação política dos trabalhadores, quem sabe até atingindo as centrais sindicais, sobretudo a CUT e CTB, e movimentos sociais como o MST.

Estimulada por sua excessiva autoconfiança e explorando a fragilidade defensiva do governo federal, a burguesia brasileira jogou uma cartada de alto risco: o projeto de terceirização do trabalho, apresentado por Eduardo Cunha (PMDB) na Câmara Federal, que na prática revoga os direitos trabalhistas garantidos pela CLT, precarizando as relações de trabalho, o movimento sindical e instituindo uma nova organização social de natureza neoliberal, muito mais violenta do que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental.

Outros projetos apresentados no Congresso, como o da redução da maioridade penal – que significa, caso seja aprovado, a criminalização dos adolescentes pobres e negros da periferia –, o da revogação do programa Mais Médicos, que beneficia mais de 60 milhões de brasileiros nas regiões mais pobres do país e o da mudança do regime de partilha para a exploração do pré-sal para o regime de concessão, que favorece o capital internacional, são igualmente nefastas. Alimentada pela campanha difamatória da mídia golpista, a direita começa a defender, sem nenhum pudor, a privatização da Petrobrás e dos serviços públicos.

Em resposta à ofensiva reacionária, os movimentos sociais realizaram protestos em todo o país, que apenas em São Paulo levaram 40 mil pessoas às ruas, obrigando Eduardo Cunha a adiar a votação na Câmara. Após a aprovação do projeto, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), reuniu-se com as centrais sindicais e declarou que, do modo como o projeto foi formulado, não seria aprovado no Senado. A presidenta Dilma Rousseff, em discurso veiculado nas redes sociais no dia Primeiro de Maio, declarou-se favorável à regulamentação das relações de trabalho dos 12 milhões de terceirizados que já existem no país, mas contrária à terceirização das atividades-fim, que colocam em risco todas as conquistas sociais das últimas décadas.

As centrais sindicais, por sua vez – em especial a CUT, CTB, Intersindical e Conlutas – declararam sua firme oposição ao projeto e a disposição de promoverem uma greve geral no país por tempo indeterminado, em caso de aprovação. A proposta de terceirização amedrontou mesmo setores de classe média que antes estavam engajados na campanha pelo impeachment de Dilma, e uma consequência desse temor foi o fracasso da marcha fascista realizada em abril, que reuniu apenas ¼ do total de manifestantes do mês de março, sendo inexpressiva em quase todas as capitais brasileiras, com exceção de São Paulo, Brasília, Curitiba e Porto Alegre.  O próprio PSDB resolveu adiar a apresentação da moção de impeachment no Congresso, não obtendo parecer jurídico e apoio popular suficiente para desfechar o golpe de estado civil.

Ao mesmo tempo, as greves se multiplicam no país, inclusive em estados governados por tucanos, como é o caso da greve dos professores, que acontece em São Paulo, Paraná, Pará e também em outros estados brasileiros. No Paraná, onde 60 mil professores já foram às ruas contra a política antipopular do governador Beto Richa, houve violenta repressão policial, com a utilização de helicópteros que jogaram bombas de gás lacrimogênio contra os manifestantes, além das balas de borracha, spray de pimenta e até cães pitt bulls. O saldo da violência foi o de centenas de feridos (213 segundo a mídia, 500 segundo o sindicato dos professores) e intensa comoção nacional, graças às redes sociais, que divulgaram fotos e vídeos ocultados pelos meios de comunicação.

A forte repressão, porém, não desmotivou os professores paranaenses, que permanecem em greve, e ainda incentivou um movimento pelo impeachment do governador do PSDB, que já ouve críticas até mesmo de parlamentares do PMDB na Assembléia Legislativa, onde a maioria da situação não é tranquila e pode mudar, de acordo com a evolução dos acontecimentos. Em São Paulo, outro estado governado pelo PSDB, os professores estão em greve há mais de 50 dias, enfrentando a postura de Geraldo Alckmin de não dialogar ou negociar com o movimento. A paralisação pode se estender por meses, levando ao desgaste político do governador, que já enfrenta críticas pela crise hídrica, no estado que é a principal base de apoio da extrema-direita golpista. Em Minas Gerais, onde o candidato tucano foi derrotado pelo PT nas eleições estaduais de 2014, o PSDB sofre novo revés, com a revelação dos escândalos de corrupção que aconteceram nas gestões tucanas, inclusive – ou sobretudo – a de Aécio Neves.

É impossível prever os desdobramentos da crise política, mas com certeza a direita já não tem hoje o mesmo fôlego que tinha há poucas semanas e o avanço das lutas dos trabalhadores pode não apenas impedir a ofensiva golpista, como também infligir sérias derrotas aos tucanos nos poucos estados onde ainda têm influência junto à opinião pública. Cabe aos partidos de esquerda – PT e PCdoB, sobretudo – , junto a parlamentares progressistas de outras legendas, como o PDT o PSOL e mesmo do PMDB, às centrais sindicais, movimentos de mulheres, negros, juventude, LGTB, trabalhadores sem teto e sem terras organizarem uma ampla frente em defesa da democracia, dos direitos sociais e da Petrobrás, para garantirmos novos avanços e conquistas.


Claudio Daniel

quinta-feira, 30 de abril de 2015

POEMA DE CADERNOS BESTIAIS (volume II, inédito)




  


HINO À POLÍCIA

Toca o terror —
cabeças de arimãs

reverberam féretros
assanha-se histérica

turba de behemoths
damballas beherits

capacetes visores
escudos tonfas

vidro moído ferro
esturricado pneus

incendiados entre
balas de borracha

rasgando rasgando
vielas entrevértebras

fantoches toscos
fantoches-ferrabrás

com fuzis automáticos
de mira telescópica

escarnecidos espectros
em carros blindados

para a contra-insurgência
nas avenidas furiosas

de meu próprio país.

POEMA DE CADERNOS BESTIAIS (volume I)



 

















ANTIMÍDIA X

Quelle est ma langue?

Ionesco

GRUNHE repetindo-se repetindo-se rasura ou réplica de réptil fardos que são palavras farpas de um animal samsárico (repetindo-se repetindo-se) fanhos replicantes repousada em úmeros: caveira neanderthal cor de prata sobre fundo negro (ganchos guinchos repetindo-se) horror social belphagor iniquidade: todo um catálogo de demônios repetindo-se balam belial asmodeus astaroth bicos-de-papagaio encurvados lascas de madeira na boca repicadas repicantes sobre fundo negro letras rúnicas inscritas no crânio antiesfíngicas ruminando cólera astarté ruminando Deutschland über alles, / Über alles in der Weltbarão neoliberal bebe urina com os ratos na hora da gárgula na hora vermelha da gárgula na hora do maçarico quando garotos racistas de São Paulo ateiam fogo na mendiga refugos de rastilhos de rebotalhos neste açougue onde repartem carne humana Tíbias são dejetos olhos são dejetos orelhas são dejetos nesta terra de ninguém que a terra há de comer Caso esfiapasse essa pele caso esfiapasse se não fosse hidra se não fosse ira se não fosse asco se não fossem imponderáveis urros no arame da pobre diaba arpejo de pupila em seu desnudamento de planta em seu desnudamento de carne estirada em ganchos balam belial asmodeus astaroth todo um catálogo de demônios repetindo-se em guaches em guantes Tudo queimaela disse Lucidez nenhuma que os dissuadisse nesta terra de ninguém que a terra há de comer

2014

quarta-feira, 29 de abril de 2015

POEMA DE FIGURAS METÁLICAS




















PORQUE A HORA É VIOLENTA

Porque a hora é violenta e tudo esmaga, abrir cabeças
de serpente.
Há o verde sonoro
de metais;
há o roxo
da flor
cujo nome
ignoramos.
Dedos rugem
escura perplexidade;
arcos rebentam
bicos
de pássaro.
Sou anfíbio,
e calo
o que me apavora.
Onde viajar outros dias possíveis?
Como
extirpar
essa desolação?
Eis o inevitável
campo
de batalha;
eis a letra inverossímil, vermelho
decapita
amarelo.
Sinceramente,
confesso
meu pesar:
quando ponteiros corroem pulsos,
povoar
mandíbulas
para corvos.
A hora é violenta e o medo em escamas
arranha
a pele
da voz.
Explodir palavras-de-argila;
degolar
leões
de pedra
(ignotos);
mutilar
a escura epiderme,
em chuva
azul-
de-agonia.
Tudo
por um
nada
soando crânios e trompetes,
cortando (súbito)
o branco-
cinza
da manhã.
Sri Baghavan uvaca:
Yam hi na
vyathayanty ete
purusam
purusarsabha
sama-duhkha-sukham dhiram
so ‘mrtavaya
kalpate.


2002

POEMA DE A SOMBRA DO LEOPARDO

 












POROS

Um silêncio verde
— Paul Celan


O
verde,
sua pele
ácida. Tocar
os poros
do verde, florir
metálico. Ouvir
sua voz de asa
e sombra.
Olhos, faisões
de cegueira.
Jóias de irada
divindade.
Abelhas e lagostas
amam-se, odeiam-se,
tulipas caem
na goela
do tempo.
Tuas mãos tateiam
a nervura imprecisa
da cicatriz
e não há mar,
nem pão, nem página.
Alucino-te
ao mirar-me
no silêncio
de uma laranja
quadrada.
Aqui, nada mais viceja.
Lacraias afogam-me
em tua lágrima
e se fecha a porta
esquerda. Toda palavra
me fere com sua cor.
Quando cessa
o canto, calados,
ouvimo-nos
em um corte
azul.
1999